A Importância da Teologia Sistemática Para o Aconselhamento Bíblico

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Introdução

A prática do aconselhamento Pastoral¹ tem sido estudada por muitos teólogos como uma atividade pastoral e cristã. O aconselhamento bíblico é ensinado nas Sagradas Escrituras e é também um meio de ensino da Palavra. Ao tratarmos do aconselhamento pastoral, no entanto, precisamos partir de algum lugar. Esse ponto inicial deve ser, de fato, alicerçado na rocha e não em areia. Ao observarmos todo o conteúdo das epístolas no NT notaremos que a estrutura que encontramos em parte teológica (teórica) e em parte prática, se bem que essa divisão se dá por uma necessidade pedagógica, mas, toda teologia de fato redunda em doxologia. Ao tratar teologicamente, por exemplo, no início de Colossenses sobre a divindade do Filho e o conhecimento de Deus, isso é a base, o fundamento para se tratar de questões práticas que virão na epístola, a seguir nos capítulos posteriores.

O que é teologia do pacto?

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A teologia do pacto é o Evangelho posto no contexto do plano eterno de Deus da comunhão com o seu povo, e o seu desenvolvimento histórico nos pactos das obras e graça (ou mesmo que nas várias etapas progressivas do pacto de graça). A teologia do pacto explica o significado da morte de Cristo à luz da plenitude do ensino bíblico sobre os pactos divinos, respalda de maneira fundamental o nosso entendimento da natureza e uso dos sacramentos, e provê a explicação mais completa possível dos fundamentos da nossa segurança.

Em outras palavras, a teologia do pacto é a maneira que a Bíblia tem de explicar e aprofundar o nosso entendimento da: (1) a expiação [o significado da morte de Cristo]; (2) a segurança [a base da nossa confiança da comunhão com Deus e o desfrute de suas promessas]; (3) os sacramentos [sinais e selos das promessas pactuais de Deus – o que são e como funcionam]; (4) a continuidade da história redentora [o plano unificado da salvação de Deus]. A teologia do pacto também é uma hermenêutica, uma aproximação ao entendimento da Escritura – uma ênfase que intenta explicar biblicamente a unidade da revelação bíblica.

Quando Jesus quis explicar aos seus discípulos o significado de sua morte, recorreu à doutrina dos pactos (veja Mt 26, Mc 14, Lc 22, 1 Co 11). Quando Deus quis assegurar à Abraão a certeza de sua palavra da promessa, recorreu ao pacto (Gn 12, 15, e 17). Quando Deus quis apartar ao seu povo, impactar a sua obra em suas mentes, revelando-se tangivelmente em amor e misericórdia, e confirmar a sua herança futura, recorreu aos sinais pactuais (Gn 17, Êx 12, 17, e 31, Mt 28, At 2, Lc 22). Quando Lucas quis mostrar aos primeiros cristãos que a vida e ministério de Jesus foram o cumprimento dos antigos propósitos de Deus para o seu povo escolhido, apelou aos pactos e citou a profecia de Zacarias que mostra que os crentes nos mesmos primeiros dias do ‘movimento de Jesus’ entenderam a Jesus e a sua obra messiânica como um cumprimento (não como um ‘Plano B’) do pacto de Deus com Abraão (Lc 1:72-73). Quando o salmista e o autor de Hebreus quiseram mostrar como o plano redentor de Deus é um plano ordenado e sobre qual base se desenvolveu na história, recorreram aos pactos (veja Sl 78, 89, e Hb 6-10).

A teologia do pacto não é uma resposta ao dispensacionalismo. Ela existe muito antes que os rudimentos do dispensacionalismo clássico fossem organizados no século XIX. A teologia do Pacto não é uma desculpa para o batismo de crianças, muito menos um mero convencionalismo para justificar ênfase particular dos sacramentos (ou a paedocomunia moderna e a regeneração batismal). A teologia do pacto não é sectária, pelo contrário, ela é um enfoque ecumênico reformado em relação ao entendimento da Bíblia, desenvolvido no surgimento da Reforma magisterial, mas com raízes que se estendem até aos primeiros dias do cristianismo católico e historicamente apreciado em todas as várias ramificações da comunidade reformada (batistas, congregacionais, independentes, presbiterianos, anglicanos e reformados). A teologia do pacto não se pode reduzir a servir meramente como a justificação para alguma visão particular dos filhos no pacto (a sucessão pactual), ou para um certo tipo de escatologia, ou para uma filosofia específica de educação (seja o homeschool, as escolas cristãs, ou as escolas clássicas). A teologia do pacto é maior do que essas coisas. Ela é mais importante do que elas.

“A doutrina do pacto se encontra na raiz de toda verdadeira teologia. Se diz que quem entende bem a distinção entre o pacto das obras e o pacto de graça, tem um mestrado em teologia. Estou convencido de que a maioria dos erros que os homens cometem com respeito às doutrinas da Escritura se baseiam em erros fundamentais com respeito ao pacto da lei e da graça. Que Deus nos conceda agora o poder para instruir, e a vocês a graça para receber uma instrução sobre este vital assunto”. Quem disse isto? Charles H. Spurgeon - o grande pregador batista inglês! Ele é, na verdade, um homem que se fora de nossa suspeita de ministrar secretamente uma visão presbiteriana dos sacramentos às desprevenidas massas evangélicas.

A teologia do pacto frui da vida e obra trinitária de Deus. A comunhão pactual de Deus conosco está moldada, e é um reflexo, das relações intratrinitárias. A vida compartilhada, a comunhão entre as pessoas da Santíssima Trindade, o que os teólogos chamam de perichoresis, ou circumincessio, é o arquétipo da relação que o misericordioso Deus do pacto compartilha com o seu povo eleito e remido. Os compromissos de Deus no pacto eterno da redenção encontram a sua realização no espaço-tempo no pacto de graça.

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Autor: J. Ligon Duncan 
Fonte: Third Millennium
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
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A perigosa interpretação de Mateus 24.36 feita pelo Pr. Marcos Granconato

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Recentemente deu-se uma polêmica envolvendo o pastor batista Marcos Granconato, devido a um vídeo em que o mesmo fala que Jesus não é onisciente quando se considerado as relações intratrinitárias, limitando sua onisciência às relações extratrinitárias. Em outras palavras, Granconato disse que Jesus só seria onisciente na relação da Trindade com as coisas criadas, pois, segundo o mesmo diz em sua mensagem, Deus-Pai guardou certas coisas apenas para si. Alguns o acusaram de heresia, já outros foram mais brandos, discordando de sua posição, todavia não o chamando de herege. O fato é que o Granconato foi infeliz em suas afirmações, ditas ao expor o difícil texto de Mateus 24.36, que diz o seguinte: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”. Mais à frente voltarei a esse texto, mas antes gostaria de dizer o porquê considero o ensino do Marcos Granconato perigoso.

Dizer que Deus-Pai guarda coisas para si que não são reveladas ao Deus-Filho, inferioriza Jesus. Ele não poderia ser uma divindade da mesma “estatura” do Pai, já que não seria onisciente por completo, sendo que a onisciência é um atributo divino. Mas, a máxima cunhada por Tertuliano, que foi reafirmada pela ortodoxia cristã diz “uma substância, três pessoas”. Por substância, devemos entender que é o elo incomum entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no qual se baseia a unidade da Trindade. É devido à substância ser a mesma que não ocorre uma divisão entre as três pessoas da Deidade, gerando uma unidade na diversidade. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo desempenham papéis diferentes no plano de salvação (Trindade econômica), sem que haja a perda dessa unidade.

Após Tertuliano, talvez Agostinho de Hipona tenha sido o teólogo que mais contribuiu com a doutrina trinitária, principalmente na tradição ocidental. Ele então afirma que não se pode subordinar (ontologicamente) as pessoas da Trindade. Na eternidade eles são iguais em atributos, poder e glória. Portanto, se afirmarmos, como fez o Granconato, que Deus-Pai retém algum conhecimento para si, logo, caímos no equívoco da subordinação eterna. Contudo, como defende Berkhof[1], a natureza divina é indivisível, isto é, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade. Franklin Ferreira até recomenda rejeitarmos a prática de enumerar os membros da Deidade (e.g. Jesus é a segunda pessoa da Trindade) e diz que a razão para não fazermos isso está na indivisibilidade da natureza divina, inexistindo subordinação entre elas. Logo, embora sendo três personas distintas, elas não se somam.[2]

Granconato, frente ao que já foi exposto, ainda pode argumentar que isso não resolve a dificuldade presente no texto de Mateus 24.36. O que é verdade. Mas o ponto aqui deveria ser o seguinte: no afã de responder esse mistério, é válido prejudicar a doutrina trinitariana? Pois, se a Trindade é o cerne da adoração cristã, não podemos ter uma compreensão equivocada da mesma. Embora reconhecendo que o assunto é complexo, podemos subir “nos ombros de gigantes” e falar sobre a Trindade sem que a plena igualdade de seus membros seja distorcida.[3]

Para interpretarmos Mateus 24.36, a teoria da kenosis não seria a melhor resposta, como alguns deram ao Granconato em debates nas redes sociais. Pois, dizer que Cristo se esvazia, no sentido de deixar de ter seus atributos, seria o mesmo que afirmar que ele não mais teria a substância que concede unicidade à Trindade. O esvaziamento a que a Escritura se refere (vide Fp 2.6-8) não é referente a atributos, mas sim a posição de Cristo, que sendo igual a Deus-Pai em soberania e glória, encarna, e num estado de humilhação se coloca em condição de subserviência.

Então, para sermos coerentes com a doutrina reformada da unipersonalidade de Cristo, presente nas confissões e catecismos, que dizem existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta concomitantemente o status divino-humano, devemos observar a contribuição do extra-calvinisticum.[4] A contribuição em questão, que foi o ponto de discordância entre calvinistas e luteranos, diz, em suma, que os atributos divinos não devem ser limitados pela encarnação. Embora haja completa divindade no Verbo encarnado, pois a natureza divina se uniu a natureza humana numa mesma pessoa, seus atributos não estão confinados na carne, eles estão presentes dentro e fora do corpo de Cristo. Por isso que quando Cristo morre na cruz, a divindade não morreu, pois, a natureza divina não participa da fraqueza humana. Assim como também, as limitações da natureza humana não alcançam os atributos divinos. Por isso que Cristo foi limitado circunstancialmente, mesmo que na sua eterna essência ele nunca tenha deixado de lado a sua onisciência. Esta é uma posição que se enquadra com os postulados de Calcedônia e que faz jus ao fato de Cristo responder que não sabia o futuro, todavia sem deixar de ser onisciente.

Para ficar mais claro, tomemos outro atributo como exemplo: a onipresença. Quando Jesus, em sua forma corpórea deslocava-se de um lugar para o outro, não seria ele, como membro da Trindade, um ser onipresente? O conceito extra-calvinisticum vai dizer que mesmo ele ascendendo aos céus corporalmente, e estando à destra do Pai, se faz presente na ceia. Logo, a encarnação não pode delimitar a divindade de Cristo. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg:

Pergunta 47- “Mas não está Cristo conosco até o fim do mundo, como nos prometeu?” 
Resposta - “Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; quanto à sua natureza humana, agora já não está na terra; mas, quanto à sua divindade, majestade, graça e espírito, em nenhum momento está ausente de nós.”
Pergunta 48 – “Se a sua humanidade não está onde quer que esteja a sua divindade, então não estão as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra?”
Resposta - “Certamente não. Visto que a divindade não está limitada e está presente em toda parte, fica evidente que a divindade de Cristo está certamente além dos limites da humanidade que ele tomou, mas ao mesmo tempo sua divindade está em e pessoalmente permanece unida à sua humanidade.”

Como bem observa o Dr. Heber Campos[5] “Segundo o pensamento reformado, o Logos está no Cristo total, mas a natureza divina do Logos extrapola os limites físicos da natureza humana”. Pois, o infinito não cabe no finito. Se esta não é uma resposta totalmente satisfatória, é de longe a melhor resposta para lhe dar com a dificuldade em questão, pelo simples fato de não trazer prejuízo a cristologia, e nem desembocar numa concepção equivocada da Trindade.


Concluo dizendo que entendo a complexidade do assunto e que todo teólogo está sujeito a dar suas “escorregadas”. O pastor Marcos Granconato é alguém teologicamente gabaritado e que possui anos e anos de labor ministerial, contudo, não está imune aos erros. No entanto, acredito que ele tenha escolhido muito mal a sua resposta frente a uma questão difícil. Talvez, diante da dificuldade de expor o texto, seria melhor apenas dizer que a questão da união hipostática é um mistério inefável, para usar palavras do próprio Calvino. E não negar a ontológica onisciência do divino Logos, como preferiu. Não apenas por sua imagem, mas por zelo pela sã doutrina, cairia bem uma revisão de sua concepção, reconhecendo que seu ensino abre um precedente muito perigoso que pode resultar em noções heréticas da doutrina trinitária. 

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P.S. Gostaria de esclarecer três coisas: A primeira delas é que optei por fazer um texto breve, por achar mais propício devido à densidade do assunto. A segunda é que o Granconato é um irmão em Cristo, não o trato como um adversário. E por fim, não tenho a mínima intenção de gerar um debate cheio de desdobramentos, portanto, esse texto será o único em que exponho o que outros autores já expuseram com maestria. Destaco aqui o Dr. Heber Campos e suas obras sobre a união hipostática das naturezas de Cristo. 

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Notas:
[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, p.84.
[2] Franklin Ferreira usa como referência a obra de Basílio de Cesaréia para defender a plena igualdade entre a trindade. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=bfmLE6SjpLI.
[3] Mesmo havendo alguns teólogos renomados que defendem uma subordinação ontológica, como o Wayne Grudem e Bruce Ware, isso não pode ser tomado como argumento favorável. John Stott, um dos mais eminentes e profícuos teólogos do século XX, defendeu o aniquilacionismo, e nem por isso a ideia ortodoxa do castigo eterno foi flexibilizada apenas porque o Stott ensinou o oposto.
[4] Um ótimo texto sobre o Extra-Calvinisticum escrito pelo Rev. Alan Rennê Alexandrino está disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370.
[5] CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor. Ed. Cultura Cristã, p.284. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Cosmovisão Sob Perspectiva - Criacional, Redentora e Escatológica

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O passo mais importante para os cristãos é tornar-se informado sobre a cosmovisão cristã, uma visão abrangente e sistemática da vida e do mundo como um todo. Nenhum crente hoje pode ser realmente eficaz na arena das ideias até que tenha sido treinado a pensar em termos de cosmovisão.” (Ronald Nash) 

Não raro, a aplicação do estudo teológico as mais variadas esferas da vida humana se limitam a comunidade cristã local e a seu calendário de programações semestrais ou anuais; com conferências, congressos, simpósios etc. Não sou contra essas programações, pelo contrário, participo tanto ouvindo, como falando em eventos assim e acho benéfico, mas, o problema é que esse tipo de reflexão não pode se limitar a períodos programados.

Ao pedir que cristãos leigos, ou mesmo seminaristas, apliquem o estudo teológico de forma contextual a sociedade, arte, música, família, relacionamentos, atividade profissional e atividades intelectuais ou acadêmicas, deve-se saber que esbarraremos em grandes muralhas que precisam ser transpostas. A aplicação da teologia na vida prática muitas vezes é um grande dilema para muitos cristãos. Como ser um profissional para glória de Deus ou como ser um pai ou mãe par glória de Deus? Ou mesmo, como ser um pintor ou escultor ou poeta para glória de Deus? Por vivermos num contexto secularizado e, como dizia Francis Schaeffer, pós-cristão, temos dificuldades enormes para equiparar nossa vida de forma integral com o ensino do cristianismo. Ao falarmos da visão teológica é necessário que esclareçamos alguns pontos importantes. Todo homem possui a semen religionis (semente da religião), todo homem ou mulher tem afeições religiosas, sejam essas direcionadas corretamente ao Deus da Bíblia ou a um deus criado pela imaginação humana.

Ao tratarmos de culto e cultura estaremos em campos paralelos, à prática cultural é identificável pela prática religiosa de indivíduos, grupos sociais, cidades, países ou num contexto mundial. A visão teológica está presente em todos os contextos culturais, o missiólogo e antropólogo. Ronaldo Lidório nos diz que

Observar a cultura como ela é (a partir de uma observação êmica) e estudá-la à luz de um processo bíblico (observação teológica) é um exercício válido para todos os que lidam com a exposição e a vivência do evangelho com outras culturas, a fim de entender bem como aquele valor bíblico está de fato sendo compreendido e aplicado pelo grupo receptor.[i]

A observação pelo espetro sócio-cultural, como diz Lidório em seu livro Comunicação e Cultura, não pode ser apenas pelos primas ético e êmico, a partir de meus valores culturais e a partir somente dos valores culturais do outro, daquele que será receptor da mensagem do evangelho, mas sim, por uma observação êmico-teológica num contexto missiológico. A cultura também é beneficiada pela graça comum de Deus em muitos aspectos, no nosso caso, no Ocidente temos uma forte influência da moral cristã. O pensamento social e político em muitas esferas nacionais são fruto da cristandade. No entanto, há uma dificuldade de empregabilidade dos ensinos cristãos a uma prática ética, esta prática não tem compromisso com a Escritura Sagrada. Quando um contabilista é tentado a realizar manobras ou transações que chocam com o ensino cristão? O que fazer? É evidente que a resposta a essa pergunta é a mesma para toda a ética ensinada pelo cristianismo que são fruto da lei de Deus, não furtarás


A Bíblia é a lente pela qual devemos ler o mundo. O cristianismo é a única forma correta de ler a sociedade em todas as suas camadas – familiar, política, educacional, artística, relacional. Nosso grande desafio, de fato, é uma visão teológica teo-referente. No desenvolvimento do pensamento cristão a cristandade foi tentada a mudar sua referência teológica de Deus para uma referência antropocêntrica, houve uma convergência para o homem, centralizando a criatura. 

Precisamos ter uma visão teo-referente, Deus como referencial não só para a vida em comunidade de fé, mas, nosso papel na sociedade, na academia, na vizinhança e na família. Essa visão será fruto inicialmente de uma correta apreensão da criação descrita nas Escrituras Sagradas.

A doutrina da criação é de grande importância para uma cosmovisão teo-referente, se não houver uma correta abordagem da origem do mundo e do homem não se obterá uma completa e correta concepção do propósito para o qual o homem fora criado, para o qual o mundo fora criado. A criação ex nihilo é nosso ponto de partida para uma cosmovisão cristã bíblico-teológica tendo Deus como o ponto central de sua gênese ao seu sentido último. Franklin Ferreira nos diz que

Esse Deus criou por seu poder todas as coisas do nada, e, originalmente, toda a criação era boa. Essa noção da criação do nada é importantíssima para a fé cristã. A expressão latina é ex nihilo. Deus não precisou de nada preexistente para criar. O Deus Eterno cria tudo do nada, sem precisar de nenhuma ajuda. Portanto, não havia nenhuma matéria prévia ao lado de Deus na criação. Deus cria a matéria. Aliás, Deus cria o próprio tempo. Deus cria a história. Tudo foi criado por Ele. Deus criou toda a criação muito boa. Gênesis 1.1-31 afirma esta verdade seis vezes. Deus cria e diz: “É bom” (Gn 1.10,12,18,21,25,31). Deus cria, e é bom. E no final do relato bíblico, Deus cria e diz: “Muito bom”. E Deus cria todas as coisas para que estas anunciem sua glória, amor e bondade.[ii]

Deus não precisava criar, afinal, Deus não precisa de nada, se precisasse não era Deus. Ele decidiu criar em um ato de soberania e sabedoria divina e o propósito dessa criação é sua glória. Deus criou do nada, seu eterno poder criou de forma boa, sua criação segue seu propósito, seu decreto estabelece a história da humanidade, sua providência guia o mundo a encarnação do seu eterno propósito, trazendo a cabo o que foi estabelecido por seu decreto eterno.


O estudo dos decretos leva naturalmente à consideração da sua execução, e esta começa com a obra da criação. É a primeira, não somente em ordem cronológica, mas, também como prioridade lógica. É o começo e a base de toda revelação divina e, consequentemente, é também o fundamento de toda vida ética e religiosa. A doutrina da criação não é exposta na Escritura como uma solução filosófica do problema do mundo, mas, sim, em seu significado ético e religioso, como uma revelação da relação do homem com seu Deus. Ela salienta o fato de Deus ser a origem de todas as coisas, e de que todas as coisas Lhe pertencem e Lhe estão sujeitas. O conhecimento desta doutrina só se obtém da Escritura e se aceita pela fé (Hb 11.3).[iii]

Fica entendido que por nossa perspectiva teológica é incoerente interpretar a criação e seu propósito sem o decreto de Deus. Como nos disse Berkhof: o estudo dos decretos nos levam à consideração lógica da sua execução. Sem essa compreensão a partir do decreto de Deus na criação toda ordem do mundo é adulterada, somente através do que diz a Bíblia sobre o mundo e a finalidade de sua existência podemos ter um verdadeiro entendimento da criação e sua ordem missional.[iv] Como dito anteriormente essa adoração do universo e toda a criação de Deus lhe é prestada como finalidade, o telos. Deus, sendo Deus não precisa de nada nem de ninguém, como Hodge afirma:

[...] À luz da auto-suficiência absoluta de Deus, deduz-se que a criação não foi designada para suprir ou satisfazer qualquer necessidade de sua parte. Ele não é mais perfeito ou mais feliz por haver criado o mundo. Além disso, deduz-se da natureza de um ser infinito que a razão (ou seja, tanto o motivo quanto o fim) da criação deve estar nele mesmo. Como todas as coisas são dele e por meio dele, assim também são para ele.[v]

O fato da criação não alterar em nada o caráter de Deus é um tema claro na teologia sistemática, Deus não se tornou criador, mas é o eterno criador. Deus é imutável e antes do tempo existir Deus era Deus, auto-suficiente, o
Eu Sou o que Sou. Essa independência de Deus e sua suficiência nele mesmo o eleva a um Ser necessário para explicar o sentido da criação. Nos diz Bavinck que

[...] Deus é o Eterno: nele não há passado nem futuro, nem transformação e nem mudança. Tudo o que ele é, é eterno: seu pensamento, sua vontade, seu decreto. Eterna nele é a ideia do mundo, que ele pensa e expressa no Filho; eterna nele também é a decisão de criar o mundo; eterna nele é a vontade de que o mundo seja criado no tempo; eterno nele também é o ato de  criar  como um ato de Deus, uma ação tanto interna quanto imanente. Deus não se tornou Criador, de modo que, primeiro , por um longo tempo, ele não criou e depois criou. Em vez disso ele é o Criador Eterno, e, como Criador, ele era o Eterno, e como o Eterno, ele criou.[vi]

A observação por meio sociocultural não é suficiente para uma conceituação antropológica.


O estudo teológico não tem por obrigação somente a instrução dos cristãos no âmbito devocional e eclesiástico. Toda construção teológica desembocará em resultados práticos na vida de um receptor, daquele que for recipiente do discurso dogmático. A teologia não serve como um depósito de debates infindáveis e sem utilidade (embora tenha sido assim em muitos casos), a teologia deve atender e responder questões ligadas a Deus, a sua igreja, ao homem como ser criado e onde ele está inserido na sociedade. A teologia versa ou dialoga com todas as áreas do conhecimento, sobrepujando-as. Ela é, por assim dizer, superior a todos os campos de conhecimento, por ter como objeto de estudo a revelação escrita de Deus. Com isso não estou invalidando a importância dos variados campos do saber, pelo contrário, Deus tem dois “livros” que o revelam, a revelação geral e a especial/histórico-redentiva. As duas, com distinta importância, mas, a última como superior a primeira, conforme nos mostra o Salmo 19.

A teologia reformada tem sido um baluarte desde a reforma protestante. Lutero, Calvino e os demais reformadores foram pensadores sociais também, sua teologia era missional, encarnacional, aplicada a realidade de sua época de forma que o Evangelho responde questões referentes ao homem e seu habitat. Toda construção da antropologia social irá versar sobre questões contingentes e não contingentes em relação à vivência humana ou a seus aspectos observacionais e psicológicos. Conquanto muitas vezes ou a maioria delas, essas observações são tomadas como axiomáticas de forma que tais observações acabam ser tornando “canônicas” na determinação de quem é o homem, o que ele faz aqui, qual é sua função no âmbito social e qual é o propósito de sua vida. Toda essa construção tem um viés ideológico e espiritual, tudo que promove exame da persona irá atrelar-se ou pelo menos tentar ligar-se a realidade, o problema é que a realidade acerca do que é o homem e seu propósito escatológico somente pode ser determinado por uma conceituação fora do homem. A forma de saber quem é o homem e porque ele está aqui é algo espiritual, nem o epicurismo, nem o marxismo, nem o freudismo, nem o psicologismo, nem o sexismo, nem o feminismo, nem sócio-construtivismo tem condições de determinar o que é o homem, a antropologia através de suas investigações observacionais pode até eximir algum raio de luz em relação ao que é o homem, mas, não pode de forma observacional apenas, dizer o que é o homem. O ser humano não pode ser apenas observado eticamente [vii], nem êmicamente [viii], mas, de forma que seja observado por um prisma maior e eficaz, em que a ética e a observação êmica serão julgados por um exame êmico-teológico.

Um arcabouço doutrinário/teológico frouxo nunca poderá produzir um pensamento social e político coerente com o Ser de Deus revelado nas Escrituras. Uma teologia que mina a soberania de Deus e a vileza e o estado caído do homem e sua total inabilidade para alcançar a Deus, produzirá um sistema de pensamento contrário ao cristianismo bíblico. Toda teologia que defende a autonomia da razão humana será um pressuposto para sistemas políticos totalitários, opressores, ímpios, e promotora de atitudes contrárias a uma ética que sobrepuje a construção ideológica.

Sem uma correta abordagem teológica viabilizada pela dogmática cristã, não podemos construir ou descobrir qual é o modelo correto de sociedade, política, abordagens artísticas, métodos educacionais, crescimento dos campos do saber. A teologia irá nos mostrar, através de suas abordagens do dogma cristão, como Deus deseja que sua criação funcione. É entendível que não há na Bíblia uma fórmula sagrada para a composição de sinfonias, ou uma determinação musical sagrada para a utilização de determinados compassos, ou para uma sacramentalização de determinados instrumentos musicais. Como não há uma fórmula bíblica para técnicas de artes plásticas, ou uma aprovação teológica ao impressionismo ou expressionismo quanto escolas de arte, não há uma ordenança bíblica para se tomar o cubismo ou dadaísmo como escolas de arte cristãs ou mesmo o surrealismo como algo fundamental para a cristandade. O que teremos nas Escrituras é o estabelecimento de uma cosmovisão criacional e redentora. A partir da criação e dos mandatos estabelecidos em Gênesis 1.26-30, temos todo um fundamento para a visão cristã de mundo que será desenvolvido e aplicado em todas as Escrituras.

Podemos concluir  que a cosmovisão cristã é fundamentalmente criacional e redentora. O motivo básico cristão de criação –  queda – redenção é muito importante para uma correta leitura teológica que estabelecerá a ponte para percepções cristãs de mundo. Essa percepção cristã do mundo se exalta sobre toda e qualquer cosmovisão concorrente. Como nos diz Ronald Nash:

Óculos corretos são capazes de por o mundo em foco mais claro - e a cosmovisão correta pode funcionar de um modo muito parecido. Quando alguém olha o mundo pela perspectiva da cosmovisão errada, o mundo não faz muito sentido. Ou o que a pessoa pensa fazer sentido estará, na verdade, errado em aspectos importantes. Aplicar o esquema conceitual correto, isto é, ver o mundo através da cosmovisão correta, pode ter repercussões importantes para o resto da compreensão da pessoa de acontecimentos e ideias.[ix]

Com essa afirmação de Nash podemos dizer que, em grande medida, cosmovisões não cristãs tem sua dose de niilismo. Não há propósito último. Numa cosmovisão cristã que se desenvolve a partir de uma abordagem criacional, temos claramente uma ordem básica de entendimento em
arche, ethos e escathon. Existe um criador de todas as coisas e esse criador estabeleceu leis para o funcionamento de todas as coisas e para suas criaturas. Essas leis, sejam elas as leis naturais que estarão ligadas a uma abordagem da teologia natural ou leis preceituais ligadas a revelação especial de Deus, uma teologia redentiva, uma revelação que leva a humanidade a salvação. Essa revelação está em Jesus Cristo encarnado, verbo de Deus e nas Sagradas Escrituras. Com isso estabelecido, é evidente que todo esse plano criacional tem um fim, um escathon. Aqui está a importância da progressividade e organicidade da revelação de Deus aos homens; a Bíblia. A teologia da revelação é crescente e progressivamente dirigida ao clímax da história da redenção de toda criação, essa redenção final contempla tanto os homens como o mundo criado, a restauração de todas as coisas cumpre o escathon de Deus. Sem uma cosmovisão criacional e redentora não chegaremos a uma compreensão escatológica do plano divino.

O passo mais importante para os cristãos é tornar-se informado sobre a cosmovisão cristã, uma visão abrangente e sistemática da vida e do mundo como um todo. Nenhum crente hoje pode ser realmente eficaz na arena das ideias até que tenha sido treinado a pensar em termos de cosmovisão.[x]

Ronald Nash mais uma vez nos esclarece a importância da cosmovisão para o mundo visto por óculos redentivos. Sem essa compreensão, cristãos não terão condições de cumprirem devidamente sua missão, que não é apenas evangelizar, mas, glorificar a Deus entre todas as nações. Por isso nos diz o Salmo 98:

Cantem ao Senhor um novo cântico, pois ele fez coisas maravilhosas; a sua mão direita e o seu braço santo lhe deram a vitória! O Senhor anunciou a sua vitória e revelou a sua justiça às nações. Ele se lembrou do seu amor leal e da sua fidelidade para com a casa de Israel; todos os confins da terra viram a vitória do nosso Deus. Aclamem o Senhor todos os habitantes da terra! Louvem-no com cânticos de alegria e ao som de música! Ofereçam música ao Senhor com a harpa, com a harpa e ao som de canções, com cornetas e ao som da trombeta; exultem diante do Senhor, o Rei! Ressoe o mar e tudo o que nele existe, o mundo e os seus habitantes! Batam palmas os rios, e juntos, cantem de alegria os montes; cantem diante do Senhor, porque ele vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com retidão. Salmos 98 (NVI)

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Notas:
[i] Ronaldo Lidório - Comunicação e Cultura, Ed. Vida Nova, 2014, p.59.
[ii] Franklin Ferreira –  O Credo dos Apóstolos – As doutrinas centrais da fé cristã, p.110,111. Ed. FIEL.
[iii] Louis Berkhof - Teologia Sistemática, p.119. Ed. Cultura Cristã.
[iv]  Ao tratar de ordem missional na criação ressalto que tudo que foi criado por Deus rende glória ao Criador, a criação adora ao Criador e lhe obedece às ordens que são manifestadas como obra da providência, sejam de forma ordinária ou de forma extraordinária, logo concluo que a criação também atende a um chamado missional no que se refere a proclamar a glória de Deus (Salmos 19).
[v] Charles Hodge - Teologia Sistemática, p. 422, ed. Hagnos.
[vi] Herman Bavinck - Dogmática Reformada, vol 2, p. 438 – Ed. Cultura Cristã.
[vii] Me refiro ao julgamento cultural baseado em valores culturais peculiares de um povo, ao utilizar o termo ética aqui não há ligação com o julgamento da ético-teológico, mas, a um sistema de costumes e valores de um povo sendo ou não antagônicos ao cristianismo.
[viii] Ao me referir e usar o termo êmico, bem trabalhado pelo antropólogo e missiólogo, Ronaldo Lidório, verso sobre a observação do homem pela lente dele mesmo, observando a cultura por pela ótica do nativo, isolando tal análise de um exame teológico.
[ix] Ronald Nash - Cosmovisões em conflito, Editora Monergismo, p.27.
[x] Ibdem, p.22.

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Sobre o autor: Thomas Magnum é bacharel em teologia pelo Centro de Estudos Teológicos Brasileiro; Bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Joaquim Nabuco; Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints International Seminary, Miami. É professor de Teologia Sistemática no Seminário Congregacional do Nordeste (Campus Recife e Maceió) e no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil, campus Recife. É presbítero na Igreja Evangélica Congregacional de Casa Amarela na cidade do Recife em Pernambuco.
Fonte: Electus
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O “evangeliquês” brasileiro precisa conhecer Niceia

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No século IV havia muitas divergências a respeito das doutrinas de Deus e de Cristo. Visando resolver as questões, a igreja celebrou seu primeiro concílio universal, a fim de diminuir os conflitos doutrinários. Esse concílio ficou conhecido como Concílio de Niceia, foi convocado e presidido por Constantino. Na ocasião foi estabelecida a doutrina da Trindade, expressa no Credo de Niceia (oficialmente chamado de Credo Niceno-Constantinopolitano). 

Assim como no século IV, tenho percebido em nossos dias a dificuldade que cristãos têm de explicar e fundamentar essa doutrina. Ao visitar algumas igrejas, observo membros que, na tentativa de explicar a Trindade, ensinam heresias. Já presenciei um professor, em um estudo para jovens, negar a doutrina da Trindade, afirmando que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito é apenas o espírito de Deus. Também tenho sido muito questionado por jovens e adolescentes quanto a essa temática, a maioria busca saber como fundamentar essa doutrina na Bíblia ou como entendê-la.

Esse quadro me preocupa, pois estou convencido de que a doutrina da Trindade é a principal da Bíblia, ela é fundamental. Será que o “evangeliquês” brasileiro precisa voltar a Niceia? Nesse cenário escrevo este texto, visando ajudar os cristãos brasileiros a entenderem e explicarem a Trindade quando questionados.

Antes de definir Trindade e explanar como a doutrina se fundamenta nas Escrituras, gostaria de dizer o que ela não é. Trindade não é a noção de que Pai, Filho e Espírito Santo são apenas manifestações distintas da mesma pessoa, Deus o Pai (Sabelianismo). Trindade não é a noção de que que Deus se apresentou de três modos distintos (Modalismo). Trindade não é a noção de que na essência de Deus há três pessoas que coexistem em um relacionamento hierárquico (Subordinacionismo).

Quando se fala de Trindade, precisa-se reconhecer que estamos diante de um paradoxo. Isso significa que a doutrina da Trindade parece conter verdades contraditórias, mas é um ensino bíblico. Por exemplo, a Soberania de Deus e a Responsabilidade Humana ou a Humanidade e Divindade de Cristo, não se sabe como elas se relacionam mas crer-se que ambas são ensinos bíblicos, o mesmo pensamento se aplica à Trindade. Portanto, antes de qualquer definição, é necessário entender e reconhecer que o paradoxo da Trindade é uma verdade que está acima da nossa capacidade de entendimento. Digo isso porque a maioria das heresias relacionadas a doutrina da Trindade, que tenho ouvido nesses anos na membresia das igrejas, é consequência da tentativa de explicar a Trindade de forma que faça sentido racional e lógico. 

Wayne Grudem define a doutrina da Trindade do seguinte modo: "Deus existe eternamente como três pessoas - Pai, Filho e Espirito Santo - e cada pessoa é plenamente Deus, e existe um só Deus" [1]. Gosto dessa definição pois ela traz três verdades que são necessárias para entender e explanar a Trindade: (1) Deus é três pessoas; (2) As três pessoas são plenamente Deus; (3) Só há um Deus. Também creio que essa definição é adequada para um texto objetivo, como é o caso.

É popular dizer que a doutrina da Trindade encontra-se somente no Novo Testamento. Porém, no Antigo Testamento encontra-se várias passagens que demonstram que Deus existe em mais de uma pessoa (Gn 1.26; 3.22; 11.7; Is 6.8), o que começa a lançar luz na primeira verdade da definição apresentada acima. Muitos teólogos também usam Isaías 61.10 para afirmar que essa doutrina está presente no Antigo Testamento mesmo que não explicitamente.

No Novo Testamento a doutrina aparece de forma explícita e claramente pode-se perceber que Deus é três pessoas distintas. João 1.1-2 diz que "Ele estava no princípio com Deus", se Ele, o Verbo (que é revelado como Cristo nos versos 9-18), "estava com" significa que é uma pessoa distinta. Outros textos fazem distinção entre o Filho e o Pai: Jo 17.24; Hb 7.25; 1Jo 2.1. Além disso, em João 16.7 percebe-se a diferença pessoal entre Jesus e o Consolador (que é o Espirito Santo). Encontra-se também alguns versos em que as três pessoas aparecem juntas: Mt 28.19;1Co 12.4-6; 2Co 13.14; 1 Pe 1.2; Ef 4.4-6; Jd 20-21.

Cada uma das três pessoas são plenamente Deus. É evidente que o Deus Pai é plenamente Deus em todo o antigo Testamento, onde Deus é reconhecido como Senhor soberano e em alguns textos do Novo Testamento (At 4.24; Mt 26.39; Mt 6.9-10). Em João 1.1-4 é notório que Jesus é plenamente Deus, além de outros textos como: Jo 20.28-29; Hb 1.1-3; Tt 2.13; 2 Pe 1.1; Rm 9.5. Em Isaías 9.6 a profecia apresenta o Messias como "Deus Forte". O Espirito Santo também é plenamente Deus, basta observar textos como: At 5.3-4; 1Co 3.16. Entendendo que Deus Pai e Deus Filho são plenamente Deus, então as "expressões trinitárias" que aparecem nos textos que foram apresentados no parágrafo acima (Mt 28.19; 1Co 12.4-6; 2Co 13.14; 1 Pe 1.2; Ef 4.4-6; Jd 20-21), também podem ser usados como base para afirmar que o Espirito Santo é plenamente Deus. Vale observar que, afirmar que as três pessoas são plenamente Deus, implica em crer que tais são iguais em poder e que andam em comunhão perfeita e indissociável (pois Deus é perfeito e imutável: Jó 11.7; Sl 102.25-27).

Deus é três pessoas, as três pessoas são plenamente Deus porém há só um Deus. É claro nas Escrituras que existe somente um Deus: Dt 6.4-5; 1 Rs 8.60; Is 44.6-8; 45.5-6,21-22; Rm 3.30; Tg 2.19. Conclui-se que Deus é três pessoas distintas: Pai, Filho e Espirito Santo. O Pai é plenamente Deus, o Filho e plenamente Deus e o Espirito Santo é plenamente Deus. O Pai não é o Filho, o Filho não é o Espirito, o Espirito não é o Pai (pessoas distintas). Porém, não são três deuses, mas é apenas um Deus. Eis o paradoxo, eis o mistério da Trindade.

Em Efésios 1.3-14, Paulo mostra como o Deus trino trabalha no plano de redenção. Do verso 3 ao verso 6, Paulo apresenta a obra do Pai, que é aquele que planeja. Do verso 7 ao verso 12, ele apresenta a obra do Filho, que é aquele que executa o plano, redimindo e remindo os que haviam sido eleitos pelo Pai. No verso 13 e 14, o Apostolo apresenta a obra do Espirito Santo, que é aquele que tem aplicado esse plano na vida dos eleitos do Pai. Repare que no fim de cada bloco encontra-se a expressão "para louvor da sua glória". Todos os atos de Deus na história são para louvor da sua própria glória. Nós somos beneficiados e Deus recebe a glória. Cito o início de uma oração Puritana:

          TRÊS EM UM, UM EM TRÊS, DEUS DA MINHA SALVAÇÃO,
          Pai celestial, Filho bendito, Espírito eternal,
          Eu te adoro como único Ser, única Essência,
          Único Deus em três Pessoas distintas,
          Por trazeres pecadores ao teu conhecimento e ao teu Reino.
          Ó Pai, tu me amaste e enviaste Jesus para me redimir;
          Ó Jesus, tu me amaste e assumistes minha natureza;
          Derramastes teu sangue para lavar meus pecados,
          Consumaste justiça para cobrir a minha iniquidade;
          Ó Santo Espírito, tu me amaste e entraste em meu coração,
          Lá implantaste a vida eterna,
          Revelaste-me as glórias de Jesus... [2]

Entendendo que você compreendeu a doutrina da Trindade, creio que a melhor forma de você explicá-la para alguém é, primeiramente, mostrando que é um paradoxo. Depois apresentando as três verdades sobre a Trindade (Deus é três pessoas - As três pessoas são plenamente Deus - Só há um Deus) fundamentando-as nas Escrituras. Caso você esteja explicando para um não cristão, ao final, apresente o plano de redenção a ele, crendo que Deus soberanamente fará Sua vontade.

Diante de uma verdade tão gloriosa, como a doutrina da Trindade, termino citando Agostinho de Hipona, faço das palavras dele as minhas: "Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo que disse de ti nesses livros de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há meu, perdoa-me e perdoem-me os seus. AMÉM." [3]

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Referências Bibliográficas:
[1] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999. p. 165 
[2] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. VIII.
[3] AGOSTINHO. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1994. p. 557.

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Sobre o autor: Lucas Ramos Pereira é seminarista da Primeira Igreja Batista em Palmeiras, Belo Horizonte/MG.
Imagem: Council of Nicaea 325, de Fresco in Capella Sistina, Vatican - 1590, via Wikipédia. Arte: Bereianos
Divulgação: Bereianos
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A posição de Wayne Grudem sobre profecias e línguas: um olhar cessacionista


Por Sandro Dutra

O momento atual da Igreja evangélica tem se caracterizado como confuso e ao mesmo tempo controverso por causa da compreensão e práticas errôneas acerca dos dons concedidos pelo Espírito Santo aos filhos de Deus. Basicamente há duas correntes que dialogam sobre esse assunto do Novo Testamento: a corrente pentecostal[1] e a cessacionista.[2] A primeira defende a contemporaneidade dos dons para a atualidade, dividindo-se em algumas vertentes[3]. Já a segunda assevera que nem todos os dons devem ser encontrados atualmente, mormente, por causa de seu caráter revelatório.

10 motivos pra você curtir o livro de Atos

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Por Danilo Neves de Almeida


1. Atos é um livro cujo autor foi inspirado por Deus, ou seja, é o próprio Deus quem fala! Deus nele se revela como um fiel historiador.

2. Sem as narrativas do livro de Atos não saberíamos apropriadamente como se desenvolveu a Igreja no período do século 1. Atos é o único documento antigo que relata de maneira histórica, teológica e pastoral sobre o cristianismo primitivo (em seu início, origem). A história cristã seria muito pobre sem ele.

3. Além de vários discursos, os sermões evangelísticos dos apóstolos Pedro e Paulo (At 2.14ss; 4.9ss; 5.30ss; 10.34ss; 13.16ss 14.15ss) fornecem as características da pregação apostólica, ou seja, descrevem o conteúdo da mensagem dos apóstolos. Assim, em tempos de pessoas que se auto-intitulam “apóstolos” e fundam igrejas “apostólicas”, podemos nos servir desses sermões como um padrão para testarmos o “evangelho” pregado pelos “apóstolos” de hoje e verificarmos se eles são coerentes ou incoerentes, verdadeiros ou falsos.

4. Atos nos fornece princípios sobre organização e crescimento de igreja (At 1; 2; 6 e 22), importantes em uma realidade eclesiástica brasileira marcada pelo uso de métodos de crescimento puramente gerenciais e sociológicos.

5. Atos une os evangelhos às epístolas.

6. As viagens missionárias de Paulo registradas no livro de Atos nos dão informações relevantes sobre o pano de fundo histórico de algumas das epístolas do apóstolo Paulo, como Efésios, Tessalonicenses e Filipenses. Com isso, temos mais condições de fazer uma boa interpretação dessas cartas paulinas.

7. “Pode-se afirmar que Atos é um dos livros mais emocionantes já escritos. Em que outra fonte você poderia encontrar, em tão poucas páginas, "uma série de eventos tão emocionantes, julgamentos, tumultos, perseguições, fugas, martírios, viagens, naufrágios, livramentos — inscritos nesse panorama espantoso do mundo antigo de Jerusalém, Antioquia, Filipos, Corinto, Atenas e Roma? E apresentando tais cenários e ambientes — templos, tribunais, prisões, desertos, navios, mares, tendas e teatros? Há alguma ópera dotada de tanta variedade? Diante do olho do historiador desenrola-se uma variedade incrível de cenários e ações. E o historiador vê em tudo isso a mão providencial que produziu e orientou esse grande movimento para a salvação da humanidade" [1]

8. Os temas levantados no livro são importantes para o conhecimento do cristão nos dias atuais: “o batismo do Espírito e os dons, sinais e milagres carismáticos; a comunhão econômica da primeira comunidade cristã em Jerusalém; a disciplina na igreja; a diversidade dos ministérios; a conversão cristã; o preconceito racial; os princípios missionários; o preço da unidade cristã; as motivações e os métodos na evangelização; o chamado para sofrer por Cristo; a igreja e o Estado; e a providência divina.” [2]

9. “O livro de Atos também é importante devido à inspiração contemporânea que nos traz. Calvino o chamou de “enorme tesouro”. Martin Lloyd-Jones se referiu a ele como “o mais lírico dos livros” e acrescentou: “Vivei neste livro, eu vos exorto; ele é um tônico, o maior tônico que conheço no domínio do Espírito.” De fato, tem sido salutar para a igreja cristã de todos os séculos comparar-se com a igreja do primeiro século e tentar reconquistar algo daquela confiança, daquele entusiasmo, daquela visão e daquele poder. Ao mesmo tempo, precisamos ser realistas. Existe o perigo de romantizarmos a igreja primitiva, falando dela em tom solene, como se não tivesse falhas. Isso significaria fechar os olhos diante das rivalidades, hipocrisias, imoralidades e heresias que atormentavam a igreja, como acontece ainda agora. Todavia uma coisa é certa: a igreja de Cristo fora enchida pelo Espírito Santo, que a espalhou para testemunhar.” [3]

10. O livro de Atos se encerra de maneira abrupta e podemos dizer, em certo sentido, que não há um final para ele. É um livro com um final em aberto. A continuação desse livro “foi escrita” pelos apóstolos, pelos discípulos dos apóstolos (Pais da Igreja), pela Igreja no período medieval, pela Igreja durante a reforma; pelos puritanos, pela Igreja durante os períodos de esfriamento e avivamento e este livro continua sendo escrito por nós, hoje, no século XXI. Atos só se encerrará com a volta de Cristo. Aí seremos uma só Igreja! A Igreja invisível se tornará conhecida, visível e, então, “eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda a lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” Ap 21.3b-4.

Notas:
[1] David J. Williams. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo
[2] John R. W. Stott. A mensagem de Atos: até os confins da terra
[3] Ibid

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Fonte: UMPCGYN

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Os títulos dos Salmos


Por Rev. Ewerton B. Tokashiki

O livro de Salmos é o mais lido nos cultos cristãos, entretanto, com raras exceções despreza-se a leitura do título original; ou o que é pior, lê-se o título colocado pela sociedade bíblica [que está em negrito] e omite-se o original. Creio que isto é fruto de uma distorcida praxe litúrgica, todavia, a ignorância não pode continuar sendo desculpa para esta falha cúltica.

Em geral, crê-se que todos os Salmos deveriam ser cantados. Mas, os títulos demonstram que isto não é verdade. Os títulos são indicadores da natureza literária de cada salmo. Alguns títulos se referem ao uso litúrgico dos salmos a serem cantados em certas ocasiões, declamados como poesia, como também são orações tanto individuais como coletivas. É possível fazer uma divisão geral dos Salmos da seguinte forma:

Há títulos descritivos da característica poética:

1. 57 salmos são chamados de mizmor. Estes se referem a música que deveria ser cantada com acompanhamento de instrumentos de cordas.

2. Shir cântico de qualquer qualidade ou espécie, ocorre 30 vezes (Sl 46, 120-134).

3. Mashkil um cântico de especial qualidade, ocorre em 13 salmos, podendo significar vários tipos de cânticos: meditativos, didáticos (Sl 32).

4. Miktam salmo com idéia de lamentação pessoal (Sl 16, 56-60).

5. Shiggayon só ocorre uma vez (Sl 7).

6. Tephillah significa “oração” (Sl 17, 86, 90, 102, 142).

7. Tehillah somente ocorre uma vez (Sl 145), significa “louvor”.

Há títulos que indicam a direção musical: 

1. Lamnatseach é a palavra que vem ao titulo de 55 salmos. A Vulgata traduz in finem, e a Versão Almeida “para o cantor mor” (IBB), e “ao mestre de canto” (SBB).

2. Neginoth aparece em 6 títulos, sempre combinado com lamnatseach. O termo significa “instrumentos de cordas”. Quatro dos títulos em que aparece, vem associado ao termo mizmor;

3. ‘Al hashsheminith ocorre duas vezes, nos Sl 6 e 12, significa “sobre a oitava”.

4. ‘Al ‘alamoth se encontra no título do Sl 46, significa “instrumentos de cordas”.

5. Gittith aparece em três títulos, podendo significar “canção de vindima”.

6. Nehiloth só ocorre no Sl 5, é traduzido pela SBB “para flautas”.

7. Mahalath literalmente significa “doença, aflição”, possivelmente, indicava um salmo fúnebre. No título do Sl 88 aparece como mahalath leannnoth que a SBB traduz “para ser cantado com cítara”.

8. Selah esta palavra não aparece nos títulos, mas no fim de algumas seções (Sl 46:7). Esta palavra chama a atenção por ocorrer 71 vezes no Livro I, 30 vezes no Livro II, 20 no Livro III, e 4 no Livro V. É uma indicação musical, não para ser lida, mas significando uma pausa no cântico, para um interlúdio instrumental, ou, uma elevação de som (forte).

Há títulos que indicam a tradição histórica da vida de Davi:

1. Salmo 3...................... 2 Sm 15:1-18:33
2. Salmo 18.................... 2 Sm 22:1-51
3. Salmo 30.................... 2 Sm 5:11-7:29
4. Salmo 34.................... 1 Sm 21:10-15
5. Salmo 51.................... 2 Sm 11-12:1-25
6. Salmo 52.................... 1 Sm 22
7. Salmo 54.................... 1 Sm 23; 26:1
8. Salmo 56.................... 1 Sm 21:13-15
9. Salmo 57.................... 1 Sm 24
10. Salmo 59.................... 1 Sm 19:11
11. Salmo 60.................... 2 Sm 8:13; 1 Cr 18:12
12. Salmo 63.................... 2 Sm 15:23-28
13. Salmo 142.................. 1 Sm 24:1-3

Fonte: Estudantes de Teologia
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O que é Justificação?

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Por Pr. Silas Figueira


A justificação é uma doutrina evangélica revelada por Deus, e não descoberta pelo homem. Tanto judeus como gregos são salvos da mesma maneira: não pelas obras da lei, mas pela graça de Deus.[1] Em nossos dias, a verdade bíblica da justificação é desconhecida ou mal compreendida por muitos evangélicos. No entanto, ela foi a questão central levantada pela Reforma Protestante do século 16. Assim como o “sola Scriptura” foi denominado o “princípio formal” da Reforma, porque a Bíblia é a fonte de onde procedem todas as autênticas doutrinas cristãs, a justificação mediante a fé é o seu “princípio material”, porque envolve a própria substância ou essência do que se deve crer para a salvação.

Justificação é o oposto exato de condenação. “Condenar” é declarar uma pessoa culpada; “justificar” é declará-la sem culpa, inocente ou justa. Na Bíblia, refere-se ao ato imerecido do favor de Deus através do qual Ele coloca diante de si o pecador, não apenas perdoando-o ou isentado-o da culpa, mas também aceitando-o e tratando-o como justo.[2]      

A justificação é um ato judicial de Deus, no qual Ele declara, com base na justiça de Jesus Cristo, que todas as reivindicações da lei são satisfeitas com vistas ao pecador. Ela é singular, na obra da redenção, em que é um ato judicial de Deus, e não um ato ou processo de renovação, como é o caso da regeneração, da conversão e da santificação. Conquanto diga respeito ao pecador, não muda a sua vida interior. Não afeta a sua condição, mas, sim, o seu estado ou posição, e nesse aspecto difere de todas as outras principais partes da ordem da salvação. Ela envolve o perdão dos pecados e a restauração do pecador ao favor divino. O arminiano sustenta que ela inclui somente aquele, e não esta; mas a Bíblia ensina claramente que o fruto da justificação é muito mais que o perdão. Os que são justificados têm “paz com Deus”, segurança da salvação, Rm 5.1-10, e uma “herança entre os que são santificados”, At 26.18. Devemos observar os seguintes pontos de diferença entre a justificação e a santificação.

1. A justificação remove a culpa do pecado e restaura o pecador a todos os direitos filiais envolvidos em seu estado de filho de Deus, incluindo uma herança eterna. A santificação remove a corrupção do pecado e renova o pecador constante e crescentemente, em conformidade com a imagem de Deus.

2. A justificação dá-se fora do pecador, no tribunal de Deus, e não muda a sua vida interior, embora a sentença lhe seja dada a conhecer na vida interna do homem e gradativamente afete todo o seu ser.

3. A justificação acontece uma vez por todas. Não se repete, e não é um processo; é imediatamente completa e para sempre. Não existe isso, de mais ou menos justificação; ou o homem é plenamente justificado, ou absolutamente não é justificado. Em distinção disto, a santificação é um processo contínuo, que jamais se completa nesta existência.

4. Enquanto que a causa meritória de ambas está nos méritos de Cristo, há uma diferença na causa eficiente. Falando em termos de economia, Deus o Pai declara justo o pecador, e Deus o Espírito o santifica.[3]

Hernandes Dias Lopes citando Warren W. Wiersbe diz que uma vez que fomos “justificados pela fé”, nunca mais seremos declarados culpados diante de Deus. A justificação também é diferente de “indulto”, pois um criminoso indultado ainda tem uma ficha na qual constam seus crimes. Quando um pecador é justificado pela fé, seus pecados passados não são mais lembrados nem usados contra ele, e Deus não registra mais suas transgressões (Sl 32.1,2; Rm 4.1-8).[4]  

Podemos concluir dizendo que a justificação é a resposta de Deus à mais importante de todas as questões humanas: Como uma pessoa pode se tornar aceitável diante de Deus? A resposta está clara no Novo Testamento, especialmente nos escritos de Paulo, como a passagem clássica de Romanos 3.21-25. Biblicamente, a justificação é um conceito jurídico ou forense, e tem o significado de “declarar justo”. É o ato de Deus mediante o qual ele, em sua graça, declara justo o pecador, isentando-o de qualquer condenação. Infelizmente, a palavra portuguesa “justificação”, originária do latim, dá a ideia de “tornar justo”, no sentido de produzir justiça no justificado. Mas o termo grego original dikaiosyne não se refere a uma mudança intrínseca no indivíduo, e sim a uma declaração feita por Deus. Visto que não temos justiça própria e somos culpados diante de Deus, ele nos declara justos com base na expiação de nossos pecados por Cristo e na sua justiça imputada a nós.

Pode-se dizer que a justificação está estreitamente relacionada com três princípios da Reforma: “sola gratia”, “sola fides” e “solo Christo”. Daí, James Montgomery Boyce a define como “um ato de Deus pelo qual ele declara os pecadores justos somente pela graça, somente por meio da fé, somente por causa de Cristo”. Assim, a fonte da justificação é a graça de Deus, o fundamento da justificação é a obra de Cristo e o meio da justificação é a fé. A fé é o canal através do qual a justificação é concedida ao pecador que crê; é o meio pelo qual ele toma posse das bênçãos obtidas por Cristo (como a paz com Deus, Rm 5.1). Ela não é uma boa obra, mas um dom de Deus, como Paulo ensina em Efésios 2.8-9. É o único meio de receber o que Deus fez por nós (“sola fides”), ficando excluídos todos os outros atos ou obras.[5]

Notas:
1 – Lopes, Hernandes Dias. Gálatas, a carta da liberdade cristã. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2011: p. 115.
2 – Stott, John R. W. A Mensagem de Gálatas. ABU Editora, São Paulo, SP, 1989: p. 58.
3 – Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, Cambuci, São Paulo, SP, 4ª edição, 2012: p. 473-474.
4 – Lopes, Hernandes Dias. Gálatas, a carta da liberdade cristã. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2011: p. 116.
5 – Matos, Alderi Souza de. Justificação pela fé: o coração do evangelho. http://www.mackenzie.br/7136.html, acessado em 18/07/2013.

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