Casamento obrigatório? Respondendo...

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Determinado pastor fez um recorte de uma fala de O. Palmer Robertson: “Portanto, o casamento pode ser considerado como uma dimensão altamente significativa na ordenança divina da criação. Essa ordenança continua a ter importância obrigatória para o homem na redenção”.

A fala está no livro O Cristo dos Pactos” (p. 64) e encerra a questão do casamento na aliança da criação. Após fazer o resgate dessa frase, ele cita 1 Coríntios 7. 1,27: “E aos solteiros e viúvas digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo... Estás casado? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures casamento.

Na citação de Robertson, ele coloca o título “Teologia Aliancista”. Já o texto de coríntios, intitula como “Teologia Bíblica”, dando a entender que existe uma contradição, forçando o julgamento de que o aliancismo não é bíblico. Todavia, o pastor além de ser tendencioso em seu recorte, também foi desonesto. O próprio Robertson não ignora o texto mencionado e dá uma explicação. Vejamos:

O argumento de Robertson, que é um eminente teólogo aliancista, repousa no fato de que na criação Deus institui o casamento como sendo uma ordenança para o homem criado. “...não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Ao ser questionado sobre o divórcio, que é a anulação do casamento, Jesus evocou a criação para defender a indissolubilidade do matrimônio “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher’” (Mt 19.4). Cristo então prossegue: “‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe (Mt 19.5,6).

Vejam que aquilo que Deus estabelece na criação é paradigma para a humanidade. O casamento é a base da sociedade e é responsável pelo povoamento da terra. “Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se!” (Gn 1.28). A multiplicação se dá através da geração de filhos mediante o ato sexual, e este só é abençoado no leito do matrimônio. A sexualidade foi algo criado por Deus para o deleite do casamento. Adão e Eva foram criados para formar uma família, dando origem a outras famílias. Por isso que em Levítico 20 há uma lista de pecados envolvendo relações íntimas. O adultério, o incesto, a sodomia, relações sexuais com parentes de primeiro grau e zoofilia são atos pecaminosos que desagradam a Deus. Sendo assim, o casamento é normativo e é obrigatório para a raça humana continuar aquilo que começou lá no Éden. Essa é a citação de Palmer em seu devido contexto:

“A propagação da raça por meio da instituição do casamento indica o meio primário pelo qual os propósitos de Deus na redenção encontram cumprimento. Deus realiza seus propósitos de redenção não por um método contrário às estruturas da criação, mas por método em conformidade com a criação.
Portanto, o casamento pode ser considerado como uma dimensão altamente significativa na ordenança divina da criação. Essa ordenança continua a ter importância obrigatória para o homem na redenção”. (O Cristo dos Pactos, p. 64)

A obrigação não é em relação aos indivíduos, pois alguns destes não se casarão - o que diz o texto de Paulo aos coríntios, e que Robertson já havia comentado anteriormente, na pág. 63:

“Embora a injunção de Deus para multiplicar e encher a terra aplique-se ainda aos homens de hoje, e o casamento ainda permaneça como a intenção criacionalmente ordenada ao homem, não se deve ver nenhuma contradição quando a expressão apostólica ‘é bom que o homem não toque mulher’ (1Co 7.1) é colocada ao lado da ordem da criação ‘não é bom que o homem esteja só’ (Gn 2.18). Com base no ‘dom’ necessário para permanecer no estado de solteiro (1Co 7.7), e devido aos sofrimentos do tempo presente (1Co 7.26), o homem ou a mulher pode deixar de casar-se”.

As dificuldades do casamento, isto é, dificuldades de se relacionar, resultam do pecado: “Mas aqueles que se casarem enfrentarão muitas dificuldades na vida, e eu gostaria de poupá-los disso” (1 Co 7.28b). Um pouco antes Paulo diz que sua recomendação para não casar não é mandamento, é um parecer que ele dá para evitar os que são virgens e jovens para que não sofram com as pressões da vida matrimonial (vide 1 Co7:25,26). Gosto de uma frase que diz: “Enquanto o pecado for amargo, o casamento não poderá ser doce” (Extraída de “Quando Pecadores Dizem Sim”). Isso quer dizer que é o fato dos cônjuges serem pecadores causam as aflições da vida de casado, todavia, a percepção de que somos pecadores também opera nos cristãos a dependência e o desejo de andar com Cristo, tendo fé de que ele nos santifica mediante a obra realizada pelo Espírito Santo em nós.


Dito tudo isso, chegamos então a duas conclusões:

1. O que o aliancismo prega sobre o casamento não é contrário a Bíblia, nem mesmo é contrário ao texto específico de 1 Coríntios 7. O casamento é obrigatório para a RAÇA HUMANA sim, além disso, ele é o meio ordinário para que Deus cumpra seu propósito redentor. Não se pode negar tal fato por conta de alguns poucos indivíduos que, por dom ou por outras razões, optam por não casar.

2. O tal pastor, além de infeliz em sua saga para enfraquecer o aliancismo, usou um meio desonesto para fazer isso. O recorte intencionalmente distorceu o que disse Palmer Robertson. Isso é dar falso testemunho, quebra do nono mandamento (Coisa grave!) Mas, não sei se por conta de seu dispensacionalismo, talvez ele ache que o decálogo não seja válido, podendo então ser assim descumprido. Será? Bem, a certeza que pode se ter é que o episódio é muito triste. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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A perigosa interpretação de Mateus 24.36 feita pelo Pr. Marcos Granconato

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Recentemente deu-se uma polêmica envolvendo o pastor batista Marcos Granconato, devido a um vídeo em que o mesmo fala que Jesus não é onisciente quando se considerado as relações intratrinitárias, limitando sua onisciência às relações extratrinitárias. Em outras palavras, Granconato disse que Jesus só seria onisciente na relação da Trindade com as coisas criadas, pois, segundo o mesmo diz em sua mensagem, Deus-Pai guardou certas coisas apenas para si. Alguns o acusaram de heresia, já outros foram mais brandos, discordando de sua posição, todavia não o chamando de herege. O fato é que o Granconato foi infeliz em suas afirmações, ditas ao expor o difícil texto de Mateus 24.36, que diz o seguinte: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”. Mais à frente voltarei a esse texto, mas antes gostaria de dizer o porquê considero o ensino do Marcos Granconato perigoso.

Dizer que Deus-Pai guarda coisas para si que não são reveladas ao Deus-Filho, inferioriza Jesus. Ele não poderia ser uma divindade da mesma “estatura” do Pai, já que não seria onisciente por completo, sendo que a onisciência é um atributo divino. Mas, a máxima cunhada por Tertuliano, que foi reafirmada pela ortodoxia cristã diz “uma substância, três pessoas”. Por substância, devemos entender que é o elo incomum entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no qual se baseia a unidade da Trindade. É devido à substância ser a mesma que não ocorre uma divisão entre as três pessoas da Deidade, gerando uma unidade na diversidade. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo desempenham papéis diferentes no plano de salvação (Trindade econômica), sem que haja a perda dessa unidade.

Após Tertuliano, talvez Agostinho de Hipona tenha sido o teólogo que mais contribuiu com a doutrina trinitária, principalmente na tradição ocidental. Ele então afirma que não se pode subordinar (ontologicamente) as pessoas da Trindade. Na eternidade eles são iguais em atributos, poder e glória. Portanto, se afirmarmos, como fez o Granconato, que Deus-Pai retém algum conhecimento para si, logo, caímos no equívoco da subordinação eterna. Contudo, como defende Berkhof[1], a natureza divina é indivisível, isto é, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade. Franklin Ferreira até recomenda rejeitarmos a prática de enumerar os membros da Deidade (e.g. Jesus é a segunda pessoa da Trindade) e diz que a razão para não fazermos isso está na indivisibilidade da natureza divina, inexistindo subordinação entre elas. Logo, embora sendo três personas distintas, elas não se somam.[2]

Granconato, frente ao que já foi exposto, ainda pode argumentar que isso não resolve a dificuldade presente no texto de Mateus 24.36. O que é verdade. Mas o ponto aqui deveria ser o seguinte: no afã de responder esse mistério, é válido prejudicar a doutrina trinitariana? Pois, se a Trindade é o cerne da adoração cristã, não podemos ter uma compreensão equivocada da mesma. Embora reconhecendo que o assunto é complexo, podemos subir “nos ombros de gigantes” e falar sobre a Trindade sem que a plena igualdade de seus membros seja distorcida.[3]

Para interpretarmos Mateus 24.36, a teoria da kenosis não seria a melhor resposta, como alguns deram ao Granconato em debates nas redes sociais. Pois, dizer que Cristo se esvazia, no sentido de deixar de ter seus atributos, seria o mesmo que afirmar que ele não mais teria a substância que concede unicidade à Trindade. O esvaziamento a que a Escritura se refere (vide Fp 2.6-8) não é referente a atributos, mas sim a posição de Cristo, que sendo igual a Deus-Pai em soberania e glória, encarna, e num estado de humilhação se coloca em condição de subserviência.

Então, para sermos coerentes com a doutrina reformada da unipersonalidade de Cristo, presente nas confissões e catecismos, que dizem existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta concomitantemente o status divino-humano, devemos observar a contribuição do extra-calvinisticum.[4] A contribuição em questão, que foi o ponto de discordância entre calvinistas e luteranos, diz, em suma, que os atributos divinos não devem ser limitados pela encarnação. Embora haja completa divindade no Verbo encarnado, pois a natureza divina se uniu a natureza humana numa mesma pessoa, seus atributos não estão confinados na carne, eles estão presentes dentro e fora do corpo de Cristo. Por isso que quando Cristo morre na cruz, a divindade não morreu, pois, a natureza divina não participa da fraqueza humana. Assim como também, as limitações da natureza humana não alcançam os atributos divinos. Por isso que Cristo foi limitado circunstancialmente, mesmo que na sua eterna essência ele nunca tenha deixado de lado a sua onisciência. Esta é uma posição que se enquadra com os postulados de Calcedônia e que faz jus ao fato de Cristo responder que não sabia o futuro, todavia sem deixar de ser onisciente.

Para ficar mais claro, tomemos outro atributo como exemplo: a onipresença. Quando Jesus, em sua forma corpórea deslocava-se de um lugar para o outro, não seria ele, como membro da Trindade, um ser onipresente? O conceito extra-calvinisticum vai dizer que mesmo ele ascendendo aos céus corporalmente, e estando à destra do Pai, se faz presente na ceia. Logo, a encarnação não pode delimitar a divindade de Cristo. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg:

Pergunta 47- “Mas não está Cristo conosco até o fim do mundo, como nos prometeu?” 
Resposta - “Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; quanto à sua natureza humana, agora já não está na terra; mas, quanto à sua divindade, majestade, graça e espírito, em nenhum momento está ausente de nós.”
Pergunta 48 – “Se a sua humanidade não está onde quer que esteja a sua divindade, então não estão as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra?”
Resposta - “Certamente não. Visto que a divindade não está limitada e está presente em toda parte, fica evidente que a divindade de Cristo está certamente além dos limites da humanidade que ele tomou, mas ao mesmo tempo sua divindade está em e pessoalmente permanece unida à sua humanidade.”

Como bem observa o Dr. Heber Campos[5] “Segundo o pensamento reformado, o Logos está no Cristo total, mas a natureza divina do Logos extrapola os limites físicos da natureza humana”. Pois, o infinito não cabe no finito. Se esta não é uma resposta totalmente satisfatória, é de longe a melhor resposta para lhe dar com a dificuldade em questão, pelo simples fato de não trazer prejuízo a cristologia, e nem desembocar numa concepção equivocada da Trindade.


Concluo dizendo que entendo a complexidade do assunto e que todo teólogo está sujeito a dar suas “escorregadas”. O pastor Marcos Granconato é alguém teologicamente gabaritado e que possui anos e anos de labor ministerial, contudo, não está imune aos erros. No entanto, acredito que ele tenha escolhido muito mal a sua resposta frente a uma questão difícil. Talvez, diante da dificuldade de expor o texto, seria melhor apenas dizer que a questão da união hipostática é um mistério inefável, para usar palavras do próprio Calvino. E não negar a ontológica onisciência do divino Logos, como preferiu. Não apenas por sua imagem, mas por zelo pela sã doutrina, cairia bem uma revisão de sua concepção, reconhecendo que seu ensino abre um precedente muito perigoso que pode resultar em noções heréticas da doutrina trinitária. 

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P.S. Gostaria de esclarecer três coisas: A primeira delas é que optei por fazer um texto breve, por achar mais propício devido à densidade do assunto. A segunda é que o Granconato é um irmão em Cristo, não o trato como um adversário. E por fim, não tenho a mínima intenção de gerar um debate cheio de desdobramentos, portanto, esse texto será o único em que exponho o que outros autores já expuseram com maestria. Destaco aqui o Dr. Heber Campos e suas obras sobre a união hipostática das naturezas de Cristo. 

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Notas:
[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, p.84.
[2] Franklin Ferreira usa como referência a obra de Basílio de Cesaréia para defender a plena igualdade entre a trindade. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=bfmLE6SjpLI.
[3] Mesmo havendo alguns teólogos renomados que defendem uma subordinação ontológica, como o Wayne Grudem e Bruce Ware, isso não pode ser tomado como argumento favorável. John Stott, um dos mais eminentes e profícuos teólogos do século XX, defendeu o aniquilacionismo, e nem por isso a ideia ortodoxa do castigo eterno foi flexibilizada apenas porque o Stott ensinou o oposto.
[4] Um ótimo texto sobre o Extra-Calvinisticum escrito pelo Rev. Alan Rennê Alexandrino está disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370.
[5] CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor. Ed. Cultura Cristã, p.284. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Crescimento numérico é evidência do favor de Deus?

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A mentalidade de que crescimento numérico é evidência do favor de Deus domina o meio evangélico há várias décadas. Tanto é assim, que a qualidade do ministério de um pastor ou o suposto grau de aprovação de uma igreja diante de Deus são medidos, muitas vezes, exclusivamente com base nesse critério. Por causa disso, se a gente apontar para os desvios doutrinários absurdos, o mundanismo, a falta de real devoção e os escândalos tão comuns nas megaigrejas que há por aí, logo aparece um "santarrão espiritualóide" dizendo: "Se esse pastor e essa igreja são tão ruins como você fala, por que Deus os tem abençoado tanto? Você já viu como seus cultos são lotados?".

É evidente que falta a muitas dessas pessoas o discernimento espiritual necessário para aprovar as coisas excelentes (Fp 1.9-10). Falta-lhes também o conhecimento bíblico que realça que nos últimos dias, os homens buscariam mestres "segundo as suas próprias cobiças" (2Tm 4.3). Esse versículo, diga-se de passagem, deixa evidente porque quem prega e velha e apodrecida doutrina do sucesso financeiro sempre tem seguidores aos milhares!

Falta, porém, algo mais àqueles que associam crescimento numérico à bênção de Deus. Desculpem a sinceridade, mas, a meu ver, falta-lhes também capacidade de percepção ou de raciocínio. Digo isso porque não é preciso ter um cérebro de Einstein para perceber que muitos movimentos absolutamente contrários à fé crescem numericamente num ritmo assustador. Isso é tão evidente que eu fico até com medo de dar alguns exemplos e ser acusado de gastar tempo dizendo obviedades. Mesmo assim, vou citar alguns...

Observem o crescimento do nazismo na primeira metade do século 20. Praticamente toda a Alemanhã abraçou essa "idelologia" que se expandiu além de sua "pátria mãe", encontrando apoio em diversos países. Aliás, o nazismo, que alguns pensam ingenuamente estar morto, continua ativo e crescerá ainda mais, especialmente agora que o livro de Hitler, o Mein Kampf (Minha Luta), caiu em domínio público. Acaso isso prova que o nazismo é aprovado por Deus?

Observem ainda o islamismo. Todos percebem claramente a ameaça que essa crença representa para a liberdade religiosa ou para qualquer outro tipo de liberdade. Quanta tolice é crer que somente os "radicais islâmicos", com seus atos de terrorismo, são perigosos para a sociedade ocidental! Muçulmanos em geral coisificam as mulheres, são favoráveis à pena de morte aplicada aos homossexuais, aprovam o casamento de garotinhas de dez anos com marmanjos de quarenta... Mesmo assim, essa religião cresce numericamente. Na verdade, algumas estatísticas afirmam que é a religião que mais cresce no mundo! Será que esse crescimento decorre da bênção de Deus? Ora, por favor!

Considerem finalmente o movimento LGBT. A Bíblia condena expressamente o homossexualismo e é contrária à ideia de que os homossexuais "nascem assim". Segundo as Escrituras, a responsabilidade pelos atos homossexuais são da própria pessoa que os pratica, sendo certo que essa pessoa prestará contas desses atos ao próprio Deus. Ademais, o simples senso natural repugna a prática e a "filosofia" homossexual. É, de fato, um grande agravo ao decoro e à decência tudo o que se vê, por exemplo, numa "Parada Gay". Zombarias grosseiras dirigidas contra a fé cristã, atos indecorosos praticados em público sob a luz do dia, exibições de corpos mutilados ou modificados por chocantes protuberâncias artificiais... Tudo isso é o que se vê nesses desfiles. No entanto, ainda que o número de pessoas que comparecem às paradas gays tenha caído vertiginosamente, segundo alguma pesquisas, o fato é que o movimento LGBT cresce a cada dia em número de indivíduos que o apoiam. Até crianças hoje em dia defendem o homossexualismo! Seria esse crescimento numérico uma prova do favor de Deus. Óbvio que não.

A grande realidade que se depreende das Escrituras é que o crescimento numérico em si não significa muita coisa. Na verdade, conforme visto, o mero crescimento numérico de um partido ou mesmo de uma igreja pode ter como causa fatores ruins, capazes de atrair um número imenso de homens maus. Por isso, é necessário que o crescimento de uma igreja esteja associado a outros elementos para que seja considerado saudável e também seja visto como resultado da ação graciosa de Deus. Que outros elementos são esses? A resposta a essa pergunta está em Atos 9.31: "A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número".

Note que o crescimento saudável da igreja primitiva era uma bênção de Deus associada ao viver digno e santo de crentes que andavam no temor do Senhor e que eram edificados enquanto viviam assim. Ora, é evidente que a vida vivida sob o temor do Senhor se afasta de escândalos, imoralidades, palavreado sujo, desonestidades, mentiras, fraudes e hipocrisias. O texto indica, portanto, que a igreja primitiva em geral tinha um testemunho maravilhoso, sendo encorajada pelo Espírito Santo (a palavra traduzida como "conforto" pode significar também encorajamento ou assistência) que lhe dava ousadia, direção, sabedoria e disposição para o serviço. Então, como resultado disso tudo, a igreja "crescia em número".

Eis aí o crescimento numérico desejável, decorrente da aprovação de Deus. Por isso, é preciso destacar que, se uma igreja cresce enquanto seus membros não andam e nem são edificados no temor do Senhor, há, sem dúvida, algo muito errado com essa igreja. Talvez ela esteja oferecendo coisas ruins e, por isso, esteja atraindo homens ruins; talvez esteja proclamando ideias e realizando programações que se harmonizam com as expectativas perversas dos incrédulos; talvez tenha mestres que anunciam doutrinas em total sintonia com a cobiça dos iníquos; ou talvez esteja usando meras estratégias de marketing, adotando técnicas que nada têm a ver com a construção de uma igreja realmente bíblica. Lembrem-se: Onde estiverem os cadáveres do falso ensino e dos artifícios humanos, aí se ajuntarão os abutres, saltando alegremente em meio à carniça.

Tenhamos, pois, cuidado. Avaliemos as coisas com mais precisão e inteligência. Também supliquemos ao Senhor que sua igreja aumente mais e mais suas fileiras. Peçamos, porém, que esse aumento não ocorra a qualquer custo. Que o santo cordeiro da verdade e da pureza não seja sacrificado no altar do crescimento numérico. Que os salões lotados durante os cultos sejam reflexos de igrejas que andam no temor do Senhor e não de comunidades que criam atrações mundanas. Se não for assim, então que continuemos a ser, nas palavras de Jesus, um "pequenino rebanho", tentando ajustar a vida ao que ele quer, a fim de que o aumento saudável e verdadeiro aconteça no tempo devido.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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O amigo de Jó veio me visitar

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Quando estive internado por causa das recentes cirurgias pelas quais passei, recebi diversas visitas. Amigos, parentes, irmãos na fé, pastores — gente de perto e de longe — todos querendo me ver e deixar comigo alguma palavra de encorajamento e apoio. Como foi bom receber essas visitas! Às vezes eu estava me sentindo mal e não conseguia expressar todo o meu apreço por aquelas pessoas tão queridas. Elas, no entanto, entendiam a minha situação, mostravam-se indulgentes comigo, oravam por mim, teciam algumas frases de ânimo e fé e, então, iam embora, às vezes tentando conter o choro.

Eu louvo a Deus por todas aquelas pessoas e pelo modo como ministraram a graça de Deus em minha vida. Houve, porém, um visitante que se destacou por outro motivo. Imitando até certo ponto os amigos de Jó, ele foi me visitar com o objetivo muito claro de passar “lições de moral”; foi me ver com o alvo especial de fazer acusações veladas e sutis, dando a entender que Deus tinha me colocado naquela situação como uma espécie de castigo, para que eu revisse coisas erradas que havia em minha vida.

“É...” — ele dizia (e esse “é” era um “é” prolongado. Tipo “ééééé...”: um artifício pobre usado para conferir solenidade à fala) — “Tudo isso é bom pra gente avaliar a nossa vida e rever nossos valores... Às vezes Deus nos coloca numa cama de hospital pra gente refletir e ver o que temos que mudar...”. E, assim, esse meu amigo prosseguia em seus jargões de santarrão, repetindo-os a cada dez minutos e se aproveitando do meu estado de debilidade para sugerir o que bem entendesse, já que eu, fraco e cheio de dores, não tinha forças nem ânimo para replicar qualquer coisa. Ademais, as acusações eram veladas, indiretas e sutis, não dando margem para que eu me defendesse. É certo que, se eu estivesse bem, perguntaria: “Você tem algo mais específico em mente — algum pecado ou desvio que vê em minha vida e que acredita que eu deva corrigir?”. Contudo, minha debilidade só permitia que eu ficasse em silêncio. Eu não queria criar uma situação muito pesada. Tudo já era ruim demais.

Depois que tudo passou, pensei um pouco sobre o meu visitante especial e concluí que o problema principal do amigo de Jó talvez não sejam suas frases batidas, nem seu empenho em acusar direta ou indiretamente. Creio que um dos problemas maiores de um “amigo” assim é o prazer que ele demonstra no momento em que diz aquelas coisas. Segundo parece, ele vê na nossa doença uma prova imbatível de que a bronca que tem contra nós é justa, pois, segundo entende, o próprio Deus está nos punindo. Então, diante dessa prova cabal, ele se deleita, se sente “por cima” (afinal de contas, ele não está sendo punido. Logo, é alguém melhor!), repete seus jargões com um leve sorriso nos lábios e um brilho malicioso nos olhos, tenta falar com gravidade, fazendo o doente se sentir rebaixado à condição de um réu que ouve as correções de um sábio e grande juiz.

Todo esse modo de agir e sentir do amigo de Jó pode ter sua causa resumida em mais ou menos dez palavras: falta de conhecimento da verdade e falta de amor para com aquele que padece. A falta de conhecimento do amigo de Jó é no campo da teologia do sofrimento. Ele comete o erro de acreditar que a dor sempre decorre da punição de Deus! Ora, a Bíblia mostra que, de fato, Deus pune os seus filhos com doenças e até com a morte (1Co 11.27-32). Isso, porém, ele só faz às vezes. O amigo de Jó, contudo, acredita que a doença sempre tem como causa alguma iniquidade que cometemos, quando a própria história de Jó mostra que isso não é verdade.

Com efeito, Jó passou pelas maiores desgraças que um ser humano poderia enfrentar e, no entanto, não havia na terra homem mais justo do que ele (Jó 1.1,8). Ficar doente, portanto, pode sim ser resultado da disciplina de Deus, mas nem sempre é assim e, por isso, temos de ter cuidado para não julgar precipitadamente os outros como fazem os modernos amigos de Jó, sob pena de cairmos no desagrado de Deus (Jó 42.7-9).

Conforme eu disse acima, além da falta de conhecimento, o amigo de Jó também demonstra falta de amor por aquele que sofre. Note bem: quando alguém está doente, a Bíblia ensina que devemos nos aproximar dessa pessoa com compaixão, suprindo suas necessidades (At 20.35), orando por sua melhora (Tg 5.15) e promovendo de alguma forma o seu bem-estar (Tg 5.14). Decididamente, a enfermidade de um irmão não fornece o contexto para dançarmos vitoriosos sobre o quase cadáver dele; não nos autoriza a, satisfeitos e orgulhosos, saborear palavras do tipo “tá vendo?”. Tampouco nos concede o direito de aumentar o seu sofrimento lançando culpas (imaginárias ou não) em seu rosto.

Na verdade, se tivermos motivo para acreditar que o sofrimento do nosso irmão decorre de pecado e disciplina, o correto é esperar que tudo passe e, então, quando a dor se tornar somente uma lembrança, dizer a ele: “Irmão, eu testemunhei seu sofrimento e chorei ao vê-lo padecer tanto. Eu orei muito por sua melhora e agora que tudo passou eu me regozijo e suplico ao Senhor que confirme sua restauração. No entanto, como seu irmão na fé, com temor, tremor e humildade eu gostaria de lhe dizer que acredito que tudo que o irmão enfrentou talvez tenha como causa a mão de um Deus amoroso que disciplina seus filhos. Eu o conheço faz algum tempo e sei que o irmão nutre tal e tal pecado em sua vida. Eu não sou seu juiz, nem me julgo acima de você, mas, como irmão na fé, movido pelo amor e sob a autoridade da Palavra, eu gostaria de incentivar você a avaliar se tudo que ocorreu não foi uma forma que Deus usou para chamar a sua atenção para esse problema. Na verdade, não sei se foi essa a causa da sua dor, porém, como seu irmão, eu me senti no dever de dizer isso a você”.

A gente nunca consegue prever como as pessoas vão reagir a palavras como essas. Deus, no entanto, conhece os corações e sabe o que nos move nessas horas: se é o orgulho malicioso e julgador do amigo de Jó ou se é o amor fraterno, sincero e preocupado do discípulo de Jesus. Além disso, no fundo no fundo, aquele que é admoestado também perceberá se estamos sendo bondosos ou não e, sob a influência do Espírito Santo, será levado ao arrependimento.

O que deve ser evitado, porém, a todo custo, é tomar o caminho do amigo de Jó. Afinal de contas, amigos de Jó cedo ou tarde também adoecem. Cedo ou tarde também são visitados no hospital. Seria muito chato sermos um deles e, no dia do sofrimento, alguém (outro amigo de Jó) nos fazer tomar nosso próprio remédio.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Igreja Batista Redenção
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Deus escolheu alguns porque previu a fé neles?


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A teologia arminiana afirma que Deus escolheu os que seriam salvos com base em sua presciência. Segundo essa concepção, Deus olhou para o futuro e viu os homens que creriam, elegendo-os então. Isso levanta a seguinte pergunta: Quem fixou o futuro para o qual Deus olhou? Se foi ele mesmo (e ao crente não resta outra opção), por que teve que consultá-lo? E mais: Se foi o próprio Deus quem estabeleceu o futuro no qual poderia ver de antemão quem creria, isso não equivale a dizer que ele próprio estabeleceu quem creria? Ora, é exatamente isso o que os calvinistas afirmam. Então, por que não concordar com eles de uma vez? Dentro ainda dessa discussão, deve-se considerar que a Bíblia diz que a fé é dom de Deus (Ef 2.8 [o "isto" mencionado nesse versículo se refere ao processo todo que abrange a fé]; Fl 1.29; Hb 12.2). Se é, pois, o Senhor quem concede a fé, por que ele teria que “descobrir” quem creria e, então, escolhê-los?

A posição arminiana, contudo, nesse aspecto, não enfrenta dificuldades apenas por causa da falta de lógica em seus argumentos. A ideia de que Deus elege com base no que antevê também encontra problemas teológicos insolúveis. Por exemplo: se Deus escolhe o homem baseando-se em algum bem visto nele previamente, então a graça de Deus desaparece para dar lugar a uma forma disfarçada de retribuição. Com efeito, se a visão arminiana estivesse correta, a eleição divina deixaria de ser gratuita e incondicional, tornando-se a recompensa dada por Deus àqueles em quem anteviu algo que o agradou, a saber, a fé resultante do uso adequado da graça preveniente. No arminianismo, portanto, a gratuidade da eleição é demolida e, em seu lugar, é edificada uma escolha divina meritória. No fim das contas, o homem é salvo porque Deus o considera digno disso, ao descobrir previamente que ele, de si mesmo e por si mesmo, fará bom uso da graça capacitadora dada a todos.

Ora, o Novo Testamento não dá margem alguma para essa hipótese. De fato, Paulo ensina que a graça de Deus não procura homens dignos, mas sim cria homens dignos (Cl 1.12). A triste realidade é que se Deus procurasse homens dignos para então escolhê-los, ninguém seria salvo. Aliás, a beleza, infinitude e magnificência da graça de Deus é percebida precisamente no fato dele ter escolhido homens que mereciam somente a sua ira (Ef 2.3), pessoas em quem o Senhor não viu virtude alguma, mas sim pecado, maldade, rebelião e ódio contra ele (Rm 5.6-10).

Contrariando o ensino arminiano, o Novo Testamento também realça que a eleição não é a recompensa da fé, mas sim a sua causa (2Ts 2.13), de modo que o indivíduo não é eleito porque vai crer, mas sim vai crer porque é eleito. Realmente, o texto sagrado sempre coloca a eleição como a razão da fé e não o contrário. A escolha de Deus não depende, assim, da fé prevista. É a fé que depende da escolha prévia. É por isso que em Atos 13.48, Lucas afirma que entre os gentios que ouviam a pregação de Paulo em Antioquia da Pisídia, “creram todos os que haviam sido designados para a vida eterna”. Na dinâmica da frase de Lucas, a eleição é a causa, não o efeito da fé.

Como então lidar com Romanos 8.29 e 1 Pedro 1.2? Uma análise simples mostrará que esses textos, na verdade, não amparam em nada a concepção arminiana. Considere-se, a princípio, a frase, “aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou” encontrada em Romanos 8.29. Será que essa frase corrobora mesmo a tese de que Deus primeiro anteviu quais pessoas creriam e então as predestinou para a salvação? De modo nenhum! Para descobrir o verdadeiro significado da expressão “conheceu de antemão” basta observar a sua única outra ocorrência nos escritos de Paulo.

Essa expressão é, na verdade, a tradução do verbo grego proginósko e é usada outra vez pelo apóstolo somente em Romanos 11.2, onde escreve sobre Israel: “Deus não rejeitou o seu povo, o qual de antemão conheceu”. Ora, é evidente que aqui, conhecer de antemão não significa prever a fé, uma vez que Israel nunca creu na mensagem de Deus (At 7.51-53). Resta, pois, somente um sentido possível para a fórmula sob análise, a saber: Deus conheceu de antemão a quem mostraria seu favor. Esse é, portanto o modo como Romanos 8.29 deve ser entendido. Não se trata de Deus saber previamente quem creria, mas sim de Deus saber previamente a quem favoreceria. Esse entendimento, aliás, se harmoniza plenamente com outras passagens do Novo Testamento onde ser conhecido por Deus significa ser alvo do seu favor (1Co 8.3; Gl 4.9; 2Tm 2.19). Aliás, Em 1Pedro 1.20, existe a evidência de que o verbo proginósko também pode significar “fazer algo a fim de assegurar que um evento realmente ocorra”. Esse sentido também corrobora a tese defendida aqui (Veja-se ARICHEA, D. C.; NIDA, E. A. A handbook on the first letter from Peter. UBS handbook series. Helps for translators (42). New York: United Bible Societies, 1994.).

É assim também que o texto de Pedro deve ser interpretado na parte que diz: “escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai”. Note-se que nesse versículo, Pedro usa a preposição grega katá, traduzida como “de acordo com”, indicando que a escolha de Deus foi feita conforme ele sabia previamente que iria fazer. É, portanto, como se Pedro dissesse: “Vocês foram escolhidos conforme Deus Pai havia previsto que vocês seriam”. Ora, isso indica que Deus não escolheu os crentes porque anteviu a fé neles, mas sim porque sabia previamente a quem mostraria favor.

Na verdade, se Pedro quisesse indicar que Deus escolheu porque anteviu a fé, como ensinam os arminianos, ele certamente usaria a preposição diá, extremamente comum na língua grega e cujo significado, quando usada com o modo acusativo (como é o caso em 1Pe 1.2) é “por causa de”. A tradução, então, ficaria assim: “Vocês foram escolhidos por causa do pré-conhecimento de Deus Pai”. Isso sim indicaria que Deus previu a fé e, por causa disso, teria escolhido alguns. Porém, não é esse o caso aqui, de modo que a Bíblia permanece silente no tocante a qualquer suposta eleição divina alicerçada numa fé prevista.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Perfil do autor no Facebook

Calvinistas evangelizam?

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Há um mito que circula no meio evangélico que diz que os calvinistas não se preocupam em fazer evangelismo pessoal ou missões. Segundo os expoentes dessa lenda, isso ocorre porque os calvinistas creem na doutrina da predestinação e, uma vez que, segundo sua visão dessa doutrina, Deus já tem os seus eleitos a quem fatalmente irá salvar, não há nenhuma necessidade de evangelizar as pessoas, nem mesmo de orar para que alguém se converta.

Realmente, a soteriologia calvinista defende com unhas e dentes a santa doutrina da predestinação. E isso por uma razão muito simples: poucas doutrinas bíblicas são tão claras como essa. De fato, mesmo representando um atentado contra a orgulhosa lógica humana (Rm 9.19-21), a Bíblia é pródiga em suas afirmações referentes à soberania absoluta de Deus na salvação, que alcança graciosamente quem quer e endurece a quem lhe apraz (Jo 1.13; Rm 8.29-30; 9.18; Ef 1.5). É somente por isso que os calvinistas não abrem mão desse ensino tão controvertido que os torna alvo de constantes acusações falsas.

A questão, então, permanece: essa aceitação da doutrina da predestinação não inibe o trabalho de evangelismo dos calvinistas? Surpreendentemente, a resposta é um enfático não. Aliás, é até o oposto o que acontece! Com efeito, tanto a Bíblia como a história do cristianismo mostram que a doutrina da predestinação tem se constituído num dos maiores incentivos à evangelização do mundo!

Considere-se, em primeiro lugar, o ensino bíblico. De que forma a Escritura destaca a eleição divina como um estímulo ao trabalho de pregação do evangelho? Basicamente, o texto sagrado faz isso de duas maneiras: afirmando que os eleitos de Deus estão espalhados pelas diversas comunidades ao redor do mundo; e ensinando que eles fatalmente atenderão à mensagem das Boas Novas em Cristo.

Jesus foi o primeiro a mostrar essas duas maravilhosas realidades. A certa altura do Evangelho de João, o evangelista conta que o Mestre fez uma intrigante afirmação: “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco [isto é, não são de Israel]. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). Em seguida, para mostrar que havia grande distinção entre esse grupo espalhado pelo mundo e as demais pessoas não escolhidas, ele dirigiu-se aos seus oponentes dizendo: “… vocês não creem, porque não são minhas ovelhas” (Jo 10.26). O Senhor ensinou, assim, que ele tem um povo espalhado pelo mundo, que as pessoas que compõem esse povo ainda estão por ser alcançadas, e que elas fatalmente atenderão ao convite da fé. Como um evangelista pode ser desencorajado diante disso?

O Evangelho de João insiste nessas verdades também em seu Capítulo 11. Ali, o evangelista comenta algumas palavras pronunciadas pelo sumo sacerdote, dizendo: “Ele não disse isso de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação judaica, e não somente por aquela nação, mas também pelos filhos de Deus que estão espalhados, para reuni-los num povo” (Jo 11.51-52). É mais do que claro aqui que Deus tem “filhos” dispersos pelo mundo. Esses “filhos” ouvirão a mensagem da cruz e serão, afinal, reunidos num povo.

Ora, com essas concepções em mente, seria possível um evangelista desanimar? É claro que não! Na verdade, sabendo disso, o missionário trabalhará ainda mais confiante, ciente de que as ovelhas de Jesus, os “filhos de Deus que estão espalhados”, cedo ou tarde, seguirão o Bom Pastor; sim, amanhã ou depois, serão reunidos pelo Pai. Além disso, o obreiro que aceita essas verdades não se sentirá fracassado ou frustrado no ministério quando não crerem na sua pregação. Antes, entenderá que os que a rejeitaram fizeram-no por não serem ovelhas do Senhor e seguirá avante, certo de que as ovelhas com certeza ouvirão e o alvo do Pai de reunir seus filhos num só povo será finalmente alcançado. Poderia haver estímulo maior para o trabalho evangelístico?

Na história de missões, quem primeiro se sentiu estimulado por essas verdades foi o apóstolo Paulo. Isso aconteceu quando ele esteve pregando em Corinto, um foco tenebroso da multiforme religião pagã, centro cosmopolita marcado por excessos de imoralidade e por todo tipo de devassidão. Corinto, talvez fosse, ao mesmo tempo, o maior desafio e o mais terrível pesadelo de qualquer missionário cristão; uma boa desculpa para o abandono do trabalho evangelístico.

Paulo esteve ali em cerca de 50 a.D., por ocasião da sua Segunda Viagem Missionária (At 18.1-18). Logo de início, sua presença e mensagem despertaram a oposição da comunidade judaica local que trabalhou intensamente para dificultar ainda mais a obra missionária em Corinto (At 18.6,12-13). Paulo, porém, não desistiu. Onde o apóstolo encontrou estímulo para continuar sua obra num ambiente tão difícil? A resposta é surpreendente: ele foi incentivado pela doutrina da eleição! O texto bíblico diz que, certa noite, o Senhor apareceu a Paulo numa visão e disse: “Não tenha medo, continue falando e não fique calado, pois estou com você, e ninguém vai lhe fazer mal ou feri-lo, porque tenho muita gente nesta cidade” (At 18.9-10).

Durante os dias do seu ministério terreno, o Senhor havia dito que tinha outras ovelhas que viviam em vários apriscos fora de Israel. Agora, o mesmo Senhor se manifesta a Paulo revelando que muitas dessas ovelhas estavam em Corinto. O apóstolo não devia, portanto, recuar. A realidade de que as ovelhas já estavam ali, somente esperando ouvir a voz do Supremo Pastor, devia incentivá-lo. Elas atenderiam a pregação e seriam salvas. Paulo ouviu isso tudo e permaneceu firme. Foi assim que a santa doutrina da eleição fez o apóstolo perseverar por mais um ano e seis meses no trabalho missionário em Corinto (1Co 18.11).

Cerca de dez anos mais tarde, Lucas escreveu essa e outras histórias de Paulo na obra que recebeu o título de Atos do Apóstolos. Foi, talvez, por perceber que a doutrina da eleição servia como estímulo para a evangelização que Lucas fez questão de frisar, justamente numa obra de história de missões, que os que acolhiam a pregação de Paulo eram somente os que faziam parte do rebanho de Cristo espalhado pelo mundo. “… E creram todos os que haviam sido designados para a vida eterna” (At 13.48), escreveu ele. Vê-se, assim, que o primeiro historiador da igreja aprendeu, por meio de suas pesquisas, que a eleição não somente estimula o trabalho do pregador, mas também garante o seu sucesso.

Conclui-se, assim, que, à luz da Bíblia, a doutrina da predestinação não desencoraja a obra missionária, fazendo exatamente o oposto. Deve-se, agora, observar como, em 2 mil anos de cristianismo, essa doutrina serviu como fonte de ânimo para os sucessivos propagadores da santa fé.

Se o argumento que diz que a doutrina da eleição desestimula a pregação do evangelho não se sustenta à luz da Bíblia, tampouco esse mito pode se manter de pé diante da análise histórica. Com efeito, se o ensino bíblico acerca da predestinação gerasse desmazelo no evangelismo, seus expoentes nada teriam feito em prol da expansão da fé e ficariam fechados dentro de suas igrejas, aguardando sua fatal extinção. No entanto, não é isso que se vê na história. Antes, um zelo ardente por missões moveu os expoentes da doutrina da eleição, conduzindo-os como pioneiros e mártires aos rincões mais distantes do mundo, sempre à procura das ovelhas dispersas que fatalmente ouviriam a voz do Pastor Divino.

O primeiro exemplo vem do próprio Calvino. Em suas Institutas da Religião Cristã, o grande reformador citou Agostinho de Hipona, dizendo:

“Porque não sabemos quem pertença ao número dos predestinados, ou não pertença, assim nos convém tratar que a todos queiramos venham a ser salvos. Assim acontecerá que, quem quer que seja que se nos haverá de deparar, esforcemo-nos por fazê-lo participante de nossa paz. Mas, nossa paz repousará somente sobre os filhos da paz (Mt 10.13; Lc 10.6). Portanto, quanto a nós concerne, deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio… A Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz a quem preconheceu e predestinou” (AGOSTINHO DE HIPONA. De correptione et gratia, XIV-XVI. In CALVINO João. As Institutas ou tratado da religião cristã, III:XXIII, 14. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989. Volume III, p. 426).

Calvino, contudo, não somente ensinou essas coisas. Ele também as pôs em prática. Uma prova disso está no fato de que, em Genebra, cidade onde atuou como pastor e estadista, foi criado, após 1545, o Fundo Francês, uma instituição que tinha como propósito central dar apoio material aos franceses pobres ali refugiados por causa da perseguição em sua terra natal. Calvino contribuía prodigamente para esse fundo e é provável que tenha sido um dos seus criadores. Ainda que os objetivos principais da instituição fossem no campo humanitário, é sabido que o Fundo Francês era também usado para fins missionários, sustentando pastores em Genebra que deveriam ser enviados à França.


É também preciso destacar que, em meados do século 16, havia em Genebra 38 tipografias, com cerca de 2 mil empregados, cujo trabalho dominante era imprimir literatura evangélica destinada aos países vizinhos, especialmente a França. Por conta disso, na década de 1540, Paris foi inundada pela literatura produzida em Genebra e as conversões começaram a ocorrer. Isso despertou a atenção e o desagrado do parlamento parisiense, o qual emitiu sucessivas listas de livros proibidos, nas quais eram incluídas quaisquer obras que expusessem ideias calvinistas. As gráficas de Genebra, porém, não paravam de lançar novos títulos, numa velocidade que o parlamento não podia acompanhar. Assim, as listas de livros censurados estavam sempre desatualizadas e as obras de Calvino continuavam a ser vendidas e lidas pelo povo francês.

Além disso, sendo impossível um controle absoluto sobre o comércio de literatura por parte das autoridades de Paris, os livros proibidos procedentes de Genebra eram vendidos no mercado negro. O resultado era que as conversões à fé evangélica não paravam de ocorrer na França. Os registros históricos apontam que, em 1562, dois anos antes de Calvino morrer, existiam pelo menos 1.250 congregações calvinistas naquele país, abrangendo mais de 2 milhões de membros! Foi, certamente, por causa desses extraordinários avanços que a Venerável Companhia de Pastores, outra instituição da Genebra de Calvino, enviou 151 missionários à França só no ano de 1561! (para mais detalhes, veja-se McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 203-222).

A obra missionária de Calvino também abrangeu a fundação da Academia de Genebra (1559) criada para treinar pastores e suprir a demanda que o crescimento do número de igrejas impunha aos reformadores. Muitos alunos dessa academia eram estrangeiros refugiados (franceses, ingleses, holandeses, italianos e alemães) que, depois de formados, voltavam para seus países de origem ensinando o que ali haviam aprendido. Entre esses alunos esteve John Knox, o grande reformador escocês. Foi assim que a escola fundada por Calvino tornou-se um grande centro missionário, irradiando a fé evangélica para o mundo inteiro.

É preciso ainda lembrar que os primeiros missionários protestantes que chegaram ao Brasil foram enviados precisamente por João Calvino. Eles vieram, a pedido de Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), com o objetivo de ensinar a fé reformada aos colonizadores franceses do Rio de Janeiro e evangelizar os indígenas. O grupo chegou em março de 1557, mas, menos de um ano depois, foi expulso devido a conflitos doutrinários com Villegaignon. Esses conflitos resultaram na produção da Confissão de Fé da Guanabara (1558), um documento de orientação reformada escrito por cinco calvinistas leigos aprisionados por Villegaignon. Desses cinco, quatro foram estrangulados, pondo fim ao trabalho missionário de Calvino no Brasil (mais informações sobre os calvinistas enviados de Genebra ao Brasil, bem como acerca do conteúdo da Confissão de Fé da Guanabara, veja-se NASCIMENTO, Adão Carlos e MATOS, Alderi Souza de. O que todo presbiteriano inteligente deve saber. Santa Bárbara d’Oeste: SOCEP, 2007. p. 39-48).

No século 17, o Brasil, mais uma vez, foi cenário da atividade missionária calvinista. Isso aconteceu como resultado indireto dos conflitos políticos entre Espanha e Holanda. Movido por esses conflitos, Filipe II, da Espanha, proibiu as relações comerciais entre os holandeses e todas as áreas de dominação espanhola, o que abrangia a América do Sul. Nessa época, a Holanda dominava a distribuição de açúcar na Europa e não podia abrir mão do comércio com a empresa açucareira nordestina. Por isso, em 1621, foi criada a Companhia das Índias Ocidentais, com sede em Amsterdã, cujo objetivo era a exploração mercantil na América.

A companhia promoveu duas invasões holandesas ao Brasil: uma na Bahia (1624-1625) e outra em Pernambuco (1630-1654). Esta última foi a mais bem sucedida e, para garantir a paz e os seus interesses no Brasil, a companhia enviou um representante, o conde João Maurício de Nassau, que governou o Brasil Holandês de 1637 a 1644.

Maurício de Nassau era crente, membro zeloso e assíduo frequentador da Igreja Cristã Reformada. Seu governo foi brilhante, cobrindo uma área que ia do Sergipe até o Maranhão. Ocorreu, porém, que a Companhia das Índias passou a adotar políticas que desagradavam os senhores de engenho, exigindo o pagamento imediato de empréstimos e impondo certos limites à liberdade religiosa. Quando, então, Nassau pediu demissão de seu cargo, iniciou-se a luta contra os holandeses. A chamada Insurreição Pernambucana (1645-1654) resultou na expulsão dos invasores que passaram a produzir açúcar nas Antilhas.

Foram os holandeses que trouxeram para o Brasil a igreja calvinista. Seu nome oficial era Igreja Cristã Reformada e contava com 22 congregações locais espalhadas pelo Brasil Holandês. Ela adotava confissões de fé calvinistas, além de outros credos ortodoxos antigos, e realizou uma intensa obra missionária, especialmente entre os índios. O primeiro pastor dessa igreja a se envolver com a evangelização dos nativos foi Vincentius Joaquimus Soler. A princípio, ele pregou na aldeia Nassau, no Recife (atual Bairro das Graças) e somente mais tarde, a pedido dos nativos da capitania da Paraíba, dedicou-se à evangelização dos índios. Cabe, porém, a David Doreslaer, cujo trabalho iniciou-se em 1638, o título de primeiro pastor missionário de tempo integral entre os nativos do Brasil.

O trabalho missionário dos calvinistas holandeses cresceu muito, a ponto de, em 1641, ser celebrada a primeira Ceia do Senhor na aldeia do cacique Pedro Poti. Várias tribos pediam que a Igreja Cristã Reformada lhes enviasse pregadores e congregações indígenas foram abertas. Até os antropófagos tapuias pediram o envio de missionários. Infelizmente, nem sempre essas solicitações podiam ser atendidas, até mesmo em virtude da instabilidade decorrente dos conflitos entre Holanda, Espanha e Portugal. Apesar disso, 17% do trabalho pastoral era dedicado aos índios, graças, inclusive, à iniciativa pessoal de vários ministros que viam a pregação aos nativos como parte obrigatória do seu ministério.

Em seu trabalho, os pastores calvinistas ganhavam a confiança dos nativos dando-lhes assistência social (remédios, alimentos, proteção, etc.), traduziam partes da Escritura para o tupi, produziam literatura reformada em português e em tupi, primavam pela educação e formação de professores índios (alguns se tornaram “consoladores” ou evangelistas) e zelavam não somente pelo ensino doutrinário, mas também pelo ideal de santidade que deve acompanhar a fé. De fato, o puritanismo holandês via a Bíblia como norma de fé e prática (norma credendi et agendi) e isso foi transmitido aos índios.

Infelizmente, com a expulsão dos holandeses do Brasil, em 1654, a Igreja Cristã Reformada também partiu. Os índios convertidos foram incluídos no “Perdão Geral” promulgado pelos portugueses. Contudo, sem acreditar nesse perdão, os índios membros da primeira igreja evangélica verdadeiramente brasileira fugiram para a Serra de Ibiapaba, no Ceará, a 750 km do Recife. O local tornou-se, então, o que o padre jesuíta Antonio Vieira chamou de “Genebra de todos os sertões do Brasil”, repleta de índios calvinistas que consideravam o catolicismo uma fé falsa.

No mesmo ano da expulsão dos holandeses, os índios da Serra de Ibiapaba enviaram uma pequena delegação a Holanda, suplicando socorro em prol do povo que havia abraçado a fé calvinista. Porém, a Igreja Cristã Reformada viu-se atada pelas negociações de paz entre Portugal e Holanda e não enviou auxílio. Por isso, a igreja indígena morreu. Aos poucos, seus membros foram novamente submetidos a Roma ou massacrados como hereges. Foi assim que terminou um dos capítulos mais belos da história da igreja reformada no Brasil; e esse capítulo prova quão falaciosa é a acusação de que os calvinistas não se importam com a evangelização dos povos sem Deus. (A obra mais completa sobre o tema, escrita em português, é, sem dúvida, a de Franz Leonard Schalkwijk: Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654. São Paulo: Vida Nova, 1989. O autor é pastor reformado holandês e ministrou muitos anos no Brasil, tendo realizado profundas pesquisas tanto aqui como em sua terra natal).

As provas históricas do empenho evangelístico dos calvinistas são inumeráveis. Porém, para concluir esse assunto, é suficiente apontar somente mais dois personagens: George Whitefield e Charles Haddon Spurgeon, sem dúvida os maiores pregadores de todos os tempos, ambos fervorosos expoentes da fé reformada, com sua ênfase na doutrina da predestinação dos santos (Informações mais completas sobre George Whitefield podem ser obtidas em LLOYD-JONES, D.M. Os Puritanos: suas origens e sucessores. São Paulo: PES, 1993).

George Whitefield nasceu em Gloucester, na Inglaterra, em 1714, e morreu em Newbury Port, nos Estados Unidos, em 1770. Ele viveu menos de sessenta anos, mas dificilmente a história poderá mostrar um homem mais zeloso no trabalho de proclamação das Boas Novas aos perdidos. De fato, Whitefield foi o maior pregador da Inglaterra no século 18 e, certamente, um dos mais notáveis evangelistas de todos os tempos. Com certeza, ele foi o principal líder do Grande Avivamento evangélico que varreu a Inglaterra há mais de duzentos anos.

Whitefield começou a pregar em 1736 e, já no ano seguinte, era capaz de reunir grandes multidões em Londres dispostas a ouvi-lo. A ele cabe a honra de ter sido o primeiro evangelista da igreja moderna a pregar ao ar livre, rompendo antigas tradições eclesiásticas em prol da expansão da fé. Whitefield usou essa estratégia pela primeira vez em 1739, motivado pelas terríveis informações que lhe chegaram acerca da vida depravada dos trabalhadores das minas de carvão que viviam numa vila perto de Bristol. A princípio ele pregou ao ar livre para um grupo de cem homens daquela vila, mas seu impacto foi tão grande que logo o número passou para 5 mil, superando mais tarde os 20 mil ouvintes. Aquelas pessoas nunca tinham entrado numa igreja e, mesmo cansadas e sujas em virtude do trabalho nas minas de carvão, não iam para casa, preferindo ficar de pé ouvindo a pregação de Whitefield.

A partir de então e até o fim da vida, Whitefield se dedicou à pregação em lugares abertos, alcançando dezenas de milhares de pessoas tanto na sua terra natal como na Escócia, onde esteve catorze vezes. A partir de 1738, Whitefield fez também diversas viagens aos Estados Unidos a fim de pregar o evangelho ali. Ele morreu durante sua sétima visita àquele país. Sua coragem em atravessar o oceano treze vezes em suas idas e vindas à América, enfrentando todos os perigos que essa viagem representava no século 18, mostra o zelo missionário desse pastor calvinista que, em 34 anos de ministério, pregou cerca de 18 mil sermões!

Proclamando suas mensagens ao ar livre ao longo de toda a vida, Whitefield enfrentava qualquer situação, mesmo as mais difíceis. Frio, calor, chuva e neve, nada disso o impedia de anunciar a Palavra às multidões que, também sob essas condições se ajuntavam para ouvi-lo. Ele pregava cerca de seis vezes por dia e fez isso por mais de três décadas! Não tinha descanso no trabalho, submetendo seu corpo a severas tensões. Foi por isso que, extremamente exausto, após árduos esforços para pregar uma última vez, faleceu em Newbury Port, Massachusetts, com apenas 56 anos de idade.

Ninguém mais do que George Whitefield provou como a fé calvinista move o crente ao evangelismo. Sendo árduo defensor da doutrina da eleição soberana de Deus, ele foi um evangelista incomparável, superando todos do seu tempo no nobre trabalho de alcançar os escolhidos do Senhor. Whitefield pregou para a aristocracia inglesa, para os homens humildes do campo e das minas e para as crianças dos orfanatos, tanto em sua terra natal como em regiões distantes dali. A fé reformada não o desencorajava. Muito pelo contrário. Foi essa fé que se constituiu na base de todo o seu empenho, por décadas a fio, até a morte. Hoje, os que dizem que calvinistas não evangelizam, devem estudar a vida de George Whitefield. Isso, certamente, os fará mudar de opinião!

Uma dramática mudança de opinião acerca do zelo evangelístico calvinista também ocorrerá no crítico da fé reformada que estudar a vida de Charles Haddon Spurgeon (1834-1892), notável pastor batista inglês conhecido como o “Príncipe dos Pregadores” (sobre a vida de Spurgeon, leia Gigantes da fé, de Franklin Ferreira, publicado pela Editora Vida, páginas 270 a 278).

Mesmo pertencendo a uma família de tradição protestante e sendo criado sob a forte influência de seu avô, um pastor congregacional, Spurgeon só se converteu realmente aos dezesseis anos de idade. Logo no início de sua vida cristã, ele mostrou grande preocupação pelas almas, dedicando-se à distribuição de folhetos, ao ensino na escola dominical e, eventualmente, à pregação. Aos poucos, porém, suas habilidades como comunicador da Palavra de Deus começaram a aflorar e Spurgeon viu sua fama de pregador crescer quando ainda era bem jovem.

Em 1852, ele se tornou pastor e, dois anos depois, assumiu o ministério na Capela Batista de New Park Street, em Londres. Seu desempenho ali como pregador e evangelista atraiu tantas pessoas que as ruas ao redor da igreja logo se tornaram intransitáveis por conta da multidão que afluía para ouvir o jovem pastor. Em pouco tempo, a igreja teve de se mudar para Newington, onde, em 1861, foi construído o Tabernáculo Metropolitano, que abrigava cerca de 12 mil pessoas. O local ficava repleto de homens e mulheres desejosos de ouvir os sermões ardentes de Spurgeon que anunciava o Evangelho com uma paixão e clareza nunca vistas em nenhum outro pregador daqueles dias.

Charles Spurgeon era calvinista convicto e seus sermões são prova cabal desse fato (no Brasil, os sermões de Spurgeon têm sido publicados especialmente pela Editora Fiel e pela PES: Publicações Evangélicas Selecionadas). Defendendo vigorosamente a doutrina da predestinação dos santos e a eleição incondicional, ele foi, ao mesmo tempo, um zeloso evangelista de renome mundial, pregando em diversos países da Europa, tanto em igrejas ou em amplos salões como ao ar livre. Ele pregava de oito a doze vezes por semana e chegou a falar para um público de mais de 23 mil pessoas, no Crystal Palace, em Londres.

Tantas foram as pregações de Spurgeon que, quando seus sermões passaram a ser publicados, a partir de 1855, a obra abrangeu 63 volumes, com mais de 3.500 homilias. Desejoso de que a mensagem de Cristo alcançasse o maior número possível de pessoas, Spurgeon se esforçava para que as publicações dos sermões fossem semanais, revisando ele próprio os textos antes que chegassem ao público. Como resultado dessa imensa obra evangelizadora, Spurgeon batizou cerca de 15 mil pessoas ao longo de quarenta anos de ministério pastoral. Mais tarde, seus sermões foram traduzidos para diversos idiomas, transformando vidas em todo o mundo.

Sempre preocupado com a divulgação da mensagem cristã, Spurgeon também começou um trabalho de treinamento de evangelistas e pastores, o que deu origem ao posteriormente chamado Spurgeon’s College. Essa instituição existe até hoje, adotando a mesma visão do seu fundador e formando evangelistas, missionários e pastores.

Charles Spurgeon adotava uma concepção ortodoxa das Sagradas Escrituras e, por isso, passou a ser fortemente criticado pelos membros liberais da União das Igrejas Batistas da Inglaterra da qual sua igreja fazia parte. Por causa disso, em 1887, ele se desligou da união e, sob severa oposição, viu sua saúde minguar. Spurgeon tinha gota, reumatismo e uma enfermidade crônica degenerativa incurável chamada Doença de Bright. Ele morreu aos 57 anos. Grandes cortejos foram realizados em Londres por ocasião de seu sepultamento no cemitério de Norwood. Naquele dia, 31 de janeiro de 1892, o Senhor tomou para si um dos maiores evangelistas de todos os tempos.

Quem conhece a vida e os sermões de Spurgeon vê quão grande é o impulso que a doutrina da eleição incondicional dá ao evangelismo. Nota-se que, encorajado pelo precioso ensino acerca da predestinação dos santos, os homens de Deus se lançam com maior empenho na busca daqueles que o Senhor escolheu e trazem para o seio da igreja os convertidos verdadeiros em quem a graça de Deus realmente atuou.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Igreja Batista Redenção
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O Pentecostalismo e seus Danos à Igreja de Deus

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A. Os Três Perigos

Ao longo de sua história, a igreja cristã tem enfrentado três graves perigos: o paganismo, o papismo e o pentecostalismo.

O paganismo ameaçou a igreja logo nos primeiros anos de sua existência, especialmente por meio de um misto de religiões, filosofias e fábulas que mais tarde ficou conhecido como gnosticismo. Esse modelo exercia forte atração sobre os cristãos menos preparados porque, além de oferecer experiências místicas, como visões e coisas do tipo (Cl 2.18), também impunha aos seus seguidores normas de conduta que pareciam piedosas — regrinhas como “não pode isso”, “não pode aquilo” (Cl 2.20-23). O maior atrativo do gnosticismo, porém, estava na alegação de que seus adeptos formavam uma elite espiritual detentora de um grau de espiritualidade e conhecimento (gnosis) que outras pessoas eram incapazes de ter.

O papismo, por sua vez, desenvolveu-se em decorrência de processos muito mais longos e complexos, iniciados já no século 2, e que culminaram no surgimento de uma espécie de príncipe eclesiástico com autoridade universal, supostamente dotado de infinitos poderes temporais e espirituais — uma espécie de deus, reconhecido, aliás, como infalível!

Por causa do papismo, a igreja medieval ficou muitas vezes nas mãos de homens inescrupulosos, imorais e corruptos que, em nome de Cristo e em benefício próprio, cometeram atrocidades como as guerras das Cruzadas, os crimes da Inquisição e a exploração impiedosa do povo por meio da venda de relíquias e de indulgências. O caos e a vergonha a que o papismo lançou a igreja deram ensejo à Reforma Protestante do século 16.

O terceiro perigo, o pentecostalismo, é de todos o mais recente e também o mais danoso, posto que abriga elementos dos dois primeiros e, conforme será demonstrado, trouxe prejuízos para o cristianismo que nem mesmo os piores inimigos da fé foram capazes de causar nesses 2 mil anos de história eclesiástica.

O surgimento do movimento pentecostal geralmente é datado de 1906, ano em que William Joseph Seymour, um pregador afro-americano, iniciou reuniões num barracão na Rua Azuza, número 312, em Los Angeles, EUA. Nessas reuniões, a ênfase era a busca do batismo com o Espírito Santo, o que Seymour cria ser uma experiência mística pós-conversão, acompanhada pelo falar em línguas.

Ora, a Bíblia ensina que o batismo do Espírito Santo é dado a todos os crentes, sem que eles precisem se esforçar para obtê-lo (1Co 12.13; Gl 3.2). Também ensina que isso ocorre no momento da conversão (Ef 1.13), sem nenhuma necessidade de ser evidenciado pelo dom de línguas, já que, na Igreja Primitiva, esse dom era dado somente a alguns (1Co 12.30).

Contudo, os seguidores de Seymour criam que o batismo do Espírito Santo era uma espécie de segunda bênção (a primeira bênção seria a conversão) dada por Deus somente a quem a buscasse com orações, jejuns, clamores, lágrimas e vigílias. Por isso, testemunhas oculares relataram que, na Rua Azuza, as pessoas passavam dias e noites gritando, chorando, gemendo, uivando, pulando, girando e se contorcendo, enquanto clamavam pela “bênção”. Já os que eram “batizados” balbuciavam o que criam ser línguas estranhas e, em êxtase, caíam no chão onde ficavam rolando ou se sacudindo, numa manifestação frenética de loucura total. Outros, ainda, desmaiavam e ficavam deitados por horas a fio, inertes como se estivessem mortos.

Tudo isso, pensavam, era necessário e valia a pena, pois o batismo do Espírito Santo, uma vez recebido, elevaria o crente a um novo e mais rico patamar espiritual, tornando-o participante de uma elite de homens santos e fazendo-o desfrutar de uma vida repleta de experiências poderosas e arrebatadoras com Deus.

Foi dito aqui que o primeiro grande perigo que ameaçou a igreja de Cristo foi o paganismo manifesto em doutrinas gnósticas. Pois bem… O pentecostalismo demonstrou ser um dos maiores danos que já sobrevieram à igreja porque, com sua ênfase numa doutrina jamais ensinada nas Escrituras, trouxe de volta para o cristianismo precisamente aquelas velhas noções pagãs, apegando-se ao êxtase, ao frenesi espiritual e, especialmente, ao principal conceito gnóstico da existência de uma elite espiritual que se situa acima dos crentes comuns.

Então, como ocorreu com o gnosticismo nos séculos 1 e 2, a possibilidade de provar emoções novas e de fazer parte de uma elite espiritual fez com que o pentecostalismo atraísse uma imensa massa de pessoas ignorantes, ávidas por experiências místicas e sedentas por conquistar o reconhecimento e a admiração dos seus correligionários.

Conforme dito anteriormente, a segunda maior ameaça sofrida pela igreja ao longo dos séculos foi o papismo. Ora, o pentecostalismo também não deixou de fora os principais elementos desse mal. Com efeito, além de trazer novamente para a igreja de Cristo o velho paganismo combatido pelos pais apostólicos do século 2, o movimento pentecostal trouxe também para a igreja evangélica o velho papismo combatido pelos reformadores do século 16. A diferença é que o papismo pentecostal é um papismo piorado.

De fato, se no romanismo foi acolhida a figura de um papa apenas, no movimento pentecostal ocorreu a diabólica proliferação de um exército de pequenos papas locais, todos reivindicando autoridade divina e infalibilidade absoluta sob os títulos de bispo, apóstolo, profeta ou patriarca.

Com incrível ousadia, todas essas figuras alegam que Deus lhes fala diretamente e, à semelhança dos pontífices medievais, não aceitam que suas opiniões ou condutas sejam questionadas por ninguém e em nenhum grau. Também à semelhança dos papas renascentistas, esses facínoras exploram a boa-fé do povo e juntam tesouros para si, vendendo quinquilharias que dizem ser santas e dotadas de poder. Na verdade, isso acontece hoje numa escala tão grande que é fácil concluir que os papas medievais, em termos de engano e estelionato, teriam muito que aprender com os pequenos papas da atualidade que reinam soberanos nas igrejas pentecostais.

Β. Uma fábrica de seis males

Se o pentecostalismo abriga elementos do paganismo e do papismo, há também outras razões muito mais perceptíveis que comprovam que essa vertente dita evangélica é um risco terrível para a causa cristã. Para expor essas razões, basta descrever o pentecostalismo como uma fábrica de seis males: heresia, superstição, falsos irmãos, hipocrisia, desordem e desilusão. Neste artigo serão expostos somente os dois primeiros males. Os demais serão abordados na parte 3 desta série.

Por que podemos afirmar seguros que o pentecostalismo é uma fábrica de heresias? A resposta é simples e lógica: Crendo que Deus fala diretamente aos seus apóstolos e profetas, bem como àqueles que foram agraciados com a “segunda bênção”, os pentecostais não valorizam o estudo teológico, a exegese ou mesmo as lições mais elementares da hermenêutica bíblica. Para que — dizem eles — se afadigar na análise do texto bíblico, no aprendizado das línguas originais ou na leitura de obras de profundidade doutrinária se Deus nos fala diretamente? Aliás, no afã de ressaltar essa fábula, alguns pastores mais criativos deixam uma cadeira vazia ao seu lado no púlpito, afirmando que aquele lugar é ocupado por um anjo ou pelo próprio Espírito Santo que, pondo-se ao seu lado, sussurra as coisas que ele deve dizer à multidão.

Agravando essa situação, grande parte dos líderes pentecostais se opõe ferozmente ao estudo da teologia, dizendo que “a letra mata” (2Co 3.6). Ora, o fácil contexto dessa citação é suficiente para mostrar que Paulo fala ali da Lei Mosaica (a letra) e seu impacto mortal sobre aqueles que tentam ser justificados através da sua observância. Para os pentecostais, porém, nesse texto, Paulo, justamente o apóstolo mais estudioso do Novo Testamento (At 26.24), reprovava o dedicado estudo da Palavra de Deus!

O resultado dessas proezas é que o pentecostalismo acaba sendo um prato cheio para os que se deleitam na preguiça intelectual e dá ensejo para que homens sem preparo, seguindo as imaginações de seu próprio coração e chamando tudo o que lhes vêm à mente de “revelação”, ensinem aos seus seguidores absurdos que vão desde as tolices mais chocantes até as heresias mais deploráveis e destruidoras. Na verdade, esse fato é tão notável e evidente que qualquer crente com conhecimento teológico básico sabe que é mais fácil encontrar um dente na boca de um torcedor corintiano do que uma frase de alto valor doutrinário na boca de um pastor pentecostal.

De fato, poucas vezes na história do pensamento cristão existiu uma fábrica de heresias tão produtiva como o pentecostalismo. Há algum tempo eu adquiri o grau de mestre (Th.M) em teologia histórica e posso afirmar depois de muitos anos de estudo que nem Márcion, o arqui-herege do século 2, nem os montanistas, nem os defensores da cristologia heterodoxa que ameaçou a igreja nos séculos 4 e 5, nem os cátaros, nem o catolicismo medieval, nem os radicais da época da Reforma, nem as seitas pseudocristãs da atualidade superaram o pentecostalismo na produção de doutrinas blasfemas, desvios teológicos, erros de interpretação, ensinos destruidores, lições vergonhosas e propostas antibíblicas.

Quem duvida, deve estudar esses movimentos e compará-los com as aberrações que dia após dia brotam dos púlpitos pentecostais. Sem dúvida, o crente sincero se sentiria mais à vontade numa missa dirigida pelo Papa Inocêncio III do que num “culto de libertação” realizado por pentecostais. Se bem que, na verdade, o melhor mesmo seria não comparecer em nenhuma das duas reuniões.

O segundo mal que a máquina pentecostal produz incansavelmente é a superstição. Mais uma vez, a noção de que Deus fala diretamente a seus profetas, revelando coisas novas a cada dia, fez com que o pentecostalismo abrisse as portas para o misticismo religioso, repleto de crendices toscas inventadas por pessoas que diziam ter recebido uma “revelação” qualquer.

Os reformadores do século 16 afirmavam que a superstição é filha da ignorância. Assim, sem conhecer a doutrina bíblica e fiando-se nas ilusões de inúmeros sonhadores, os pentecostais passaram a acreditar em frases mágicas (“eu determino”, “tá amarrado”; “eu tomo posse”, “eu não aceito…”), em rituais de quebra de maldição, na força maior de orações feitas de madrugada, no poder de objetos ungidos com óleo de cozinha e até em água milagrosa obtida por meio de um copo deixado sobre o aparelho de TV durante a transmissão de um programa evangélico qualquer.

Percebendo a facilidade com que as massas criam nessas fábulas, homens perversos e impostores foram atraídos para o meio pentecostal onde conquistaram facilmente postos de liderança (para se destacar no meio pentecostal basta gritar, sapatear e rodopiar bastante). Então, movidos pela ganância, esses homens inventaram ainda mais superstições, criaram um amplo comércio de relíquias muito semelhante ao que a igreja católica explorou na Idade Média e enriqueceram vendendo cacarecos ungidos para o povo iludido, prometendo saúde e prosperidade por meio dessas coisas (2Pe 2.1-3).

A massa desesperada seguiu esses golpistas, acreditando que sua vida ia melhorar e, então, os salões pentecostais ficaram lotados. Foi assim que o pentecostalismo fez com que a igreja do Senhor recebesse a fama de um covil de ladrões e a maravilhosa fé cristã, exposta e defendida por gigantes e santos do passado, ficasse com a pecha de uma religião de feiticeiros, muito semelhante à macumba, ao candomblé, ao baixo catolicismo e ao fetichismo de tribos primitivas. Com efeito, nenhuma outra estratégia do diabo foi capaz de emporcalhar tanto o santo nome da igreja de Deus.

O terceiro mal que o pentecostalismo fabrica incessantemente são os falsos irmãos. Infelizmente, ao contrário do que muitos pensam, um número enorme de pentecostais jamais conheceu a salvação anunciada no verdadeiro evangelho. Isso acontece especialmente porque quem se filia a esse movimento geralmente o faz em busca dos milagres de Cristo e não do seu perdão. Porém, outra causa para o grande número de incrédulos dentro dessa vertente evangélica está no fato de que os pentecostais acreditam piamente na heresia arminiana da perda da salvação.

Consequentemente, ainda que afirmem em teoria que a salvação é somente pela fé em Cristo, na prática, os pentecostais vivem tentando se manter salvos por meio da religiosidade aparente, das práticas rituais e da observância de regrinhas inventadas pela igreja. Por incrível que pareça, muitos deles chegam a acreditar que preservam a salvação porque não deixam a barba crescer ou porque nunca vestiram uma bermuda!

Tudo isso mostra que muitos pentecostais jamais entenderam as Boas Novas de Cristo, sendo apenas incrédulos cheios de medo tentando melhorar de vida ou buscando ser salvos pelo esforço próprio.

Obviamente, essa presença enorme de falsos crentes no meio evangélico, produzida especialmente pelo movimento pentecostal, é uma das principais causas do descrédito a que foi lançado o cristianismo nos tempos modernos.

A hipocrisia é o quarto mal que a máquina pentecostal fabrica. A ênfase numa espiritualidade marcantemente exterior, com gritos, pulos e quedas no chão, deu espaço para constantes representações teatrais. Com efeito, simulando o que chamam de “transbordar do Espírito”, muitos pentecostais sapateiam, rodopiam e se contorcem como loucos, tudo para convencer os outros de que são fervorosos espiritualmente. Também a altíssima valorização do falar em línguas impeliu esse povo ao fingimento, levando-os a repetir, por conta própria, três ou quatro sílabas desconexas a fim de dar a impressão de que foram agraciados com o maravilhoso dom descrito em Atos 2 (muitos deles, depois de “falar em línguas de anjos” no domingo, falam a língua dos demônios durante a semana na forma de palavrões!). Buscando ainda status dentro da igreja, muitos pentecostais fingem profetizar, quando, na verdade, somente dizem qualquer coisa que lhes venha à mente e que possa estar relacionada à vida alheia. Naturalmente, todo esse teatro é facilmente percebido por qualquer pessoa normal, o que transforma a fé cristã em motivo de piadas aos olhos dos incrédulos.

O quadro descrito acima desemboca facilmente no quinto mal produzido pelas igrejas pentecostais: a desordem. Nem num hospício, nem num desfile de carnaval, nem na Câmara dos Deputados em Brasília é possível ver e ouvir as loucuras e sandices que se veem e ouvem num culto pentecostal. Ali uns riem, outros uivam; uns correm de lá para cá, outros rolam no chão; uns dançam, outros oram aos gritos… No final, dizem que tudo isso é fervor ou ação do Espírito Santo. Pra piorar, os pentecostais ainda afirmam que a igreja ordeira, centrada no estudo da Palavra, marcada por decência, reverência e santo temor é, na verdade, fria e precisa aprender muito com eles se quiser amadurecer na vida cristã!

Finalmente, o sexto mal que se origina no pentecostalismo é a desilusão. Ouvindo profecias vazias e revelações inventadas, muitas pessoas criam esperanças que jamais se cumprem e que as lançam, enfim, num poço de frustração. Quando isso acontece, para agravar a situação, mestres impostores as atormentam ainda mais, dizendo que as ditas profecias não se cumpriram por causa da falta de fé. Então, além de frustradas, essas pessoas passam a se sentir também culpadas, vivendo infelizes pelo resto da vida.

Outros, seguindo orientações que lhes disseram ter sido reveladas por Deus, tomam decisões ou praticam coisas que acabam por destruir sua família, seu casamento, sua juventude, seu futuro, sua saúde, sua carreira e seu patrimônio. Quando, enfim, despertam para isso, percebem muitas vezes que é tarde demais.

Há ainda aqueles que, numa busca escravizadora pelo que acreditam ser o batismo do Espírito Santo, entregam-se a um rigorismo cruel que os priva do lazer (cinema é pecado!), do conforto (mulher de calça comprida? Nem pensar!), do alegre convívio com os filhos pequenos (ir à praia com eles seria pura carnalidade!) e até dos prazeres do leito conjugal. No fim de tudo, ao descobrirem que nada disso teve qualquer proveito, passam a se lamentar frustrados, percebendo que foram enganados, que a vida passou e que aquilo que perderam não pode mais ser recuperado.

Veem-se, assim, quão horríveis são os males causados pelo pentecostalismo. Como evitá-los? Como fugir deles? Esse será o tema do último artigo desta série.

C. Ressalvas e Opções

Muitas pessoas vão dizer que nesta série de artigos eu faço confusão entre pentecostalismo e neopentecostalismo. Dirão que, na verdade, é somente o neopentecostalismo que realiza os abusos que tenho enumerado, estando o pentecostalismo “clássico” livre disso tudo.

Esse parecer resulta de certas distinções que foram feitas no passado entre o chamado pentecostalismo de “primeira onda” (com ênfase no batismo do Espírito acompanhado de línguas estranhas), o pentecostalismo de “segunda onda” (com ênfase em curas e milagres) e o da “terceira onda” (que adota a teologia da prosperidade). Sem dúvida, essa distinção tem certo valor como forma de classificação que auxilia a análise histórica do movimento. Contudo, a observação do cenário atual mostra que, na prática, a referida diferenciação tornou-se obsoleta, não fazendo mais qualquer sentido.

Com efeito, como acontece em qualquer praia em que uma “onda” logo se mistura com a outra, o mesmo ocorreu com o pentecostalismo. Por isso, hoje é possível perceber que a “primeira”, a “segunda” e a “terceira onda” se mesclaram, viraram uma vaga só, espumando heresias, confusões, fraudes, escândalos e hipocrisias. Assim, a diferença entre pentecostalismo e neopentecostalismo, se houver, poderá talvez ser encontrada na eventual ênfase que cada igreja em particular dá a um erro específico. Na base, porém, todo o movimento se iguala, pois as comunidades que o compõem adotam os mesmos pressupostos, praticam e pregam basicamente as mesmas coisas, afirmando a crença na “segunda bênção”, nas revelações e nos portentos supostamente concedidos por Deus aos seus falsos apóstolos e profetas ilusórios.

Feita essa ressalva, importa agora voltar a atenção para os crentes em Cristo que se encontram nas igrejas pentecostais. Sim, há cristãos de verdade nessas comunidades. Eu conheço muitos deles. Trata-se de irmãos em Cristo que percebem que algo está errado, que sentem a falta de alimento sólido, que observam inconformados aquelas manifestações fingidas de arrebatamento espiritual, que sofrem percebendo a ação de espertalhões e a santidade hipócrita de quem louva a Deus com gritos mas tem a vida suja (Is 29.13).

São irmãos que, à vezes, se sentem culpados, pensando: “Será que o errado sou eu? Será que não tenho fervor? Será que Deus está realmente agindo aqui e só eu não estou vibrando? Por que não sinto vontade de gritar e pular? Por que não consigo falar em línguas? E quanto a essas profecias, curas e orações barulhentas? Será que só eu percebo que são forçadas?”.

Tive contato com muitos irmãos amados que enfrentaram esses dilemas no meio pentecostal e que hoje estão num aprisco bíblico. Outros, porém, geralmente por causa de vínculos sociais e afetivos, ainda vivem nesse meio, mesmo se sentindo incomodados e pouco à vontade. Para esse crentes de verdade, creio haver quatro opções:

1. Permanência com influência: Nessa primeira opção, o crente permanece na igreja em que está, tentando mudar as coisas. Trata-se de uma decisão nobre, mas a experiência mostra que tem poucos resultados. Ademais, essa opção tem se mostrado perigosa, pois, geralmente, com o passar do tempo, os crentes que a adotam ficam indiferentes diante do erro. Aos poucos, sem que percebam, tornam-se menos rígidos em seus julgamentos. A constante e tácita convivência com a mentira faz com que, para eles, o mal se torne normal (e até engraçado). O resultado final é que, sem alimento espiritual e com as faculdades amortecidas, seu testemunho entra em colapso, seu casamento começa e enfrentar crises e seus filhos, quando crescem, correm para o mundo, dizendo que tudo na igreja não passa de representação barata.

2. Ecclesiola in ecclesia: Essa expressão significa “pequena igreja dentro da igreja” e foi usada especialmente pelos puritanos da Inglaterra para se referir a pequenos grupos de crentes verdadeiros que se reuniam para cultuar a Deus de maneira correta, sem, contudo, se desligar da igreja maior, cheia de erros, à qual pertenciam. Essa opção pode ser útil, especialmente porque uma ecclesiola seria um bom lugar para levar o visitante, sem passar vergonha. Além disso, talvez seja uma forma de obter alimento verdadeiro. Porém, essa alternativa é perigosa porque pode gerar orgulho espiritual ou até mesmo uma forma de elitização. Ademais, a liderança da igreja maior se indisporá com grupos assim e os problemas serão inevitáveis.

3. Formação de uma nova igreja por um grupo: A vantagem dessa opção é o surgimento quase imediato de uma igreja séria. Porém, os perigos dessa medida a tornam desaconselhável. Isso porque a nova igreja nascerá com a fama de dissidente, enfrentando a forte oposição da igreja de origem. Esta, em regra, não poupará esforços para caluniá-la, enfraquecê-la e até destruí-la. Ainda que possa sobreviver a tudo isso, o sofrimento decorrente dessas investidas deixará marcas que poderiam ser evitadas caso fosse adotado um modo de agir diferente.

4. Saída individual pacífica: De todas as alternativas, essa é a melhor. Nessa opção, o crente simplesmente se desliga da comunidade maculada em que se encontra e se filia a uma igreja séria, onde poderá nutrir comunhão com seus irmãos e cultuar a Deus longe de escândalos, encenações e badernas. Na igreja que pastoreio tenho várias ovelhas que, pertencendo a comunidades pentecostais no passado, tomaram essa iniciativa e hoje fazem parte do nosso rol de membros. O senso de terem achado finalmente o seu lar, a alegria de aprender a Palavra de Deus a partir da hermenêutica sadia e o alívio de terem se livrado de um ambiente eclesiástico nocivo, repleto de excessos e de maluquices, fazem desses irmãos os mais gratos e vibrantes crentes que há no nosso meio.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Igreja Batista Redenção
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