Qual a Origem do Termo Reformado?

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Segunda retrasada foi o dia da Reforma Protestante. E com ele veio uma enxurrada de postagens sobre a importância da data. No entanto, muitas versavam sobre a questão de ser "reformado". Alguns diziam que é implicância e estupidez quando afirmam que o termo deve ser aplicado a um grupo específico, não a todos. Subjaz a este entendimento que todos os adeptos do movimento iniciado por Lutero são "reformados", afinal de contas, todos comemoram o dia da Reforma e creem em certas doutrinas.

Pois bem, transcrevo abaixo alguns testemunhos de historiadores sobre a questão do termo. Esclareço, de início, que, de modo algum, tenho a intenção de desmerecer quem quer que seja, ou de insinuar que A é melhor que B, ou que há alguns grupos não têm direito de comemorar a Reforma, ou ainda, que apenas presbiterianos são reformados. Longe disso! Meu objetivo é tão somente oferecer um esclarecimento a partir da historiografia protestante. Vamos começar com um presbiteriano, certamente o mais tendencioso na mente de muitos:

Pouco depois que o protestantismo começou na Alemanha, sob a liderança de Martinho Lutero, surgiu uma segunda manifestação do mesmo no Cantão de Zurique, na Suíça, sob a direção de outro ex-sacerdote, Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para distinguir-se da reforma alemã, esse novo movimento ficou conhecido como Segunda Reforma ou Reforma Suíça. O entendimento de que a reforma suíça foi mais profunda em sua ruptura com a igreja medieval e em seu retorno às Escrituras, fez com que recebesse o nome de MOVIMENTO REFORMADO e seus simpatizantes ficassem conhecidos simplesmente como 'reformados'. Inicialmente, o movimento reformado esteve mais ligado à pessoa de Zuínglio. Porém, com a morte prematura deste, o movimento veio a associar-se com seu maior teólogo e articulador, o francês João Calvino (1509-1564). A propósito, os 'protestantes', fossem eles luteranos ou reformados, só passaram a ter essa designação a partir da Dieta de Spira, em 1529. Portanto, o movimento reformado é o ramo do protestantismo que surgiu na Suíça, no século 16, tendo como líderes originais Ulrico Zuínglio, em Zurique, e João Calvino [...] Até hoje, as igrejas ligadas a essa tradição no continente europeu são conhecidas como Igrejas Reformadas (da Suíça, França, Holanda, Hungria, Romênia e outros países) (NASCIMENTO, Adão Carlos; MATOS, Alderi Souza de. O que Todo Presbiteriano Inteligente Deve Saber. Santa Bárbara d'Oeste, 2007. pp. 10-11).
O tipo de Protestantismo de Calvino era conhecido como "reformado". Diferia do sistema luterano no sentido de que a Igreja era uma instituição paralela ao Estado e não subordinada a ele. A Igreja era uma organização independente que mantinha sua vida própria e usava sua posição para corrigir o Estado quando necessário (CLOUSE, Robert G. et alli. Dois Reinos: A Igreja e a Cultura Interagindo ao Longo dos Séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 244).
Os milhões que aceitam a fé reformada e sua fundamentação doutrinária testemunham a importância do sistema teológico formulado por João Calvino (1509-1564), designado geralmente pelo termo 'calvinismo'. O termo 'fé reformada' APLICA-SE ao sistema de teologia desenvolvido a partir do sistema de Calvino (CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 251).

Um pouco antes, Cairns afirmou sobre Zwínglio: “Foram estas as ideias do homem que colocou os fundamentos da fé reformada na Suíça alemã. Embora Calvino tenha se tornado o herói da fé reformada, a igreja não pode esquecer o papel de Zwínglio, erudito, democrático e sincero, na libertação da Suíça das garras do papa” (p. 246).

O prestigiado estudioso Alister E. McGrath divide o protestantismo em três grandes ramos: Luterano (Reforma Luterana), Reformado (Reforma Calvinista) e Anabatista (Reforma Radical):

As origens da Reforma calvinista responsável pela constituição das Igrejas Reformadas (como a igreja presbiteriana), se encontram em acontecimentos ocorridos dentro da Confederação Suíça. Enquanto a Reforma luterana teve suas origens num contexto acadêmico, a IGREJA REFORMADA deve suas origens a uma série de tentativas de reformar a moral e o culto eclesiástico (mas não necessariamente sua doutrina) de acordo com um padrão mais bíblico. É preciso enfatizar que apesar de Calvino ter dado a esse estilo de Reforma a sua configuração definitiva, suas origens remontam a reformadores mais antigos como Zwínglio e Heinrich Bullinger, sediados em Zurique, a principal cidade da Suíça" (MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 180).

David G. Peters, um teólogo luterano, discutindo as controvérsias em torno da presença real de Cristo no sacramento da Ceia, afirmou que os luteranos "acusaram os reformados de separar as naturezas de Cristo do mesmo modo como Nestório havia feito" (PETERS, David G. The “Extra Calvinisticum” and Calvin’s Eucharistic Theology. p. 6. Disponível em: <http://www.wlsessays.net/bitstream/handle/123456789/3632/PetersCalvin.pdf>).

Na mesma página Peters afirma que "o debate eucarístico entre luteranos e reformados era simultaneamente um debate sobre cristologia" (p. 6).

Francis Pieper, dogmático luterano, faz referência aos calvinistas utilizando o termo reformado: "Cada palavra que os reformados falam contra a participação da natureza humana na divina onipresença, falam também contra sua doutrina da participação da natureza humana na Pessoa do Filho de Deus" (PIEPER, Francis. Christian Dogmatics. Vol. 2. Saint Louis, MS: Concordia Publishing House, 1951. p. 167).

Por fim, o grande historiador da Igreja, Kenneth Scott Latourette, afirma:

Paralelo ao luteranismo, outra espécie de protestantismo emergia e se desenvolvia. Esse protestantismo usualmente é conhecido como REFORMADO. Nele há variantes, inclusive o presbiterianismo em suas diversas manifestações. Todavia, de modo semelhante ao luteranismo, ele constituiu uma família de igrejas que, nos séculos 19 e 20, seriam atraídas conjuntamente em uma associação mundial (LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 1009).

Reafirmo que a intenção não é apontar o dedo para quem quer que seja, afirmando que o tal não tem direito de comemorar a Reforma Protestante. A ideia é tão somente esclarecer que o termo "reformado", em sua gênese, foi aplicado a um grupo distinto dos luteranos e anabatistas. Assim, meu desejo é que protestantes luteranos, protestantes reformados e protestantes anabatistas - ou descendentes destes grupos - juntos se alegrem em Deus pela Reforma, que no próximo ano completa 500 anos.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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O “Bezerro de Ouro” Dentro da Igreja Evangélica Brasileira

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Em 31 de Outubro de 1517 eclodiu em toda Europa, partindo da Alemanha, a Reforma Protestante. O monge católico da ordem agostiniana, Martinho Lutero, catedrático de teologia na Universidade de Wittenberg, afixou suas noventa e cinco teses convocando a Igreja de Roma para debate. O impacto das teses de Lutero foi revolucionário. Em poucos meses as teses se espalharam por toda Europa através do invento da prensa de tipos móveis de Gutenberg. Deste momento em diante a Igreja Ocidental jamais seria a mesma. O estudioso da história da igreja Roger Olson, comentando em seu livro História da Teologia Cristã, destaca a Reforma Protestante como o terceiro grande Cisma dentro da vasta história da cristandade, depois da divisão em 1054, entre Ocidente e Oriente, e a luta medieval entre os três papas no período de 1378 a 1417 (pg.380).  

Em 1520, Martinho Lutero foi excomungado da Igreja de Roma. E, em 1521, convocado pelo Vaticano para comparecer na Dieta, na cidade alemã de Worms, para dar explicações sobre suas teses e se retratar diante da igreja romana e do imperador Carlos I. O que aconteceu em Worms ficou registrado na história. Martinho Lutero foi obrigado pelo Vaticano a se retratar. Mas, nestas palavras se expressou: “Minha consciência serve à Palavra de Deus. Por isso não posso nem quero me retratar, pois ir contra a minha consciência não é seguro nem salutar. Não posso agir de outra maneira, esta é minha posição. Que Deus me ajude. Amém” (apud, pg. 388). Assim nasceu o Protestantismo. O movimento protestante se espalhou fortemente por vários países. Na Alemanha, Luteranismo. Na Suíça e Países Baixos, Calvinismo. Na Escócia, Presbiterianismo. Na Inglaterra, Puritanismo.

O pensamento e teologia protestante foram se solidificando de acordo com as necessidades através das históricas Confissões. As principais Confissões protestantes são: Confissão Luterana de Augsburgo, Alemanha (1530), Confissão de Westminster, Inglaterra (1647/1648) e o Documento Confessional Calvinista de Dort, na Holanda (1618/1619).

A Reforma Protestante irá completar 499 anos de História. Uma grande herança legada à posteridade, sem dúvida foi o amor a Deus, a Cristo e às Escrituras na total dependência do Espírito Santo. O cristianismo oriundo da Reforma transformou tremendamente o mundo, sobretudo cristão. E uma área de grande relevância da igreja que sofreu fortemente esta transformação foi o culto. O culto Protestante deste momento em diante seria regido somente pela Escritura – Sola Scriptura. Aprendemos com os reformadores que o culto público deve ser bíblico. E o princípio que deve reger este culto está inquestionavelmente registrado nas Escrituras. Sobre a importância do culto e de seu princípio regulador, Paulo Anglada, em seu livro Princípio Regulador do Culto, faz uma citação importante do grande reformador de Genebra, João Calvino:

“... a regra que distingue entre o culto puro e o culto corrompido é de aplicação universal, a fim de que não adotemos nenhum artifício que pareça apropriado, mas atentemos para as instruções do Único que está autorizado a legislar quanto ao assunto. Portanto, se quisermos que Ele (Deus) aprove o nosso culto, esta regra, que Ele impõe nas Escrituras com o máximo rigor, deve ser cuidadosamente observada. Pois há duas razões pelas quais o Senhor, ao condenar e proibir todo culto fictício, requer que obedeçamos apenas à Sua voz: primeiro, porque não seguir o nosso prazer, mas depender inteiramente da Sua soberania, promove grandemente a Sua autoridade. Segundo, porque a nossa corrupção é de tal ordem, que quando somos deixados em liberdade, tudo o que estamos habilitados a fazer é nos extraviar. E então, uma vez desviados do reto caminho, a nossa viagem não termina, enquanto não nos soterremos numa infinidade de superstições...” (p.14. Editora: Pes).

Há um fato bíblico em que esta declaração de João Calvino jamais deve ser desprezada e esquecida. Em Êxodo 32.1 – 35 contêm um registro muito triste e vergonhoso na história do povo de Deus envolvendo um ambiente de culto. Os dois principais personagens desta história são: Moisés e seu irmão, Arão. Para termos uma ideia da importância deles, só em Êxodo, seus nomes até o capítulo 32 aparecem mais de 330 vezes. Foram chamados ao ministério pessoalmente por Deus. Foram instrumentos para libertar Israel do cativeiro egípcio:

Depois, foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto. Respondeu Faraó: Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel. Eles prosseguiram: O Deus dos hebreus nos encontrou; deixa-nos ir, pois, caminho de três dias ao deserto, para que ofereçamos sacrifícios ao Senhor, nosso Deus, e não venha ele sobre nós com pestilência ou com espada” (Êx 5.1-3).

Ambos tiveram experiências extraordinárias com Deus. Conheciam muito bem a obstinada idolatria de Israel. Em Êx 32.21, 22 Moisés pergunta a Arão que acabara de fabricar o bezerro fundido de ouro: “Que te fez este povo, que trouxeste sobre ele tamanho pecado?”. Arão respondeu com estas palavras: “Não se acenda a ira do meu senhor, tu sabes que o povo é propenso para o mal”. Estas são algumas características peculiares entre os irmãos. Mas no que se refere à liderança em conduzir o povo em adoração a Deus às diferenças tomam proporções gigantescas. Eis o contraste entre uma liderança bíblica e uma antibíblica.

Podemos aprender muito com estes dois líderes. Creio que a liderança e postura exercida por Moisés neste episódio devem servir de orientação e motivação para igreja buscar a verdadeira reforma que precisa. Creio que Arão representa a maior parte da liderança evangélica brasileira. Creio que a grande maioria dos crentes brasileiros é tão adoradora do “bezerro de ouro” quanto Israel o foi no deserto. Creio que Deus tem reservado um remanescente fiel à semelhança dos fiéis no deserto que não adoraram ao bezerro fundido. Creio que os Reformadores do século XVI foram instrumentos nas mãos do Criador para resgatar a verdadeira adoração, assim como Moisés o foi no deserto. Creio que Arão e seus seguidores representam a adoração em que o princípio regulador do culto é antropocêntrico. Creio que a liderança evangélica tem se acovardado em geral ao enfrentar a pressão do povo em adorar o “bezerro do ouro” dentro da igreja, assim como Arão no deserto.

No período da Reforma Protestante o culto a Deus voltara a ser regido pelo Princípio Regulador: A Escritura.

Quais são os elementos bíblicos que fazem parte de um culto verdadeiro a Deus? Quais são as suas circunstâncias? Citarei elementos e circunstâncias de um culto reconhecendo que não existe unanimidade entre os estudiosos, principalmente nos dízimos, ofertas e bênção apostólica. Espero explorar detalhadamente em outro estudo tais elementos e circunstâncias.

          Elementos:
          1 – Leitura da Palavra
          2 – Louvor
          3 – Oração
          4 – Ordenanças
          5 – Dízimos e Ofertas
          6 – Bênção Apostólica

          Circunstâncias:
          1 – Lugar
          2 – Horário
          3 – Acentos
          4 – Iluminação
          5 – Climatização
          6 – Instrumentos
          7 – Vestes, dentre outros.

Não devemos como igreja desprezar as circunstâncias que envolvem um culto a Deus. Estes elementos circunstanciais devem potencializar a adoração a Deus. Mas não são permanentes nem devem corromper o culto.

O culto Reformado era marcado por confissão de pecados e arrependimento sob a direção do Espírito Santo. A verdadeira alegria cristã protestante tinha este fundamento. Era resultado da adoração cristocêntrica e bíblica. No culto Reformado regido pelo princípio regulador o que a Bíblia não autorizava de maneira explícita ou implícita não era de forma alguma inserida. Quanta diferença para os dias de hoje! Os reformadores em tudo na vida buscavam sempre em primeiro lugar honrar a Deus em a Sua perfeita justiça e santidade. Na adoração não era diferente. Hoje na igreja brasileira o que tem predominado é uma inversão:

  • A bênção no lugar do Deus da bênção;
  • O assistir ao culto no lugar do prestar culto;
  • O culto sentimental no lugar do culto racional;
  • O culto hedonista e místico no lugar do culto reflexivo e bíblico.

Neste contexto se valoriza mais um culto informal e livre do que um regido por princípios bíblicos. Não é de se admirar o porquê as mais estranhas e inimagináveis inserções fazem parte “fundamental” de nossa adoração!

Neste momento, lamentavelmente a “síndrome de Arão no deserto” tem exercido imensa influência sobre grande parte da igreja brasileira. Há um “bezerro de ouro” dentro de nossa igreja! Há muito tempo deixamos de lado o princípio regulador do culto fundamentado na Escritura, representado por Moisés pelo princípio antibíblico regido por Arão:

Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele e, apregoando, disse: Amanhã, será festa ao Senhor. No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou – se para comer e beber e levantou – se para divertir – se” (Êx 32.5, 6).

Quando o princípio regulador do culto cai na mão do homem, a adoração a Deus é mesclada e até mesma substituída por outra desviada, estranha e idólatra:

Então, disse o Senhor a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êx 32.7, 8).

O “bezerro de ouro” na igreja atual tem se materializado de várias formas:

  • Danças
  • Coreografias
  • Teatros
  • Apresentações
  • Cerimoniais
  • Vendas
  • Indulgências, entre outros elementos estranhos.

Estes elementos foram sistematicamente inseridos no culto que estamos prestando a Deus. Estão tão impregnados que muitos pensam fazer parte integral e permanente de um verdadeiro culto ao Senhor. É fogo estranho sobre o altar. Tem que ser removido. Arão não removeu. Disse ele a Moisés depois de ter fabricado o bezerro de ouro levando o povo à idolatria: “
Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que este povo é propenso para o mal” (Êx 32.22). Todo líder da escola de Arão jamais enfrentará com êxito a pressão daqueles que desejam idolatrar o “bezerro de ouro”. É muito fácil discernir por este prisma porque a igreja no Brasil está assim! Podemos até dividi–la em três partes: Na entrada, uma banca para venda. No meio, um palco para apresentações. No púlpito, a presença de um palhaço. Lamentável. Triste e decadente. Idolatria pura! Há esperança? Há esperança. Graças a Deus. Deus é grande. Ele ainda procura verdadeiros adoradores.

Quando a idolatria ao bezerro de ouro no deserto começou, Deus chamou seu fiel servo Moisés e disse–lhe:

Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êx 32.7, 8).

Quando Moisés desceu do monte para enfrentar a idólatra de Israel, o desfecho terrível fora registrado nestes termos: “... e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens” (Êx 32.28). Deus é fogo consumidor. Ele é santo três vezes. Ele é temível. Depois de tantas mortes, disse ainda ao servo Moisés:

Vai, pois, agora, e conduze o povo para onde te disse; eis que o meu Anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, vingarei, neles, o seu pecado. Feriu, pois, o Senhor, porque fizeram o bezerro que Arão fabricara” (Êx 32.34, 35).

Fica claro que a adoração a Deus deve ser do jeito que Ele quer e não da maneira que queremos ou achamos. Adoração é vida ou morte. É notório que a grande massa da igreja brasileira tem adorado ao “bezerro de ouro” à semelhança de Arão e os seus discípulos no deserto. É fato também que Deus tem levantado líderes e adoradores à semelhança de Moisés e todos aqueles que não se dobraram nem apostataram diante dos deuses estranhos materializados no bezerro fundido. A igreja e o princípio regulador do culto sempre estarão nas mãos de Deus. Os Reformadores criam assim. Creio que nestes últimos dias Deus tem tirado o princípio regulador do culto das mãos de “Arão” e entregue nas mãos de “Moisés”. Que a verdadeira reforma e o verdadeiro avivamento venham sobre nós. Pois, a igreja evangélica brasileira está na “UTI” urgentemente precisando.
Soli Deo Gloria. Glória somente a Deus. Amém!

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Autor: Pr. Vilmar Rodrigues Nascimento
Divulgação: Bereianos
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Uma crítica ao anarquismo cristão pregado por Liev Tolstói

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Introdução

Quando se fala de Anarquia e Cristianismo, logo se identifica duas doutrinas antagônicas. A primeira é uma doutrina política, libertária e materialista. A segunda, metafísica e proposicional. Porém, ambas se encontram no pensamento de Liev Tolstói, que as sintetizou ao interpretar o Evangelho de uma forma moralmente radical, livre do caráter sobrenatural das Escrituras, desenvolvendo argumentos muito próximos à ideologia anárquica de Bakunin, de Proudhon e de Thoreau. Essa simbiose pode ser explicada através de um conceito presente na sociologia: a Afinidade Eletiva.

Entende-se por “Afinidade Eletiva” um movimento de convergência capaz de se chegar a uma fusão entre duas configurações sociais ou culturais. O termo aqui não é sinônimo de influência ou correlação, mas sim um conceito que nos permite explicar processos de interação irredutíveis à causalidade direta. A expressão é oriunda de alquimistas medievais, mas é Max Webber que a emprega numa perspectiva sociológica para analisar a relação entre a religião e o ethos econômico. O termo já mencionado ganha fundamentação na clássica obra: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em 1989, o cientista social Michel Löwi lança no Brasil o livro: Redenção e Utopia: O Judaísmo Libertário na Europa Central, que analisa, utilizando-se da “Afinidade Eletiva”, para entender a ligação entre o messianismo e as ideias libertárias de um grupo de intelectuais judeus que surge – na Europa Central – no fim do século XIX. Este é o conceito comum empregado por aqueles que estudam o anarquismo tolstoiano. Ao se converter (à sua maneira), o escritor russo sequer imaginaria que a sua experiência espiritualista o conduzisse ao legítimo anarquismo. Isso só acontece quando a “Não Resistência” passa a ser rigidamente observada por ele. Neste artigo será apresentado o pensamento de Tolstói, principalmente o contido no livro O Reino de Deus Está em Vós. Ao final, serão feitos alguns apontamentos críticos. Mas, antes, é preciso situar o leitor sobre o que é anarquismo conforme os seus principais expoentes. 

O anarquismo e seus expoentes teóricos

Anarquia é a ausência de senhor, de soberano, tal é a forma de governo que nos aproximamos todos os dias e que o hábito inveterado de tornar o homem por regra e sua vontade por lei nos faz olhar como o cúmulo da desordem e a expressão do caos (PRODHON, 2007).

George Woodcock definiu o Anarquismo como sendo um “movimento de filosofia social” [1] que tem por objetivo final a transformação da sociedade. Embora existam várias correntes, todas elas “desembocariam no mesmo rio”, pois é comum a todas substituir o Estado autoritário por alguma forma de cooperação mútua entre homens livres, ou seja, uma autogestão que não precisasse mais da tutela estatal, utilizando-se do poder coercitivo para determinar aquilo que está dentro ou fora da legalidade.


O Estado é o mal que precisa ser aniquilado, para que enfim a humanidade seja livre e estabeleça uma relação de igualdade ainda não experimentada, uma vez que o Governo está a serviço de uma classe dominante que, para assegurar sua dominação, necessariamente promove uma distribuição desigual de renda e oportunidade. Esse Estado além de deter o monopólio da força – com seus exércitos, guardas pretorianas e departamentos de polícia – também conta com aparelhos ideológicos que manipulam a população e induzem o povo a viver resignado em meio a tanta miséria. Dentre esses aparelhos, a Religião, de forma institucionalizada, é um dos alvos principais dos que se professam anarquistas. É tanto que um dos lemas mais populares do movimento dizia: “Nem Deus, nem Senhor”. 

O anarquismo, em seu bojo, é antiteísta. Bakunin, o russo que ambicionava “destruir para criar”, tornou-se um dos mais atuantes do movimento libertário, chegando a participar da I Internacional, divergindo de Marx e ameaçando a sua hegemonia até ser expulso em 1872. Cria então a Internacional “Antiautoritária” e rompe os vínculos com o marxismo. O pensamento bakuniniano foi bastante assimilado pelos anarquistas, sendo mais influente do que o próprio Proudhon, considerado por muitos o pai do Anarquismo. Segundo ele, o desenvolvimento humano é composto por três elementos: 1- a animalidade, 2- o pensamento e 3- a revolta. O primeiro corresponde à economia individual e social, o segundo, à ciência e o último, à liberdade.

Contrariando os idealistas, afirma ser o homem produto da “vil matéria” e não um ser criado por um ente ou inteligência superior. No entanto, essa matéria é extremamente dinâmica e produtiva. Está sempre em movimento e, no caso dos homens, os direcionam para libertá-los da sua condição primitiva: através da razão, estes se tornam conhecedores de sua própria existência, emancipando-se. Tal o percurso da evolução. Eis a origem de seu antiteísmo. A partir do momento em que os teólogos atribuem toda a vileza aos homens e tudo o que for de belo, justo e puro como sendo atributos de Deus, o homem torna-se escravo da divindade e isso é um entrave ao seu próprio desenvolvimento que tem por finalidade a libertação. A ideia de Deus faz com que o homem abandone a razão e, sem ela, ele nunca atingirá a liberdade. Por isso Bakunin (2011) propõe a abolição da divindade: “inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Um texto escrito em 1871, onde é evidente todo o seu entusiasmo, Bakunun afirma:

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencidos de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas (BAKUNIN, 2011, p.58).

Foi Proudhon quem primeiro reclamou para si o status de anarquista. E fez através de uma prosa vigorosa, simulando um diálogo repleto de questionamentos sobre seu posicionamento político, desembocando na seguinte afirmação: “(...) vós acabais de ouvir a minha profissão de fé, séria e maduramente refletida; ainda que muito amigo da ordem, eu sou, com toda a força do termo, anarquista. Escutai-me”.[2]  Proudhon é um opositor de toda a forma de autoridade, denunciando os seus malefícios, seja esta oriunda da religião, do governo, do sistema econômico ou até mesmo do socialismo.


Proudhon descarrega toda sua raiva ao redigir Contradições Econômicas, acentuando o discurso antirreligioso. Devido às condições miseráveis da humanidade, questiona o conceito de uma deidade benevolente e conclui que se Deus existe, de fato, então ele é mau. Para triunfar sobre a tirania, faz-se necessário opor-se a Deus. Note-se que ele não nega a existência do Divino, apenas se opõe a ela. Nesse ponto, assemelha-se aos anarquistas que o sucederam, dentre eles o próprio Bakunin. Criticava o dogmatismo com ênfase, por isso mesmo não adotava o extremo de se declarar ateu. Proudhon enxergava Deus e o homem como duas forças antagônicas, realidades incompletas, que se opõem. Para o bem da humanidade, essa divindade dominadora precisava ser rejeitada.

Tolstói e a nova doutrina

Leon Tolstói dedicou três anos de sua longa vida – morreu aos 92 anos – ao escrever O Reino de Deus está em Vós. A obra gerou imensa polêmica e dividia os leitores entre os que aplaudiam e concordavam e os que rechaçavam o seu conteúdo. Seu livro foi tirado de circulação na Rússia czarista dos Romanov e a Igreja Ortodoxa determinou a sua excomunhão. Qual o conteúdo da obra afinal? O subtítulo do ensaio começa por nos elucidar: O Cristianismo apresentado não como uma doutrina mística, mas como uma moral nova. 

Segundo ele, o verdadeiro Cristianismo estava longe de ser compreendido tal como é, e o motivo disso é a deturpação das palavras de Jesus Cristo e a ação do clero que não focava no ensino do Mestre, ao invés disso, elaborava catecismos, liturgias e sacramentos que apenas serviam para tornar as pessoas cada vez mais supersticiosas e manipuláveis. A sua tese central dá-se a partir do preceito encontrado no Sermão do Monte: “Não resistais ao mal” (Mateus 5:39). O sentido defendido por ele é de que a “Não Resistência” é a não utilização da violência. Sob nenhum aspecto Tolstói considera legítimo o uso da força. Aquela máxima jurídica de repudiar a violência usando a própria violência é totalmente anticristã. Por isso não gostava de ser chamado anarquista, por não compactuar com os métodos terroristas ligados ao movimento. Denominava-se apenas cristão.

Rejeitando o Estado e a propriedade, defende a abolição de ambas para que a humanidade venha gozar do Reino de Deus na Terra. Não existe o Paraíso ensinado pelos sacerdotes, tampouco a salvação vicária resultado do derramamento de sangue na cruz. Jesus Cristo não é divindade, é homem. É o professor que disseminou a Lei do Amor como sendo inerente do espírito humano. Essa Lei é a única que deve reger as relações sociais. É universal e atemporal, gradativamente pode ser vivenciada por todos os homens. E por que ainda não foi assimilada? Porque vem sendo ensinada por uma minoria de pessoas, ao passo que o “pseudocristianismo” ganhou vários adeptos que inculcaram através da tradição de séculos esse ensinamento deturpado no qual acreditam ser a Palavra de Deus transmitida por seus representantes. 

Destacando-se pela sua singularidade, até então, em conciliar o Evangelho com a anarquia, Tolstói, sem abolir e nem tampouco se opor a Deus, teve seu pensamento inserido na pesquisa pioneira de Paul Eltzbacher[3] sobre as várias correntes anárquicas, realizada em 1900. É no lançamento de O Reino Deus está em Vós, que enfim demonstra a sua fé na Anarquia. Esta é a obra central e de transição entre um anarquista latente e um anarquista convicto, embora recusasse ser chamado assim.

Para entendermos a ligação entre o Evangelho e a Anarquia em Tolstói, é necessário tomar ciência de que o deísmo é a sua crença, e que, como deísta, ele concebe a ideia de uma divindade impessoal. Deus é uma força mística, criadora do Universo e a humanidade é autônoma em suas decisões. Essa impessoalidade faz com que o mesmo não tenha um nome. Logo, Iavé, Alá, Shiva e outras nomenclaturas, estão todas se referindo ao mesmo ser. Tolstói, além dos Evangelhos, mergulhou em outras crenças, tal como o hinduísmo para sistematizar aquilo que viria chamar de “Doutrina da Não Resistência ao Mal”.

A tolerância religiosa, num sentido lato, a busca pela unidade entre os credos (também conhecido por ecumenismo) é uma característica do deísta. Nessa perspectiva, toda religião cultua o mesmo deus, mesmo que a terminologia seja distinta. No fundo, os valores religiosos são idênticos. O próprio Tolstói fala isso, num artigo intitulado O que é religião e em que consiste sua essência?:

(...) Esses valores são: que existe um Deus e é o princípio de tudo; que no ser humano há uma partícula desse princípio divino, que ele pode enfraquecer ou fortalecer de acordo com o modo em que conduz a própria vida; que, para fortalecer esse princípio, o ser humano deve conter suas paixões e cultivar dentro de si o amor; que o meio prático de alcançar isso é fazer aos outros aquilo que queremos que façam a nós. Todos esses valores são comuns ao bramanismo, ao judaísmo, ao confucionismo, ao taoismo, ao budismo, ao cristianismo e ao judaísmo (.TOLSTÓI, 2011, p.203).

Devido a essa concepção, o cristianismo adotado por Tolstói não promove Jesus Cristo a divindade. Mais absurdo ainda o conceito da trindade. Deus é um ser superior, Jesus, apenas um homem que deve ser visto como exemplo ético. Suas palavras e ações, deixando os milagres de fora, devem ser seguidas a risca, pois a perfeição é alcançada à medida que negamos nossas paixões em detrimento do bem coletivo. O amor ao próximo é o fim supremo e principal do homem. O próprio Cristo teria dito que todo aquele que ama, cumpriu a Lei e os profetas. Tolstói empenha-se em traduzir os quatro Evangelhos a seu modo, retirando dele toda a metafísica. Durante anos esmera-se nesse trabalho e é a partir dele que a “Não Resistência” surge como o principal conceito do pensamento tolstoiano:

Eu compreendi, não por meio de fantasias exegéticas ou de combinações textuais profundas e engenhosas; compreendi tudo porque joguei fora de minha mente todos os comentários. Esta foi a passagem que me deu a chave do todo. ‘Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao mal.’ (Mateus 5:38,39). (TOLSTÓI, 2011, p.28).

O conceito da “Não Resistência”, ou como chamam os adeptos do movimento Humanista: “Não Violência Ativa” é o cerne do anarquismo tolstoiano. É a ideia central de O Reino de Deus está em Vós, livro que o próprio Tolstói considera o mais importante de todos que escreveu. O princípio já havia sido abordado em Uma Confissão, mas é com “O Reino” que o Apóstolo da Não Violência (assim Gandhi o classificou) sistematiza a doutrina que lhe abriu os olhos, tornando-o um cristão convicto de que a moral incutida no Sermão do Monte era a chave para libertação dos indivíduos.


Logo no primeiro capítulo de “O Reino” lemos que a doutrina da Não Resistência foi ensinada por outros homens e grupos cristãos, que embora sendo minoria, contribuíram para elucidar o verdadeiro significado do evangelho: o amor. Através do exemplo de concórdia e paz entre os seguidores de Jesus, a doutrina evangélica penetrará na consciência dos homens. Não se pode impor a aceitação dessa doutrina, é a atitude humilde de resistir ao mal sem uso da força que levará a sua aceitação. O amor é o guia para levar a humanidade a atingir a perfeição:

O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do cristianismo (TOLSTÓI, 2011, p.10).

Se o amor fraterno é o mandamento necessário para o cumprimento da vontade de Deus e nisto consiste a salvação da alma humana, logo toda e qualquer ordem que leve o cristão ao descumprimento dessa doutrina, é um entrave ao aperfeiçoamento. Daí surge a resistente figura do Estado, pois Tolstói o vê como um obstáculo na observância desse mandamento. Colocando a “não violência” como base da doutrina cristã, Tolstói afirma que o cristianismo destrói qualquer governo, pelo simples fato deste ser uma violência:

O homem submisso ao poder não age como quer, mas como é obrigado; e é somente por meio da violência física, isto é, da prisão, da tortura, da mutilação ou da ameaça desses castigos que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder (TOLSTÓI, 2011, p.167).

Tolstói também aderiu a “desobediência civil” e declarou guerra ao Estado. A luta acontece quando as pessoas deixam de colaborar com a máquina, rebentando assim o sustentáculo do poder que, segundo ele, oprime e sufoca os homens. Para aniquilar o governo, basta aderir à desobediência. É o que diz claramente em Os Acontecimentos Atuais Na Rússia, texto escrito em Fevereiro de 1905:

Para livrar-se do governo não é necessário lutar contra eles pelas formas exteriores (insignificantes até o ridículo diante dos meios de que dispõem os governos) é preciso unicamente não participar em nada, basta não sustentá-los e então cairão aniquilados. E para não participar em nada dos governos nem sustentá-los é preciso estar livre da fragilidade que arrasta os homens aos laços do governo que lhes fazem seus escravos ou seus cúmplices (TOLSTÓI, 2011, p.23).

Como os demais anarquistas, Tolstói não nos oferece uma visão nítida de como seria a sociedade sem a tutela de um governo, apenas denuncia o que considera ser um grande mal que este comete no presente. O embrutecimento, a pobreza, a opressão, a injustiça e a negação da consciência são produtos do que chama “Estado-Violência”. Ele precisa acabar, e só terá um fim quando o Cristianismo for compreendido e aceito pela grande maioria dos homens. Mas não é o misticismo pregado pela Igreja, mas a moral resumida no Sermão do Monte, que condena todo e qualquer tipo de violência, instruindo as pessoas a não pagarem o mal com o mal.


O anarquismo cristão tolstoiano foi e continua sendo singular. Embora existam outros nomes nesse segmento, como por exemplo, Jacques Ellul, ninguém foi tão sistemático como Tolstói. A influência do pensamento tolstoiano levou diversos homens a fundarem colônias baseadas numa economia comunitária e com estilo de vida ascético. Não há muitas informações acerca delas. O que sabemos é que fracassaram em um curto espaço de tempo.

Os problemas do pensamento Tolstoiano

A doutrina proposta por Tolstói tem alguns problemas. Um deles é a crença no caráter inerentemente bom do ser humano. Isso contraria o relato da Queda em Gênesis 3 e a doutrina da Depravação Total. O ensino de que o homem já nasce pecador e depravado está presente em textos como o Salmos 51:5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”. Agostinho, mergulhando na teologia paulina, sobretudo na Epístola aos Romanos, desenvolve a depravação como sendo uma doutrina indispensável ao cristianismo. Combatendo a neutralidade pelagiana, ele afirma que o homem perdeu o livre-arbítrio quando o pecado entrou no mundo por meio de Adão. Após a catástrofe do Éden, a humanidade herda o pecado natural, que escraviza o homem em seu desejo de querer pecar mais e mais. Sendo assim, o pecado priva o homem de escolher aquilo que é inerentemente bom (privatio boni), o que não significa, entretanto, que o homem perdeu toda sua capacidade de fazer escolhas. Em diversas ocasiões o pecador escolhe entre diversas alternativas. A única incapacidade do homem degenerado é escolher não mais pecar. O pecado é uma gangrena que aprisiona o ser humano. Foi ele o grande responsável pela morte, pois, para Agostinho, Adão era detentor da imortalidade, antes da queda. E isso foi transmitido a todos que se seguiram. Sobre essa transmissão da natureza pecaminosa, escreveu Berkhof [1992, p.122]:

Através do vínculo orgânico entre Adão e seus descendentes é que aquele transmite a eles a sua natureza caída, juntamente com a culpa e a corrupção que lhe segue o rastro. Agostinho concebe a unidade da raça humana não de modo federal, e sim, realista. Toda a raça humana estava germinalmente presente no primeiro homem, pelo que também ela realmente pecou em Adão.

Os reformadores seguiram Agostinho e as confissões de fé registram o mesmo ensinamento em seus artigos. Vejamos o que diz Segunda Confissão Helvética, 1566, artigo 8:

Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós - mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e de ódio a Deus - nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat 12,33 ss).

De igual modo subscreve Catecismo de Heidelberg, 1563, questão 7:

De onde vem, então, esta natureza corrompida do homem? Resposta: Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. (1) Gn 3; Rm 5:12,18,19. (2) Sl 51:5; Jo 3:6.

Logo, Tolstói se equivoca ao apregoar a possibilidade de ensinar a moral cristã a homens que possuem a natureza caída. Os homens só passarão a cumprir a vontade de Deus a partir de uma atuação sobrenatural. A remissão e a restauração do arbítrio são obras divinas, González [2002, p.213] comenta:

Quando somos redimidos, a Graça de Deus passa a atuar em nós, levando-nos do estado miserável em que nos encontramos para um estado novo, em que a nossa liberdade é restaurada, tanto para pecar como para não pecar. No céu, por fim, teremos somente liberdade para não pecar. Como no caso anterior, isto não quer dizer que não teremos liberdade alguma. Ao contrário, na vida celestial, continuaremos tendo diversas alternativas, mas nenhuma delas será pecado.

A questão é que não poderíamos esperar outra coisa de alguém que mutila o texto sagrado para retirar dele toda a metafísica. Quanto à doutrina anárquica, esta não pode ser sustentada pelo cristão que tem apreço pela Escritura. Esta legitima o poder governamental e o coloca como um instrumento que Deus utiliza para refrear a depravação humana (vide Romanos 13. 1-7). Precisamos do governo e, como cristãos, temos obrigações para com o Estado. Calvino nos lembra que “é da vontade de Deus que o mundo seja governado dessa maneira”, e diz mais: “desprezar a providência daquele que é o Autor do governo civil [iuris politici] é declarar guerra contra ele mesmo”.[4]


O Estado não pode se agigantar e atuar em áreas que não são de sua competência. Ele não tem a autoridade derradeira, mas serve a Deus, incumbiu aos governantes punir o mal e promover o bem. Contudo, abolir o poder estatal é algo que não podemos apregoar, pois, contradiz o ensinamento bíblico e nos coloca como rivais do Soberano, que instituiu os poderes terrenos. E se o Estado é autoridade que provém de Deus, logo, ele deve ser visto como uma dádiva para a sociedade e não como um empecilho ao seu desenvolvimento. Diante do que foi exposto, concluímos que o anarquismo tolstoiano deve ser rejeitado. 

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Referências bibliográficas:

BAKUNIN, Deus e o Estado, São Paulo: Hedra, 2011.
BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,1992.
GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Volumes 1. Edições Vida Nova, 2002.
LÖWY, Michel, Redenção e Utopia: O judaísmo libertário na Europa Central: um estudo de afinidade eletiva, São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M, 2008.
TOLSTÓI, Liev, Minha Religião. São Paulo. A girafa,2011.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬_____________, O Reino de Deus está em Vós, Rio de Janeiro: BestBolso,2011.
_____________, Os Últimos Dias. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2011.
THOREAU, Henry David, A Desobediência Civil. Porto Alegre: LP&M, 1997.
WOODCOCK, George, História das Idéias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.

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Notas:
[1] WOODCOCK, George. História das ideias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.
[2] PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M 2008, pág 26.
[3] Paul Eltzbacher, judeu alemão, Doutor em Direito e pesquisador do Anarquismo.
[4] CALVINO. João, Romanos. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, p. 460-461. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Teologia Brasileira
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O “evangeliquês” brasileiro precisa conhecer Niceia

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No século IV havia muitas divergências a respeito das doutrinas de Deus e de Cristo. Visando resolver as questões, a igreja celebrou seu primeiro concílio universal, a fim de diminuir os conflitos doutrinários. Esse concílio ficou conhecido como Concílio de Niceia, foi convocado e presidido por Constantino. Na ocasião foi estabelecida a doutrina da Trindade, expressa no Credo de Niceia (oficialmente chamado de Credo Niceno-Constantinopolitano). 

Assim como no século IV, tenho percebido em nossos dias a dificuldade que cristãos têm de explicar e fundamentar essa doutrina. Ao visitar algumas igrejas, observo membros que, na tentativa de explicar a Trindade, ensinam heresias. Já presenciei um professor, em um estudo para jovens, negar a doutrina da Trindade, afirmando que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito é apenas o espírito de Deus. Também tenho sido muito questionado por jovens e adolescentes quanto a essa temática, a maioria busca saber como fundamentar essa doutrina na Bíblia ou como entendê-la.

Esse quadro me preocupa, pois estou convencido de que a doutrina da Trindade é a principal da Bíblia, ela é fundamental. Será que o “evangeliquês” brasileiro precisa voltar a Niceia? Nesse cenário escrevo este texto, visando ajudar os cristãos brasileiros a entenderem e explicarem a Trindade quando questionados.

Antes de definir Trindade e explanar como a doutrina se fundamenta nas Escrituras, gostaria de dizer o que ela não é. Trindade não é a noção de que Pai, Filho e Espírito Santo são apenas manifestações distintas da mesma pessoa, Deus o Pai (Sabelianismo). Trindade não é a noção de que que Deus se apresentou de três modos distintos (Modalismo). Trindade não é a noção de que na essência de Deus há três pessoas que coexistem em um relacionamento hierárquico (Subordinacionismo).

Quando se fala de Trindade, precisa-se reconhecer que estamos diante de um paradoxo. Isso significa que a doutrina da Trindade parece conter verdades contraditórias, mas é um ensino bíblico. Por exemplo, a Soberania de Deus e a Responsabilidade Humana ou a Humanidade e Divindade de Cristo, não se sabe como elas se relacionam mas crer-se que ambas são ensinos bíblicos, o mesmo pensamento se aplica à Trindade. Portanto, antes de qualquer definição, é necessário entender e reconhecer que o paradoxo da Trindade é uma verdade que está acima da nossa capacidade de entendimento. Digo isso porque a maioria das heresias relacionadas a doutrina da Trindade, que tenho ouvido nesses anos na membresia das igrejas, é consequência da tentativa de explicar a Trindade de forma que faça sentido racional e lógico. 

Wayne Grudem define a doutrina da Trindade do seguinte modo: "Deus existe eternamente como três pessoas - Pai, Filho e Espirito Santo - e cada pessoa é plenamente Deus, e existe um só Deus" [1]. Gosto dessa definição pois ela traz três verdades que são necessárias para entender e explanar a Trindade: (1) Deus é três pessoas; (2) As três pessoas são plenamente Deus; (3) Só há um Deus. Também creio que essa definição é adequada para um texto objetivo, como é o caso.

É popular dizer que a doutrina da Trindade encontra-se somente no Novo Testamento. Porém, no Antigo Testamento encontra-se várias passagens que demonstram que Deus existe em mais de uma pessoa (Gn 1.26; 3.22; 11.7; Is 6.8), o que começa a lançar luz na primeira verdade da definição apresentada acima. Muitos teólogos também usam Isaías 61.10 para afirmar que essa doutrina está presente no Antigo Testamento mesmo que não explicitamente.

No Novo Testamento a doutrina aparece de forma explícita e claramente pode-se perceber que Deus é três pessoas distintas. João 1.1-2 diz que "Ele estava no princípio com Deus", se Ele, o Verbo (que é revelado como Cristo nos versos 9-18), "estava com" significa que é uma pessoa distinta. Outros textos fazem distinção entre o Filho e o Pai: Jo 17.24; Hb 7.25; 1Jo 2.1. Além disso, em João 16.7 percebe-se a diferença pessoal entre Jesus e o Consolador (que é o Espirito Santo). Encontra-se também alguns versos em que as três pessoas aparecem juntas: Mt 28.19;1Co 12.4-6; 2Co 13.14; 1 Pe 1.2; Ef 4.4-6; Jd 20-21.

Cada uma das três pessoas são plenamente Deus. É evidente que o Deus Pai é plenamente Deus em todo o antigo Testamento, onde Deus é reconhecido como Senhor soberano e em alguns textos do Novo Testamento (At 4.24; Mt 26.39; Mt 6.9-10). Em João 1.1-4 é notório que Jesus é plenamente Deus, além de outros textos como: Jo 20.28-29; Hb 1.1-3; Tt 2.13; 2 Pe 1.1; Rm 9.5. Em Isaías 9.6 a profecia apresenta o Messias como "Deus Forte". O Espirito Santo também é plenamente Deus, basta observar textos como: At 5.3-4; 1Co 3.16. Entendendo que Deus Pai e Deus Filho são plenamente Deus, então as "expressões trinitárias" que aparecem nos textos que foram apresentados no parágrafo acima (Mt 28.19; 1Co 12.4-6; 2Co 13.14; 1 Pe 1.2; Ef 4.4-6; Jd 20-21), também podem ser usados como base para afirmar que o Espirito Santo é plenamente Deus. Vale observar que, afirmar que as três pessoas são plenamente Deus, implica em crer que tais são iguais em poder e que andam em comunhão perfeita e indissociável (pois Deus é perfeito e imutável: Jó 11.7; Sl 102.25-27).

Deus é três pessoas, as três pessoas são plenamente Deus porém há só um Deus. É claro nas Escrituras que existe somente um Deus: Dt 6.4-5; 1 Rs 8.60; Is 44.6-8; 45.5-6,21-22; Rm 3.30; Tg 2.19. Conclui-se que Deus é três pessoas distintas: Pai, Filho e Espirito Santo. O Pai é plenamente Deus, o Filho e plenamente Deus e o Espirito Santo é plenamente Deus. O Pai não é o Filho, o Filho não é o Espirito, o Espirito não é o Pai (pessoas distintas). Porém, não são três deuses, mas é apenas um Deus. Eis o paradoxo, eis o mistério da Trindade.

Em Efésios 1.3-14, Paulo mostra como o Deus trino trabalha no plano de redenção. Do verso 3 ao verso 6, Paulo apresenta a obra do Pai, que é aquele que planeja. Do verso 7 ao verso 12, ele apresenta a obra do Filho, que é aquele que executa o plano, redimindo e remindo os que haviam sido eleitos pelo Pai. No verso 13 e 14, o Apostolo apresenta a obra do Espirito Santo, que é aquele que tem aplicado esse plano na vida dos eleitos do Pai. Repare que no fim de cada bloco encontra-se a expressão "para louvor da sua glória". Todos os atos de Deus na história são para louvor da sua própria glória. Nós somos beneficiados e Deus recebe a glória. Cito o início de uma oração Puritana:

          TRÊS EM UM, UM EM TRÊS, DEUS DA MINHA SALVAÇÃO,
          Pai celestial, Filho bendito, Espírito eternal,
          Eu te adoro como único Ser, única Essência,
          Único Deus em três Pessoas distintas,
          Por trazeres pecadores ao teu conhecimento e ao teu Reino.
          Ó Pai, tu me amaste e enviaste Jesus para me redimir;
          Ó Jesus, tu me amaste e assumistes minha natureza;
          Derramastes teu sangue para lavar meus pecados,
          Consumaste justiça para cobrir a minha iniquidade;
          Ó Santo Espírito, tu me amaste e entraste em meu coração,
          Lá implantaste a vida eterna,
          Revelaste-me as glórias de Jesus... [2]

Entendendo que você compreendeu a doutrina da Trindade, creio que a melhor forma de você explicá-la para alguém é, primeiramente, mostrando que é um paradoxo. Depois apresentando as três verdades sobre a Trindade (Deus é três pessoas - As três pessoas são plenamente Deus - Só há um Deus) fundamentando-as nas Escrituras. Caso você esteja explicando para um não cristão, ao final, apresente o plano de redenção a ele, crendo que Deus soberanamente fará Sua vontade.

Diante de uma verdade tão gloriosa, como a doutrina da Trindade, termino citando Agostinho de Hipona, faço das palavras dele as minhas: "Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo que disse de ti nesses livros de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há meu, perdoa-me e perdoem-me os seus. AMÉM." [3]

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Referências Bibliográficas:
[1] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999. p. 165 
[2] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. VIII.
[3] AGOSTINHO. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1994. p. 557.

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Sobre o autor: Lucas Ramos Pereira é seminarista da Primeira Igreja Batista em Palmeiras, Belo Horizonte/MG.
Imagem: Council of Nicaea 325, de Fresco in Capella Sistina, Vatican - 1590, via Wikipédia. Arte: Bereianos
Divulgação: Bereianos
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Escravidão e o Velho Testamento

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Muitas tentativas tem sido feitas para associar, de alguma forma, a escravidão no Antigo Testamento com a escravidão no Ocidente Moderno. Através de uma análise histórica, mostraremos porque isso é falho.

Os historiadores abandonaram o uso (até então comum) do termo “escravidão” na descrição das diversas formas de relação entre mestre e servo manifestas no mundo antigo. Existiram poucas sociedades escravistas no mundo antigo (com Roma e Grécia sendo duas das maiores), e a nação antiga de Israel parece estar fora dessa classificação (em legislação, não em prática).


Um exemplo recente aparece na discussão sobre a cultura hitita:

“Guberbock menciona ‘escravos no sentido mais estrito’, aparentemente se referindo a escravos fiduciários como aqueles da antiguidade clássica. Essa caracterização pode ser verdadeira para escravos domésticos cujos mestres poderiam tratá-los como bem entendessem ao eles cometerem algum erro, mas essa opção é menos provável, já que eles eram capazes de ter propriedades e pagar dotes de noivado. O significado de ‘servo’ parece mais apropriado, ou talvez a designação de ‘escravo semi-livre’. Enquadra toda e qualquer pessoa que está sujeita a ordens ou dependentes de outro mas que, ainda assim, tem algum independência dentro de sua própria esfera de atividades.” (1.632) [1]

Estudiosos de Antropologia Cultural são ainda mais sensíveis quanto a isso, e apontam que a escravidão do Novo Mundo era de certa forma única, historicamente falando:

“Os estudiosos discordam entre si na definição de ‘escravidão’. O termo tem sido usado várias vezes para um ampla variedade de instituições, incluindo a escravidão para plantação, o trabalho forçado, o trabalho penoso de confeitarias e fábricas, o trabalho infantil, a prostituição semi-voluntária, o casamento por dotes, a adoção de crianças por pagamento e também a barriga de aluguel. […] Um problema similar ocorre quando olhamos para outras culturas. […] Essas características são geralmente derivadas da experiência ocidental mais recente de escravidão, aquela dos EUA e da América Latina. A imagem ocidental atual de escravidão foi construída atropeladamente das representações dessa experiência nas obras abolicionistas de literatura do século XIX. […] De uma perspectiva mais inter-cultural e histórica, no entanto, a escravidão no Novo Mundo foi uma conjunção única de características. […] Em resumo, a maior parte dos tipos de escravidão não exibiam os três elementos que foram dominantes no Novo Mundo: escravos como propriedades e comodidades; seu uso exclusivo ao trabalho; e sua falta de liberdade…” (4:1190f) [2]

Portanto, antes de alguém associar a palavra “escravidão” presente no VT com o que aconteceu no Ocidente, seria melhor definir o que consideramos “escravidão” hoje e comparar com o que se chama por “escravidão” no VT.


Com isso em mente, vamos destacar os elementos básicos associados a escravidão histórica, como praticada nos EUA antes da Guerra Civil Americana, e mostrar a diferença com os tipos de escravidão do mundo mais antigo.


Diferença 1 – Motivação: A escravidão no Ocidente recente foi motivada pela vantagem econômica da elite.


Esse não era o caso da escravidão antes da Era Comum. A motivação dominante (estatisticamente falando) era o alívio econômico da pobreza. Isto é, a “escravidão” era iniciada pelo escravo (não pelo dono) e o uso primário era puramente doméstico (exceto em casos de escravidão Estatal, onde os indivíduos eram usados para construir projetos).


A obra definitiva sobre a legislação antes da Era Comum está em History of Ancient Near Eastern Law. Ela indica claramente que o propósito da escravidão no Mundo antigo era “em favor do pobre” ao invés de “em favor do rico”.[3] Segue uma lista de citações mostrando isso:

“A maioria dos escravos que pertenciam aos assírios em Assur e Anatólia parecem ter sido (originalmente) escravos através de dívidas – indivíduos livres que eram vendidos como escravos por um pai, um marido, uma irmã mais velha, ou por eles mesmos.” (1.149)
“A venda de esposas, filhos, parentes, ou de si mesmo devido a dificuldades financeiras era uma cena sócio-econômica caracteristicamente recorrente em Nuzi ... Um caso um pouco diferente acontecia com estrangeiros tanto do sexo masculino quanto feminino, chamados Hapiru (imigrantes) que se voluntariavam a escravidão a indivíduos ou à administração do palácio. A pobreza era a principal causa destes acordos …” (1.585)
“A maioria dos casos registrados da entrada de pessoas livres na escravidão [em Emar] aconteceram em razão da dívida ou da fome, ou ambos ... A prática comum era um financiador para pagar vários credores em troca de o devedor se tornar seu escravo.” (1.664f)
“Por outro lado, faz-se menção de pessoas livres que eram vendidas como escravos como resultado das condições de fome e a crítica situação econômica das populações [Canaã]. Filhos e filhas eram vendidos para provisões” (1.741)
“O método mais frequentemente mencionado de escravidão [Neo-sumeriana, UR III] é a venda de crianças por seus pais. A maioria eram mulheres, evidentemente as viúvas, que vendiam uma filha; em uma ocasião ou outra uma mãe e uma avó vendiam um menino … Há também exemplos de auto-venda. Todos estes casos claramente surgiam da pobreza; não é explicado, no entanto, se a dívida estava especificamente no centro da questão.” (1.199)

Diferença 2 – 
Entrada: No Ocidente a escravidão foi esmagadoramente involuntária. Seres humanos eram capturados a força e vendidos por comerciantes.


Na Antiga Era (e especialmente no VT), acontecia exatamente o oposto. Isto já deveria estar óbvio a partir do aspecto MOTIVO (que já discutimos) – as escolhas eram feitas pelos empobrecidos, entrando nesse estado de dependência em troca de segurança econômica e proteção. Alguns contratos de escravidão, de fato, enfatizavam esse aspecto voluntário:

“Uma pessoa entrava na escravidão vendendo a si mesmo ou sendo vendido por um dos pais ou parentes. Pessoas vendiam suas esposas, netos, irmãos (com suas esposas e filhos), irmãs, cunhadas, afilhadas, sobrinhos e sobrinhas ... Muitos dos documentos enfatizavam que a transação era voluntária. Isto aplica-se não somente à auto-venda, mas também aqueles que eram vendidos, embora o seu consentimento deve ter sido, por muitas vezes, fictício (como no caso de um lactente).” (1.665) [4]

Isto também pode ser visto a partir do fato de que a guerra e a violência não eram fontes de escravos ‘reais’ na Antiga Era (nem no VT). Por exemplo, embora houvesse um grande número de prisioneiros de guerra na Antiga Era, eles geralmente não eram transformados em escravos, mas sim em cultivadores, servos:

“Dentro de todos os períodos da antiguidade, egípcios, mesopotâmicos, hititas, persas e outros governos líderes orientais conseguiam um grande número de cativos de suas batalhas vitoriosas. Mas apenas uma parte insignificante deles era transformado em escravos; todos os outros se ajustavam nessas terras, servindo nos palácios e templos. A pergunta que surge é: Por que esse grande número de prisioneiros de guerra não eram escravizados. A escravidão era a forma ideal de dependência, e muitas vezes não havia escassez de prisioneiros capturados na guerra. Além disso, não existiam normas legais ou éticas que impedissem esses prisioneiros de serem transformados em escravos. Mas isso aconteceu apenas com uma porcentagem insignificante de casos, enquanto a esmagadora maioria foram assentadas em lugares especialmente reservados para eles, pagavam impostos reais, e realizavam obrigações, incluindo o serviço militar.” [5]
“A guerra é mencionada como fonte de escravos apenas para as instituições públicas. O método de escravização mais frequentemente mencionado é a venda de crianças por seus pais, a maioria sendo mulheres, evidentemente viúvas, vendendo uma filha;… Há também exemplos de auto-venda.” (1.199) [6]

O mesmo, é claro, pode ser dito de Israel. Mesmo em guerras em solo estrangeiro (por exemplo, Dt 20.10,11), se a cidade se rendesse, tornava-se um estado vassalo de Israel, com a população tornando-se serva (mas), não escrava (
ebedamah). Eles realizariam o que é chamado de ‘corvéia’ (desenhos e projetos especiais de trabalho, como os israelitas mais tarde fizeram com Masim sob o Reino de Salomão, 1 Reis 5.27). Isso era análogo à práxis da Antiga Era, em que os prisioneiros de guerra não eram escravizados, mas convertidos em grupos de vassalos:

“As nações submetidas pelos israelitas eram consideradas escravas. No entanto, elas não eram escravas no sentido próprio do termo, apesar de terem sido obrigadas a pagar impostos reais e a realizar obras públicas.” [7]

E já que a escravidão era feita através de auto-venda ou venda pela família, ela era igualmente voluntária (pelo menos voluntário a medida que a pobreza permitia), cf. Lv 25,44 em que os verbos retratam ‘adquirir’ e não ‘tomar’ ou ‘conquistar’, etc.


Diferença 3 – Tratamento: No Ocidente os escravos eram frequentemente mal-tratados (de acordo com os padrões modernos) e as punições eram extremas.


Basta mencionar aqui que Ex 21:21 restringe o tratamento do dono ao escravo a não ser mais grave do que o que a comunidade (ou os anciãos) poderiam fazer com um cidadão livre qualquer. Esta restrição sobre o proprietário deve fazer-nos perguntar o que é que a palavra “propriedade” significa nesse contexto!


Na Antiga Era, os escravos eram geralmente protegidos contra abusos (em condições normais, fugitivos eram um problema, como veremos):

“Os escravos eram geralmente protegidos contra o castigo físico excessivo. Mesmo escravos fiduciários parecem ter se beneficiado de alguma forma desta proteção”(1:43) [8]

E todos os registros do período parecem indicar um tratamento humano:

“Primeiro, vamos separar os escravos – o espólio de guerra, ou de servidão por várias razões – que por definição eram totalmente dependentes de seus mestres, embora os últimos parece ter sido tratados de maneira justa e com humanidade, mais como se fossem empregados domésticos.” (114) [9]

Diferença 4 – 
Moradia: No Ocidente os escravos viviam em separação radical de seus proprietários e não participavam de muitos “benefícios” de seus proprietários.

“Além disso, em geral, havia apenas uns poucos em cada domicílio [Israel] – não há nenhuma indicação, por exemplo, que grandes grupos de escravos estivessem trabalhando em condições deploráveis, cultivando grandes propriedades, como no posterior mundo romano” (111) [10]

Diferença 5 – Saída: No Ocidente, a escravidão era perpétua. Nunca houve qualquer meio de obtenção de liberdade que estivesse previsto no contrato. No caso de um proprietário garantir liberdade, nenhuma propriedade saía com o homem livre.

Na Antiga Era, embora algumas culturas tivessem um “período suficiente para quitação da dívida” (6 anos em Israel), a alforria com “bens móveis” era rara porque ela geralmente não era requisitada. As questões de segurança econômica e das relações quase que familiares que se desenvolviam dentro da unidade familiar, criavam pouco incentivo para que o servo se tornasse “independente”:

“Geralmente, a autonomia individual significava exposição ao perigo e a predação; a segurança estava justamente na proteção conferida pela dependência dos escravos a seus patrões. O que era desejável não era a liberdade, mas o pertencimento.” (4.1191) [11]

Conclusão


Concluímos, portanto, que qualquer tentativa de assimilar a escravidão descrita no VT com a escravidão que ocorreu no Ocidente Moderno se dá por pura falta de conhecimento da história da Era Antiga e do que está relatado na Bíblia.


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Referências:
1 – “A History of Ancient Near Eastern Law” Vol.1, pg 632. Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
2 – Encyclopedia of Cultural Anthropology Vol. 4,pg 1190f David Levinson and Melvin Ember (eds), HenryHolt:1996.
3 – “A History of Ancient Near Eastern Law” Vol.2, pg 632. Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
4 - Ibidem.
5 – Anchor Bible Dictionary, David Noel Freedman (main ed.), DoubleDay:1992
6 - A History of Ancient Near Eastern Law” Vol.2, pg 632. Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
7 - Anchor Bible Dictionary, David Noel Freedman (main ed.), DoubleDay:1992
8 - A History of Ancient Near Eastern Law (2 vols). Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
9 – Everyday in Ancient Mesopotamia. Jean Bottero (Antonia Nevill, trans). JohnsHopkins:1992/2001.

10 - The Israelites, B.S.J. Isserlin, Thames and Hudson:1998.
11 – Encyclopedia of Cultural Anthropology (4 vols), David Levinson and Melvin Ember (eds), HenryHolt:1996.

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Autor: Glenn M. Miller
Fonte: Christian Think Tank
Adaptado e traduzido por: Erving Ximendes
Via: Olhai e Vivei

[Nota do editor] Para uma análise mais profunda, leia também: 
• FRAME, John. A Doutrina da Vida Cristã, São Paulo - Ed. Cultura Cristã. Págs. 622-630 (Sobre Escravidão).
• BERTI, Marcelo>A Escravidão, a Escritura e a Hermenêutica. Acesso em 28/03/2016.
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