Uma crítica ao anarquismo cristão pregado por Liev Tolstói

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Introdução

Quando se fala de Anarquia e Cristianismo, logo se identifica duas doutrinas antagônicas. A primeira é uma doutrina política, libertária e materialista. A segunda, metafísica e proposicional. Porém, ambas se encontram no pensamento de Liev Tolstói, que as sintetizou ao interpretar o Evangelho de uma forma moralmente radical, livre do caráter sobrenatural das Escrituras, desenvolvendo argumentos muito próximos à ideologia anárquica de Bakunin, de Proudhon e de Thoreau. Essa simbiose pode ser explicada através de um conceito presente na sociologia: a Afinidade Eletiva.

Entende-se por “Afinidade Eletiva” um movimento de convergência capaz de se chegar a uma fusão entre duas configurações sociais ou culturais. O termo aqui não é sinônimo de influência ou correlação, mas sim um conceito que nos permite explicar processos de interação irredutíveis à causalidade direta. A expressão é oriunda de alquimistas medievais, mas é Max Webber que a emprega numa perspectiva sociológica para analisar a relação entre a religião e o ethos econômico. O termo já mencionado ganha fundamentação na clássica obra: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em 1989, o cientista social Michel Löwi lança no Brasil o livro: Redenção e Utopia: O Judaísmo Libertário na Europa Central, que analisa, utilizando-se da “Afinidade Eletiva”, para entender a ligação entre o messianismo e as ideias libertárias de um grupo de intelectuais judeus que surge – na Europa Central – no fim do século XIX. Este é o conceito comum empregado por aqueles que estudam o anarquismo tolstoiano. Ao se converter (à sua maneira), o escritor russo sequer imaginaria que a sua experiência espiritualista o conduzisse ao legítimo anarquismo. Isso só acontece quando a “Não Resistência” passa a ser rigidamente observada por ele. Neste artigo será apresentado o pensamento de Tolstói, principalmente o contido no livro O Reino de Deus Está em Vós. Ao final, serão feitos alguns apontamentos críticos. Mas, antes, é preciso situar o leitor sobre o que é anarquismo conforme os seus principais expoentes. 

O anarquismo e seus expoentes teóricos

Anarquia é a ausência de senhor, de soberano, tal é a forma de governo que nos aproximamos todos os dias e que o hábito inveterado de tornar o homem por regra e sua vontade por lei nos faz olhar como o cúmulo da desordem e a expressão do caos (PRODHON, 2007).

George Woodcock definiu o Anarquismo como sendo um “movimento de filosofia social” [1] que tem por objetivo final a transformação da sociedade. Embora existam várias correntes, todas elas “desembocariam no mesmo rio”, pois é comum a todas substituir o Estado autoritário por alguma forma de cooperação mútua entre homens livres, ou seja, uma autogestão que não precisasse mais da tutela estatal, utilizando-se do poder coercitivo para determinar aquilo que está dentro ou fora da legalidade.


O Estado é o mal que precisa ser aniquilado, para que enfim a humanidade seja livre e estabeleça uma relação de igualdade ainda não experimentada, uma vez que o Governo está a serviço de uma classe dominante que, para assegurar sua dominação, necessariamente promove uma distribuição desigual de renda e oportunidade. Esse Estado além de deter o monopólio da força – com seus exércitos, guardas pretorianas e departamentos de polícia – também conta com aparelhos ideológicos que manipulam a população e induzem o povo a viver resignado em meio a tanta miséria. Dentre esses aparelhos, a Religião, de forma institucionalizada, é um dos alvos principais dos que se professam anarquistas. É tanto que um dos lemas mais populares do movimento dizia: “Nem Deus, nem Senhor”. 

O anarquismo, em seu bojo, é antiteísta. Bakunin, o russo que ambicionava “destruir para criar”, tornou-se um dos mais atuantes do movimento libertário, chegando a participar da I Internacional, divergindo de Marx e ameaçando a sua hegemonia até ser expulso em 1872. Cria então a Internacional “Antiautoritária” e rompe os vínculos com o marxismo. O pensamento bakuniniano foi bastante assimilado pelos anarquistas, sendo mais influente do que o próprio Proudhon, considerado por muitos o pai do Anarquismo. Segundo ele, o desenvolvimento humano é composto por três elementos: 1- a animalidade, 2- o pensamento e 3- a revolta. O primeiro corresponde à economia individual e social, o segundo, à ciência e o último, à liberdade.

Contrariando os idealistas, afirma ser o homem produto da “vil matéria” e não um ser criado por um ente ou inteligência superior. No entanto, essa matéria é extremamente dinâmica e produtiva. Está sempre em movimento e, no caso dos homens, os direcionam para libertá-los da sua condição primitiva: através da razão, estes se tornam conhecedores de sua própria existência, emancipando-se. Tal o percurso da evolução. Eis a origem de seu antiteísmo. A partir do momento em que os teólogos atribuem toda a vileza aos homens e tudo o que for de belo, justo e puro como sendo atributos de Deus, o homem torna-se escravo da divindade e isso é um entrave ao seu próprio desenvolvimento que tem por finalidade a libertação. A ideia de Deus faz com que o homem abandone a razão e, sem ela, ele nunca atingirá a liberdade. Por isso Bakunin (2011) propõe a abolição da divindade: “inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Um texto escrito em 1871, onde é evidente todo o seu entusiasmo, Bakunun afirma:

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencidos de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas (BAKUNIN, 2011, p.58).

Foi Proudhon quem primeiro reclamou para si o status de anarquista. E fez através de uma prosa vigorosa, simulando um diálogo repleto de questionamentos sobre seu posicionamento político, desembocando na seguinte afirmação: “(...) vós acabais de ouvir a minha profissão de fé, séria e maduramente refletida; ainda que muito amigo da ordem, eu sou, com toda a força do termo, anarquista. Escutai-me”.[2]  Proudhon é um opositor de toda a forma de autoridade, denunciando os seus malefícios, seja esta oriunda da religião, do governo, do sistema econômico ou até mesmo do socialismo.


Proudhon descarrega toda sua raiva ao redigir Contradições Econômicas, acentuando o discurso antirreligioso. Devido às condições miseráveis da humanidade, questiona o conceito de uma deidade benevolente e conclui que se Deus existe, de fato, então ele é mau. Para triunfar sobre a tirania, faz-se necessário opor-se a Deus. Note-se que ele não nega a existência do Divino, apenas se opõe a ela. Nesse ponto, assemelha-se aos anarquistas que o sucederam, dentre eles o próprio Bakunin. Criticava o dogmatismo com ênfase, por isso mesmo não adotava o extremo de se declarar ateu. Proudhon enxergava Deus e o homem como duas forças antagônicas, realidades incompletas, que se opõem. Para o bem da humanidade, essa divindade dominadora precisava ser rejeitada.

Tolstói e a nova doutrina

Leon Tolstói dedicou três anos de sua longa vida – morreu aos 92 anos – ao escrever O Reino de Deus está em Vós. A obra gerou imensa polêmica e dividia os leitores entre os que aplaudiam e concordavam e os que rechaçavam o seu conteúdo. Seu livro foi tirado de circulação na Rússia czarista dos Romanov e a Igreja Ortodoxa determinou a sua excomunhão. Qual o conteúdo da obra afinal? O subtítulo do ensaio começa por nos elucidar: O Cristianismo apresentado não como uma doutrina mística, mas como uma moral nova. 

Segundo ele, o verdadeiro Cristianismo estava longe de ser compreendido tal como é, e o motivo disso é a deturpação das palavras de Jesus Cristo e a ação do clero que não focava no ensino do Mestre, ao invés disso, elaborava catecismos, liturgias e sacramentos que apenas serviam para tornar as pessoas cada vez mais supersticiosas e manipuláveis. A sua tese central dá-se a partir do preceito encontrado no Sermão do Monte: “Não resistais ao mal” (Mateus 5:39). O sentido defendido por ele é de que a “Não Resistência” é a não utilização da violência. Sob nenhum aspecto Tolstói considera legítimo o uso da força. Aquela máxima jurídica de repudiar a violência usando a própria violência é totalmente anticristã. Por isso não gostava de ser chamado anarquista, por não compactuar com os métodos terroristas ligados ao movimento. Denominava-se apenas cristão.

Rejeitando o Estado e a propriedade, defende a abolição de ambas para que a humanidade venha gozar do Reino de Deus na Terra. Não existe o Paraíso ensinado pelos sacerdotes, tampouco a salvação vicária resultado do derramamento de sangue na cruz. Jesus Cristo não é divindade, é homem. É o professor que disseminou a Lei do Amor como sendo inerente do espírito humano. Essa Lei é a única que deve reger as relações sociais. É universal e atemporal, gradativamente pode ser vivenciada por todos os homens. E por que ainda não foi assimilada? Porque vem sendo ensinada por uma minoria de pessoas, ao passo que o “pseudocristianismo” ganhou vários adeptos que inculcaram através da tradição de séculos esse ensinamento deturpado no qual acreditam ser a Palavra de Deus transmitida por seus representantes. 

Destacando-se pela sua singularidade, até então, em conciliar o Evangelho com a anarquia, Tolstói, sem abolir e nem tampouco se opor a Deus, teve seu pensamento inserido na pesquisa pioneira de Paul Eltzbacher[3] sobre as várias correntes anárquicas, realizada em 1900. É no lançamento de O Reino Deus está em Vós, que enfim demonstra a sua fé na Anarquia. Esta é a obra central e de transição entre um anarquista latente e um anarquista convicto, embora recusasse ser chamado assim.

Para entendermos a ligação entre o Evangelho e a Anarquia em Tolstói, é necessário tomar ciência de que o deísmo é a sua crença, e que, como deísta, ele concebe a ideia de uma divindade impessoal. Deus é uma força mística, criadora do Universo e a humanidade é autônoma em suas decisões. Essa impessoalidade faz com que o mesmo não tenha um nome. Logo, Iavé, Alá, Shiva e outras nomenclaturas, estão todas se referindo ao mesmo ser. Tolstói, além dos Evangelhos, mergulhou em outras crenças, tal como o hinduísmo para sistematizar aquilo que viria chamar de “Doutrina da Não Resistência ao Mal”.

A tolerância religiosa, num sentido lato, a busca pela unidade entre os credos (também conhecido por ecumenismo) é uma característica do deísta. Nessa perspectiva, toda religião cultua o mesmo deus, mesmo que a terminologia seja distinta. No fundo, os valores religiosos são idênticos. O próprio Tolstói fala isso, num artigo intitulado O que é religião e em que consiste sua essência?:

(...) Esses valores são: que existe um Deus e é o princípio de tudo; que no ser humano há uma partícula desse princípio divino, que ele pode enfraquecer ou fortalecer de acordo com o modo em que conduz a própria vida; que, para fortalecer esse princípio, o ser humano deve conter suas paixões e cultivar dentro de si o amor; que o meio prático de alcançar isso é fazer aos outros aquilo que queremos que façam a nós. Todos esses valores são comuns ao bramanismo, ao judaísmo, ao confucionismo, ao taoismo, ao budismo, ao cristianismo e ao judaísmo (.TOLSTÓI, 2011, p.203).

Devido a essa concepção, o cristianismo adotado por Tolstói não promove Jesus Cristo a divindade. Mais absurdo ainda o conceito da trindade. Deus é um ser superior, Jesus, apenas um homem que deve ser visto como exemplo ético. Suas palavras e ações, deixando os milagres de fora, devem ser seguidas a risca, pois a perfeição é alcançada à medida que negamos nossas paixões em detrimento do bem coletivo. O amor ao próximo é o fim supremo e principal do homem. O próprio Cristo teria dito que todo aquele que ama, cumpriu a Lei e os profetas. Tolstói empenha-se em traduzir os quatro Evangelhos a seu modo, retirando dele toda a metafísica. Durante anos esmera-se nesse trabalho e é a partir dele que a “Não Resistência” surge como o principal conceito do pensamento tolstoiano:

Eu compreendi, não por meio de fantasias exegéticas ou de combinações textuais profundas e engenhosas; compreendi tudo porque joguei fora de minha mente todos os comentários. Esta foi a passagem que me deu a chave do todo. ‘Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao mal.’ (Mateus 5:38,39). (TOLSTÓI, 2011, p.28).

O conceito da “Não Resistência”, ou como chamam os adeptos do movimento Humanista: “Não Violência Ativa” é o cerne do anarquismo tolstoiano. É a ideia central de O Reino de Deus está em Vós, livro que o próprio Tolstói considera o mais importante de todos que escreveu. O princípio já havia sido abordado em Uma Confissão, mas é com “O Reino” que o Apóstolo da Não Violência (assim Gandhi o classificou) sistematiza a doutrina que lhe abriu os olhos, tornando-o um cristão convicto de que a moral incutida no Sermão do Monte era a chave para libertação dos indivíduos.


Logo no primeiro capítulo de “O Reino” lemos que a doutrina da Não Resistência foi ensinada por outros homens e grupos cristãos, que embora sendo minoria, contribuíram para elucidar o verdadeiro significado do evangelho: o amor. Através do exemplo de concórdia e paz entre os seguidores de Jesus, a doutrina evangélica penetrará na consciência dos homens. Não se pode impor a aceitação dessa doutrina, é a atitude humilde de resistir ao mal sem uso da força que levará a sua aceitação. O amor é o guia para levar a humanidade a atingir a perfeição:

O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do cristianismo (TOLSTÓI, 2011, p.10).

Se o amor fraterno é o mandamento necessário para o cumprimento da vontade de Deus e nisto consiste a salvação da alma humana, logo toda e qualquer ordem que leve o cristão ao descumprimento dessa doutrina, é um entrave ao aperfeiçoamento. Daí surge a resistente figura do Estado, pois Tolstói o vê como um obstáculo na observância desse mandamento. Colocando a “não violência” como base da doutrina cristã, Tolstói afirma que o cristianismo destrói qualquer governo, pelo simples fato deste ser uma violência:

O homem submisso ao poder não age como quer, mas como é obrigado; e é somente por meio da violência física, isto é, da prisão, da tortura, da mutilação ou da ameaça desses castigos que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder (TOLSTÓI, 2011, p.167).

Tolstói também aderiu a “desobediência civil” e declarou guerra ao Estado. A luta acontece quando as pessoas deixam de colaborar com a máquina, rebentando assim o sustentáculo do poder que, segundo ele, oprime e sufoca os homens. Para aniquilar o governo, basta aderir à desobediência. É o que diz claramente em Os Acontecimentos Atuais Na Rússia, texto escrito em Fevereiro de 1905:

Para livrar-se do governo não é necessário lutar contra eles pelas formas exteriores (insignificantes até o ridículo diante dos meios de que dispõem os governos) é preciso unicamente não participar em nada, basta não sustentá-los e então cairão aniquilados. E para não participar em nada dos governos nem sustentá-los é preciso estar livre da fragilidade que arrasta os homens aos laços do governo que lhes fazem seus escravos ou seus cúmplices (TOLSTÓI, 2011, p.23).

Como os demais anarquistas, Tolstói não nos oferece uma visão nítida de como seria a sociedade sem a tutela de um governo, apenas denuncia o que considera ser um grande mal que este comete no presente. O embrutecimento, a pobreza, a opressão, a injustiça e a negação da consciência são produtos do que chama “Estado-Violência”. Ele precisa acabar, e só terá um fim quando o Cristianismo for compreendido e aceito pela grande maioria dos homens. Mas não é o misticismo pregado pela Igreja, mas a moral resumida no Sermão do Monte, que condena todo e qualquer tipo de violência, instruindo as pessoas a não pagarem o mal com o mal.


O anarquismo cristão tolstoiano foi e continua sendo singular. Embora existam outros nomes nesse segmento, como por exemplo, Jacques Ellul, ninguém foi tão sistemático como Tolstói. A influência do pensamento tolstoiano levou diversos homens a fundarem colônias baseadas numa economia comunitária e com estilo de vida ascético. Não há muitas informações acerca delas. O que sabemos é que fracassaram em um curto espaço de tempo.

Os problemas do pensamento Tolstoiano

A doutrina proposta por Tolstói tem alguns problemas. Um deles é a crença no caráter inerentemente bom do ser humano. Isso contraria o relato da Queda em Gênesis 3 e a doutrina da Depravação Total. O ensino de que o homem já nasce pecador e depravado está presente em textos como o Salmos 51:5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”. Agostinho, mergulhando na teologia paulina, sobretudo na Epístola aos Romanos, desenvolve a depravação como sendo uma doutrina indispensável ao cristianismo. Combatendo a neutralidade pelagiana, ele afirma que o homem perdeu o livre-arbítrio quando o pecado entrou no mundo por meio de Adão. Após a catástrofe do Éden, a humanidade herda o pecado natural, que escraviza o homem em seu desejo de querer pecar mais e mais. Sendo assim, o pecado priva o homem de escolher aquilo que é inerentemente bom (privatio boni), o que não significa, entretanto, que o homem perdeu toda sua capacidade de fazer escolhas. Em diversas ocasiões o pecador escolhe entre diversas alternativas. A única incapacidade do homem degenerado é escolher não mais pecar. O pecado é uma gangrena que aprisiona o ser humano. Foi ele o grande responsável pela morte, pois, para Agostinho, Adão era detentor da imortalidade, antes da queda. E isso foi transmitido a todos que se seguiram. Sobre essa transmissão da natureza pecaminosa, escreveu Berkhof [1992, p.122]:

Através do vínculo orgânico entre Adão e seus descendentes é que aquele transmite a eles a sua natureza caída, juntamente com a culpa e a corrupção que lhe segue o rastro. Agostinho concebe a unidade da raça humana não de modo federal, e sim, realista. Toda a raça humana estava germinalmente presente no primeiro homem, pelo que também ela realmente pecou em Adão.

Os reformadores seguiram Agostinho e as confissões de fé registram o mesmo ensinamento em seus artigos. Vejamos o que diz Segunda Confissão Helvética, 1566, artigo 8:

Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós - mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e de ódio a Deus - nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat 12,33 ss).

De igual modo subscreve Catecismo de Heidelberg, 1563, questão 7:

De onde vem, então, esta natureza corrompida do homem? Resposta: Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. (1) Gn 3; Rm 5:12,18,19. (2) Sl 51:5; Jo 3:6.

Logo, Tolstói se equivoca ao apregoar a possibilidade de ensinar a moral cristã a homens que possuem a natureza caída. Os homens só passarão a cumprir a vontade de Deus a partir de uma atuação sobrenatural. A remissão e a restauração do arbítrio são obras divinas, González [2002, p.213] comenta:

Quando somos redimidos, a Graça de Deus passa a atuar em nós, levando-nos do estado miserável em que nos encontramos para um estado novo, em que a nossa liberdade é restaurada, tanto para pecar como para não pecar. No céu, por fim, teremos somente liberdade para não pecar. Como no caso anterior, isto não quer dizer que não teremos liberdade alguma. Ao contrário, na vida celestial, continuaremos tendo diversas alternativas, mas nenhuma delas será pecado.

A questão é que não poderíamos esperar outra coisa de alguém que mutila o texto sagrado para retirar dele toda a metafísica. Quanto à doutrina anárquica, esta não pode ser sustentada pelo cristão que tem apreço pela Escritura. Esta legitima o poder governamental e o coloca como um instrumento que Deus utiliza para refrear a depravação humana (vide Romanos 13. 1-7). Precisamos do governo e, como cristãos, temos obrigações para com o Estado. Calvino nos lembra que “é da vontade de Deus que o mundo seja governado dessa maneira”, e diz mais: “desprezar a providência daquele que é o Autor do governo civil [iuris politici] é declarar guerra contra ele mesmo”.[4]


O Estado não pode se agigantar e atuar em áreas que não são de sua competência. Ele não tem a autoridade derradeira, mas serve a Deus, incumbiu aos governantes punir o mal e promover o bem. Contudo, abolir o poder estatal é algo que não podemos apregoar, pois, contradiz o ensinamento bíblico e nos coloca como rivais do Soberano, que instituiu os poderes terrenos. E se o Estado é autoridade que provém de Deus, logo, ele deve ser visto como uma dádiva para a sociedade e não como um empecilho ao seu desenvolvimento. Diante do que foi exposto, concluímos que o anarquismo tolstoiano deve ser rejeitado. 

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Referências bibliográficas:

BAKUNIN, Deus e o Estado, São Paulo: Hedra, 2011.
BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,1992.
GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Volumes 1. Edições Vida Nova, 2002.
LÖWY, Michel, Redenção e Utopia: O judaísmo libertário na Europa Central: um estudo de afinidade eletiva, São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M, 2008.
TOLSTÓI, Liev, Minha Religião. São Paulo. A girafa,2011.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬_____________, O Reino de Deus está em Vós, Rio de Janeiro: BestBolso,2011.
_____________, Os Últimos Dias. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2011.
THOREAU, Henry David, A Desobediência Civil. Porto Alegre: LP&M, 1997.
WOODCOCK, George, História das Idéias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.

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Notas:
[1] WOODCOCK, George. História das ideias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.
[2] PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M 2008, pág 26.
[3] Paul Eltzbacher, judeu alemão, Doutor em Direito e pesquisador do Anarquismo.
[4] CALVINO. João, Romanos. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, p. 460-461. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Teologia Brasileira
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Minha Família, Família de Deus

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Os tempos atuais trazem consigo as inovações da modernidade. É fato: o dia permanece sendo de vinte e quatro horas, mas no curso dos acontecimentos, valores de caráter espiritual, moral e social sofrem açoites de todos os lados. Assim como um algoz que surra um prisioneiro, os valores básicos do respeito familiar, da honestidade, do caráter, do temor a Deus tem sido surrados. O homem moderno, sem generalizações, negligencia valores que permitiram que a sociedade sobrevivesse apesar das intempéries do caminho. Não acredito que estamos melhorando, apesar das muitas transformações positivas na área da medicina, da educação, da política, da sociedade em geral. É digno de nota: cada novo tempo traz consigo seus próprios desafios, e somos todos frutos do nosso tempo! Não podemos negar esse fato. A maneira como nos vestimos, nos comportamos, nos relacionamos são reflexos das influências que se entrelaçam nesse cenário chamado: presente. O que é interessante em tudo isso é que não fomos, por Jesus, retirados do mundo. Pelo contrário, Ele nos enviou aos mais diversos rincões desse mundo (Mt 28.18-20), para que sob a supervisão do Espírito Santo fôssemos canais de transformações espirituais, morais e sociais. 

As mudanças mais significativas devem acontecer em primeira instância em mim mesmo, mais precisamente na maneira como me relaciono com Deus, comigo e com o meu próximo. Ao pensarmos dessa forma somos desafiados a diagnosticar não os problemas alheios, mas os que trazemos conosco. E se postularmos que a família é a base de sustentação de qualquer sociedade, descobriremos que os problemas manifestados na esfera social são reflexos do que acontece nessa esfera elementar. Logo, na tentativa de ordenar a desordem social devemos começar na base, alcançando a família, pois é daqui que irão sair os futuros profissionais que ocuparão os mais diversos cargos e posições dentro desse corpo político chamado: sociedade civil. A família que deve ser o alvo primário da minha atenção é a minha, sem fechar os olhos para a possibilidade de ajudar o próximo. As mudanças vão começar a surgir quando entendermos que precisamos fazer a nossa parte, a partir de uma transformação pessoal. As grandes mudanças foram precedidas por pequenas transformações. Não mudaremos o mundo, mas podemos contribuir para um mundo melhor, mais civilizado.

O ponto de destaque, ao trilhar os pressupostos bíblicos, é que minha família pertence ao Senhor. Minha família, família de Deus! De forma específica, o esteio central de uma família cristã que se mantém de pé apesar dos percalços da vida não é o dinheiro, não é o amor e o compromisso entre cônjuges, não são os filhos, muito menos o que outros pensam, mas Deus. Precisamos mais de Deus! Não esperemos que as pessoas a nossa volta sejam despertadas para Deus, para depois tomarmos uma iniciativa mais direta. Não! Busquemos alicerçar a família no temor ao Senhor, pois na realidade ninguém muda ninguém. Quantos exemplos de pessoas que receberam ótima educação, vindos de uma família respeitada, mas se extraviaram trilhando caminhos de vergonha. Somente Deus pode mudar verdadeiramente alguém. Ele nos conhece melhor do que nós mesmos. De modo que, o Salmo 37.5 surge como uma aplicação pertinente ao que vem sendo dito: “Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia n´Ele, e o mais Ele fará”. Faça isso com sua família. Noutras palavras, entregue sua vida e família nas mãos de Deus, confia n´Ele, e aguarde, pois o mais Ele fará. Deus está no controle de tudo!

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Autor: Rev. Marcelo Araújo
Fonte: Igreja Presbiteriana de Vila Nova (Goiânia/GO)
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Não levantarás falso testemunho

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A famosa pergunta “O que é a verdade?” feita por Pilatos refletia um ceticismo exausto em relação a própria ideia de verdade ao invés de ser uma investigação filosófica séria, como muitos propõem. Quão trágico é que um homem confiado a resolver questões de vida e morte pudesse expressar uma atitude tão cínica. E quão diferente deveria ser a atitude dos cristãos, afinal Jesus os descreve como aqueles que “são da verdade” (João 18:37).

O valor supremo da verdade é evidenciado pelo nono mandamento: “Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex. 20:16). O mandamento tem uma preocupação imediata com a verdade num contexto judicial. Deuteronômio 19:15-21 dá instruções sobre testemunhos num caso criminal. Uma testemunha apenas é insuficiente para estabelecer uma acusação, deve haver duas ou três (Deut. 17:6, Mat. 18:16, 2 Cor. 13:1, 1 Tim 5:19). Se há alguma dúvida em relação a integridade da testemunha, os juízes devem “investigar de forma diligente”, e se descobrem que ela é uma “falsa testemunha” (Em hebraico, eid-sheker, mesmo termo usado em Ex. 20:16), ela deve receber a mesma sentença que seria aplicada aquele que estava sendo acusado. Portanto, o perjúrio trazia consigo a possibilidade de pena de morte dentro da Lei Mosaica.

Uma das bases lógicas para a proibição do falto testemunho é que a justiça requer a verdade. Se esperamos que a justiça seja feita no Tribunal, todos os fatos relevantes ao caso devem ser feitos conhecidos, o que requer que todas as testemunhas falem “a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade”. Justiça significa que o acusado é devido a verdade, independentemente de ele ser inocente ou culpado. O oitavo e o nono mandamento estão intimamente conectados: levantar falso testemunho é uma forma de rouba, é reter de alguém algo que é seu por direito. Um princípio similar se aplica a difamação: manchar o nome de alguém inocente é como roubar algo precioso (Prov. 22:1; Ecl. 7:1).

É claro, o nono mandamento não está restringido aos tribunais. Como todo o resto das Escrituras deixa abundantemente claro, falar a verdade é um dever moral fundamental e a honestidade é uma virtude moral básica. Os justos são caracterizados pela veracidade (de fato, eles “amam a verdade” conforme Zac. 8:16,19), enquanto que os ímpios tem “lábios mentirosos” (Sl. 31:18, 120:2, Prov. 10:18, 12:22, Sl. 101:7, Prov. 12:17, Jer. 9:5, Ose. 4:1-2). Uma das maneiras pela qual amamos nosso próximo é falando a verdade (Ef. 4:15,25).

Porque falar a verdade é tão importante? Como sempre, na ética cristã, a resposta é fundamentalmente teológica. Deus é “o Deus da verdade” (Isa. 65:16). A veracidade é um atributo essencial de Deus e de Sua Palavra (Jo. 4:23-24, 14:17, 15:26, 16:13, 17:17; 2 Tim. 2:15; Tito 1:2; 1 Jo. 4:6, 5:6). Por outro lado, falar mentiras reflete o caráter de Satanás e aqueles que o seguem (Jo. 8:44; 1 Tim. 1:10; 1 Jo. 2:22; Apo. 21:8). Como fomos criados a imagem de Deus, designados a refletir sua semelhança, devemos falar a verdade da mesma forma que Deus o faz. O nono mandamento, não menos que o sexto mandamento, depende da doutrina imago Dei.

Apesar de a maioria dos Dez Mandamentos terem uma forma negativa (“Não…”), cada um deles tem uma aplicação tanto positiva quanto negativa. Guardar o nono mandamento não se trata simplesmente de uma questão de evitar declarações falsas. Como o Catecismo Menor de WestminsterPerguntas e Respostas 77 reconhece, o mandamento também requer que busquemos e promovamos ativamente a verdade em nossas relações com os outros.

Promover a verdade envolve muito mais do que apenas fazer afirmações verdadeiras, pois é possível induzir ao erro sem proferir uma única declaração falsa. Se eu fosse escrever um relatório sobre alguém, enfatizando suas falhas ao mesmo tempo que ignoro toda virtude e valor desse alguém, todas as afirmações do meu relatório seriam verdadeiras, mas tomando-o como um todo não seria algo que se encaixaria em “promover a verdade”. Promover a verdade significa dar uma representação justa e exata das coisas como elas são, mesmo quando isso vai contra os nossos próprios interesses. Da mesma forma, devemos falar a verdade com um grau adequado de precisão, não sendo vagos ou ambíguos, de tal forma que obscureceríamos a verdade por motivos de interesse próprio ou para evitar a responsabilidade de nossas palavras. Em suma, promover a verdade significa amar a verdade, não para o seu próprio bem, mas partindo de um amor sincero a Deus e ao próximo.

Em dias que a confiança em figuras públicas está cada vez mais baixa, em que os meios de comunicação não fazem diferença entre notícias e propagandas, e em que o pós-modernismo enterra o próprio conceito de verdade, é imperativo que os cristãos se separem da cultura que os envolve e que sejam distinguidos por sua honestidade, integridade e fidelidade. Devemos ser homens de palavra porque, precisamente, somos homens da Palavra de Deus.

“O que é a verdade?” é uma pergunta filosófica importante, apesar do cinismo de Pilatos. Mas uma pergunta ainda mais importante pode ser feita: “Quem é a verdade?”. O homem que permanecia diante de Pilatos já havia dado Sua resposta (Jo. 14:6). Se afirmamos conexão com Cristo, nossas relações com crentes e descrentes devem corroborar nossa confissão de fé. Só podemos testemunhar a Verdade de forma fiel se formos conhecidos por testemunhar a verdade.

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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A impossibilidade do conhecimento no ateísmo

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No decorrer dos séculos, várias visões de mundo alternativas à cristã tem surgido. Uma delas, que é a principal cosmovisão concorrente do cristianismo na atualidade, que é o naturalismo, tem sofrido grandes ataques dos filósofos cristãos.

Naturalismo, basicamente, é a visão de que a natureza é tudo o que existe. O universo é um sistema fechado de coisas, isto é, não existe nada além da natureza.

De acordo com eles, portanto, tudo pode ser explicado em última análise, em termos de entidades físicas em conjunto com as leis naturais que descrevem seu comportamento. Isso se aplica até mesmo a fenômenos mentais, que devem ser ou reduzidos a física ou eliminados. Consequentemente, não existem seres sobrenaturais ou não-naturais, como almas, fantasmas, anjos e o mais importante, Deus.

Naturalismo é assim aceito por grande parte dos filósofos e cientistas do Ocidente hoje. Os defensores do naturalismo são conhecidos por terem uma visão de mundo racional, no sentido de ser uma visão que exclui toda superstição religiosa.

Porém, eu vou argumentar aqui de modo que seja evidente que o naturalismo exclui a possibilidade de conhecimento por completo. Ironicamente, a cosmovisão antiteísta que mais é aceita como racional acaba sendo um dos piores inimigos da razão.

A minha reivindicação é que o conhecimento pressupõe a existência de Deus; portanto, uma vez que sabemos, pelo menos, algumas coisas, segue-se que Deus deve existir. Conhecimento, segundo a definição tradicional na filosofia, é crença verdadeira justificada.

A crença envolve o aspecto subjetivo. A verdade envolve o aspecto situacional, sendo verdade o que corresponde com a realidade. E a justificação envolve o aspecto normativo. Iremos esclarecer eles e demonstrar como o naturalismo não consegue preencher os requisitos necessários para se ter conhecimento.

O aspecto normativo do conhecimento é algo necessário para a justificação. Intuitivamente falando, uma crença DEVE ser formada ou mantida no caminho certo, a fim de ser justificada. Ela refere-se a como crenças DEVEM ser formadas, ao invés de COMO as crenças são formadas.

Não é uma noção descritiva, mas prescritiva. Isso implica que existem normas epistêmicas que determinam se a crença em algo é realmente conhecimento. Os conceitos normativos opõem-se aos descritivos no sentido em que, em vez de descreverem como as coisas são, dizem-nos como estas deveriam ser. Neste sentido, pode-se entender o conceito de justificação epistêmica em paralelo com os de bem e mal. Podemos dizer que a pessoa tem boas ou más razões para manter determinada crença.

O fato que existe tal coisa como a normatividade epistêmica coloca problemas sérios para o naturalismo metafísico. Em primeiro lugar, não há espaço dentro do naturalismo pra qualquer normatividade irredutível.

De acordo com o naturalismo metafísico, todos os fenômenos são, em última análise, explicável em termos científicos, mas a ciência é uma disciplina puramente descritiva. A ciência descreve, em vez de prescrever. Ela nos diz como as coisas são, como uma questão de fato empírico; não tem nada a nos dizer sobre como as coisas deveriam ser.

Alvin Plantinga escreveu: “O calcanhar de Aquiles do naturalismo é que ele não tem espaço para normatividade. Não há espaço para certo ou errado, bom ou ruim.” Assim podemos fazer o seguinte silogismo:

  1. A justificação, que é um pré-requisito para o conhecimento, é normativa;
  2. Não há normatividade num mundo naturalista;
  3. Logo, no naturalismo o conhecimento é impossível.

Vamos pensar no aspecto situacional, que nos leva a pensar na verdade de como o mundo é. O argumento que se segue, ao contrário do anterior que é uma redução ao absurdo do naturalismo, é transcendental no sentido filosófico.


Ou seja, busca as condições de possibilidade para a verdade ser tal coisa como a verdade. E o Todo-Condicionar que possibilita a verdade ser verdade é Deus. Pois a verdade existe. Sua negação acarreta numa auto-contradição, visto que para afirmar a inexistência da verdade, tem de alcançar alguma verdade.

A verdade também é imutável. Porque se ela mudasse, é possível que ela mude até que seja imutável. A verdade é eterna. Sua negação é uma auto-negação, visto que haveria a verdade eterna de que ela não é eterna. A verdade também é necessária.

Em termos de lógica modal, a verdade existe em todos os mundos possíveis. A verdade também é mental. Elas não são físicas por serem proposições. Você não vê a verdade andando por aí. A verdade é superior a mente humana, pois se os homens ou até mesmo o universo deixasse de existir, ainda haverá a verdade de que não há mentes humanas e nem o universo. Logo, a verdade existe na mente imutável, eterna e necessária de Deus.

Finalmente, iremos considerar a perspectiva existencial do conhecimento, que nos convida a refletir sobre o sujeito do conhecimento na formação das suas crenças. O naturalismo filosófico evolucionista é a crença que o mundo natural é tudo o que existe e humanos vieram a existir por um acidente através do trabalho cego da matéria.

Nós teríamos evoluído por acidente, de animais inferiores, passando traços e crenças que nos ajudariam a sobreviver. E isso inclui a química do cérebro e como ela funciona.

O cérebro evoluído do ser humano teria vindo apenas como uma forma de ajudar o organismo na sobrevivência. Então, se o naturalismo é verdadeiro, tudo o que o cérebro faz é para a sobrevivência, o que deve necessariamente incluir todas as crenças e pensamentos que ele tem.

O que iria ocasionar no fato de que todas as crenças que pensamos ser verdadeiras são apenas formadas no cérebro para nos ajudar a sobreviver. Mas consequentemente, isso inclui a crença no naturalismo. Então, se crermos que o naturalismo é verdadeiro, então também teremos de acreditar que, crer que o naturalismo é verdadeiro foi por causa do meu cérebro que decidiu que essa crença é benéfica para a sobrevivência, não porque seja verdadeira.

Plantinga apontou que o naturalismo filosófico cai em um ciclo auto-refutável: Se eu creio que o naturalismo seja verdadeiro > então eu devo acreditar que sou apenas um produto do naturalismo evolucionista > portanto, minhas crenças são programas em mim para me ajudar a sobreviver > incluindo minha crença de que o naturalismo seja verdadeiro.

De acordo com Charles Darwin, a probabilidade de nossas faculdades cognitivas serem confiáveis é muito baixa. Ele escreveu: “Em mim sempre nasce a horrível dúvida se as convicções da mente humana, a qual desenvolveu-se a partir da mente dos animais inferiores, têm qualquer valor ou são confiáveis. Confiaria alguém nas convicções da mente de um macaco, se houvesse alguma naquela mente?”

Logo, a crença no naturalismo refuta a si mesma. A verdade seria impossível de se obter. Se a razão não é baseada na razão, mas em processos físicos cegos, então a própria razão está perdida. Mas na cosmovisão cristã não enfrentamos esse problema. Pois não acreditamos que propriedades mentais da consciência e da razão não podem ser redutíveis a processo físicos. Crer que essas coisas são redutíveis, cria mais problemas do que alguns podem pensar ou imaginar, como vimos aqui.

É evidente como o ateísmo em sua forma mais pura acarreta na impossibilidade do conhecimento, seja para satisfazer a perspectiva normativa, situacional ou existencial, que corresponderia a justificação, factividade e a crença. Portanto, se sabemos algo; o naturalismo é falso e Deus existe. Pois “o temor do Senhor é o principio do conhecimento.” (Prov 1:7)

Quer saber em mais detalhes? Assista a aula deste vídeo:


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Autor: Gabriel Reis
Fonte: Gospel Prime
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O selo escatológico do Espírito: uma experiência posterior?

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Este artigo é uma exposição exegética e apologética de Efésios 1.13 que diz:

“... no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. 

Há três principais interpretações desse texto: 1. O selo do Espírito como sendo o batismo cristão; 2. O selo do Espírito como sendo uma experiência pós-conversão (após crer); 3. O selo do Espírito como algo feito simultaneamente com a conversão. 


Irei defender a terceira interpretação em oposição à segunda. A primeira interpretação não será refutada aqui, visto que não é muito defendida nem conhecida, carece totalmente de apoio contextual e já fora refutada várias vezes por defensores da segunda e terceira interpretação.

1. O selo do Espírito: significado e background

O conceito do selo é tanto antigo como comum. Na antiguidade, era costume selar gados, escravos, documentos e outras propriedades.[1] Na esfera religiosa, homens identificavam a si mesmos como propriedades de suas divindades imprimindo sobre si os seus selos.[2] No judaísmo, a circuncisão era chamada de “o selo de Abraão” ou o selo da “santa aliança”.[3] No Antigo Testamento, Deus selou seus escolhidos para distingui-los como Sua propriedade e para livrá-los da destruição (Ez. 9.4-6).

Portanto, selo pode significar possessão, autenticação e segurança. Como o contexto fala sobre o resgate da possessão de Deus (1.14), esse significado está em vista aqui. Entretanto, possessão implica autenticação e segurança e esses três elementos são verdadeiros em Ef, 1.13, uma vez que o Espírito marca os cristãos como posses de Deus, autentica que um cristão é verdadeiro (pois quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo: Rm. 8.9) e é o Espírito que assegura a salvação final de todo cristão.

2. A crença e o selo: questões gramaticais

Os defensores da interpretação que diz que o selo do Espírito é posterior à conversão apontam para uma questão gramatical. O texto diz: “ ...e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (καὶ πιστεύσαντες ἐσφραγίσθητε τῷ Πνεύματι τῆς ἐπαγγελίας τῷ Ἁγίῳ). O particípio aoristo “crido” antecede o verbo principal “fostes selados” (aoristo passivo). Essa antecedência pode ser tanto causal (o crer causa a selagem) ou temporal (o crer antecede temporalmente o selo). Entretanto, nesse contexto a relação dessas duas palavras é mais bem entendida como sendo coincidentes/simultâneos.[4] Como observado por S. E. Porter, há algumas exceções na regra que diz que o particípio aoristo antecedendo o verbo principal tem a tendência de expressar ação antecedente, e Efésios 1.13 é uma dessas exceções.[5] 

3. O selo do Espírito e o Espírito da promessa

O texto diz que os cristãos são “... selados com o Espírito Santo da promessa”. Provavelmente um semitismo para “O Espírito que fora prometido”. Alguns textos do AT que prometem o derramamento do Espírito são: Ezequiel 36.26-27; 37.14; Joel 2.28-30, etc. A marca distintiva desse derramamento escatológico do Espírito é que Ele seria derramado em todas as pessoas da comunidade da aliança (do povo de Deus). Semelhantemente, Gálatas 3.14 diz que os gentios recebem pela fé a promessa do Espírito, cumprindo as promessas feitas a Abraão. Portanto, quem não tem o Espírito prometido não faz parte do povo escatológico de Deus.

4. O selo do Espírito e a falácia da autoridade

Um conhecido e respeitado defensor de que o selo do Espírito é uma experiência posterior à fé é o Dr. Martin Lloyd Jones. Em sua exposição de Efésios 1.13, Lloyd Jones “consubstancia sua opinião” citando nomes de peso, como os puritanos Thomas Goodwin e John Owen, e de Charles Simeon e Charles Hodge. Entretanto, nas palavras de D. A. Carson, “o máximo de contribuição que isso pode dar a um argumento é o empréstimo da reputação geral da autoridade para apoiá-lo”.[6] Ainda que devamos aprender com todas as “autoridades” dos estudos bíblicos, nossa fonte de suprema autoridade é a própria Escritura.

5. A dimensão escatológica do selo do Espírito

Concluo meus argumentos apontando para a dimensão escatológica do Selo do Espírito. O próximo verso (Ef. 1.14) diz: “...o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória”. Semelhantemente em Ef. 4.30: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”, e em 2Co. 1.21: “...o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações”. O Espírito é o penhor, o pagamento antecipado da redenção final dos cristãos. Os paralelos com o livro apócrifo “Salmos de Salomão” (15.6-13) são instrutivos[7]: 1. Em ambas as passagens há dois tipos de pessoas, em Sl. Sal. 15 temos os justos e os pecadores (15.6-13) e em Efésios temos os crentes e os filhos da desobediência (Ef. 1.13; 2.2; 5.3). 2. Ambos os grupos são distinguidos por uma marca ou sinal. Em Sl. Sal. os justos são marcados por Deus com a marca da salvação e os pecadores são marcados com o sinal da destruição (Sl. Sal. 15.6-9), em Efésios os crentes são marcados com o Espírito (1.13; 4.30); 3. Os dois grupos terão destinos diferentes. Um grupo receberá salvação e o outro herdará a destruição (Sl. Sal. 15. 6-13, Ef. 1:13-14; 5:5-6, 6:9); 4. Eles encontrarão seus respectivos destinos em um dia particular. Em Sl. Sal. será o dia de misericórdia para os justos e o dia do julgamento para os pecadores (Sl. Sal. 15.12-13) e em Efésios será o dia da redenção para os cristãos e o dia da ira para os filhos da desobediência (Ef. 2.2-3; 5.6).[8] As imagens apocalípticas de Ef. 1.13 e 4.30 já são uma realidade. Isso é normalmente denominado de “escatologia inaugurada”. Os cristãos já foram resgatados, mas ainda aguardam o resgate final. Portanto, excluir alguns cristãos dessa realidade é excluí-los do esquema escatológico paulino do “já e ainda não”.

Conclusão

Nas palavras de Gordon Fee, crer e ser selado com o Espírito são dois lados do mesmo evento.[9] Para Paulo, O Espírito sempre é sine qua non para a existência cristã.[10] O selo do Espírito não é algo meramente empírico, onde um cristão experimenta alguma segurança, mas sim é algo ontológico e funcional, ou seja, Deus efetivamente sela os seus (Deus indicado pelo passivo divino de Ef. 1.13). Portanto a incoerência de dizer que o selo do Espírito é posterior ao crer (e a conversão) se dá nos seguintes pontos: 1. Se isso for realidade, então há cristãos genuínos que não são propriedades de Deus, nem são autênticos (contradição explícita) nem possuem segurança de sua salvação (conforme os significados de selo do ponto 1; 2. Como o Espírito é prometido à todo o povo de Deus, então é possível ser um cristão genuíno e não fazer parte do povo de Deus. Se o “Espírito da promessa” significar “O Espírito que nos promete” a futura redenção (como alguns exegetas apontam), então há cristãos que não possuem a promessa da vida eterna.

Nenhum desses dois pontos possui respaldo bíblico, pelo contrário, todo o NT aponta para direções opostas. Não devemos confundir os ministérios e as operações do Espírito. Ser selado é um ato instantâneo e irrevogável. Entretanto, o enchimento com o Espírito é algo que devemos sempre buscar. Paulo posteriormente em Efésios diz: Enchei-vos do Espírito! (Ef. 5.18). Mas ele nunca diz para buscarmos constantemente o selo do Espírito, pois essa selagem é um ato único de Deus somente no momento da conversão de todos os cristãos.

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Notas:
[1] Archie Wang Do HUI, The Concept of the Holy Spirit in Ephesians and its Relation to the Pneumatologies of Luke and Paul, pp. 181-187.
[2] Ibid.
[3] Betz, TDNT, 7.662.
[4] Peter O´Brien, Ephesians (PCNT) p. 118.
[5] S. E. Porter, verbal aspects, pp. 383-85.
[6] D. A. Carson, perigos da interpretação Bíblica, p. 115.
[7] Archie Wang Do HUI, pp. 181-187.
[8] C. Arnold, Ephesians, p. 113, 157.
[9] Gordon Fee, God´s Empowering Presence, pp. 669-670.
[10] Ibid.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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Bíblia, Estupro e Pena de Morte

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Há uma semana que os noticiários estampam o caso bárbaro de uma jovem, de 16 anos, que teria sido estuprada por mais de 30 elementos, que sordidamente filmaram e publicaram as imagens. Algumas pessoas descobriram – posteriormente – que a jovem em questão exibia nas redes sociais um comportamento vulgar e postagens onde fazia apologia à “vida louca”, com direito até a ser fotografada com armas. O primeiro delegado que cuidou do caso, ao interrogar a garota quis saber se a mesma trabalhava para o tráfico e chegou a negar que ela tenha sido estuprada. O mesmo foi afastado e a nova pessoa que está à frente do caso diz não haver nenhuma dúvida de que o estupro, de fato, ocorreu. Alguns destes homens tiveram sua prisão decretada, um deles seria “namorado” da jovem. 

Uma coisa precisa ser dita: nada no comportamento da jovem justifica o estupro. Absolutamente nada. Também não nos compete emitir opiniões precipitadas, como fazem alguns, alegando que o ato foi consentido. Isso quem vai apurar é a polícia, deixe que ela faça o seu trabalho de investigação. Como cristãos, devemos sentir tristeza por saber que o sexo é visto e praticado de uma maneira bestial por boa parte da sociedade. O movimento feminista pegou carona no caso para fazer panfletagem e lançou uma campanha nas redes sociais com os seguintes dizeres: “Eu luto contra a cultura do estupro”. O termo “cultura de estupro” é totalmente infeliz e não ajuda em nada as vítimas que já foram sexualmente violentadas. Em artigo publicado na revista Time (em 2014), sobre estupros nas universidades norte-americanas, a RAINN (Rape, Abuse & Incest National Network), principal organização que combate e luta na prevenção de estupros nos EUA, afirma que:

Nos anos recentes, tem havido uma tendência despropositada de culpar a "Cultura do Estupro" pelos extensos problemas de violência sexual nas universidades. Enquanto é útil apontar as barreiras sistêmicas para lidar com o problema, é importante não perder de vista um simples fato: o estupro não é causado por fatores culturais, mas pelas decisões conscientes de um pequeno percentual da comunidade de cometer um crime violento.[1]

Não existe cultura de estupro, não no sentido de que homens são estimulados a realizar ato tão espúrio. Até mesmo entre os criminosos o estupro é visto como algo condenável, e os estupradores ou ficam em celas separadas dos demais presos ou pagarão com a vida, sendo violentados e executados pelos próprios presidiários. O que existe é uma cultura que vulgariza o sexo e faz com que o corpo vire um objeto consumível e descartável. É inegável que a mulher sofre mais com esta “objetização”, mas não é a única. Dia desses, um “carinha fortão" tentou se promover postando uma foto usando um vestido curto, desafiando para ver se algum homem teria coragem de lhe estuprar por conta da roupa. Ele quis "surfar" na onda da campanha feminista que se alastrou nas redes sociais, mas daí várias MULHERES comentaram que ESTUPRARIAM ele. Ou seja: não é problema de machismo, mas sim uma questão que podemos chamar, endossando o termo da ortodoxia reformada, “depravação total”. Também podemos culpabilizar o feminismo por ver esse tipo de comportamento partindo das mulheres pós-modernas, pois, em seu discurso, o feminismo promoveu uma libertação sexual que serviu apenas para intensificar a objetização feminina e promover uma “cultura do sexo animalesco e irresponsável”.


Seguindo uma cosmovisão que esteja de acordo com a Escritura, umas das formas de se combater o estupro seria através da aplicação da pena capital, i.é., pena de morte.

Dizer isto é algo que choca muitos que professam ser cristãos, que acham incompatível o ensino do perdão e do amor com a execução penal. O choque é resultado de uma influência humanista (mesmo que inconsciente), além de ser uma confusão sobre o que pertence a esfera privada e o que seria cabível ao Estado. Segundo o apóstolo Paulo afirma, em Romanos 13, os governos são servos de Deus e portadores da espada para punir os malfeitores, não os deixando impunes. Obviamente que a espada aqui representa o poder coercitivo dos magistrados, que tem uma autoridade derivada do próprio Criador e Senhor para punir os criminosos. E nesta punição legal, a morte é o preço a ser pago em alguns casos.

Mais isso não fere o sexto mandamento que diz: “não matarás”? Muito pelo contrário, ele é um mecanismo para a preservação da vida, como diz um trecho do Catecismo de Heidelberg: “por isso as autoridades dispõem das armas para impedir homicídios” [2] .  Como dito anteriormente, é preciso distinguir o assassinato pessoal, por motivações escusas, o que proíbe o sexto mandamento, com uma atribuição governamental. O Catecismo Maior de Westminster (CMW) esclarece:

136. Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento?
Os pecados proibidos no sexto mandamento são: o tirar a nossa vida ou a de outrem, exceto no caso de justiça pública, guerra legítima, ou defesa necessária; a negligência ou retirada dos meios lícitos ou necessários para a preservação da vida; a ira pecaminosa, o ódio, a inveja, o desejo de vingança; todas as paixões excessivas e cuidados demasiados; o uso imoderado de comida, bebida, trabalho e recreios; as palavras provocadoras; a opressão, a contenda, os espancamentos, os ferimentos e tudo o que tende à destruição da vida de alguém. (ênfase acrescentada) 
Gn 9:6; Ex 1:14;20:9,10;21:18-36;22:2; Nm 35:16,31,33; Dt 20.1-20; Is 3:15; Pv 10:12;12:18;14:30;15:1;28:17; Mt 5:22;6:31,34;25:42,43; Lc 21:34; At 16:28; Rm 12:19; Gl 5:;15; Ef 4:31; Hb 11.32-34; I Pe 4:3,4; I Jo 3:15; Tg 2:5,16;4:1.

A única justificativa para o assassinato pessoal - conforme o CMW - seria em caso de legítima defesa, onde numa situação de extremo perigo um cristão mataria para se defender ou defender uma pessoa próxima. Nos casos de justiça pública e guerra legítima, as ações pessoais estão imbuídas da representação governamental, ou seja, não se referem a motivação pessoal.


Outra coisa importante que precisa ser dita a respeito da pena capital é que ela antecede a lei mosaica. Quando Deus ordenou que Noé recomeçasse a exercer o mandato cultural, que seria povoar a terra e exercer sobre ela domínio, deu-lhe a incumbência de executar homicidas (Gn 9.6). Deus fez isso por considerar a vida sagrada e não deixar impune aquele que a violar. É uma forma de inibição para que não se haja o intento de prejudicar o próximo, o que corrobora com a lei do amor, pois quem ama não intenta o mal contra o seu irmão. Os textos de Gn 9.6 e Rm 13.1-5 nos dão base para dizer que a pena capital é defensável em nossos dias[3] e que ela reflete o horror que a divindade possui diante do assassinato e da violência, coisas que em nossa atual conjuntura ficam impunes em muitos casos, pois, nossa legislação é frouxa. Até mesmo um serial killer pode voltar ao convívio social após passar algumas décadas encarcerado[4]. Sendo assim, há uma incoerência entre as nossas práticas jurídicas e a ordem divina.

Diante do que já foi exposto, segue mais uma dúvida: Mas a pena capital não seria restrita ao crime de homicídio? Leiamos Deuteronômio 22. 25-26: Se, contudo, um homem encontrar no campo uma jovem prometida em casamento e a forçar, somente o homem morrerá. Não façam nada, pois ela não cometeu pecado algum que mereça a morte. Este caso é semelhante ao daquele que ataca e mata o seu próximo, pois o homem encontrou a moça virgem no campo, e, ainda que a jovem prometida em casamento gritasse, ninguém poderia socorrê-la (ênfase acrescentada).

Vemos que para Deus a violência sexual é equivalente ao assassinato. O Catecismo de Heidelberg ao interpretar o sexto mandamento (na questão 105) diz que tal mandamento exige que “Eu não devo desonrar, odiar, ofender ou matar meu próximo”.  E na resposta a pergunta 136 do CMW, estão entre as proibições contidas no sexto mandamento “a opressão, a contenda, os espancamentos, os ferimentos e tudo o que tende à destruição da vida de alguém”. Quando pensamos no estupro ou temos a oportunidade de ouvir um depoimento de quem o sofreu, podemos identificar as palavras “desonra, ferimento e destruição da vida”. Mulheres que passam por tal trauma, muitas vezes, não conseguem mais ter uma vida normal, tendo sonhos e projeções destruídas por conta da violência que sofreram.

À guisa de conclusão, punir estupradores com a pena capital está de acordo com a cosmovisão cristã pautada nos preceitos escriturísticos. Acabará com os estupros? Não. Mas não se trata de acabar, a questão é punir. Nenhuma lei é capaz de acabar com a infração, todavia, esse não é motivo suficiente para que as leis deixem de penitenciar – com justiça – quem as infringe. Além do mais, toda lei possui um caráter didático, que visa refrear aquele que maquina executar o que é expressamente proibido por temer a represália. Assim sendo, lutar para que haja maior severidade na punição dos estupradores é uma maneira legítima e sensata de combater essa prática horrenda. Falar em “cultura de estupro” pode até dar visibilidade a uma pauta ideológica, mas é só. O termo cunhado em nada contribui - eficazmente - para minorar o crime, exercer a justiça e apoiar as vitimas. 

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Notas:
[1] O artigo foi postado por Rodolfo Amorim em seu perfil pessoal no Facebook, e pode ser lido na íntegra aqui: http://time.com/30545/its-time-to-end-rape-culture-hysteria/
[2] Parte da resposta dada a pergunta 105 e que usa os seguintes versículos para respaldar a resposta: Gn 9:6; Êx 21:14; Rm 13:4.
[3] O que não seria defensável é a aplicação da pena capital com base na legislação civil de Israel, que foi uma teocracia temporal. Exemplo: não poderíamos executar aqueles que violam o sábado. 
[4] Caso de Pedrinho, o matador e João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha, ambos soltos após cumprir 30 anos previstos na legislação penal. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Culto segundo as Escrituras

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Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” Romanos 12.1.

No primeiro verso do capítulo 12 da carta à igreja de Roma, o apóstolo Paulo nos mostra a forma do culto racional e diário, assim como Moisés escreve o segundo mandamento (Ex 20.4-6; Dt 4.15-19) como regulamento do mesmo. A Bíblia revela, do começo ao fim, como devemos adorar a Deus e a forma como foi constituída essa adoração. O culto segundo as Escrituras provém da Escritura, é a palavra escrita que determina o culto solene. Não parece ser tão óbvio assim, devido a real situação do culto na maioria das igrejas. É tanto urgente, como necessário, oferecer o conceito de culto para que o culto seja devidamente estabelecido. Culto poderia ser definido como: ajuntamento solene com o propósito de glorificar a Deus de forma reverente e com muito temor. O povo da aliança é convocado de forma santa a cultuar a Deus de acordo com Hebreus 12.28-29, lembrando assim que Deus é fogo consumidor:

Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor.

Tanto no Antigo como no Novo Testamento a estrutura do culto é abastecida de temor ao Senhor. Perceba que Hebreus 12 tem ecos do Salmo 50.3-4, como exemplo disso temos o que aconteceu no Monte Sinai. Deus exige um culto conforme Ele deseja e somente o aceita dessa forma. A exigência divina deve ser percebida, Ele exige um culto santo, pois é fogo consumidor. Nas palavras do Rev. Kenneth Wieske [1] sobre o caráter do culto solene: “Desde o Antigo Testamento já era necessário obedecer e atender à santa convocação do Senhor. Quando Deus convocava seu povo diante do Monte Sinai que fumegava, relampejava, trovejava e via-se a presença dos anjos (At 7.53; Hb 2.2; Dt 33.2), quem ousaria dizer 'não, não posso ir ao culto, pois tenho outros compromissos? Acho que papai e mamãe irão, mas eu tenho alguma coisa a comprar no shopping'. Que nada! Deus estava convocando seu povo e ai daquele que não obedecesse ao seu chamado! Se naquela época era impensável se desprezar a santa convocação, quanto mais hoje?”. Eis o que a CFW diz a respeito no capítulo XXI sobre o assunto do culto solene [2]:

“A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças; mas, a forma aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituída por Ele mesmo, e é tão limitada pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.

O culto segundo as Escrituras deverá ter características fundamentalmente bíblicas. Ele deve ser unicamente e devidamente bíblico, evangélico, pactual, histórico, alegre, litúrgico e reverente [3]. O culto bíblico que o Senhor instituiu tem implicações nos dez mandamentos. Encontramos esses princípios nos primeiros mandamentos, onde Deus estabelece quem deve ser adorado, como deve ser adorado e a reverência dessa adoração. No primeiro mandamento (Ex 20.3; Dt 5.7) há uma ordem, “não terás outros deuses diante de mim”, aqui aprendemos a quem unicamente devemos adorar. No segundo mandamento (Ex 20. 4-6; Dt 5. 8-10) observamos a maneira que Ele instituiu essa adoração e nos deixou avisados da forma que Ele mesmo abominaria se fizéssemos.

Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem aos meus mandamentos.” Êxodo 20. 4-6.

No terceiro e quarto mandamentos, de forma contínua é pressuposto o dia e a reverência dessa adoração (Ex 20.7-11; Dt 5.11-15). Nem as especulações humanas, nem muito menos a sinceridade de um coração é suficiente para celebrar o Deus Triuno no culto solene. A exemplo disso temos Caim (Gn 4.5), Nadabe e Abiú (Lv 10.1-2), Uzá (2 Sm 6.6-7) que tentaram da sua própria forma realizar um culto e/ou oferecer um serviço na presença de Deus.  

O culto deve ser bíblico pelo inequívoco fato de que Deus, em Sua palavra, já ter regulado os elementos do culto e seus princípios que são segundo a sua vontade (Dt 12.29-32). Deus revela em Sua sagrada palavra tudo o que precisamos para cultuá-lo com zelo pela sua glória e reverência pelo seu nome. Desejo sincero não significa culto aceitável, cumprimento bíblico sim. Oferecer um culto ao Senhor sem ser prescrito pela Sua palavra é uma profanação a sua pessoa. Um culto à si mesmo é condenado pela própria Escritura (Cl 2.23). Não há desculpa para se apartar da regra, a regra é clara. O que não é proferido não pode ser oferecido. Segundo Daniel Hyde, em poucas palavras [4]: “Em tempos de analfabetismo bíblico, precisamos de um culto cheio das Escrituras, com uma linguagem escriturística em cada aspecto, das leituras responsivas e cânticos, às orações e leituras bíblicas propriamente ditas.” Importa que estejamos aptos para compreender que o culto segundo as Escrituras precisa ser cheio das Escrituras. 

O culto deve ser evangélico, isto é, alicerçado nas boas novas de salvação em Cristo Jesus. O culto deve ser cristocêntrico, deve ter o evangelho ressoando do começo ao fim. O culto deve ser evangélico devido a obediência ativa e passiva de Cristo, Ele mudou tudo. Temos livre acesso a presença de Deus, o evangelho - Cristo nos garantiu esse caminho novo a presença do Criador (Ef 2.11-22; Hb 10.19-22). Temos um grande sacerdote sobre a casa de Deus, o autor aos Hebreus afirma com clareza que através do sangue de Cristo podemos confiantes nos aproximar humilhados além do véu. “Assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e os nossos corpos lavados com água pura.” Hebreus 10.22. Assim como Abel (Hb 11.4), podemos nos aproximar com plena convicção de fé e um coração sincero, um culto superior, pois é segundo as Escrituras. O culto é evangélico pois o evangelho é o reflexo daquilo que é pregado, orado e cantado. O povo do pacto é alimentado pelo evangelho e o Espírito Santo atrai os incrédulos para ouvir as boas novas de salvação. A grande questão é que nos nossos dias os cultos foram divididos por temas. E com isso há grandes prejuízos. Me parece que o que temos hoje são fatias de um bolo que não poderia ser ratificado. Culto de adoração, culto da consagração, culto evangelístico, culto de oração e/ou doutrina. Acredito que o culto deverá conter esses elementos, não há culto solene sem oração ou exposição da sã doutrina. Não poderá haver culto sem o evangelho ou sem consagração. Todo culto deverá conter elementos prescritos na palavra, como disse Timothy Keller [5], em resumo:

“se o culto de domingo visa em primeiro lugar o evangelismo, aborrecerá os santos. Se visa principalmente a instrução, confundirá os incrédulos. Mas se visa louvar o Deus que salva pela graça, isso vai instruir os de dentro e desafiar os de fora. A boa adoração corporativa será naturalmente evangelística”. 

Complemento dizendo que, todo esforço não será útil para somente abastecer os santos ou atrair os incrédulos, o culto deve ser bíblico e conter elementos que glorifiquem o Senhor, que é santo e soberano sobre todos os corações.


O culto deve ser pactual, significa não ser tradicional ou moderno. Essas formas culturais de culto não são apropriadas ao contexto teológico segundo as Escrituras. Manter a distância das formas contextualizadas de culto segundo as especulações humanas deve ser o dever do cristão. O culto deve ser pactual pelo fato de ser baseado na aliança de Deus com o seu povo. De acordo com a continuidade do Antigo e Novo Testamento, conforme prescrito na lei. O culto deve ser pactual porque possui um caráter legal e íntimo como um casamento, a comunidade dos eleitos com o Deus Triuno (Ef 5), uma verdadeira aliança. Muitos podem objetar dizendo que precisamos de um culto contemporâneo, com a intenção de atrair uma nova geração de crentes que vivem em uma outra forma cultural de adoração. Engano! Nosso culto deve ser guiado pelo padrão das Escrituras, não é a cultura que dita a forma da santa convocação nem os elementos oferecidos na adoração. Outros podem destoar do conceito de culto pactual, devido não ser uma linguagem acessível. No entanto, como disseram os reformadores devemos falar no vernáculo, ou seja, numa linguagem compreensível. A ordem da pactualidade do culto solene não despreza uma linguagem acessível, nem muito menos a suficiência do texto sagrado. A estrutura que predomina nas Escrituras é o pacto, a Bíblia é um documento pactual, deve ser necessário essa compreensão para não restar dúvidas sobre essa forma de culto. Há um diálogo entre Deus e o Seu povo no culto, vejamos essa citação: “Deus nos diz: 'Eu serei o seu Deus' e nós respondemos: 'Nós seremos o seu povo'. Deus nos chama à adoração e respondemos em cântico. Deus nos fala a sua Lei, nós lhe respondemos com a confissão dos nossos pecados. Ele nos absolve dos nossos pecados, nós respondemos em oração. Ele nos fala pela Palavra e nos sacramentos, nós respondemos com dádivas de gratidão e doxologia. Isto é o que realmente significa dizer que o nosso culto é pactual.” O culto é a renovação da promessa pactual que Deus fez em Cristo conosco, esse pacto da graça é renovado a cada semana na exposição da Palavra e nos Sacramentos. 

O culto deve ser histórico porque é necessário que seja coerente com a doutrina dos apóstolos, que tenha continuidade com a história da igreja e que realce a maneira que os nossos antigos cristãos cultuaram solenemente o Deus Triuno. Deve ser um culto histórico e unido a tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12.1). Quando nos reunimos no dia do Senhor, devemos ter em mente que estamos de forma coerente afirmando aquilo os antigos cristãos também afirmaram sobre a solenidade e simplicidade do culto. Seguindo o modelo básico da igreja primitiva sobre o culto, conforme testemunho dos pais da igreja, dos reformadores e seus escritos. Como afirma o Hyde [6], “em resumo, seguimos este modelo básico da Igreja primitiva de culto, no qual a Palavra é lida e pregada, os sacramentos são celebrados com ação de graças, orações de confissão, intercessão, graças são dadas, e as ofertas do povo de Deus coletadas para o ministério da misericórdia.

O culto deve ser alegre e reverente, e isso quer dizer cheio de temor ao Senhor. Não espontâneo e sem entendimento. Aqui, chegamos num ponto controverso. Quem disse que um culto recheado de risos, gritos e danças é um culto alegre? Quem disse que um culto silencioso, harmonioso, sem expressões extravagantes é um culto triste? A liquidez dos cultos perde completamente o sentido de alegria sólida e perseverante. Segundo os Salmos, o culto é extremamente alegre e reverente (Sl 100.1-3). Percebemos o salmista enfatizando extrema alegria e temor. A questão é que a falta de percepção de quem nós somos não permite-nos entender o que significa verdadeira alegria no culto ao Senhor. Não seria a hora de entender o que de fato é, e não é alegria? Alegria não quer dizer ter liberdade para fazer o que quiser, também não quer dizer oferecer ao Senhor o seu culto do seu jeito conforme seu bem parecer. Um culto alegre significa uma grande expectativa que Deus irá lançar sobre nós a Sua graça quando diante dEle estivermos reverentes com tremor e temor (Sl 2.11). O culto alegre é um deleite na bondade do Senhor e em resposta manifestamos nossa gratidão diante do seu favor. A alegria é a condição de um coração que foi profundamente convicto dos seus pecados diante de um Deus Santo que foi compassivo e misericordioso. A alegria de um culto é a qualidade de um coração que foi livre da condenação e aceito por um supremo e justo redentor. Alegria e agitação não são sinônimos, emoções desenfreadas e extravagantes na verdade só enfatizam falta de reverência e temor diante de Deus que é fogo consumidor. Nas palavras do Robert Godfrey [8], “Devemos lembrar que reverência nem sempre significa calma, e alegria nem sempre significa ruído. Alegria e reverência são, antes de tudo, atitudes do coração para as quais procuramos manifestações apropriadas no culto. A alegria pode ser intensa no canto de uma canção muito tranquila. A reverência pode ser manifesta no cantar alto.” Devemos a exemplo dos santos no AT e NT oferecer ao Senhor um culto alegre e reverente, grandes coisas fez o Senhor por nós e por isso estamos alegres (Sl 126.3).

O culto de ser litúrgico, organizado e estruturado. Isso não quer dizer mecânico ou seco, como se não houvesse vida. O culto deve ser compreensível e simples, seguido conforme o rito (Lv 9.16 cf. Lv 10.1; Dt 12.29-32), isso não quer dizer cheio de rituais antropocêntricos. Liturgia ou ordem de culto significa um serviço, Cristo e o Seu povo como num banquete santo, uma atividade pactual. Nos é devido adorar ao Pai em espírito e em verdade (João 4.24), todavia, existe uma estrutura para que essa adoração seja oferecida. A necessidade da liturgia não é transformar o culto em ritos idolátricos, a ausência da liturgia não quer dizer que o culto torna-se dirigido pelo Espírito Santo. É necessário cautela, precisamos ser fiéis ao padrão divino que está prescrito em Sua palavra. Uma estrutura litúrgica bíblica de culto não será enfadonha ou cansativa, será sim, de grande ensinamento e isso apontará a glória de Deus em Cristo. O centro da liturgia é a Palavra de Deus lida e proclamada, como também os Sacramentos administrados corretamente. A congregação entoa cânticos, faz orações e confissões, declara a confissão de fé e ajunta ofertas para os necessitados, finalizando com uma benção, desafiando os cristãos a seguirem firmes e com fé na proclamação do evangelho. Os elementos do culto, conforme prescritos nas Escrituras, precisam enfatizar e anunciar o Senhor Jesus Cristo e seu supremo e perfeito sacrifício. A igreja precisa compreender que a cultura não tem autoridade sobre o culto ao Senhor. O Culto conforme o Evangelho é contra e supra cultural. A adoração deve ser segundo as Escrituras, o sermão expositivo deve ser compreensível, os sacramentos devem ser administrados corretamente, as orações e ações de graça no culto precisam ser rendidas segundo a vontade soberana e a renovação pactual estabelecida. Combatemos o culto místico, louvores que exaltam o homem, uma liturgia idólatra, confissões positivas, apelos compulsivos, orações que obrigam Deus satisfazer desejos ególatras. Juntamente com as Escrituras precisamos priorizar o culto solene abastecido de sermões expositivos, liturgias confessionais, sacramentos biblicamente administrados e orações humilhadas. Nas palavras de Calvino temos uma ótima advertência [9]:

“Exortamos os homens a que não adorem a Deus de modo frígido e descuidado, e enquanto apontamos o modo, não podemos perder de vista o fim, nem omitir qualquer coisa que diga respeito àquilo que apontamos. Proclamamos a glória de Deus em termos muito mais elevados do que estávamos acostumados a proclamar antes, e com todo vigor trabalhamos para tornar as perfeições nas quais a glória de Deus brilha mais e mais conhecidas. Exaltamos tão eloquentemente quanto podemos seus benefícios a nós, ao tempo em que conclamamos outros a reverenciar sua majestade, render a devida homenagem à sua grandeza, sentir a devida gratidão por sua misericórdia, e nos unirmos em seu louvor.

Portanto, concluo que devemos rejeitar todo e qualquer culto a si próprio. O culto do ego, das habilidades, das conveniências. Rejeitemos com força a hipocrisia dos fariseus e a religiosidade dos líderes dos judeus. Rejeitemos toda influência cultural e que a cada semana seja a nossa doxologia oferecer ao Senhor um culto segundo as Escrituras.

Apliquem-se a fazer tudo o que eu ordeno a vocês; não acrescentem nem tirem coisa alguma.” Deuteronômio 12. 

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Notas:
[1] Prefácio do livro - Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[2] Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXI.1.  
[3] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[4] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[5] Timothy J. Keller, “Reformed Worship in the Global City,” in Worship by the Book, p. 219.
[6] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[7] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[8] W. Robert Godfrey, Pleasing God in Our Worship (Wheaton, IL: Crossway Books, 1999), p. 24.
[9] João Calvino, The Necessity of Reforming the Church (Audubon, NJ: Old Paths Publications, 1994), p. 25–26.

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Autora: Morgana Mendonça dos Santos 
Divulgação: Bereianos
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