Entre Calvino e Rousseau: O Ocidente e Sua Fragmentação no Multiculturalismo

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Há poucos dias, P. Andrew Sandlin escreveu um ensaio em seu blog argumentando corretamente que o problema americano não é a imigração, mas o multiculturalismo. De fato, os EUA é uma nação de imigrantes. Antes do marcusianismo[1] (que Sandlin chama de "marxismo libertário") e da Escola de Frankfurt, porém, todos os imigrantes, com maior ou menor dificuldade, sujeitavam-se à cultura e às leis americanas, enraizadas, nas palavras do teólogo, em um "protestantismo conservador genérico".

A imagem que se construiu daquele país no resto do mundo é falsa em grande medida. Vemos o comportamento de suas celebridades, as opiniões de seus jornais e o caráter de seus filmes como os verdadeiros representantes da cultura daquele povo, quando a realidade é outra muito diferente. Erik von Kuehnelt-Leddihn, austríaco, monarquista e católico conservador, enxerga uma essência muito peculiar do povo americano dentro da modernidade. Para ele, trata-se de um povo profundamente influenciado pelo calvinismo, que foi, por sua vez, uma espécie de "bote salva-vidas" do medievalismo. Em seu artigo "The Western Dilemma: Calvin or Rousseau?" [O Dilema Ocidental: Calvino ou Rousseau?], ele escreveu:

"Se nós chamarmos os estadistas do fim do século XVIII de Founding Fathers of The United States [Pais Fundadores dos Estados Unidos], então os Peregrinos e Puritanos são os avôs e Calvino, o bisavô. Dizendo isso, ninguém precisa excluir a Virginia, porque o anglicanismo tem fundamentos essencialmente calvinistas ainda reconhecíveis em seus Trinta e Nove Artigos, e os Pais Peregrinos, como os puritanos em geral, representavam um tipo de anglicanismo re-reformado. Embora a moda deísta oitocentista possa ter penetrado em alguns círculos intelectuais, o espírito predominante dos americanos antes e depois da Guerra de Independência era essencialmente calvinista em ambos os aspectos brilhantes ou feios. Eles eram um povo trabalhador, sóbrio, sincero, intensivamente nacionalista, conscientes e orgulhosos de seus padrões morais, que incluíam a "ética protestante do trabalho". Como uma nação de tais virtudes eles despertaram a admiração do mundo e em sua própria auto-estima foram convencidos de que sua nação tinha uma missão messiânica de salvar o mundo através de uma 'novus ordo seclorum'."

Para alguns intelectuais, entre eles o próprio Erik von Kuehnelt-Leddhin, mas também R. J. Rushdoony, uma das razões que conduziram os Peregrinos para o Novo Mundo foi o desejo de fugir da modernidade e do Iluminismo. Para Kuehnelt-Leddihn, mesmo os católicos americanos são culturalmente calvinistas. Ele relata que imigrantes católicos irlandeses e italianos, quando chegavam aos EUA, eram vistos pelos outros católicos como pagãos. O austríaco acredita que a Reforma preservou o espírito medieval genuíno, enquanto o catolicismo amalgamou-se com o Renascimento. O Racionalismo e o Iluminismo seriam netos do Escolasticismo e do Renascimento, respectivamente, e ambos teriam sido gerados nas entranhas do mundo católico, só posteriormente atacando de forma mais agressiva o mundo afetado pela Reforma na Europa. Mas o mesmo não aconteceu nos EUA. Nas colônias, os puritanos encontraram liberdade religiosa e política, marcante em suas leis até hoje. Mesmo que o humanismo, e mesmo a Maçonaria, tenham desempenhado um papel relevante em sua história, o espírito calvinista é o seu espírito original. Para Erik, o americano médio talvez nunca tenha sido um homem moderno no sentido completo. Foi apenas depois da Guerra Civil, e muito mais consistentemente no século XX, há uma mudança radical de perspectiva.

Fora dos EUA, contudo, a visão que se alimenta dos EUA é a pior possível. Não apenas por causa da agenda anti-americana da esquerda nas escolas, mas também, por causa dos filmes, os próprios cristãos acabam alimentando uma ideia muito equivocada daquela nação. Quando Alexis de Tocqueville esteve nos EUA, ele viu que a grandeza daquela nação estava sobretudo na vitalidade das igrejas. De fato, há nos EUA hoje uma força crescente e cada vez mais radical de anti-cristianismo. Por outro, há ainda um cotidiano completamente maquiado e desprezado por Hollywood e pela imprensa. A arte e a comunicação hoje são dominados por humanistas que, agindo segundo uma agenda própria, tentar descaracterizar a história daquela nação. Os historiadores humanistas, semelhantemente, têm feito um esforço considerável para amenizar a influência cristã na história americana, omitindo, inclusive, a participação de cristãos durante a Guerra Civil. O fato é que apenas poucas áreas – consideravelmente populosas, é verdade – a cultura cristã está mais enfraquecida. E esses têm sido os porta-vozes daquela nação. "Hollywoood" vende "Californication", cantou Anthony Kiedis. O humanismo americano tem recebido uma conotação igualmente escatológica e quer tomar aquela nação inteira de assalto. Há uma mentalidade religiosa que quer livrar aquela grande nação de sua herança.

O multiculturalismo tem exatamente esse propósito, a saber, a destruição da influência cristã no Ocidente. Divorciar a América de seu passado cristão é negar que a unidade daquele povo fosse cultural e entregar essa unidade a um quadro político vazio, a ser preenchido por qualquer conteúdo. No fim das contas, trata-se de conceder ao Estado aquela força que provém antes de uma religiosidade comum, o que, na prática, é impossível de ser feito sem que haja um desastre a longo prazo. Como Rushdoony assevera, o primeiro conflito é antes de tudo religioso – entre cristianismo e humanismo. Sem entendermos as forças antitéticas agindo no Ocidente depois do fim do mundo medieval, i.e., a Reforma e o humanismo, nascidas do cristianismo medieval e do Renascimento, é impossível falar do Ocidente de forma realista, e haveremos, como os islâmicos que odeiam esse legado, de entender que a escatologia do mundo ocidental segue rumo a uma "californização" e que isso seria de alguma forma culpa do cristianismo. Para Rushdoony, a origem do anti-cristianismo que vemos hoje está no Renascimento e no uso de Aristóteles por aqueles que queriam livrar-se da religião cristã. A secularização, em grande medida, é apenas a substituição paulatina de Agostinho pelo Estagirita, pela cosmovisão e noética de ambos.

Sandlin conclui que a solução realmente sólida para o problema que aquele país enfrenta hoje é a reeducação do povo em sua verdadeira herança, no resgate de seu espírito calvinista. Para ele, a causa da crise é que eles "falharam como uma cultura para preservar sua herança" e Trump possivelmente não está preparado para resolver essa questão. A mesmíssima solução é a apontada por Erik von Kuehnelt-Leddihn: o dilema do mundo ocidental há de ser resolvido com o retorno ao pensamento de João Calvino, especialmente no que se refere à sua antropologia.

"A Nova Esquerda continuará seu jogo até que seu tempo finde, e isso será quando a dissolução rousseauniana engolfar-nos ou – como deveríamos esperar – quando dos profundos recessos do subconsciente americano aquelas memórias do outro genebrino [no caso, Calvino] levantarem-se para uma nova vida" (Erik von Kuehnelt-Leddihn, "The Western Dilemma: Calvin or Rousseau?").

O futuro do mundo será resolvido entre Calvino e Rousseau.

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Nota:
[1] A referência aqui é a Herbert Marcuse. 

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Autor: Antonio Vitor
Divulgação: Bereianos
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Reforma, Calvino e Economia

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A influência da Reforma Protestante para o desenvolvimento do capitalismo é alvo de não pequena controvérsia no mundo acadêmico. Ela tem servido especialmente para enfatizar o papel da religião nas relações econômicas. O debate tende a buscar respostas na polarização entre a história dos países influenciados pela Reforma, mais ao norte da Europa, e os países católicos romanos, mais próximos do mediterrâneo, razão pela qual também é grande a tentação de reduzir o debate a uma briga de torcidas, quando os interessados são influenciados pelo denominacionalismo estrito. A controvérsia por vezes toma a forma de uma rivalidade mimética, pela qual pressupõe-se que a verdadeira religião cristã é aquela mais afinada às verdades econômicas – um parâmetro que não deixa de ter alguma relevância, visto que o cristianismo, ao contrário de outras religiões, é também uma religião histórica preocupada com uma cosmovisão coerente com a realidade concreta.

Cristianismo e Aborto

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A demanda por aborto não é exclusividade de um único país, mas é comum hoje a todo o mundo ocidental. De um lado, certamente, havemos de reconhecer – e é muito importante que se entenda – que políticas a favor da legalização do aborto têm sido cada vez mais impostas verticalmente, a partir de governantes que seguem agendas políticas conscientemente dentro do processo de subversão cultural do Ocidente; de outro lado, devemos reconhecer que tal demanda é apenas a consequência de um longo processo de entropia cultural do mundo outrora cristão. Falha quem resume o problema apenas ao primeiro aspecto, julgando que tudo não passa apenas de uma militância revolucionária em favor de modelos socialistas; nesse sentido, a igreja muito comumente falha ao negar que exista tal militância, entendendo o problema como exclusivamente cultural. Mas é fato que a agenda revolucionária tem o único propósito de forçar, de impulsionar os resultados desse descarrilamento intelectual e espiritual do Ocidente. Os revolucionários, de certa forma, querem acelerar o processo que muitos deles creem ser a consumação dos tempos do humanismo. A demanda por aborto não surgiu por coincidência: ela é fruto de uma cosmovisão.