Lutero e o Ensino da Depravação Total

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Quando Lutero, no século XVI, deu início ao que ficaria conhecido por Reforma Protestante, ele foi completamente impactado pelo seguinte verso, presente em Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”. Foi com esta palavra que o “papado” começou a morrer dentro daquele monge alemão, que também havia se tornado um excelente professor de exegese, em Wittenberg.

A justificação pela fé, para Lutero, era o resumo de toda a doutrina cristã. Os méritos humanos não são capazes de tornar nenhum ser humano justo diante de Deus. Lutero acreditava no que veio a ficar conhecido por Depravação Total (DT). Essa depravação havia tomado o homem na queda. Na sua antropologia, Lutero afirma que nós somos possuidores de corpo e alma vivente, sendo que o pecado afetou tanto um como o outro. Para o reformador alemão, portanto, já nascemos com os desejos maus enraizados em nossos corações. Essa foi uma das grandes controvérsias que Lutero teve com o humanista Erasmo de Roterdã.

Igualmente, a teologia luterana contemplava um homem que peca por já ser um pecador, e não que se tornava um à medida que cometia os seus delitos. Lutero explica, ainda, que o pecado original está encravado em cada pessoa, de forma que não podemos nos desatrelar dele. Por esta razão é que o pecado é pessoal e natural. O ser humano é um ser corrompido, envenenado e pecaminoso. Os efeitos contidos na queda e a herança que ela relegou a todos os humanos fizeram com que Lutero escrevesse a seguinte pérola:

Assim, Adão e Eva eram puros e saudáveis. Tinham uma visão tão aguçada que podiam enxergar através de uma parede e ouvidos tão bons que podiam ouvir qualquer coisa a 3 km de distância. Todos os animais eram-lhes obedientes: até mesmo o sol e a lua sorriam para eles. Mas depois o diabo veio e disse: “Vocês se tomarão como os deuses”, e assim por diante. Eles pensaram: “Deus é paciente. Que diferença faria uma maçã?”. E num estalar de dedos ela estava diante deles. E isso ainda nos está pendurando a todos pelo pescoço.[1]

Embora esta citação possua linguagem especulativa quanto às façanhas físicas do homem antes do lapsus, ela ilustra muito bem o entendimento luterano acerca da DT. A sua concepção de depravação está atrelada com o seu ensino acerca da justificação. Desta forma, para o reformador, Deus aceita a justiça de Cristo, por isso, mesmo os nossos pecados não sendo removidos, eles não são mais denunciados contra nós. Esta é a clássica diferença entre o “tornar justo”, defendido por Agostinho, e o seu “declarar justo”. A justificação ocorre pela fé, somente, e quem a recebe passa a ser, ao mesmo tempo, justo e pecador. Sobre este paradoxo, Lutero afirma:

Somos verdadeira e totalmente pecadores, com respeito a nós mesmos e ao nosso primeiro nascimento. Inversamente, já que Cristo nos foi dado, somos santos e justos, totalmente. Então, de diferentes aspectos, somos considerados justos e pecadores ao mesmo tempo. Assim, podemos concluir que Lutero aniquilou a teologia romanista da salvação meritória, ao doutrinar que a justificação se dá somente pela fé. Também podemos celebrar o seu legado na luta contra a falsa doutrina do livre-arbítrio.[2]

Entendida a capacidade vinda de Deus para tomar decisões ordinárias, resta evidente que, para cumprirmos as responsabilidades no mundo, o livre-arbítrio permanece. O que ele é incapaz de realizar é fazer com que o homem salve a si mesmo. Nesse sentido, o livre-arbítrio está totalmente corrompido, tornando-se, assim, escravo do pecado e do próprio Satanás. Essa vontade escravizada nos faz desejar o que é mau. Apenas com o auxilio da Graça somos libertos. A tragédia da existência humana se resume no fato de que o homem não regenerado se considera livre, e, deste modo, se entrega cada vez mais àquilo que o aprisiona. Esse trágico quadro que Lutero pintou resume o seu ensinamento a respeito da DT e leva-o ao entendimento da salvação mediante a graça: “Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão somente pela graça de Deus”.[3]

Neste ano em que a Reforma completará seus 500 anos, é preciso resgatar esta doutrina, que foi sendo solapada das igrejas brasileiras através de ensinamentos equivocados e heréticos. Precisamos falar mais da DT pois, como nos diz Berkhof: “O correlativo natural da doutrina da depravação total é o ensino da total dependência do homem da graça divina quanto à renovação. Lutero, Calvino e Zwínglio apresentaram frente unida quanto a isso”[4]. E para glória de Cristo, devemos resgatar o Evangelho da Graça preservando o legado do protestantismo.

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Notas:
[1] Citado por Thimoty George no excelente livro Teologia dos Reformadores, p. 69.
[2] Ibdem, p. 73.
[3] Nascido Escravo, p.39.
[4] A História das Doutrinas Cristãs, p.134.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Esclarecendo Dois Pontos Centrais da Reforma

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O sacerdócio universal e o livre exame da Escritura são duas bandeiras levantadas pela Reforma Protestante, todavia, vem sendo mal compreendidas por muitos do segmento evangélico. Busquemos entender melhor estas questões.

Conforme apregoou Lutero, todo crente é um sacerdote (1Pd 2.9), e ele pode interceder por outros na comunidade da fé, gerando dinâmica nas relações de fraternidade no convívio da igreja. Os crentes podem orar uns pelos outros, podem confessar mutuamente os seus pecados e também estão munidos de autoridade vinda de Cristo para evangelizar, apregoando as boas novas aos pagãos e incrédulos.

Já o livre exame da Escritura foi o que possibilitou que o povo tivesse a Bíblia em mãos, podendo discernir, a partir do texto sagrado, se o que era pregado coadunava com o conteúdo do Cânon. Visando que o livre exame fosse uma realidade, Lutero se empenhou em traduzir a Bíblia para o alemão - e a recém-criada imprensa de Gutemberg foi responsável por propagar a Palavra de Deus no vernáculo germânico.

Dito isto, é importante entender que mesmo não havendo no protestantismo o abismo entre clero e laicato, há na Igreja do Senhor ministros ordenados que são chamados por Cristo para o auxílio do pastoreio de seu rebanho. O sacerdócio universal não anula a ordenação pastoral e não faz de ninguém um ministro autoproclamado. Deus conferiu a certos homens a tarefa de ministrar a Palavra e os sacramentos no âmbito da igreja local. Não é qualquer um que pode subir no púlpito e ensinar a congregação. Embora sendo sacerdote e podendo evangelizar os descrentes, o cristão é pastoreado por um ministro ordenado pela imposição de mãos (1Tm 4.14; 5.22 e 2Tm 1.6). Ministro este que foi reconhecido pela própria igreja como apto ao pastoreio. Pois, Deus dá o dom, faz o chamado, mas confere a Igreja o reconhecimento da vocação ministerial. E todo ministro deve prestar contas a Deus, primariamente, mas também a Igreja. Só em contextos específicos, tal como perseguição ferrenha, que qualquer cristão - na ausência de um pastor - pode ser colocado na condição de ministrar a Palavra e os sacramentos. Timothy Georg, no excelente livro “Teologia dos Reformadores” trata a respeito do pensamento de Martinho Lutero, e assim nos informa que


Lutero considerava o ministério da Palavra o mais alto ofício da igreja. O próprio título, “servo da Palavra divina” (minister verbi divini), conota um papel essencialmente funcional. Rigorosamente falando, Lutero ensinou que todo cristão é ministro e tem o direito de pregar. Esse direito pode ser livremente exercido se alguém estiver em meio a não-cristãos, entre os turcos ou encalhado numa ilha pagã. Entretanto, numa comunidade cristã, não se deve “chamar atenção sobre si mesmo”, assumindo tal ofício por conta própria. Antes, deve-se “deixar ser chamado e escolhido para pregar e ensinar no lugar de outros e sob o comando deles”. O chamado é feito pela congregação, e o ministro continua tendo de prestar contas a ela (GEORG, 1994, p.97).

Agora, acerca do livre exame da Escritura, ele acaba sendo uma ferramenta da prestação de contas. O pastor deve ser avaliado, dentre um conjunto de fatores, mas, sobretudo, deve-se perceber nele a fidelidade na exposição da Palavra. Compete ao pastor ser fiel ao conteúdo bíblico ao ensinar em sua comunidade de fé. Os crentes desta comunidade, portando a Bíblia, tendo acesso ao seu conteúdo, estão aptos para discernir se o que o pastor prega é ortodoxo ou heterodoxo. Livre exame não é o mesmo que livre interpretação! O papel do ministro da Palavra é o de esmiuçar o Cânon para que os fiéis sejam edificados e sejam bem nutridos com a Palavra da Verdade. Horton (1997) explica que


Os Reformadores acreditavam que a Tradição era importante e que os Cristãos não a deveriam interpretar por eles mesmos, mas que todos os cristãos sejam clérigos ou leigos, deveriam chegar a um comum entendimento e interpretação das Escrituras juntos. A Bíblia não deveria ser exclusivamente deixada aos "espertos", mas isso nunca significou para os Reformadores que cada cristão deveria presumir que ele ou ela pudessem chegar a interpretações da Bíblia sem a orientação e assistência da Igreja.

A Segunda Confissão Helvética (1562), em seu artigo nº 2, diz não aprovar “quaisquer interpretações”. Com isso, ela continua “nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana”. O que não quer dizer que toda a doutrina que teve origem em Roma está automaticamente rejeitada. O que a confissão vai dizer é que a Escritura é o crivo para que julguemos a pregação.


Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.

De igual modo, a confissão escrita por Bullinger trata também “as definições e cânones dos concílios”. Assim sendo, toda doutrina vinda da Igreja passa pelo escrutínio da Bíblia e através da iluminação do Espírito, todo cristão está apto para examinar a doutrina, como dignos bereianos, discernindo se ela encontra respaldo (ou não) no Texto Sagrado. Isto é o que herdamos da Reforma, portanto, a livre interpretação não é um postulado reformado; quem advoga este princípio está se afastando totalmente da tradição reformada.

Grupos radicais - que surgiram após a Reforma eclodir - defendiam o fim do ministério pastoral ordenado, dentre eles os quakers. Eles compreenderam mal aquilo que Lutero, Calvino e outros reformadores ensinaram. O prejuízo à sã doutrina acabou comprometendo também a eclesiologia, portanto, nestes 500 anos celebrando o advento da Reforma Protestante, que seus herdeiros diretos e indiretos não façam a confusão já feita no passado. O ministro ordenado é uma benção de Deus para a igreja e


O rito da ordenação não confere nenhum caráter indelével à pessoa ordenada. É meramente a forma pública pela qual alguém é comissionado mediante a oração, as Escrituras e a imposição de mãos, a fim de servir à congregação. Argumentando curiosamente a partir da lei natural, Lutero excluía mulheres, crianças e pessoas incompetentes do ministério oficial da igreja, embora numa época de emergência ele pudesse chamá-los a exercer tal ofício, em virtude de sua parcela no sacerdócio de todos os cristãos (GEORG, 1994, p. 98).

Concluindo, não existe distinção no trato de Deus para com um ministro da Palavra. Ele é um crente como qualquer outro, agraciado com a salvação imerecida, e dependente do Espírito Santo para santificá-lo durante toda a jornada da fé. No entanto, sua vocação é um privilégio e uma responsabilidade imensa, pois, os mestres serão julgados com maior rigor (Tg 3.1).

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Referências:

BULLINGUER, Heinrich. Segunda Confissão Helvética, disponível em http://www.monergismo.com/textos/credos/seg-confissao-helvetica.pdf, acesso 16/02/2017.
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HORTON, Michael. O que é um evangélico. Revista Os Puritanos, Ano V, nº 3, pág 33-35, São Paulo, 1997.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Lutero: Reformador Destemido

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Quando tudo parecia perdido, eis que Deus levantou um homem de coragem e bravura para trazer o seu povo de volta às Escrituras, seu nome? Martinho Lutero.

"Sou rude e impetuoso ao lutar contra inúmeros monstros e demônios. Nasci para remover os tocos e as pedras, para podar os cardos e abrolhos, para arrancar os espinheiros e limpar as matas selvagens". (Martinho Lutero)

Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha narra uma breve história do reformador Martinho Lutero. Assista:



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Autor: Rev. Dorisvan Cunha
Fonte: Guerra pela Verdade
Divulgação: Bereianos
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Resposta ao Silas Daniel - Ainda Sobre Luteranismo e Monergismo

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Silas Daniel publicou mais um texto em resposta às minhas postagens. Neste, não há nada de novo; o autor tenta clarificar algumas questões, especialmente sobre a relação de Lutero com o sinergismo de Melanchthon e alguns vocábulos empregados. Comento apenas as questões principais – já que o reverendo luterano Daniel Branco já respondeu ao texto com profundidade, numa nova postagem publicada na página da Congregação Luterana da Reforma.

Silas insiste no fato de Lutero, aparentemente, condescender com o sinergismo de Melanchthon (sem levar em conta que o sinergismo deste só se tornou explícito dois anos após a morte do primeiro), como se isso provasse que houve algum tipo de atenuação no monergismo do reformador alemão. Mas o autor não responde efetivamente às questões levantadas nos dois textos escritos por Daniel Blanco, nem as do meu último texto sobre Lutero, insistindo, a partir de uma opinião bem peculiar, baseada em inferências, que Lutero suavizou sua posição em Da vontade cativa. O leitor deve notar que estas afirmações da parte de Silas são feitas sem citação a nenhuma fonte primária que corrobore tal posição (e ele não cita nem uma vez obras de referência sobre a teologia da Reforma, como as obras de Henri Strohl, Timothy George ou Paul Althaus). De qualquer forma, um exemplo de fonte primária talvez baste para mostrar a fragilidade de sua posição: de forma completamente oposta ao que o autor opina, Lutero escreveu a Wolfgang Capito, em 9 de julho de 1537, que nenhum de seus livros mereceria ser preservado, com a exceção de seu Catecismo Menor e do De servo arbítrio (LW 50, p. 172-173).

Vou ficando com a impressão de que é muito mais fácil por parte dos arminianos afirmar, sem provas, que supostamente houve mudança ou abrandamento no pensamento do reformador alemão do que interagir com a vigorosa interpretação monergista que ele ofereceu ao texto bíblico, não só em Da vontade cativa, mas em suas preleções à Epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo aos Romanos e no Comentário à Epístola aos Gálatas. A propósito, o leitor pode conferir em minha última postagem, O luteranismo confessional e o monergismo (publicada no Bereianos), a citação inequívoca de Lutero sobre a predestinação soberana e graciosa, em seu prefácio à epístola aos Romanos, e publicada segundo a versão revisada no último ano de sua vida.

Como Silas Daniel parece não entender o princípio de igreja confessional, ele insiste em citar alguns escritores (me parece incorrendo no argumento ad verecundiam) para afirmar que a tradição luterana se afastou do monergismo do reformador – e, mais uma vez, é preciso destacar, tal conclusão se dá a partir da citação de fontes secundárias. Ele não cita nenhuma vez qualquer um dos documentos confessionais luteranos reunidos no Livro de Concórdia (o que fiz em O luteranismo confessional e o monergismo) para apoiar sua opinião sobre a tradição luterana.

Para tornar clara a questão: em igrejas confessionais, como as igrejas da tradição reformada, é perguntado aos candidatos ao ministério pastoral: “Recebeis e adotais sinceramente a Confissão de Fé e os Catecismos desta Igreja, como fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras?” Espera-se, como resposta, que estes afirmem solenemente “sua crença nas Escrituras Sagradas como a Palavra de Deus, bem como a sua lealdade à Confissão de Fé” e aos Catecismos como fiéis resumos do ensino bíblico – e que estes se mantenham firmes neste santo compromisso. Assim sendo, para as tradições confessionais, o que determina o que estas creem são seus documentos confessionais, não a posição de seus teólogos, mesmo dos mais representativos.

Por interpretar a história da controvérsia sobre a soteriologia em termos anacrônicos, reduzindo as alternativas em “calvinismo” e “arminianismo” (problema já tratado em detalhes em Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão, também publicado no Bereianos, e de passagem em O luteranismo confessional e o monergismo), o autor não consegue entender que a tradição luterana é uma terceira interpretação da soteriologia, mas não menos confessionalmente monergista que a tradição reformada.

Sobre o uso da expressão “mecânica da salvação”, minha crítica ao uso da mesma se dá por tal ideia sugerir a noção de graça ex opere operato, reduzindo a salvação a um sistema, ou ao recebimento mecânico da salvação (como na tradição pelagiana, com sua linguagem do tipo “aceitar a Jesus”, “tomar uma decisão por Cristo”, etc.). O fato da expressão “mecanismo da salvação” (e não “mecânica”) ter sido citada por Lloyd-Jones (uma única vez na palestra O que é um evangélico, em contraponto a “método de salvação”) é indiferente. Silas é livre para usar a expressão que lhe convier. A mim me parece que falar da livre graça de Deus é mais apropriado e bíblico (diga-se de passagem, esta última expressão é encontrada, de forma recorrente, em vários dos sermões de John Wesley).

Sobre o uso dos termos “semipelagianismo” e “semiagostinianismo”, deve-se afirmar que não atribuímos significado arbitrário a estes vocábulos, usando-os segundo nossas preferências. Eles devem ser referidos a partir dos dicionários teológicos e livros-textos consagrados, assim como de seu uso na história da teologia. Neste caso, referenciei tanto a diferença entre semipelagianismo e semiagostinianismo (que julgo importante, já que as duas interpretações pressupõem inícios diferentes para a salvação: a primeira, a partir da vontade, que será assistida por Deus; a segunda, atribuindo-a a Deus, que coopera com a vontade), como o fato de Agostinho e Próspero serem considerados autores “medievais”. Neste caso, o autor insiste na datação tradicional para se evadir de que houve de fato uma tradição monergista na Idade Média, e ela começou cedo. Para relembrar, Silas Daniel havia afirmado em seu texto publicado em O Obreiro Aprovado de que não teria havido ninguém que ensinou a doutrina da predestinação entre Agostinho e a Reforma, afirmação que ele corrigiu posteriormente. Ele, inclusive, afirmou naquela revista que os sínodos de Quiercy e Valença ensinaram “a predestinação pela presciência divina”, um óbvio equívoco de interpretação que fica evidente para aqueles que consultarem as fontes originais, na edição bilíngue de Denzinger-Hünerman (Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral), e citadas em meu ensaio Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão (onde o leitor encontrará também a citação dos artigos principais das decisões do Sínodo de Orange sobre a soteriologia).

Por fim, as várias citações de Próspero a favor daquilo que é chamado de “universalismo hipotético”, com que o autor encerra seu último texto, não provam nada. As citações não demonstram que tal posição é incompatível ou é uma ruptura com o monergismo que ele herdou de Agostinho, e do qual foi firme defensor; Próspero também foi a influência determinante no Sínodo de Orange (por meio da obra Sententiae ex Augustino delibatae), que condenou o pelagianismo e “algumas doutrinas semi-pelagianas típicas, como aquela da initium fidei humana”, e que adotou “uma forma atenuada de agostinianismo” (Justo Gonzalez, Uma história do pensamento cristão, v. 2, p. 60-61).

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

Leia também: 
Uma avaliação do artigo "Em defesa do arminianismo"
Resposta a Zwinglio Rodrigues: Sobre exegese, arminianismo e o Sínodo de Dort
Resposta ao Pr. Silas Daniel - Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão
O Luteranismo Confessional e o Monergismo
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O Luteranismo Confessional e o Monergismo

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Silas Daniel publicou na CPAD News sua quarta resposta, agora tratando de Martinho Lutero. Para relembrar o que já foi dito em meu último texto, neste texto o autor também tenta impor ao reformador alemão categorias interpretativas estranhas aos seus escritos, tais como “cinco pontos do calvinismo” ou do “arminianismo”, quando os eixos interpretativos devem ser monergismo e sinergismo, ou agostinianismo e pelagianismo (e suas gradações, semiagostinianismo e “semipelagianismo”).


Um irmão luterano, o reverendo Daniel Branco, preparou uma competente, respeitosa e muito bem escrita refutação em dez pontos ao quarto texto de Silas Daniel, que pode ser lida na página da Congregação Luterana da Reforma.

Neste artigo, já que a tradição luterana é confessional, serão feitas citações diretas de fontes primárias, os documentos reunidos no Livro de Concórdia, para mostrar que esta tradição é monergística, ainda que distinta e crítica da fé reformada. Tal esforço é importante e compensador. Silas Daniel cita uma impressionante lista de fontes secundárias – todas em inglês (até onde percebi), mesmo quando já traduzidas para o português, o que dificulta ao leitor sem domínio daquele idioma o acesso às mesmas para checar as fontes citadas. Um exemplo problemático é o uso que ele faz de H. Bavinck. Em seu texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68), ele, se apoiando no teólogo holandês, afirmou que Lutero “abrandou a sua posição afirmada em De servo arbítrio” (cujo título nas Obras Selecionadas é Da vontade cativa). Na verdade, Bavinck afirma que “embora em suas polêmicas com os anabatistas [Lutero] tenha enfatizado cada vez mais a revelação de Deus na Palavra e nos sacramentos, ele nunca reverteu sua posição sobre predestinação” (Teologia Sistemática, v. 2, p. 364). Em seu novo texto, Silas, surpreendentemente, escreve que “quanto à afirmação de Bavinck de que os ‘verdadeiros luteranos’ [ibid, p. 364] rejeitaram o sinergismo de Melanchthon, trata-se de uma tremenda distorção da história”. A impressão que dá é que o autor mencionou Bavinck apenas quando a citação aparentemente favoreceu o seu argumento. 

Lembrando do princípio de que para tratar de temas teológicos controversos deve-se começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições estudadas, passemos às citações dos escritos confessionais luteranos contidos no Livro de Concórdia.

1. A tradição luterana é monergista. Isto pode ser conferido na Fórmula de Concórdia XI.1-14, no capítulo que trata “da eterna presciência e eleição de Deus”, que afirma que “sobre este artigo não ocorreu dissensão pública entre os teólogos da Confissão de Augsburgo”. E continua: “A presciência de Deus nenhuma outra coisa é senão isso que Deus sabe todas as coisas antes de elas acontecerem... (...) Se estende igualmente sobre os bons e os maus, não sendo, porém, causa do mal nem do pecado... (...) Também não é a causa da perdição dos homens, pela qual eles mesmos são culpados. A presciência de Deus apenas regula o mal e lhe fixa limite quanto à duração, fazendo com que tudo, não obstante seja mau em si mesmo, sirva à salvação de seus eleitos”. Por fim: “A predestinação ou eterna eleição de Deus, entretanto, diz respeito apenas aos piedosos, agradáveis filhos de Deus, sendo uma causa da salvação deles, a qual ele também provê, e ordena o que a ela pertence. Sobre ela, nossa salvação se funda de maneira tão firme que ‘as portas do inferno não prevalecerão contra ela’. (...) Com essa breve explicação da eterna eleição de Deus, dá-se a Deus sua honra inteira e plenamente, que ele, somente por sua pura misericórdia, sem qualquer mérito nosso, nos salva ‘segundo o propósito’ da sua vontade. Além disso, também não se dá a ninguém causa para pusilanimidade ou vida rude, desenfreada” (2-4, 14). Por meio de negativas, é rejeitada a ideia de uma dupla predestinação simétrica (predestinatio gemina). Na Declaração Sólida XI, “da eterna presciência e eleição de Deus”, tal posição é detalhadamente reafirmada. Um trecho basta:

“Essa é a extensão em que o mistério da predestinação nos é revelado na palavra de Deus. E se a isso nos restringimos e ativermos, deveras, é doutrina útil, salutar e confortadora, pois que mui poderosamente confirma o artigo de que somos justificados e salvos sem qualquer obra e mérito nosso, exclusivamente pela graça, tão-só por causa de Cristo. Antes do tempo do mundo, antes de existirmos, ‘antes da fundação do mundo’, quando, naturalmente, nada de bom poderíamos ter feito, fomos eleitos, por graça, em Cristo, para a salvação, ‘segundo o propósito de Deus’, Rm 9; 2 Tm 1. Isso também derruba todas as opiniones e doutrinas errôneas sobre os poderes de nossa vontade natural, porque, em seu conselho, Deus resolveu e decretou, antes do tempo do mundo, que, pelo poder de seu Santo Espírito, mediante a palavra, ele mesmo quer criar e operar em nós tudo o que pertence à nossa conversão”.

Portanto, aqueles familiarizados com a tradição confessional luterana sabem que esta, ainda que tendo agudas diferenças em relação à tradição reformada, é monergística (para uma exposição do pensamento de Lutero sobre a predestinação, cf. Paul Althaus, A teologia de Martinho Lutero, p. 291-303).

2. Por defender uma interpretação anacrônica da controvérsia soteriológica, o autor insiste que os Artigos de Esmacalde III.40-45 ensinariam a “crença de Lutero na possibilidade de um cristão genuíno cair da graça”, quando o luteranismo oferece outra possibilidade de compreensão da segurança da salvação. Os artigos ensinam:

“E esse arrependimento perdura nos cristãos até a morte, pois que briga com o pecado que remanesce na carne ao longo da vida toda, como S. Paulo testifica em Rm 7 que guerreia contra a lei de seus membros, etc. E isso não o faz mediante forças próprias, senão pelo dom do Espírito Santo, dom que se segue o perdão dos pecados. Esse dom purifica e varre diariamente os pecados remanescentes e opera no sentido de tornar o homem bem puro e santo. 
Disso nada sabem nem papa, nem teólogos, nem juristas, nem homem algum. É doutrina do céu, revelada pelo evangelho. E ela tem de suportar o ser chamado de heresia entre os santos ímpios.
Por outro lado, é possível que venham alguns espíritos sectários – e talvez já estejam presentes alguns, tais como os que no tempo da insurreição [a Guerra dos Camponeses, de 1525] me surgiram a mim mesmo diante dos olhos – e sustentem a seguinte opinião: Todos aqueles que alguma vez hajam recebido o Espírito ou o perdão dos pecados, ou que se hajam alguma vez tornado crentes, esses, caso pequem depois disso, mesmo assim permanecerão na fé, e tal pecado não lhes fará mal. E, de acordo com isso, berram: ‘Faze o que quiseres; se crês, nada importa; a fé extingue todo pecado’, etc. Dizem, além disso, que nunca teve de modo verdadeiro o Espírito e a fé aquele que peca depois da fé e do Espírito. Tais criaturas insanas têm-me aparecido muitas pela frente, e temo que esse demônio ainda esteja alojado em algumas.
Por isso é necessário saber e ensinar: pessoas santas ainda têm e sentem o pecado original e, diariamente, se arrependem e lutam contra ele. Se, à parte disso, lhes acontece caírem em pecado manifesto, como por exemplo, Davi, em adultério, em assassínio e em blasfêmia, então a fé e o Espírito estiveram ausentes. Pois o Espírito Santo não permite que o pecado governe e prevaleça, de modo que seja consumado, porém reprime e resiste, de forma que não pode fazer o que quer. Se, porém, fizer o que é de sua vontade, então o Espírito Santo e a fé não estão presentes. Porquanto São João diz: ‘Pois quem é nascido de Deus não peca e não pode pecar’. Contudo, também é verdade, conforme escreve o mesmo São João: ‘Se dissermos que não temos pecado nenhum, mentimos, e a verdade de Deus não está em nós’”.

Tal declaração deve ser lida em contexto, isto é, as controvérsias com os vários grupos anabatistas, chamados coletivamente pelos reformadores alemães de “entusiastas” (Schwärmer ou Schwärmertum, sinônimo de “fanáticos”). Numa nota de rodapé do Livro de Concórdia, comentando a frase “então o Espírito Santo e a fé não estão presentes”, cita-se Gottfried Noth, que afirmou que “M. Chemnitz repetidas vezes apela para esse passo dos Artigos de Esmacalde, interpretando-o, porém, mal, como se Lutero quisesse dizer que pecados grosseiros liquidam a fé”.

Para entender o que a tradição luterana confessional defende sobre a fé e a certeza da salvação, pode-se ir a John Theodore Mueller, Dogmática cristã, que escreve: “Se os papistas e protestantes romanizantes negam que o crente possa estar certo de sua salvação, é porque ensinam que a salvação, ao menos em parte, depende das boas obras do crente. (...) Todo aquele que crê em Cristo com sinceridade está seguro de seu estado de graça e salvação; pois o Espírito Santo, que nele gerou fé pelo Evangelho, por essa mesma fé lhe dá certeza de que é filho de Deus e herdeiro da vida eterna” (p. 320, 322). Mas, para Mueller, há que se fazer uma distinção entre a primeira conversão, e a conversão continuada, que “jamais está completa enquanto [a pessoa que crê em Cristo] vive no mundo”. Esta conversão continuada não é um processo de santificação interna, mas um viver na confiança na salvação obtida objetivamente na Palavra e nos sacramentos. Portanto, “o fato de aqueles que crêem em Cristo poderem cair da graça ou perder a fé constitui doutrina clara da Bíblia”, ainda que seja “preciso manter que podem se converter de novo (...) os que caíram na fé” (p. 341). Esse autor, em sua obra, critica o entendimento reformado da perseverança, pois esta nega “a gratia universalis”. Mas rejeita a compreensão sinergista da perseverança, pois esta nega “o sola gratia”, ensinando que “o pecador tem de entrar com a sua quota a bem de se tornar cristão, assim como também tem de cumprir com a sua parte para poder perseverar na fé”. De acordo com Mueller, “o monergismo divino é, também, responsável pela conservação para a salvação” (p. 413-417).

Para a tradição luterana, a santificação (que é interna) não pode ser a base da certeza da salvação, mas a segurança da salvação é dada externamente, na Palavra e nos sacramentos. Como Lutero afirmou no Catecismo Maior: “Assim, a fé se apega à água, crendo que é o batismo, em que há pura salvação e vida. (...) Não pela água, mas (...) porque está unida à palavra e ordem de Deus... (...) Se creio isso, em que outra coisa creio senão em Deus, como aquele que deu e implantou sua palavra no batismo... (...) De forma nenhuma se há de considerar o sacramento como se fosse coisa prejudicial, da qual cumprisse fugir, mas como medicina inteiramente salutar [ou salvadora] e consoladora, que te ajuda e te dá a vida tanto na alma quanto no corpo”.

3. Sobre Lutero, deve ser óbvio, a esta altura, que é muito mais fácil afirmar que supostamente houve mudança ou abrandamento no pensamento do reformador do que interagir com a vigorosa exegese que ele ofereceu ao texto bíblico, não só em Da vontade cativa, mas também em suas preleções à Epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo aos Romanos e no Comentário à Epístola aos Gálatas. Curiosamente, uma editora nacional publicou no Brasil a obra editada por E. Gordon Rupp e Philip S. Watson, Luther and Erasmus: Free Will and Salvation, sem o texto do reformador alemão (o título nacional é Erasmo: livre-arbítrio e salvação). Assim sendo, me parece apropriado encerrar com uma citação do Prefácio à Epístola de S. Paulo aos Romanos, escrita em 1522, e revisada e adaptada em 1546, ano da morte do reformador:

“Nos capítulos 9, 10 e 11, (...) [Paulo] ensina a eterna predeterminação de Deus. Desse conceito provém originalmente a distinção entre quem há de crer e quem não há, quem se pode livrar de pecados ou não. Com ele está de todo fora do nosso alcance e exclusivamente nas mãos de Deus, que nos tornemos retos. E isso é de suma necessidade. Pois somos tão fracos e inseguros que, se dependesse de nós, naturalmente nem uma pessoa sequer se salvaria e o diabo com certeza a todas sobrepujaria. Mas, como para Deus é certo que não falhará aquilo que ele predetermina, tampouco alguém o pode impedir, ainda temos esperança contra o pecado.
Entretanto, há que se pôr um limite aos espíritos injuriosos e arrogantes que, primeiro, dirigem seu raciocínio para este ponto, começam por pesquisar o abismo da predeterminação divina e se preocupam em vão com a pergunta, se estão predeterminados. Esses então têm que se humilhar a si mesmos de forma a desesperar ou a pôr tudo em jogo. Tu, porém, segue esta carta em sua sequência, ocupa-te primeiro com Cristo e o Evangelho. Nele, reconhecerás teu pecado e a graça do Evangelho. Em seguida, combate o pecado, como o ensinaram aqui os caps. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. Depois, tendo chegado ao 8º capítulo, sob cruz e sofrimento, isso te ensinará a entender tão bem a predeterminação nos cap. 9, 10 e 11. E como ela é consoladora! Pois, sem sofrimento, cruz e aflições de morte não se pode tratar da predeterminação, sem juízo e indignação oculta contra Deus. Por isso, o [velho] Adão precisa estar morto antes de suportar essa coisa e tomar o vinho forte. Toma cuidado, portanto, que não bebas vinho enquanto ainda és lactente. Todo ensinamento tem sua medida, tempo e idade” (OS 8, 139).

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

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Uma avaliação do artigo "Em defesa do arminianismo"
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Uma carta a Lutero

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Por André Albertini

Caro Lutero,

Por força do hábito ia começar perguntando se está tudo bem. Mas, lembrei que você está na Glória, com o Pai. Certamente está… Por aqui é 31 de outubro e estamos comemorando o Dia da Reforma. Por isso te escrevo, para agradecer sua coragem e determinação na luta pelo verdadeiro Evangelho. Sim, eu sei que nada disso ocorreria sem a Graça de Deus. É evidente que ele te escolheu, capacitou e iluminou para que fizesse isso. Evidentemente, também, outros homens, como Jan Huss, John Wycliff, Girolamo Savonarola e outros abriram o caminho para o que você iniciou lá em Wittenberg. Mas, não seja modesto; sua contribuição foi fundamental.

Bem, admito que não tenha notícias muito boas daqui. Alguns “protestantes” não entenderam bem o que você e os outros reformadores propuseram. Digamos que Johann Tetzel seria um amador perto deles… Voltaram a vender o Evangelho, amigo. Por bênçãos, cura, prosperidade… Muito tempo depois de sua partida inventaram a TV. Basicamente, é um aparelho que transmite som e imagem para qualquer lugar. Não tem ideia do que estes caras fazem para poder aparecer nela. Enquanto há irmãos sofrendo, passando necessidades, há líderes da igreja esbanjando muito dinheiro. Inventaram o trízimo! O nome indulgencia foi abolido, mas, o conceito não. E não estão muito interessados no tilintar da moeda. Querem muito mais que moeda. Muito triste.

Sei, também, que era um grande músico. Pois aí temos outro grande problema dos nossos tempos. É lamentável como a maioria das músicas ditas cristãs de hoje nada refletem da Graça de Deus. Só pedem. São músicas centradas no homem. Sei que teve uma discussão com Erasmo de Roterdã sobre o humanismo dele. Creia, perto do que temos hoje, ele nem era tão ruim assim. E a qualidade musical? Terrível! Inclusive o pessoal não tem gostado muito de seu lindo hino Castelo Forte. Primeiro acham muito “parado”. Não dá pra pular, pra dançar… Segundo, há um grande problema com aquele trecho que diz: “Se temos que perder; família, bens, poder. Embora a vida vá. Por nós Jesus está”. Dizem que isso não é um discurso de um cristão. É muito derrotismo. Dizem que você tinha é que ter declarado a vitória! Ter determinado que Deus te desse tudo. Afinal, crente que é crente não sofre… Sim, irmão Lutero, o pessoal tem cantado isso. Adoram pedir pra Deus restituir de volta o que era deles. Até acho que Deus deveria fazer isso mesmo. Restituir a perdição antes de Cristo. Sorte deles que o Pai é amoroso…

Lembro que lutava contra o fato do Papa ser um ser superior aos outros crentes. Pois bem, acredita que no meio “protestante” temos algo parecido com o Papa? Sim, temos apóstolo, paipóstolo, arcanjo… O que tem de homem tentando usurpar a glória de Deus é uma enormidade. Comportam-se como se fossem o único elo entre Deus e os fieis. Arrogam para si uma condição de infalibilidade. Sacerdócio universal dos crentes? Jamais! Eles querem fazer o povo pensar que sempre precisarão deles. São absolutamente autoritários e tirânicos. Ai de quem discordar deles. E estão em todas as denominações. Ah, me esqueci disso. Nos dividimos em várias denominações. O protestantismo não tem a menor unidade. Brigamos por forma de batizar, de tomar a ceia, de usar os dons.  É feia a coisa aqui, amigo.

Tenho, também, más notícias de sua terra natal e de sua igreja. Foi lá que surgiram os principais expoentes de um movimento que busca diminuir a autoridade da Palavra de Deus, transformar a Bíblia num mito, diminuir os milagres de Cristo e, acredite, diminuir até a importância do sacrifício vicário de Jesus. Segundo eles, nós que acreditamos na veracidade dos fatos bíblicos somos inocentes que não entendemos nada… Parece que este movimento perdeu força, mas sempre arruma algum jeito de voltar. Se aqui ainda estivesse, seria chamado de fundamentalista…

Porém, caro irmão, embora temos todos estes problemas, há muito que comemorar. Vemos muitos e muitos jovens se voltando à sã doutrina, querendo resgatar aquilo que você já havia resgatado no seu tempo: a verdadeira mensagem do Evangelho. Até em sua querida Igreja Católica (sim, sei que o que realmente queria não era uma separação e sim uma mudança de rumos) vemos pessoas buscando as doutrinas da Graça. Depois de você muitos homens e mulheres de Deus vieram e lutaram bravamente para que o Evangelho de Cristo fosse retomado. O invento de Gutemberg prosperou. Hoje é fácil achar livros sobre o nosso Deus. E a Bíblia, então? Fala-se que a temos em 2.250 idiomas! É o livro mais vendido na História. Seu sonho de coloca-la ao alcance de todos é uma realidade. Glórias sejam dadas a Deus!

Por enquanto é isso, amigo. Quem sabe logo te escreva contando novidades melhores. Um dia nos conheceremos pessoalmente. Espero que, no tempo aqui da Terra, demore um pouquinho… Mande um abraço para o pessoal aí. Pra Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, Beza, Farel, Knox, enfim, pra todos esses pedreiros da Reforma. Somos gratos ao Pai pela vida de vocês. Continuem com Deus!

Um grande abraço!

André

Soli Deo Gloria

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Princípios Hermenêuticos de Martinho Lutero

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Por Weldon E. Viertel


Lutero não tinha encontrado perdão de pecados e uma relação pessoal com Deus por meio de seus estudos da doutrina eclesiástica. Enquanto estudava o livro de Romanos, descobriu que a salvação é pela fé somente, e não pela mediação da Igreja e dos sacramentos. Sua experiência de salvação influenciou seu ponto de vista das Escrituras como a única autoridade em matéria de fé. Sua experiência espiritual também o influenciou a perceber que a interpretação das Escrituras envolvia mais que um conhecimento erudito daquilo que os Pais, porventura, tivessem pronunciado sobre uma passagem da Bíblia.

O Princípio da Escritura Somente (“Sola Scriptura”) – A Escritura é a autoridade suprema em matéria de fé, à parte das tradições, dos Pais e da interpretação oficial da Igreja. A Igreja é a criação do evangelho e incomparavelmente inferior ao Evangelho. A tarefa da Igreja é declarar os ensinos da Bíblia, em vez de criar artigos de fé.

O Sentido Literal da Escritura – Somente o sentido literal é que deve ser usado na interpretação da Escritura. Rejeitou o quádruplo sentido da Escritura usado pelos intérpretes medievais. O sentido literal da Escritura se baseia num conhecimento de gramática, do fundamento histórico (época, circunstâncias e condições), observação do contexto da Escritura, iluminação espiritual, a referencia de toda Escritura a Cristo. Lutero concluiu que os erros não se originaram das palavras simples da Escritura, mas pela negligência das palavras simples. Colocou o sentido quádruplo à margem, como ficção. Declarou que cada passagem tem seu verdadeiro sentido, próprio, claro, definido. Todos os outros sentidos são opiniões incertas.

O Princípio da Clareza (Perspicuidade) – Este princípio significa que a Bíblia pode ser entendida pelo cristão devoto e competente, que não necessita da direção oficial da Igreja. A Bíblia é suficientemente clara para apresentar sua significação ao crente. Lutero exagerou a simplicidade da Bíblia. Seu ensino a respeito da salvação e muitos outros assuntos; todavia, alguns versículos bíblicos têm sido interpretados de modo variado. Lutero acreditava que a Bíblia era suficiente em si mesma para o intérprete. Passagens obscuras deveriam ser interpretadas à luz de passagens claras. (...)

O Princípio da Responsabilidade Individual – O direito do julgamento privado foi mantido por Lutero. Ele não acreditava que o sacerdote tivesse maior capacidade espiritual para discernir a verdade que o leigo. Manteve que há diferença de ofício, mas não em direitos espirituais. Cada cristão é um sacerdote ou ministro, e é responsável em discernir a verdade da Palavra. O Espírito Santo é dado a todos os cristãos para que sejam guiados ao conhecimento da verdade. Visto que cada cristão terá que comparecer perante o tribunal, é seu privilégio e responsabilidade provar sua fé e conduta pelas Escrituras.

O Princípio da Interpretação Cristocêntrica – Lutero usou este princípio, procurando fazer da Bíblia inteira um livro cristão. Ele acreditava que a canonicidade de um livro era determinada pelo fundamento se o livro pregava Cristo ou não. O propósito da Bíblia era levar o homem ao confronto com Deus e sua exigência de fé. Um livro que, porventura, não pregasse a Cristo não poderia atingir esse objetivo. Desde que Lutero rejeitou o método alegórico da interpretação, frequentemente ele empregava a tipologia para encontrar Cristo nos ensinos do Velho Testamento. Cristo é o “tesouro escondido” e a “pérola de grande preço” no Velho Testamento.

O Princípio da Iluminação Espiritual – Visto que a Escritura lida com a vontade de Deus e com o coração do homem, o discernimento espiritual de um santo poderá ser de maior valor que a habilidade de um gramático. O Espírito Santo traz iluminação à mente do homem à medida que Deus fala ao coração do leitor mediante as Sagradas Escrituras.

Fonte: A Interpretação da Bíblia - Estudos Teológicos Programados
Weldon E. ViertelEdição de 1979 - Juerp.
Divulgação: Bereianos
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A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o livre-arbítrio é falso

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Por Martinho Lutero


No trecho de Romanos 3.21-25, Paulo proclama com toda a confiança: "Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que creem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante o redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé..." Essas palavras são quais raios contra a ideia do "livre-arbítrio". Paulo faz distinção entre a justiça conferida por Deus e a justiça que vem me diante a observância da lei.

O "livre-arbítrio" só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra claramente que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Sem importar o quanto possamos imaginar um suposto "livre-arbítrio", como capaz de praticar boas obras ou de tornar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando que a justiça dada por Deus é de natureza inteiramente diferente.

É impossível que o "livre-arbítrio" consiga resistir a assaltos de versículos como esses. Esses versículos desfecham ainda outro raio contra o "livre-arbítrio". Neles, Paulo traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos (Rm 3.22). Ninguém pode negar que o suposto poder do "livre-arbítrio" é bem diferente da fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o "livre-arbítrio", se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não redunda em glória a Deus. O trecho de Romanos 3.23 constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz que todos pecaram, exceto aqueles que praticam boas obras mediante seu próprio "livre-arbítrio".

Não há exceções. Se fosse possível nos tornarmos aceitáveis diante de Deus através do "livre-arbítrio", então Paulo seria um mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entanto, Paulo afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência ensina-nos que coisa alguma em nós agrada a Deus. Pergunte àqueles que defendem o "livre-arbítrio" se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles serão forçados a admitir que não existe. E é isto que Paulo claramente afirma.

Até mesmo aqueles que acreditam no "livre-arbítrio" precisam concordar comigo que não podem glorificar a Deus, contando apenas com os seus próprios recursos. A despeito do seu "livre-arbítrio", eles têm dúvida se podem agradar a Deus. Assim, eu provo, com base no testemunho da própria consciência deles, que o "livre-arbítrio" não agrada a Deus. Apesar de todos os seus esforços e de seu empenho, o "livre-arbítrio" é culpado do pecado de incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer ideia de "livre-arbítrio".

Fonte: citação de NASCIDO ESCRAVO Martinho Lutero, argumento 05, capitulo 01 - Traduzido do original em inglês: BORN SLAVES. EDITORA FIEL da Missão Evangélica Literária.

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Martinho Lutero e o anti-semitismo

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Por Robson T. Fernandes


Muito tem sido dito acerca de Lutero, desde a Reforma Protestante. Alguns o admiram e outros o odeiam de forma voraz. Tudo isso, devido a iniciativa surpreendente do monge agostiniano de fixar na porta da Igreja do castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, as conhecidas 95 teses.

Ao seguir em rota de colisão contra Roma e contra o astuto Johann Tetzel, vendedor de indulgências a mando do arcebispo Alberto, Lutero desencadeia a Reforma que há muito já vinha sendo travada por outros, a exemplo de John Wycliff, Jerônimo de Praga, Jerônimo Savonarola, João de Wessália, João Wesselus, Jan Hus etc.

Diferentemente do que alguns têm afirmado, Lutero não é idolatrado pela igreja reformada, mas relembrado por ter sido um instrumento de Deus, usado para confrontar as distorções doutrinárias e éticas do catolicismo romano. Dessa forma, ao confrontar, por exemplo, a venda de indulgências, Lutero ataca diretamente os planos do papa Leão X, que utilizava parte do dinheiro arrecadado com a venda de perdão para a construção da basílica de São Pedro, conhecida hoje como Vaticano. Ainda, levanta outro inimigo, o arcebispo Alberto, que recebia a outra metade do dinheiro arrecadado através da exploração do povo por meio da venda descarada da salvação, já que Tetzel pregava não ser necessário arrependimento para o perdão de pecados, mas apenas a compra de indulgências, válidas inclusive em nome dos que já haviam morrido.

Nesse sentido, a tese 82 diz o seguinte:

Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas–, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

Com isso, percebemos que as 95 teses atacam diretamente o coração do catolicismo romano, e por isso Lutero despertou tanto ódio e perseguição contra si mesmo, inclusive nos dias de hoje.

Então, quando tratamos da figura do reformador alemão, estamos lidando com uma história de perseguição, acusações, ódio, calúnia e difamações, e diante do que foi exposto podemos entender os motivos que levam a isso. Dr. Sam Storms afirma que “após a reforma começar, Lutero foi frequentemente difamado por seus oponentes católicos romanos. Em particular, foi dito que a mãe de Lutero manteve relações sexuais com o diabo e que Martinho era sua prole!” [1].

Uma das acusações recorrentes contra Lutero diz respeito ao seu anti-semitismo. Um dos trechos muito conhecido e utilizado é este:

Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas [...] Em segundo lugar, suas casas também deveriam ser demolidas e arrasadas [...] Em terceiro, seus livros de oração e Talmudes deveriam ser confiscados [...] Em quarto, os rabinos deveriam ser proibidos de ensinar, sob pena de morte [...] Em quinto lugar, os passaportes e privilégios de viagem deveriam ser absolutamente vetados aos judeus [...] Em sexto, eles deveriam ser proibidos de praticar a agiotagem [cobrança de juros extorsivos sobre empréstimos] [...] Em sétimo lugar, os judeus e judias jovens e fortes deveriam pôr a mão na debulhadeira, no machado, na enxada, na pá, na roca e no fuso para ganhar o seu pão no suor do seu rosto [...] Deveríamos banir os vis preguiçosos de nossa sociedade [...] Portanto, fora com eles [...]

Contudo, poucos se referem ao escritos de Lutero, no início da Reforma, a exemplo deste:

Talvez eu consiga atrair alguns judeus para a fé cristã, pois nossos tolos, os papas, bispos, sofistas e monges [...] até agora os têm tratado tão mal que [...] se fosse judeu e visse esses idiotas cabeças-duras estabelecendo normas e ensinando a religião cristã, eu preferiria ser um porco a ser cristão. Pois esses homens trataram os judeus como cães, e não como seres humanos. [2]No início de sua caminhada Lutero defendia e respeitava os judeus, porém com o passar dos anos as coisas começaram a mudar. Então, como conciliar dois escritos tão diferentes?

Primeiramente, precisamos compreender que o fato de ser usado por Deus não pode servir de pretexto para se pensar que é perfeito ou isento de erros.

Então Lutero errou?

Sim, nesse aspecto, certamente errou!

Em sua concepção posterior, 20 anos após a Reforma, Lutero adquiriu um pensamento distorcido sobre os judeus, mas isso não põe em cheque as suas ações iniciais sobre a Reforma. Na verdade, os princípios adotados pela igreja Reformada devem ter por base a Escritura Sagrada. Assim sendo, sempre que alguém desejar buscar a verdade entre o cristianismo verdadeiro e o catolicismo romano deve buscar nas páginas da Sagrada Escritura – A Bíblia, e não nas 95 teses, pois um dos princípios da própria Reforma é Sola Scriptura, ou seja, somente a Bíblia é inspirada, infalível, inerrante e suficiente. As 95 teses foram um escrito que expuseram erros do catolicismo romano, mas nunca foram tratadas como inerrantes, infalíveis, inspiradas ou suficientes para a vida cristã.

Se por um lado Martinho Lutero teve o seu valor como Reformador Protestante, por outro não podemos atribuí-lo o título de infalível nem inerrante. Quem faz isso são os católicos acerca do papa. Na igreja reformada não temos papa, apenas o Senhor.

Portanto, mais uma vez, não se pode julgar os princípios da Reforma com base nos erros de um homem. Os princípios devem ser julgados à luz da Bíblia Sagrada. Então, nesse aspecto, discordamos de Martinho Lutero e reconhecemos isso publicamente, diferentemente do catolicismo romano que continua a encobrir os erros da própria religião.

Utilizar os erros de Martinho Lutero para rejeitar os princípios bíblicos da Reforma é uma insensatez e válvula de escape que beira a desonestidade, porque – como já foi dito – os princípios da Reforma devem ser julgados a luz da Bíblia Sagrada e não a luz das ações de Lutero ou de qualquer outro reformador.

Jan Willem van der Hoeven [3] nos apresenta a seguinte explicação, em seu artigo [4]:

Portanto, em seus últimos anos de vida, Martim Lutero pode ter abortado o efeito da Reforma que ele mesmo havia iniciado, por causa de seu ódio e de seus discursos amargos contra o mesmo povo que nos legou as Escrituras, que trouxe ao mundo os apóstolos e profetas e através do qual veio até nós o Messias – Jesus, nosso Senhor.
Tudo isso é extremamente triste e deve nos servir de alerta, pois o que ocorreu a um homem tão poderosamente usado por Deus pode acontecer com qualquer um de nós, no que se refere aos judeus – o povo de Deus.
Lutero deveria ter prestado mais atenção às palavras de Paulo em sua Epístola aos Romanos (como todos nós devemos), que ele conhecia tão bem: "Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! [...] Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo..." (Romanos 11.1,25-26).
Portanto, talvez a arrogância e a cegueira que se verificam nos dias de hoje em relação ao plano e propósito final de Deus para com Seu povo, os judeus, sejam piores que a cegueira e o anti-semitismo da maior parte dos membros da igreja no passado, inclusive de Lutero, pois, enquanto eles viveram no período da dispersão dos judeus, nós vivemos no período da reunião de Israel.

Agora, se os católicos utilizam como argumento os erros de Lutero para reprovar e comprometer a Reforma Protestante, deveriam rejeitar o catolicismo também, pois se Lutero errou, e errou mesmo, o catolicismo romano tem errado muito mais no decorrer de séculos com este mesmo povo, os judeus.

Em um artigo que escrevei há alguns anos atrás, intitulado “Pio XII, O Papa Anti-semita de Hitler” [5] isto fica bastante claro.

O pesquisador e escritor John Cornwell [6] disse o seguinte:

Hitler declarou, escrevendo para o Partido nazista, em 22 de julho: "O fato de o Vaticano estar concluindo um tratado com a nova Alemanha significa o reconhecimento do Estado nacional-socialista pela Igreja católica. Esse tratado comprova para o mundo inteiro, de maneira clara e inequívoca, que a insinuação de que o nacional-socialismo é hostil à religião não passa de uma mentira [7].

Quatro dias após ser eleito papa, Pacelli, envia uma carta à Adolf Hitler, com o seguinte conteúdo:

Ao Ilustre Herr Adolf Hitler, Führer e chanceler do Reich Alemão! No início de nosso pontificado, desejamos lhe assegurar que permanecemos devotados ao bem-estar do povo alemão, confiado à sua liderança. (...) Durante os muitos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para consolidar relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de nossa função pastoral aumentaram as oportunidades, rezamos com muito mais fervor para alcançar esse objetivo. Que seja uma realidade a prosperidade do povo alemão e seu progresso em todas as áreas, com a ajuda de Deus! [8]

Então, diante dos fatos históricos documentados, se torna no mínimo curioso o fato de alguns questionarem as raízes bíblicas do Protestantismo quando desconhecem os fatos acerca, por exemplo da santa Inquisição, que assassinou 60 mil pessoas no ano de 1209, em Beziers (França); queimou 400 pessoas vivas no ano de 1211, em Lauvau (França); assassinou 10.200 protestantes entre os anos de 1420-1498, sob o comando do frade Torquemada; matou cruelmente 31.912 cristãos, martirizou 291.450 pessoas e baniu 2.000.000 de seres humanos da Espanha; matou 50.000 cristãos entre os anos de 1500 e 1558, sob o comando de Carlos V; exterminou 100.000 anabatistas entre os anos de 1566 e 1572, a mando de Pio V; assassinou covardemente 70.000 protestantes franceses em uma única noite, em 24 de agosto de 1572, sob as ordens de Gregório XIII; eliminou 200.000 hugenotes no ano de 1590 e exterminou cerca de 15.000.000 de pessoas entre os anos de 1578 e 1637, sob o comando de Fernando II.

E, o que dizer – então – de uma religião que é capaz de organizar um exército de elite chamando-os de missionários evangelizadores, catequizadores membros da “Companhia de Jesus” (Jesuítas), cujos membros estão dispostos a fazer o seguinte juramento:

Prometo ensinar a guerra lenta e secreta contra os protestantes e maçons... queimar vivo esses hereges, usar o veneno, o punhal ou a corda de estrangulamento. ..farei arrancar o estômago e o ventre de suas mulheres e esmagarei a cabeça de seus filhos contra a parede, a fim de aniquilar a raça!...Se eu for perjuro, as milícias do papa poderão cortar meus braços e minhas pernas, degolar-me, cortando minha garganta de orelha a orelha, abrir minha barriga e queimá-la com enxofre, etc.! – Assino meu nome com a ponta deste punhal molhado no meu próprio sangue. [9]

Com tudo isso, podemos extrair várias lições que poderão nos servir para a vida, mas dentre elas a mais importante é esta: Sempre alicerce as suas convicções naquilo que a Escritura Sagrada disser. Se algum homem falar de acordo com o Texto Sagrado, o seu escrito deve ser respeitado, mas se falar aquilo que a Escritura não diz deve ser rejeitado imediatamente.

Portanto, somos gratos a Martinho Lutero pelo que ele fez de bíblico, mas rejeitamos qualquer ensino ou prática que esteja em desacordo com a Sagrada Escritura, a Bíblia.

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1. A Vida de Martinho Lutero. Disponível em: . Acesso em 04 jan 2013.
2. Martinho Lutero: That Jesus Christ was born a Jew [Que Jesus Cristo Nasceu Judeu], reimpresso em Frank Ephraim Talmage, ed. Disputation and Dialogue: Readings in the Jewish-Christian Encounter (Nova York: Ktav/Anti-Defamation League of B’nai B’rith, 1975), p. 33.
3. Jan Willem van der Hoeven é diretor do International Christian Zionist Center.
4. Por Que Lutero Tornou-se um Anti-Semita?. Disponível em: . Acesso em: 04 jan 2013.
5. Pio XII, O Papa Anti-semita de Hitler. Disponível em:
6. CORNWELL, John. O Papa de Hitler. Imago, 2ª Edição, pág. 147.
7. SCHOLDER, K. The Churches and the Third Reich. Vol. 1, 1933, págs. 488-522.
8. Actes et Documents Du Saint Siège reletifs à La Seconde Guerre Mondiale (Atas e Documentos da Santa Sé relativos à Segunda Guerra Mundial), Vaticano, 1965-1981. Ii, pág. 420.
9. Congregacional de Relatórios. pág. 3262.

Sobre o Autor: Robson Tavares Fernandes é casado com Maria José Fernandes e pai de Isabela. É Pastor auxiliar na Igreja Cristã Nova Vida em Campina Grande, onde lidera a Secretaria de Ensino. Graduado em Teologia pelo STEC e pelo IBRMEC e Mestrando em Hermenêutica e Teologia do Novo Testamento pelo Betel Brasileiro. Tem se dedicado desde 1998 ao ensino e pesquisa na área de Hermenêutica, Apologética, História, Teologia e Fé e Ciência. É escritor e co-autor do livro “Apostasia, Nova Ordem Mundial e Governança Global” (em co-autoria com Augustus Nicodemus Lopes, Russell Shedd, Norman Geisler, Uziel Santana e Norma Braga). Professor de Teologia e Apologética e um dos fundadores da VINACC, tendo feito parte da primeira diretoria e posteriormente servido como pesquisador e consultor teológico.

Dica do Rev. Solano Portela, via Facebook.
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