Paradoxos Bíblicos

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Os crentes mais antigos já devem ter se deparado com disputas teológicas entre arminianos e calvinistas. Para quem não sabe, o debate entre os dois grupos gira em torno, basicamente, da polêmica entre a existência de livre-arbítrio para crer no Evangelho. Os dois grupos recorrem a um compêndio de textos bíblicos para fundamentar suas teses, deixando qualquer leigo sem posição definida atônito diante de duas hipóteses concorrentes largamente embasadas no mesmo livro.

Como calvinista, entendo que nossa vontade está condicionada aos propósitos divinos ao mesmo tempo que Deus nos faculta escolhas. As duas situações coexistem! Mas não há espaço aqui para discutir esse tópico. Minha intenção é levá-lo a refletir sobre os paradoxos existentes na Bíblia e que podem trazer certa confusão, como na polêmica existente entre arminianos e calvinistas.

Nos vemos diante de um paradoxo quando Jesus nos diz que: os últimos serão os primeiros (Mt 20:16) ou que o menor é o maior (Lc 22:26); seu fardo é leve (Mt 11:30) ao mesmo tempo que temos de carregar nossa própria cruz e negar a nós mesmos (Mc 8:34); é chegado o Reino de Deus (Mt 3:2), o qual, contudo, não é deste mundo (Jo 18:36). Paulo, por sua vez, em um testemunho pessoal chega à conclusão de que quando está fraco é que está forte (2 Co12:10). E ainda podemos observar que enquanto nas cartas apostólicas por diversas vezes se enfatiza a salvação pela graça (Ef 2:8-9), em Tiago lemos que a fé sem obras é morta (Tg 2:14-17) e em Hebreus somos lembrados que sem santidade ninguém verá a Deus (Hb 12:14).

A interpretação precipitada desses ensinamentos aparentemente contraditórios têm resultado em um sem-número de divergências doutrinárias, especialmente no tocante ao entendimento da doutrina da graça. Enquanto alguns, por exemplo, enfatizam a graça, outros se focam nos aspectos morais e nas obras. Em geral essa torre de babel de interpretações decorre da simples negligência de princípios básicos de exegese e interpretação, como desconsiderar os destinatários primários dos textos bíblicos, objetivos do autor, contextos etc. E aqui me apropriarei da figura do corpo humano para explanar melhor sobre esse tema.

Paulo usa o corpo humano para dissertar a respeito dos dons pois um corpo, como bem observa o apóstolo, é equilibrado. E é justamente esse equilíbrio que nos falta ao refletir e optar por um lado nas controvérsias. Quando se enfatiza muito a graça em detrimento das obras a intenção é, para resumir bastante, libertar os crentes das amarras do legalismo. No entanto, tal ênfase na graça pode levar a uma noção equivocada da importância da santidade e das obras, tendo como consequência principal um relaxamento no aspecto moral da vida. A doutrina da graça é, sem dúvida, uma doutrina central no cristianismo, atrelada diretamente à obra salvífica de Cristo e suas implicações para nós, mas pode trazer graves prejuízos quando é isolada da doutrina da santidade cristã. Se a graça é o coração do corpo, sendo responsável por bombear sangue para os demais órgãos, a santidade pode ser representada pelos rins, que filtram as impurezas. Sem o coração o corpo padece imediatamente, mas sem os rins, embora o corpo possa subsistir um pouco mais, ele também não sobreviverá. Desse modo, o primeiro benefício da aplicação correta dos dois ensinamentos bíblicos é que para se ter uma vida cristã saudável, equilibrada, é preciso compreender que seu esforço não pode contribuir para a salvação, mas que é imprescindível para uma vida em santidade e uma fé produtiva.

Essa tensão constante entre termos que parecem representar uma oposição e coexistirem parece intencional e até um padrão divino, pois se repete diversas vezes na Bíblia, como já mencionado. Podemos inferir, então, que a vida cristã é caracterizada por paradoxos, e o crente que não entende isso se perde em algum extremo. 

Conforme Mt 5:4,11, somos bem-aventurados por chorarmos e sofrermos perseguição! O Sermão do Monte em seu início é quase uma apologia ao sofrimento, pois prega valores contrários ao instinto humano na maioria das vezes. O mundo é naturalmente injusto, e buscar justiça nele não poucas vezes requer sacrifício e uma boa dose de altruísmo. Ser manso numa sociedade que te impele a revidar e a impor-se para não ser pisado não é uma tarefa fácil. Ser manso, em muitas situações, é até mesmo contrário à natureza humana, especialmente quando estamos em posição de superioridade. Que se dirá então sobre ser misericordioso quando nossa vontade natural é retribuir o mal com mal?

O Evangelho não apenas nos apresenta realidades aparentemente paradoxais, como é vivenciado dessa forma. Nós até podemos entender facilmente o que foi discutido até aqui, mas viver esse Evangelho é que é o grande desafio, pois implica uma compreensão da própria existência que transcende a lógica do entendimento humano.

A lógica humana é linear, relativamente simples. Em termos gerais, eu planto e colho,  trabalho e recebo. A lógica divina, que encontramos nas páginas bíblicas, porém, é um tanto diferente. Eu planto e outro pode colher, e isso é bênção para mim, que plantei. Eu trabalho, mas posso receber o mesmo de que quem não trabalha, e isso continua sendo justo. Não, não estou fazendo apologia ao socialismo! O fato é que as duas lógicas, tanto a humana como a divina, coexistem para os cristãos. Nós continuamos sendo abençoados se outro colhe os frutos do que plantamos, ao mesmo tempo que também é bênção eu mesmo colher. E receber sem trabalhar é basicamente a graça divina em nossas vidas. Continua sendo justo e funcionando a lógica humana e bíblica de que se alguém não quer trabalhar que não coma (2Ts 3:10), mas precisamos aceitar que recebemos a dádiva da salvação sem nada fazer por merecê-la. As duas realidades existem na vida do cristão, e em algum momento ele precisará aplicar uma ou outra. Há tempo para ser gracioso com o próximo, e tempo para recompensar os que trabalharam.

Acredito que a existência de tais paradoxos na Bíblia representa o distanciamento entre nossa capacidade de compreensão e o agir divino, assim como a transmissão dessas ideias pelos escritores bíblicos enfrentava as limitações da linguagem humana e do nível intelectual de cada autor. Por isso, fazemos contorcionismos para encaixar a lógica divina dentro das nossas limitações. Tentamos até explicar a trindade! 

Talvez devamos tão somente aceitar que, mesmo sendo salvos pela graça, Deus quer que  sejamos santos, quase (eu disse “quase”) como se nossa salvação dependesse de nós mesmos, tamanho o zelo e devoção com os quais devemos lidar com cada aspecto das nossas vidas. Somos salvos pela graça mas devemos buscar a perfeição (Mt 5:48). Se juntarmos os dois lados do debate sobre livre-arbítrio, quem sabe chegaremos a alguma conclusão que traga mais conforto e noção de responsabilidade aos cristãos, uma vez que entenderão ser impossível perder a dádiva da salvação, pois foram escolhidos por Ele, ao mesmo tempo que estarão conscientes de que é preciso escolher a melhor parte (Lc 10:42).

Por fim, e mais importante, sabendo que vivemos num tempo em que muitos se voltam para o Evangelho da Prosperidade ou dão ouvidos a pastores-coaches, precisamos compreender que as bem-aventuranças proferidas por Jesus em Mateus 5 não são apenas uma forma enigmática de representar a lógica do Reino de Deus, mas nos alertam sobre a realidade da vida cristã quando vivida integralmente. Se não entendemos que podemos ser bem-aventurados enquanto estamos tristes e sofrendo, então somos candidatos a repetir o erro dos israelitas que murmuraram depois de haverem sido libertados da escravidão no Egito. 

Essa tensão entre opostos nos acompanhará até nossos últimos dias neste mundo, pois a lógica do reino de Deus é diferente da nossa. Nesse reino que, como diria Oscar Cullman,“já veio, mas ainda não”.

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Autor: Renato César



De Dentro para Fora

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O quão difícil e comum pode ser a vida do cristão? Você provavelmente já ouviu sobre as promessas que Deus tem para sua vida, sobre a vitória que está a caminho diante da tribulação que você está enfrentando, entre outras ilusões disfarçadas de mensagens de ânimo e esperança. Mas aí o tempo passa e as coisas não caminham do jeito que se esperava. A cura não vem, aquela porta não se abre, o problema e o sofrimento persistem. Quem já não se viu nessa situação? Quem tem apenas vitórias humanas para contar? Quem nunca sofreu ou viu-se mergulhado em um problema a ponto de ter de se adaptar por longos períodos a uma realidade que não era a esperada?

Infelizmente, para muitos cristãos o Evangelho se tornou um meio para melhorar a qualidade de vida, e isso em grande parte por culpa de pregadores que propagam uma boa-nova distorcida, com muitas promessas que comumente não se realizam. Contudo, muitos ouvintes destes pregadores continuam a segui-los na expectativa de que as coisas vão mudar, de que a vitória está chegando. E é puramente na expetativa de que as tais promessas de solução dos problemas e fim do sofrimento chegarão que esses cristãos continuam vivendo um evangelho diferente daquele encontrado nas páginas bíblicas.

Não que seja inapropriado desejar uma vida melhor e buscar mais qualidade de vida. Essa busca é instintiva e natural, e eu sou o primeiro nessa fila. Mas não posso deixar de alertá-lo sobre os riscos dessa corrida se tornar vã, como quem corre atrás do vento. Não há, absolutamente, nenhuma garantia nas páginas da Bíblia de que você obterá algum tipo de bênção especial além da vida vindoura, no Reino do Deus nos céus. Você achará, sim, exemplos de servos de Deus que prosperaram (Abraão, Davi...) e de outros que viveram uma vida conturbada, árdua e até miserável sob a ótica humana (Jeremias, Paulo, Jesus...).

As vidas vividas pelos servos de Deus nas páginas bíblicas são uma fiel representação da realidade. Há cristãos afortunados e cristãos pobres, uns são sadios e outros doentes, uns terão vidas pacíficas e felizes e outros viverão vidas conturbadas, entremeadas de dores e conflitos. Provavelmente, se fizéssemos uma pesquisa nós não encontraríamos provas definitivas de que ser cristão traga algum tipo de vantagem neste mundo, exceto nos relacionamentos, e, ainda assim, com muitas ressalvas, que aqui não precisam ser relacionadas se você já teve um mínimo de convívio com outros cristãos por um tempo razoável.

Se isso é verdadeiro, então que vantagem há em ser cristão? O que o Evangelho tem de diferente de qualquer outra mensagem? Para responder a essa pergunta, antes é preciso entender o que é o Evangelho. A resposta é simples, porém mal compreendida ou explorada. O Evangelho é, resumidamente, a boa notícia sobre a salvação em Cristo (Rm 1:16). Esta salvação, é claro, refere-se à solução que Deus nos proporcionou para que não fôssemos para o Inferno, mas para perto dele, no Paraíso. Logo, no próprio entendimento do que é o Evangelho está a resposta à primeira pergunta. E se entendemos que o Evangelho é sobre o porvir, sobre a vida eterna com Cristo e não a vida terrena e passageira deste mundo, também compreenderemos que nenhuma outra mensagem de ânimo ou consolo, ainda que bíblica, se compara ao Evangelho. O Evangelho, de maneira mais específica, é sobre a cruz de Cristo. A cruz é sobre libertação do poder do pecado, sobre o pagamento da dívida que tínhamos com Deus (Cl 2:13-14). Repare que tudo isso diz respeito a uma esfera espiritual, e não material.

Enfim, a promessa do Evangelho refere-se ao futuro (Rm 6:8, Hb 10:35-37), não ao presente, e diz respeito à dimensão espiritual, não à material. Sim, tudo isso é abstrato, e é justamente por isso que a Palavra nos diz que o justo viverá pela fé (Hb 10:38). Nunca fomos convidados por Jesus a crer na mensagem do Evangelho por conta das recompensas presentes e materiais. Sua pregação era justamente o oposto disso. Jesus convidava ao arrependimento e anunciava a proximidade do Reino de Deus (Mt 4:17), que não é deste mundo. Contudo, não faltam pregadores de um evangelho terrestre, de recompensas materiais para esta vida, e muito menos faltam crentes neste evangelho apequenado, destituído de seu cerne, reduzido a uma mensagem limitada aos anseios carnais carregados de egoísmo e vaidade, na infinita busca da satisfação humana.

A essa altura, você pode estar questionando se estou argumentando que o Evangelho não traz nenhuma mudança positiva para nossas vidas, e talvez discordando por conhecer alguns bons exemplos, talvez em sua própria vida, de mudanças positivas trazidas por ele, como casamentos e famílias restauradas, libertação de vícios, entre outros tantos exemplos. E este é, sem dúvida, o ponto-chave para entender o tipo de mudança que o verdadeiro Evangelho opera. A mensagem Bíblica e a realidade do dia a dia nos mostram que a mudança operada pelo Evangelho não ocorre diretamente no entorno do converso, mas dentro dele. Não é de fora para dentro, mas de dentro para fora. Em geral, a vida do convertido melhora porque ele melhora, tornando-se uma filha mais obediente, uma esposa mais paciente, um marido mais amoroso, um estudante mais dedicado, enfim, uma pessoa melhor, que apresenta em sua vida o fruto do Espírito.

Não são raros os exemplos de cristãos que enfrentam perseguição, cujas vidas eram mais confortáveis antes de crerem em Cristo. Se fosse tão vantajoso ser cristão aos olhos humanos, Jesus não precisaria ter dito aquelas palavras de consolo e esperança que introduzem o Sermão do Monte, em Mateus 5:3-12. Então, se a sua vida cristã não é um exemplo de prosperidade, paz e felicidade permanentes, não quer dizer que você esteja necessariamente colhendo algo que plantou, muito menos quer dizer que você é mais pecador que aqueles que parecem mais abençoados. Por vezes, os frutos do Evangelho se manifestam através do sofrimento, da perda, da frustração e da aparente falta de sorte, assim como podem ser vistos em uma vida pacífica, próspera e feliz. Talvez você só precise atualizar suas definições de bênção, ou compreender, e crer, que o Evangelho, conquanto faça diferença em nossas vidas nesta terra, não é um manual de como obter recompensas, mas uma mensagem sobre fé em Cristo, apesar das recompensas.

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Autor: Renato César
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Sobre a resposta de um arminiano ao Granconato

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Anda circulando na internet a resposta de um arminiano ao Granconato, sobre o texto de Mt 11:21-24. Não vou tratar sobre esse texto. Deixo os comentários para os exegetas de plantão. Quero falar sobre a presciência divina como a solução mágica para explicar o caráter divino.

Para o arminiano, não existe qualquer possibilidade de coexistência da eleição incondicional, vulgo predestinação, com o amor, misericórdia e justiça divinos. Ou Deus é estas três últimas coisas ou ele predestina. Na percepção de muitos respeitáveis e dedicados teólogos, Deus eleger de acordo unicamente com a sua vontade o tornaria um cruel e desamoroso tirano, pois estaria impedindo que alguns fossem ao céu, ao mesmo tempo que a outros concederia  esse privilégio de “mão beijada”. Está bem, então, vamos trabalhar com a mesma lógica, mas em sentido oposto.

Ora, sendo Deus bom, amoroso, misericordioso e justo, ele deveria conceder, pela lógica arminiana, a todos os homens iguais oportunidades de conversão e “acesso” a sua graça. Mas nós sabemos que isso não acontece. Deus não dá a todos os homens a mesma chance de conversão. Alguns ouvem o evangelho uma vez, outros uma centena. Há quem se converta somente na centésima. E então, como é que fica a justiça divina nesse caso?

Seguindo em frente, vamos considerar agora que Deus prevê quem irá se converter e quem não, e partir para uma ilustração. José e João têm, hoje, dez anos. Deus já viu que José se converterá, e que João não. Imaginemos agora que você tivesse acesso a essa informação. Você até poderia pregar para João, mas saberia que ele sempre permaneceria na incredulidade. “Sim, claro, por escolha dele”, objeta o arminiano. Mas seja sincero: não lhe parece o destino de João tão determinado quanto o de um não predestinado? Para se livrar dessa pedra no sapato, alguns arminianos e(in)voluíram para a Teologia do Processo ou Teísmo Aberto. Pronto, problema resolvido. Ninguém está mais com o destino selado, nem por você mesmo, nem por Deus. 

Mas o ponto chave é este: não estaria Deus sendo cruel ao mandar para o inferno uma pessoa, quem quer que seja? Se Deus é amor, misericordioso e justo, não haveria um modo diferente de resolver o problema que não enviando pecadores insensatos para o inferno? Afinal, Deus é Deus, e não seria difícil para ele achar outra solução.

Você enxerga o problema nessa argumentação? Se não, eu deixarei mais claro aqui. Sempre que tentamos encaixotar o amor, a bondade, a misericórdia e justiça de Deus, impondo limites ao que é ou não bom e justo, nós nos tornamos juízes de Deus. A ânsia de servir a um deus politicamente correto tem levado muitos a tentar explicar a participação divina nas tragédias de uma maneira mais adocicada, boazinha.

Falta ao arminiano aceitar que Deus é tudo isso que vivem repetindo dentro de Seu próprio padrão de conduta, que não é igual ao nosso. Ele não está sujeito ao tempo, espaço e à matéria como nós. Por que, então, estaria sujeito às mesmas regras morais? Deus mandou dizimar povos, matou “inocentes” criancinhas primogênitas no Egito, e Ele manda para o inferno pessoas boas aos nossos olhos. Mas aí está o problema. Tudo isso que entendemos como bom ou ruim, espiritualmente falando, está distorcido. É por isso que pessoas boas (aos nossos olhos) vão para o inferno. As pessoas boas de verdade vão para o Paraíso.

O calvinista verdadeiro aceita o que a Bíblia diz. Deus é amor, é justo e todo aquele leque de qualidades que podemos enumerar, ao mesmo tempo que reconhece que Deus também elege segundo bem quer e endurece o coração de alguns para recusarem sua vontade.

A verdade é que não dá para um calvinista discutir com um arminiano, porque o arminiano quer entender e explicar Deus, enquanto o calvinista se limita a aceitar Deus como Ele é, mesmo que não possa, é claro, compreender todos os mistérios.

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Autor: Renato César
Divulgação: Bereianos
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Cristo vive em você?

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“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim... - Gálatas 2:20

O tema da santificação é, talvez, um dos menos polêmicos entre cristãos. É consenso que o cristão deve santificar-se, embora alguns possam migrar para o extremo de, inconscientemente, adotar a santificação como ferramenta de justificação diante de Deus. Mas nós sabemos que a justificação ocorre em um momento pontual da conversão, fruto de uma ação externa e sem qualquer participação do crente. A santificação é, então, um tipo de complemento a esse processo, mas não determinante para a salvação. Não é uma causa da conversão, mas uma consequência, com efetiva participação do cristão, sem a qual não se verá ao Senhor (Hb 12:14).

Não raro, em alguns círculos reformados, qualquer alusão à temática traz em sua sombra os vestígios das exacerbações dos usos e costumes de comunidades pentecostais. Alguém fala em santificação e o alarme de regras dispara na cabeça do crente: “mas é pela graça, não por obras”. Sim, a salvação é pela graça, mas quando se fala em santificação, ao menos idealmente, não se está discutindo a salvação, mas a prática cristã diária. Não se trata de como você começou sua jornada, mas de como você está agora e irá terminar, se é que você se vê como peregrino neste mundo.

Se por um lado as obras da fé foram alçadas por certos grupos evangélicos e católicos a um patamar elevado até o nível da fé salvífica, por outro acabaram sendo desvalorizadas pelos mais radicais advogados da salvação pela graça. Talvez por esse motivo a providência divina tenha feito Tiago entrar no Cânone. Entre esses dois extremos existe a fé que é seguida pelas obras, de modo que uma sem a outra é morta (Tg 2:26).

A santificação está intimamente ligada às obras. Um cristão que não experimenta a santificação terá enorme dificuldade em praticar boas obras. Na verdade, eu diria que esse cristão não existe! Não é possível que um cristão não se santifique, assim como não é possível que uma árvore boa dê frutos ruins continuamente (Mt 7:17). Não é que a fé dependa das obras para operar a salvação, mas se trata de não ser possível que haja uma fé salvífica que não opere boas obras (Tg 2:26), assim como uma fonte doce não pode deitar água amargosa (Tg 3:11).

A prática das boas obras é um reflexo do processo de santificação. Um cristão que pratica obras sem santificar-se estará fazendo qualquer coisa que não uma “boa obra”, porque a santificação exige separação ao Senhor, assim como uma obra só será boa se ao Senhor ela for dedicada. Não faltam ateus praticando atos altruístas. Mas, para Deus, estas atitudes não possuem o valor espiritual que têm aquelas que resultam da fé, porque não se trata do que é feito, mas da motivação do coração, isto é, da consagração a Deus.

Contudo, o santificar-se, o separar-se para Deus, só é possível de uma única forma: Cristo habitando no crente, o que, por sua vez, só pode ocorrer se o crente morrer para si. Como consta no texto de Gálatas 2:20, Cristo só pode viver em você se o seu “eu” estiver morto. Não se trata de algum tipo de possessão, mas de uma metáfora bíblica para mostrar que ou você é como Cristo ou você não é convertido. Não há meio termo, assim como não há morno aceitável. Ou você é frio ou quente. Se você é morno será vomitado (Ap 3:15-16), e melhor lhe seria que fosse frio! Não pode o velho e o novo homem coexistirem na mesma pessoa. Não há espaço para concessão no Evangelho. Quem com Cristo não ajunta, espalha. Se Cristo, por meio do Espírito Santo, habita no crente, então não se espera menos de um crente que atos que reflitam a nova pessoa que ele é, ainda que em meio a tropeços e deslizes.

O fato é que não faltam crentes vivendo como se não fossem templos do Espírito Santo. Agem como se seguissem algum código de ética descrito em um manual de bons modos do Clube Dominical. Evitam vícios famigerados, usam roupas recatadas, filtram palavras de baixo calão e mantém um hábito primoroso de frequência às reuniões da igreja, mas seus corações são mornos e sua graça é seletiva. As disciplinas espirituais até podem estar presentes, mas são mais notáveis quando em público. São apegados ao dinheiro e tudo mais de material, consumistas vaidosos, despreocupados com a pregação do evangelho e esvaziados de amor.

Não quero, aqui, parecer um juiz carrasco e mesquinho que olha de cima do seu muro a sujeira do vizinho enquanto seu quintal está um caos. Sim, eu bem lembro que Jesus advertiu sobre o argueiro no olho. Mas, muito embora eu aqui tenha elencado algumas práticas nefastas que subjazem sob a aparência de religiosidade, o que importa, realmente, é saber se vemos o Espírito de Cristo naqueles que o professam. Importa saber se vemos a retidão em amor e integridade naqueles que se dizem seguidores de Jesus. O Salmo 15 é um bom guia prático.

O aspecto preocupante não é que o cristão peque. Isso é normal e esperado. O que me inquieta é a displicência com que o processo de santificação é encarado, e por consequência a compreensão da necessidade de arrependimento diário. Se Cristo vive em mim, quão grande responsabilidade pesa sobre minha cerviz. Não se trata do peso do serviço em si, pois o serviço a Cristo feito em amor resultará em um fardo leve, mas da responsabilidade pelo nome que levamos e pela missão que recebemos.

A nós é dito que somos o sal do mundo e a luz nas trevas. Ser converso não implica em nada menos do que iluminar o ambiente que nos cerca, refletindo a luz de Cristo que há em nós. Se já não sou eu que vivo, então meus anseios de autorrealização e sonhos de consumo se tornam secundários diante da primazia do reino de Deus em minha vida. Não é possível, logo, viver para Cristo se não matarmos nosso homem interior, o que implica renúncia e abnegação.

Sim, é pela graça que somos salvos, e é pela graça que nos santificamos e fazemos qualquer boa obra, mas de modo algum a graça de Deus em minha vida anula a responsabilidade que tenho de a cada dia fazer morrer meu “eu” e deixar que Cristo viva em mim.

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Autor: Renato César
Divulgação: Bereianos
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E sereis como Deus

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Nenhuma promessa poderia ser mais tentadora ao homem que aquela feita pela serpente em Gn 3:5. O desejo que levou o homem a cometer o primeiro pecado continua presente, e talvez como jamais, no ser humano. Na cena de Gênesis, "ser como Deus" implicava conhecer o bem e o mal, isto é, ter pleno conhecimento.

As formas desse anseio de se materializar nas ambições humanas podem até ter mudado, mas possuem a mesma raiz: o desejo de ser como Deus. Especulando a respeito da natureza divina, poderíamos dizer que nenhum outro ser no universo é pleno, satisfeito em si mesmo, como Deus. A Bíblia nos ensina que o homem somente encontrará sua plenitude em Deus (Jr 2:13, Mt 6:33). Mesmo assim, é comum vermos cristãos cedendo à tentação da serpente.

As redes sociais estão repletas de desabafos disfarçados de conselhos de autoajuda que têm como temas centrais duas palavras-chave: sucesso e felicidade. São palavras tão atrativas quanto perigosas, pois facilmente desviam a nossa atenção de quem de fato deve estar no centro de nossas vidas: Deus, não nós mesmos.

É preocupante, contudo, vermos que tantos cristãos compartilham da diabólica ideia da autossatisfação a ponto de repassarem receituários com frases de efeito e dicas infalíveis para alcançar o sucesso e a felicidade. São textos belos, muitos deles bem elaborados, convincentes e, por que não, com boas doses de verdade. Mas no momento em que trazemos essas receitas para o centro de nossas vidas, desviamo-nos do foco, e caímos na artimanha da serpente que vive em nossos corações (Jr 17:9). Em resumo: nós nos bastamos!

Essa busca frenética e obstinada pela felicidade e sucesso na vida reflete apenas a tentativa disfarçada de autorrealização que estamos fazendo para sermos como Deus, porém não no sentido de seus imitadores. Quando a busca pelo sucesso e felicidade passa a tomar conta de nossos compartilhamentos e curtidas, ela toma o espaço que deveria estar destinado ao que de fato somos: miseráveis pecadores (Rm 7:24) destituídos da glória de Deus (Rm 3:23), que somente em Cristo são mais que vencedores.

Lamentavelmente, a vitória de Cristo na cruz foi transformada em metáfora para um vida material bem sucedida financeiramente e repleta de realizações pessoais que nada tem a ver com o Reino de Deus. Infelizmente, a moda dos selfs não está restrita às fotografias, mas traduz o modus vivendi desta geração de adoradores de si mesmos.

Cristão, entenda de uma vez: você não está nesse mundo caído para correr atrás do sucesso, nem para buscar a felicidade. Cristo consumou seu ministério ao ser cravado em uma cruz, exatamente o oposto do que o mundo julga como sucesso e felicidade. Sucesso para o cristão é imitar a Cristo, e felicidade vem quando se busca o Reino de Deus em primeiro lugar. Isso não e apenas um mandamento, é uma verdade.

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Autor: Renato César
Divulgação: Bereianos

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Estamos nas últimas horas dos últimos dias?

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Por Renato César


O Brasil tem passado nos últimos anos por um momento histórico que lhe é peculiar: o crescimento desenfreado da violência, a libertinagem sexual, a banalização dos valores morais e o estouro de escândalos de corrupção envolvendo autoridades do alto escalão político e empresários. Esses e outros fenômenos têm levado muitos a especular em torno da volta iminente de Cristo, tomando em geral como base suas palavras em Mateus 24. Não quero parecer incrédulo ante esses acontecimentos nem muito menos diante das palavras do Mestre. Mas tenho de, outra vez, ser um estraga prazer. Uma coisa não tem relação com a outra, ao menos não no sentido que tem sido sugerido. Para provar minha teoria, citarei dois exemplos simples. 

Na Grécia antiga, assim como em Roma, para não citar povos vizinhos ao Israel do AT, eram comuns os bacanais. Também as relações homossexuais não estão sendo desvendadas nos nossos dias. Na Grécia a prática era comum e até incentivada. A violência e injustiças sociais sempre prevaleceram em toda a história humana, alcançando patamares inimagináveis em muitos países comunistas ou mesmo na afamada II GM. O segundo exemplo talvez seja ainda mais frustrante para os videntes atuais. Alguns países europeus, como Bélgica, Suíça e Noruega experimentam índices sociais muito positivos, e uma qualidade de vida que muitos já se sentiriam felizes de ter no Paraíso. Esses e outros países estão longe, muito longe desse caos social que o Brasil e outros países enfrentam.

Creio serem suficientes esses dois exemplos para provar minha teoria. Não se pode saber, nem mesmo fazer qualquer ideia de quando Cristo voltará. É o tipo de profecia que somente compreenderemos quando acontecer. Aos que se sentem às portas do arrebatamento, tenho a dizer que não estão errados, desde que não saiam por aí fazendo e dizendo asneiras como se houvesse um relógio da volta de Cristo no centro de sua cidade em contagem regressiva. O que você tem de fazer, faça-o porque é certo, edificante e para glória de Deus, não por um temor descabido e alienado.

Ao mesmo tempo, digo àqueles cristãos que vivem como se Cristo jamais houvesse prometido voltar ou como se não fossem mortais, que a parábola – profética - das dez virgens não está na Bíblia à toa. Os extremos, em geral, são perigosos e prejudiciais, e se é para viver em um deles, que seja o extremo lunático, pois, neste caso especificamente, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta de temor e expetativa da volta do Rei dos reis. Entretanto, sem dúvida alguma o melhor é ser sóbrio e equilibrado, sem jamais esquecer de que Cristo, de fato, pode voltar agora, bem como ter a consciência de que, considerando a média histórica, provavelmente estaremos entre os mortos quando isso ocorrer.

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Fonte: Bereianos
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Inaptos para decidir

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Por Renato César 


Todos aqueles que frequentam este blog e outros tantos que tratam da polêmica questão da existência do livre-arbítrio já se depararam com extensos argumentos em torno da liberdade humana para a salvação. Longe de querer estabelecer um fim a toda a discussão em volta do tema, desejo trazer à baila algumas observações que julgo relevantes para o entendimento da participação supostamente livre do indivíduo no ato de sua conversão. Meu intuito é refletir a respeito de um aspecto básico: como definir se alguém é espiritualmente capaz para decidir?

Salvo exceções, todos querem o melhor para si. Assim, qualquer ser humano mentalmente capaz e sadio que esteja diante de dois caminhos, sendo que um conduz à vida e o outro à morte, irá escolher, naturalmente, o melhor caminho para si, que é, obviamente, o caminho da vida. Assim, se um indivíduo escolhe a morte, devemos supor que ele atravessa um terrível quadro de depressão ou é tão louco quanto uma pessoa que rasga dinheiro, e não vemos loucos rasgando dinheiro com muita facilidade. É claro que, em casos extremos, alguns poderiam escolher o caminho da morte por convicções pessoais, mas neste caso estariam fazendo isso pelo enganoso convencimento de ser o melhor, e não o pior, e logo estariam sendo traídos pela razão, equiparando-se a loucos.

Enfim, o ser humano nasce com um instinto de autopreservação, que explica facilmente o medo que muitos tem da morte. Esse instinto está presente na natureza de cada pessoa, e é este mesmo instinto que irá motivar cada uma a buscar sempre o melhor para si: paz, conforto, saúde... e vida. Se isso é verdade, então temos que se alguém escolhe sofrer ou morrer está indo contra seus próprios instintos de sobrevivência.

Quando alguém rejeita o evangelho, o que este alguém está dizendo para Deus é algo como: “Olha, Senhor, a proposta de uma vida eterna plenamente feliz parece muito boa, mas eu prefiro meus poucos segundos aqui na Terra de aparente felicidade e autorrealização para depois passar a eternidade morta”. É claro que isso não faz o menor sentido. Logo, deve haver alguma justificativa minimamente razoável que explique a opção que alguém faz pela autodestruição. Ou este alguém é louco ou está muito doente.

Não à toa Jesus proferiu a parábola do homem rico de Lucas 12:16-20, que termina assim: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”. Somente um louco pensaria que o pouco tempo que tem neste mundo seria justificativa para viver uma vida materialista e esvaziada de valores espirituais. E é exatamente isso que a acontece! O homem parece louco por rejeitar a Deus e preferir os prazeres terrenos. Sua mente está terrivelmente doente, e por isso ele não consegue optar pelo que é obviamente bom nem consegue ver o que está evidente, e esta é, e sempre será, uma pedra no sapato dos libertaristas.

Os que advogam a plena liberdade humana, como um suposto estado de neutralidade entre o bem e o mal em que cada um se encontra ao escolher o que é melhor para si, precisam explicar como alguém em pleno juízo pode simplesmente optar por aquilo que lhe é desfavorável. Mas não pode haver qualquer explicação razoável a não ser que a visão e compreensão que este alguém tem das coisas espirituais esteja fatalmente prejudicada, do mesmo modo que não há como argumentar que alguém que quer se matar esteja em pleno estado de consciência quando o normal, natural e bíblico é preservar a si próprio. 

Somente a incapacidade espiritual para compreender a mensagem da cruz pode explicar a rejeição ao evangelho, pois qualquer um que entende realmente a dádiva da salvação jamais a rejeita, mas, ao contrário, humilha-se diante de seu Criador com um coração contrito e arrependido por reconhecer o estado de pecado no qual se encontra e perceber a maravilhosa graça manifesta na cruz do Calvário.

Os que acusam calvinistas de incoerentes ou antibíblicos precisam, no mínimo, explicar o que leva alguém a preferir o prazer fugaz desta vida em vez da alegria da vida eterna junto ao Rei dos reis. Afinal, é bem mais fácil aceitar que o Deus soberano e infinitamente mais sábio que nós humanos tenha eleito incondicionalmente apenas alguns para a salvação segundo Seu propósito do que concordar com a ideia de uma liberdade que conduz à morte, representando, incontestavelmente, uma incoerência com a lógica mais fundamental existente em torno do desejo de viver inerente ao ser humano.

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Fonte: Bereianos
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Por que existem crentes endividados?

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Por Renato César


Não é novidade nem surpresa para ninguém que vivemos numa sociedade capitalista que supervaloriza as aparências e, mais especificamente no caso do Brasil, incentiva o consumo para estimular o crescimento econômico. 

Infelizmente, também não é novidade que muitos crentes estão tão envolvidos com os valores dessa sociedade materialista que a própria Igreja tem se deixado influenciar pelo ritmo do consumismo das sociedades modernas a ponto de, algumas vezes, ser difícil discernir o crente do incrédulo se aquele não estiver com a Bíblia “debaixo do sovaco” e este com uma latinha de cerveja numa das mãos.

Os evangélicos, que deveriam ser exemplos morais, estão tão presentes quanto os incrédulos nas listas do SERASA e SPC. Dever na praça é comum, natural, banal. Quem se importa se Cristo se importa? O negócio é ter o que todo mundo tem, mostrar que pode, que sai, que usa e abusa. O caráter íntegro deixou de ser elemento essencial para o cristão, virou item de “checklist”. Alguns tem, outros não.

Alguns crentes devem e dizem que não conseguem se livrar das dívidas. Estão sempre afogados, religiosamente pedindo dinheiro emprestado a um irmão da fé, e como não podem sonegar o imposto que devem ao Estado, deixam de pagar sua contas e ficam conhecidos como crentes velhacos, inclusive dentro de suas próprias igrejas. Muitos sequer se constrangem de seu mau testemunho, pois se tivessem alguma vergonha na cara mudariam seus hábitos. Para estes que não conseguem viver um dia sem estar devendo, sugiro que façam uma rápida busca na internet por George Müller, que tinha como base para sua vida o texto de Rm 13:8: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei”.

É óbvio que não estou falando aqui para viver segundo Müller viveu, nem tampouco para jogar-se para o alto financiamentos ou empréstimos eventualmente necessários para atingir-se um propósito específico. Esta crítica vai para aqueles que fazem dívidas sem possuir capacidade de pagamento, e o fazem sabendo disso. A carapuça serve para os cristãos que abusam da má fé para realizar despesas que não se sabe de onde virá o recurso para honrá-las, e especialmente para aqueles pastores que adoram fazer compromissos com base na fé alheia, sobrecarregando suas congregações com pedidos de ofertas para quitar débitos oriundos de seus desejos carnais.

Se você ganha mil reais, aprenda a viver com seus mil. Não tente ter aquilo que seu irmão que ganha dez mil possui. Viva segundo sua condição financeira, e se não consegue conformar-se vá trabalhar ou estudar para conseguir um emprego melhor, mas não desonre sua igreja nem o evangelho com seu mau testemunho. 

Reconheça que o único culpado por suas dívidas é você mesmo. Ninguém obriga ninguém a gastar. Cabe ao cristão ter nem que seja um pouquinho da firme personalidade que Cristo tinha para ter uma postura correta diante das tentações no caminho, não se deixando influenciar pelas propagandas, anseios pessoais ou amizades, usando-os como justificativa para seu atoleiro financeiro.

Só compre o que você tem plena convicção de que poderá pagar. Não gaste o que não tem, pois quando você deixa de honrar com seus compromissos alguém sai prejudicado e você, em vez de ser benção, torna-se uma maldição na vida dos outros. 

Quando acordar uma negociação, cumpra-a. Tenha palavra, “seja o seu sim, sim, e seu não, não” (Mt 5:37, Tg 5:12). Como diziam os antigos, seja homem! Seja mulher sábia, que sabe governar sua casa e que ajuda o marido a gerenciar o dinheiro da família, em vez de fazer compras fúteis que só servirão para desestabilizar a paz familiar, pois, como diz uma piada, “se você não crê no diabo, fique sem dinheiro e você verá o cão”.

Não há segredo para se ter uma vida financeira equilibrada. Basta gastar menos do que ganha. Se seu emprego não é estável, evite financiamentos e empréstimos. Evite-os sempre que possível, pois os juros comem seu dinheiro como traças consomem roupas. Olhando de perto você não percebe, mas em alguns meses o estrago é enorme. E, por último, não faça dívidas pela fé pois, por motivos óbvios, Deus não é o responsável pelas suas idiotices e, por esse mesmo motivo, não pagará suas contas.

Se você seguir esses conselhos e evitar agir como um mundano na hora de honrar seus compromissos, tenha certeza de que, além de estar honrando a Deus, terá mais paz e provavelmente melhores noites de sono.

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Fonte: Bereianos
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Deus habita no Templo de Salomão, só que não!

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Por Renato César


Já era esperado que grande parcela dos evangélicos discordasse da edificação do Templo de Edir Macedo Salomão, visto que este custou mais de R$ 600 milhões e ainda por cima terá um custo anual de manutenção em torno de R$ 10 milhões. Além disso, o templo acabará por ser mais visado por turistas do que propriamente por pessoas preocupadas em adorar a Deus diante da arca do Edir Macedo da aliança.

Mas eu me pergunto se todos que têm criticado a megalomaníaca construção do agora "Rabispo" Macedo têm prestado atenção em seus calcanhares. Digo isso pois não podemos deixar de pensar em termos proporcionais, ou seja levar em conta se no lugar dele, com toda a dinheirama que o Rabispo tem, muitos não fariam a mesmíssima coisa, ainda que preferindo investir em ilhas em vez de templos.

Há quem estime o faturamento anual da Igreja Universal em mais de R$ 1 bilhão. A revista Forbes avaliou o patrimônio de Macedo em mais de R$ 2 bi. Assim, o Templo de Edir Macedo Salomão, no máximo, teve um custo razoável para a Universal, e sua despesa de manutenção será em boa parte amenizada pela receita oriunda do turismo em torno do mega-templo e, é claro, das ofertas "volotárias", vindo a representar uma ninharia no orçamento total da Universal.

Se pensarmos em termos proporcionais, muitas igrejas têm gastado até uma parcela maior de seu orçamento com construção de seus templos. Quantas catedrais não existem no meio evangélico? Quantas igrejas não possuem piso de primeira, decoração luxuosa e aparatos supérfluos para supostamente dar um upgrade no culto? Já tive o desprazer de visitar igrejas que estão há mais de uma década em obras, preocupadas com a pedra de mármore a ser colocada ali, uns vitrais acolá e o que mais for desnecessário, mas belo e requintado, para melhorar a aparência do templo.

A hipocrisia é um dos pecados mais irritantes que existem, porque ela faz parecer que existem dois pesos distintos com os quais as pessoas são julgadas. É como ver um malandro indignado com os políticos de seu país. As críticas feitas ao Rabispo são em geral corretas, mas deveriam ser direcionadas a uma massa bem maior de líderes evangélicos, e não estou falando apenas dos neopentecostais que aparecem na TV. Muitos têm investido pesadamente em seus templos sob a justificativa de estar fazendo da casa do Senhor um palácio para Deus, mas tudo não passa de vaidade, como bem diz o autor de Eclesiastes: "Fiz para mim obras magníficas; edifiquei para mim casas... E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol" (Ec 2:3,11).

Infelizmente, existe uma obsessão por templos suntuosos entre muitos cristãos, como se fosse antibíblico congregar-se em um espaço simples quando se tem dinheiro para um templo à altura de Deus. O que o Macedo fez, lamentavelmente, não está fora dos padrões da cristandade como um todo. Vide o Vaticano.

É realmente triste que ao longo de toda sua história a Igreja Cristã tenha sido marcada por obras similares a esta da Universal, que não servem para nada além de abrigar muitas cabeças em dias chuvosos ou de sol escaldante e de servir como local de visitação para turistas ou para gerar empregos (pergunto-me quantas pessoas serão necessárias nessa tarefa). No final das contas, ao menos São Paulo saiu beneficiada, pois tem agora mais uma atração turística e alguns desempregados a menos.

Vale aqui lembrar o que diz Atos 17:24:

O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens”.

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Fonte: Bereianos
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Igreja, um corpo e uma organização

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Por Renato César


Nos últimos anos, com o crescente aumento das megaigrejas, cujos líderes passaram a povoar programas televisivos com objetivos supostamente evangelísticos, cresceu também a rejeição de muitos adeptos de outras religiões, dos que se denominam ateus e até mesmo dos próprios evangélicos aos persistentes apelos financeiros desses líderes religiosos.

Na contramão do discurso de “promessas de bênçãos divinas para os dizimistas fiéis” surgiram grupos de evangélicos, muitos dos quais decepcionados com as instituições religiosas e seus líderes, apregoando o ensinamento de que o dízimo não é para os cristãos, mas uma prática restrita ao povo judeu do Antigo Testamento. Esse novo grupo de cristãos tem ganhado cada vez mais espaço, especialmente entre os “sem igreja”, e atraído mais e mais crentes.

A despeito da validade ou não dos argumentos, o fato é que essa nova ala de evangélicos não-dizimistas está evoluindo em seus argumentos, caminhando exatamente na contramão do discurso tradicional do templo sagrado como local onde o povo de Deus deve se congregar, bem como tem combatido ardorosamente a atual estrutura em que está envolto o ambiente eclesiástico, especialmente no que diz respeito à remuneração de pastores.

Não tenho a intenção de discutir aqui a fundamentação bíblica do dízimo para os cristãos, e nem se pastores devem ou não ser remunerados. Esse embate esconde um viés ainda mais preocupante. Refiro-me ao extremo ao qual alguns cristãos tem chegado ao se posicionarem contra qualquer tipo de institucionalização da igreja, contrapondo-se à histórica prática cristã de reunião em templos. Os mais radicais condenam qualquer forma de ajuntamento que implique organização, ou seja a existência de um líder e de uma estrutura administrativa. Uma igreja não organizada formalmente não teria despesas administrativas, incluindo pastores, e logo poderia ter todos os seus recursos destinados a causas mais nobres que manutenção dela mesma, argumentam.

Muitas das críticas feitas à forma como as igrejas se tem portado são pertinentes, e eu mesmo estou entre aqueles que reprovam a maneira pouco eficaz e, muitas vezes, nada honesta como o dinheiro tem sido gerido pelas igrejas institucionalizadas. Mas seria a solução jogar para o ar todo tipo de estrutura administrativa montada em torno da pregação do evangelho? Organizações eclesiásticas trazem realmente mais malefícios que benefícios ao Reino de Deus na Terra?

Quando um grupo de cristãos está reunido, Deus está presente entre eles como está em qualquer outro lugar. Se essas pessoas são apenas um grupo, então elas irão se reunir com objetivos próprios e voltar para suas casas. Alguns poderão alcançar seus objetivos, outros não, mas isso não deverá interferir na estabilidade do grupo. Contudo, se esse ajuntamento não for só um grupo, mas uma equipe, isso significa que as pessoas têm objetivos em comum, que irão direcionar todo o grupo para um objetivo que é de todos. Isso tornará necessário a existência de um líder, e também de uma organização mínima do recursos que permita haver uma combinação de esforços mútuos num mesmo sentido. Agora pense: qual desses dois se parece mais com o corpo de Cristo?

O corpo de Cristo é sua igreja, que tem muitos membros exercendo diferentes dons, que se complementam a fim de que o corpo seja perfeito. Como bem ensinou o apóstolo Paulo em 1Co 12, o corpo de Cristo possui muitos membros, cada um com seu papel, de modo que são todos importantes. Isso é uma equipe! Pessoas com tarefas específicas (dons) trabalhando em torno de um objetivo (proclamação do evangelho) sob a autoridade de um líder (Cristo).

Dessa forma, se servimos a Deus com tudo que temos, devemos servir também com nossos recursos financeiros. Mas se cada um usa seu dinheiro como bem entende, de modo que uns escolhem doar para organizações de caridade, outros para projetos missionários específicos, e ainda outros para a igreja, temos que não há neste caso organização, nem muito menos uma equipe, mas tão somente um grupo de pessoas que se reúnem, e isso não representa o que realmente é o corpo de Cristo.

É claro que ninguém está impedido de contribuir de forma particular e com fins diferenciados, mas deve haver um mínimo de sincronismo entre aqueles que se reúnem num mesmo ajuntamento, no sentido de reunir recursos humanos e financeiros para a consecução de um objetivo comum a todos, pois isso não somente é mais coerente com a ideia de corpo, como também mais eficiente. Dois separados são apenas dois, mas juntos eles podem ser mais. Isso se chama sinergia.

Não à toa existem redes de supermercados ou ocorrem fusões de grandes empresas. Quase todos sabem que unidos podem fazer mais que sozinhos. Falta aos cristãos "modernos" saberem disso também, e tentarem encontrar um meio termo entre suas indignações e a missão da igreja, que poderá ser mais eficazmente realizada se nos concentrarmos em trabalhar juntos, apesar de nossas diferenças e pecados.

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Sobre o autor: Renato César é cristão reformado, formado em administração de empresas e teologia, membro da IPB - Fortaleza/CE. Contatos: renatocesarmg@hotmail.com

Divulgação: Bereianos
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Você provavelmente é a regra

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Por Renato César


Existe uma notória atratividade que certos personagens bíblicos exercem sobre os cristãos, e não por acaso são largamente tomados como paradigmas por pregadores. Em geral, são citados como exemplos bem sucedidos a serem copiados e cujas bênçãos alcançadas devem ser também buscadas pelos crentes de hoje.

Davi está entre os prediletos. Chavões como “assim como o rei Davi venceu todas as suas batalhas, Deus fará você vencer também” são repetidos por muitos pregadores, com algumas variantes. Abraão, Jacó e Jó não ficam atrás, servindo de fundamento bíblico para que os crentes busquem dia após dia a prosperidade que o “Pai das bênçãos tem reservada para aqueles que são fiéis”. Existem ainda as promessas divinas retiradas da Bíblia, e de seu contexto imediato, indiscriminadamente aplicadas aos crentes nos dias atuais, tais como “Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado”, em Jusué 1:3.

É claro que temos muito o que aprender com os grandes personagens bíblicos, e é evidente que as palavras e promessas contidas nas Sagradas Escrituras devem servir, de alguma forma, para os crentes de hoje, se não a Palavra de Deus estaria ultrapassada. O problema, então, não está na Bíblia, mas na aplicação que se tem feito de seus ensinamentos. Mais especificamente, o desvio teológico contido em pregações e chavões evangélicos diz respeito à ênfase dada às recompensas em detrimento dos sacrifícios exigidos daqueles que servem a Deus.

Houve apenas um rei Davi, enquanto muitos milhares eram súditos. Igualmente, Deus não está atrás de alguém que carregue suas promessas para que ele possa constituir um povo para si. Este homem foi Abraão, e depois dele Isaque e Jacó. Os outros milhares, herdeiros dessa promessa, foram apenas pessoas comuns, assim como eu e você. A mesma lógica vale para todos os exemplos retirados da Bíblia e aplicados de modo genérico aos cristãos, como se todos tivessem acesso às mesmas bênçãos e promessas dos grandes nomes bíblicos.

Os pregadores parecem esquecer que enquanto Jó teve tudo que possuía antes de suas desventuras restituído em dobro, seus primeiros dez filhos morreram. Já em 2Sm 24:15 vemos o relato de que setenta mil homens morreram por conta do pecado cometido por Davi. Não seria, então, mais provável que estivéssemos no lugar destes que morreram que no lugar de Jó ou do rei Davi? Entretanto, somos frequentemente induzidos a nos colocarmos no lugar daqueles que foram materialmente abençoados ou de alguma forma bem sucedidos aos olhos humanos. E é essa falácia que fundamenta também heresias como a Teologia da Prosperidade.

O Rei dos reis nasceu num estábulo, foi pobre a vida inteira, rejeitado pelos seus e cravado numa cruz. A vitória de Cristo veio por meio de uma derrota aos olhos dos homens. Ser um profeta obediente a Deus, no Antigo Testamento, foi quase sempre sinônimo de sofrimento, e a coisa não mudou com João Batista, que se vestia com pelo de camelo e alimentava-se com mel silvestre até ser decapitado na prisão. E o que dizer de Estêvão, apedrejado por ser fiel a Cristo, ou de Paulo, cujos sofrimentos são por ele mesmo relatados em 2Co 11:24-28?

Muitos pregadores simplesmente desconsideram o sofrimento desses e tantos outros personagens bíblicos quando querem apresentar um evangelho de promessas de vitórias e prosperidade para os ouvintes. O lado difícil do serviço a Deus é descaradamente suplantado pelas bênçãos materiais registradas nas Escrituras e pelos exemplos que satisfaçam as intenções daqueles que por desonestidade ou ingenuidade apregoam uma vida cristã livre de perdas, doenças e tristezas.

Não podemos nos orientar por exceções. Tomemos os grandes nomes da Bíblia como exemplos, aprendamos com seus erros e acertos, mas sem deixar que a tentação de querer ser a exceção nos torne cegos diante da realidade de que quase certamente somos regra. 

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Sobre o autor: Renato César é cristão reformado, formado em administração de empresas e teologia, membro da IPB - Fortaleza/CE. Contatos: renatocesarmg@hotmail.com

Divulgação: Bereianos
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Louvor ou pedido cantado?

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Por Renato César


Há algum tempo os tradicionais hinos, presentes nos hinários de muitas igrejas, foram substituídos, parcial ou totalmente, por cânticos contemporâneos, mais conhecidos como louvores gospel, durante os cultos dominicais. Pouco importa se a letra está alinhada com a ortodoxia. O que realmente importa para as novas gerações é que a melodia compassada e em geral lenta dos hinos não é atrativa como as dos novos cânticos, por vezes recheados de efeitos sonoros e entremeados com solos de guitarra e ministrações.

A crítica feita aos atuais louvores deve afastar, contudo, o mero saudosismo pelos cânticos do passado, bem como evitar que se incorra no erro de sacralizar determinados estilos ou ritmos musicais. Primeiro, a preferência por um ou outro ritmo é questão de gosto, coisa que não se discute. Segundo, não há ritmo sacro ou profano. O que determina a sacralidade de algo é a destinação que se dá (1Co 10:31).

O grande motivo desta crítica aos novos louvores está para além de uma mera preferência pelo antigo, e menos ainda deve-se a qualquer resistência à mudança, ao menos de minha parte. O cerne da questão é, de fato, teológico, e, ainda mais, diz respeito à prática cristã num momento que por essência deve ser inteiramente dedicado a Deus: o culto.

Por culto todos nós concordamos, creio, tratar-se de um momento em que cada um dos eventos, atos e intenções deve ser voltado àquele que é alvo da adoração. Se esse entendimento é o correto, como espero, podemos então derivar esse mesmo princípio para os cânticos de adoração a Deus, e verificar se estes realmente cumprem os objetivos a que se propõe.

Uma análise superficial mostrará que as letras de muitos louvores cantados nos cultos estão longe de atingir seu objetivo, desviando o foco, que é Deus, para o homem. Não que estes louvores glorifiquem ao homem. Mas se não chegam a tanto, acabam por voltar-se a nós, servos, e não ao Senhor, no sentido de que tornam as necessidades humanas proeminentes em relação à adoração a Deus.

Por vezes, o desvio é sutil, imperceptível aos leigos, e receio que somente uns sete mil crentes chatos espalhados por aí consigam perceber o que muitos chamariam de pura implicância. Mas deixarei aqui algumas dicas, para reflexão, àqueles que ainda cantam qualquer música para Deus durante os cultos de sua igreja simplesmente porque a melodia é bonita ou a letra motivacional.

Fique atento às músicas que contém pedidos bem pessoais, em geral do tipo: lava-me, enche-me, purifica-me, renova-me, usa-me, entre outros. O momento de culto não é para se pedir, mas para se agradecer pelos tantos pedidos já atendidos. Nesse mesmo sentido, tenha cuidado com cânticos que tragam clamores pela coletividade, tais como “faz chover” e “derrama”, pois não fogem a regra do humanismo. São só algumas horas agradecendo, e você terá o restante do tempo para voltar a pedir que Deus faça chover bênçãos.

Alguns outros cânticos convocam a marchar, guerrear, pisar na cabeça do inimigo, pular para os lados ou dar brados de vitória, sendo este último um dos temas mais recorrentes em canções gospel. Não fogem à regra dos cânticos que possuem expressões como as mencionadas acima.

Tudo isso, devo lhe dizer, está enquadrado no mesmo problema. São cânticos inapropriados para o momento de culto. Mas isso não quer dizer que sejam pecaminosos, ou inferiores a outros louvores que se concentram em enaltecer a Deus, embora alguns aos quais fiz clara referência sejam realmente inconcebíveis teologicamente. O fato é que muitas canções são inadequadas para o culto solene, assim como são as minissaias.

Se, porventura, persiste ainda alguma aparência de preciosismo ou mesmo preconceito de minha parte, resumirei tudo que tentei dizer até aqui de maneira bastante objetiva: as músicas de louvor a Deus cantadas no momento do culto devem ter somente a Deus como tema, deixando de lado quaisquer necessidades humanas. Em outras palavras, o louvor deve servir para, como já diz o próprio nome, louvar, exaltar, adorar, bendizer, engrandecer e glorificar a Deus, e isso deve estar bastante claro nas palavras utilizadas na letra da canção.

Finalmente, devo esclarecer que há muitos hinos que não atingem esse objetivo, bem como há muitos cânticos do movimento gospel que podem e devem ser usados no momento de culto. Mas este alerta serve também para nos fazer lembrar de que há muitos hinos e até mesmo canções antigas, ricas em adoração a Deus, completamente esquecidas em detrimento de louvores que somente são tocados nos cultos por estarem fazendo sucesso entre os crentes.


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Sobre o autor: Renato César é cristão reformado, formado em administração de empresas e teologia, membro da IPB - Fortaleza/CE. Contatos: renatocesarmg@hotmail.com

Divulgação: Bereianos
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Um evangelismo eficiente

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Por Renato César


Primeiramente, devo esclarecer que a expressão evangelismo eficiente refere-se aos meios, não aos fins. Quero dizer com isso que as propostas de evangelismo, nada novas, que apresentarei não são garantia de maior alcance de resultados, mas certamente irão proporcionar a transmissão de uma mensagem mais consistente e precisa.

Considero o método de evangelismo em locais públicos utilizado por muitas igrejas ineficiente porque, em geral, o público-alvo está ouvindo a mensagem não porque tenha sede de ouvi-la, mas porque não tem outra alternativa. É similar ao que algumas pessoas fazem ao ouvir músicas evangélicas em suas casas ou mesmo em seus celulares: aumentam o volume do som a fim de compartilhar o evangelho com a vizinhança. Além de ser uma atitude claramente desrespeitosa, é mais provável que em vez de atrair pessoas a Cristo acabe por causar indignação em quem se sente incomodado com o som alto.

O evangelismo de massa que vemos em Atos tem pouco a ver com isso que vemos hoje em locais públicos. Quando os apóstolos pregavam, o povo ouvia atentamente porque era uma mensagem completamente nova e, especialmente, porque era atraído pelo Espírito Santo de Deus. Igualmente, Jesus não bradava sua mensagem aos quatro ventos enquanto transeuntes cruzavam seu caminho sem dar-lhe atenção. Mesmo quando havia rejeição ao evangelho, essa rejeição não decorria da indiferença dos ouvintes à mensagem, mas porque eles discordavam exatamente de seu conteúdo.

O Brasil é hoje uma país evangelizado. É claro que há ainda regiões muito carentes do evangelho, mas certamente as grandes cidades não estão entre elas. Duvido que se ache com facilidade alguém que não tenha ouvido que Jesus morreu numa cruz para salvar pecadores. Católicos e evangélicos, bem ou mal, compartilham as boas novas em TVs, rádios, internet e quaisquer outros tipos de mídia que se possa imaginar.

A questão, então, não é apenas falar de Cristo, mas transmitir a mensagem da cruz de maneira realmente consistente, mostrando àqueles que estão dispostos a ouvir sua real necessidade de arrependimento e de crer no Cristo morto numa cruz e ressurreto ao terceiro dia. Mas esse tipo de evangelismo só é possível se houver um contato minimamente próximo e prolongado para que se possa explicar, por exemplo, que o Cristo não foi apenas um homem, mas também foi Deus, e que esse mesmo Deus, que se revela em três pessoas, pode habitar em nós por meio do Espírito Santo.

O evangelho, especialmente nestes dias em que se disseminam facilmente tantas deturpações bíblicas, não deve ser passado de qualquer forma, e a melhor maneira de transmiti-lo é ensinando-o, às vezes, individualmente, de maneira paciente e personalizada. Para tanto, alguns métodos evangelísticos são mais propícios, como a utilização de pequenos grupos de evangelismo ou a realização de estudos bíblicos individuais, além, é claro, da pregação tradicional dirigida a ouvintes realmente interessados em ouvir e compreender a mensagem da cruz.

Pequenos grupos são especialmente úteis porque favorecem o evangelismo por amizade. Lamentavelmente, essa metodologia de evangelização, que deu resultado no início da Igreja (ainda que os cristãos assim se reunissem devido às circunstâncias) e em tantos outros lugares, foi deturpada e transformada por alguns em doutrina majoritária, quando na verdade diz respeito muito mais a um modelo de reunião que procura aliar filosofias administrativas à pregação do evangelho, tornando a atuação missionária das igrejas mais eficiente. Da mesma forma, estudos direcionados já demonstraram ser um técnica eficiente na transmissão de qualquer mensagem. O crescimento das Testemunhas de Jeová comprova a eficiência dessa técnica.

Contudo, é preciso ter em mente que o objetivo deve ser aprimorar o evangelismo, e não tornar o método ponto central nos resultados obtidos, desprezando assim a ação do Espírito Santo e a soberania de Deus para a salvação.

Finalmente, devemos nos lembrar que este é um assunto bem mais complexo e difícil de discutir do que parece. Sair por aí pregando sem critérios ou mesmo sem um planejamento prévio é renegar todo o conhecimento e aprimoramentos adquiridos pelo homem no ambiente secular. Ao contrário do que alguns sugerem, fazer uso de métodos e estratégias para tornar a pregação do evangelho mais eficiente, assim como um bom pregador faz ao preparar seu sermão, não é sintoma de desprezo pela ação do Espírito Santo, mas sinal de que se leva muito a sério o “Ide” de Jesus.

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Sobre o autor: Renato César é cristão reformado, formado em administração de empresas e teologia, membro da IPB - Fortaleza/CE. Contatos: renatocesarmg@hotmail.com

Divulgação: Bereianos