Quem Deve Ensinar no Culto Público?

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Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”. (1 Coríntios 14:26)

Aqui o apóstolo Paulo fala sobre o culto público – “quando vos ajuntais. Ele lista determinadas coisas que poderiam acontecer no culto público. É importante observar que cada elemento de culto que ele menciona dependia de um dom do Espírito Santo para acontecer. O dom de profecia (1 Coríntios 12:28; 14:1,3) era necessário para que houvesse “revelação” e os dons de línguas e de interpretação (1 Coríntios 12:10,30) eram necessários para que houvesse “língua” e “interpretação” (1 Coríntios 14:26). Semelhantemente, o dom de mestre (1 Coríntios 12:28) era necessário para que houvesse “doutrina”.

A necessidade dos dons do Espírito para realizar cada um desses atos de culto implica que são atividades que o homem não tem em si mesmo a capacidade de realizar. O homem não tem a capacidade de profetizar ou de falar e compreender uma língua que ele nunca estudou. Semelhantemente, ele não tem a capacidade de ensinar verdades espirituais. Tudo o que acontece no culto deve ser feito para a edificação. Mas o homem não tem a capacidade de edificar o seu próximo. Por isso, é necessário que o Espírito opere através dele. Por isso, não é qualquer um que pode ensinar no culto público. Somente os que Deus capacitou espiritualmente para que fossem mestres. Em 1 Coríntios 12, Paulo questiona: “Porventura são todos apóstolos? são todos profetas? são todos mestres?” (1 Coríntios 12:29) Não.

É importante perceber também que o que Paulo diz sobre o dom de mestre implica que quem tem esse dom exerce ou deveria exercer o ofício de mestre. Em outras palavras, quando Paulo fala sobre o dom de mestre, ele não está falando de uma capacitação que membros comuns da Igreja recebem para pregar de vez em quando. Ele estava falando da capacitação espiritual para exercer um ofício, para ocupar um cargo. Quem tinha o dom do apostolado era um apóstolo. Quem tinha o dom de profecia era um profeta. Da mesma forma, quem tem o dom de mestre é um mestre, isto é, exerce o ofício de mestre, ocupa o cargo de mestre. Essa é a sua função no corpo, como ele diz também na epístola aos Romanos:

Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé… se é ensinar, haja dedicação ao ensino. (Romanos 12:4-7)

O dom do apostolado (1 Coríntios 12:28-29; Efésios 4:11) era a capacitação do Espírito Santo para que os apóstolos definissem a fé cristã e edificassem a Igreja (Mateus 10:5-8; João 14:1-3,16-17; 15:26; Atos 1:1-8; 1 Coríntios 3:10-11; 15:1-2,11; Efésios 2:20). Quando os apóstolos chegavam em um determinado lugar para ensinar a Palavra de Deus e plantar uma igreja, eles passavam um tempo naquele lugar, mas eles não tinham uma igreja fixa e permanente. Os apóstolos só permaneciam na igreja enquanto ela estava em fase de organização. Quando a igreja se mostrava capaz de existir sem a presença dos apóstolos, eles partiam para fazer o mesmo – ensinar a Palavra de Deus e plantar uma igreja – em outro lugar. Mas se os apóstolos exerciam a função de ensinar enquanto eles estavam presentes, era necessário que outros assumissem essa função depois que eles partissem. É por isso que eles promoviam a eleição de presbíteros:

E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido. (Atos 14:21-23)

Esses presbíteros, que eram eleitos pela igreja e não escolhidos diretamente pelos apóstolos, eram responsáveis pelo governo da Igreja depois que os apóstolos fossem embora. E dentre esses presbíteros, existiam aqueles que seriam responsáveis pelo ensino:

Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei: Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. (Tito 1:5-9)

Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo”. (1 Timóteo 3:1-7)

Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. (1 Timóteo 5:17)

Paulo queria que Tito e Timóteo estabelecessem presbíteros para governar e ensinar as igrejas. Aqui vemos que quando o Novo Testamento fala sobre o “bispo” e sobre o “presbítero”, está falando sobre o mesmo ofício. Como já vimos em Atos 14, a forma de estabelecer presbíteros era promovendo uma eleição na igreja. Ou seja, quando Paulo diz que Tito e Timóteo deveriam estabelecer presbíteros, isso não significa que eles deveriam escolher as pessoas diretamente. Eles deveriam promover uma eleição. As características que Paulo lista não é porque os presbíteros seriam escolhidos diretamente por eles, mas porque Tito e Timóteo, ao promover a eleição, deveriam estabelecer esses critérios para os candidatos. Não era qualquer um que tinha o direito de se candidatar. Nenhum novo convertido (“neófito”), por exemplo, poderia se candidatar (1 Timóteo 3:6).

Quando Paulo escreveu 1 Timóteo, ele tinha enviado Timóteo para cidade de Éfeso (1 Timóteo 1:3). Em Atos dos Apóstolos, encontramos o registro do último discurso de Paulo aos presbíteros de Éfeso:

De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja. E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus. Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis mais o meu rosto. Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados. De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber. Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles”.(Atos 20:17-36)

Essa passagem também mostra que os bispos eram os presbíteros, pois as mesmas pessoas que são chamadas de presbíteros no verso 17 são chamadas de bispos no verso 28. Além disso, vemos que os presbíteros/bispos são os pastores da Igreja, pois ele chama a igreja de rebanho e diz que a função dos presbíteros/bispos é pastorear. “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (v. 28). De que maneira eles pastoreariam a igreja? Da mesma forma que eles já tinham sido pastoreados por Paulo. Como Paulo enfatiza em seu discurso, “Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia… jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 18, 20). Por isso, ele disse a Timóteo e a Tito que era necessário que esses presbíteros fossem “aptos para ensinar” (1 Timóteo 3:2) e “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tito 1:9). A capacidade de ensinar incluia a capacidade de “convencer os que o contradizem” porque “existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores” (Tito 1:10), que são os “lobos vorazes, que não pouparão o rebanho” (Atos 20:29).

O que tudo isso deixa claro é que os mestres (1 Coríntios 12:28), isto é, aqueles que são ordinariamente encarregados de ensinar a Igreja (Romanos 12:7; 1 Coríntios 14:26), não são todos (1 Coríntios 12:29), mas aqueles que ocupam o ofício de presbítero e foram especialmente capacitados para “trabalhar na palavra e na doutrina” (1 Timóteo 5:17). Como já demonstramos, a capacidade de exercer qualquer função na igreja depende de uma capacitação especial do Espírito Santo. Portanto, as características que Paulo lista em Tito 1:5-9 e 1 Timóteo 3:1-7 são as características visíveis que demonstram se alguém verdadeiramente tem esse dom do Espírito, tendo sido espiritualmente capacitado para ensinar verdades espirituais ao rebanho de Cristo. E a existência de um processo de reconhecimento desse dom demonstra que não é suficiente que alguém simplesmente acreditasse ter e dissesse ter o dom. Para ser admitido ao ofício, era necessário que demonstrassem ter as características que Paulo lista e também era necessário que essas características fossem publicamente reconhecidas pela igreja através de uma eleição promovida por aqueles que já eram oficiais. Esse é o processo que costumamos chamar de ordenação.

A ideia de que qualquer cristão pode ensinar na igreja ignora o que Paulo ensina sobre a nossa completa incapacidade de edificar o nosso irmão e sobre a necessidade das operações do Espírito para que ele seja edificado. Se uma operação específica do Espírito é necessária para produzir um determinado efeito, não podemos tentar produzir o mesmo efeito de outras maneiras. Se os apóstolos, mesmo depois de conviver tanto tempo com Jesus, precisaram ser especialmente capacitados pelo Espírito para edificar a igreja, por que a continuidade do ensino na Igreja ao longo dos séculos não precisaria de uma capacitação especial? E que autoridade nós temos para alterar a forma apostólica, divinamente inspirada? “E louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes os preceitos como vo-los entreguei” (1 Coríntios 11:2).

Se alguém que não tem o dom de cura (1 Coríntios 12:28) impõe suas mãos sobre um enfermo e determina que ele seja curado, qual é o resultado? O resultado é que o enfermo continua doente. Se alguém que não tem o dom de profecia tenta profetizar, qual é o resultado? O resultado é que suas palavras são uma falsa profecia. E se alguém que não tem o dom de ensino é colocado na igreja para ensinar, qual é o resultado? O resultado é que o seu ensino não produzirá um verdadeiro impacto espiritual nos seus ouvintes. Onde o dom de ensino é ignorado, onde a forma apostólica de estabelecer mestres não é respeitada, é certo que a qualidade do ensino da igreja entrará em decadência e haverá abundância de heresias. O Espírito deu dons específicos para que a Igreja persevere na sã doutrina e seja preservada dos falsos ensinos (Efésios 4:11-14). Se o Espírito estabeleceu um determinado dom para preservar a sã doutrina na igreja, não podemos esperar que o mesmo resultado seja obtido de outra maneira.

Por isso, se queremos que a sã doutrina seja restaurada em nossas igrejas, é urgente que voltemos a confessar e a praticar o que lemos na pergunta 158 do Catecismo Maior:

158. Por quem a Palavra de Deus deve ser pregada?
A Palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que têm dons suficientes e são devidamente aprovados e chamados para o ministério. (Catecismo Maior de Westminster)

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Autor: Rev. Frank Brito
Fonte: Catequese Presbiteriana

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Quando sua vocação não é ser Pastor

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O ministério pastoral é uma tarefa extremamente difícil. Seria difícil para qualquer um encontrar um pastor que não tenha parado para pensar em como sua vida seria se ele tivesse que fazer alguma outra coisa da vida. O amor a Deus, à Sua igreja e ao Seu povo é um pré-requisito fundamental para todo pastor, mas se o pastor não ama a obra do ministério, ele logo perderá a esperança e a motivação necessárias para perseverar. Pastores sem vocação, sem dons e qualificações são os principais candidatos a fracassarem tragicamente. Existem inúmeros livros e artigos disponíveis para ajudar a convencer os homens a se ingressarem ou a continuarem no ministério. Mas, não há muita coisa escrita para ajudar um homem a discernir se é hora de deixar o ministério. Vamos apresentar agora algumas coisas a serem consideradas ao se procurar discernir se é hora ou não de seguir em frente no ministério:

QUESTÕES SOBRE A PREGAÇÃO

A princípio, entre os meios comuns da graça, a pregação é extremamente importante. Pregadores honestos admitirão que todos nós temos sermões bons e ruins; mas, se nossos dons espirituais verdadeiramente são o que nós afirmamos que eles são, devemos prover com mais frequência conhecimento útil da Palavra de Deus que inspire mais estudos e uma devoção mais profunda para aqueles que nos ouvem. Nem tudo o que faremos será como um “golaço”, mas, se não tivermos pelo menos um resultado consistente, talvez devamos considerar se o ministério pastoral é aquilo no qual melhor nos encaixamos. Em um dia em que muitas igrejas estão sem pastor, é fácil ignorar indícios sérios de que um homem possa não ser apto para a pregação regular. Isso de forma alguma tem a ver com dizer algo sobre sua piedade, sua busca pela santidade, ou sobre seu entendimento e o amor pelas Escrituras. Nem mesmo tem a ver com questionar seu zelo pela pregação e pelo ensino. Por exemplo, embora eu tenha grande zelo pelas qualificações de um jogador profissional de golfe, meus dons nessa área em particular são, no mínimo, insuficientes,

Muitos líderes da igreja não estão dispostos a dizer aos jovens que aspiram ao ministério que eles simplesmente não possuem os dons. As igrejas devem ser mais exigentes ao enviar um homem ao seminário, e os professores do seminário também devem ser honestos com eles sobre se eles devem considerar servir em outras áreas. Muitas vezes se assume que falar tais coisas é difícil ou ser crítico demais - ou, um homem pode até ser um pregador ou um mestre ruim agora, mas com tempo suficiente, ele irá melhorar. Talvez ele faça avanços, mas o melhor ambiente para fazê-los está em uma classe de homilética ou ocupando púlpitos como um seminarista, e não depois de ter recebido da sua própria congregação o chamado para estar no púlpito todos os domingos. Às vezes, as igrejas assumem que, que só porque um homem é um professor talentoso de escola dominical ou um líder de um pequeno grupo, ele é qualificado para ser um pregador. A pregação semanal no púlpito é uma tarefa muito diferente do que dar aulas de Escola Dominical. Sugerir o contrário é ser desonesto tanto com o homem quanto com a congregação na qual ele é chamado a servir. 1 Timóteo 3.1 diz: “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja.” E, desde que um homem seja piedoso, muitas vezes não se está disposto a considerar se suas aspirações para o ministério são compatíveis com o ser “apto para ensinar” (1 Timóteo 3.2). Às vezes, é difícil dizer a alguém que ele não é o que ele pensa que é. No entanto, as ruínas de um ministério fracassado são muito piores do que sentimentos feridos e são um apelo a uma séria autoavaliação.

O CUIDADO COM O CORPO DE CRISTO

Um homem pode ter o dom de falar com grande eloquência num púlpito, e não possuir os dons necessários para cuidar do povo de Deus na gama mais ampla da obra pastoral, como aconselhamento e visitas. Muito poucos pastorados são voltados apenas à pregação, e poucos são aqueles que não exigem que um homem dispense uma quantidade significativa de tempo cuidando do corpo de Cristo. Pastores que não estão dispostos e que não são capazes de se encontrar com pessoas na igreja para fornecer aconselhamento bíblico, visitá-las no hospital, sentar-se ao lado delas no leito da morte, ou se alegrar com elas diante do nascimento de uma criança ou diante de um importante marco da vida é provável que não sejam bons para o ministério pastoral. Repito, isso não quer dizer nada de negativo em relação à sua piedade e à sua aspiração, mas diz respeito a como Deus tem ou não tem lhe dado esses dons.

PASTORES AUXILARES

Alguns homens podem não ter dons para serem pregadores, mas são hábeis professores de estudos bíblicos, conselheiros bíblicos habilidosos e possuem excelentes habilidades organizacionais. Infelizmente, esses dons importantes são muitas vezes minimizados - tornando a função de um pastor auxiliar muito menos desejável para um homem do que a tarefa de subir ao púlpito semanalmente. Jason Helopoulus explicou que “bons pastores auxiliares são difíceis de encontrar”[1]. A maioria dos que formam no seminário não se candidatam às igrejas com a intenção expressa de assumir e permanecer em uma função de auxiliar. Muitas posições de pastor auxiliar são consideradas como que uma espécie de estágio probatório para que o pastor auxiliar eventualmente substitua o pastor titular ou para que ele seja enviado para outro ministério. Mas para alguns homens, ser um pastor auxiliar é a melhor forma de servir a igreja. Na realidade, muitas igrejas falhariam miseravelmente sem a atenção cuidadosa aos detalhes e habilidades organizacionais que um bom pastor auxiliar geralmente oferece.

A RECUSA EM DEIXAR O PASTORADO

Todo pastor tem dias, semanas, meses e anos ruins de ministério e pode ser tentado a sair. A resposta nem sempre é “você não deve sair”. Alguns homens podem ter um forte senso de que, na verdade, não são qualificados para o ministério pastoral. No entanto, eles se recusam a sair. Uma das razões pelas quais muitos dos que devem deixar o pastorado permanecem é porque foram investidos muito tempo e dinheiro para ajudá-los a ingressar no pastorado. Além disso, muitos se perguntarão o que mais eles estão qualificados a fazer? As igrejas confiaram as almas das pessoas a este homem e dependem dele para perseverar. A igreja não precisa dele? E quem já não ouviu a ideia de que ministério pastoral é diferente de qualquer outra carreira porque é um “chamado”? E, uma vez que um homem tem um “chamado”, como pode abandoná-lo? Outros se fecham no pastorado por medo dos outros ou porque têm uma compreensão não bíblica do chamado ao ministério.

SERÁ QUE É A HORA?

Durante uma fase particularmente difícil de ministério, um mentor aconselhou-me com sabedoria a nunca tomar grandes decisões quando as coisas são as piores possíveis. Às vezes, um pastor só precisa passar pelo fogo da provação, pois ele é o meio que Deus para nos tornar mais parecidos com Cristo. Então, antes de decidir sair, siga alguns passos primeiro:

1. Ore, pedindo a Deus a sabedoria que você precisa. Todo pastor deve ter alguma senso de que Deus o chamou para o ministério; mas, podemos facilmente interpretar mal um desejo ou interesse pelo ministério com ser apropriadamente dotado de dons e vocacionados por Deus ao ministério. Acima de tudo, precisamos que Deus nos esclareça o que podemos fazer para ser o mais útil possível para a Sua igreja, mesmo que isso signifique servir em outra competência.

2. Fale com sua esposa e com anciãos - eles devem ser os mais honestos com você. Estas são as pessoas que Deus chamou para ajudá-lo a navegar pelas águas difíceis do ministério e da vida. E, se seus anciãos são o tipo de homens que Deus quer que eles sejam, eles avaliarão amorosamente, graciosamente e honestamente seus dons com você para ajudá-lo a determinar se você está ou não fazendo o que é certo. Talvez você seja mais adequado para ser um pastor auxiliar ou a servir em outro ministério dentro da igreja.

3. Certifique-se de que não está se afastando só porque é difícil. Você nunca será um Charles Spurgeon no púlpito - só existiu um Charles Spurgeon. Mas, só porque pregar semanalmente é uma tarefa difícil, e só porque as sessões de aconselhamento nem sempre saem como você espera, e só porque as pessoas deixam a igreja e dizem coisas desagradáveis ao sair não significa que seus dons estejam em falta. Os ministérios em que Deus chamou seus homens para servir serão repletos de dificuldades. Afinal, as pessoas que nós pastoreamos são muito semelhantes a nós - pecaminosas, quebradas e carentes de muito perdão e graça. Além disso, haverá muitos desafios exteriores por cauda do mundo e do diabo. Quando Paulo queria dar a Timóteo uma ilustração para o ministério, ele usou a figura de um campo de batalha (1 Timóteo 6.12) por causa da força que ele teria que suportar.

4. Tente discernir se você está ou não deprimido e precisa de uma pausa. Encontre um conselheiro bíblico que você possa confiar e deixe-o ajudá-lo a “percorrer” os caminhos dos seus pensamentos. No final, você pode achar que seu problema não é o ministério, mas algo mais sobre o qual você não tomou tempo para pensar. Você simplesmente precisa de tempo livre ou de férias para ajudá-lo a ser realinhado. Mesmo Charles Spurgeon teve que ir ao litoral para passar longos períodos por cauda de deficiências de saúde e vigor (para mais informações sobre as aflições de Spurgeon, leia o livro, “A Depressão de Spurgeon” de Zack Eswine).[2]

Se você fez essas coisas e ainda tem a sensação de que é hora de se afastar, faça isso de uma maneira gentil, paciente e sábia perante Deus e Seu povo. Não importa quão óbvio seja para os outros que seja hora de você seguir em frente, inevitavelmente haverá alguns que ficarão surpresos e outros que ficarão magoados pela sua decisão. Embora você não possa viver para agradar a todos, você pode trabalhar para ajudá-los a entender por que se afastar não é apenas bom para você, mas para toda a igreja. Sempre que possível, procure ser uma benção para o homem que ocupará o púlpito depois de você. Fazendo assim, talvez você ache que Deus usa sua humildade para trazer uma grande colheita no tempo que se segue.

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Notas:

[1] Jason Helopoulos. A good assistant pastor-easier said than done. Disponível em: http://www.christwardcollective.com/christward/a-good-assistant-pastor-easier-said-than-done#.WmNuoh_Qc2z
[2] Zack Eswine. A Depressão de Spugeon. Disponível para comprar em: https://www.editorafiel.com.br/vida-crista/146-a-depressao-de-spurgeon.html

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Autor: Nicholas Kennicott
Fonte: Reformation 21
Tradução e notas: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos
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O palhaço e o profeta: uma indefinição contemporânea

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“Não pode haver missão sem mensagem, nem mensagem sem definição da mesma.”[1] Fazendo uma pequena digressão, podemos observar que a afirmação feita acima, está de acordo com a compreensão de Condillac (1715-1780), que disse: “A necessidade de definir é apenas a necessidade de ver as coisas sobre as quais se quer raciocinar e, se fosse possível ver sem definir, as definições se tornariam inúteis.”[2] De forma complementar, parece-nos extremamente pertinente a concepção aristotélica de definição; ele diz: “Uma definição é uma frase que significa a essência de uma coisa.”[3]

Quando falamos do conteúdo do Evangelho, devemos definir o significado deste termo. Compreendemos ser o Evangelho o próprio Cristo. Ele é a personificação do Reino; Cristo é o centro para onde tudo converge. O Evangelho é Cristocêntrico, porque sem Cristocentricidade não há “Boa Nova”. Cristo é o autor e o conteúdo do Evangelho. Pregar o evangelho significa pregar a Cristo bem como tudo aquilo que tem relação com Ele (Rm 15.20), já que sem Cristo não haveria Evangelho (Lc 2.9-11).

Por que o Aconselhamento Pastoral é Importante para Pessoas com Depressão?

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Pense sobre as conversas pessoais que você teve recentemente com pessoas atribuladas. Alguma delas se parece com os testemunhos da Arlene ou do Greg?

Arlene: Era muito difícil sair da cama. Eu só queria poder ficar ali escondida debaixo da coberta e não precisar falar com ninguém. Não tinha vontade de comer e perdi muito peso. Nada mais parecia divertido. Estava cansada o tempo todo, mas, mesmo assim, não conseguia dormir bem a noite. Mas eu sabia que precisava continuar com a vida, pois tenho filhos e um emprego para cuidar. Mas parecia tão impossível, como se nada fosse mudar ou melhorar.”
Greg: De início, eu me sentia triste o tempo todo, mesmo quando não havia qualquer razão. Então a tristeza se transformou em ira, e comecei a brigar com minha família e amigos. Me sentia muito mal a meu próprio respeito, como se eu não fosse bom o suficiente para ninguém. A situação piorou tanto que cheguei a desejar ir para cama e nunca mais acordar.
Meu irmão mais velho, em quem sempre me inspirei, percebeu que eu não estava agindo como de costume. Ele me disse, com toda sinceridade, que eu parecia deprimido e que deveria procurar por um médico. Eu sempre odiei ir ao médico. Pensei: ‘De jeito nenhum vou procurar um médico por esse motivo’.
Contudo, depois de algumas semanas, comecei a ter problemas também no trabalho. Alguns dias eu sequer fui trabalhar, pois não havia dormido na noite anterior. Quando fui demitido, percebi então que deveria ouvir meu irmão e buscar ajuda.

A DEFINIÇÃO ATUAL DE “DEPRESSÃO”

É óbvio que os testemunhos da Arlene e do Greg se referem a apenas pequenos trechos de suas vidas, e apesar de haverem algumas diferenças em suas experiências, ambos tem similaridades suficientes para serem classificados como “clinicamente depressivos” pelos critérios atualmente utilizados. Depressão clínica, do modo que tenho usado o termo, é um termo amplo que abrange algumas classificações mais específicas utilizadas por profissionais ligados à área da saúde mental. Para que tais classificações sejam aplicadas a alguém, o estilo de vida da pessoa deve ter sido significativamente afetado pelos sintomas, como os que estão a seguir (do DSM-5, Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5ª edição):
  • Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias;
  • Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias;
  • Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta, ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias;
  • Insônia (não conseguir dormir ou dificuldade de continuar dormindo) ou hipersonia (dormir mais do que o comum) quase todos os dias;
  • Agitação (por exemplo, incapacidade de sentar-se quieto, estimulação, puxar as roupas) ou retardo psicomotor (por exemplo, discurso e movimentos vagarosos, fala baixa) quase todos os dias;
  • Fadiga, cansaço, ou perda de energia quase todos os dias;
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada quase todos os dias;
  • Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias;
  • Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente com ou sem um plano específico ou uma tentativa de suicídio;
  • Sentimentos de desespero.

Episódios depressivos podem durar desde duas semanas até muitos anos, com graus variáveis de severidade. Por definição, a presença desses sintomas não é decorrente dos efeitos de nenhuma droga ou condição médica (por exemplo, hipoatividade da tireoide). A presença desses sintomas afeta negativamente os relacionamentos pessoais, responsabilidades de trabalho, etc.

Note como é ampla a abrangência desses sintomas possíveis. Alguns desses critérios são sintomas físicos (mudança de apetite, mudanças no sono, mudanças no nível de energia); alguns são sintomas mentais (sentimento de inutilidade, culpa inapropriada, indecisão, pensamentos de morte). O impacto da depressão nos relacionamentos pessoais é também algo a ser notado.

Uma vez que a depressão é identificada pela presença desses sintomas — e porque um bom número desses sintomas tem a ver com o modo das pessoas pensarem, de reagirem a circunstâncias adversas, ou de se relacionarem com outros — é importante que não deixemos de perceber uma implicação lógica essencial: não tratar o pensamento pessimista, culpa, problemas relacionais, etc., irá, na verdade, contribuir para a manutenção da depressão. Isso é importante, na medida que pensamos sobre o cuidado pastoral (conselho bíblico) que você pode oferecer para alguém com depressão.

A RELAÇÃO DE DEUS PARA COM AS EXPERIÊNCIAS DE PESSOAS COM DEPRESSÃO

Do ponto de vista cristão, talvez nos perguntemos: “Onde é que se encaixa o relacionamento com Deus em um cenário de depressão?” O que chamamos de “depressão” também foi experimentado por inúmeras pessoas mencionadas na Bíblia. Por exemplo, compare os versos seguintes do Salmo 102 com os critérios listados acima:

AS PALAVRAS DO SALMISTA
CRITÉRIOS MODERNOS
PARA DEPRESSÃO
Secou-se o meu coração” (v.4) 
Não existe motivação no salmista.
Me esqueço de comer o meu pão” (V.4)
Não há vontade de comer.
Sou como a coruja das ruínas, . . . Como o passarinho solitário nos telhados.” (V.6–7)
Há um isolamento social. (Em Levítico 11.16–18, corujas, como outras aves de rapina, são consideradas impuras por conta de sua associação com a carniça.)
Não durmo” (V.7)
Há dificuldade de dormir.
Os meus inimigos me insultam a toda hora” (V.8)
Existe um sentimento de desespero, de que não há alívio.
Por pão tenho comido cinza e misturado com lágrimas a minha bebida” (V.9)
Há uma tristeza extrema; cinzas são associadas a rituais de luto.
Por causa da tua indignação e da tua ira, porque me elevaste e depois me abateste” (V.10)
Há culpa e vergonha (decorrentes do exílio).

Ana, Elias, Jeremias, e muitas outras pessoas mencionadas nas Escrituras poderiam ser classificadas como depressivas se avaliadas por profissionais de saúde mental nos dias de hoje. No entanto, contrariando o ponto de vista secular, nestes casos, a primeira consideração dessas pessoas referia-se a seu relacionamento para com o Senhor, tanto para entender sua depressão, quanto para buscar alívio dela.

A IMPORTÂNCIA DO CUIDADO PASTORAL PARA COM PESSOAS DEPRESSIVAS

Do ponto de vista bíblico, todos os sintomas associados com a depressão devem ser tratados dentro da perspectiva do relacionamento da pessoa com Deus. Apesar do fato da “espiritualidade” ter se tornado recentemente um ponto de interesse dentre os psicólogos seculares no tratamento da depressão (e outros problemas), o entendimento deles a esse respeito não é útil para cristãos. A definição secular de espiritualidade simplesmente atrai atenção para o significado, propósito, ou um desejo de estar em contato com “o divino”, mas tudo isso acaba por ser definido pela própria pessoa. De outro lado, na Bíblia, espiritualidade sempre tem a ver com o relacionamento de uma pessoa com Deus, e esse relacionamento influi em todos os aspectos da vida: como alguém se relaciona com outros, toma decisões, pensa sobre o futuro, lida com tristeza, prioriza o cuidado do corpo, entende o significado e o propósito da vida, trata a culpa, etc. (Note o paralelo com os sintomas listados acima.) Espiritualidade não é um componente separado na vida do cristão; ela energiza, molda e direciona a vida dele ou dela.

Portanto, a centralidade do relacionamento deles com Deus significa que você deve ajudar pessoas depressivas a pensar em todos os efeitos da depressão em sua vida a partir de uma perspectiva bíblica. Você pode ser a pessoa que auxilia o indivíduo depressivo a processar os aspectos mentais, relacionais, comportamentais e físicos da depressão por meio de uma perspectiva (espiritual) teocêntrica. Essa pessoa possivelmente irá buscar ajuda de outros profissionais, mas nunca presuma que o seu envolvimento com outros profissionais diminui a importância do seu papel! Na verdade, ele é realçado, especialmente se os outros não forem cristãos. Quem melhor para ajudar um crente com depressão a entender e responder aos diversos efeitos da depressão de uma maneira bíblica?

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Sobre o autor: Dr. Jeff Forrey é especialista no campo de aconselhamento e educação bíblica. Foi conselheiro e professor no Center for Biblical Counseling & Education (St. Louis, MO) e no Biblical Counseling Center (Arlington Heights, IL). Ensinou aconselhamento bíblico no Evangelical Theological College, Trinity College of the Bible & Theological Seminary, Westminster Theological Seminary e Reformed Theological Seminary. Graduado no Delaware Valley College (BA, biology), Westminster Theological Seminary (MAR, counseling/theology), the University of Alabama (MSPH, health behavior) e Trinity Evangelical Divinity School (PhD, educational studies).
Fonte: Biblical Counseling Coalition
Tradução: Lucas Sabatier
Via: ABCB
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A Importância da Teologia Sistemática Para o Aconselhamento Bíblico

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Introdução

A prática do aconselhamento Pastoral¹ tem sido estudada por muitos teólogos como uma atividade pastoral e cristã. O aconselhamento bíblico é ensinado nas Sagradas Escrituras e é também um meio de ensino da Palavra. Ao tratarmos do aconselhamento pastoral, no entanto, precisamos partir de algum lugar. Esse ponto inicial deve ser, de fato, alicerçado na rocha e não em areia. Ao observarmos todo o conteúdo das epístolas no NT notaremos que a estrutura que encontramos em parte teológica (teórica) e em parte prática, se bem que essa divisão se dá por uma necessidade pedagógica, mas, toda teologia de fato redunda em doxologia. Ao tratar teologicamente, por exemplo, no início de Colossenses sobre a divindade do Filho e o conhecimento de Deus, isso é a base, o fundamento para se tratar de questões práticas que virão na epístola, a seguir nos capítulos posteriores.

Aconselhamento cristão versus psicologia?

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Já passa do limite. Do jeito que a coisa vai, muitos psicólogos e conselheiros precisarão de ajuda para resolver problemas de ira e de maledicência. Digo isso entre jocoso e sério. A parte séria, pelo menos, merece uma resposta satisfatória. Mas como satisfazer ambos os lados? A única maneira que vejo, será por meio de romper a barreira e permitir uma boa conversa que provavelmente não convencerá quem não quiser entender, mas que esclarecerá qual seja o limite.

Primeiro, consideremos a relação entre a Bíblia e a psicologia. Explicando aos meus alunos, costumo perguntar: Entre a Bíblia e um livro de psicologia, qual você escolheria? A resposta dos cristãos, na maioria das vezes, é: A Bíblia, lógico! Por mais piedosas que pareçam, qualquer das escolhas é inadequada. Quem diz preferir a psicologia, terá exaltado o livro à altura da Bíblia; quem preferir a Bíblia terá rebaixado a Palavra de Deus à altura da psicologia. Isso é por que os dois são elementos de diferentes categorias. A psicologia é o estudo observacional do homem e a Bíblia é a revelação do criador sobre o conhecimento dele mesmo e da criatura, em uma relação essencial. A Bíblia foi dada ao homem para, entre outros usos decorrentes, ser o critério para interpretação da vontade de Deus, do homem e do mundo – incluindo o livro de psicologia. Não é fato que existem diversos tipos de aconselhamento (vocacional, profissional, legal, médico etc.)? Não existe a expressão aconselhamento psicológico? Poderíamos dizer aconselhamento aconselhar ou psicologia psicológica? Isso mostra que são termos diferentes.

Segundo, consideremos as psicologias. Estranho o uso do plural? Mas é isso mesmo. Cada teoria de psicologia expõe e defende interpretação e processo diferentes e, à vezes, antagônicos. Ora, há uma razão para isso. Deixe-me ilustrar. Imagine uma estrada plana e reta em que, onde a vista alcança, você enxerga algo como uma metade de uma esfera. Um besouro? Uma quenga (meia casca de coco)? Um capacete de soldado? Aproximando-se o objeto, você advinha mais. Uma tartaruga? Um tatu galinha? De repente, você percebe: é um fusca! Bem próximo, a satisfação do conhecimento enche os olhos. Mais perto, um metro, é uma raridade, sem amassado e com a cor original. Quase junto, dois centímetros, e tudo que você vê, agora, é o brilho de um pedaço bem pequeno de cor e luz, impossível de descobrir a natureza. Se existisse elefante polido e pintado, poderia ser um deles. Imagine, então, que diferentes observadores estejam olhando para estradas diferentes, tentando elaborar teorias sobre a natureza de objetos parecidos que se movem na direção deles? Certamente teríamos tantas teorias quantos fossem os observadores. Assim, temos tantas psicologias quantos são os estudiosos dos movimentos internos e externos dos homens. Isso é mau? Não por isso. O Dr. J. Adams, pioneiro da reabilitação do aconselhamento bíblico disse, em What About Nouthetic Counseling (Grand Rapids: Baker, 1976, p. 31), que ele mesmo tirou proveito de estudos psicológicos sobre o sono, e que não vê com maus olhos a psicologia observacional (método científico honestamente aplicado). Ele rejeita, sim, o uso impróprio de abstrações das psicologias como métodos de redenção do ser humano.

Essa perspectiva nos leva a uma terceira consideração: o que é que a Bíblia diz sobre aconselhamento e psicologia? Em 1Coríntios 2.9-16, o apóstolo Paulo disse que nem olhos viram nem ouvidos ouviram, nem o coração humano pode entender o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Isso, ele disse sobre o conhecimento do homem pelo próprio homem, tanto do incrédulo quanto do crente, dando como referência o conhecimento do Criador. Os crentes, ele continua, recebem revelação do Espírito que a tudo perscruta – as profundezas de Deus e do homem. O método desse conhecimento é, portanto, espiritual e não natural. Aqui, Paulo estabelece a distinção feita acima: o espiritual não é paralelo ao natural nem somente uma questão de divisão interna do homem. Na verdade, espiritual e natural são conceitos que pertencem a categorias diferentes. Além disso, o espiritual é uma totalidade abrangente que compreende e deveria reger o natural. Hoje, tal como os observadores das estradas, vemos algo com forma de homem, mas não entendemos sua natureza nem sua condição. Se o Espírito não no-lo revelar, concluiremos qualquer coisa.

O fato é que o Espírito nos revela, na Palavra, que o homem foi criado bom, que presentemente se encontra decaído por causa do pecado, e que ele é passível de redenção. Ocorre que o homem decaído não entende nem discerne as coisas espirituais. Paulo disse que o homem espiritual escrutina todas as coisas e ele mesmo não é escrutinado por ninguém; o homem natural, por sua vez, não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. A palavra grega traduzida como natural, nesse texto, é psuchikos (psíquico). Você vê outra interpretação senão que o aspecto interior do homem sem Deus, a psique, é o objeto de estudo das psicologias? Não estou esbordoando os psicólogos, mas apenas, dizendo que a consideração do homem somente sob o critério psicológico é considerá-lo fora de sua natureza, descartando sua condição e sem possibilidade de tratar seu verdadeiro problema. Tudo o que as psicologias podem fazer, é tentar adivinhar. Muitas vezes, o gênio que Deus concedeu a todos, crentes e incrédulos, não pode evitar o reconhecimento de coisas verdadeiras no homem e no mundo. Contudo, se falha em considerar a Deus e sua revelação quanto ao homem e ao mundo, ele fica como quem imagina diferentes coisas a diferentes distâncias.

Nem toda a sabedoria deste mundo poderá entender a totalidade do que Deus tem para os seus. Nenhuma psicologia poderá resgatar o homem de seu problema básico. Só Deus, em Cristo, é Redentor e Senhor da humanidade. É certo que, uma vez conhecido o fusca, alguém poderá lavá-lo, consertar suas partes e dirigi-lo, mas jamais poderá lhe conceder vida, mente, vontade e sentimentos. Lembre-se do que Paulo também disse: Ninguém, senão Deus, no Espírito, poderá assegurar a salvação; ninguém, senão Deus Trino poderá assegurar o anseio último da alma, isto é, um senso de dignidade, pertencimento, uma imaginação interpretativa acurada e criativa, nem uma operação interior e exterior que reflita a razão de sua própria criação. Fomos criados para habitar em Deus, para pensar seus pensamentos e para atuar em verdade e amor sobre as obras de Deus.

Você percebe, então, que não se trata de uma rivalidade entre aconselhamento bíblico e psicologia secular? Como Paulo disse em outro lugar, nossa luta não é contra o sangue e a carne (Efésios 6.12). Deverá haver uma psicologia bíblica – biblicamente teológica, antropológica e soteriológica, – que não seja uma visão reduzida do homem de maneira secularmente antropológica, sociológica ou fisiológica. Antes ela deve vir de Deus, ser revelada na Bíblia e ser testemunhada ao coração pelo Espírito Santo. O aconselhamento cristão pretende ter essa noção, mas não está limitado ao homem interior ou exterior. Ele trabalha em todos os limites que Deus preparou e

...manifestou aos seus santos aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo... (Colossenses 1.26b-28).

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Autor: Rev. Wadislau Martins Gomes
Fonte: Coram Deo
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Criacionismo e Psicologia

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A psicologia humanista nos dá uma doutrina do homem em desacordo radical com as Escrituras. Para os clérigos, tornou-se rotina olhar para psicologias humanistas como guias para o aconselhamento pastoral, e livros aplicando essas psicologias para os problemas pastorais têm tido um mercado receptivo e uma ampla influência. O resultado tem sido a constante infiltração nociva do humanismo em círculos cristãos e a erosão paulatina das doutrinas bíblicas do homem e da salvação.

Esclarecendo Dois Pontos Centrais da Reforma

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O sacerdócio universal e o livre exame da Escritura são duas bandeiras levantadas pela Reforma Protestante, todavia, vem sendo mal compreendidas por muitos do segmento evangélico. Busquemos entender melhor estas questões.

Conforme apregoou Lutero, todo crente é um sacerdote (1Pd 2.9), e ele pode interceder por outros na comunidade da fé, gerando dinâmica nas relações de fraternidade no convívio da igreja. Os crentes podem orar uns pelos outros, podem confessar mutuamente os seus pecados e também estão munidos de autoridade vinda de Cristo para evangelizar, apregoando as boas novas aos pagãos e incrédulos.

Já o livre exame da Escritura foi o que possibilitou que o povo tivesse a Bíblia em mãos, podendo discernir, a partir do texto sagrado, se o que era pregado coadunava com o conteúdo do Cânon. Visando que o livre exame fosse uma realidade, Lutero se empenhou em traduzir a Bíblia para o alemão - e a recém-criada imprensa de Gutemberg foi responsável por propagar a Palavra de Deus no vernáculo germânico.

Dito isto, é importante entender que mesmo não havendo no protestantismo o abismo entre clero e laicato, há na Igreja do Senhor ministros ordenados que são chamados por Cristo para o auxílio do pastoreio de seu rebanho. O sacerdócio universal não anula a ordenação pastoral e não faz de ninguém um ministro autoproclamado. Deus conferiu a certos homens a tarefa de ministrar a Palavra e os sacramentos no âmbito da igreja local. Não é qualquer um que pode subir no púlpito e ensinar a congregação. Embora sendo sacerdote e podendo evangelizar os descrentes, o cristão é pastoreado por um ministro ordenado pela imposição de mãos (1Tm 4.14; 5.22 e 2Tm 1.6). Ministro este que foi reconhecido pela própria igreja como apto ao pastoreio. Pois, Deus dá o dom, faz o chamado, mas confere a Igreja o reconhecimento da vocação ministerial. E todo ministro deve prestar contas a Deus, primariamente, mas também a Igreja. Só em contextos específicos, tal como perseguição ferrenha, que qualquer cristão - na ausência de um pastor - pode ser colocado na condição de ministrar a Palavra e os sacramentos. Timothy Georg, no excelente livro “Teologia dos Reformadores” trata a respeito do pensamento de Martinho Lutero, e assim nos informa que


Lutero considerava o ministério da Palavra o mais alto ofício da igreja. O próprio título, “servo da Palavra divina” (minister verbi divini), conota um papel essencialmente funcional. Rigorosamente falando, Lutero ensinou que todo cristão é ministro e tem o direito de pregar. Esse direito pode ser livremente exercido se alguém estiver em meio a não-cristãos, entre os turcos ou encalhado numa ilha pagã. Entretanto, numa comunidade cristã, não se deve “chamar atenção sobre si mesmo”, assumindo tal ofício por conta própria. Antes, deve-se “deixar ser chamado e escolhido para pregar e ensinar no lugar de outros e sob o comando deles”. O chamado é feito pela congregação, e o ministro continua tendo de prestar contas a ela (GEORG, 1994, p.97).

Agora, acerca do livre exame da Escritura, ele acaba sendo uma ferramenta da prestação de contas. O pastor deve ser avaliado, dentre um conjunto de fatores, mas, sobretudo, deve-se perceber nele a fidelidade na exposição da Palavra. Compete ao pastor ser fiel ao conteúdo bíblico ao ensinar em sua comunidade de fé. Os crentes desta comunidade, portando a Bíblia, tendo acesso ao seu conteúdo, estão aptos para discernir se o que o pastor prega é ortodoxo ou heterodoxo. Livre exame não é o mesmo que livre interpretação! O papel do ministro da Palavra é o de esmiuçar o Cânon para que os fiéis sejam edificados e sejam bem nutridos com a Palavra da Verdade. Horton (1997) explica que


Os Reformadores acreditavam que a Tradição era importante e que os Cristãos não a deveriam interpretar por eles mesmos, mas que todos os cristãos sejam clérigos ou leigos, deveriam chegar a um comum entendimento e interpretação das Escrituras juntos. A Bíblia não deveria ser exclusivamente deixada aos "espertos", mas isso nunca significou para os Reformadores que cada cristão deveria presumir que ele ou ela pudessem chegar a interpretações da Bíblia sem a orientação e assistência da Igreja.

A Segunda Confissão Helvética (1562), em seu artigo nº 2, diz não aprovar “quaisquer interpretações”. Com isso, ela continua “nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana”. O que não quer dizer que toda a doutrina que teve origem em Roma está automaticamente rejeitada. O que a confissão vai dizer é que a Escritura é o crivo para que julguemos a pregação.


Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.

De igual modo, a confissão escrita por Bullinger trata também “as definições e cânones dos concílios”. Assim sendo, toda doutrina vinda da Igreja passa pelo escrutínio da Bíblia e através da iluminação do Espírito, todo cristão está apto para examinar a doutrina, como dignos bereianos, discernindo se ela encontra respaldo (ou não) no Texto Sagrado. Isto é o que herdamos da Reforma, portanto, a livre interpretação não é um postulado reformado; quem advoga este princípio está se afastando totalmente da tradição reformada.

Grupos radicais - que surgiram após a Reforma eclodir - defendiam o fim do ministério pastoral ordenado, dentre eles os quakers. Eles compreenderam mal aquilo que Lutero, Calvino e outros reformadores ensinaram. O prejuízo à sã doutrina acabou comprometendo também a eclesiologia, portanto, nestes 500 anos celebrando o advento da Reforma Protestante, que seus herdeiros diretos e indiretos não façam a confusão já feita no passado. O ministro ordenado é uma benção de Deus para a igreja e


O rito da ordenação não confere nenhum caráter indelével à pessoa ordenada. É meramente a forma pública pela qual alguém é comissionado mediante a oração, as Escrituras e a imposição de mãos, a fim de servir à congregação. Argumentando curiosamente a partir da lei natural, Lutero excluía mulheres, crianças e pessoas incompetentes do ministério oficial da igreja, embora numa época de emergência ele pudesse chamá-los a exercer tal ofício, em virtude de sua parcela no sacerdócio de todos os cristãos (GEORG, 1994, p. 98).

Concluindo, não existe distinção no trato de Deus para com um ministro da Palavra. Ele é um crente como qualquer outro, agraciado com a salvação imerecida, e dependente do Espírito Santo para santificá-lo durante toda a jornada da fé. No entanto, sua vocação é um privilégio e uma responsabilidade imensa, pois, os mestres serão julgados com maior rigor (Tg 3.1).

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Referências:

BULLINGUER, Heinrich. Segunda Confissão Helvética, disponível em http://www.monergismo.com/textos/credos/seg-confissao-helvetica.pdf, acesso 16/02/2017.
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HORTON, Michael. O que é um evangélico. Revista Os Puritanos, Ano V, nº 3, pág 33-35, São Paulo, 1997.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Como o cristão (não) deve lidar com o estudo teológico

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A teologia é sem dúvida uma bênção do Senhor na vida do crente. É através do labor teológico que nós podemos conhecer melhor o Deus a quem servimos e adoramos. É por isso que soa muito estranho quando alguém afirma: “eu só quero Jesus, não doutrina.” Mas não é esse o ponto que pretendo tratar aqui. Que há cristãos que negligenciam o estudo teológico é fato, mas há também aqueles que gostam de teologia, porém não a fazem da maneira correta e pelos motivos corretos. É sobre estes que eu quero falar.

Se por um lado a igreja do Senhor sofre porque há muitos que deixam de lado o estudo doutrinário, há também, cada vez mais, cristãos que, apesar de se dedicarem a teologia, agem de uma maneira inadequada a respeito. Gostaria de citar alguns dos problemas a respeito destes últimos.

O primeiro problema é sobre aqueles que ao começarem a estudar um pouco de teologia, acham que podem opinar sobre todos os assuntos com propriedade. Eu vejo isso com muita frequência nas redes sociais, especialmente no Facebook. Alguém posta algo sobre pentecostalismo e o ex-pentecostal, que se tornou reformado depois de ler dois ou três artigos em sites e blogs, critica ferrenhamente o post sobre este movimento como se fosse conhecedor o suficiente dele (quando na verdade não é). Isso se aplica a outros tópicos teológicos também. Mas a questão é que essas pessoas têm sede por criticar ou opinar sobre qualquer coisa que diz respeito à teologia, quando elas mesmas não tem propriedade o bastante para falar. 

As consequências disso são inúmeras. Um exemplo disso é uma divisão radical no corpo de Cristo por questões secundárias, ao ponto de muitos se comportarem de forma semelhante aos coríntios: “Eu sou de Paulo”, e outro “Eu sou de Apolo” (1 Coríntios 3.4). Tal divisão acarreta ainda outras consequências como até mesmo xingamentos! 

Não é assim que as coisas devem funcionar. O cristão que tem começado a se dedicar a teologia deve sempre ter em mente que muitas coisas não são tão simples como ele pensa que é. E quando isso não ocorre, é uma clara evidência de imaturidade.

Outro problema associado a este é o motivo pelo qual eles estudam teologia. Há muitos cristãos que “teologam” simplesmente por amor a debates. Eles são ávidos por confrontar posições opostas às suas, a fim de derrubar os argumentos contrários e sair como vencedor. Eu não estou aqui dizendo que debates são de tudo ruins. Eu mesmo aprecio isso em alguns casos. Porém, o ponto é: eles não estão preocupados em se aquele debate vai render algum fruto de piedade ou amadurecimento ao seu irmão, ou até mesmo (por que não?) se o debate vai proporcionar troca de conhecimentos e uma interação saudável. Isso pode levar uma das partes a repensar aquilo que ele tem defendido e a amadurecer. 

Além disso, e talvez mais importante ainda, é o fato destes cristãos não usarem a doutrina para o benefício da igreja. Eu mesmo já fui muito tentado a isso e tenho errado bastante. A teologia virou algo que não tem mais nenhuma relação com a igreja local. Estuda-se apenas para benefício próprio, não para instruir seus irmãos. Isso é egoísmo!

É aqui que o trabalho do pastor como teólogo-orientador entra. Ele precisa aconselhar as suas jovens ovelhas que, embora amem a teologia, precisam saber se comportar de forma adequada em relação a ela. Elas precisam entender que teologia não é algo banal, mas algo sério, pois lida com as coisas do Senhor. Além disso, precisam estar cientes do motivo pelo qual elas querem aprender mais da palavra de Deus. Eu penso que isso terá impacto significativo tanto na igreja local quando na igreja do Senhor como um todo.

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Autor: Alison Aquino
Divulgação: Bereianos
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Dez maneiras como a apologética auxilia no aconselhamento bíblico

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O que se segue é uma lista do modo como a apologética em geral e pressuposicional em particular tem ajudado a me tornar um conselheiro bíblico melhor (não que eu já tenha alcançado, mas adiante...)

1) A apologética em geral tem me feito pensar mais claro e logicamente. Isso tem me ajudado a me tornar mais claro e preciso em como eu aconselho a outros. 

2) A apologética em geral tem me feito ouvir aos outros mais cuidadosamente e fazer perguntas que esclareçam o que eles querem dizer, e por que eles pensam o que pensam e fazem o que fazem. 

3) A apologética em geral me levou a vê-la com uma ferramenta adicional ao meu aconselhamento: às vezes, o aconselhando faz algumas declarações preocupantes durante a abordagem, eu escrevo diversas das mais importantes e, então, assinalo-lhe a pensá-las através daquelas que podem ser problemáticas e não bíblicas. Então, quando nos encontramos, vejo que ele pode surgir com suas próprias conclusões, louvando a Deus porque ele pôde por si mesmo identificá-las, ao mesmo tempo em que ele aponta outras coisas que poderiam ter se perdido ou que precisam de mais elaboração. Esse exercício é logicamente rigoroso e eu creio que a aplicação da apologética seja útil para treinar essa aplicação.

4) Em particular, a apologética pressuposicional tem me tornado mais consciente que as pessoas frequentemente fazem coisas por causa de suas cosmovisões. Então, no aconselhamento eu estou agora mais consciente em identificar as pressuposições não bíblicas que as pessoas adotam e que podem estar conduzindo seus problemas. 

5) Em particular, a apologética pressuposicional tem me tornado mais consciente sobre assuntos de autoridade das Escrituras e a ênfase vantiliana sobre a Escritura reforça a importância de usar habilmente a Escritura aplicando-a à minha vida e à vida de outros no cuidado de nossos problemas. Ela me faz determinado a estudar a Escritura e ver suas implicações na abordagem de questões práticas

6) Do ponto 5, a apologética pressuposicional em particular também tem sido útil em me fazer perceber que, muitas vezes, pecados e comportamentos destrutivos são irracionais, de acordo com o pensamento cristão pareceriam “racionais” se suas consequências seguissem de suas cosmovisões. Por isso, é importante ver que a questão da idolatria (a raiz do problema) seja abordada (seja ela a busca pelo prazer a qualquer custo, orgulho etc), uma vez que ela dirige todas as coisas.

7) A apologética pressuposicional em particular relembra-me do efeito noético do pecado e que apelar ao que é racional ou razoável não é o suficiente se a vontade de alguém já está decidida. Isso me leva a ver a importância da oração, do uso da Lei de Deus para apelar à consciência e aplicar-lhe o Evangelho de modo a afetar as afeições do indivíduo.

8) A apologética pressuposicional em particular com sua ênfase sobre o efeito do pecado sobre todas as nossas faculdades também tem grandemente me humilhado e me guardado contra a auto-justiça quando aconselho a outros. Eu me percebo como um pecador que necessita da Graça: que, como conselheiro, eu posso cometer enganos e, então, eu preciso de muitas perguntas para que eu saiba o que realmente está acontecendo, em vez de assumir que já sei; ela também me faz perceber o meu próprio pecado e preciso me aplicar o mesmo remédio que estou oferecendo; me faz perceber que, se eu estiver errado na forma como aconselho, também devo confessá-lo ao meu aconselhando.

9) A apologética pressuposicional me faz perceber que na raiz de todos os nossos problemas nós precisamos de Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador.

10) A apologética pressuposicional me faz perceber que no centro de muitos problemas, tais como pecados sexuais, drogas etc. está a questão da adoração. A verdade de Deus faz-me querer adorar a Deus mais e mais por sua grandeza. A apologética pressuposicional e o perspectivalismo¹ de John Frame fazem-me adorar a Deus por ver a beleza da verdade de Deus como um todo coerente, complementando e tendo implicações para outras esferas da vida. O inter-relacionamento da apologética e aconselhamento bíblico é belo. Nós precisamos ter uma apologética doxológica. 

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Nota:    
[1] Veja http://frame-poythress.org/a-primer-on-perspectivalism/

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Autor: Jim Lee
Fonte: The Domain for Truth
Tradução: Rev. Gaspar Souza
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