“Eu sigo Cristo e não religião!” Como assim?

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O ser humano adora clichês – e falar em relacionamento com Cristo e em não ter religião é um dos que mais encontrou eco na nossa geração. Mas esse é um clichê vazio de significado. Na verdade é uma tolice que virou mantra.

A igreja, pastor, cristão... que oferece aos homens “um relacionamento com Cristo” – estão atrasados e fora da realidade.

A palavra religião se tornou completamente pejorativa na boca de muitos pregadores de hoje, e como se era óbvio de esperar, se espalhou pelos bancos das igrejas e redes sociais. Pregadores, bem intencionados ou não – sei lá – se dispuseram a fazer um trabalho duro e muito longo para retratar religião como uma roupa negra de regulamentos e regras. Então, Cristo é apresentado como uma alternativa completamente nova a tudo o que a vilania da religião representa. Então, um clichê quase virou um versículo bíblico: “Cristianismo não é religião, é relacionamento!”

Toda a ideia é um tanto superficial. Você não tem que fazer rituais estranhos, raspar a cabeça, se vestir estranho, usar gravata... para ser “religioso” – Um grupo de pessoas – não importa como eles sejam, abraçando um determinado conjunto de crenças qualifica-se como religião. Na verdade, todas as pessoas são religiosas de alguma maneira.

Ateus, por exemplo, são muito mais religiosos do que supostamente “racionais – em sua fé obstinada de incredulidade em algo, quando abraçam a fé em outras determinadas coisas e pressupostos – insistindo no nada racional – “o nada criou tudo!”

Não se engane, você é religioso quando repete a crença de um grupo que inventou um clichê, e que repete junto que não é religioso, mas que tem um relacionamento. Você é religioso, mesmo quando nega enfaticamente que é religioso. Na verdade, Paulo diz em Romanos 1 que todos os homens estão adorando e cultuando algo.

A questão primordial, na verdade, é se a religião – não importa se agora você odeia o nome – que você abraça é verdadeira ou falsa. Se ela glorifica a Deus ou o ofende. Se lhe dá glória ou “rouba” Sua glória.

A Bíblia lança luz sobre isso o tempo todo – definindo uma religião pura que reflete o correto relacionamento com Deus. A Bíblia não se furta em dizer: “A religião pura e imaculada é esta...

O Cristianismo bíblico, ou a religião divina, é uma questão de tendo sido regenerado e levado a Cristo pelo Espírito, ser levado a uma vida de santa obediência à Palavra de Deus – que é refletida em um enfrentamento com honestidade do que nós somos – moralmente falidos e dependentes da Graça soberana, que chama, regenera, dá o arrependimento, santifica... nosso interesse pela igreja de Cristo e pelo próximo é uma posição espiritual e moral intransigente em relação ao mundo e sua cultura que religiosamente adora a tantos deuses quanto é possível o homem criar.

A religião pura – que Tiago descreve, por exemplo – é o transbordar de um coração humano regenerado e por isso, em correta relação com o Deus único e Verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo. Portando, sendo levado pelo amor que esse novo coração tem pela Nova Aliança, a obediência alegre e cheia de deleite à Sua Palavra.

A ideia de que o cristianismo não é religião, mais um relacionamento – essa frase – não faz nenhum sentido. É vazia.

A religião que um homem pratica (e todo homem pratica) depende, e é um reflexo do nosso relacionamento com o Deus verdadeiro. (E todo homem tem um).

Como dissemos no início, a igreja, pastor, cristão... que oferece aos homens “um relacionamento com Cristo” – estão atrasados demais e fora da realidade.

O ponto claro e evidente que parece que os repetidores de clichês evangélicos perderam, é que todos os homens estão num relacionamento com Deus, com Jesus... A questão apenas é se é um relacionamento bom ou ruim... todas as criaturas estão num relacionamento com Deus para o bem ou para o mal.

No que diz respeito aos homens, a Bíblia define o relacionamento do homem com Deus em duas categorias:
  1. Aqueles que são seu inimigos.
  2. Aqueles que eram inimigos e foram reconciliados por Graça Soberana.

Alguém me perguntou: “Como alguém pode ter um relacionamento com alguém que não conhece?” - Paulo responde: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.” - Romanos 1:19-21 - (Deus! Pai, Filho e Espírito Santo!)

A Regeneração, Chamado Eficaz, arrependimento e conversão é a transição entre estar num relacionamento com Ele ou no outro.

Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação.” - Romanos 5:10,11

Você vê – antes de sermos chamados, não estávamos sem um “relacionamento” com Deus... vivendo uma vida neutra... estávamos nos relacionando com Ele... como inimigos. E sendo religiosos, como todo ser humano, de forma errada – expressando nossa inimizade e desprezo a Ele.

Em Adão todos nascemos rebeldes contra Deus – nos relacionamos com Ele como Caim se relacionava... e todos os homens que já nasceram. Essa relação pessoal era tal, que estávamos debaixo da Ira infinita de Deus. Cada coisa que você fazia em toda a sua vida fora de Cristo se relacionava a Deus e era feita num relacionamento de inimizade contra Ele. Toda a obra de salvação cai num vazio, quando a reduzimos a um convite simplesmente a um “relacionamento”.

O problema humano JAMAIS FOI UMA FALTA DE RELACIONAMENTO COM DEUS! O problema era um relacionamento hostil – de nossa parte, e da parte d'Ele em relação a nós. É isso que torna a Graça Soberana tão surpreendente: “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.” - Efésios 2:3

Então o problema era o tipo de relacionamento pessoal que tínhamos com Ele – inimigos e hostis! – E esse é o estado ainda de todo homem que está fora de Cristo – debaixo da Ira infinita, neste relacionamento inevitável com Deus.

É por isso que a pregação não é descrita como formar um relacionamento, mas como uma mudança de relacionamento. Nosso ministério não é o ministério de relacionamento – pois relacionamento já existe – nosso ministério é “o ministério da reconciliação” ( 2 Co 5.18 ) – Através da expiação e propiciação o status do relacionamento pode ser mudado.

Se você falar que o cristianismo não é uma religião, mas um relacionamento, você criou uma dicotomia totalmente falsa e enganadora. Porque o que você está oferecendo é a escolha entre religião ou um relacionamento. Mas a divisão que existe é entre falsa e verdadeira religião, e um relacionamento reconciliado pela expiação e propiciação e um relacionamento de inimigos debaixo da Ira.

Quando o homem é reconciliado pela obra soberana de Cristo, então a religião pura e imaculada começa.

Essa é a tragédia em andarmos por clichês, eles obscurecem a verdade. Para diferenciar coisas, precisamos de profundas raízes bíblicas e perspicaz discernimento da Palavra. Clichês são “boas ideias” (assim achamos quando os inventamos) – que soa tão bem exatamente por seu distanciamento da verdade – a mente natural logo os começa a reproduzir – enquanto que normalmente acha difícil e não gosta das profundas definições bíblicas.

Os clichês se tornam populares da mesma forma que as falsas promessas de políticos, falsos pregadores, falsos profetas... não são verdade, mas nós já queríamos acreditar naquilo... então acreditamos quando alguém diz o que queríamos que fosse dito.

Precisamos pensar tão somente e claramente em termos bíblicos – Sem novos insights, clichês ou frases de efeito. A Palavra basta. Sola Scriptura!!

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Autor: Josemar Bessa
Fonte: Site do autor
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Depravação Total - Graças a Deus pela Eleição em Cristo

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Desde a queda de Adão, todos nascem espiritualmente separados da presença de Deus ou espiritualmente mortos e, assim, dependem de uma intervenção divina que é a regeneração para a vida para a qual são incapazes. O texto de Efésios 2. 1 – 10 nos fornece material para podemos entender que estávamos mortos, a nossa natureza era mundana, fomos salvos pela graça de Cristo, não podemos nos gloriar e somos criados em Cristo. Assim, para o homem não resta capacidade alguma que o possibilite alcançar a salvação de sua vida a não ser que a misericórdia e a graça de Deus o alcance e o regenere para a vida eterna. O autor R. K. McGregor Wright escreve que “as aspirações morais da alma não-regenerada são limitadas espiritualmente pelo seu próprio compromisso com os princípios da natureza adâmica” (p. 120)¹. Conclui-se, portanto, que as inclinações do ser humano estão comprometidas por sua natureza caída, carecendo do amor de Deus para socorrê-la.


Nesta condição o homem é escravo de sua natureza pecaminosa, podendo ser liberto apenas e somente pelo poder da cruz de Cristo. O autor Tim Chester, sobre a cruz de Cristo em seu livro Sobre o Deus Trino, escreve que “a cruz não é somente um ato de redenção. É também ato de revelação” (p. 72)². A partir dessa ideia de Tim podemos perceber que o ato da regeneração é a revelação de um salvador capaz ao homem perdido e prisioneiro de sua natureza pecaminosa. Assim, como está na CFW, “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, Ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer com toda liberdade o que é espiritualmente bom” (P. 90)³.

Qual o conceito de Depravação Total, afinal? Augustus H. Strong escreve que “a expressão 'depravação total', contudo, é passível de falsa interpretação, e não deve ser usada sem qualquer explicação” (vol II, p. 1128)⁴. Para Augustus o pecador não é “destituído de consciência [...] desprovido de todas as qualidades agradáveis ao homem e úteis quando julgadas segundo os padrões humanos [...] inclinação para toda sorte de pecado [...] o seu mais intenso egoísmo e oposição á Deus” (vol II, p. 1128)⁵. Assim, “depravação total” não quer dizer que as faculdades inerentes do ser humano não produzam resultados bons na esfera humana. 

O conceito sobre “depravação total” apresentado por Millard J. Erickson está da seguinte maneira: “já comentamos (p. 605 - 8) a questão da depravação total, que não significa que os seres humanos sejam tão perversos quanto poderiam ser, mas, sim, que são totalmente incapazes de fazer algo para se salvarem ou para se libertarem de sua condição pecaminosa” (p. 771)⁶. O mesmo autor deixa bem claro, em relação à aceitação da oferta de salvação, que “a posição adotada aqui não é a de que os que são chamados que Deus devem obrigatoriamente responder, mas a de que Deus torna a sua oferta tão atraente que eles responderão de forma afirmativa” (p. 898)⁷.

Sobre este conceito Wayne Gruden afirma que “não é certo dizer que algumas partes de nós são pecaminosas, e outras puras. Antes, cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado – o intelecto, as emoções e desejos, o coração [...] as metas e motivos e até mesmo o corpo físico” (p. 409)⁸. Portanto, para Gruden, todas as partes do ser humano estão afetadas pelo pecado, impossibilitando o mesmo a alcançar a salvação.

Charles Hodge, sobre a doutrina do pecado original, escreve a respeito da incapacidade do homem para fazer de si próprio algo espiritualmente bom, e assim descreve três argumentos que permeiam o pensamento da igreja que são a doutrina pelagiana, a semipelagiana e a doutrina agostiniana que “ensina que tal é a natureza da depravação inerente e hereditária, que os homens, desde a queda, são totalmente incapazes de converter-se a Deus, ou de fazer algo verdadeiramente bom diante Dele” (p. 675)⁹, e aponta que as confissões reformadas que subscrevem a respeito.

Joel R. Beeke e Mark Jones, sobre o pecado original, em sua obra diz que “o homem é culpado não apenas de ter participado, por representação, da transgressão de Adão no jardim, mas também de uma contaminação universal, total e pecaminosa, espalhadas por todas as faculdades da alma e do corpo, com uma inexistência ou falta de todo bem e com uma inclinação para todo o mal” (p. 314)¹⁰.

Então, em linhas gerais, Depravação Total seria, conforme McGregor, “doutrina segundo a qual a natureza caída do homem, incluindo a vontade, está totalmente escravizada ao pecado, sendo incapaz de escolher o bem” (p. 242)¹¹, inclusive se salvar.

Então, graças a Deus que quis, segundo o seu amor, revelar-se aos seus eleitos pela cruz de Cristo, para das trevas resgatá-los para o seu eterno Reino. Sem esta intervenção seria impossível para qualquer homem alcançar, por qualquer meio, a graça do Nosso Senhor Jesus.

Amém.

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Notas:
[1] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.
[2] CHESTER, Tim. Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são as boas novas. São Paulo: Fiel, 2016. 187 p.
[3] Confissão de fé de Westminster. 17 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 240 p.
[4] STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. 2 ed. rev. São Paulo: Hagnos, 2007.
[5] Idem.
[6] ERICKSON, Millard. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015. 1232 p.
[7] Idem.
[8] GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
[9] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
[10] BEEKE, Joel R.; JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para a vida. Paulo: Vida Nova, 2016.
[11] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.

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Autor: Seminarista Rogério Vilaça
Divulgação: Bereianos
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Série Credo Apostólico - Parte 9: A Remissão dos Pecados

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INTRODUÇÃO

“Creio... na remissão dos pecados”

A mensagem de Cristo é boa nova por nos comunicar que somos perdoados por Deus. Mas, a grande questão é: porque precisamos ser perdoados?

Precisamos receber perdão porque somos transgressores da Lei de Deus. Nosso estado de rebeldia teve inicio quando Adão e Eva decaíram do estado de graça, desobedecendo uma ordem expressa do SENHOR. Depois da Queda, a humanidade continuou sendo a imagem de Deus, só que manchada pelo pecado. Como uma folha em branco que depois de amassada ela continua branca, só que toda amarrotada, perdeu sua originalidade, a sua beleza. Em Tiago 3.9 diz sobre a imagem de Deus, e o “Homem” ali no grego é anthropos que quer mostrar que toda a humanidade – logo, toda a humanidade tem a imagem de Deus só que manchada pelo pecado.

Quando obtemos o perdão pelos nossos pecados, isso é uma preciosa dádiva, pois, não éramos bons ou amáveis aos olhos do Pai, ao invés disso, nosso estado era de depravação total: Ef 2:3; Rm 3:12; Jo 8:34. Nossa consciência estava cativa aos desejos carnais. Vivíamos acorrentados pelos prazeres mundanos e não dávamos um passo sequer na direção de Deus. Estávamos imundos e nos sujávamos ainda mais.

O objetivo deste texto é demonstrar a preciosidade da remissão de nossa pecaminosidade.

SOMOS TODOS DEPRAVADOS

Na era do politicamente correto, falar que o homem é pecador soa agressivo e ofende os ouvidos sensíveis de uma geração mimada e que tem “fé em si mesma”. Mas devemos ser bíblicos e demonstrar que ninguém é bom. Como diz o texto sagrado: Não há um justo sequer (Rm 3:12).

A teologia reformada cunhou o termo Depravação Total para expressar o miserável estado de pecaminosidade. Todo homem caído é depravado desde o nascimento, e o termo total não quer dizer que ele chegou ao limite desta depravação, acreditem, o poço da iniquidade é bem fundo. A totalidade desta depravação é ensinada pelo apóstolo Paulo em sua, digamos, antropologia.

Paulo utilizou sete termos para descrever os aspectos do homem natural/decaído, são eles: alma (psychç); espírito (pneuma); carne (sarx); corpo (sôma); coração (kardia); mente (nous); e consciência (syneidçsis). Veremos abaixo a forma pela qual o pecado afeta cada uma dessas partes, fazendo com que o ser humano, em sua totalidade, seja depravado ao ponto de ser controlado pela intensa e vibrante vontade de pecar.

- Alma (psych): este é o termo antropológico menos citado por Paulo; existem 13 menções, apenas. Quando usado, psych refere-se à vida humana. Em Romanos 2:9, Paulo vincula a alma humana à prática do mal. No entanto, isto não quer dizer que a alma humana seja má em si mesma, mas, por fazer parte do ser humano, está diretamente envolvida na condição geral pecaminosa do homem. Já em 1 Coríntios 2.14, o termo psychikos (material, natural) é utilizado como referência ao homem não regenerado, contrastando com pneumáticos (espiritual).

- Espírito (pneuma): embora seu uso mais comum seja referente ao Espírito Santo, pneuma, na teologia paulina, também é parte inerente ao ser humano. Quando, em 1 Coríntios 2:11, o apóstolo fala no “espírito do homem”, fica difícil de aceitar que o homem recebe o pneuma após a conversão. Mais coerente, é considerar que o pneuma está desativado pela degeneração, e quem o reativa é o Espírito de Deus, no processo de conversão/regeneração. Assim, podemos entender pneuma como sendo a mais elevada representação da natureza humana. Por si mesma, essa natureza não é boa nem má; ela torna-se boa ou má através da influência dominante. Sendo assim, o cristão regenerado tem a natureza sob influência do Espírito Santo, tornando-se, por fim, bom. Em contrapartida, o não regenerado continua escravo do pecado, sendo mal em sua essência depravada.

- Coração (kardia): Paulo utiliza kardia para descrever o local onde nasce a concupiscência dos homens e sua insensatez (Romanos 1:21 e 24). Não é o coração que é insensato, é o homem, com a sua degeneração moral, que o faz proceder deste modo. Para Paulo, em alguns casos, o coração é o centro das emoções, e, em outros, significa a pessoa, em sua totalidade. Ele dirá, ainda, que é no coração que recebemos a iluminação para enxergarmos, através de Cristo, a glória de Deus (2 Coríntios 2:6 e Efésios 1:18).

- Mente (nous): este termo é sempre associado, nos escritos paulinos, ao homem. Diferentemente dos gregos, que faziam separação entre a mente e o restante do corpo como se ela fosse uma faculdade especial. Paulo utiliza nous de acordo com a tradição hebraica, abrangendo o homem como um todo, sem destacar o intelecto das demais partes. Novamente, nous não é boa e nem má em si mesma; seu posicionamento moral vai sofrer a influência do que for predominante – a carne ou o Espírito Santo. No caso dos crentes, suas mentes não são mais vis e cegas como a dos incrédulos (2 Coríntios 4:4), mas, sim, iluminadas e renovadas (Romanos 12:2 e 2 Coríntios 4:6).

- Consciência (syneidçsis): esta palavra pode ser definida como o conhecimento de uma ação acompanhado de uma reflexão. É uma palavra que apresenta o homem como um ser racional. A consciência sabe o que é certo. Todo homem, então, é extremamente ciente de seus atos. Em 1 Timóteo 4:2, Paulo fala da consciência “cauterizada” entre aqueles que são enganados pelos que ensinam doutrina de demônios. O fato de o homem saber o que é certo e não fazê-lo explicita a sua natureza degenerada.

- Carne (sarx): este é o termo mais empregado pelo apóstolo Paulo, e, também, o mais variado em seu sentido. Contudo, queremos frisar apenas o conceito antropológico, que remonta à fraqueza humana, devido à sua natureza terrena. Sarx e pecado estão ligados na teologia paulina ao ponto de o apóstolo a definir como fonte dos maus desejos (Gálatas 5:16). Indo mais além, a carne é uma produtora de pecados; e, em Gálatas 5:19, temos ideia dos seus produtos. Num contexto não cristão, sarx é predominante e conduz à morte (Romanos 7:5).

- Corpo (soma): finalizamos essa análise da antropologia paulina com soma. Aqui, deve-se fazer distinção entre corpo e carne. Sarx não sofre transformação; o corpo, sim, sendo liberto em Cristo da sua influência carnal. Este é o sentido da santificação na vida do cristão. A finalidade de soma é ser morada do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). A mudança de um corpo carnal para um corpo glorificado é progressiva, do mesmo modo que ocorre com a mente. Todavia, o corpo daquele que não for regenerado por Cristo será destinado à morte. Como está escrito: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24). Por conseguinte, segundo Paulo, o homem natural não é espiritual. Essa é uma deficiência que só pode ser suprida pelo poder e atuação do Espírito Santo. Não há nada em nenhuma das epístolas paulinas - ou em algum outro ensino bíblico -, que destoe da DT.

PERDÃO VISÍVEL

Ao nos depararmos com esta realidade, passamos a valorizar mais a remissão dos pecados. Até porque ela nos foi oferecida gratuitamente. Não pagamos o preço, mas Cristo sim. Na cruz do calvário, Ele despachou de uma vez por todas o nosso estado de pecaminosidade e rasgou nossa dívida para com o nosso Criador.

“Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz”. - Colossenses 2:13,14

Louvado seja Deus, pois por mérito do Cordeiro pascoal nós fomos reconciliados consigo. Ao nos contemplar, Deus nos enxerga lavados e remidos pelo sangue de seu Filho. Isto é uma realidade na qual todos os crentes que compõem a comunhão dos santos vivenciam. Este perdão é real. Devemos com júbilo repetir as palavras de Paulo aos crentes de Roma: “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Sempre que a Igreja se reúne, este perdão é celebrado. Devemos então lembrar, que agora temos acesso ao trono da graça e fazer de cada culto uma festa solene, em louvor ao nosso amável Remidor. Além disto, Deus nos deixou dois meios de graça, que são os sacramentos da Ceia e do Batismo, para nos servir como sinais visíveis de nossa redenção. O Batismo, que é o rito de entrada para a Igreja nos comunica que somos lavados, e assim, nosso velho homem morre para que o novo reine por meio do Santo Espírito que habita em nós. Já a Ceia nos faz lembrar do sacrifício que nos conferiu a remissão de nossos pecados.

Ainda sobre os sacramentos, eles não são simples memoriais, vão além disso, nos auxiliando em nossa fé, nutrindo as nossas almas com a presença espiritual de Cristo e nos dando a vívida imagem do perdão que alcançamos pela bendita graça que vem de Deus.

CONCLUSÃO

Mesmo a nossa carne ainda prevalecendo em alguns momentos, devemos ter a noção de que nada muda o nosso status – adquirido por Cristo – perante o SENHOR. Na cruz, nossos pecados passados, presentes e futuros foram remidos. Todavia, isso não quer dizer que não necessitamos de constante confissão.

Nós não confessamos nossos pecados por medo de perder a salvação, pois não a conquistamos por nós mesmos. A confissão é resultado de uma pessoa que está em processo de santificação, e que reconhece, ao pecar contra Deus, que precisa estar em Sua dependência para vencer as tentações e vivenciar uma vida santa em gratidão a Cristo, para o louvor de Sua glória.

O Catecismo de Heidelberg (resposta a questão 56) elucida bem a questão. É com ele que finalizamos:

“Creio que Deus, por causa da satisfação em Cristo, jamais quer lembrar-se de meus pecados e de minha natureza pecaminosa, que devo combater durante toda a minha vida. Mas Ele me dá a justiça de Cristo pela graça, e assim nunca mais serei condenado por Deus”.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação
Série Credo Apostólico - Parte 8: A Santa Igreja Universal 

Lutero e o Ensino da Depravação Total

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Quando Lutero, no século XVI, deu início ao que ficaria conhecido por Reforma Protestante, ele foi completamente impactado pelo seguinte verso, presente em Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”. Foi com esta palavra que o “papado” começou a morrer dentro daquele monge alemão, que também havia se tornado um excelente professor de exegese, em Wittenberg.

A justificação pela fé, para Lutero, era o resumo de toda a doutrina cristã. Os méritos humanos não são capazes de tornar nenhum ser humano justo diante de Deus. Lutero acreditava no que veio a ficar conhecido por Depravação Total (DT). Essa depravação havia tomado o homem na queda. Na sua antropologia, Lutero afirma que nós somos possuidores de corpo e alma vivente, sendo que o pecado afetou tanto um como o outro. Para o reformador alemão, portanto, já nascemos com os desejos maus enraizados em nossos corações. Essa foi uma das grandes controvérsias que Lutero teve com o humanista Erasmo de Roterdã.

Igualmente, a teologia luterana contemplava um homem que peca por já ser um pecador, e não que se tornava um à medida que cometia os seus delitos. Lutero explica, ainda, que o pecado original está encravado em cada pessoa, de forma que não podemos nos desatrelar dele. Por esta razão é que o pecado é pessoal e natural. O ser humano é um ser corrompido, envenenado e pecaminoso. Os efeitos contidos na queda e a herança que ela relegou a todos os humanos fizeram com que Lutero escrevesse a seguinte pérola:

Assim, Adão e Eva eram puros e saudáveis. Tinham uma visão tão aguçada que podiam enxergar através de uma parede e ouvidos tão bons que podiam ouvir qualquer coisa a 3 km de distância. Todos os animais eram-lhes obedientes: até mesmo o sol e a lua sorriam para eles. Mas depois o diabo veio e disse: “Vocês se tomarão como os deuses”, e assim por diante. Eles pensaram: “Deus é paciente. Que diferença faria uma maçã?”. E num estalar de dedos ela estava diante deles. E isso ainda nos está pendurando a todos pelo pescoço.[1]

Embora esta citação possua linguagem especulativa quanto às façanhas físicas do homem antes do lapsus, ela ilustra muito bem o entendimento luterano acerca da DT. A sua concepção de depravação está atrelada com o seu ensino acerca da justificação. Desta forma, para o reformador, Deus aceita a justiça de Cristo, por isso, mesmo os nossos pecados não sendo removidos, eles não são mais denunciados contra nós. Esta é a clássica diferença entre o “tornar justo”, defendido por Agostinho, e o seu “declarar justo”. A justificação ocorre pela fé, somente, e quem a recebe passa a ser, ao mesmo tempo, justo e pecador. Sobre este paradoxo, Lutero afirma:

Somos verdadeira e totalmente pecadores, com respeito a nós mesmos e ao nosso primeiro nascimento. Inversamente, já que Cristo nos foi dado, somos santos e justos, totalmente. Então, de diferentes aspectos, somos considerados justos e pecadores ao mesmo tempo. Assim, podemos concluir que Lutero aniquilou a teologia romanista da salvação meritória, ao doutrinar que a justificação se dá somente pela fé. Também podemos celebrar o seu legado na luta contra a falsa doutrina do livre-arbítrio.[2]

Entendida a capacidade vinda de Deus para tomar decisões ordinárias, resta evidente que, para cumprirmos as responsabilidades no mundo, o livre-arbítrio permanece. O que ele é incapaz de realizar é fazer com que o homem salve a si mesmo. Nesse sentido, o livre-arbítrio está totalmente corrompido, tornando-se, assim, escravo do pecado e do próprio Satanás. Essa vontade escravizada nos faz desejar o que é mau. Apenas com o auxilio da Graça somos libertos. A tragédia da existência humana se resume no fato de que o homem não regenerado se considera livre, e, deste modo, se entrega cada vez mais àquilo que o aprisiona. Esse trágico quadro que Lutero pintou resume o seu ensinamento a respeito da DT e leva-o ao entendimento da salvação mediante a graça: “Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão somente pela graça de Deus”.[3]

Neste ano em que a Reforma completará seus 500 anos, é preciso resgatar esta doutrina, que foi sendo solapada das igrejas brasileiras através de ensinamentos equivocados e heréticos. Precisamos falar mais da DT pois, como nos diz Berkhof: “O correlativo natural da doutrina da depravação total é o ensino da total dependência do homem da graça divina quanto à renovação. Lutero, Calvino e Zwínglio apresentaram frente unida quanto a isso”[4]. E para glória de Cristo, devemos resgatar o Evangelho da Graça preservando o legado do protestantismo.

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Notas:
[1] Citado por Thimoty George no excelente livro Teologia dos Reformadores, p. 69.
[2] Ibdem, p. 73.
[3] Nascido Escravo, p.39.
[4] A História das Doutrinas Cristãs, p.134.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Comentário de João Capítulo 6

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Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Neste fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas — porém bastante distintas — que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem. Assim como o autor, eu espero que este comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são. 

Erving Ximendes, agosto de 2016.


A natureza humana é totalmente depravada

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O homem, porém, não se pode melhor conhecer, em uma e outra parte da alma, a não ser que se ponha à vista com seus títulos, pelos quais é caracterizado pela Escritura. Se todos forem descritos com estas palavras de Cristo: “O que é nascido da carne é carne” [Jo 3.6], como é fácil comprovar, o homem é convencido de ser uma criatura mui miserável. Ora, o Apóstolo atesta que a inclinação da carne é morte, uma vez que é inimizade contra Deus, e por isso não se sujeita à lei de Deus, nem pode sujeitar-se [Rm 8.6, 7].

Porventura a carne está a tal ponto pervertida, que com toda sua inclinação exerça inimizade contra Deus, que não possa conformar-se à justiça da lei divina, que nada, afinal, possa exibir senão ocasião de morte? Pressupõe-se, então, que nada há na natureza humana senão carne, e que daí não se pode extrair algo de bom. Mas dirás que o termo carne se refere apenas à parte sensória, não à parte superior da alma. Isto, porém, se refuta plenamente à luz das palavras não só de Cristo, como também do Apóstolo. O postulado do Senhor é: ao homem importa nascer de novo [Jo 3.3], porque ele é carne [Jo 3.6]. Não está preceituando nascer de novo em relação ao corpo. Mas, na alma nada nasce de novo, se apenas alguma porção lhe for reformada; ao contrário, toda ela se renova. E isto é confirmado pela antítese estabelecida em uma e outra destas duas passagens, pois de tal modo o Espírito é contrastado com carne, que nada é deixado entre ambos. Logo, tudo que no homem não é espiritual, segundo este arrazoado, diz-se ser carnal. Nada, porém, temos do Espírito senão pela regeneração. Portanto, tudo quanto temos da natureza é carne.

Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação. E de fato, pouco antes pintara esta imagem da natureza humana, que mostra que estamos corrompidos e depravados em todas as nossas faculdades.

Ora, ele escreve que todos os gentios andam na vaidade de sua mente, estão entenebrecidos no entendimento, alienados da vida de Deus por causa da ignorância que neles há, e da cegueira de seu coração [Ef 4.17, 18], não havendo a mínima dúvida de que isso se aplica a todos aqueles a quem o Senhor ainda não reformou para a retidão, seja de sua sabedoria, seja de sua justiça. O que se faz ainda mais claro da comparação adjunta logo em seguida, onde adverte aos fiéis de que não haviam assim aprendido a Cristo [Ef 4.20]. Seguramente concluímos destas palavras que a graça de Cristo é o único remédio pelo qual somos libertados dessa cegueira e dos males daí resultantes.

Ora, também assim havia Isaías vaticinado acerca do reino de Cristo, quando o Senhor prometia que haveria de ser por luz sempiterna à sua Igreja [Is 60.19], enquanto, a esse mesmo tempo, trevas cobririam a terra e escuridão cobriria os povos [Is 60.2]. Quando testifica haver de despontar na Igreja a luz de Deus, fora da Igreja certamente nada deixa, a não ser trevas e cegueira. 

Não mencionarei, uma a uma, as passagens que a respeito da vacuidade do homem se contam por toda parte, especialmente nos Salmos e nos Profetas. Incisivo é o que Davi escreve: “Certamente os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira” [Sl 62.9]. Traspassado de pesado dardo lhe é o entendimento, quando todos os pensamentos que daí procedem são escarnecidos como estultos, frívolos, insanos, pervertidos.

A DEPRAVAÇÃO HUMANA É CONFIRMADA PELO QUE DIZ PAULO EM ROMANOS 3

Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9]. Mas, visto que estou tentando ser breve, contentar-me-ei com apenas uma passagem, a qual, no entanto, haverá de ser como um espelho caríssimo, em que contemplamos a imagem integral de nossa natureza. Ora, o Apóstolo, quando quer lançar por terra a arrogância do gênero humano, o faz com estes testemunhos [Rm 3.10-16, 18]: “Pois não há nenhum justo, não há quem tenha entendimento, ou que busque a Deus; todos se desviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, nem um sequer” [Sl 14.1-3; 53.1-3]; sepulcro aberto é a garganta deles; com suas línguas agem dolosamente” [Sl 5.9]; veneno de áspides há debaixo de seus lábios” [Sl 140.3]; “dos quais a boca está cheia de maldição e amargor” [Sl 10.7]; “cujos pés são velozes para derramar sangue; em cujas veredas há destruição e infortúnio” [Is 59.7]; “diante de cujos olhos não há temor de Deus” [Rm 3.18].

Com esses raios, o Apóstolo não está investindo apenas contra certos homens, mas contra toda a raça dos filhos de Adão. Nem está ele a censurar os costumes depravados de uma ou outra era, mas está acusando a perpétua corrupção de nossa natureza. Com efeito, nesta passagem, seu propósito não é simplesmente censurar os homens, para que caiam em si, mas, antes, ensinar que todos têm sido acossados de inelutável calamidade, da qual não podem sair, a não ser que sejam retirados pela misericórdia de Deus.

Visto que isso não podia ser provado, a não ser que fosse estabelecido da ruína e destruição de nossa natureza, trouxe ele à baila estes testemunhos, mediante os quais se convence de que nossa natureza está mais do que perdida. Portanto, fique isto demonstrado: os homens são tais quais aqui descritos, não apenas pelo vezo do costume depravado, mas ainda pela depravação de sua natureza. Porquanto não se pode de outra forma sustentar a argumentação do Apóstolo: não há para o homem nenhuma salvação, senão pela misericórdia do Senhor, porquanto, em si, ele está inexoravelmente perdido.

Não me darei aqui ao trabalho de provar a aplicabilidade desses testemunhos, para que não pareçam, aos olhos de alguém, indevidamente usados pelo Apóstolo.

Procederei exatamente como se essas coisas fossem originalmente ditas por Paulo, não tomadas dos profetas. Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.

Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um. Ora, como o corpo, quando já mantém incubada em si a causa e matéria de uma doença, se bem que ainda não efervesça a dor, por isso não se julgará ser sã nem mesmo a alma, enquanto borbulha em tais achaques de vícios, embora a comparação não se enquadre em todos os aspectos, porque, no corpo, por mais enfermo, subsiste um alento de vida; a alma, porém, imersa neste abismo fatal, não só padece desses achaques, mas ainda é inteiramente vazia de todo bem.

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Autor: João Calvino
Fonte: CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. Vol. 2, Cap. III, pág. 57-59. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
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Uma crítica ao anarquismo cristão pregado por Liev Tolstói

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Introdução

Quando se fala de Anarquia e Cristianismo, logo se identifica duas doutrinas antagônicas. A primeira é uma doutrina política, libertária e materialista. A segunda, metafísica e proposicional. Porém, ambas se encontram no pensamento de Liev Tolstói, que as sintetizou ao interpretar o Evangelho de uma forma moralmente radical, livre do caráter sobrenatural das Escrituras, desenvolvendo argumentos muito próximos à ideologia anárquica de Bakunin, de Proudhon e de Thoreau. Essa simbiose pode ser explicada através de um conceito presente na sociologia: a Afinidade Eletiva.

Entende-se por “Afinidade Eletiva” um movimento de convergência capaz de se chegar a uma fusão entre duas configurações sociais ou culturais. O termo aqui não é sinônimo de influência ou correlação, mas sim um conceito que nos permite explicar processos de interação irredutíveis à causalidade direta. A expressão é oriunda de alquimistas medievais, mas é Max Webber que a emprega numa perspectiva sociológica para analisar a relação entre a religião e o ethos econômico. O termo já mencionado ganha fundamentação na clássica obra: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em 1989, o cientista social Michel Löwi lança no Brasil o livro: Redenção e Utopia: O Judaísmo Libertário na Europa Central, que analisa, utilizando-se da “Afinidade Eletiva”, para entender a ligação entre o messianismo e as ideias libertárias de um grupo de intelectuais judeus que surge – na Europa Central – no fim do século XIX. Este é o conceito comum empregado por aqueles que estudam o anarquismo tolstoiano. Ao se converter (à sua maneira), o escritor russo sequer imaginaria que a sua experiência espiritualista o conduzisse ao legítimo anarquismo. Isso só acontece quando a “Não Resistência” passa a ser rigidamente observada por ele. Neste artigo será apresentado o pensamento de Tolstói, principalmente o contido no livro O Reino de Deus Está em Vós. Ao final, serão feitos alguns apontamentos críticos. Mas, antes, é preciso situar o leitor sobre o que é anarquismo conforme os seus principais expoentes. 

O anarquismo e seus expoentes teóricos

Anarquia é a ausência de senhor, de soberano, tal é a forma de governo que nos aproximamos todos os dias e que o hábito inveterado de tornar o homem por regra e sua vontade por lei nos faz olhar como o cúmulo da desordem e a expressão do caos (PRODHON, 2007).

George Woodcock definiu o Anarquismo como sendo um “movimento de filosofia social” [1] que tem por objetivo final a transformação da sociedade. Embora existam várias correntes, todas elas “desembocariam no mesmo rio”, pois é comum a todas substituir o Estado autoritário por alguma forma de cooperação mútua entre homens livres, ou seja, uma autogestão que não precisasse mais da tutela estatal, utilizando-se do poder coercitivo para determinar aquilo que está dentro ou fora da legalidade.


O Estado é o mal que precisa ser aniquilado, para que enfim a humanidade seja livre e estabeleça uma relação de igualdade ainda não experimentada, uma vez que o Governo está a serviço de uma classe dominante que, para assegurar sua dominação, necessariamente promove uma distribuição desigual de renda e oportunidade. Esse Estado além de deter o monopólio da força – com seus exércitos, guardas pretorianas e departamentos de polícia – também conta com aparelhos ideológicos que manipulam a população e induzem o povo a viver resignado em meio a tanta miséria. Dentre esses aparelhos, a Religião, de forma institucionalizada, é um dos alvos principais dos que se professam anarquistas. É tanto que um dos lemas mais populares do movimento dizia: “Nem Deus, nem Senhor”. 

O anarquismo, em seu bojo, é antiteísta. Bakunin, o russo que ambicionava “destruir para criar”, tornou-se um dos mais atuantes do movimento libertário, chegando a participar da I Internacional, divergindo de Marx e ameaçando a sua hegemonia até ser expulso em 1872. Cria então a Internacional “Antiautoritária” e rompe os vínculos com o marxismo. O pensamento bakuniniano foi bastante assimilado pelos anarquistas, sendo mais influente do que o próprio Proudhon, considerado por muitos o pai do Anarquismo. Segundo ele, o desenvolvimento humano é composto por três elementos: 1- a animalidade, 2- o pensamento e 3- a revolta. O primeiro corresponde à economia individual e social, o segundo, à ciência e o último, à liberdade.

Contrariando os idealistas, afirma ser o homem produto da “vil matéria” e não um ser criado por um ente ou inteligência superior. No entanto, essa matéria é extremamente dinâmica e produtiva. Está sempre em movimento e, no caso dos homens, os direcionam para libertá-los da sua condição primitiva: através da razão, estes se tornam conhecedores de sua própria existência, emancipando-se. Tal o percurso da evolução. Eis a origem de seu antiteísmo. A partir do momento em que os teólogos atribuem toda a vileza aos homens e tudo o que for de belo, justo e puro como sendo atributos de Deus, o homem torna-se escravo da divindade e isso é um entrave ao seu próprio desenvolvimento que tem por finalidade a libertação. A ideia de Deus faz com que o homem abandone a razão e, sem ela, ele nunca atingirá a liberdade. Por isso Bakunin (2011) propõe a abolição da divindade: “inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Um texto escrito em 1871, onde é evidente todo o seu entusiasmo, Bakunun afirma:

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencidos de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas (BAKUNIN, 2011, p.58).

Foi Proudhon quem primeiro reclamou para si o status de anarquista. E fez através de uma prosa vigorosa, simulando um diálogo repleto de questionamentos sobre seu posicionamento político, desembocando na seguinte afirmação: “(...) vós acabais de ouvir a minha profissão de fé, séria e maduramente refletida; ainda que muito amigo da ordem, eu sou, com toda a força do termo, anarquista. Escutai-me”.[2]  Proudhon é um opositor de toda a forma de autoridade, denunciando os seus malefícios, seja esta oriunda da religião, do governo, do sistema econômico ou até mesmo do socialismo.


Proudhon descarrega toda sua raiva ao redigir Contradições Econômicas, acentuando o discurso antirreligioso. Devido às condições miseráveis da humanidade, questiona o conceito de uma deidade benevolente e conclui que se Deus existe, de fato, então ele é mau. Para triunfar sobre a tirania, faz-se necessário opor-se a Deus. Note-se que ele não nega a existência do Divino, apenas se opõe a ela. Nesse ponto, assemelha-se aos anarquistas que o sucederam, dentre eles o próprio Bakunin. Criticava o dogmatismo com ênfase, por isso mesmo não adotava o extremo de se declarar ateu. Proudhon enxergava Deus e o homem como duas forças antagônicas, realidades incompletas, que se opõem. Para o bem da humanidade, essa divindade dominadora precisava ser rejeitada.

Tolstói e a nova doutrina

Leon Tolstói dedicou três anos de sua longa vida – morreu aos 92 anos – ao escrever O Reino de Deus está em Vós. A obra gerou imensa polêmica e dividia os leitores entre os que aplaudiam e concordavam e os que rechaçavam o seu conteúdo. Seu livro foi tirado de circulação na Rússia czarista dos Romanov e a Igreja Ortodoxa determinou a sua excomunhão. Qual o conteúdo da obra afinal? O subtítulo do ensaio começa por nos elucidar: O Cristianismo apresentado não como uma doutrina mística, mas como uma moral nova. 

Segundo ele, o verdadeiro Cristianismo estava longe de ser compreendido tal como é, e o motivo disso é a deturpação das palavras de Jesus Cristo e a ação do clero que não focava no ensino do Mestre, ao invés disso, elaborava catecismos, liturgias e sacramentos que apenas serviam para tornar as pessoas cada vez mais supersticiosas e manipuláveis. A sua tese central dá-se a partir do preceito encontrado no Sermão do Monte: “Não resistais ao mal” (Mateus 5:39). O sentido defendido por ele é de que a “Não Resistência” é a não utilização da violência. Sob nenhum aspecto Tolstói considera legítimo o uso da força. Aquela máxima jurídica de repudiar a violência usando a própria violência é totalmente anticristã. Por isso não gostava de ser chamado anarquista, por não compactuar com os métodos terroristas ligados ao movimento. Denominava-se apenas cristão.

Rejeitando o Estado e a propriedade, defende a abolição de ambas para que a humanidade venha gozar do Reino de Deus na Terra. Não existe o Paraíso ensinado pelos sacerdotes, tampouco a salvação vicária resultado do derramamento de sangue na cruz. Jesus Cristo não é divindade, é homem. É o professor que disseminou a Lei do Amor como sendo inerente do espírito humano. Essa Lei é a única que deve reger as relações sociais. É universal e atemporal, gradativamente pode ser vivenciada por todos os homens. E por que ainda não foi assimilada? Porque vem sendo ensinada por uma minoria de pessoas, ao passo que o “pseudocristianismo” ganhou vários adeptos que inculcaram através da tradição de séculos esse ensinamento deturpado no qual acreditam ser a Palavra de Deus transmitida por seus representantes. 

Destacando-se pela sua singularidade, até então, em conciliar o Evangelho com a anarquia, Tolstói, sem abolir e nem tampouco se opor a Deus, teve seu pensamento inserido na pesquisa pioneira de Paul Eltzbacher[3] sobre as várias correntes anárquicas, realizada em 1900. É no lançamento de O Reino Deus está em Vós, que enfim demonstra a sua fé na Anarquia. Esta é a obra central e de transição entre um anarquista latente e um anarquista convicto, embora recusasse ser chamado assim.

Para entendermos a ligação entre o Evangelho e a Anarquia em Tolstói, é necessário tomar ciência de que o deísmo é a sua crença, e que, como deísta, ele concebe a ideia de uma divindade impessoal. Deus é uma força mística, criadora do Universo e a humanidade é autônoma em suas decisões. Essa impessoalidade faz com que o mesmo não tenha um nome. Logo, Iavé, Alá, Shiva e outras nomenclaturas, estão todas se referindo ao mesmo ser. Tolstói, além dos Evangelhos, mergulhou em outras crenças, tal como o hinduísmo para sistematizar aquilo que viria chamar de “Doutrina da Não Resistência ao Mal”.

A tolerância religiosa, num sentido lato, a busca pela unidade entre os credos (também conhecido por ecumenismo) é uma característica do deísta. Nessa perspectiva, toda religião cultua o mesmo deus, mesmo que a terminologia seja distinta. No fundo, os valores religiosos são idênticos. O próprio Tolstói fala isso, num artigo intitulado O que é religião e em que consiste sua essência?:

(...) Esses valores são: que existe um Deus e é o princípio de tudo; que no ser humano há uma partícula desse princípio divino, que ele pode enfraquecer ou fortalecer de acordo com o modo em que conduz a própria vida; que, para fortalecer esse princípio, o ser humano deve conter suas paixões e cultivar dentro de si o amor; que o meio prático de alcançar isso é fazer aos outros aquilo que queremos que façam a nós. Todos esses valores são comuns ao bramanismo, ao judaísmo, ao confucionismo, ao taoismo, ao budismo, ao cristianismo e ao judaísmo (.TOLSTÓI, 2011, p.203).

Devido a essa concepção, o cristianismo adotado por Tolstói não promove Jesus Cristo a divindade. Mais absurdo ainda o conceito da trindade. Deus é um ser superior, Jesus, apenas um homem que deve ser visto como exemplo ético. Suas palavras e ações, deixando os milagres de fora, devem ser seguidas a risca, pois a perfeição é alcançada à medida que negamos nossas paixões em detrimento do bem coletivo. O amor ao próximo é o fim supremo e principal do homem. O próprio Cristo teria dito que todo aquele que ama, cumpriu a Lei e os profetas. Tolstói empenha-se em traduzir os quatro Evangelhos a seu modo, retirando dele toda a metafísica. Durante anos esmera-se nesse trabalho e é a partir dele que a “Não Resistência” surge como o principal conceito do pensamento tolstoiano:

Eu compreendi, não por meio de fantasias exegéticas ou de combinações textuais profundas e engenhosas; compreendi tudo porque joguei fora de minha mente todos os comentários. Esta foi a passagem que me deu a chave do todo. ‘Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao mal.’ (Mateus 5:38,39). (TOLSTÓI, 2011, p.28).

O conceito da “Não Resistência”, ou como chamam os adeptos do movimento Humanista: “Não Violência Ativa” é o cerne do anarquismo tolstoiano. É a ideia central de O Reino de Deus está em Vós, livro que o próprio Tolstói considera o mais importante de todos que escreveu. O princípio já havia sido abordado em Uma Confissão, mas é com “O Reino” que o Apóstolo da Não Violência (assim Gandhi o classificou) sistematiza a doutrina que lhe abriu os olhos, tornando-o um cristão convicto de que a moral incutida no Sermão do Monte era a chave para libertação dos indivíduos.


Logo no primeiro capítulo de “O Reino” lemos que a doutrina da Não Resistência foi ensinada por outros homens e grupos cristãos, que embora sendo minoria, contribuíram para elucidar o verdadeiro significado do evangelho: o amor. Através do exemplo de concórdia e paz entre os seguidores de Jesus, a doutrina evangélica penetrará na consciência dos homens. Não se pode impor a aceitação dessa doutrina, é a atitude humilde de resistir ao mal sem uso da força que levará a sua aceitação. O amor é o guia para levar a humanidade a atingir a perfeição:

O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do cristianismo (TOLSTÓI, 2011, p.10).

Se o amor fraterno é o mandamento necessário para o cumprimento da vontade de Deus e nisto consiste a salvação da alma humana, logo toda e qualquer ordem que leve o cristão ao descumprimento dessa doutrina, é um entrave ao aperfeiçoamento. Daí surge a resistente figura do Estado, pois Tolstói o vê como um obstáculo na observância desse mandamento. Colocando a “não violência” como base da doutrina cristã, Tolstói afirma que o cristianismo destrói qualquer governo, pelo simples fato deste ser uma violência:

O homem submisso ao poder não age como quer, mas como é obrigado; e é somente por meio da violência física, isto é, da prisão, da tortura, da mutilação ou da ameaça desses castigos que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder (TOLSTÓI, 2011, p.167).

Tolstói também aderiu a “desobediência civil” e declarou guerra ao Estado. A luta acontece quando as pessoas deixam de colaborar com a máquina, rebentando assim o sustentáculo do poder que, segundo ele, oprime e sufoca os homens. Para aniquilar o governo, basta aderir à desobediência. É o que diz claramente em Os Acontecimentos Atuais Na Rússia, texto escrito em Fevereiro de 1905:

Para livrar-se do governo não é necessário lutar contra eles pelas formas exteriores (insignificantes até o ridículo diante dos meios de que dispõem os governos) é preciso unicamente não participar em nada, basta não sustentá-los e então cairão aniquilados. E para não participar em nada dos governos nem sustentá-los é preciso estar livre da fragilidade que arrasta os homens aos laços do governo que lhes fazem seus escravos ou seus cúmplices (TOLSTÓI, 2011, p.23).

Como os demais anarquistas, Tolstói não nos oferece uma visão nítida de como seria a sociedade sem a tutela de um governo, apenas denuncia o que considera ser um grande mal que este comete no presente. O embrutecimento, a pobreza, a opressão, a injustiça e a negação da consciência são produtos do que chama “Estado-Violência”. Ele precisa acabar, e só terá um fim quando o Cristianismo for compreendido e aceito pela grande maioria dos homens. Mas não é o misticismo pregado pela Igreja, mas a moral resumida no Sermão do Monte, que condena todo e qualquer tipo de violência, instruindo as pessoas a não pagarem o mal com o mal.


O anarquismo cristão tolstoiano foi e continua sendo singular. Embora existam outros nomes nesse segmento, como por exemplo, Jacques Ellul, ninguém foi tão sistemático como Tolstói. A influência do pensamento tolstoiano levou diversos homens a fundarem colônias baseadas numa economia comunitária e com estilo de vida ascético. Não há muitas informações acerca delas. O que sabemos é que fracassaram em um curto espaço de tempo.

Os problemas do pensamento Tolstoiano

A doutrina proposta por Tolstói tem alguns problemas. Um deles é a crença no caráter inerentemente bom do ser humano. Isso contraria o relato da Queda em Gênesis 3 e a doutrina da Depravação Total. O ensino de que o homem já nasce pecador e depravado está presente em textos como o Salmos 51:5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”. Agostinho, mergulhando na teologia paulina, sobretudo na Epístola aos Romanos, desenvolve a depravação como sendo uma doutrina indispensável ao cristianismo. Combatendo a neutralidade pelagiana, ele afirma que o homem perdeu o livre-arbítrio quando o pecado entrou no mundo por meio de Adão. Após a catástrofe do Éden, a humanidade herda o pecado natural, que escraviza o homem em seu desejo de querer pecar mais e mais. Sendo assim, o pecado priva o homem de escolher aquilo que é inerentemente bom (privatio boni), o que não significa, entretanto, que o homem perdeu toda sua capacidade de fazer escolhas. Em diversas ocasiões o pecador escolhe entre diversas alternativas. A única incapacidade do homem degenerado é escolher não mais pecar. O pecado é uma gangrena que aprisiona o ser humano. Foi ele o grande responsável pela morte, pois, para Agostinho, Adão era detentor da imortalidade, antes da queda. E isso foi transmitido a todos que se seguiram. Sobre essa transmissão da natureza pecaminosa, escreveu Berkhof [1992, p.122]:

Através do vínculo orgânico entre Adão e seus descendentes é que aquele transmite a eles a sua natureza caída, juntamente com a culpa e a corrupção que lhe segue o rastro. Agostinho concebe a unidade da raça humana não de modo federal, e sim, realista. Toda a raça humana estava germinalmente presente no primeiro homem, pelo que também ela realmente pecou em Adão.

Os reformadores seguiram Agostinho e as confissões de fé registram o mesmo ensinamento em seus artigos. Vejamos o que diz Segunda Confissão Helvética, 1566, artigo 8:

Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós - mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e de ódio a Deus - nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat 12,33 ss).

De igual modo subscreve Catecismo de Heidelberg, 1563, questão 7:

De onde vem, então, esta natureza corrompida do homem? Resposta: Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. (1) Gn 3; Rm 5:12,18,19. (2) Sl 51:5; Jo 3:6.

Logo, Tolstói se equivoca ao apregoar a possibilidade de ensinar a moral cristã a homens que possuem a natureza caída. Os homens só passarão a cumprir a vontade de Deus a partir de uma atuação sobrenatural. A remissão e a restauração do arbítrio são obras divinas, González [2002, p.213] comenta:

Quando somos redimidos, a Graça de Deus passa a atuar em nós, levando-nos do estado miserável em que nos encontramos para um estado novo, em que a nossa liberdade é restaurada, tanto para pecar como para não pecar. No céu, por fim, teremos somente liberdade para não pecar. Como no caso anterior, isto não quer dizer que não teremos liberdade alguma. Ao contrário, na vida celestial, continuaremos tendo diversas alternativas, mas nenhuma delas será pecado.

A questão é que não poderíamos esperar outra coisa de alguém que mutila o texto sagrado para retirar dele toda a metafísica. Quanto à doutrina anárquica, esta não pode ser sustentada pelo cristão que tem apreço pela Escritura. Esta legitima o poder governamental e o coloca como um instrumento que Deus utiliza para refrear a depravação humana (vide Romanos 13. 1-7). Precisamos do governo e, como cristãos, temos obrigações para com o Estado. Calvino nos lembra que “é da vontade de Deus que o mundo seja governado dessa maneira”, e diz mais: “desprezar a providência daquele que é o Autor do governo civil [iuris politici] é declarar guerra contra ele mesmo”.[4]


O Estado não pode se agigantar e atuar em áreas que não são de sua competência. Ele não tem a autoridade derradeira, mas serve a Deus, incumbiu aos governantes punir o mal e promover o bem. Contudo, abolir o poder estatal é algo que não podemos apregoar, pois, contradiz o ensinamento bíblico e nos coloca como rivais do Soberano, que instituiu os poderes terrenos. E se o Estado é autoridade que provém de Deus, logo, ele deve ser visto como uma dádiva para a sociedade e não como um empecilho ao seu desenvolvimento. Diante do que foi exposto, concluímos que o anarquismo tolstoiano deve ser rejeitado. 

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Referências bibliográficas:

BAKUNIN, Deus e o Estado, São Paulo: Hedra, 2011.
BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,1992.
GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Volumes 1. Edições Vida Nova, 2002.
LÖWY, Michel, Redenção e Utopia: O judaísmo libertário na Europa Central: um estudo de afinidade eletiva, São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M, 2008.
TOLSTÓI, Liev, Minha Religião. São Paulo. A girafa,2011.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬_____________, O Reino de Deus está em Vós, Rio de Janeiro: BestBolso,2011.
_____________, Os Últimos Dias. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2011.
THOREAU, Henry David, A Desobediência Civil. Porto Alegre: LP&M, 1997.
WOODCOCK, George, História das Idéias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.

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Notas:
[1] WOODCOCK, George. História das ideias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.
[2] PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M 2008, pág 26.
[3] Paul Eltzbacher, judeu alemão, Doutor em Direito e pesquisador do Anarquismo.
[4] CALVINO. João, Romanos. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, p. 460-461. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Teologia Brasileira
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