Paradoxos Bíblicos

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Os crentes mais antigos já devem ter se deparado com disputas teológicas entre arminianos e calvinistas. Para quem não sabe, o debate entre os dois grupos gira em torno, basicamente, da polêmica entre a existência de livre-arbítrio para crer no Evangelho. Os dois grupos recorrem a um compêndio de textos bíblicos para fundamentar suas teses, deixando qualquer leigo sem posição definida atônito diante de duas hipóteses concorrentes largamente embasadas no mesmo livro.

Como calvinista, entendo que nossa vontade está condicionada aos propósitos divinos ao mesmo tempo que Deus nos faculta escolhas. As duas situações coexistem! Mas não há espaço aqui para discutir esse tópico. Minha intenção é levá-lo a refletir sobre os paradoxos existentes na Bíblia e que podem trazer certa confusão, como na polêmica existente entre arminianos e calvinistas.

Nos vemos diante de um paradoxo quando Jesus nos diz que: os últimos serão os primeiros (Mt 20:16) ou que o menor é o maior (Lc 22:26); seu fardo é leve (Mt 11:30) ao mesmo tempo que temos de carregar nossa própria cruz e negar a nós mesmos (Mc 8:34); é chegado o Reino de Deus (Mt 3:2), o qual, contudo, não é deste mundo (Jo 18:36). Paulo, por sua vez, em um testemunho pessoal chega à conclusão de que quando está fraco é que está forte (2 Co12:10). E ainda podemos observar que enquanto nas cartas apostólicas por diversas vezes se enfatiza a salvação pela graça (Ef 2:8-9), em Tiago lemos que a fé sem obras é morta (Tg 2:14-17) e em Hebreus somos lembrados que sem santidade ninguém verá a Deus (Hb 12:14).

A interpretação precipitada desses ensinamentos aparentemente contraditórios têm resultado em um sem-número de divergências doutrinárias, especialmente no tocante ao entendimento da doutrina da graça. Enquanto alguns, por exemplo, enfatizam a graça, outros se focam nos aspectos morais e nas obras. Em geral essa torre de babel de interpretações decorre da simples negligência de princípios básicos de exegese e interpretação, como desconsiderar os destinatários primários dos textos bíblicos, objetivos do autor, contextos etc. E aqui me apropriarei da figura do corpo humano para explanar melhor sobre esse tema.

Paulo usa o corpo humano para dissertar a respeito dos dons pois um corpo, como bem observa o apóstolo, é equilibrado. E é justamente esse equilíbrio que nos falta ao refletir e optar por um lado nas controvérsias. Quando se enfatiza muito a graça em detrimento das obras a intenção é, para resumir bastante, libertar os crentes das amarras do legalismo. No entanto, tal ênfase na graça pode levar a uma noção equivocada da importância da santidade e das obras, tendo como consequência principal um relaxamento no aspecto moral da vida. A doutrina da graça é, sem dúvida, uma doutrina central no cristianismo, atrelada diretamente à obra salvífica de Cristo e suas implicações para nós, mas pode trazer graves prejuízos quando é isolada da doutrina da santidade cristã. Se a graça é o coração do corpo, sendo responsável por bombear sangue para os demais órgãos, a santidade pode ser representada pelos rins, que filtram as impurezas. Sem o coração o corpo padece imediatamente, mas sem os rins, embora o corpo possa subsistir um pouco mais, ele também não sobreviverá. Desse modo, o primeiro benefício da aplicação correta dos dois ensinamentos bíblicos é que para se ter uma vida cristã saudável, equilibrada, é preciso compreender que seu esforço não pode contribuir para a salvação, mas que é imprescindível para uma vida em santidade e uma fé produtiva.

Essa tensão constante entre termos que parecem representar uma oposição e coexistirem parece intencional e até um padrão divino, pois se repete diversas vezes na Bíblia, como já mencionado. Podemos inferir, então, que a vida cristã é caracterizada por paradoxos, e o crente que não entende isso se perde em algum extremo. 

Conforme Mt 5:4,11, somos bem-aventurados por chorarmos e sofrermos perseguição! O Sermão do Monte em seu início é quase uma apologia ao sofrimento, pois prega valores contrários ao instinto humano na maioria das vezes. O mundo é naturalmente injusto, e buscar justiça nele não poucas vezes requer sacrifício e uma boa dose de altruísmo. Ser manso numa sociedade que te impele a revidar e a impor-se para não ser pisado não é uma tarefa fácil. Ser manso, em muitas situações, é até mesmo contrário à natureza humana, especialmente quando estamos em posição de superioridade. Que se dirá então sobre ser misericordioso quando nossa vontade natural é retribuir o mal com mal?

O Evangelho não apenas nos apresenta realidades aparentemente paradoxais, como é vivenciado dessa forma. Nós até podemos entender facilmente o que foi discutido até aqui, mas viver esse Evangelho é que é o grande desafio, pois implica uma compreensão da própria existência que transcende a lógica do entendimento humano.

A lógica humana é linear, relativamente simples. Em termos gerais, eu planto e colho,  trabalho e recebo. A lógica divina, que encontramos nas páginas bíblicas, porém, é um tanto diferente. Eu planto e outro pode colher, e isso é bênção para mim, que plantei. Eu trabalho, mas posso receber o mesmo de que quem não trabalha, e isso continua sendo justo. Não, não estou fazendo apologia ao socialismo! O fato é que as duas lógicas, tanto a humana como a divina, coexistem para os cristãos. Nós continuamos sendo abençoados se outro colhe os frutos do que plantamos, ao mesmo tempo que também é bênção eu mesmo colher. E receber sem trabalhar é basicamente a graça divina em nossas vidas. Continua sendo justo e funcionando a lógica humana e bíblica de que se alguém não quer trabalhar que não coma (2Ts 3:10), mas precisamos aceitar que recebemos a dádiva da salvação sem nada fazer por merecê-la. As duas realidades existem na vida do cristão, e em algum momento ele precisará aplicar uma ou outra. Há tempo para ser gracioso com o próximo, e tempo para recompensar os que trabalharam.

Acredito que a existência de tais paradoxos na Bíblia representa o distanciamento entre nossa capacidade de compreensão e o agir divino, assim como a transmissão dessas ideias pelos escritores bíblicos enfrentava as limitações da linguagem humana e do nível intelectual de cada autor. Por isso, fazemos contorcionismos para encaixar a lógica divina dentro das nossas limitações. Tentamos até explicar a trindade! 

Talvez devamos tão somente aceitar que, mesmo sendo salvos pela graça, Deus quer que  sejamos santos, quase (eu disse “quase”) como se nossa salvação dependesse de nós mesmos, tamanho o zelo e devoção com os quais devemos lidar com cada aspecto das nossas vidas. Somos salvos pela graça mas devemos buscar a perfeição (Mt 5:48). Se juntarmos os dois lados do debate sobre livre-arbítrio, quem sabe chegaremos a alguma conclusão que traga mais conforto e noção de responsabilidade aos cristãos, uma vez que entenderão ser impossível perder a dádiva da salvação, pois foram escolhidos por Ele, ao mesmo tempo que estarão conscientes de que é preciso escolher a melhor parte (Lc 10:42).

Por fim, e mais importante, sabendo que vivemos num tempo em que muitos se voltam para o Evangelho da Prosperidade ou dão ouvidos a pastores-coaches, precisamos compreender que as bem-aventuranças proferidas por Jesus em Mateus 5 não são apenas uma forma enigmática de representar a lógica do Reino de Deus, mas nos alertam sobre a realidade da vida cristã quando vivida integralmente. Se não entendemos que podemos ser bem-aventurados enquanto estamos tristes e sofrendo, então somos candidatos a repetir o erro dos israelitas que murmuraram depois de haverem sido libertados da escravidão no Egito. 

Essa tensão entre opostos nos acompanhará até nossos últimos dias neste mundo, pois a lógica do reino de Deus é diferente da nossa. Nesse reino que, como diria Oscar Cullman,“já veio, mas ainda não”.

***
Autor: Renato César



O Ponto Fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus

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A Assembleia de Deus é uma das denominações mais conhecidas das igrejas evangélicas no Brasil. De acordo com o censo de 2010, do IBGE, ela é o maior segmento evangélico, com 12 milhões de fiéis, e o segundo maior do Brasil, atrás da Igreja Católica. Além de ser influente no Brasil, vale ressaltar que a Assembleia é uma denominação popular em vários países do mundo, sendo reconhecida internacionalmente.

As Assembleias originaram-se do ressurgimento pentecostal do início do século XX. Esse avivamento levou à fundação das Assembleias de Deus nos Estados Unidos em 1914. Através da obra missionária estrangeira e estabelecendo relações com outras igrejas, as Assembleias de Deus se expandiram para um movimento mundial. E, como toda comunhão pentecostal, as Assembleias de Deus acreditam no distintivo pentecostal do batismo no Espírito Santo, com a evidência de falar em línguas.

O presente artigo é baseado na Declaração de Fé da Assembleia de Deus, e tem como finalidade contrariar algumas doutrinas citadas na obra. Para isso, serão apresentados os equívocos teológicos presentes nesse credo e, posteriormente, diagnosticaremos a razão de sua existência – o ponto fraco – tomando como referência as doutrinas reformadas, as quais, julga o autor, têm apoio escriturístico mais coerente.

A Apresentação da Declaração de Fé da Assembleia diz que

1. A DF¹ não oferece nenhuma oportunidade para vicissitudes.
2. A DF tem íntima e inseparável comunhão com as doutrinas bíblicas.
3. A DF possui um grande rigor na observação doutrinária.
4. A DF serve como um guia contra falsas doutrinas.

Dessa forma, a missão deste artigo é

1. Mostrar que algumas doutrinas da DF possuem falhas interpretativas, contradições e instabilidades.
2. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm fundamento lógico e/ou coerência.
3. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm apoio bíblico ou se apoiam em um texto bíblico interpretado de maneira forçada.
4. Finalmente, mostrar que, apesar da DF ter o objetivo de proteger seus fiéis contra heresias, ela mesma é uma fonte de onde podem surgir heresias, por causa de seus próprios equívocos perigosos. 


1. SOBRE A SALVAÇÃO

1.1. ARMINIANISMO (FACTS)

A Assembleia demonstra, em sua DF, seguir a corrente soteriológica arminiana, que apresenta cinco pontos.

F: Livre pela Graça (Freed by Grace)
A: Expiação Ilimitada (Atonement for All)
C: Eleição Condicional (Conditional Election)
T: Depravação Total (Total Depravity)
S: Segurança em Cristo (Security in Christ)

Segundo os ensinos de Armínio, cada pessoa tem livre arbítrio (Livre pela Graça) para escolher seguir a Deus ou não. Sendo assim, para ser salvo, é o homem que deve se movimentar em direção a Cristo. Para o arminianismo, Deus elegeu para a salvação aqueles que Ele sabia que aceitariam a salvação (Eleição Condicional). Sendo assim, trata-se de uma eleição condicionada à ação do homem, que somente precisa ter fé para ser salvo. Quanto à expiação, acredita-se que foi ilimitada (Expiação Ilimitada), ou seja, Cristo morreu por todos e pagou pelos pecados de todos. Porém, o ser humano pode resistir à ação do Espírito Santo em sua vida (Graça Resistível) e escolher não ser atraído por ela para a salvação em Cristo. E em relação a durabilidade da salvação, um homem pode deixar de ser salvo caso peque e não se arrependa e não persista nas boas obras (Segurança em Cristo).

1.2. CALVINISMO (TULIP)

No século XX, ocorreu o Sínodo de Dort na Holanda. A razão para este concílio foi discutir o crescimento de uma doutrina nova e diferente na Igreja Reformada Holandesa: o arminianismo. A agenda da discussão incluiu cinco temas fundamentais sobre a salvação, os quais foram interpretados por João Calvino: a depravação total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a perseverança dos santos. No final do Sínodo, Jacó Arminio e seus ensinos haviam sido oficialmente rejeitados pela Igreja por estarem em discordância com tais temas. Assim, TULIP é o acróstico que abrange os 5 pontos da soteriologia reformada de uma forma simples e concreta.

T: Depravação Total (Total Depravity) 
U: Eleição Incondicional (Unconditional Election)
L: Expiação Limitada (Limited Atonement) 
I: Graça Irresistível (Irresistible Grace) 
P: Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints) 

A Depravação Total diz que toda a humanidade foi afetada, danificada e distorcida pela entrada do pecado no mundo, de modo que estamos mortos em nossas transgressões e pecados (Ef 2.5), e nós mesmos não podemos mudar a nossa situação sem a graça do Espírito Santo (Cl 2.13), pois somos inclinados, por natureza, ao mal. As doutrinas do pecado e a depravação total do homem são mais do que bem representadas em ambos os testamentos (cf. Is 53.6; 2 Cr 6.36; Rm 3.9-12; 1 Jo 1.8,10; Mc 10.18; Mq 7.2-4; Jr 17.9; Mt 15.19; Gn 6.5, 8.21). 

A Eleição Incondicional afirma que Deus escolhe a quem Ele quer escolher. Uma vez que estamos mortos, a única saída da nossa morte espiritual é que Deus nos tire dela (2 Tm 1.9). Se realmente cremos que somos maus, não temos o direito de reclamar que Deus exerça Sua graça soberanamente (Rm 9.11-16). A eleição incondicional significa simplesmente que Deus escolhe dar a vida eterna sem ter visto nada de bom nos eleitos. Assim, alguns homens são predestinados à vida eterna; e outros são predestinados à morte eterna. E isso fica claro em João 15.16 e é comum na teologia paulina (cf. Ef 1.4-5; 1 Ts 1.4-5; 2 Ts 2.13; 1Co 1.27-29). 

A Expiação Limitada explica que a morte de Cristo paga por todos os pecados daqueles que foram eleitos. O perdão dos pecados está disponível para todos os pecadores e a expiação de Cristo é suficiente para que toda a humanidade seja salva (independentemente de crerem ou não), mas é eficiente somente para aqueles que creem, isto é, aqueles a quem o Pai predestinou desde a fundação do mundo. Isso pode ser visto em vários textos (cf. Ef 1.4; Is 53.11; 2 Co 5.21; Jo 10.11-29). 

A Graça Irresistível diz que ninguém pode negar ou resistir à graça salvadora de Deus. Quando a graça vem, nunca pode ser rejeitada: sua eficácia é perfeita. Isto significa que se Deus escolheu alguém, não há como essa pessoa não ser salva. Todos a quem Deus elegeu para a salvação serão inevitavelmente salvos a seu tempo determinado por Deus. Quem somos nós para dizer ‘não’ ao Senhor (Rm 9.19-20)? Assim, vemos o poder da graça em toda a Escritura (cf. Jo 6.37,44,65; 2 Ts 2.13-14; 1 Co 1.9). 

A Perseverança dos Santos conclui que os escolhidos perseverarão até o fim. Filipenses 1:6 nos diz: “Estou convencido precisamente disto: que aquele que começou a boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Isto não se refere ao chamado “uma vez salvo, sempre salvo”, que uma vez que somos escolhidos por Deus, podemos viver como quisermos. Pelo contrário, diz-nos que, na soberania de Deus, aqueles que Ele escolheu para a salvação sustentarão aquela confissão de conversão até à sua morte, perseverando na vida de santidade. Esta verdade é citada várias vezes na Bíblia (cf. Rm 8.35-39; 2 Pe 1.10; Jo 10.28,29; 1 Jo 3.9; 1 Pe 1.5,9). 

“Quem Deus aceitou em seu Amado, e que foi efetivamente chamado e santificado pelo seu Espírito, não pode cair completa ou definitivamente do estado de graça, mas deve seguramente perseverar nele até o fim, e serão salvos eternamente (...) Esta perseverança dos santos não depende do seu livre arbítrio, mas da imutabilidade do decreto de eleição, que brota do amor livre e imutável de Deus Pai” (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 17, I, II)

1.3. REFUTAÇÃO AO ARMINIANISMO

1.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que não há eleição para a condenação e que Deus deseja a salvação de todos, pagando, assim, pelos pecados de todos (p. 110, l. 12-15). Ora, se há um grupo de pessoas selecionadas por Deus para serem salvas, consequentemente, há um outro grupo selecionado por Deus para a condenação (Rm 9.21). E isso não torna Deus injusto ou mal, pois a verdade é que a salvação não é algo que merecemos (Ef 2.8-9). Deus não “deveria” nos salvar, Ele não possui uma dívida para conosco. Além do mais, a eleição não foi feita com base em preferencialismos (Ef 1.4). Ele não escolheu os mais ricos, os mais nobres, os mais piedosos, os mais santos, até porque não somos nada disso e, se comparados a soberania de Deus, que somos (1 Pe 1.24)? Por fim, dizer que o sacrifício de Cristo expiou os pecados de todos é o mesmo que dizer que aqueles que não aceitaram a Cristo tornaram a morte dEle um fracasso, já que não serviu para a salvação dos que não a desejam.

1.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que a graça é resistível por causa do livre arbítrio (p. 110, l. 17). Se pararmos para pensar, essa afirmação enaltece o homem e diminui a soberania de Deus. De acordo com a depravação total, o ser humano é corrupto por natureza, logo, não pode, pelo seu livre arbítrio corrompido pelo pecado, escolher a Deus. Porém, quando o Espírito Santo chama um eleito, a seu tempo determinado por Deus, ele não pode resistir, pois quem pode resistir aos planos do Altíssimo (Jó 42.2)? Obviamente, por vezes, podemos ser desobedientes e obstinados. Não somos perfeitos. Mas isso não impede a Deus de fazer o que quer. Deus não depende das nossas escolhas, como se submetesse ou se adaptasse às nossas decisões. Antes, Ele já sabe o que vamos fazer (Sl 139). 

1.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação da perda da salvação (cap. X, ponto 6). Acerca disso, vejamos alguns pontos.

1. Ter tal crença significa subestimar o poder do sacrifício de Cristo. Porém, o Senhor Jesus Cristo morreu pelos pecados de toda humanidade, e, além disso, esse sacrifício foi perfeito e resolveu para sempre o problema do pecador (Hb 10.12). 

2. Sim, o cristão deve vigiar sempre (Mt 26.41, 1 Co 10.12, 1 Ts 5.17) e é claro que pecar e se desviar traz consequências danosas para nossa saúde espiritual e para a nossa vida pessoal (Ez 18.24). Porém, isso não quer dizer que pagaremos pelos nossos pecados com a perda da salvação, porque Cristo perdoa nossos pecados (1 Jo 1.9) e já pagou por eles na cruz. Quem nos separará do amor de Cristo (Rm 8.33-35,37-39)?

3. O verdadeiro salvo, quando peca, sempre pede perdão a Deus e volta às veredas da justiça (Lc 15.32, Sl 51). Porém, aquele que se diz salvo, porém ama pecar, nunca foi salvo (1 Jo 2.18,19; Jo 8.32), pois a santificação, processo de consagração constante a Deus, é o que nos dá certeza da Salvação, evidenciando-a (1 Jo 2.3-6). Deus é fiel para cumprir a obra da salvação na vida dos seus filhos e os preserva ao longo de toda vida com sua graça (Fp 1.6, Hb 10.23, 1 Co 1.8,9). Portanto, a salvação não é certificada no começo, isto é, na regeneração, mas no fim (Mt 24.13).
2. SOBRE OS DONS ESPIRITUAIS

2.1. CONTINUACIONISMO

A DF professa e ensina que “os dons do Espírito Santo são atuais e presentes na vida da Igreja (...) São recursos sobrenaturais do Espírito Santo operados por meio dos seres humanos, os crentes em Jesus, enquanto a Igreja estiver na terra” (página 171). Assim, a Assembleia demonstra seguir a corrente continuacionista acerca da atualidade dos dons espirituais, entre eles, o dom de curar (cap. XX, ponto 4), o dom de falar em línguas e o dom de profetizar (cap. XX, ponto 5). O continuacionismo é a crença de que todos os dons espirituais, incluindo curas, línguas e milagres, ainda estão em operação hoje, exatamente como estavam nos dias da igreja primitiva.

2.2. OS DONS AO LONGO DA HISTÓRIA

Em contrapartida, façamos uma cronologia histórica dos dons espirituais com base nas afirmações de homens de Deus que marcaram a vida da Igreja.

1. Agostinho (354-430)

“Nos tempos antigos, o Espírito Santo veio sobre os crentes e eles falaram em línguas que não haviam aprendido, conforme o Espírito concediam que falassem. Aquilo foi o sinal do Espírito Santo em todos os idiomas para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser espalhado a todas as línguas sobre a terra. Isto foi feito por um sinal, e o sinal findou.” (Fonte: Agostinho. Homilias sobre a Primeira Epístola de João, 6.10. Cf. Schaff, NPNF, First Series, 7:497-98)

2. Martinho Lutero (1483-1546)

“Na Igreja primitiva, o Espírito Santo foi enviado de forma visível. Ele desceu sobre Cristo na forma de uma pomba, e à semelhança de fogo sobre os apóstolos e outros crentes. Esse derramamento visível do Espírito Santo foi necessário para o estabelecimento da Igreja primitiva, como também foram necessários os milagres que acompanharam o dom do Espírito Santo. Paulo explicou o propósito destes dons miraculosos do Espírito em 1 Coríntios 14:22, “as línguas são um sinal, não para os que creem, mas para os que não creem”.  Uma vez que a Igreja tinha sido estabelecida e devidamente anunciada por estes milagres, a aparência visível do Espírito Santo cessou.” (Fonte: Martinho Lutero, traduzido por Theodore Graebner [Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949], p. 150-172. A respeito do comentário de Lutero sobre Gálatas 4.6)

3. João Calvino (1509-1564)

“Embora Cristo não declare expressamente se Ele pretende que esse dom [de milagres] seja temporário ou permaneça perpetuamente na Igreja, é mais provável que os milagres tenham sido prometidos apenas por um tempo, para dar brilho ao evangelho enquanto ele era novo ou em estado de obscuridade.” (Fonte: João Calvino, Comentário sobre os Evangelhos Sinóticos, III: 389.)

4. Mattew Henry (1662-1714)

“O dom de línguas foi um novo produto do espírito de profecia e dado por uma razão particular: mostrar [aos judeus] que todas as nações podem ser conduzidas à igreja. Estes e outros sinais da profecia, começaram como sinais, e há muito cessaram e foram deixados para trás, e nós não temos nenhum incentivo para esperar um avivamento deles; mas, pelo contrário, somos direcionados para o chamado das Escrituras, a mais certa palavra de profecia, mais certa que vozes dos céus, a qual nos orienta a tomar cuidado, a buscá-la e firmarmo-nos nela.” (Fonte: Mattew Henry, Prefácio ao Vol IV de sua Exposição do At e NT, vii.).

5. Jonathan Edwards (1703-1758)

“Nos dias de sua [Jesus] encarnação, os seus discípulos tinham uma medida dos dons miraculosos do Espírito, sendo habilitados desta forma para ensinar e fazer milagres. Mas, depois da ressurreição e ascensão, ocorreu o mais completo e notável derramamento do Espírito em seus dons milagrosos que já existiu, começando com o dia de Pentecostes, depois da ressureição Cristo e Sua ascensão ao céu. E, em consequência disto, não somente aqui e ali uma pessoa extraordinária era dotada de dons extraordinários, mas eles eram comuns na igreja, e assim continuou durante a vida dos apóstolos, ou até a morte do último deles, mesmo o apóstolo João, que viveu por cerca de cem anos desde nascimento de Cristo, de modo que os primeiros cem anos da era cristã, ou o primeiro século, foi a era dos milagres. Mas, logo após a finalização do cânon da Escritura quando o apóstolo João escreveu o livro do Apocalipse, não muito antes de sua morte, os dons miraculosos tiveram seu fim na igreja. Pois, agora, a revelação escrita da mente e da vontade de Deus estava completa e estabelecida. Revelação na qual Deus havia perfeitamente gravado uma regra permanente e totalmente suficiente para Sua igreja em todas as eras. Com a igreja e a nação judaica derrotadas, e a igreja cristã e a última dispensação da igreja de Deus estabelecidas, os dons miraculosos do Espírito já não eram mais necessários e, portanto, eles cessaram; pois embora eles tenham continuado na igreja por tantas eras, eles se extinguiram, e Deus fez com que fossem extintos porque já não havia ocasião favorável a eles. E assim foi cumprido o que está dito no texto: “Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”.  E agora parece ser o fim para todos os frutos do Espírito tais como estes, e não temos mais razão de esperar que voltem.” (Fonte: Jonathan Edwards, sermão intitulado “O Espírito Santo deve ser comunicado ao Santos para sempre, In na graça da caridade, ou amor divino”, em 1 Coríntios 13:8). 

2.3. CESSACIONISMO

Nesse sentido, concluímos que os relatos de tais homens seguem a visão do Cessacionismo, na qual formula-se que parte dos chamados dons do Espírito Santo, tais como profecias, línguas e curas, apesar de terem sido de fundamental utilidade e importância nos primórdios da igreja cristã, cessaram de existir ainda no período da Igreja Primitiva. Entendem os cessacionistas que tais e restritos dons serviram a um propósito, isto é, a fundação da Igreja Primitiva, momento que os apóstolos teriam que cumprir o ide sem possuírem qualificação de doutores ou mestres. Assim, o encerramento do livro teria tornado dispensável a existência dos dons milagrosos e de profecias.

2.4. REFUTAÇÃO AO CONTINUISMO

2.4.1. 1ª AFIRMAÇÃO

A DF diz que os “dons de curas são manifestações do poder do Espírito Santo que operam de maneira multiforme para cura de doenças e enfermidades do corpo, da alma ou psicossomáticas, sempre concedidas pelo Espírito Santo à pessoa que irá ministrá-la” (cap. XX, ponto 4). E, por crerem na atualidade dos dons, as curas podem ser ministradas até hoje.

Porém, é importante destacar que os dons de cura tinham um propósito. Vemos nas Escrituras que a cura era associada com o ministério de Jesus e dos apóstolos (Lc 9.1-2). E vemos que à medida em que a era dos apóstolos chegou a um fim, a cura tornou-se menos frequente. Isto porque o dom de cura e de realização de milagres teve o propósito de autenticar o apostolado. E, ao final da era apostólica, a ministração de sinais e prodígios adicionais tornaram-se progressivamente desnecessários.

Vale ressaltar que os cessacionistas creem plenamente em milagres, curas e todo o tipo de maravilhas e sinais nos dias de hoje, desde que operados diretamente por Deus, e não por intermédio de outrém, como um dom.

2.4.2. 2ª AFIRMAÇÃO

A DF, inicialmente, afirma que “não necessitamos de uma nova revelação extraordinária (...) para nosso crescimento espiritual (...) O livro de Provérbios reafirma a inteireza e a pureza da Bíblia Sagrada: ‘Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso’ (Pv 30.6)” (cap. I, ponto 6) e com isso parece defender a Sola Scriptura, que diz:

“Reafirmamos a Escritura inerrante, como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. 

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.” (Declaração de Cambridge, Tese 1: Sola Scriptura)

Entretanto, posteriormente, a DF passa a afirmar que “Deus fala conosco por meio de sua palavra (pregação e ensino) e das manifestações dos dons espirituais” (cap. XV, ponto 1), tornando incoerente sua defesa inicial da Sola Scriptura e deixando clara a crença de que, ainda hoje, Deus pode falar através de experiências interpessoais de revelação profética. 

Porém, o cessacionismo defende que, com o cânon bíblico fechado, o termo “profecia”, que é a mensagem de Deus para o seu povo, passa a se referir, agora, às Escrituras Sagradas e profeta é o pregador que, através da Palavra, edifica, exorta e consola (1 Co 14.3). “O dom de profecia”, diz o Rev. Augustus Nicodemus, importante defensor do Cessacionismo no Brasil, “continua hoje, conforme entendo, mas somente enquanto exortação, consolo, confrontação pela Palavra. Já o aspecto revelatório da profecia que vemos, por exemplo, em João ao escrever Apocalipse, ou em Paulo e Pedro ao prever como será o futuro, a vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos etc., isso certamente não faz parte da profecia de hoje. Já cessou”.

2.4.3. 3ª AFIRMAÇÃO

A Assembleia de Deus também acredita na atualidade do dom de línguas e no seu papel como evidência inicial do batismo no Espírito Santo (p. 165) e, por esse motivo, a busca por esse dom é bastante incentivada pela Igreja. Além disso, creem que a natureza dessas línguas pode ser humana ou celestial (p. 168). Acerca disso, elencam-se os esclarecimentos.

1. O dom de línguas teve um propósito temporário e nasceu como um sinal para a descrente Israel de que a salvação de Deus estava agora disponível para outras nações (1 Co 14.21-22; Is 28.11-12). A observação atual confirma que o milagre de línguas cessou. Se esse dom, em sua forma pura, ainda estivesse disponível hoje, não haveria necessidade de missionários frequentarem uma escola de línguas. Os missionários seriam capazes de viajar para qualquer país e falar qualquer língua fluentemente, assim como os apóstolos foram capazes de fazer em Atos 2. 

2. O dom de línguas possibilitava a pregação da Palavra de Deus em línguas estrangeiras, isto é, idiomas (At 2.6-11), para mostrar que Deus pode capacitar uma pessoa a pregar sua Palavra numa língua estrangeira, a qual ele nunca estudou. Nesse sentido, vale ressaltar que a língua dos anjos citada em 1 Coríntios 13.1 é uma figura de linguagem denominada hipérbole, utilizada na passagem para explicar a supremacia do amor em relação aos dons espirituais.

2.5. A PROFECIA DO PENTECOSTES

A Assembleia de Deus acredita na continuidade e na atualidade dos dons com base na profecia de Joel 2.28-32 e Atos 2.16-21, 39. Porém, alguns pontos têm sido interpretados de maneira errada. Assim, segue-se a interpretação adequada.

28. E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.  29. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito.  30. E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça.  31. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. 32. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar. (Joel 2:28-32)

v.28,29. “Depois”, expressão também conhecida por “últimos dias” (At 2.17), se refere aos tempos de Pedro, isto é, a Igreja Primitiva. E isso se deduz a partir do momento em que ele usa essa profecia para explicar o que estava acontecendo em seus dias. “Toda a carne” prenuncia a inclusão de judeus e gentios em um só corpo, o Corpo de Cristo (Ef 2.11-3.6). “Vossos filhos e vossas filhas (...)” dizem respeito a uma era em que o derramamento do Espírito manifestaria o poder de Deus em todos, sem distinção de gênero, idade ou classe social. 

v.30,31. Os prodígios celestes descritos nesse trecho acontecerão antes do grande e terrível dia do Senhor, o que é uma referência ao fim dos tempos.

v.32. Aquele que invoca o nome do Senhor, ou seja, que se arrepende e crê, será salvo no Dia do Senhor. Ao mesmo tempo, essas palavras também se aplicam à libertação espiritual de povos arrependidos em qualquer período da história humana.

2.6. SOBRE O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO

2.6.1. 1ª REFUTAÇÃO

O capítulo XX da DF afirma que “o batismo no Espírito Santo é um dom”. Já o capítulo XIX diz que o batismo no Espírito Santo “trata-se de uma experiência espiritual que ocorre após ou junto à regeneração” e “é algo distinto do novo nascimento”. Acerca disso, a teologia reformada diz que o batismo com o Espírito Santo é o ato único e restritivo aos que nasceram de novo, ou seja, aos que foram levados pelo Espírito a Cristo para a salvação. Diante disso, podemos dizer que uma das finalidades do batismo com o Espírito Santo é a inclusão do cristão no corpo de Cristo, que é composta de todos os salvos. A carta paulina aos Efésios deixa claro que o batismo com o Espírito Santo é o penhor da nossa herança e o selo desta promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.13,14).

2.6.2. 2ª REFUTAÇÃO

A DF também afirma que “o falar em línguas é a evidência inicial desse batismo” (p. 165, l. 12). Porém, não há nenhum sinal externo específico para aquele que foi batizado com o Espírito Santo. Quando se fala que não há nenhum sinal externo, é bom que fique claro que se refere a manifestações sobrenaturais como evidência de ter se recebido tal batismo. Agora, é claro que aquele que foi batizado pelo Espírito Santo no ato de sua conversão, começa a evidenciar mudanças profundas em seu caráter e modo de vida. O que se pode dizer com certeza é que os sinais que atestam esta experiência são os mesmos da conversão, isto é, o fruto do Espírito (Gl 5.22)

2.6.3. 3ª REFUTAÇÃO

A Assembleia de Deus trata o batismo com o Espírito Santo com tanta seriedade a ponto de apresentar isso como critério para a ordenação de obreiros (p. 137, l. 1-3), sob a referência de que os obreiros devem “ser cheios do Espírito” (At 6.3) e que a principal função do batismo com o Espírito Santo é habilitar o Cristão a realizar o ide (p. 166, l. 13-14). Quanto a isso, temos que não é necessário falar em línguas para anunciar o evangelho. Ser salvo, isto é, ter o Espírito Santo, já nos dá o dever de anunciar a Cristo (Mc 5.18-20; Jo 4.28-29). Além disso, não falar em línguas não deveria impedir alguém de fazer a obra de Deus, uma vez que em 1 Tm 3.1-13, que apresenta critérios para cargos relevantes como o episcopado, o diaconado e o pastoreado, não tem como critério falar em línguas, mas sim uma vida irrepreensível, que é o que realmente caracteriza alguém como cheio do Espírito Santo.
3. SOBRE O FIM DOS TEMPOS

3.1. PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA

A DF apresenta, em seus capítulos XXII e XXIII, um enredo sobre o fim dos tempos semelhante à corrente escatológica pré-milenista dispensacionalista.

De acordo com essa corrente escatológica, Cristo voltará duas vezes. A primeira volta será uma vinda somente para a igreja, antes da Grande Tribulação, resultando no arrebatamento dos santos. Este rapto será secreto (o mundo não verá) e iminente (pode ocorrer a qualquer momento). A primeira vinda resultará também na primeira ressurreição, que envolve apenas os que morreram em Cristo. Logo em seguida ao arrebatamento, ocorrerá no céu o primeiro julgamento, chamado de Tribunal de Cristo. Este terá como objetivo a distribuição de galardões para os crentes arrebatados.

Posteriormente, enquanto os salvos estiverem festejando no céu as Bodas do cordeiro, o Anticristo (a besta) surgirá com o Falso profeta e fará um concerto (na verdade, um governo mundial) de sete anos com Israel. Entretanto, na metade desse período, o concerto será rompido e Jerusalém, após ter sido enganada, será tomada e a grande apostasia será deflagrada, dando início à Grande Tribulação em toda terra. Vale ressaltar que nesse momento, a salvação passa a ser um prêmio pelo martírio daqueles que rejeitarem o governo do anticristo. No fim desta Tribulação, acontecerá a Segunda Volta de Cristo com todos os seus santos.

Nesta Segunda volta se dará a Batalha do Armagedom, onde Jesus destruirá a besta e o falso profeta. Após isso, instaurará o Tribunal das Nações (segundo julgamento), trazendo ira e vingança contra as nações que se colocaram contra Jerusalém e ainda promoverá a ressurreição dos santos (segunda ressurreição) que morreram durante a tribulação e aprisionará Satanás por mil anos. A partir deste momento, terá início o reino milenar de Cristo. Jerusalém será a sede deste reino e todos os vivos da terra serão seus cidadãos. E então, não haverá mais pecado, nem morte, mas sim prosperidade e longevidade. 

Com o fim do milênio, Satanás será solto, mas rapidamente lançado no lago de fogo, onde já se encontram a besta e o falso profeta. Depois, os ímpios ressuscitarão (terceira ressurreição) para serem julgados (terceiro julgamento), condenados e destinados ao inferno. E, finalmente, os salvos terão seu destino, o novo céu e a nova terra.

3.2. AMILENISMO

De acordo com o amilenismo, o primeiro evento a acontecer é a grande tribulação (com a igreja na terra) e o surgimento do anticristo, ocasionando a apostasia de muitos cristãos e grande angústia na terra. Depois, Cristo volta, em um evento único e visível a todos, e nessa vinda, acontece o arrebatamento. Em seguida, acontece a ressurreição geral de salvos e ímpios para serem julgados no Tribunal de Cristo. Assim, os salvos recebem a vida eterna para reinarem com Deus no novo céu e na nova terra e os ímpios a recebem a condenação eterna e são lançados no inferno com Satanás e seus aliados derrotados.

Para os amilenistas, a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus, pois Deus tem apenas um povo. O milênio não é um reino literal de mil anos, mas sim um reino espiritual que começou na primeira vinda de Cristo, isto é, desde a ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, e terminará na segunda vinda de Cristo. E a prisão de Satanás significa, simplesmente, que ele não pode conter o avanço do evangelho de Cristo.

3.3. REFUTAÇÃO AO DISPENSACIONALISMO

3.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que a vinda de Cristo terá duas fases e será invisível ao mundo. Porém, a Palavra de Cristo mostra que Sua Segunda Vinda será um evento único, visível e tangente à toda humanidade. Ap 1.7 diz claramente: “Eis que vem com a nuvens e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” 

3.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que na segunda volta de Cristo, os mártires da grande tribulação serão salvos, como um remanescente que se vale de uma segunda chance. Porém, em 2 Tessalonicenses 1.3-12, Paulo nos mostra que quando Jesus voltar, todos os que, até este momento, não se decidiram por Jesus, serão lançados no fogo do inferno. Não haverá segunda chance, nem oportunidade de arrependimento, pois o Senhor vem trazendo vingança contra “aqueles que não obedecem ao evangelho de Cristo”.

3.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Terceiro, temos a afirmação de que haverá mais de uma ressurreição e que a ressurreição dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, em João 5.27-29, lemos que tanto os justos quanto os ímpios ressuscitarão no mesmo dia, sendo que, os justos para a vida e os ímpios para a morte. Da mesma forma, Em Daniel 12.2, nos é dito que tanto salvos quanto condenados ressuscitarão no mesmo momento. 

3.3.4. 4ª AFIRMAÇÃO

Quarto, temos a afirmação de que haverá mais de um julgamento, isto é, o julgamento dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, todos os textos que fazem referência ao Juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre a humanidade no último dia. Em Mateus 25.31-43, toda humanidade, dividida em dois grupos – os salvos e perdidos – será citada e tomará lugar diante do Tribunal de Cristo. Em 1 Coríntios 4.5, tanto os filhos das trevas, quanto os salvos serão manifestos diante do Tribunal de Cristo para receber de Deus o galardão ou a reprimenda.

3.3.5. 5ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação de que a igreja será poupada da Grande Tribulação. Porém, segundo o sermão profético dado por Jesus, a igreja passará grande tribulação, a qual será interrompida pela sua volta (Mt 24.21-29). Da mesma forma, o apóstolo Paulo fala da Grande Tribulação que irá acometer a igreja nos dias que antecedem a volta de Cristo. Em 2 Ts 2.3, ele declara: “Ninguém de modo nenhum vos engane, porque isto (a volta de Cristo) não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição”. E, finalmente, em Ap 7.13-14 nos é dito que os crentes no céu saíram da Grande Tribulação. 
4. O PONTO FRACO

Todo o problema que envolve essas doutrinas da DF tem resposta em sua deficiência hermenêutica, a qual pode ser classificada como um misto de hermenêutica alegórica e hermenêutica literalista.

A corrente alegórica trata-se de um dos mais antigos métodos de interpretação de que se tem conhecimento, e surgiu nos séculos que sucederam à era apostólica. Os defensores deste método diziam que o verdadeiro sentido jazia sob o significado literal da Escritura, isto é, era oculto. 

Orígenis (185-254), grande representante desta corrente, cria ser as Escrituras uma vasta alegoria, na qual cada detalhe é simbólico, e dava bastante importância à 1 Coríntios 2.6-7 (“falamos a sabedoria de Deus em mistério”), cometendo assim, um erro muito comum entre alguns exegetas, que é dar importância demais a alguns textos bíblicos de forma isolada.

Porém, a corrente reformada, na qual foram baseadas todas as antíteses do presente texto, se apoia nos seguintes princípios:

1) A única regra de fé infalível de interpretação é a própria Escritura. Ou seja, quando houver dúvida sobre o sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto deve ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente;

2) O texto não pode ser estudado isoladamente, mas dentro do seu contexto bíblico geral;

3) Se o texto for obscuro, não deve ser usado como matéria de fé, isto é, respaldo para doutrinas;

4) Toda alegorização deve ser rejeitada como método de interpretação das Escrituras, exceto em caso que o próprio autor afirma se tratar de uma alegoria (Gl 4:24-26);

5) Toda interpretação deve ser dada levando-se em consideração o contexto histórico (a situação para a qual o autor está falando); a análise literária (a natureza, a redação e a estrutura do texto); a análise canônica (citações interbíblicas e comparação canônica) e o propósito do autor no contexto da obra;

6) Toda abordagem literal (literalismo) que não se justificar pelo contexto deve ser rejeitada;

7) Nenhuma interpretação deve ser tida como legítima se coloca a Escritura em contradição com a própria Escritura.

O ponto fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus consiste, portanto, na sua hermenêutica que, obviamente, não segue os princípios reformados.
5. CONCLUSÃO

Este trabalho não tem a intenção de denunciar, alterar ou criticar a Declaração de Fé da Assembleia de Deus; não tem a pretensão de ser tomado como palavra última em nenhuma matéria teológica, nem impor uma ditadura teológica; e não pretende apontar nenhuma doutrina aqui citada como falsa ou herética. 

Esse trabalho trouxe à luz, apenas, algumas discrepâncias existentes entre a interpretação assembleiana e a interpretação reformada de algumas doutrinas, na intenção de provocar uma reflexão sobre convicções teológicas, trazendo visões diferentes de algumas teses bíblicas e, acima de tudo, visando o conhecimento da Palavra de Deus.

Em suma, portanto, Soli Deo Gloria!

Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmos 119.105)

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Notas:
1 -   Com o intuito de tornar a leitura menos maçante, usaremos, por vezes, “DF” ao invés de “Declaração de Fé da Assembleia de Deus”

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Autora: Gisllayne Silva
Contato: gis.alt.org@gmail.com
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Honestidade e Honra Denominacional

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A honestidade é tão importante na teologia como nos negócios e no comércio, numa denominação religiosa como em um partido político. A honestidade confessional consiste, em primeiro lugar, em uma clara e inequívoca declaração de uma Igreja acerca de sua crença doutrinária; e, segundo, numa adoção inequívoca e sincera por parte de seus membros. Ambas as coisas são necessárias. Se uma denominação particular faz uma declaração ampla de sua crença, que é possível de ser interpretada em mais de um sentido, ela é desonesta. Se o credo da denominação é bem estruturado e elaborado, mas os membros que subscrevem com reserva mental e falta de sinceridade, a denominação é desonesta. 

A honestidade e a sinceridade são fundamentadas numa clara convicção e uma clara convicção é firmada no conhecimento e no reconhecimento da verdade. A heresia é um pecado e é classificada por são Paulo entre as “obras da carne”, juntamente com “adultério, idolatria, assassinato, inveja e ódio”, que excluem do reino de Deus (Gl 5:19-21). Mas a heresia não é um pecado tão grande quanto a desonestidade. Pode existir uma heresia honesta, mas não uma honesta desonestidade. Alguém que reconhece ser um herege, é um homem melhor do que aquele que finge ser ortodoxo enquanto subscreve um credo que despreza, e que ele finge sob pretexto de melhorá-lo e adaptá-lo ao tempo presente. O herege honesto deixa a igreja com a qual ele não concorda, mas o subscritor insincero permanece dentro dela para realizar o seu plano de desmoralização.

As discussões recentes na Igreja Presbiteriana revelaram uma diferença de sentimento em relação ao valor da honestidade denominacional. Alguns dos jornais seculares atribuem intolerância e perseguição aos presbiterianos, quando os desvios do credo da igreja são objeto de inquérito judicial e quando indivíduos são exigidos a conformar o seu ensino do púlpito ou da cátedra com os padrões denominacionais. Desta forma, uma parte da imprensa pública está em consonância com a desonestidade confessional. Isso permitiria aos oficiais da igreja subscreverem um credo e obter as vantagens da subscrição sob a forma de reputação ou benefícios, enquanto trabalham contra ele.

O credo de uma igreja é um contrato solene entre os membros da igreja, muito mais do que a ideologia de um partido político é entre políticos. Parte da imprensa parece não perceber a imoralidade de violar um contrato quando se trata de uma denominação religiosa, mas quando um partido político é o grupo a ser afetado pela violação de uma promessa, ninguém é mais preciso do que ela em discernir e nenhum deles é mais veemente em denunciar a dupla negociação.

Deveria surgir um grupo dentro do Partido Republicano, por exemplo, e se esforçar para alterar a plataforma, mantendo os escritórios e os salários garantidos por professar fidelidade ao partido e prometendo adotar os princípios fundamentais sobre os quais foi fundado, e pelos quais difere do Partido Democrático e demais partidos políticos, a acusação de desonestidade política poderia prejudicar a posição social e histórica do Republicanismo. Quando esses divergentes se desviam do cargo, sendo disciplinados pelo partido, e talvez, sejam expulsos da organização política, se a queixa de heresia política e a perseguição fossem oferecida, a única resposta concedida pela imprensa republicana seria a do desprezo. Quando alguns políticos desonestos reivindicam a tolerância, sob a desculpa de políticas mais “liberais” do que as aceitas pelo partido, preservando-se o pagamento do partido, enquanto defende diferentes sentimentos da maioria do partido, o fato é que ninguém é obrigado a unir-se ao Partido Republicano, ou permanecer nele, mas se uma pessoa se juntar a ele ou ficar nele, deve adotar estritamente o credo do partido e não fazer tentativas, seguras ou abertas, de alterá-lo. Que um credo republicano pertence aos republicanos e a nenhum outro, parece ser a concordância por todos. Mas que um credo calvinista é para calvinistas e de nenhum outro, parece suscitar dúvidas de alguns.

Há defensores de uma visão de igreja confessional e de uma subscrição confessional que argumentam que é apropriado introduzir melhorias num credo denominacional. Que o progresso na física e no espírito da nossa época exigem novas declarações de ética e religião. E isso justifica o surgimento dentro de uma denominação de um grupo para fazê-los, e exige que a denominação atente e analise com calma. Isto significa, por exemplo, que uma igreja que adota a escatologia histórica é obrigada a permitir que os seus membros pensem que o restauracionismo  é uma melhoria, e que poderiam introduzi-lo nos artigos de fé. Ou que uma igreja que adota o arminianismo wesleyano é obrigada a permitir que seus membros pensem que a eleição incondicional seja preferível a eleição condicional, esforçando para torná-la calvinista, introduzindo esse princípio doutrinário.

Mas se uma liberdade correspondente fosse exigida na esfera política, não haveria nenhuma aceitação. Se dentro do Partido Democrata surgisse um grupo que reivindicasse o direito, enquanto membros no partido, para converter o corpo em princípios e medidas republicanas, se diria que o lugar apropriado para tal projeto está fora do Partido Democrata, e não nele. O direito do grupo divergente às suas próprias opiniões não seria contestado, mas seria negado o direito de mantê-las e espalhá-las com os recursos financeiros e a influência do Partido Democrata. Os democratas poderiam usar a ilustração de Lutero num exemplo semelhante: “Não podemos evitar que as aves voem sobre nossas cabeças, mas podemos impedir que elas façam seus ninhos nos nossos cabelos”. Eles diriam aos mal-intencionados: “Não podemos impedir que vocês tenham suas próprias visões peculiares e indesejáveis, mas vocês não têm o direito de ventilá-las em nossa organização”. Se os executivos da Alfândega de New York ou dos Correios insistissem em usar os salários dessas grandes instituições na transformação da política do partido que os colocou lá, nenhuma acusação de “perseguição” impediria o partido de cobrar imediatamente a sua coerência. No entanto, alguns da imprensa secular, bem como alguns religiosos, afirmam que é apropriado para os subscritores da Confissão de Westminster fazerem uma alteração radical na teologia denominacional dentro da denominação, e que estão reprimindo o livre pensamento e o direito de juízo privado, quando o sete-oitavos de representantes da Igreja Presbiteriana vetou sobre tal tentativa em seu tribunal da Assembleia Geral.

Nesta ação eclesiástica não há negação do direito de juízo privado e de livre pensamento sobre qualquer sistema de doutrina. Apenas afirma que aqueles que discordam do credo aceito pela denominação, se forem minoritários, devem sair dela, se desejarem construir um novo esquema doutrinário. A maioria satisfeita tem o direito de exercer o livre pensamento e o juízo privado, bem como a minoria insatisfeita, mas na sua prática permanece o credo como está. Consequentemente, se o descontentamento com o padrão denominacional surgir na mente de alguns, o lugar apropriado para seus novos experimentos em teologia, está dentro de uma nova organização e não na antiga que não concorda com as suas especulações. Por esta razão, desde tempos imemoriais, uma denominação religiosa sempre reivindicou o direito de expulsar pessoas que são hereges, conforme julgados pelo credo denominacional. Só assim pode uma denominação viver e prosperar. Não seria útil para a sociedade ou a religião derrubar os limites doutrinários da denominação e convertê-la numa “terra de ninguém” para que todas as variedades de crenças divaguem.

Aqui surge a questão: quem deve interpretar o credo da igreja e dizer se um esquema proposto de doutrina concorda com ele, ou o contradiz? Quem poderia dizer o que é heresia do ponto de vista do sistema denominacional? Certamente a denominação, e não o indivíduo ou o grupo que é acusado de heresia. Este é um ponto de grande importância. Para aqueles que são acusados de heterodoxia, comumente definem a ortodoxia a seu modo e afirmam não se afastarem do que eles consideram como os elementos essenciais do sistema denominacional. O partido arminiano na controvérsia do Sínodo de Dort alegou que as suas modificações na doutrina eram moderadas e não antagônicas aos credos reformados. Os semiarianos na Igreja Inglesa afirmaram que a sua concepção da Trindade não diferia essencialmente da dos pais nicenos. Em cada uma dessas instâncias, o acusado queixou-se de que suas declarações foram erroneamente interpretadas por seus oponentes, afirmando que a Igreja estava equivocada ao supor que sua heterodoxia não poderia ser harmonizada com a fé herdada. A mesma afirmação de ser mal interpretada e a mesma reivindicação de ser ortodoxa, marca o julgamento existente na Igreja Presbiteriana.

Ao determinar qual é o verdadeiro significado da fraseologia em uma proposta de alteração do credo denominacional, e qual será a influência natural dela se for permitido ensiná-la, é óbvio de que é a denominação quem decide. No caso de uma diferença na compreensão e interpretação de um documento escrito contendo mudanças propostas no credo da igreja, a regra da lei comum aplica-se, que o acusado não pode ser o juiz final do significado e disposição do seu próprio documento, mas sim o tribunal. A denominação é o tribunal. Não há dificuldades ou injustiças nisso. Um julgamento denominacional é correto para ser equitativo, ocorra ele na Igreja ou no Estado. A história da política mostra que as decisões dos grandes partidos políticos respeitando o verdadeiro significado de suas ideologias e a conformidade dos indivíduos a elas, geralmente, foram corretas. A história da religião também mostra que os julgamentos dos grandes grupos eclesiásticos agiram corretamente em relação aos ensinos de seus padrões, e o acordo ou desacordo das escolas particulares de teologia com eles. Os indivíduos e os partidos foram declarados heterodoxos, política ou teologicamente, pelo voto deliberado do corpo ao qual pertenciam. É raro que a maioria estivesse errada e correta minoria.

A honestidade confessional é intimamente relacionada com a honra denominacional. As igrejas que foram as mais francas em anunciar o seu credo, bem como as mais rigorosas em insistir numa interpretação honesta e a sua adoção por parte de seus membros, caracterizaram-se por uma escrupulosa consideração pelos direitos de outras igrejas. Estando satisfeitos com sua própria posição doutrinária e confiantes da verdade de seus artigos de fé, eles não invadiram outras denominações para alterar seu credo ou obter seu prestígio. A este respeito, os calvinistas da cristandade se comparam favoravelmente com alguns de seus oponentes que os acusam de obscurantismo e intolerância. É verdade que, nos tempos em que a união da Igreja e do Estado era universal, e a propagação de qualquer outra religião, exceto a do Estado, era considerada ameaçadora para o bem político, os calvinistas como todos os outros partidos religiosos tentaram suprimir todos os credos senão o estabelecido.

Mas os calvinistas estavam na vanguarda a favor da separação da Igreja e do Estado e pela tolerância religiosa que resultaria naturalmente. Desde que a tolerância religiosa se tornou o princípio da cristandade e tornou-se dominante o direito protestante do juízo privado, o calvinismo não foi intolerante ou disposto a interferir nos credos, instituições e benefícios de outros grupos. A este respeito temos um bom exemplo. Não há exemplos registrados, que nos lembremos, de que calvinistas secretamente adulteraram o credo de outro corpo eclesiástico e tentaram seduzir os seus membros de sua lealdade aos artigos de crença por eles adotados publicamente. De sua própria posição calvinista aberta e declarada, eles, naturalmente, criticaram e se opuseram a outros credos, porque acreditavam que eles eram mais ou menos errôneos, mas nunca adotaram a estratégia de se infiltrar noutra denominação, subscrevendo os seus artigos e, em seguida, a partir dessa posição, revolucionar o grupo que professou sinceramente se juntar. Nenhuma parte da cristandade foi mais livre de hipocrisia e dissimulação do que as igrejas calvinistas.

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Notas:

[1] Os parágrafos foram subdivididos para facilitar a compreensão dos argumentos. Nota do tradutor.
[2] O termo em seu uso teológico pode referir-se a premissa histórico-teológica de que o cristianismo se apostatou em pontos essenciais de sua identidade doutrinária, sendo necessário restaurá-lo. Steven L. Ware, de modo confuso, define “restauracionismo é um complexo de ideias que, implícito e comum a todo o protestantismo (...) é essencialmente sinônimo de primitivismo”. Veja “Restorationism in Classical Pentecostalism” em New Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements (Grand Rapids, Zondervan, 2002). Neste sentido, em parte, a reforma protestante foi restauracionista, mas a sua reivindicação é de um retorno ao ensino da Escritura Sagrada e não ao modelo da igreja primitiva. A igreja no primeiro século passou pela transição da aliança, dentro dum processo que culminou na cessação dos agentes e modalidades revelacionais, bem como da transmissão de novas revelações. A igreja primitiva não foi o modelo final, tanto pelos diferentes problemas e imperfeições Sitz im Leben que evidenciava, como também ela não poderia ser considerada madura até que se consumasse a transição. O fechamento do cânon do Novo Testamento, o fim do apostolado e a consumação da estrutura da nova aliança, somente ocorreram no fim do primeiro século. Por isso, o modelo de igreja é determinado por princípios bíblicos e não por um exemplarismo histórico. Shedd usa o termo restauracionismo, em seu sentido negativo, para se referir a grupos heréticos que surgiram em sua época como o adventismo, o mormonismo e as testemunhas de Jeová. O pentecostalismo surge no início do século XX como uma proposta restauracionista. Nota do tradutor.
[3] J. De Witt, “William Greenough Thayer Shedd,” PRR 6:295–332. Traduzida por: Felipe Sabino de Araújo Neto e revisada por Ewerton B. Tokashiki.
[4] Encontra-se disponível uma nova edição com notas, num único volume. Alan W. Gomes, ed., William G.T. Shedd, Dogmatic Theology (Phillipsburgh, P&R Publishing, 3ª ed., 2003). Nota do tradutor.
[5] Publicada pela Editora Hagnos. Nota do tradutor.

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Sobre o autor: William G.T. Shedd foi o maior sistematizador, depois de Charles Hodge, da teologia calvinista americana entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. O seu pai foi um ministro congregacional que encorajou a sua educação na Vermont University e no Andover Theological Seminary. Em Vermont, Shedd estudou aos pés de James Marsh, que o encorajou a ler Platão, Kant e Coleridge, um trio de autores que mantiveram uma influência em sua teologia pelo resto de sua vida. Shedd serviu, por um breve período, como ministro congregacional em Vermont. Ensinou inglês na Vermont University, retórica sagrada no Auburn Theological Seminary e história da igreja em Andover, antes de assumir o serviço ministerial, como pastor-auxiliar na Brick Presbyterian Church, em Nova Iorque. Em 1863 ele se tornou um professor de Bíblia e teologia no Union Theological Seminary, em Nova Iorque, onde permaneceu por mais de trinta anos.
A obra mais conhecida, dentre as muitas de Shedd, foi a Dogmatic Theology,  publicada originalmente em três volumes, entre 1888 a 1894. Como a Teologia Sistemática  (1872–73) de Hodge, o manual de teologia sistemática de Shedd defende o “alto Calvinismo” da Confissão de Westminster contra o arminianismo, o catolicismo romano e o racionalismo moderno. Shedd não foi tão abrangente quanto Hodge no tratamento das várias divisões da teologia, mas ele incorporou aspectos do pensamento moderno em sua obra mais do que Hodge ou quase qualquer outro conservador de sua geração, especialmente ideias de desenvolvimento histórico. Novamente ele foi incomum em sua confiança sobre a história do Cristianismo como um antídoto para os ensinos medíocres, quer antigos, quer modernos. Para ele, Atanásio sobre a Trindade, Agostinho sobre a natureza do pecado, Anselmo sobre a existência de Deus e os reformadores sobre a salvação, eram mais do que capazes de delinear os contornos da ortodoxia. Ele sabia que a tradição agostiniana-calvinista carregava amplos recursos bíblicos, teológicos e filosóficos para suportar o teste do tempo.
Os interesses de Shedd se estenderam bem além da teologia, abrangendo a literatura, a história da igreja, a homilética e o comentário bíblico. Ele publicou obras em cada uma dessas áreas. Testificou o seu interesse na ideia do desenvolvimento histórico orgânico ao publicar Lectures on the Philosophy of History, em 1856, e editando as obras completas de Samuel Taylor Coleridge, publicada em sete volumes, em 1853.

Fonte: Calvinism: Pure and Mixed – A Defense of the Westminster Standards (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1986), pp. 152-158.
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
Divulgação: Bereianos

Reforma, Calvino e Economia

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A influência da Reforma Protestante para o desenvolvimento do capitalismo é alvo de não pequena controvérsia no mundo acadêmico. Ela tem servido especialmente para enfatizar o papel da religião nas relações econômicas. O debate tende a buscar respostas na polarização entre a história dos países influenciados pela Reforma, mais ao norte da Europa, e os países católicos romanos, mais próximos do mediterrâneo, razão pela qual também é grande a tentação de reduzir o debate a uma briga de torcidas, quando os interessados são influenciados pelo denominacionalismo estrito. A controvérsia por vezes toma a forma de uma rivalidade mimética, pela qual pressupõe-se que a verdadeira religião cristã é aquela mais afinada às verdades econômicas – um parâmetro que não deixa de ter alguma relevância, visto que o cristianismo, ao contrário de outras religiões, é também uma religião histórica preocupada com uma cosmovisão coerente com a realidade concreta.

O Calvinismo Estimula as Missões

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“O Calvinismo mata as missões!”, dizem muitos. Afinal, se Deus já escolheu alguns para salvar antes da fundação do mundo, deixando outros para serem condenados, então por que nos incomodaríamos pregando o evangelho às nações? Os eleitos serão salvos e nenhum dos outros será. Mas quando fazemos uma pausa para examinar de perto o Calvinismo, descobrimos que ele não mata missões — ele, de fato, é combustível para missões! Consideremos os bem conhecidos cinco pontos do calvinismo para ver como eles se relacionam com as missões.

Depravação Total — A necessidade de Missões

Como Calvinistas, acreditamos que “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12). Assim, todos os homens nascem como pecadores; todos nascemos em rebelião contra Deus. Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:10-11). Somos totalmente depravados por natureza, o que não significa que somos tão completamente perversos quanto possível, mas que nossa pecaminosidade afeta todas as áreas da vida. Nenhum aspecto das nossas vidas está livre da corrupção do pecado.

Uma vez que todos os seres humanos são pecadores, todos nós nascemos sob o juízo de Deus. Não importa onde vamos no mundo de hoje, separados de Cristo, aqueles que encontramos enfrentam a ira de Deus por seus pecados. “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da nossa carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3). Uma eternidade no inferno espera as pessoas ao redor do mundo, como castigo por seus pecados. Como esta realidade pode não nos levar a encontrar maneiras de levar as boas novas de Jesus Cristo para as nações? Jesus é o único que pode salvá-los de um futuro terrível e lamentável!

Eleição incondicional — A esperança através das Missões

Porque Deus não tem prazer na morte dos ímpios, mas chama os ímpios para que se convertam do seu caminho e vivam (Ezequiel 33:11), Ele predestinou um povo para a adoção de filhos por Jesus Cristo, de acordo com o beneplácito da Sua vontade (Efésios 1:5). A escolha de Deus, ou eleição, de um povo para manifestar a Sua graça foi incondicional, já que não há nada em nós como pecadores que faria com que Deus nos amasse (1 João 4:10).

Os eleitos de Deus são uma grande multidão que ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas (Apocalipse 7:9). E Ele escolheu esta grande multidão para receber a Sua gloriosa graça. É com essa certa esperança de sucesso nas missões que os Calvinistas vão às nações proclamando o Evangelho de Jesus Cristo.

Expiação limitada — A mensagem das Missões

Deus, o Pai, dá o Seu povo eleito ao seu Filho, Jesus Cristo, para que todos os que veem o Filho e creem n'Ele possam ter a vida eterna (João 6:40). Ele usa pregadores para levar o Evangelho de Jesus Cristo para as nações, pois como eles invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouviram sem um pregador? (Romanos 10:14).

A mensagem de todos os pregadores Cristãos é resumida pelo apóstolo Paulo: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze” (1 Coríntios 15:3-5). Cristo morreu para pagar pelos nossos pecados, “assim assegurando uma eterna redenção” (Hebreus 9:12). Ele não morreu apenas para tornar possível o perdão dos pecados. Cristo realmente nos redimiu para Deus por meio do Seu sangue. Ele redimiu homens e mulheres de todas as tribos, línguas, povos e nações (Apocalipse 5:9). Os Calvinistas querem que o povo de Deus, de toda tribo, língua, povo e nação, ouça sobre a expiação substitutiva de Cristo pelos pecadores, para que sejam perdoados dos seus pecados e adotados como filhos e filhas de Deus.

Graça irresistível — O poder nas Missões

Os seres humanos nascem em estado de total depravação, completamente depravados, espiritualmente mortos em seus delitos e pecados (Efésios 2:1). Isso significa que ninguém virá a Cristo por si mesmo. Mas nos regozijamos em lembrar que Deus está operando através do Espírito Santo, efetivamente atraindo os Seus eleitos para Cristo (João 6:44). E a graça de Deus é irresistível, porque Ele determinou salvar um povo para Sua glória.

Portanto, os Calvinistas apelam a todos os homens em todos os lugares para se arrependerem (Atos 17:30), porque sabemos que aqueles eleitos por Deus se arrependerão e crerão em Cristo! Esta poderosa graça de Deus nos dá confiança nas missões, sabendo que todos os que creem em Cristo serão salvos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Sim, os Calvinistas acreditam em João 3:16!

Perseverança dos santos — O sucesso com as Missões

Finalmente, os Calvinistas descansam por saberem que nosso trabalho missionário será finalmente bem-sucedido. Pois, a Palavra de Deus não retornará a Ele vazia, mas cumprirá o que Lhe apraz (Isaías 55:11). Se não vemos o fruto do nosso trabalho entre as nações, então não precisamos desesperar. Não é ele o que planta, nem o que rega, mas Deus é quem dá o aumento (1 Coríntios 3:7). Ao mesmo tempo, sabemos que Deus está agindo e atraindo as pessoas para Si mesmo, então continuamos a proclamar as boas novas confiando n'Ele para remover os corações de pedra e dar corações de carne (Ezequiel 36:26).

Além disso, quando as pessoas em todo o mundo nascem de novo, reconhecemos que Aquele que começou uma boa obra nelas a completará (Filipenses 1:6). Deus nos apresentará irrepreensíveis diante da presença de Sua glória com grande alegria (Judas 24). Portanto, aguardamos com expectativa o dia em que nos uniremos com nossos irmãos e irmãs em Cristo de todo o mundo, louvando nosso Salvador pela redenção que Ele realizou na cruz. Que estas gloriosas verdades estimulem os nossos corações para missões como Calvinistas, para que Cristo seja glorificado!

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Autor: John Divito
Fonte: Founders Ministries
Tradução: Tayllon Gabriel
Revisão: Camila Rebeca Almeida Teixeira
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