O Ponto Fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus

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A Assembleia de Deus é uma das denominações mais conhecidas das igrejas evangélicas no Brasil. De acordo com o censo de 2010, do IBGE, ela é o maior segmento evangélico, com 12 milhões de fiéis, e o segundo maior do Brasil, atrás da Igreja Católica. Além de ser influente no Brasil, vale ressaltar que a Assembleia é uma denominação popular em vários países do mundo, sendo reconhecida internacionalmente.

As Assembleias originaram-se do ressurgimento pentecostal do início do século XX. Esse avivamento levou à fundação das Assembleias de Deus nos Estados Unidos em 1914. Através da obra missionária estrangeira e estabelecendo relações com outras igrejas, as Assembleias de Deus se expandiram para um movimento mundial. E, como toda comunhão pentecostal, as Assembleias de Deus acreditam no distintivo pentecostal do batismo no Espírito Santo, com a evidência de falar em línguas.

O presente artigo é baseado na Declaração de Fé da Assembleia de Deus, e tem como finalidade contrariar algumas doutrinas citadas na obra. Para isso, serão apresentados os equívocos teológicos presentes nesse credo e, posteriormente, diagnosticaremos a razão de sua existência – o ponto fraco – tomando como referência as doutrinas reformadas, as quais, julga o autor, têm apoio escriturístico mais coerente.

A Apresentação da Declaração de Fé da Assembleia diz que

1. A DF¹ não oferece nenhuma oportunidade para vicissitudes.
2. A DF tem íntima e inseparável comunhão com as doutrinas bíblicas.
3. A DF possui um grande rigor na observação doutrinária.
4. A DF serve como um guia contra falsas doutrinas.

Dessa forma, a missão deste artigo é

1. Mostrar que algumas doutrinas da DF possuem falhas interpretativas, contradições e instabilidades.
2. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm fundamento lógico e/ou coerência.
3. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm apoio bíblico ou se apoiam em um texto bíblico interpretado de maneira forçada.
4. Finalmente, mostrar que, apesar da DF ter o objetivo de proteger seus fiéis contra heresias, ela mesma é uma fonte de onde podem surgir heresias, por causa de seus próprios equívocos perigosos. 


1. SOBRE A SALVAÇÃO

1.1. ARMINIANISMO (FACTS)

A Assembleia demonstra, em sua DF, seguir a corrente soteriológica arminiana, que apresenta cinco pontos.

F: Livre pela Graça (Freed by Grace)
A: Expiação Ilimitada (Atonement for All)
C: Eleição Condicional (Conditional Election)
T: Depravação Total (Total Depravity)
S: Segurança em Cristo (Security in Christ)

Segundo os ensinos de Armínio, cada pessoa tem livre arbítrio (Livre pela Graça) para escolher seguir a Deus ou não. Sendo assim, para ser salvo, é o homem que deve se movimentar em direção a Cristo. Para o arminianismo, Deus elegeu para a salvação aqueles que Ele sabia que aceitariam a salvação (Eleição Condicional). Sendo assim, trata-se de uma eleição condicionada à ação do homem, que somente precisa ter fé para ser salvo. Quanto à expiação, acredita-se que foi ilimitada (Expiação Ilimitada), ou seja, Cristo morreu por todos e pagou pelos pecados de todos. Porém, o ser humano pode resistir à ação do Espírito Santo em sua vida (Graça Resistível) e escolher não ser atraído por ela para a salvação em Cristo. E em relação a durabilidade da salvação, um homem pode deixar de ser salvo caso peque e não se arrependa e não persista nas boas obras (Segurança em Cristo).

1.2. CALVINISMO (TULIP)

No século XX, ocorreu o Sínodo de Dort na Holanda. A razão para este concílio foi discutir o crescimento de uma doutrina nova e diferente na Igreja Reformada Holandesa: o arminianismo. A agenda da discussão incluiu cinco temas fundamentais sobre a salvação, os quais foram interpretados por João Calvino: a depravação total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a perseverança dos santos. No final do Sínodo, Jacó Arminio e seus ensinos haviam sido oficialmente rejeitados pela Igreja por estarem em discordância com tais temas. Assim, TULIP é o acróstico que abrange os 5 pontos da soteriologia reformada de uma forma simples e concreta.

T: Depravação Total (Total Depravity) 
U: Eleição Incondicional (Unconditional Election)
L: Expiação Limitada (Limited Atonement) 
I: Graça Irresistível (Irresistible Grace) 
P: Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints) 

A Depravação Total diz que toda a humanidade foi afetada, danificada e distorcida pela entrada do pecado no mundo, de modo que estamos mortos em nossas transgressões e pecados (Ef 2.5), e nós mesmos não podemos mudar a nossa situação sem a graça do Espírito Santo (Cl 2.13), pois somos inclinados, por natureza, ao mal. As doutrinas do pecado e a depravação total do homem são mais do que bem representadas em ambos os testamentos (cf. Is 53.6; 2 Cr 6.36; Rm 3.9-12; 1 Jo 1.8,10; Mc 10.18; Mq 7.2-4; Jr 17.9; Mt 15.19; Gn 6.5, 8.21). 

A Eleição Incondicional afirma que Deus escolhe a quem Ele quer escolher. Uma vez que estamos mortos, a única saída da nossa morte espiritual é que Deus nos tire dela (2 Tm 1.9). Se realmente cremos que somos maus, não temos o direito de reclamar que Deus exerça Sua graça soberanamente (Rm 9.11-16). A eleição incondicional significa simplesmente que Deus escolhe dar a vida eterna sem ter visto nada de bom nos eleitos. Assim, alguns homens são predestinados à vida eterna; e outros são predestinados à morte eterna. E isso fica claro em João 15.16 e é comum na teologia paulina (cf. Ef 1.4-5; 1 Ts 1.4-5; 2 Ts 2.13; 1Co 1.27-29). 

A Expiação Limitada explica que a morte de Cristo paga por todos os pecados daqueles que foram eleitos. O perdão dos pecados está disponível para todos os pecadores e a expiação de Cristo é suficiente para que toda a humanidade seja salva (independentemente de crerem ou não), mas é eficiente somente para aqueles que creem, isto é, aqueles a quem o Pai predestinou desde a fundação do mundo. Isso pode ser visto em vários textos (cf. Ef 1.4; Is 53.11; 2 Co 5.21; Jo 10.11-29). 

A Graça Irresistível diz que ninguém pode negar ou resistir à graça salvadora de Deus. Quando a graça vem, nunca pode ser rejeitada: sua eficácia é perfeita. Isto significa que se Deus escolheu alguém, não há como essa pessoa não ser salva. Todos a quem Deus elegeu para a salvação serão inevitavelmente salvos a seu tempo determinado por Deus. Quem somos nós para dizer ‘não’ ao Senhor (Rm 9.19-20)? Assim, vemos o poder da graça em toda a Escritura (cf. Jo 6.37,44,65; 2 Ts 2.13-14; 1 Co 1.9). 

A Perseverança dos Santos conclui que os escolhidos perseverarão até o fim. Filipenses 1:6 nos diz: “Estou convencido precisamente disto: que aquele que começou a boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Isto não se refere ao chamado “uma vez salvo, sempre salvo”, que uma vez que somos escolhidos por Deus, podemos viver como quisermos. Pelo contrário, diz-nos que, na soberania de Deus, aqueles que Ele escolheu para a salvação sustentarão aquela confissão de conversão até à sua morte, perseverando na vida de santidade. Esta verdade é citada várias vezes na Bíblia (cf. Rm 8.35-39; 2 Pe 1.10; Jo 10.28,29; 1 Jo 3.9; 1 Pe 1.5,9). 

“Quem Deus aceitou em seu Amado, e que foi efetivamente chamado e santificado pelo seu Espírito, não pode cair completa ou definitivamente do estado de graça, mas deve seguramente perseverar nele até o fim, e serão salvos eternamente (...) Esta perseverança dos santos não depende do seu livre arbítrio, mas da imutabilidade do decreto de eleição, que brota do amor livre e imutável de Deus Pai” (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 17, I, II)

1.3. REFUTAÇÃO AO ARMINIANISMO

1.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que não há eleição para a condenação e que Deus deseja a salvação de todos, pagando, assim, pelos pecados de todos (p. 110, l. 12-15). Ora, se há um grupo de pessoas selecionadas por Deus para serem salvas, consequentemente, há um outro grupo selecionado por Deus para a condenação (Rm 9.21). E isso não torna Deus injusto ou mal, pois a verdade é que a salvação não é algo que merecemos (Ef 2.8-9). Deus não “deveria” nos salvar, Ele não possui uma dívida para conosco. Além do mais, a eleição não foi feita com base em preferencialismos (Ef 1.4). Ele não escolheu os mais ricos, os mais nobres, os mais piedosos, os mais santos, até porque não somos nada disso e, se comparados a soberania de Deus, que somos (1 Pe 1.24)? Por fim, dizer que o sacrifício de Cristo expiou os pecados de todos é o mesmo que dizer que aqueles que não aceitaram a Cristo tornaram a morte dEle um fracasso, já que não serviu para a salvação dos que não a desejam.

1.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que a graça é resistível por causa do livre arbítrio (p. 110, l. 17). Se pararmos para pensar, essa afirmação enaltece o homem e diminui a soberania de Deus. De acordo com a depravação total, o ser humano é corrupto por natureza, logo, não pode, pelo seu livre arbítrio corrompido pelo pecado, escolher a Deus. Porém, quando o Espírito Santo chama um eleito, a seu tempo determinado por Deus, ele não pode resistir, pois quem pode resistir aos planos do Altíssimo (Jó 42.2)? Obviamente, por vezes, podemos ser desobedientes e obstinados. Não somos perfeitos. Mas isso não impede a Deus de fazer o que quer. Deus não depende das nossas escolhas, como se submetesse ou se adaptasse às nossas decisões. Antes, Ele já sabe o que vamos fazer (Sl 139). 

1.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação da perda da salvação (cap. X, ponto 6). Acerca disso, vejamos alguns pontos.

1. Ter tal crença significa subestimar o poder do sacrifício de Cristo. Porém, o Senhor Jesus Cristo morreu pelos pecados de toda humanidade, e, além disso, esse sacrifício foi perfeito e resolveu para sempre o problema do pecador (Hb 10.12). 

2. Sim, o cristão deve vigiar sempre (Mt 26.41, 1 Co 10.12, 1 Ts 5.17) e é claro que pecar e se desviar traz consequências danosas para nossa saúde espiritual e para a nossa vida pessoal (Ez 18.24). Porém, isso não quer dizer que pagaremos pelos nossos pecados com a perda da salvação, porque Cristo perdoa nossos pecados (1 Jo 1.9) e já pagou por eles na cruz. Quem nos separará do amor de Cristo (Rm 8.33-35,37-39)?

3. O verdadeiro salvo, quando peca, sempre pede perdão a Deus e volta às veredas da justiça (Lc 15.32, Sl 51). Porém, aquele que se diz salvo, porém ama pecar, nunca foi salvo (1 Jo 2.18,19; Jo 8.32), pois a santificação, processo de consagração constante a Deus, é o que nos dá certeza da Salvação, evidenciando-a (1 Jo 2.3-6). Deus é fiel para cumprir a obra da salvação na vida dos seus filhos e os preserva ao longo de toda vida com sua graça (Fp 1.6, Hb 10.23, 1 Co 1.8,9). Portanto, a salvação não é certificada no começo, isto é, na regeneração, mas no fim (Mt 24.13).
2. SOBRE OS DONS ESPIRITUAIS

2.1. CONTINUACIONISMO

A DF professa e ensina que “os dons do Espírito Santo são atuais e presentes na vida da Igreja (...) São recursos sobrenaturais do Espírito Santo operados por meio dos seres humanos, os crentes em Jesus, enquanto a Igreja estiver na terra” (página 171). Assim, a Assembleia demonstra seguir a corrente continuacionista acerca da atualidade dos dons espirituais, entre eles, o dom de curar (cap. XX, ponto 4), o dom de falar em línguas e o dom de profetizar (cap. XX, ponto 5). O continuacionismo é a crença de que todos os dons espirituais, incluindo curas, línguas e milagres, ainda estão em operação hoje, exatamente como estavam nos dias da igreja primitiva.

2.2. OS DONS AO LONGO DA HISTÓRIA

Em contrapartida, façamos uma cronologia histórica dos dons espirituais com base nas afirmações de homens de Deus que marcaram a vida da Igreja.

1. Agostinho (354-430)

“Nos tempos antigos, o Espírito Santo veio sobre os crentes e eles falaram em línguas que não haviam aprendido, conforme o Espírito concediam que falassem. Aquilo foi o sinal do Espírito Santo em todos os idiomas para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser espalhado a todas as línguas sobre a terra. Isto foi feito por um sinal, e o sinal findou.” (Fonte: Agostinho. Homilias sobre a Primeira Epístola de João, 6.10. Cf. Schaff, NPNF, First Series, 7:497-98)

2. Martinho Lutero (1483-1546)

“Na Igreja primitiva, o Espírito Santo foi enviado de forma visível. Ele desceu sobre Cristo na forma de uma pomba, e à semelhança de fogo sobre os apóstolos e outros crentes. Esse derramamento visível do Espírito Santo foi necessário para o estabelecimento da Igreja primitiva, como também foram necessários os milagres que acompanharam o dom do Espírito Santo. Paulo explicou o propósito destes dons miraculosos do Espírito em 1 Coríntios 14:22, “as línguas são um sinal, não para os que creem, mas para os que não creem”.  Uma vez que a Igreja tinha sido estabelecida e devidamente anunciada por estes milagres, a aparência visível do Espírito Santo cessou.” (Fonte: Martinho Lutero, traduzido por Theodore Graebner [Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949], p. 150-172. A respeito do comentário de Lutero sobre Gálatas 4.6)

3. João Calvino (1509-1564)

“Embora Cristo não declare expressamente se Ele pretende que esse dom [de milagres] seja temporário ou permaneça perpetuamente na Igreja, é mais provável que os milagres tenham sido prometidos apenas por um tempo, para dar brilho ao evangelho enquanto ele era novo ou em estado de obscuridade.” (Fonte: João Calvino, Comentário sobre os Evangelhos Sinóticos, III: 389.)

4. Mattew Henry (1662-1714)

“O dom de línguas foi um novo produto do espírito de profecia e dado por uma razão particular: mostrar [aos judeus] que todas as nações podem ser conduzidas à igreja. Estes e outros sinais da profecia, começaram como sinais, e há muito cessaram e foram deixados para trás, e nós não temos nenhum incentivo para esperar um avivamento deles; mas, pelo contrário, somos direcionados para o chamado das Escrituras, a mais certa palavra de profecia, mais certa que vozes dos céus, a qual nos orienta a tomar cuidado, a buscá-la e firmarmo-nos nela.” (Fonte: Mattew Henry, Prefácio ao Vol IV de sua Exposição do At e NT, vii.).

5. Jonathan Edwards (1703-1758)

“Nos dias de sua [Jesus] encarnação, os seus discípulos tinham uma medida dos dons miraculosos do Espírito, sendo habilitados desta forma para ensinar e fazer milagres. Mas, depois da ressurreição e ascensão, ocorreu o mais completo e notável derramamento do Espírito em seus dons milagrosos que já existiu, começando com o dia de Pentecostes, depois da ressureição Cristo e Sua ascensão ao céu. E, em consequência disto, não somente aqui e ali uma pessoa extraordinária era dotada de dons extraordinários, mas eles eram comuns na igreja, e assim continuou durante a vida dos apóstolos, ou até a morte do último deles, mesmo o apóstolo João, que viveu por cerca de cem anos desde nascimento de Cristo, de modo que os primeiros cem anos da era cristã, ou o primeiro século, foi a era dos milagres. Mas, logo após a finalização do cânon da Escritura quando o apóstolo João escreveu o livro do Apocalipse, não muito antes de sua morte, os dons miraculosos tiveram seu fim na igreja. Pois, agora, a revelação escrita da mente e da vontade de Deus estava completa e estabelecida. Revelação na qual Deus havia perfeitamente gravado uma regra permanente e totalmente suficiente para Sua igreja em todas as eras. Com a igreja e a nação judaica derrotadas, e a igreja cristã e a última dispensação da igreja de Deus estabelecidas, os dons miraculosos do Espírito já não eram mais necessários e, portanto, eles cessaram; pois embora eles tenham continuado na igreja por tantas eras, eles se extinguiram, e Deus fez com que fossem extintos porque já não havia ocasião favorável a eles. E assim foi cumprido o que está dito no texto: “Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”.  E agora parece ser o fim para todos os frutos do Espírito tais como estes, e não temos mais razão de esperar que voltem.” (Fonte: Jonathan Edwards, sermão intitulado “O Espírito Santo deve ser comunicado ao Santos para sempre, In na graça da caridade, ou amor divino”, em 1 Coríntios 13:8). 

2.3. CESSACIONISMO

Nesse sentido, concluímos que os relatos de tais homens seguem a visão do Cessacionismo, na qual formula-se que parte dos chamados dons do Espírito Santo, tais como profecias, línguas e curas, apesar de terem sido de fundamental utilidade e importância nos primórdios da igreja cristã, cessaram de existir ainda no período da Igreja Primitiva. Entendem os cessacionistas que tais e restritos dons serviram a um propósito, isto é, a fundação da Igreja Primitiva, momento que os apóstolos teriam que cumprir o ide sem possuírem qualificação de doutores ou mestres. Assim, o encerramento do livro teria tornado dispensável a existência dos dons milagrosos e de profecias.

2.4. REFUTAÇÃO AO CONTINUISMO

2.4.1. 1ª AFIRMAÇÃO

A DF diz que os “dons de curas são manifestações do poder do Espírito Santo que operam de maneira multiforme para cura de doenças e enfermidades do corpo, da alma ou psicossomáticas, sempre concedidas pelo Espírito Santo à pessoa que irá ministrá-la” (cap. XX, ponto 4). E, por crerem na atualidade dos dons, as curas podem ser ministradas até hoje.

Porém, é importante destacar que os dons de cura tinham um propósito. Vemos nas Escrituras que a cura era associada com o ministério de Jesus e dos apóstolos (Lc 9.1-2). E vemos que à medida em que a era dos apóstolos chegou a um fim, a cura tornou-se menos frequente. Isto porque o dom de cura e de realização de milagres teve o propósito de autenticar o apostolado. E, ao final da era apostólica, a ministração de sinais e prodígios adicionais tornaram-se progressivamente desnecessários.

Vale ressaltar que os cessacionistas creem plenamente em milagres, curas e todo o tipo de maravilhas e sinais nos dias de hoje, desde que operados diretamente por Deus, e não por intermédio de outrém, como um dom.

2.4.2. 2ª AFIRMAÇÃO

A DF, inicialmente, afirma que “não necessitamos de uma nova revelação extraordinária (...) para nosso crescimento espiritual (...) O livro de Provérbios reafirma a inteireza e a pureza da Bíblia Sagrada: ‘Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso’ (Pv 30.6)” (cap. I, ponto 6) e com isso parece defender a Sola Scriptura, que diz:

“Reafirmamos a Escritura inerrante, como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. 

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.” (Declaração de Cambridge, Tese 1: Sola Scriptura)

Entretanto, posteriormente, a DF passa a afirmar que “Deus fala conosco por meio de sua palavra (pregação e ensino) e das manifestações dos dons espirituais” (cap. XV, ponto 1), tornando incoerente sua defesa inicial da Sola Scriptura e deixando clara a crença de que, ainda hoje, Deus pode falar através de experiências interpessoais de revelação profética. 

Porém, o cessacionismo defende que, com o cânon bíblico fechado, o termo “profecia”, que é a mensagem de Deus para o seu povo, passa a se referir, agora, às Escrituras Sagradas e profeta é o pregador que, através da Palavra, edifica, exorta e consola (1 Co 14.3). “O dom de profecia”, diz o Rev. Augustus Nicodemus, importante defensor do Cessacionismo no Brasil, “continua hoje, conforme entendo, mas somente enquanto exortação, consolo, confrontação pela Palavra. Já o aspecto revelatório da profecia que vemos, por exemplo, em João ao escrever Apocalipse, ou em Paulo e Pedro ao prever como será o futuro, a vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos etc., isso certamente não faz parte da profecia de hoje. Já cessou”.

2.4.3. 3ª AFIRMAÇÃO

A Assembleia de Deus também acredita na atualidade do dom de línguas e no seu papel como evidência inicial do batismo no Espírito Santo (p. 165) e, por esse motivo, a busca por esse dom é bastante incentivada pela Igreja. Além disso, creem que a natureza dessas línguas pode ser humana ou celestial (p. 168). Acerca disso, elencam-se os esclarecimentos.

1. O dom de línguas teve um propósito temporário e nasceu como um sinal para a descrente Israel de que a salvação de Deus estava agora disponível para outras nações (1 Co 14.21-22; Is 28.11-12). A observação atual confirma que o milagre de línguas cessou. Se esse dom, em sua forma pura, ainda estivesse disponível hoje, não haveria necessidade de missionários frequentarem uma escola de línguas. Os missionários seriam capazes de viajar para qualquer país e falar qualquer língua fluentemente, assim como os apóstolos foram capazes de fazer em Atos 2. 

2. O dom de línguas possibilitava a pregação da Palavra de Deus em línguas estrangeiras, isto é, idiomas (At 2.6-11), para mostrar que Deus pode capacitar uma pessoa a pregar sua Palavra numa língua estrangeira, a qual ele nunca estudou. Nesse sentido, vale ressaltar que a língua dos anjos citada em 1 Coríntios 13.1 é uma figura de linguagem denominada hipérbole, utilizada na passagem para explicar a supremacia do amor em relação aos dons espirituais.

2.5. A PROFECIA DO PENTECOSTES

A Assembleia de Deus acredita na continuidade e na atualidade dos dons com base na profecia de Joel 2.28-32 e Atos 2.16-21, 39. Porém, alguns pontos têm sido interpretados de maneira errada. Assim, segue-se a interpretação adequada.

28. E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.  29. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito.  30. E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça.  31. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. 32. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar. (Joel 2:28-32)

v.28,29. “Depois”, expressão também conhecida por “últimos dias” (At 2.17), se refere aos tempos de Pedro, isto é, a Igreja Primitiva. E isso se deduz a partir do momento em que ele usa essa profecia para explicar o que estava acontecendo em seus dias. “Toda a carne” prenuncia a inclusão de judeus e gentios em um só corpo, o Corpo de Cristo (Ef 2.11-3.6). “Vossos filhos e vossas filhas (...)” dizem respeito a uma era em que o derramamento do Espírito manifestaria o poder de Deus em todos, sem distinção de gênero, idade ou classe social. 

v.30,31. Os prodígios celestes descritos nesse trecho acontecerão antes do grande e terrível dia do Senhor, o que é uma referência ao fim dos tempos.

v.32. Aquele que invoca o nome do Senhor, ou seja, que se arrepende e crê, será salvo no Dia do Senhor. Ao mesmo tempo, essas palavras também se aplicam à libertação espiritual de povos arrependidos em qualquer período da história humana.

2.6. SOBRE O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO

2.6.1. 1ª REFUTAÇÃO

O capítulo XX da DF afirma que “o batismo no Espírito Santo é um dom”. Já o capítulo XIX diz que o batismo no Espírito Santo “trata-se de uma experiência espiritual que ocorre após ou junto à regeneração” e “é algo distinto do novo nascimento”. Acerca disso, a teologia reformada diz que o batismo com o Espírito Santo é o ato único e restritivo aos que nasceram de novo, ou seja, aos que foram levados pelo Espírito a Cristo para a salvação. Diante disso, podemos dizer que uma das finalidades do batismo com o Espírito Santo é a inclusão do cristão no corpo de Cristo, que é composta de todos os salvos. A carta paulina aos Efésios deixa claro que o batismo com o Espírito Santo é o penhor da nossa herança e o selo desta promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.13,14).

2.6.2. 2ª REFUTAÇÃO

A DF também afirma que “o falar em línguas é a evidência inicial desse batismo” (p. 165, l. 12). Porém, não há nenhum sinal externo específico para aquele que foi batizado com o Espírito Santo. Quando se fala que não há nenhum sinal externo, é bom que fique claro que se refere a manifestações sobrenaturais como evidência de ter se recebido tal batismo. Agora, é claro que aquele que foi batizado pelo Espírito Santo no ato de sua conversão, começa a evidenciar mudanças profundas em seu caráter e modo de vida. O que se pode dizer com certeza é que os sinais que atestam esta experiência são os mesmos da conversão, isto é, o fruto do Espírito (Gl 5.22)

2.6.3. 3ª REFUTAÇÃO

A Assembleia de Deus trata o batismo com o Espírito Santo com tanta seriedade a ponto de apresentar isso como critério para a ordenação de obreiros (p. 137, l. 1-3), sob a referência de que os obreiros devem “ser cheios do Espírito” (At 6.3) e que a principal função do batismo com o Espírito Santo é habilitar o Cristão a realizar o ide (p. 166, l. 13-14). Quanto a isso, temos que não é necessário falar em línguas para anunciar o evangelho. Ser salvo, isto é, ter o Espírito Santo, já nos dá o dever de anunciar a Cristo (Mc 5.18-20; Jo 4.28-29). Além disso, não falar em línguas não deveria impedir alguém de fazer a obra de Deus, uma vez que em 1 Tm 3.1-13, que apresenta critérios para cargos relevantes como o episcopado, o diaconado e o pastoreado, não tem como critério falar em línguas, mas sim uma vida irrepreensível, que é o que realmente caracteriza alguém como cheio do Espírito Santo.
3. SOBRE O FIM DOS TEMPOS

3.1. PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA

A DF apresenta, em seus capítulos XXII e XXIII, um enredo sobre o fim dos tempos semelhante à corrente escatológica pré-milenista dispensacionalista.

De acordo com essa corrente escatológica, Cristo voltará duas vezes. A primeira volta será uma vinda somente para a igreja, antes da Grande Tribulação, resultando no arrebatamento dos santos. Este rapto será secreto (o mundo não verá) e iminente (pode ocorrer a qualquer momento). A primeira vinda resultará também na primeira ressurreição, que envolve apenas os que morreram em Cristo. Logo em seguida ao arrebatamento, ocorrerá no céu o primeiro julgamento, chamado de Tribunal de Cristo. Este terá como objetivo a distribuição de galardões para os crentes arrebatados.

Posteriormente, enquanto os salvos estiverem festejando no céu as Bodas do cordeiro, o Anticristo (a besta) surgirá com o Falso profeta e fará um concerto (na verdade, um governo mundial) de sete anos com Israel. Entretanto, na metade desse período, o concerto será rompido e Jerusalém, após ter sido enganada, será tomada e a grande apostasia será deflagrada, dando início à Grande Tribulação em toda terra. Vale ressaltar que nesse momento, a salvação passa a ser um prêmio pelo martírio daqueles que rejeitarem o governo do anticristo. No fim desta Tribulação, acontecerá a Segunda Volta de Cristo com todos os seus santos.

Nesta Segunda volta se dará a Batalha do Armagedom, onde Jesus destruirá a besta e o falso profeta. Após isso, instaurará o Tribunal das Nações (segundo julgamento), trazendo ira e vingança contra as nações que se colocaram contra Jerusalém e ainda promoverá a ressurreição dos santos (segunda ressurreição) que morreram durante a tribulação e aprisionará Satanás por mil anos. A partir deste momento, terá início o reino milenar de Cristo. Jerusalém será a sede deste reino e todos os vivos da terra serão seus cidadãos. E então, não haverá mais pecado, nem morte, mas sim prosperidade e longevidade. 

Com o fim do milênio, Satanás será solto, mas rapidamente lançado no lago de fogo, onde já se encontram a besta e o falso profeta. Depois, os ímpios ressuscitarão (terceira ressurreição) para serem julgados (terceiro julgamento), condenados e destinados ao inferno. E, finalmente, os salvos terão seu destino, o novo céu e a nova terra.

3.2. AMILENISMO

De acordo com o amilenismo, o primeiro evento a acontecer é a grande tribulação (com a igreja na terra) e o surgimento do anticristo, ocasionando a apostasia de muitos cristãos e grande angústia na terra. Depois, Cristo volta, em um evento único e visível a todos, e nessa vinda, acontece o arrebatamento. Em seguida, acontece a ressurreição geral de salvos e ímpios para serem julgados no Tribunal de Cristo. Assim, os salvos recebem a vida eterna para reinarem com Deus no novo céu e na nova terra e os ímpios a recebem a condenação eterna e são lançados no inferno com Satanás e seus aliados derrotados.

Para os amilenistas, a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus, pois Deus tem apenas um povo. O milênio não é um reino literal de mil anos, mas sim um reino espiritual que começou na primeira vinda de Cristo, isto é, desde a ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, e terminará na segunda vinda de Cristo. E a prisão de Satanás significa, simplesmente, que ele não pode conter o avanço do evangelho de Cristo.

3.3. REFUTAÇÃO AO DISPENSACIONALISMO

3.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que a vinda de Cristo terá duas fases e será invisível ao mundo. Porém, a Palavra de Cristo mostra que Sua Segunda Vinda será um evento único, visível e tangente à toda humanidade. Ap 1.7 diz claramente: “Eis que vem com a nuvens e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” 

3.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que na segunda volta de Cristo, os mártires da grande tribulação serão salvos, como um remanescente que se vale de uma segunda chance. Porém, em 2 Tessalonicenses 1.3-12, Paulo nos mostra que quando Jesus voltar, todos os que, até este momento, não se decidiram por Jesus, serão lançados no fogo do inferno. Não haverá segunda chance, nem oportunidade de arrependimento, pois o Senhor vem trazendo vingança contra “aqueles que não obedecem ao evangelho de Cristo”.

3.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Terceiro, temos a afirmação de que haverá mais de uma ressurreição e que a ressurreição dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, em João 5.27-29, lemos que tanto os justos quanto os ímpios ressuscitarão no mesmo dia, sendo que, os justos para a vida e os ímpios para a morte. Da mesma forma, Em Daniel 12.2, nos é dito que tanto salvos quanto condenados ressuscitarão no mesmo momento. 

3.3.4. 4ª AFIRMAÇÃO

Quarto, temos a afirmação de que haverá mais de um julgamento, isto é, o julgamento dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, todos os textos que fazem referência ao Juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre a humanidade no último dia. Em Mateus 25.31-43, toda humanidade, dividida em dois grupos – os salvos e perdidos – será citada e tomará lugar diante do Tribunal de Cristo. Em 1 Coríntios 4.5, tanto os filhos das trevas, quanto os salvos serão manifestos diante do Tribunal de Cristo para receber de Deus o galardão ou a reprimenda.

3.3.5. 5ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação de que a igreja será poupada da Grande Tribulação. Porém, segundo o sermão profético dado por Jesus, a igreja passará grande tribulação, a qual será interrompida pela sua volta (Mt 24.21-29). Da mesma forma, o apóstolo Paulo fala da Grande Tribulação que irá acometer a igreja nos dias que antecedem a volta de Cristo. Em 2 Ts 2.3, ele declara: “Ninguém de modo nenhum vos engane, porque isto (a volta de Cristo) não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição”. E, finalmente, em Ap 7.13-14 nos é dito que os crentes no céu saíram da Grande Tribulação. 
4. O PONTO FRACO

Todo o problema que envolve essas doutrinas da DF tem resposta em sua deficiência hermenêutica, a qual pode ser classificada como um misto de hermenêutica alegórica e hermenêutica literalista.

A corrente alegórica trata-se de um dos mais antigos métodos de interpretação de que se tem conhecimento, e surgiu nos séculos que sucederam à era apostólica. Os defensores deste método diziam que o verdadeiro sentido jazia sob o significado literal da Escritura, isto é, era oculto. 

Orígenis (185-254), grande representante desta corrente, cria ser as Escrituras uma vasta alegoria, na qual cada detalhe é simbólico, e dava bastante importância à 1 Coríntios 2.6-7 (“falamos a sabedoria de Deus em mistério”), cometendo assim, um erro muito comum entre alguns exegetas, que é dar importância demais a alguns textos bíblicos de forma isolada.

Porém, a corrente reformada, na qual foram baseadas todas as antíteses do presente texto, se apoia nos seguintes princípios:

1) A única regra de fé infalível de interpretação é a própria Escritura. Ou seja, quando houver dúvida sobre o sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto deve ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente;

2) O texto não pode ser estudado isoladamente, mas dentro do seu contexto bíblico geral;

3) Se o texto for obscuro, não deve ser usado como matéria de fé, isto é, respaldo para doutrinas;

4) Toda alegorização deve ser rejeitada como método de interpretação das Escrituras, exceto em caso que o próprio autor afirma se tratar de uma alegoria (Gl 4:24-26);

5) Toda interpretação deve ser dada levando-se em consideração o contexto histórico (a situação para a qual o autor está falando); a análise literária (a natureza, a redação e a estrutura do texto); a análise canônica (citações interbíblicas e comparação canônica) e o propósito do autor no contexto da obra;

6) Toda abordagem literal (literalismo) que não se justificar pelo contexto deve ser rejeitada;

7) Nenhuma interpretação deve ser tida como legítima se coloca a Escritura em contradição com a própria Escritura.

O ponto fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus consiste, portanto, na sua hermenêutica que, obviamente, não segue os princípios reformados.
5. CONCLUSÃO

Este trabalho não tem a intenção de denunciar, alterar ou criticar a Declaração de Fé da Assembleia de Deus; não tem a pretensão de ser tomado como palavra última em nenhuma matéria teológica, nem impor uma ditadura teológica; e não pretende apontar nenhuma doutrina aqui citada como falsa ou herética. 

Esse trabalho trouxe à luz, apenas, algumas discrepâncias existentes entre a interpretação assembleiana e a interpretação reformada de algumas doutrinas, na intenção de provocar uma reflexão sobre convicções teológicas, trazendo visões diferentes de algumas teses bíblicas e, acima de tudo, visando o conhecimento da Palavra de Deus.

Em suma, portanto, Soli Deo Gloria!

Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmos 119.105)

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Notas:
1 -   Com o intuito de tornar a leitura menos maçante, usaremos, por vezes, “DF” ao invés de “Declaração de Fé da Assembleia de Deus”

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Autora: Gisllayne Silva
Contato: gis.alt.org@gmail.com
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O selo escatológico do Espírito: uma experiência posterior?

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Este artigo é uma exposição exegética e apologética de Efésios 1.13 que diz:

“... no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. 

Há três principais interpretações desse texto: 1. O selo do Espírito como sendo o batismo cristão; 2. O selo do Espírito como sendo uma experiência pós-conversão (após crer); 3. O selo do Espírito como algo feito simultaneamente com a conversão. 


Irei defender a terceira interpretação em oposição à segunda. A primeira interpretação não será refutada aqui, visto que não é muito defendida nem conhecida, carece totalmente de apoio contextual e já fora refutada várias vezes por defensores da segunda e terceira interpretação.

1. O selo do Espírito: significado e background

O conceito do selo é tanto antigo como comum. Na antiguidade, era costume selar gados, escravos, documentos e outras propriedades.[1] Na esfera religiosa, homens identificavam a si mesmos como propriedades de suas divindades imprimindo sobre si os seus selos.[2] No judaísmo, a circuncisão era chamada de “o selo de Abraão” ou o selo da “santa aliança”.[3] No Antigo Testamento, Deus selou seus escolhidos para distingui-los como Sua propriedade e para livrá-los da destruição (Ez. 9.4-6).

Portanto, selo pode significar possessão, autenticação e segurança. Como o contexto fala sobre o resgate da possessão de Deus (1.14), esse significado está em vista aqui. Entretanto, possessão implica autenticação e segurança e esses três elementos são verdadeiros em Ef, 1.13, uma vez que o Espírito marca os cristãos como posses de Deus, autentica que um cristão é verdadeiro (pois quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo: Rm. 8.9) e é o Espírito que assegura a salvação final de todo cristão.

2. A crença e o selo: questões gramaticais

Os defensores da interpretação que diz que o selo do Espírito é posterior à conversão apontam para uma questão gramatical. O texto diz: “ ...e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (καὶ πιστεύσαντες ἐσφραγίσθητε τῷ Πνεύματι τῆς ἐπαγγελίας τῷ Ἁγίῳ). O particípio aoristo “crido” antecede o verbo principal “fostes selados” (aoristo passivo). Essa antecedência pode ser tanto causal (o crer causa a selagem) ou temporal (o crer antecede temporalmente o selo). Entretanto, nesse contexto a relação dessas duas palavras é mais bem entendida como sendo coincidentes/simultâneos.[4] Como observado por S. E. Porter, há algumas exceções na regra que diz que o particípio aoristo antecedendo o verbo principal tem a tendência de expressar ação antecedente, e Efésios 1.13 é uma dessas exceções.[5] 

3. O selo do Espírito e o Espírito da promessa

O texto diz que os cristãos são “... selados com o Espírito Santo da promessa”. Provavelmente um semitismo para “O Espírito que fora prometido”. Alguns textos do AT que prometem o derramamento do Espírito são: Ezequiel 36.26-27; 37.14; Joel 2.28-30, etc. A marca distintiva desse derramamento escatológico do Espírito é que Ele seria derramado em todas as pessoas da comunidade da aliança (do povo de Deus). Semelhantemente, Gálatas 3.14 diz que os gentios recebem pela fé a promessa do Espírito, cumprindo as promessas feitas a Abraão. Portanto, quem não tem o Espírito prometido não faz parte do povo escatológico de Deus.

4. O selo do Espírito e a falácia da autoridade

Um conhecido e respeitado defensor de que o selo do Espírito é uma experiência posterior à fé é o Dr. Martin Lloyd Jones. Em sua exposição de Efésios 1.13, Lloyd Jones “consubstancia sua opinião” citando nomes de peso, como os puritanos Thomas Goodwin e John Owen, e de Charles Simeon e Charles Hodge. Entretanto, nas palavras de D. A. Carson, “o máximo de contribuição que isso pode dar a um argumento é o empréstimo da reputação geral da autoridade para apoiá-lo”.[6] Ainda que devamos aprender com todas as “autoridades” dos estudos bíblicos, nossa fonte de suprema autoridade é a própria Escritura.

5. A dimensão escatológica do selo do Espírito

Concluo meus argumentos apontando para a dimensão escatológica do Selo do Espírito. O próximo verso (Ef. 1.14) diz: “...o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória”. Semelhantemente em Ef. 4.30: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”, e em 2Co. 1.21: “...o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações”. O Espírito é o penhor, o pagamento antecipado da redenção final dos cristãos. Os paralelos com o livro apócrifo “Salmos de Salomão” (15.6-13) são instrutivos[7]: 1. Em ambas as passagens há dois tipos de pessoas, em Sl. Sal. 15 temos os justos e os pecadores (15.6-13) e em Efésios temos os crentes e os filhos da desobediência (Ef. 1.13; 2.2; 5.3). 2. Ambos os grupos são distinguidos por uma marca ou sinal. Em Sl. Sal. os justos são marcados por Deus com a marca da salvação e os pecadores são marcados com o sinal da destruição (Sl. Sal. 15.6-9), em Efésios os crentes são marcados com o Espírito (1.13; 4.30); 3. Os dois grupos terão destinos diferentes. Um grupo receberá salvação e o outro herdará a destruição (Sl. Sal. 15. 6-13, Ef. 1:13-14; 5:5-6, 6:9); 4. Eles encontrarão seus respectivos destinos em um dia particular. Em Sl. Sal. será o dia de misericórdia para os justos e o dia do julgamento para os pecadores (Sl. Sal. 15.12-13) e em Efésios será o dia da redenção para os cristãos e o dia da ira para os filhos da desobediência (Ef. 2.2-3; 5.6).[8] As imagens apocalípticas de Ef. 1.13 e 4.30 já são uma realidade. Isso é normalmente denominado de “escatologia inaugurada”. Os cristãos já foram resgatados, mas ainda aguardam o resgate final. Portanto, excluir alguns cristãos dessa realidade é excluí-los do esquema escatológico paulino do “já e ainda não”.

Conclusão

Nas palavras de Gordon Fee, crer e ser selado com o Espírito são dois lados do mesmo evento.[9] Para Paulo, O Espírito sempre é sine qua non para a existência cristã.[10] O selo do Espírito não é algo meramente empírico, onde um cristão experimenta alguma segurança, mas sim é algo ontológico e funcional, ou seja, Deus efetivamente sela os seus (Deus indicado pelo passivo divino de Ef. 1.13). Portanto a incoerência de dizer que o selo do Espírito é posterior ao crer (e a conversão) se dá nos seguintes pontos: 1. Se isso for realidade, então há cristãos genuínos que não são propriedades de Deus, nem são autênticos (contradição explícita) nem possuem segurança de sua salvação (conforme os significados de selo do ponto 1; 2. Como o Espírito é prometido à todo o povo de Deus, então é possível ser um cristão genuíno e não fazer parte do povo de Deus. Se o “Espírito da promessa” significar “O Espírito que nos promete” a futura redenção (como alguns exegetas apontam), então há cristãos que não possuem a promessa da vida eterna.

Nenhum desses dois pontos possui respaldo bíblico, pelo contrário, todo o NT aponta para direções opostas. Não devemos confundir os ministérios e as operações do Espírito. Ser selado é um ato instantâneo e irrevogável. Entretanto, o enchimento com o Espírito é algo que devemos sempre buscar. Paulo posteriormente em Efésios diz: Enchei-vos do Espírito! (Ef. 5.18). Mas ele nunca diz para buscarmos constantemente o selo do Espírito, pois essa selagem é um ato único de Deus somente no momento da conversão de todos os cristãos.

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Notas:
[1] Archie Wang Do HUI, The Concept of the Holy Spirit in Ephesians and its Relation to the Pneumatologies of Luke and Paul, pp. 181-187.
[2] Ibid.
[3] Betz, TDNT, 7.662.
[4] Peter O´Brien, Ephesians (PCNT) p. 118.
[5] S. E. Porter, verbal aspects, pp. 383-85.
[6] D. A. Carson, perigos da interpretação Bíblica, p. 115.
[7] Archie Wang Do HUI, pp. 181-187.
[8] C. Arnold, Ephesians, p. 113, 157.
[9] Gordon Fee, God´s Empowering Presence, pp. 669-670.
[10] Ibid.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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Seriam as afirmações de nova revelação compatíveis com o Cânon do NT?

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“Deus falou comigo.

Existem poucas declarações que podem encerrar um debate tão rapidamente como essa. Se os cristãos discordam sobre uma doutrina, uma prática ou uma ideia, em seguida, a grande carta na manga costuma ser “Deus falou comigo acerca disso. Fim da discussão.

Mas, a história da igreja (para não mencionar as próprias Escrituras) demonstra que tais reivindicações de revelações privadas e diretas são altamente problemáticas. Claro, isso não significa que Deus não fala com as pessoas. A Escritura está cheia de exemplos disso. Mas essas pessoas geralmente eram indivíduos com uma vocação fora do comum (por exemplo, profeta ou apóstolo), ou então estavam presentes em um período único na história da redenção (por exemplo, a igreja primitiva em Atos).

Depois do fim do primeiro século, com os apóstolos já mortos, a igreja rejeitou amplamente a ideia de que qualquer pessoa poderia dar um passo a frente e afirmar ter uma revelação direta de Deus. Essa realidade é provavelmente melhor exemplificada no debate da igreja cristã primitiva sobre o Montanismo.

O Montanismo foi um movimento do século II cujo líder, Montano, afirmava receber revelações diretas de Deus. Além disso, duas de suas “profetisas”, Priscila e Maximila, também alegavam recebê-las. As revelações eram muitas vezes acompanhadas de um comportamento estranho. Quando Montano as tinha, “[Ele] se tornava obcecado, e de repente caia em convulsões e frenesi. Ele começava a ficar extático e a falar estranhamente (Hist. Ecl. 5.16.7).

Sem qualquer necessidade de mencionar isso, esse tipo de atividade causou grande preocupação nos líderes ortodoxos do segundo século. Parte dela estava na forma em que essas atividades proféticas estavam ocorrendo. Eles a condenaram, alegando que era “contrário ao costume que pertence à tradição e sucessão da igreja desde o princípio” (Hist. Ecl. 5.16.7).

Mas, a outra preocupação (e talvez a maior delas) era que essa nova revelação era inconsistente com as crenças da Igreja sobre os apóstolos. Os líderes do segundo século compreendiam que os apóstolos foram um canal exclusivo usado por Deus; de tal forma que eles não aceitariam qualquer revelação que não se podia demonstrar ser apostólica.

Como exemplo desse compromisso, a igreja primitiva rejeitou o Pastor de Hermas (um livro que supostamente continha revelações do céu) com base no fato de que ele havia sido escrito “muito recentemente, em nossos tempos” (Cânone Muratori). Em outras palavras, ele foi rejeitado por não ser um livro da era apostólica.

Esta questão chegou a um ponto onde os Montanistas começaram a escrever novas profecias, formando sua própria coleção de livros sagrados. Os líderes ortodoxos viram tal atividade como ilegítima porque, em sua compreensão, Deus já havia falado através de seus apóstolos, e as palavras dos apóstolos já haviam sido registradas nos escritos do Novo Testamento.

Alguns exemplos de como os líderes ortodoxos rejeitaram esses livros contendo “nova revelação”:

  1. Gaio de Roma, em seu diálogo contra o Montanista Proclo, repreendeu “a imprudência e audácia de seus adversários ao compor novas Escrituras” (Hist. Ecl. 6.20.3).
  2. Apolônio se opôs às novas “revelações” com base no fato de que os profetas montanistas estavam colocando suas “palavras vazias” no mesmo nível das palavras de Cristo e dos apóstolos (Hist. Eccl 5.18.5.).
  3. Hipólito reclamou que os montanistas “alegavam ter aprendido mais através desses escritos [os escritos montanistas] do que através da lei, dos profetas, e dos Evangelhos” (Haer. 8,12).
  4. A crítica anônima ao Montanismo registrada por Eusébio revela sua hesitação em escrever uma resposta a eles por medo de ser mal compreendido e visto como se estivesse cometendo o mesmo erro que eles ao “parecer, para alguns, estar acrescentando aos escritos ou injunções da palavra da nova aliança e do Evangelho” (Hist. Ecl. 5.16.3).

Quando você olha para essas respostas, alguns pontos importantes se tornam bastante claros. Em primeiro lugar, e isso é crítico, é óbvio que esses autores já tinham recebido e já conheciam uma série de escritos do Novo Testamento como Escrituras dotadas de autoridade. Assim, eles já tinham um cânone do NT (ainda que alguns livros permanecessem sob discussão). De fato, é a existência desses livros que formam a base para as suas principais queixas contra os Montanistas.


Em segundo lugar, e igualmente importante, a resposta desses escritores mostra que eles não aceitaram essas “novas revelações” na época. Para eles, o tipo de revelação que poderia ser considerada como “palavra de Deus” cessou no período apostólico.

Tratando da igreja moderna, há grandes lições a serem aprendidas aqui. Por um lado, devemos ser igualmente cautelosos sobre alegações extravagantes de pessoas recebendo nova revelação do céu. E, ainda mais do que isso, o debate montanista é um grande lembrete para irmos sempre de volta às Escrituras como orientação e padrão definitivo para a verdade. É na palavra de Deus escrita que a igreja deve permanecer firme.

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Autor: Michael J. Kruger
Fonte: Canon Fodder
Tradução: Erving Ximendes
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Fatores que evidenciam uma Crise Pastoral

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Em dias de crise econômica e escassez ética, nada melhor que refletir sobre as motivações que podem gerar uma situação igual a que estamos vivendo no contexto político de nossa pátria. Refletir sobre o tema específico é proveitoso. É justamente isso que iremos fazer neste conteúdo. Porém, não direcionaremos nossa reflexão à crise político-econômica de nossos dias. Pois, ao abordar esse tema, necessariamente, outros temas viriam à baila. E se fizermos uma busca pelo ponto cerne de tudo, sem sombra de dúvidas, chegaríamos ao pecado como causa. Mas, a crise a ser abordada aqui, bem como suas causas, é na realidade outra, e que tem se instaurado em outro ambiente, a saber, no ministério pastoral. 

Há anos que temos instaurado no cenário religioso tupiniquim uma verdadeira “crise pastoral”. Em primeiro lugar, precisamos definir termos; Poimen, este que é o termo utilizado para pastor em grego e que significa supervisionar o rebanho – cuidado contínuo, zelo, preocupação com bem-estar e saúde das ovelhas. Observando o significado do termo em si, logo nos vem algumas dúvidas, a saber: Por que tantas pessoas que se aventuram no ministério pastoral não possuem essas características? Por que tantos que se aventuram neste ofício realizam a lógica contrária, a saber, obter vantagens próprias por meio das “ovelhas” ao invés de ampará-las? Na realidade, vivemos uma grande “Crise Pastoral” sem precedentes. Neste texto, tentarei destacar alguns dos principais motivos de tal crise.

O primeiro e mais grave motivo pelo qual vivemos em dias atuais, uma verdadeira “Crise Pastoral” é a falta de conhecimento bíblico que norteia o cenário religioso cristão da atualidade. O profeta Oseias já alertava no seu tempo (Oseias 4:6). Na atualidade há uma baixa cultura literária em nossa nação, e dentro deste índice, A Bíblia figura. O problema aumenta quando entendemos que todo e qualquer cristão deva ter o mínimo de conhecimento dos idiomas originais da Bíblia, isso porque vivemos uma época onde cada vez mais pessoas combatem os pressupostos cristãos se utilizando da própria Bíblia e de recursos exegéticos (na grande maioria das vezes fazem “eixegese” ao invés de exegese) – um bom exemplo é a Teologia Inclusiva que tenta usar argumentos bíblicos para legitimar-se. Quando se figura num cenário, cristãos que leem e conhecem pouco o livro que regulamente suas regras de fé e prática – A Bíblia – e pessoas que a estudam com intenções tendenciosas e ideológicas, sempre com intuito de refutá-la, temos um ambiente favorável para o surgimento de várias aberrações da fé. Este é o pano de fundo da “Crise Pastoral” que anunciamos aqui. Vejamos as palavras do profeta Oseias:

O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos”. (Oseias 4:6)

O interessante é ver nisso tudo que o próprio Deus rejeita aqueles que rejeitam o conhecimento, Deus os rejeitou como sacerdotes. O conhecimento pode ser entendido aqui como a lei de Deus, e quem a rejeita, Deus os rejeita. Podemos perceber que há uma grande possibilidade de haver no cenário religioso atual uma quantidade elevada de pessoas que rejeitam e negligenciam à Bíblia, e, por isso, são rejeitados por Deus. Mas, estas pessoas, se intitulam pastores aptos a conduzir o rebanho. Estas pessoas estão lançadas às suas próprias sortes. Deus os rejeitou como sacerdotes, líderes e pastores, por negligência da Palavra de Deus. Imagine agora como será um ambiente onde o líder fora desprezado por Deus, mas ele se julga apto a liderar o rebanho? É justamente nesses ambientes onde vemos as maiores aberrações da fé. Assim como Israel caminhou em direção da destruição por ter negligenciado a Lei de Deus, muitos caminham em direção de um precipício e de olhos vendados, sendo guiados por um líder que também não enxerga nada. Falsos pastores conduzindo falsas ovelhas, pois as verdadeiras ovelhas reconhecem a voz de seu verdadeiro pastor (João 10). 

Outro motivo que poderia figurar na lista das causas da “Crise Pastoral” que vislumbramos em nossos dias, seria cometido por aquelas pessoas que escolhem ser pastor. Certo dia ouvi uma pessoa dizer que desde pequeno sonhava em ser pastor. Ela não queria realizar outra coisa em sua vida. Ao ouvirmos isso, aparentemente, soa como algo lindo. Porém, precisamos refletir biblicamente sobre esta alegação. Moisés foi um dos homens chamados por Deus que relutou contra isso (Êxodo 4:1-17), ele não se sentia preparado para executar tamanha tarefa, nem muito menos queria ser líder desde pequeno. O próprio Jeremias relutou quando Deus o chamou (Jeremias 1:6) como se não se avaliasse preparado. Inclusive, é o próprio profeta quem escreve em seu livro que os pastores serão dados exclusivamente por Deus (Jeremias 3:15). Jeremias também não sonhava em exercer uma liderança desde criança. Nestes dois casos, nenhum dos personagens bíblicos escolhe ser líder do povo, mas Deus os chama mesmo assim. Numa outra passagem das Escrituras Sagradas, outro dado interessante é quando o Profeta Samuel vai até a casa de Jessé escolher o novo rei de Israel em sucessão de Saul (I Samuel 16), Deus dá uma ordem ao profeta:

Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (I Samuel 16:7)

Aqui vemos uma concatenação entre  os dois textos mencionados, a saber, o de I Samuel 16:7 e o de Jeremias 3:15. Mas, mais que isso, estas palavras foram ditas por Deus quando Samuel tinha olhado para um dos filhos de Jessé (Eliabe) e o havia avaliado como sendo o futuro rei de Israel. Mas Deus alerta Samuel para não se iludir com a aparência. Hoje sabemos que as aparências enganam. Deve ser por isso que só Deus pode conceder pastores, porque só Ele pode sondar os corações. E como o próprio homem não conhece de fato seu próprio coração e nem o coração alheio, é melhor que Deus confirme e escolha aqueles que devem conduzir o rebanho. 

Podemos mencionar também o apóstolo Paulo como sendo importante expoente dentro desta lista e tema, pois o mesmo fora chamado por Deus de uma forma bem específica. Sua conversão, sobrenatural, na estrada de Damasco, aponta para um homem que não escolhe Deus, mas que Deus o escolhe. Ao avaliarmos o processo que Deus executa em chamar aqueles que Ele mesmo escolhe para a realização de sua obra, não vemos nenhum homem que escolhe, desde pequeno, servir a Deus. Vemos homens que foram chamados, em determinados momentos de suas respectivas vidas, alguns ainda com pouca idade (o rei Josias que foi levantado por Deus aos oito anos de idade), outros já de idade adulta, mas independente disso, homens que nem se quer pensavam em desenvolver uma função dada por Deus. Com isso, devemos atentar para algo, a saber, precisa-se ter muito cuidado quando alguém abre a boca e diz que desde pequeno sonhava e queria ser pastor. Essas palavras podem ser verdadeiras, mas a Bíblia não dá ênfase a tal regra, muito pelo contrário, a grande maioria dos chamados de Deus em direção ao homem se dá quando este mesmo homem já possui uma idade adulta e nem se quer fazia planos para seguir a Deus. Talvez este seja um dos principais motivos cujo qual sofremos uma grande “Crise Pastoral” na atualidade – pessoas que escolhem ser pastor, e todo bom pastor não escolhe ser, mas Deus o escolhe. 

Outro motivo recairia na omissão e falta de coragem por parte de muitos homens em realizar tanto sua função pastoral, como também seu próprio papel de homem. Entendemos que antes de tudo, um bom pastor precisa ser “Homem” – com H maiúsculo. Vivemos uma “Crise Pastoral” porque muitos homens se esquecem disso. Quando me refiro ser homem, não me refiro aos aspectos masculinos, mas sim à personalidade e caráter. Refiro-me ao que de fato é masculinidade. E dentro deste conceito sabemos que existem dois tipos de masculinidade; a verdadeira e a falsificada. Nas palavras de Douglas Wilson, seria desta forma:

“A masculinidade falsificada se destaca por criar desculpas; porque essa ‘masculinidade’ é uma questão de orgulho, e não a humilde aceitação da responsabilidade. Assim, qualquer coisa que ameace esse orgulho deve ser rejeitada. Uma das coisas que sempre ameaçam o orgulho é qualquer tipo de falha, e a maneira como homens inseguros lidam com isso é dando desculpas. A verdadeira masculinidade assume a responsabilidade, e ponto final. Já a falsa masculinidade irá querer aceitar a responsabilidade apenas por aquilo que deu certo.” (WILSON, 2012, p. 24)

Um dos principais motivos por vivermos na atualidade uma “Crise Pastoral” é nada mais nada menos que ausência de uma masculinidade verdadeira e a presença de uma masculinidade falsificada nos homens envolvidos com a obra de Deus. Homens de masculinidade falsa, que não assumem suas responsabilidades pastorais. Assumir responsabilidades é a maior característica presente no caráter de um “Homem”, e é justamente esta característica que evidencia os homens de masculinidade verdadeira, àqueles com H maiúsculo. Como este tipo de homem está em extinção no cenário religioso do Brasil, figurando mais os homens de masculinidade falsificada, este segundo grupo de “homens” dão margem para surgir várias aberrações nos púlpitos. Infelizmente, muitas mulheres assumem a postura que devia ser vista nos homens. O surgimento do fenômeno da ordenação feminina no seio da liturgia cristã contemporânea, não se dá apenas por falta de conhecimento bíblico-exegético – mesmo entendendo que este é o principal motivo deste fenômeno –, mas também por termos na atualidade uma geração de homens de masculinidade falsificada que não assumem suas respectivas responsabilidades pastorais. Sempre que uma mulher é ordenada pastora, há por trás disso um homem de masculinidade falsificada. Sua masculinidade é tão falsificada que uma mulher assume seu lugar. É como se ela estivesse dizendo em alto e bom tom: “Aqui tem homem!”, e infelizmente, o papel do homem é realizado por ela mesma. Este é mais um dos principais motivos por estarmos vivendo na atualidade uma “Crise Pastoral”.

Por fim, entendemos que todo o processo do chamado de Deus em direção aos verdadeiros pastores e líderes atende uma ordem monérgica. Ou seja, é o próprio Deus quem a executa de forma plena e autônoma. Quando o homem se julga preparado para exercer tamanha função, já é um mau sinal. Pois, como o Próprio Deus é quem chama, Ele mesmo preparará o indivíduo gradativamente. E uma das características dos homens chamados e levantados por Deus é justamente nunca se sentir preparado. O preparo além de ser gradativo, não possui um estágio final, e é contínuo. É por nunca se sentir preparado que aqueles que Deus realmente levantou como pastores acreditam ser de tamanha responsabilidade este título – pastor. Por outro lado, há aqueles que se avaliam como sendo totalmente aptos e preparados a exercer as funções pastorais. Eles se avaliam como sendo tão aptos e preparados que não aceitam, nem sequer, serem chamados mais de pastores, pois este título rebaixa suas condições elevadas de homens preparados. O título de pastor provoca comichão e incômodo na alma, provoca inquietação e insatisfação – “paipóstolo”, “mãepóstola”, “apóstolo” etc., conforta mais uma alma megalomaníaca e sedenta por uma subida incessante na escadaria do poder. 

Daqui uns dias o título de demiurgo estará sendo utilizado por alguns destes homens. Deve ser justamente estes a quem Oseias nos alerta. Estes que rejeitaram o Senhor e que foram rejeitados e esquecidos de forma recíproca. Estes que caminham por caminhos que não conhecem e levam consigo uma grande multidão que juntos estabelecem em nossos dias uma profunda, funesta e amarga “Crise Pastoral”. 

Falsos pastores se estabelecem por si próprio, mas o verdadeiro pastor é Deus quem levanta, e as verdadeiras ovelhas, não as falsas, conhecem a sua voz.

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Autor: Thiago Azevedo
Via: Electus
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