O Ponto Fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus

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A Assembleia de Deus é uma das denominações mais conhecidas das igrejas evangélicas no Brasil. De acordo com o censo de 2010, do IBGE, ela é o maior segmento evangélico, com 12 milhões de fiéis, e o segundo maior do Brasil, atrás da Igreja Católica. Além de ser influente no Brasil, vale ressaltar que a Assembleia é uma denominação popular em vários países do mundo, sendo reconhecida internacionalmente.

As Assembleias originaram-se do ressurgimento pentecostal do início do século XX. Esse avivamento levou à fundação das Assembleias de Deus nos Estados Unidos em 1914. Através da obra missionária estrangeira e estabelecendo relações com outras igrejas, as Assembleias de Deus se expandiram para um movimento mundial. E, como toda comunhão pentecostal, as Assembleias de Deus acreditam no distintivo pentecostal do batismo no Espírito Santo, com a evidência de falar em línguas.

O presente artigo é baseado na Declaração de Fé da Assembleia de Deus, e tem como finalidade contrariar algumas doutrinas citadas na obra. Para isso, serão apresentados os equívocos teológicos presentes nesse credo e, posteriormente, diagnosticaremos a razão de sua existência – o ponto fraco – tomando como referência as doutrinas reformadas, as quais, julga o autor, têm apoio escriturístico mais coerente.

A Apresentação da Declaração de Fé da Assembleia diz que

1. A DF¹ não oferece nenhuma oportunidade para vicissitudes.
2. A DF tem íntima e inseparável comunhão com as doutrinas bíblicas.
3. A DF possui um grande rigor na observação doutrinária.
4. A DF serve como um guia contra falsas doutrinas.

Dessa forma, a missão deste artigo é

1. Mostrar que algumas doutrinas da DF possuem falhas interpretativas, contradições e instabilidades.
2. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm fundamento lógico e/ou coerência.
3. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm apoio bíblico ou se apoiam em um texto bíblico interpretado de maneira forçada.
4. Finalmente, mostrar que, apesar da DF ter o objetivo de proteger seus fiéis contra heresias, ela mesma é uma fonte de onde podem surgir heresias, por causa de seus próprios equívocos perigosos. 


1. SOBRE A SALVAÇÃO

1.1. ARMINIANISMO (FACTS)

A Assembleia demonstra, em sua DF, seguir a corrente soteriológica arminiana, que apresenta cinco pontos.

F: Livre pela Graça (Freed by Grace)
A: Expiação Ilimitada (Atonement for All)
C: Eleição Condicional (Conditional Election)
T: Depravação Total (Total Depravity)
S: Segurança em Cristo (Security in Christ)

Segundo os ensinos de Armínio, cada pessoa tem livre arbítrio (Livre pela Graça) para escolher seguir a Deus ou não. Sendo assim, para ser salvo, é o homem que deve se movimentar em direção a Cristo. Para o arminianismo, Deus elegeu para a salvação aqueles que Ele sabia que aceitariam a salvação (Eleição Condicional). Sendo assim, trata-se de uma eleição condicionada à ação do homem, que somente precisa ter fé para ser salvo. Quanto à expiação, acredita-se que foi ilimitada (Expiação Ilimitada), ou seja, Cristo morreu por todos e pagou pelos pecados de todos. Porém, o ser humano pode resistir à ação do Espírito Santo em sua vida (Graça Resistível) e escolher não ser atraído por ela para a salvação em Cristo. E em relação a durabilidade da salvação, um homem pode deixar de ser salvo caso peque e não se arrependa e não persista nas boas obras (Segurança em Cristo).

1.2. CALVINISMO (TULIP)

No século XX, ocorreu o Sínodo de Dort na Holanda. A razão para este concílio foi discutir o crescimento de uma doutrina nova e diferente na Igreja Reformada Holandesa: o arminianismo. A agenda da discussão incluiu cinco temas fundamentais sobre a salvação, os quais foram interpretados por João Calvino: a depravação total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a perseverança dos santos. No final do Sínodo, Jacó Arminio e seus ensinos haviam sido oficialmente rejeitados pela Igreja por estarem em discordância com tais temas. Assim, TULIP é o acróstico que abrange os 5 pontos da soteriologia reformada de uma forma simples e concreta.

T: Depravação Total (Total Depravity) 
U: Eleição Incondicional (Unconditional Election)
L: Expiação Limitada (Limited Atonement) 
I: Graça Irresistível (Irresistible Grace) 
P: Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints) 

A Depravação Total diz que toda a humanidade foi afetada, danificada e distorcida pela entrada do pecado no mundo, de modo que estamos mortos em nossas transgressões e pecados (Ef 2.5), e nós mesmos não podemos mudar a nossa situação sem a graça do Espírito Santo (Cl 2.13), pois somos inclinados, por natureza, ao mal. As doutrinas do pecado e a depravação total do homem são mais do que bem representadas em ambos os testamentos (cf. Is 53.6; 2 Cr 6.36; Rm 3.9-12; 1 Jo 1.8,10; Mc 10.18; Mq 7.2-4; Jr 17.9; Mt 15.19; Gn 6.5, 8.21). 

A Eleição Incondicional afirma que Deus escolhe a quem Ele quer escolher. Uma vez que estamos mortos, a única saída da nossa morte espiritual é que Deus nos tire dela (2 Tm 1.9). Se realmente cremos que somos maus, não temos o direito de reclamar que Deus exerça Sua graça soberanamente (Rm 9.11-16). A eleição incondicional significa simplesmente que Deus escolhe dar a vida eterna sem ter visto nada de bom nos eleitos. Assim, alguns homens são predestinados à vida eterna; e outros são predestinados à morte eterna. E isso fica claro em João 15.16 e é comum na teologia paulina (cf. Ef 1.4-5; 1 Ts 1.4-5; 2 Ts 2.13; 1Co 1.27-29). 

A Expiação Limitada explica que a morte de Cristo paga por todos os pecados daqueles que foram eleitos. O perdão dos pecados está disponível para todos os pecadores e a expiação de Cristo é suficiente para que toda a humanidade seja salva (independentemente de crerem ou não), mas é eficiente somente para aqueles que creem, isto é, aqueles a quem o Pai predestinou desde a fundação do mundo. Isso pode ser visto em vários textos (cf. Ef 1.4; Is 53.11; 2 Co 5.21; Jo 10.11-29). 

A Graça Irresistível diz que ninguém pode negar ou resistir à graça salvadora de Deus. Quando a graça vem, nunca pode ser rejeitada: sua eficácia é perfeita. Isto significa que se Deus escolheu alguém, não há como essa pessoa não ser salva. Todos a quem Deus elegeu para a salvação serão inevitavelmente salvos a seu tempo determinado por Deus. Quem somos nós para dizer ‘não’ ao Senhor (Rm 9.19-20)? Assim, vemos o poder da graça em toda a Escritura (cf. Jo 6.37,44,65; 2 Ts 2.13-14; 1 Co 1.9). 

A Perseverança dos Santos conclui que os escolhidos perseverarão até o fim. Filipenses 1:6 nos diz: “Estou convencido precisamente disto: que aquele que começou a boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Isto não se refere ao chamado “uma vez salvo, sempre salvo”, que uma vez que somos escolhidos por Deus, podemos viver como quisermos. Pelo contrário, diz-nos que, na soberania de Deus, aqueles que Ele escolheu para a salvação sustentarão aquela confissão de conversão até à sua morte, perseverando na vida de santidade. Esta verdade é citada várias vezes na Bíblia (cf. Rm 8.35-39; 2 Pe 1.10; Jo 10.28,29; 1 Jo 3.9; 1 Pe 1.5,9). 

“Quem Deus aceitou em seu Amado, e que foi efetivamente chamado e santificado pelo seu Espírito, não pode cair completa ou definitivamente do estado de graça, mas deve seguramente perseverar nele até o fim, e serão salvos eternamente (...) Esta perseverança dos santos não depende do seu livre arbítrio, mas da imutabilidade do decreto de eleição, que brota do amor livre e imutável de Deus Pai” (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 17, I, II)

1.3. REFUTAÇÃO AO ARMINIANISMO

1.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que não há eleição para a condenação e que Deus deseja a salvação de todos, pagando, assim, pelos pecados de todos (p. 110, l. 12-15). Ora, se há um grupo de pessoas selecionadas por Deus para serem salvas, consequentemente, há um outro grupo selecionado por Deus para a condenação (Rm 9.21). E isso não torna Deus injusto ou mal, pois a verdade é que a salvação não é algo que merecemos (Ef 2.8-9). Deus não “deveria” nos salvar, Ele não possui uma dívida para conosco. Além do mais, a eleição não foi feita com base em preferencialismos (Ef 1.4). Ele não escolheu os mais ricos, os mais nobres, os mais piedosos, os mais santos, até porque não somos nada disso e, se comparados a soberania de Deus, que somos (1 Pe 1.24)? Por fim, dizer que o sacrifício de Cristo expiou os pecados de todos é o mesmo que dizer que aqueles que não aceitaram a Cristo tornaram a morte dEle um fracasso, já que não serviu para a salvação dos que não a desejam.

1.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que a graça é resistível por causa do livre arbítrio (p. 110, l. 17). Se pararmos para pensar, essa afirmação enaltece o homem e diminui a soberania de Deus. De acordo com a depravação total, o ser humano é corrupto por natureza, logo, não pode, pelo seu livre arbítrio corrompido pelo pecado, escolher a Deus. Porém, quando o Espírito Santo chama um eleito, a seu tempo determinado por Deus, ele não pode resistir, pois quem pode resistir aos planos do Altíssimo (Jó 42.2)? Obviamente, por vezes, podemos ser desobedientes e obstinados. Não somos perfeitos. Mas isso não impede a Deus de fazer o que quer. Deus não depende das nossas escolhas, como se submetesse ou se adaptasse às nossas decisões. Antes, Ele já sabe o que vamos fazer (Sl 139). 

1.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação da perda da salvação (cap. X, ponto 6). Acerca disso, vejamos alguns pontos.

1. Ter tal crença significa subestimar o poder do sacrifício de Cristo. Porém, o Senhor Jesus Cristo morreu pelos pecados de toda humanidade, e, além disso, esse sacrifício foi perfeito e resolveu para sempre o problema do pecador (Hb 10.12). 

2. Sim, o cristão deve vigiar sempre (Mt 26.41, 1 Co 10.12, 1 Ts 5.17) e é claro que pecar e se desviar traz consequências danosas para nossa saúde espiritual e para a nossa vida pessoal (Ez 18.24). Porém, isso não quer dizer que pagaremos pelos nossos pecados com a perda da salvação, porque Cristo perdoa nossos pecados (1 Jo 1.9) e já pagou por eles na cruz. Quem nos separará do amor de Cristo (Rm 8.33-35,37-39)?

3. O verdadeiro salvo, quando peca, sempre pede perdão a Deus e volta às veredas da justiça (Lc 15.32, Sl 51). Porém, aquele que se diz salvo, porém ama pecar, nunca foi salvo (1 Jo 2.18,19; Jo 8.32), pois a santificação, processo de consagração constante a Deus, é o que nos dá certeza da Salvação, evidenciando-a (1 Jo 2.3-6). Deus é fiel para cumprir a obra da salvação na vida dos seus filhos e os preserva ao longo de toda vida com sua graça (Fp 1.6, Hb 10.23, 1 Co 1.8,9). Portanto, a salvação não é certificada no começo, isto é, na regeneração, mas no fim (Mt 24.13).
 
2. SOBRE OS DONS ESPIRITUAIS

2.1. CONTINUACIONISMO

A DF professa e ensina que “os dons do Espírito Santo são atuais e presentes na vida da Igreja (...) São recursos sobrenaturais do Espírito Santo operados por meio dos seres humanos, os crentes em Jesus, enquanto a Igreja estiver na terra” (página 171). Assim, a Assembleia demonstra seguir a corrente continuacionista acerca da atualidade dos dons espirituais, entre eles, o dom de curar (cap. XX, ponto 4), o dom de falar em línguas e o dom de profetizar (cap. XX, ponto 5). O continuacionismo é a crença de que todos os dons espirituais, incluindo curas, línguas e milagres, ainda estão em operação hoje, exatamente como estavam nos dias da igreja primitiva.

2.2. OS DONS AO LONGO DA HISTÓRIA

Em contrapartida, façamos uma cronologia histórica dos dons espirituais com base nas afirmações de homens de Deus que marcaram a vida da Igreja.

1. Agostinho (354-430)

“Nos tempos antigos, o Espírito Santo veio sobre os crentes e eles falaram em línguas que não haviam aprendido, conforme o Espírito concediam que falassem. Aquilo foi o sinal do Espírito Santo em todos os idiomas para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser espalhado a todas as línguas sobre a terra. Isto foi feito por um sinal, e o sinal findou.” (Fonte: Agostinho. Homilias sobre a Primeira Epístola de João, 6.10. Cf. Schaff, NPNF, First Series, 7:497-98)

2. Martinho Lutero (1483-1546)

“Na Igreja primitiva, o Espírito Santo foi enviado de forma visível. Ele desceu sobre Cristo na forma de uma pomba, e à semelhança de fogo sobre os apóstolos e outros crentes. Esse derramamento visível do Espírito Santo foi necessário para o estabelecimento da Igreja primitiva, como também foram necessários os milagres que acompanharam o dom do Espírito Santo. Paulo explicou o propósito destes dons miraculosos do Espírito em 1 Coríntios 14:22, “as línguas são um sinal, não para os que creem, mas para os que não creem”.  Uma vez que a Igreja tinha sido estabelecida e devidamente anunciada por estes milagres, a aparência visível do Espírito Santo cessou.” (Fonte: Martinho Lutero, traduzido por Theodore Graebner [Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949], p. 150-172. A respeito do comentário de Lutero sobre Gálatas 4.6)

3. João Calvino (1509-1564)

“Embora Cristo não declare expressamente se Ele pretende que esse dom [de milagres] seja temporário ou permaneça perpetuamente na Igreja, é mais provável que os milagres tenham sido prometidos apenas por um tempo, para dar brilho ao evangelho enquanto ele era novo ou em estado de obscuridade.” (Fonte: João Calvino, Comentário sobre os Evangelhos Sinóticos, III: 389.)

4. Mattew Henry (1662-1714)

“O dom de línguas foi um novo produto do espírito de profecia e dado por uma razão particular: mostrar [aos judeus] que todas as nações podem ser conduzidas à igreja. Estes e outros sinais da profecia, começaram como sinais, e há muito cessaram e foram deixados para trás, e nós não temos nenhum incentivo para esperar um avivamento deles; mas, pelo contrário, somos direcionados para o chamado das Escrituras, a mais certa palavra de profecia, mais certa que vozes dos céus, a qual nos orienta a tomar cuidado, a buscá-la e firmarmo-nos nela.” (Fonte: Mattew Henry, Prefácio ao Vol IV de sua Exposição do At e NT, vii.).

5. Jonathan Edwards (1703-1758)

“Nos dias de sua [Jesus] encarnação, os seus discípulos tinham uma medida dos dons miraculosos do Espírito, sendo habilitados desta forma para ensinar e fazer milagres. Mas, depois da ressurreição e ascensão, ocorreu o mais completo e notável derramamento do Espírito em seus dons milagrosos que já existiu, começando com o dia de Pentecostes, depois da ressureição Cristo e Sua ascensão ao céu. E, em consequência disto, não somente aqui e ali uma pessoa extraordinária era dotada de dons extraordinários, mas eles eram comuns na igreja, e assim continuou durante a vida dos apóstolos, ou até a morte do último deles, mesmo o apóstolo João, que viveu por cerca de cem anos desde nascimento de Cristo, de modo que os primeiros cem anos da era cristã, ou o primeiro século, foi a era dos milagres. Mas, logo após a finalização do cânon da Escritura quando o apóstolo João escreveu o livro do Apocalipse, não muito antes de sua morte, os dons miraculosos tiveram seu fim na igreja. Pois, agora, a revelação escrita da mente e da vontade de Deus estava completa e estabelecida. Revelação na qual Deus havia perfeitamente gravado uma regra permanente e totalmente suficiente para Sua igreja em todas as eras. Com a igreja e a nação judaica derrotadas, e a igreja cristã e a última dispensação da igreja de Deus estabelecidas, os dons miraculosos do Espírito já não eram mais necessários e, portanto, eles cessaram; pois embora eles tenham continuado na igreja por tantas eras, eles se extinguiram, e Deus fez com que fossem extintos porque já não havia ocasião favorável a eles. E assim foi cumprido o que está dito no texto: “Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”.  E agora parece ser o fim para todos os frutos do Espírito tais como estes, e não temos mais razão de esperar que voltem.” (Fonte: Jonathan Edwards, sermão intitulado “O Espírito Santo deve ser comunicado ao Santos para sempre, In na graça da caridade, ou amor divino”, em 1 Coríntios 13:8). 

2.3. CESSACIONISMO

Nesse sentido, concluímos que os relatos de tais homens seguem a visão do Cessacionismo, na qual formula-se que parte dos chamados dons do Espírito Santo, tais como profecias, línguas e curas, apesar de terem sido de fundamental utilidade e importância nos primórdios da igreja cristã, cessaram de existir ainda no período da Igreja Primitiva. Entendem os cessacionistas que tais e restritos dons serviram a um propósito, isto é, a fundação da Igreja Primitiva, momento que os apóstolos teriam que cumprir o ide sem possuírem qualificação de doutores ou mestres. Assim, o encerramento do livro teria tornado dispensável a existência dos dons milagrosos e de profecias.

2.4. REFUTAÇÃO AO CONTINUISMO

2.4.1. 1ª AFIRMAÇÃO

A DF diz que os “dons de curas são manifestações do poder do Espírito Santo que operam de maneira multiforme para cura de doenças e enfermidades do corpo, da alma ou psicossomáticas, sempre concedidas pelo Espírito Santo à pessoa que irá ministrá-la” (cap. XX, ponto 4). E, por crerem na atualidade dos dons, as curas podem ser ministradas até hoje.

Porém, é importante destacar que os dons de cura tinham um propósito. Vemos nas Escrituras que a cura era associada com o ministério de Jesus e dos apóstolos (Lc 9.1-2). E vemos que à medida em que a era dos apóstolos chegou a um fim, a cura tornou-se menos frequente. Isto porque o dom de cura e de realização de milagres teve o propósito de autenticar o apostolado. E, ao final da era apostólica, a ministração de sinais e prodígios adicionais tornaram-se progressivamente desnecessários.

Vale ressaltar que os cessacionistas creem plenamente em milagres, curas e todo o tipo de maravilhas e sinais nos dias de hoje, desde que operados diretamente por Deus, e não por intermédio de outrém, como um dom.

2.4.2. 2ª AFIRMAÇÃO

A DF, inicialmente, afirma que “não necessitamos de uma nova revelação extraordinária (...) para nosso crescimento espiritual (...) O livro de Provérbios reafirma a inteireza e a pureza da Bíblia Sagrada: ‘Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso’ (Pv 30.6)” (cap. I, ponto 6) e com isso parece defender a Sola Scriptura, que diz:

“Reafirmamos a Escritura inerrante, como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. 

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.” (Declaração de Cambridge, Tese 1: Sola Scriptura)

Entretanto, posteriormente, a DF passa a afirmar que “Deus fala conosco por meio de sua palavra (pregação e ensino) e das manifestações dos dons espirituais” (cap. XV, ponto 1), tornando incoerente sua defesa inicial da Sola Scriptura e deixando clara a crença de que, ainda hoje, Deus pode falar através de experiências interpessoais de revelação profética. 

Porém, o cessacionismo defende que, com o cânon bíblico fechado, o termo “profecia”, que é a mensagem de Deus para o seu povo, passa a se referir, agora, às Escrituras Sagradas e profeta é o pregador que, através da Palavra, edifica, exorta e consola (1 Co 14.3). “O dom de profecia”, diz o Rev. Augustus Nicodemus, importante defensor do Cessacionismo no Brasil, “continua hoje, conforme entendo, mas somente enquanto exortação, consolo, confrontação pela Palavra. Já o aspecto revelatório da profecia que vemos, por exemplo, em João ao escrever Apocalipse, ou em Paulo e Pedro ao prever como será o futuro, a vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos etc., isso certamente não faz parte da profecia de hoje. Já cessou”.

2.4.3. 3ª AFIRMAÇÃO

A Assembleia de Deus também acredita na atualidade do dom de línguas e no seu papel como evidência inicial do batismo no Espírito Santo (p. 165) e, por esse motivo, a busca por esse dom é bastante incentivada pela Igreja. Além disso, creem que a natureza dessas línguas pode ser humana ou celestial (p. 168). Acerca disso, elencam-se os esclarecimentos.

1. O dom de línguas teve um propósito temporário e nasceu como um sinal para a descrente Israel de que a salvação de Deus estava agora disponível para outras nações (1 Co 14.21-22; Is 28.11-12). A observação atual confirma que o milagre de línguas cessou. Se esse dom, em sua forma pura, ainda estivesse disponível hoje, não haveria necessidade de missionários frequentarem uma escola de línguas. Os missionários seriam capazes de viajar para qualquer país e falar qualquer língua fluentemente, assim como os apóstolos foram capazes de fazer em Atos 2. 

2. O dom de línguas possibilitava a pregação da Palavra de Deus em línguas estrangeiras, isto é, idiomas (At 2.6-11), para mostrar que Deus pode capacitar uma pessoa a pregar sua Palavra numa língua estrangeira, a qual ele nunca estudou. Nesse sentido, vale ressaltar que a língua dos anjos citada em 1 Coríntios 13.1 é uma figura de linguagem denominada hipérbole, utilizada na passagem para explicar a supremacia do amor em relação aos dons espirituais.

2.5. A PROFECIA DO PENTECOSTES

A Assembleia de Deus acredita na continuidade e na atualidade dos dons com base na profecia de Joel 2.28-32 e Atos 2.16-21, 39. Porém, alguns pontos têm sido interpretados de maneira errada. Assim, segue-se a interpretação adequada.

28. E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.  29. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito.  30. E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça.  31. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. 32. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar. (Joel 2:28-32)

v.28,29. “Depois”, expressão também conhecida por “últimos dias” (At 2.17), se refere aos tempos de Pedro, isto é, a Igreja Primitiva. E isso se deduz a partir do momento em que ele usa essa profecia para explicar o que estava acontecendo em seus dias. “Toda a carne” prenuncia a inclusão de judeus e gentios em um só corpo, o Corpo de Cristo (Ef 2.11-3.6). “Vossos filhos e vossas filhas (...)” dizem respeito a uma era em que o derramamento do Espírito manifestaria o poder de Deus em todos, sem distinção de gênero, idade ou classe social. 

v.30,31. Os prodígios celestes descritos nesse trecho acontecerão antes do grande e terrível dia do Senhor, o que é uma referência ao fim dos tempos.

v.32. Aquele que invoca o nome do Senhor, ou seja, que se arrepende e crê, será salvo no Dia do Senhor. Ao mesmo tempo, essas palavras também se aplicam à libertação espiritual de povos arrependidos em qualquer período da história humana.

2.6. SOBRE O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO

2.6.1. 1ª REFUTAÇÃO

O capítulo XX da DF afirma que “o batismo no Espírito Santo é um dom”. Já o capítulo XIX diz que o batismo no Espírito Santo “trata-se de uma experiência espiritual que ocorre após ou junto à regeneração” e “é algo distinto do novo nascimento”. Acerca disso, a teologia reformada diz que o batismo com o Espírito Santo é o ato único e restritivo aos que nasceram de novo, ou seja, aos que foram levados pelo Espírito a Cristo para a salvação. Diante disso, podemos dizer que uma das finalidades do batismo com o Espírito Santo é a inclusão do cristão no corpo de Cristo, que é composta de todos os salvos. A carta paulina aos Efésios deixa claro que o batismo com o Espírito Santo é o penhor da nossa herança e o selo desta promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.13,14).

2.6.2. 2ª REFUTAÇÃO

A DF também afirma que “o falar em línguas é a evidência inicial desse batismo” (p. 165, l. 12). Porém, não há nenhum sinal externo específico para aquele que foi batizado com o Espírito Santo. Quando se fala que não há nenhum sinal externo, é bom que fique claro que se refere a manifestações sobrenaturais como evidência de ter se recebido tal batismo. Agora, é claro que aquele que foi batizado pelo Espírito Santo no ato de sua conversão, começa a evidenciar mudanças profundas em seu caráter e modo de vida. O que se pode dizer com certeza é que os sinais que atestam esta experiência são os mesmos da conversão, isto é, o fruto do Espírito (Gl 5.22)

2.6.3. 3ª REFUTAÇÃO

A Assembleia de Deus trata o batismo com o Espírito Santo com tanta seriedade a ponto de apresentar isso como critério para a ordenação de obreiros (p. 137, l. 1-3), sob a referência de que os obreiros devem “ser cheios do Espírito” (At 6.3) e que a principal função do batismo com o Espírito Santo é habilitar o Cristão a realizar o ide (p. 166, l. 13-14). Quanto a isso, temos que não é necessário falar em línguas para anunciar o evangelho. Ser salvo, isto é, ter o Espírito Santo, já nos dá o dever de anunciar a Cristo (Mc 5.18-20; Jo 4.28-29). Além disso, não falar em línguas não deveria impedir alguém de fazer a obra de Deus, uma vez que em 1 Tm 3.1-13, que apresenta critérios para cargos relevantes como o episcopado, o diaconado e o pastoreado, não tem como critério falar em línguas, mas sim uma vida irrepreensível, que é o que realmente caracteriza alguém como cheio do Espírito Santo.
 
3. SOBRE O FIM DOS TEMPOS

3.1. PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA

A DF apresenta, em seus capítulos XXII e XXIII, um enredo sobre o fim dos tempos semelhante à corrente escatológica pré-milenista dispensacionalista.

De acordo com essa corrente escatológica, Cristo voltará duas vezes. A primeira volta será uma vinda somente para a igreja, antes da Grande Tribulação, resultando no arrebatamento dos santos. Este rapto será secreto (o mundo não verá) e iminente (pode ocorrer a qualquer momento). A primeira vinda resultará também na primeira ressurreição, que envolve apenas os que morreram em Cristo. Logo em seguida ao arrebatamento, ocorrerá no céu o primeiro julgamento, chamado de Tribunal de Cristo. Este terá como objetivo a distribuição de galardões para os crentes arrebatados.

Posteriormente, enquanto os salvos estiverem festejando no céu as Bodas do cordeiro, o Anticristo (a besta) surgirá com o Falso profeta e fará um concerto (na verdade, um governo mundial) de sete anos com Israel. Entretanto, na metade desse período, o concerto será rompido e Jerusalém, após ter sido enganada, será tomada e a grande apostasia será deflagrada, dando início à Grande Tribulação em toda terra. Vale ressaltar que nesse momento, a salvação passa a ser um prêmio pelo martírio daqueles que rejeitarem o governo do anticristo. No fim desta Tribulação, acontecerá a Segunda Volta de Cristo com todos os seus santos.

Nesta Segunda volta se dará a Batalha do Armagedom, onde Jesus destruirá a besta e o falso profeta. Após isso, instaurará o Tribunal das Nações (segundo julgamento), trazendo ira e vingança contra as nações que se colocaram contra Jerusalém e ainda promoverá a ressurreição dos santos (segunda ressurreição) que morreram durante a tribulação e aprisionará Satanás por mil anos. A partir deste momento, terá início o reino milenar de Cristo. Jerusalém será a sede deste reino e todos os vivos da terra serão seus cidadãos. E então, não haverá mais pecado, nem morte, mas sim prosperidade e longevidade. 

Com o fim do milênio, Satanás será solto, mas rapidamente lançado no lago de fogo, onde já se encontram a besta e o falso profeta. Depois, os ímpios ressuscitarão (terceira ressurreição) para serem julgados (terceiro julgamento), condenados e destinados ao inferno. E, finalmente, os salvos terão seu destino, o novo céu e a nova terra.

3.2. AMILENISMO

De acordo com o amilenismo, o primeiro evento a acontecer é a grande tribulação (com a igreja na terra) e o surgimento do anticristo, ocasionando a apostasia de muitos cristãos e grande angústia na terra. Depois, Cristo volta, em um evento único e visível a todos, e nessa vinda, acontece o arrebatamento. Em seguida, acontece a ressurreição geral de salvos e ímpios para serem julgados no Tribunal de Cristo. Assim, os salvos recebem a vida eterna para reinarem com Deus no novo céu e na nova terra e os ímpios a recebem a condenação eterna e são lançados no inferno com Satanás e seus aliados derrotados.

Para os amilenistas, a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus, pois Deus tem apenas um povo. O milênio não é um reino literal de mil anos, mas sim um reino espiritual que começou na primeira vinda de Cristo, isto é, desde a ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, e terminará na segunda vinda de Cristo. E a prisão de Satanás significa, simplesmente, que ele não pode conter o avanço do evangelho de Cristo.

3.3. REFUTAÇÃO AO DISPENSACIONALISMO

3.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que a vinda de Cristo terá duas fases e será invisível ao mundo. Porém, a Palavra de Cristo mostra que Sua Segunda Vinda será um evento único, visível e tangente à toda humanidade. Ap 1.7 diz claramente: “Eis que vem com a nuvens e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” 

3.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que na segunda volta de Cristo, os mártires da grande tribulação serão salvos, como um remanescente que se vale de uma segunda chance. Porém, em 2 Tessalonicenses 1.3-12, Paulo nos mostra que quando Jesus voltar, todos os que, até este momento, não se decidiram por Jesus, serão lançados no fogo do inferno. Não haverá segunda chance, nem oportunidade de arrependimento, pois o Senhor vem trazendo vingança contra “aqueles que não obedecem ao evangelho de Cristo”.

3.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Terceiro, temos a afirmação de que haverá mais de uma ressurreição e que a ressurreição dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, em João 5.27-29, lemos que tanto os justos quanto os ímpios ressuscitarão no mesmo dia, sendo que, os justos para a vida e os ímpios para a morte. Da mesma forma, Em Daniel 12.2, nos é dito que tanto salvos quanto condenados ressuscitarão no mesmo momento. 

3.3.4. 4ª AFIRMAÇÃO

Quarto, temos a afirmação de que haverá mais de um julgamento, isto é, o julgamento dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, todos os textos que fazem referência ao Juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre a humanidade no último dia. Em Mateus 25.31-43, toda humanidade, dividida em dois grupos – os salvos e perdidos – será citada e tomará lugar diante do Tribunal de Cristo. Em 1 Coríntios 4.5, tanto os filhos das trevas, quanto os salvos serão manifestos diante do Tribunal de Cristo para receber de Deus o galardão ou a reprimenda.

3.3.5. 5ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação de que a igreja será poupada da Grande Tribulação. Porém, segundo o sermão profético dado por Jesus, a igreja passará grande tribulação, a qual será interrompida pela sua volta (Mt 24.21-29). Da mesma forma, o apóstolo Paulo fala da Grande Tribulação que irá acometer a igreja nos dias que antecedem a volta de Cristo. Em 2 Ts 2.3, ele declara: “Ninguém de modo nenhum vos engane, porque isto (a volta de Cristo) não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição”. E, finalmente, em Ap 7.13-14 nos é dito que os crentes no céu saíram da Grande Tribulação. 
 
4. O PONTO FRACO

Todo o problema que envolve essas doutrinas da DF tem resposta em sua deficiência hermenêutica, a qual pode ser classificada como um misto de hermenêutica alegórica e hermenêutica literalista.

A corrente alegórica trata-se de um dos mais antigos métodos de interpretação de que se tem conhecimento, e surgiu nos séculos que sucederam à era apostólica. Os defensores deste método diziam que o verdadeiro sentido jazia sob o significado literal da Escritura, isto é, era oculto. 

Orígenis (185-254), grande representante desta corrente, cria ser as Escrituras uma vasta alegoria, na qual cada detalhe é simbólico, e dava bastante importância à 1 Coríntios 2.6-7 (“falamos a sabedoria de Deus em mistério”), cometendo assim, um erro muito comum entre alguns exegetas, que é dar importância demais a alguns textos bíblicos de forma isolada.

Porém, a corrente reformada, na qual foram baseadas todas as antíteses do presente texto, se apoia nos seguintes princípios:

1) A única regra de fé infalível de interpretação é a própria Escritura. Ou seja, quando houver dúvida sobre o sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto deve ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente;

2) O texto não pode ser estudado isoladamente, mas dentro do seu contexto bíblico geral;

3) Se o texto for obscuro, não deve ser usado como matéria de fé, isto é, respaldo para doutrinas;

4) Toda alegorização deve ser rejeitada como método de interpretação das Escrituras, exceto em caso que o próprio autor afirma se tratar de uma alegoria (Gl 4:24-26);

5) Toda interpretação deve ser dada levando-se em consideração o contexto histórico (a situação para a qual o autor está falando); a análise literária (a natureza, a redação e a estrutura do texto); a análise canônica (citações interbíblicas e comparação canônica) e o propósito do autor no contexto da obra;

6) Toda abordagem literal (literalismo) que não se justificar pelo contexto deve ser rejeitada;

7) Nenhuma interpretação deve ser tida como legítima se coloca a Escritura em contradição com a própria Escritura.

O ponto fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus consiste, portanto, na sua hermenêutica que, obviamente, não segue os princípios reformados.
 
5. CONCLUSÃO

Este trabalho não tem a intenção de denunciar, alterar ou criticar a Declaração de Fé da Assembleia de Deus; não tem a pretensão de ser tomado como palavra última em nenhuma matéria teológica, nem impor uma ditadura teológica; e não pretende apontar nenhuma doutrina aqui citada como falsa ou herética. 

Esse trabalho trouxe à luz, apenas, algumas discrepâncias existentes entre a interpretação assembleiana e a interpretação reformada de algumas doutrinas, na intenção de provocar uma reflexão sobre convicções teológicas, trazendo visões diferentes de algumas teses bíblicas e, acima de tudo, visando o conhecimento da Palavra de Deus.

Em suma, portanto, Soli Deo Gloria!

“Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmos 119.105)

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Notas:
1 -   Com o intuito de tornar a leitura menos maçante, usaremos, por vezes, “DF” ao invés de “Declaração de Fé da Assembleia de Deus”

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Autora: Gisllayne Silva
Contato: gis.alt.org@gmail.com
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Confessionalidade madura também se expressa através de submissão e coerência

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Recentemente vi um vídeo do trecho de uma palestra a respeito de como viver uma confessionalidade madura. Esse tipo de discussão é deveras importante, uma vez que há alguns anos o assunto da confessionalidade era quase que completamente ignorado em nosso meio. Aliado a isso está o fato de que há muitos jovens que, nas redes sociais, discorrem sobre o assunto de modo beligerante e sem qualquer caridade pelas pessoas que pensam de modo distinto.

A minha questão aqui gira em torno de algumas afirmações feitas na palestra, que, possivelmente até de modo inadvertido, esvaziem a autoridade das confissões reformadas de modo geral e, especificamente, dos Padrões de Westminster, símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, aos quais nós, ministros presbiterianos, juramos submissão.

Subscrição Confessional

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Uma afirmação credal ou confessional é uma afirmação daquilo que um indivíduo ou uma denominação confessa ser sua crença. Que afirmações credais são bíblicas é visto nas fiéis palavras que o apóstolo cita nas Epístolas Pastorais. Por exemplo: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Timóteo 1.15). A PCA [Presbyterian Church of America], logo quando surgiu, declarou-se comprometida com a Confissão e os Catecismos de Westminster, como sustentados pelas igrejas presbiterianas americanas desde 1789.

A ideia de subscrição é a do compromisso formal de si mesmo com aquilo que subscreve. O segundo voto de ordenação da PCA é um voto no qual o ordenando afirma a sua fé. Envolve a sua subscrição à Confissão e aos Catecismos de Westminster como a sua confissão de fé. Ele diz:

Você recebe e adota, sinceramente, a Confissão de Fé e os Catecismos dessa Igreja, como contendo o sistema de doutrina ensinado nas Sagradas Escrituras; e você promete também que, se em qualquer época você se encontrar em desacordo com qualquer dos fundamentos desse sistema de doutrina, por sua própria iniciativa fará conhecida ao seu presbitério a mudança ocorrida em suas opiniões, a partir do momento em que você assume este voto de ordenação? (BCO 21-5, 24-5) 

Antes de prosseguir, seria bom definir como entendemos os termos subscrição “estrita” e “ampla” significam. Em primeiro lugar, as duas palavras “estrita” e “ampla” não são os melhores termos pata descrever as duas visões em jogo no “debate sobre subscrição”. Essa terminologia remonta ao século XIX. De certa forma, os dois termos são caricaturas das posições que levam esses nomes. Em vez de “subscrição estrita”, a melhor descrição é “subscrição integral”. Podemos substituir a expressão “subscrição ampla” por “subscrição do sistema de teologia”, que será abreviada como “subscrição do sistema” ao longo deste texto.

Subscrição estrita ou integral leva em conta a pergunta citada acima: “Você recebe e adota, sinceramente, a Confissão de Fé e os Catecismos dessa Igreja, como contendo o sistema de doutrina ensinado nas Sagradas Escrituras...”. Ela sustenta que o ordenando está subscrevendo nada mais nada menos que a inteireza da Confissão e dos Catecismos como contendo o sistema de doutrina ensinado nas Escrituras. Não significa dizer que aquele que subscreve integralmente uma confissão não reconhece que alguns ensinamentos da Confissão e dos catecismos são mais fundamentais que outros, mas, sim, que ele acredita que ao professar que a Confissão e os Catecismos da sua igreja são a sua confissão, ele está subscrevendo todas as doutrinas na Confissão e nos Catecismos. Todas elas são parte do sistema de doutrina, embora, admitidamente, algumas sejam mais essenciais que outras. Note que subscrição integral não exige subscrição em termos de adotar cada palavra da Confissão e dos Catecismos, mas, sim, em termos de cada doutrina ou ensinamento da Confissão e dos Catecismos.

Subscrição ampla – ou do sistema –, por outro lado, sustenta que subscrevemos
um sistema de doutrina que não é definido especificamente, mas que está contido na Confissão e nos Catecismos da igreja. A subscrição do sistema sustenta a adoção de todas as doutrinas fundamentais e essenciais do sistema. Outras expressões das confissões e catecismos, que são julgadas como não essenciais ao sistema de doutrina são uma questão de indiferença, quer o ordenando as adote ou não. 

Envolvido em ambas as visões está o conceito de “doutrina”. Essencialmente, a palavra significa um ensinamento. Quando alguém que subscreve uma confissão de maneira integral insiste no fato de que a nossa subscrição inclui todas as doutrinas  nos Padrões Confessionais, ele não está insistindo em cada afirmação a respeito de cada uma daquelas doutrinas, mas, em vez disso, que cada uma das áreas do ensinamento tratado pelos Padrões está incluída em sua subscrição. Por outro lado, aquele que subscreve o sistema afirma que apenas as doutrinas que compõem o sistema são ordenadas na subscrição. Aquelas proposições ou expressões, e mesmo aquelas doutrinas que não são uma parte do sistema, não estão incluídas. A definição do que está incluído no sistema é algo que deve ser determinado pelos tribunais da igreja, na medida em que a ocasião surge.

Vamos ilustrar os tipos de diferenças que surgem. Aquele que subscreve uma confissão integralmente acredita que está comprometido todas as posições doutrinárias elencadas na Confissão e nos Catecismos. Ele está assim comprometido com a visão de casamento e divórcio ensinada na Confissão. Se um membro da sua igreja deseja casar com um católico romano, contra quem a Confissão fala de modo bem específico, aquele que subscreve integralmente a Confissão não sente que tem liberdade para realizar tal casamento. Em vez disso, deve advertir o seu paroquiano contra o mesmo. Aquele que subscreve o sistema de doutrina pode entender que parte do capítulo sobre casamento não faz parte do sistema, e pode sentir que possui perfeita liberdade para realizar tal casamento.

Um número de outras ilustrações poderia ser apresentado, tais como: visões a respeito do Sabbath, da condução dos serviços de culto, etc. Quem subscreve a Confissão de maneira integral defende o Sabbath como está expresso nos catecismos, enquanto quem subscreve o sistema pode sentir que tem liberdade para fazer um número de coisas proibidas pelos Catecismos. Tal é o caso com o Princípio Regulador do Culto. O subscritor integral enxerga isso como a posição da Igreja Presbiteriana, e não quer cruzes ou imagens de Cristo, no lugar do culto. Ele também deseja ser capaz de apontar diretamente, a partir da Escritura, tudo aquilo que é feito no serviço de culto.

O subscritor do sistema pode achar que o uso de cruzes, ou mesmo de imagens de Cristo, é permitido. Ele julga essa parte do Catecismo como uma a respeito da qual uma exceção pode ser tomada, uma vez que ele pode sentir que o sistema de doutrina bíblico não a exige. Quando observamos como as nossas visões da subscrição se aplicam à nossa prática pública, vemos o porquê de existir tanta tensão entre os dois grupos.

A pergunta que deve ser respondida é como as exceções devem ser tratadas. Vamos agora tentar estabelecer as implicações de cada um desses pontos de vista.

Primeiro, pode-se afirmar que nenhuma exceção deve ser permitida. Quando alguém subscreve a Confissão de uma igreja, ele adota aquela confissão como a sua própria, e não ensinará ou praticará o que é contrário a essa confissão. Ele decide, com a ajuda de Deus, que procurará ser verdadeiro à essa Fé tanto em seu ensino como em sua vida. Essa é a posição que o subscritor integral prefere. Entretanto, ela não é a única posição compatível com a posição da subscrição integral.

Do primeiro Ato de Adoção da Igreja Presbiteriana Americana (1729), foi feita provisão para homens afirmarem os seus escrúpulos diante do presbitério que os examinava. Então, o presbitério tinha o dever de determinar se o ponto de exceção era de natureza tal que excluía o candidato do ministério presbiteriano ou não. A pergunta acerca do que essa aprovação permitia permanecia para aqueles aprovados para ordenação com exceções. Era permitido que ele ensinasse essa visão, contrária aos Padrões da Igreja, ou era exigido que ele ensinasse a posição da Igreja?

O subscritor integral defende que a aprovação da exceção não é um acordo para
o indivíduo ensinar contra as doutrinas da Igreja. Se o candidato deseja ser um ministro presbiteriano, de boa vontade, ele deve se submeter aos irmãos, e ensinar apenas o que a Igreja adotou como sua posição. Se ele não pode fazer isso com boa consciência, então, ele deve buscar uma comunhão onde ele não esteja debaixo de tal restrição. Samuel Miller (1769-1850) escreveu a respeito dessa questão:

Definindo, então, como um primeiro princípio de honestidade, bem como da verdade cristã, essa subscrição dos Artigos de Fé é uma transação de peso, que realmente significa o que ela professa significar; que nenhum homem tem a liberdade de subscrever artigos nos quais não acredita verdadeira e plenamente; e que, ao subscrever, ele se coloca debaixo de um compromisso solene e pactual com a igreja em que entra, para andar com ela ‘em unidade de fé’, e ‘no vínculo da paz e do amor’. Se ele não pode fazer isso de maneira honesta, não permita que ele professe isso de maneira alguma.¹

O ordenando que toma exceções a um ensinamento particular da Confissão ou dos Catecismos, pode ser ordenado pelo presbitério, se este achar que a exceção não afeta o sistema básico de doutrina contido nos Padrões. Ele não está autorizado a ensinar de modo contrário aos Padrões. Ele deve ensinar a visão dos Padrões, a fim de não perturbar a Igreja por ensinar contrários aos padrões dela. Se não puder se submeter aos irmãos, ele deve buscar outra comunhão, onde ele tenha maior liberdade.

A Confissão e os Catecismos da Igreja são seu credo, não algum indefinido sistema de doutrina – nem mesmo um indefinido sistema reformado de doutrina.

Teólogos liberais na principal Igreja Presbiteriana no início do século XX, todos os quais eram subscritores amplos, afirmavam sustentar o sistema de doutrina, mas não a Confissão e os Catecismos em si. Por não definirem o sistema, eles eram capazes de afirmar isso, e não serem disciplinados quando ensinavam algo contrário à Confissão ou aos Catecismos. Se permitirmos que homens tomem exceções à Confissão e aos Catecismos e, então, permitirmos que ensinem essas exceções, a Igreja se tornará cada vez menos unificada em sua posição doutrinária. E se tornará cada vez mais difícil disciplinar aqueles que ensinam o erro. Em seu credo, a Igreja declara o que ela crê ser a interpretação correta de várias doutrinas contidas ali. Essa é a visão que a Igreja espera que o seu ministro ensine e defenda. Se um homem deseja ser um ministro numa denominação confessional, de boa vontade ele deve submeter o seu ensino e práticas pessoais à Igreja, mesmo que ele sinta que a Igreja não está correta naquele ponto em particular. Se ele não puder fazer isso, então, ele deve procurar outra comunhão.

Os escritores da Confissão e dos catecismos foram bastante sábios ao não estabelecerem todas as possíveis questões teológicas a respeito das quais a Bíblia não é explícita. Por exemplo, os Padrões não estabelecem as questões em torno do supra ou infralapsarianismo, ou da natureza da imputação do pecado de Adão, ou do milenialismo. Felizmente, os teólogos de Westminster deixaram essas questões para a consciência individual, e não estamos vinculados a uma visão em particular sobre essas por ocasião da nossa subscrição aos Padrões.

O espírito da nossa subscrição é aquele de submissão aos nossos irmãos, e muito mais aquele de submissão à Palavra de Deus. Historicamente, esse tem sido o espírito expresso nas confissões reformadas e presbiterianas. A Confissão Escocesa de 1560 declara em seu prefácio:

Se qualquer homem notar em nossa Confissão qualquer capítulo ou sentença contrária à Santa Palavra de Deus, ele deve, por gentileza e por amor da caridade cristã, informar-nos por escrito; e nós, por nossa honra, prometemos que pela graça de Deus daremos satisfação a partir da boca de Deus, isto é, pela Sagrada Escritura, ou então, alteraremos o que ele provar estar errado.

Para encerrar, cabe a nós aprender as lições da história, e procurar resolver esse problema que tem causado não pouca perturbação da “paz e da unidade” da Igreja Presbiteriana Americana.

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Nota:
[1] Samuel Miller. The Utility and Importance of Creeds and Confessions: addressed particularly to candidates for the ministry. (Greenville, SC: 1987), 102.

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Autor: Morton H. Smith
Fonte: Morton H. Smith. “Confessional Subscription”. In: Zachary Groff (Ed.). Equipping Preachers, Pastors, & Churchmen: Selected Articles by the Faculty of Greenville Presbyterian Theological Seminary. Taylors, SC: Presbyterian Press, 2017. pp. 77-82.
Tradução: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima 
Via: Seminário JMC
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A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 2

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2. A necessidade e importância dos credos e confissões se evidenciam a partir da consideração de que um grande desígnio de se estabelecer a Igreja em nosso mundo foi que ela pudesse ser, em todas as épocas, uma depositária, uma guardiã e testemunha da verdade.

Os cristãos, coletiva e individualmente, são representados na Escritura como testemunhas de Deus. São ordenados a manter sua verdade e “preservar a palavra da vida” em toda a sua pureza e brilho ante uma geração perversa, para que outros sejam iluminados e convertidos. São exortados a “comprar a verdade e não a vender”, a “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, a “apegar-se à forma das sãs palavras que receberam” e a “lutar juntos pela fé evangélica”. Esses e muitos outros mandamentos de significado similar claramente fazem o dever de cada igreja cristã detectar e expor as heresias prevalecentes, excluir todos os que abraçam heresias radicais de sua comunhão e “levantar uma bandeira” pela verdade, onde quer que “o inimigo venha como um dilúvio”.

Mas isso tudo não implica em tomar medidas efetivas para distinguir a verdade do erro? Isso tudo não implica necessariamente no dever de esboçar e publicamente manifestar uma linha entre os que, enquanto professam, de modo geral, crer na Bíblia, negam realmente todas as suas doutrinas essenciais, e os que simples e humildemente recebem “a verdade segundo é em Jesus”? Mas como essa distinção há de ser feita, visto que os que abraçam as doutrinas essenciais do evangelho igualmente professam receber a Bíblia? Pode apenas ser feito ao cuidadosamente averiguar e explicitamente declarar como a própria igreja e como aqueles que ela suspeita laborarem em erro entendem e interpretam a Bíblia; ou seja, extraindo certos artigos de fé das Escrituras, de acordo com o entendimento da igreja a respeito deles, e comparando esses artigos com a crença professa daqueles que ela supõe sejam hereges. E o que é isso senão extrair das Escrituras uma Confissão de Fé – um Credo – e aplicá-lo como um teste de princípios sadios? 

Realmente parece-me que aqueles irmãos ortodoxos, que admitem que a igreja está obrigada a levantar sua voz contra o erro e a lutar pela verdade e, apesar disso, denunciam os credos e confissões são extremamente incoerentes. Eles reconhecem a obrigação e importância de um grande dever, mas rejeitam o único meio pelo qual essa obrigação pode ser realizada. São tão insensatos, sou obrigado a dizer, quanto “os feitores do Egito”: exigem que a obra seja feita, sem fornecer a matéria-prima para sua realização. Antes que a igreja possa, como tal, detectar hereges e lançá-los fora de seu seio; antes que possa levantar sua voz, em um “dia de angústia, de castigo” [Is 37.3], contra os erros prevalecentes, seus oficiais e membros devem concordar quanto ao que é a verdade. A menos que se entreguem, em seu julgamento oficial, a todos os caprichos e efervescências febris do sentimento ocasional, devem ter algum documento reconhecido e permanente, exibindo o que concordaram em considerar como verdade. Não há, na realidade, outra alternativa. Ou terão uma “forma das sãs palavras”, que voluntariamente adotaram e fizeram juras de “apegar-se” a elas, ou não poderão ter segurança alguma que duas ou mais decisões sucessivas relativas à fidelidade na fé possam ser iguais. Em outras palavras, não podem alcançar, de uma forma contínua, uniforme e consistente, um dos grandes propósitos para o qual a igreja visível foi estabelecida.

Certamente não será dito por qualquer pessoa ponderada que a igreja ou quaisquer de seus membros individuais podem suficientemente cumprir o dever em questão simplesmente proclamando, de tempo em tempo, em meio ao erro circundante, sua aderência e sua ligação à Bíblia. Todos podem ver que isso seria, de fato, nada fazer como “testemunhas da verdade”, pois não seria fazer nada peculiar, nada distinto, nada que qualquer herege na Cristandade não esteja pronto a fazer, ou melhor, não esteja fazendo diariamente, tão ruidosa e tão frequentemente como a mais ortodoxa das igrejas. A própria ideia de “dar testemunho da verdade” e de separar aqueles que são tão corruptos que a comunhão cristã não pode ser mantida com eles necessariamente implica algum ato de discriminação pública, no qual a igreja concorda e expressa sua crença nas grandes doutrinas do cristianismo, em contraste com os que creem erroneamente. Agora supor que algo desse tipo possa ser realizado fazendo-se uma profissão, a mesma, em todos os aspectos, que o pior herege faria, é muito palpavelmente absurdo para satisfazer qualquer inquiridor sóbrio. 

Que valor, permitam-me perguntar, teriam os valdenses e albigenses como testemunhas da verdade – como luzeiros no mundo, em meio às trevas da corrupção circundante –, especialmente que valor teriam tido para a igreja nas épocas subsequentes e para nós no tempo presente, se não tivessem formulado e transmitido para a posteridade aquelas celebradas confissões de fé, tão preciosas como memoráveis, das quais lemos em sua história, e que permanecem como tantos outros testemunhos monumentais para o verdadeiro “evangelho da graça de Deus”? Sem isso, como jamais saberíamos de que forma interpretavam a Bíblia ou em que diferiam dos mais grosseiros hereges, que viveram na mesma época e professaram receber a mesma Bíblia? Sem isso, como jamais teremos visto tão clara e satisfatoriamente, como o vemos, que mantiveram a verdade e a ordem da casa de Cristo, em meio a todas as assoladoras desolações do “homem da iniquidade”, e assim cumpriram a promessa de que sempre haveria “uma semente para servi-lo e para falar do Senhor à geração vindoura”?

3. A adoção e publicação de um credo é um tributo à verdade e franqueza, que cada igreja cristã deve a outras igrejas e ao mundo ao seu redor.

Toda pessoa sábia desejará se unir no dever e privilégio religiosos com aqueles que mais intimamente concordam consigo em suas posições sobre doutrina e ordem; com aqueles em cujas relações ela pode ser mais feliz e mais bem edificada. É claro que desejará, antes de juntar-se a qualquer igreja, saber algo a respeito de sua fé, governo e características gerais. Tenho em mente um indivíduo piedoso e inteligente, prestes a formar suas conexões religiosas para o restante da vida. Ele olha em volta para as igrejas as quais tem maior acesso e deseja decidir em qual delas pode ficar mais confortável. Vamos supor que, em sua pesquisa, volta seus olhos para a verdadeira igreja bíblica e primitiva a qual é nossa felicidade pertencer. Ele anseia conhecer tanto a doutrina como a ordem que pode esperar encontrar em conexão com nosso ajuntamento. Como pode conhecer essas coisas? Certamente não é indo de igreja em igreja, por todos os nossos limites, e aprendendo o credo de cada pastor individual de seus próprios lábios. Isso seria fisicamente impossível, sem que se concedesse à tarefa um grau de tempo e esforço que dificilmente alguém pode dar. Ele não conseguiria, na realidade, ouvir por si mesmo as doutrinas ensinadas em vinte por cento de nossos púlpitos. E se pudesse, ainda seria incapaz de decidir, somente dessa fonte, até onde o que ouviu poderia ser considerado como o uniforme e universal e, especialmente, como o caráter permanente da igreja, e não, antes, uma exibição acidental. Mas quando esse investigador descobre que temos um credo publicado, declarando a maneira como entendemos as Escrituras, e explicitamente declarando em detalhe as grandes verdades que concordamos em nos unir para manter, então ele pode verificar em algumas horas, e sem deixar sua própria casa, o que professamos crer e praticar e até onde pode esperar estar em casa em nossa comunhão. E enquanto é capacitado a assim entender o sistema ao qual professamos aderir, nos permite entender seus pontos de vista, ao verificarmos até onde estão de acordo com nosso credo publicado.

Ademais, o que é devido a esses indivíduos inteligentes, que desejam conhecer o caráter verdadeiro de nossa igreja, também é devido às igrejas vizinhas, que podem ter não menos desejo de verificar os princípios que abraçamos. É prazeroso para as comunidades eclesiásticas, que se aproximam umas das outras em fé e ordem, manifestar sua afeição mútua ao cultivar algum grau de relacionamento cristão.

Mas que igreja que valoriza a preservação de sua própria pureza e paz se aventuraria em tal relacionamento com um corpo que não tenha um sistema definido, seja de doutrina ou de governo, ao qual permaneça ligado por juramento, e que poderia, portanto, provar-se uma fonte de poluição e desordem a cada outra igreja com a qual tivesse o menor relacionamento de cultos? Um dos pastores dessa denominação, quando convidado ao púlpito de um irmão ortodoxo, poderia dar inteira satisfação, enquanto outro, a quem uma marca similar de afeição e confiança cristã fosse mostrada, poderia pregar as mais corruptas heresias. Credos e confissões, então, longe de ter a tendência de “alienar” e “amargar” aquelas denominações cristãs que têm pensamentos parecidos, e devem manter relacionamento fraternal, tendem, na realidade, a familiarizá-las umas com as outras; a lançar um fundamento para o relacionamento regular e cordial; a gerar confiança mútua e assim promover a harmonia da igreja de Deus. 

Não hesito, portanto, em afirmar que, assim como cada pastor individualmente deve a todos à sua volta uma confissão franca de sua fé cristã, também cada igreja deve ser igualmente franca e explícita em publicamente declarar seus princípios a suas igrejas irmãs. Essa igreja sem dúvida crê que esses princípios sejam puramente bíblicos. Ao publicamente confessá-los, portanto, realiza o duplo dever de prestar testemunho à verdade e de se esforçar para atrair de denominações menos puras e do mundo circundante novo apoio ao que ela conscientemente crê sejam sentimentos mais corretos que os deles. Ela pode incorrer em erros nessa expectativa, mas não deixa de fazer o que pode e o que sinceramente crê seja correto, e o que, é claro, enquanto essa convicção persistir, é seu dever fazer. Ademais, não hesito em defender que, em todas as épocas, aquelas igrejas cristãs que têm sido mais honradamente distinguidas por sua piedade, zelo e apego à simplicidade do evangelho têm sido não apenas notáveis por seu cuidado em formular seu credo doutrinário, mas também por sua franqueza em confessá-los, bem como sua disposição em permitir que todos à sua volta distintamente compreendam o que ela professa considerar como as doutrinas fundamentais de nossa santa religião.

Continua...

***
Autor: Rev. Samuel Miller
Tradução: Tiago Cunha (Seminarista do Seminário JMC)
Divulgação: Bereianos

Leia também: A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

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O caráter e situação de alguém que está se preparando para o Ofício Sagrado são interessantes além da capacidade de expressão. Essa pessoa, como o Mestre a quem professa amar e servir, está “destinada tanto para a ruína como para levantamento de muitos em Israel”. Em tudo o que é e em tudo o que faz, o bem-estar temporal e eterno, não apenas de si mesmo, mas de milhares pode estar envolvido. Ele é assaltado por perigos de todos os lados. Quaisquer que sejam seus talentos e conhecimento, se não tiver genuína piedade, provavelmente será não uma bênção, mas uma maldição para a Igreja. Mas esse não é o único perigo ao qual está exposto. Ele pode ter genuína piedade, bem como talentos e conhecimento, e, ainda assim, devido à indiscrição habitual, a algum defeito na sobriedade de mente – que é tão preciosa a todos os homens e especialmente àquele que ocupa uma posição pública –, ao amor pela novidade e inovação, ou ao amor pela distinção, que é tão natural aos homens, enfim, por isso tudo, em vez de edificar o “corpo de Cristo”, pode-se tornar um perturbador de sua paz e um corruptor de sua pureza. De modo que poderíamos quase dizer, qualquer que seja o desfecho com respeito a ele próprio, que “seria melhor para a Igreja se ele jamais tivesse nascido”.