Por que o Aconselhamento Pastoral é Importante para Pessoas com Depressão?

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Pense sobre as conversas pessoais que você teve recentemente com pessoas atribuladas. Alguma delas se parece com os testemunhos da Arlene ou do Greg?

Arlene: Era muito difícil sair da cama. Eu só queria poder ficar ali escondida debaixo da coberta e não precisar falar com ninguém. Não tinha vontade de comer e perdi muito peso. Nada mais parecia divertido. Estava cansada o tempo todo, mas, mesmo assim, não conseguia dormir bem a noite. Mas eu sabia que precisava continuar com a vida, pois tenho filhos e um emprego para cuidar. Mas parecia tão impossível, como se nada fosse mudar ou melhorar.”
Greg: De início, eu me sentia triste o tempo todo, mesmo quando não havia qualquer razão. Então a tristeza se transformou em ira, e comecei a brigar com minha família e amigos. Me sentia muito mal a meu próprio respeito, como se eu não fosse bom o suficiente para ninguém. A situação piorou tanto que cheguei a desejar ir para cama e nunca mais acordar.
Meu irmão mais velho, em quem sempre me inspirei, percebeu que eu não estava agindo como de costume. Ele me disse, com toda sinceridade, que eu parecia deprimido e que deveria procurar por um médico. Eu sempre odiei ir ao médico. Pensei: ‘De jeito nenhum vou procurar um médico por esse motivo’.
Contudo, depois de algumas semanas, comecei a ter problemas também no trabalho. Alguns dias eu sequer fui trabalhar, pois não havia dormido na noite anterior. Quando fui demitido, percebi então que deveria ouvir meu irmão e buscar ajuda.

A DEFINIÇÃO ATUAL DE “DEPRESSÃO”

É óbvio que os testemunhos da Arlene e do Greg se referem a apenas pequenos trechos de suas vidas, e apesar de haverem algumas diferenças em suas experiências, ambos tem similaridades suficientes para serem classificados como “clinicamente depressivos” pelos critérios atualmente utilizados. Depressão clínica, do modo que tenho usado o termo, é um termo amplo que abrange algumas classificações mais específicas utilizadas por profissionais ligados à área da saúde mental. Para que tais classificações sejam aplicadas a alguém, o estilo de vida da pessoa deve ter sido significativamente afetado pelos sintomas, como os que estão a seguir (do DSM-5, Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5ª edição):
  • Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias;
  • Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias;
  • Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta, ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias;
  • Insônia (não conseguir dormir ou dificuldade de continuar dormindo) ou hipersonia (dormir mais do que o comum) quase todos os dias;
  • Agitação (por exemplo, incapacidade de sentar-se quieto, estimulação, puxar as roupas) ou retardo psicomotor (por exemplo, discurso e movimentos vagarosos, fala baixa) quase todos os dias;
  • Fadiga, cansaço, ou perda de energia quase todos os dias;
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada quase todos os dias;
  • Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias;
  • Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente com ou sem um plano específico ou uma tentativa de suicídio;
  • Sentimentos de desespero.

Episódios depressivos podem durar desde duas semanas até muitos anos, com graus variáveis de severidade. Por definição, a presença desses sintomas não é decorrente dos efeitos de nenhuma droga ou condição médica (por exemplo, hipoatividade da tireoide). A presença desses sintomas afeta negativamente os relacionamentos pessoais, responsabilidades de trabalho, etc.

Note como é ampla a abrangência desses sintomas possíveis. Alguns desses critérios são sintomas físicos (mudança de apetite, mudanças no sono, mudanças no nível de energia); alguns são sintomas mentais (sentimento de inutilidade, culpa inapropriada, indecisão, pensamentos de morte). O impacto da depressão nos relacionamentos pessoais é também algo a ser notado.

Uma vez que a depressão é identificada pela presença desses sintomas — e porque um bom número desses sintomas tem a ver com o modo das pessoas pensarem, de reagirem a circunstâncias adversas, ou de se relacionarem com outros — é importante que não deixemos de perceber uma implicação lógica essencial: não tratar o pensamento pessimista, culpa, problemas relacionais, etc., irá, na verdade, contribuir para a manutenção da depressão. Isso é importante, na medida que pensamos sobre o cuidado pastoral (conselho bíblico) que você pode oferecer para alguém com depressão.

A RELAÇÃO DE DEUS PARA COM AS EXPERIÊNCIAS DE PESSOAS COM DEPRESSÃO

Do ponto de vista cristão, talvez nos perguntemos: “Onde é que se encaixa o relacionamento com Deus em um cenário de depressão?” O que chamamos de “depressão” também foi experimentado por inúmeras pessoas mencionadas na Bíblia. Por exemplo, compare os versos seguintes do Salmo 102 com os critérios listados acima:

AS PALAVRAS DO SALMISTA
CRITÉRIOS MODERNOS
PARA DEPRESSÃO
Secou-se o meu coração” (v.4) 
Não existe motivação no salmista.
Me esqueço de comer o meu pão” (V.4)
Não há vontade de comer.
Sou como a coruja das ruínas, . . . Como o passarinho solitário nos telhados.” (V.6–7)
Há um isolamento social. (Em Levítico 11.16–18, corujas, como outras aves de rapina, são consideradas impuras por conta de sua associação com a carniça.)
Não durmo” (V.7)
Há dificuldade de dormir.
Os meus inimigos me insultam a toda hora” (V.8)
Existe um sentimento de desespero, de que não há alívio.
Por pão tenho comido cinza e misturado com lágrimas a minha bebida” (V.9)
Há uma tristeza extrema; cinzas são associadas a rituais de luto.
Por causa da tua indignação e da tua ira, porque me elevaste e depois me abateste” (V.10)
Há culpa e vergonha (decorrentes do exílio).

Ana, Elias, Jeremias, e muitas outras pessoas mencionadas nas Escrituras poderiam ser classificadas como depressivas se avaliadas por profissionais de saúde mental nos dias de hoje. No entanto, contrariando o ponto de vista secular, nestes casos, a primeira consideração dessas pessoas referia-se a seu relacionamento para com o Senhor, tanto para entender sua depressão, quanto para buscar alívio dela.

A IMPORTÂNCIA DO CUIDADO PASTORAL PARA COM PESSOAS DEPRESSIVAS

Do ponto de vista bíblico, todos os sintomas associados com a depressão devem ser tratados dentro da perspectiva do relacionamento da pessoa com Deus. Apesar do fato da “espiritualidade” ter se tornado recentemente um ponto de interesse dentre os psicólogos seculares no tratamento da depressão (e outros problemas), o entendimento deles a esse respeito não é útil para cristãos. A definição secular de espiritualidade simplesmente atrai atenção para o significado, propósito, ou um desejo de estar em contato com “o divino”, mas tudo isso acaba por ser definido pela própria pessoa. De outro lado, na Bíblia, espiritualidade sempre tem a ver com o relacionamento de uma pessoa com Deus, e esse relacionamento influi em todos os aspectos da vida: como alguém se relaciona com outros, toma decisões, pensa sobre o futuro, lida com tristeza, prioriza o cuidado do corpo, entende o significado e o propósito da vida, trata a culpa, etc. (Note o paralelo com os sintomas listados acima.) Espiritualidade não é um componente separado na vida do cristão; ela energiza, molda e direciona a vida dele ou dela.

Portanto, a centralidade do relacionamento deles com Deus significa que você deve ajudar pessoas depressivas a pensar em todos os efeitos da depressão em sua vida a partir de uma perspectiva bíblica. Você pode ser a pessoa que auxilia o indivíduo depressivo a processar os aspectos mentais, relacionais, comportamentais e físicos da depressão por meio de uma perspectiva (espiritual) teocêntrica. Essa pessoa possivelmente irá buscar ajuda de outros profissionais, mas nunca presuma que o seu envolvimento com outros profissionais diminui a importância do seu papel! Na verdade, ele é realçado, especialmente se os outros não forem cristãos. Quem melhor para ajudar um crente com depressão a entender e responder aos diversos efeitos da depressão de uma maneira bíblica?

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Sobre o autor: Dr. Jeff Forrey é especialista no campo de aconselhamento e educação bíblica. Foi conselheiro e professor no Center for Biblical Counseling & Education (St. Louis, MO) e no Biblical Counseling Center (Arlington Heights, IL). Ensinou aconselhamento bíblico no Evangelical Theological College, Trinity College of the Bible & Theological Seminary, Westminster Theological Seminary e Reformed Theological Seminary. Graduado no Delaware Valley College (BA, biology), Westminster Theological Seminary (MAR, counseling/theology), the University of Alabama (MSPH, health behavior) e Trinity Evangelical Divinity School (PhD, educational studies).
Fonte: Biblical Counseling Coalition
Tradução: Lucas Sabatier
Via: ABCB
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A Importância da Teologia Sistemática Para o Aconselhamento Bíblico

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Introdução

A prática do aconselhamento Pastoral¹ tem sido estudada por muitos teólogos como uma atividade pastoral e cristã. O aconselhamento bíblico é ensinado nas Sagradas Escrituras e é também um meio de ensino da Palavra. Ao tratarmos do aconselhamento pastoral, no entanto, precisamos partir de algum lugar. Esse ponto inicial deve ser, de fato, alicerçado na rocha e não em areia. Ao observarmos todo o conteúdo das epístolas no NT notaremos que a estrutura que encontramos em parte teológica (teórica) e em parte prática, se bem que essa divisão se dá por uma necessidade pedagógica, mas, toda teologia de fato redunda em doxologia. Ao tratar teologicamente, por exemplo, no início de Colossenses sobre a divindade do Filho e o conhecimento de Deus, isso é a base, o fundamento para se tratar de questões práticas que virão na epístola, a seguir nos capítulos posteriores.

Aconselhamento cristão versus psicologia?

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Já passa do limite. Do jeito que a coisa vai, muitos psicólogos e conselheiros precisarão de ajuda para resolver problemas de ira e de maledicência. Digo isso entre jocoso e sério. A parte séria, pelo menos, merece uma resposta satisfatória. Mas como satisfazer ambos os lados? A única maneira que vejo, será por meio de romper a barreira e permitir uma boa conversa que provavelmente não convencerá quem não quiser entender, mas que esclarecerá qual seja o limite.

Primeiro, consideremos a relação entre a Bíblia e a psicologia. Explicando aos meus alunos, costumo perguntar: Entre a Bíblia e um livro de psicologia, qual você escolheria? A resposta dos cristãos, na maioria das vezes, é: A Bíblia, lógico! Por mais piedosas que pareçam, qualquer das escolhas é inadequada. Quem diz preferir a psicologia, terá exaltado o livro à altura da Bíblia; quem preferir a Bíblia terá rebaixado a Palavra de Deus à altura da psicologia. Isso é por que os dois são elementos de diferentes categorias. A psicologia é o estudo observacional do homem e a Bíblia é a revelação do criador sobre o conhecimento dele mesmo e da criatura, em uma relação essencial. A Bíblia foi dada ao homem para, entre outros usos decorrentes, ser o critério para interpretação da vontade de Deus, do homem e do mundo – incluindo o livro de psicologia. Não é fato que existem diversos tipos de aconselhamento (vocacional, profissional, legal, médico etc.)? Não existe a expressão aconselhamento psicológico? Poderíamos dizer aconselhamento aconselhar ou psicologia psicológica? Isso mostra que são termos diferentes.

Segundo, consideremos as psicologias. Estranho o uso do plural? Mas é isso mesmo. Cada teoria de psicologia expõe e defende interpretação e processo diferentes e, à vezes, antagônicos. Ora, há uma razão para isso. Deixe-me ilustrar. Imagine uma estrada plana e reta em que, onde a vista alcança, você enxerga algo como uma metade de uma esfera. Um besouro? Uma quenga (meia casca de coco)? Um capacete de soldado? Aproximando-se o objeto, você advinha mais. Uma tartaruga? Um tatu galinha? De repente, você percebe: é um fusca! Bem próximo, a satisfação do conhecimento enche os olhos. Mais perto, um metro, é uma raridade, sem amassado e com a cor original. Quase junto, dois centímetros, e tudo que você vê, agora, é o brilho de um pedaço bem pequeno de cor e luz, impossível de descobrir a natureza. Se existisse elefante polido e pintado, poderia ser um deles. Imagine, então, que diferentes observadores estejam olhando para estradas diferentes, tentando elaborar teorias sobre a natureza de objetos parecidos que se movem na direção deles? Certamente teríamos tantas teorias quantos fossem os observadores. Assim, temos tantas psicologias quantos são os estudiosos dos movimentos internos e externos dos homens. Isso é mau? Não por isso. O Dr. J. Adams, pioneiro da reabilitação do aconselhamento bíblico disse, em What About Nouthetic Counseling (Grand Rapids: Baker, 1976, p. 31), que ele mesmo tirou proveito de estudos psicológicos sobre o sono, e que não vê com maus olhos a psicologia observacional (método científico honestamente aplicado). Ele rejeita, sim, o uso impróprio de abstrações das psicologias como métodos de redenção do ser humano.

Essa perspectiva nos leva a uma terceira consideração: o que é que a Bíblia diz sobre aconselhamento e psicologia? Em 1Coríntios 2.9-16, o apóstolo Paulo disse que nem olhos viram nem ouvidos ouviram, nem o coração humano pode entender o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Isso, ele disse sobre o conhecimento do homem pelo próprio homem, tanto do incrédulo quanto do crente, dando como referência o conhecimento do Criador. Os crentes, ele continua, recebem revelação do Espírito que a tudo perscruta – as profundezas de Deus e do homem. O método desse conhecimento é, portanto, espiritual e não natural. Aqui, Paulo estabelece a distinção feita acima: o espiritual não é paralelo ao natural nem somente uma questão de divisão interna do homem. Na verdade, espiritual e natural são conceitos que pertencem a categorias diferentes. Além disso, o espiritual é uma totalidade abrangente que compreende e deveria reger o natural. Hoje, tal como os observadores das estradas, vemos algo com forma de homem, mas não entendemos sua natureza nem sua condição. Se o Espírito não no-lo revelar, concluiremos qualquer coisa.

O fato é que o Espírito nos revela, na Palavra, que o homem foi criado bom, que presentemente se encontra decaído por causa do pecado, e que ele é passível de redenção. Ocorre que o homem decaído não entende nem discerne as coisas espirituais. Paulo disse que o homem espiritual escrutina todas as coisas e ele mesmo não é escrutinado por ninguém; o homem natural, por sua vez, não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. A palavra grega traduzida como natural, nesse texto, é psuchikos (psíquico). Você vê outra interpretação senão que o aspecto interior do homem sem Deus, a psique, é o objeto de estudo das psicologias? Não estou esbordoando os psicólogos, mas apenas, dizendo que a consideração do homem somente sob o critério psicológico é considerá-lo fora de sua natureza, descartando sua condição e sem possibilidade de tratar seu verdadeiro problema. Tudo o que as psicologias podem fazer, é tentar adivinhar. Muitas vezes, o gênio que Deus concedeu a todos, crentes e incrédulos, não pode evitar o reconhecimento de coisas verdadeiras no homem e no mundo. Contudo, se falha em considerar a Deus e sua revelação quanto ao homem e ao mundo, ele fica como quem imagina diferentes coisas a diferentes distâncias.

Nem toda a sabedoria deste mundo poderá entender a totalidade do que Deus tem para os seus. Nenhuma psicologia poderá resgatar o homem de seu problema básico. Só Deus, em Cristo, é Redentor e Senhor da humanidade. É certo que, uma vez conhecido o fusca, alguém poderá lavá-lo, consertar suas partes e dirigi-lo, mas jamais poderá lhe conceder vida, mente, vontade e sentimentos. Lembre-se do que Paulo também disse: Ninguém, senão Deus, no Espírito, poderá assegurar a salvação; ninguém, senão Deus Trino poderá assegurar o anseio último da alma, isto é, um senso de dignidade, pertencimento, uma imaginação interpretativa acurada e criativa, nem uma operação interior e exterior que reflita a razão de sua própria criação. Fomos criados para habitar em Deus, para pensar seus pensamentos e para atuar em verdade e amor sobre as obras de Deus.

Você percebe, então, que não se trata de uma rivalidade entre aconselhamento bíblico e psicologia secular? Como Paulo disse em outro lugar, nossa luta não é contra o sangue e a carne (Efésios 6.12). Deverá haver uma psicologia bíblica – biblicamente teológica, antropológica e soteriológica, – que não seja uma visão reduzida do homem de maneira secularmente antropológica, sociológica ou fisiológica. Antes ela deve vir de Deus, ser revelada na Bíblia e ser testemunhada ao coração pelo Espírito Santo. O aconselhamento cristão pretende ter essa noção, mas não está limitado ao homem interior ou exterior. Ele trabalha em todos os limites que Deus preparou e

...manifestou aos seus santos aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo... (Colossenses 1.26b-28).

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Autor: Rev. Wadislau Martins Gomes
Fonte: Coram Deo
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Aconselhamento Noutético

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Noutético vem da palavra de origem grega “nouthesia”, que literalmente significa “o ato de pôr em mente” (formado de nous, “mente”, e tithemi, “pôr”). O termo nouthesia é “o treinamento pela palavra”, quer por incentivo, ou, se necessário, por reprovação ou reclamação. Em contraste com isso, o sinônimo “Paideia” enfatiza treinar por ação, embora as palavras sejam usadas em cada aspecto.

O aconselhamento Noutético é um tipo de admoestação cujo objetivo é proporcionar orientação para uma vida correta diante de Deus. O que subentende também correção e a denúncia a qualquer padrão que seja incoerente com o viver cristão. A atividade noutética conforme ensina o Novo Testamento, indica que todos os cristãos, e não somente os pastores, devem ocupar-se no ensino e confrontar-se mutuamente (Rm 15.14). Porém, a atividade noutética caracteriza-se principalmente como parte integrante do ministério pastoral. Ao se despedir dos presbíteros de Éfeso, Paulo descreve, em (Atos 20.31), a atividade que desenvolvera enquanto estivera com eles, e os exortou a continuarem a mesma obra entre o povo.

Paulo foi um missionário, e onde quer que demorasse um pouco mais, atirava-se à sólida obra pastoral necessária para a edificação das pessoas na fé, sendo a atividade noutética parte proeminente dessa obra, razão porque suas cartas estão cheias de nomes de pessoas específicas, com as quais se envolvera muito intimamente. Ele não se limitava a pregar nas praças, mas lidava com as pessoas como indivíduos, grupos e famílias, confrontando-as nouteticamente. Existem três elementos da confrontação noutética que precisamos considerar aqui. Quais sejam:

1 – A atividade noutética e a sua conjunção com “didaskõ”.

Didaskõ é uma palavra grega e significa “Dar instrução” “ Ensino” (Cl 3.16). Em outros textos, contudo, o termo vai além do conceito de “ensino”. A confrontação noutética sempre envolve um problema e pressupõe um obstáculo que tem que ser vencido. A palavra didaskõ não envolve, necessariamente, um problema. Sugere, simplesmente, a comunicação de informação. Não inclui coisa alguma que diga respeito ao ouvinte, mas se refere exclusivamente à atividade do instrutor. A pessoa que está sendo ensinada pode estar ansiosa ou não por receber a instrução. Pode ter gastado razoável quantia ou ter percorrido longas distâncias para recebê-las ou então pode reagir como o típico aluno recalcitrante.

A noutese localiza aquele que faz a confrontação e aquele que a sofre, pressupondo, especificamente, a necessidade que se verifique mudança na pessoa confrontada, a qual pode opor ou não alguma resistência. A idéia de alguma coisa errada, algum pecado, alguma obstrução, algum problema, alguma necessidade que precise ser reconhecida e tratada, é uma idéia fundamental. O propósito básico da noutese é o de efetuar mudança de conduta e de personalidade.

2 - A atividade noutética e a sua conjunção com a “palavra”.

O segundo elemento inerente ao conceito de confrontação noutética é que os problemas são resolvidos por meios verbais. É o treinamento mediante a palavra de encorajamento, quando isso basta, ou de admoestação, de reprovação, de censura, quando estas se fazem necessárias. Assim, ao conceito de noutese deve-se acrescentar a dimensão adicional de confrontação verbal pessoa a pessoa, cujo objetivo é realizar mudança de comportamento e de caráter no consulente. No seu uso cristão, visa pôr em ordem o indivíduo, mediante a mudança de seus esquemas de conduta, de modo que estes se enquadrem nos padrões bíblicos. A mudança de personalidade, segundo as Escrituras, envolve confissão, arrependimento e o desenvolvimento de novos padrões de conduta. Tudo entendido como obra do Espírito Santo, pois tudo o que constitui esse ministério é por Ele tornado eficaz. Os métodos comuns de aconselhamento recomendam longas “excursões” retrospectivas rumo às confusões dos porquês e para-quês da conduta. O aconselhamento noutético aplica-se intensamente à discussão do o quê. O que foi feito? O que precisa ser feito para corrigi-lo? O que deverá constituir as futuras reações e respostas? A ênfase é no o quê, visto que já se sabe o “porquê’, antes de iniciar-se o aconselhamento. A razão pela qual as pessoas se envolvem em problemas em suas relações com Deus e com o próximo está em sua natureza pecaminosa.

3 - A atividade noutética e a sua conjunção com o “benefício ou ajuda”.

O motivo subjacente à atividade noutética é que sempre se tem em mente que a correção verbal visa beneficiar o interessado. Esse terceiro elemento implica em mudar aquilo que, na vida do consulente, o está ferindo. A meta deve ser a de enfrentar diretamente os obstáculos e vencê-los verbalmente, não com o fim de puni-lo, mas sim o de ajudá-lo. A idéia de castigo, mesmo o de cunho disciplinar, não é contemplada no conceito de confrontação noutética. A noutese é motivada pelo amor e profundo interesse, sendo que os consulentes são aconselhados e corrigidos por meios verbais para seu bem. O objetivo final é que Deus seja glorificado.

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Sobre o autor: Jay Edward Adams exerce um ministério de mais de 40 anos na área de aconselhamento bíblico. Obteve seu Ph.D pela Universidade de Missouri e serviu como professor no Seminário Teológico de Westminster por vários anos. Dr. Adams fundou os ministérios Christian Counseling and Educational Foundation (CCEF) e National Association of Nouthetic Counselors (NANC).
Fonte: Exposição Teológica
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O Apóstolo Paulo encontra Mário Sérgio Cortella

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Certo dia o apóstolo Paulo, numa visita ao Brasil, resolveu participar de um congresso sobre Liderança promovido por uma igreja evangélica. Na propaganda do congresso constava a informação de que o principal palestrante seria o filósofo e educador brasileiro, Mário Sérgio Cortella. Paulo percebeu que dentre as qualificações de Cortella se destacava o seu doutorado em Educação, obtido em 1997, na PUC-SP, sob a orientação do patrono da educação brasileira, Paulo Freire. O apóstolo Paulo deveras ficou curioso e decidiu participar da programação.

Chegado o grande momento, Paulo ocupava um assento na primeira fileira, regalia obtida por ser um membro do verdadeiro colegiado apostólico. O palestrante, Mário Sérgio Cortella, abordava o tema A ARTE DE LIDERAR. A palestra caminhava para o seu final e, no geral, o apóstolo Paulo considerou a palestra interessante e com insights perspicazes. É verdade que muito do que Cortella afirmou era fundamentado no marxismo esposado por ele, mas, ainda assim, algumas colocações foram bastante úteis. No entanto, na conclusão da palestra, Cortella fez uma afirmação que, imediatamente, despertou sentimentos variados na mente do apóstolo Paulo. Cortella repetiu uma frase sua já bem conhecida: “Elogie em público e corrija em particular. Um líder corrige sem ofender e orienta sem humilhar”.

Imediatamente o público irrompeu em efusivos aplausos e ovacionou a sabedoria de Mário Sérgio Cortella. Ao testemunhar a aceitação irrestrita do ensinamento de Cortella, bem como a maneira acrítica como seminaristas e futuros pastores presentes receberam a frase sobre correção, Paulo não pôde fazer outra coisa senão se entristecer diante do estado da igreja evangélica. Ele percebeu que aquelas pessoas apoiavam a ideia do “Elogie em público e corrija em particular” como sendo verdadeira.

Foi aí que, discretamente, ele subiu ao palco do auditório e tomou em suas mãos o microfone. Ao ver a cena, o público, atônito, calou-se e ficou a observar. Paulo disse as seguintes palavras: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado?” (Gálatas 3.1). Ele continuou: “Não recordais? Não lembrais, de quando Cefas foi a Antioquia e foi necessário que eu lhe resistisse face a face porque se tornara repreensível? De como ele se envergonhou de comer com gentios como vocês e, quando os judeus chegaram, ele fez de conta que não tinha nenhuma relação com aqueles gentios? Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gálatas 2.14).

Ouvindo isto, o público começou a se retirar do auditório. Alguns até vaiaram o apóstolo. A única reação de Paulo foi dar um suspiro de tristeza e dizer ao Pai: “Tende misericórdia, Senhor!”

Kyrie eleison!

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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Dez maneiras como a apologética auxilia no aconselhamento bíblico

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O que se segue é uma lista do modo como a apologética em geral e pressuposicional em particular tem ajudado a me tornar um conselheiro bíblico melhor (não que eu já tenha alcançado, mas adiante...)

1) A apologética em geral tem me feito pensar mais claro e logicamente. Isso tem me ajudado a me tornar mais claro e preciso em como eu aconselho a outros. 

2) A apologética em geral tem me feito ouvir aos outros mais cuidadosamente e fazer perguntas que esclareçam o que eles querem dizer, e por que eles pensam o que pensam e fazem o que fazem. 

3) A apologética em geral me levou a vê-la com uma ferramenta adicional ao meu aconselhamento: às vezes, o aconselhando faz algumas declarações preocupantes durante a abordagem, eu escrevo diversas das mais importantes e, então, assinalo-lhe a pensá-las através daquelas que podem ser problemáticas e não bíblicas. Então, quando nos encontramos, vejo que ele pode surgir com suas próprias conclusões, louvando a Deus porque ele pôde por si mesmo identificá-las, ao mesmo tempo em que ele aponta outras coisas que poderiam ter se perdido ou que precisam de mais elaboração. Esse exercício é logicamente rigoroso e eu creio que a aplicação da apologética seja útil para treinar essa aplicação.

4) Em particular, a apologética pressuposicional tem me tornado mais consciente que as pessoas frequentemente fazem coisas por causa de suas cosmovisões. Então, no aconselhamento eu estou agora mais consciente em identificar as pressuposições não bíblicas que as pessoas adotam e que podem estar conduzindo seus problemas. 

5) Em particular, a apologética pressuposicional tem me tornado mais consciente sobre assuntos de autoridade das Escrituras e a ênfase vantiliana sobre a Escritura reforça a importância de usar habilmente a Escritura aplicando-a à minha vida e à vida de outros no cuidado de nossos problemas. Ela me faz determinado a estudar a Escritura e ver suas implicações na abordagem de questões práticas

6) Do ponto 5, a apologética pressuposicional em particular também tem sido útil em me fazer perceber que, muitas vezes, pecados e comportamentos destrutivos são irracionais, de acordo com o pensamento cristão pareceriam “racionais” se suas consequências seguissem de suas cosmovisões. Por isso, é importante ver que a questão da idolatria (a raiz do problema) seja abordada (seja ela a busca pelo prazer a qualquer custo, orgulho etc), uma vez que ela dirige todas as coisas.

7) A apologética pressuposicional em particular relembra-me do efeito noético do pecado e que apelar ao que é racional ou razoável não é o suficiente se a vontade de alguém já está decidida. Isso me leva a ver a importância da oração, do uso da Lei de Deus para apelar à consciência e aplicar-lhe o Evangelho de modo a afetar as afeições do indivíduo.

8) A apologética pressuposicional em particular com sua ênfase sobre o efeito do pecado sobre todas as nossas faculdades também tem grandemente me humilhado e me guardado contra a auto-justiça quando aconselho a outros. Eu me percebo como um pecador que necessita da Graça: que, como conselheiro, eu posso cometer enganos e, então, eu preciso de muitas perguntas para que eu saiba o que realmente está acontecendo, em vez de assumir que já sei; ela também me faz perceber o meu próprio pecado e preciso me aplicar o mesmo remédio que estou oferecendo; me faz perceber que, se eu estiver errado na forma como aconselho, também devo confessá-lo ao meu aconselhando.

9) A apologética pressuposicional me faz perceber que na raiz de todos os nossos problemas nós precisamos de Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador.

10) A apologética pressuposicional me faz perceber que no centro de muitos problemas, tais como pecados sexuais, drogas etc. está a questão da adoração. A verdade de Deus faz-me querer adorar a Deus mais e mais por sua grandeza. A apologética pressuposicional e o perspectivalismo¹ de John Frame fazem-me adorar a Deus por ver a beleza da verdade de Deus como um todo coerente, complementando e tendo implicações para outras esferas da vida. O inter-relacionamento da apologética e aconselhamento bíblico é belo. Nós precisamos ter uma apologética doxológica. 

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Nota:    
[1] Veja http://frame-poythress.org/a-primer-on-perspectivalism/

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Autor: Jim Lee
Fonte: The Domain for Truth
Tradução: Rev. Gaspar Souza
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Conheci as doutrinas da graça, mas, estou numa igreja herética: o que devo fazer?



Por Thomas Magnum


Para um cristão nascido de novo, é salutar estar numa igreja local, é bíblico que os crentes congreguem e tenham comunhão com outros irmãos. A igreja foi criada por Deus e sua existência não é algo restrito ao Novo Testamento, mas, no Antigo Testamento já vemos a igreja presente com o povo de Israel. No entanto o que estamos nos propondo a refletir neste texto é se basta estar simplesmente numa igreja, isto é, qualquer igreja.

Há “ditos populares antigos” que defendem um ecumenismo evangelical que dizem, “temos o mesmo Deus”, “o que importa é que cremos em Deus”, “nossas diferenças são insignificantes”, “Deus é o Deus de todos”, “a letra mata”, “o mais importante é o amor”, “no céu não terá teologia”. Claro que tais afirmações têm algum fundo de verdade, mas, não podemos dizer hoje ao evangelizarmos alguém, que este procure uma igreja perto da sua casa. A igreja próxima da casa dessa pessoa pode provavelmente ser uma igreja herética ou uma seita, então, estaremos contribuindo negativamente para vida dessa pessoa. Até mesmo ao dizermos procure uma igreja que ensine a Bíblia, muitas igrejas heréticas ensinam a Bíblia, de forma distorcida, mas, ensinam. O que nos resta nesses dias é uma delimitação do que é igreja: o que é uma igreja saudável? O que é uma igreja bíblica? O que é uma igreja verdadeira?

Diante desse problema, temos outro problema comum, pelo menos em minha realidade e na região do país onde moro – há escassez de igrejas bíblicas, reformadas, não somente na teologia, mas no culto, na evangelização e missões.

Estamos vivendo uma efervescência da teologia reformada no país, algo que considero bom, porque ao olharmos a história da reforma protestante, vemos que a popularidade da reforma e a propagação de sua mensagem deram-se em grande parte pela imprensa, que era o meio tecnológico que Deus proveu para sua igreja naquela época. Hoje temos uma popularização da teologia reformada por meio das redes sociais, vídeos, cursos online, livros digitais, etc. É possível fazer um curso teológico com bons professores pela internet, o que em outros tempos somente era possível se houvesse um deslocamento geográfico. No entanto nossa problemática aumenta, e chegamos à pergunta de nosso título. Conheci as doutrinas da graça, mas, estou numa igreja herética: o que devo fazer? A questão não é fácil por alguns motivos que quero listar:

a) O que você entende por igreja herética?
b) Você conhece de forma consistente o que sua igreja professa doutrinariamente?
c) Você já conversou com seu pastor sobre as supostas heresias?
d) Você está sendo movido a sair da igreja por vaidade ou por certeza que os ensinos ali pregados estão distantes da sã doutrina?

Já tive o desprazer de ver uma igreja histórica aderir aos ensinos heréticos do neopentecostalismo. Já tive o desprazer de ver um seminário anteriormente professante da fé reformada aderir o ecumenismo religioso e ao liberalismo teológico. O fato não está longe de nós, ao contrário. Vamos então aos questionamentos supracitados.

O que é uma igreja herética?

Comecemos pelas bases. Uma igreja cristã deve crer na Bíblia como sendo a Palavra de Deus, infalível e inerrante. O posicionamento da igreja sobre a Bíblia é à base de tudo na teologia dessa comunidade local. A Bíblia não somente contém a Palavra de Deus, ela é a Palavra de Deus. A Bíblia interpreta-se, a Bíblia não está abaixo da autoridade humana ou eclesiástica, a Bíblia não é serva da igreja, mas a igreja deve seguir os ensinos da Bíblia. A Bíblia é um todo completo, ela não precisa de complemento de revelações, profecias, sonhos, visões, ou nela ser anexado algum outro tipo de literatura arrogando a mesma autoridade, a reforma professou Sola Scriptura (Somente a Escritura) e Tota Scriptura (Toda a Escritura). A Bíblia é o guia da verdadeira igreja de Cristo. Se uma igreja põe em xeque essas questões ela é de fato uma igreja herética.

Outro fator que devemos mensurar numa igreja herética é o que ela professa sobre Cristo. Qual é o papel de Cristo nessa igreja? A grande questão muitas vezes não é a que está na confissão doutrinária da igreja, mas, o que na prática ela crê sobre Cristo. Cristo é o criador (Cl 1.13-23; Jo 1.1-3), é o logos (Jo 1.1), a imagem exata de Deus (Hb 1.3), Cristo é Deus (Jo 20.28), Cristo é Suficiente para sua igreja (Cl 2; Fl 2). Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, Cristo ressuscitou em carne (Lc 24.39). Importante considerar o que a igreja diz sobre a Trindade, nosso Deus é um Deus triúno e isso é expresso em vários textos das Escrituras (Gn 1.26-28; Mt 3.13-17; Ef 5.18-21; Jo 14.5). Considere também qual é o parecer sobre a igreja e seu papel, a igreja não é a porta para a salvação, mas, antes, a congregação dos primogênitos, a igreja não salva, mas os salvos estão na igreja. O papel dos líderes é guiar o rebanho com amor e não com domínio sobre a herança de Deus (1 Pe 5.1-3), a finalidade da igreja é glorificar a Deus e não explorar financeiramente os fiéis, a igreja não é um mercado de bênçãos, a igreja não é uma loja de câmbio, igreja não é um ringue de briga entre anjos e demônios. Igrejas que enfatizam mais a obra de Satanás do que de Deus tem algo errado, igrejas que invocam os demônios em seus cultos para “libertação” de almas, estão distantes das Escrituras, o culto foi feito para adoração a Deus e não para o demônio aparecer. Desconfie de igrejas que não possuem rol de membros, nessas, o fluxo de pessoas é interminável, não há cuidado pastoral, só campanhas, ofertas e uma quantidade interminável de pedidos de somas de dinheiro, cuidado!

Você conhece de forma consistente o que sua igreja professa doutrinariamente?

Procure conhecer o que sua igreja professa doutrinariamente, se estivermos falando de igrejas históricas, provavelmente você irá se surpreender e verá que igrejas Batistas, Anglicanas, Congregacionais, Presbiterianas e outras dessas derivadas tem raízes na teologia reformada calvinista. No entanto, antes de qualquer coisa observe os documentos históricos a respeito da doutrina de sua igreja, muitas vezes uma igreja que está dentro de uma denominação, apostata da confissão doutrinária e adere a heresias, infelizmente isso é muito comum e são raras as denominações que escapam disso.

Você já conversou com seu pastor sobre as supostas heresias?

Converse com o pastor da igreja, saiba da boca dele o que ele crê. Observe se ele possui um posicionamento legalista em relação a igreja, tipo: Deus está nessa igreja e tem abençoado meu ministério – nesses casos uma das marcas em falsos profetas é a arrogância e uma posição de “super” pregador. 

Observando sua pregação e ensino muita coisa pode ser deduzida com eficácia, mas, tenha se possível uma conversa particular, haja eticamente, não saia falando mal de todo mundo e metralhando como hereges, seja piedoso e humilde, no entanto, quando necessário seja firme e diga a verdade. Há inúmeros casos de lideres que absorveram ensinos heréticos que são pessoas sinceras e acham que estão seguindo a verdade, muitas vezes precisam ser alertados a arrependerem-se e retornarem a sã doutrina. Há muitos casos de obreiros que tiveram um treinamento teológico fraco e são levados por muitos ventos de doutrina. Em outros casos uma evidência de uma igreja herética começa na liderança, uma liderança monárquica, centralizadora, legalista e avarenta são fortes indícios de uma igreja herética.

Você está sendo movido a sair da igreja por vaidade ou por certeza que os ensinos ali pregados estão distantes da sã doutrina?

Minha preocupação ao pontuar esse caso é que para muitos ser reformado virou moda, é algo que está em alta. Está existindo uma aderência à teologia reformada por muitos pentecostais e evangélicos de denominações arminianas, mas muitos deles só professam teoricamente as doutrinas da graça, querendo justificar uma vida sem comprometimento com Deus, com a Palavra, com a Igreja, com a santificação, com a oração. Um crescimento do hipercalvinismo tem causado muitos problemas na vida de muita gente. Portanto, se sua postura é puramente baseada na vaidade de ser reformado, suas intensões são erradas.

O que devo fazer?

Bom, o fato é se depois de tudo isso realmente a igreja apostatou, se nela não há disciplina, se o homem é colocado no centro como soberano, se a Palavra de Deus não é ensinada fielmente, se a pregação não é algo sério e pautada somente na Escritura, então algo deve ser feito, uma atitude deve ser tomada, afinal, tal igreja está indo contra a vontade de Deus e estar numa igreja assim é por demais ofensivo a um crente fiel a Escritura.

Deus não quer que seus servos estejam embebidos de heresias, que seu povo esteja no erro. Há inúmeros exemplos nas Escrituras, leia as cartas às igrejas da Ásia Menor no Apocalipse.

No entanto, chegamos num ponto nefrálgico. Muitas vezes a pessoa que descobriu a verdade da Escritura tem inúmeros motivos para ficar naquela igreja. No caso de pastores muitas vezes é o sustento e prestígio, em outros casos são laços fraternos, laços familiares, o temor de exclusão de muitos círculos de amizade e até da família. Na verdade nesse tipo de igreja a verdade sempre é negociada, a verdade de Deus é colocada em segundo plano, lembro-me de uma frase de Lutero que muito me foi útil: “A paz se possível, a verdade a todo custo”. Jesus disse que traria espada, divisão, e a verdade de Deus promove divisão. Um dia uma pessoa que estava em uma igreja assim me disse, temo causar divisão. Considero válida a preocupação, mas, quem divide é quem está errado e não quem está certo. Os puritanos não queriam sair de dentro da igreja Anglicana, queriam uma reforma interna. Isso não foi possível e então eles tiveram que sair e assim foi à vontade de Deus.

Outro temor de pessoas que desejam deixar tais igrejas é se serão bem recebidas em outro lugar. É importante dizermos aqui que Deus tem seu povo, e o povo de Deus não está restrito a uma congregação, Deus cuida de nós e nos guia como tem guiado seu povo em toda a história. Mesmo que estejamos num deserto e as decisões sejam difíceis temos a promessa de que o Espírito nos guia em toda a verdade (Jo 16.13). Não negocie a verdade de Deus, ainda que seja necessário perder amigos, relacionamentos, posição de liderança, prefira a vontade de Deus e sua verdade. A reforma protestante zelou pela verdade, mesmo que ela fosse preferível à unidade. A unidade do povo de Deus deve estar pautada na verdade do Evangelho e não na mentira, pois, o pai da mentira é outro (Jo 8.44).

Procure uma igreja biblicamente saudável, não insista em permanecer em uma igreja herética, isso não irá lhe fazer bem. Quando converso com pessoas que estão nessa situação pergunto por que não saíram ainda dessas igrejas; a resposta não me surpreende mais: “Temos muitos amigos lá, nosso convívio social está lá, temos parentes, tememos o que pode acontecer com esses relacionamentos se sairmos...” Claro que não podemos tratar isso de forma simplista, inegavelmente há impactos nesse processo. Mas, a nossa fidelidade ao que Deus diz deve ser maior que nossos relacionamentos, veja o que Jesus ensinou:

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á. ” - Mt 10. 37-39

Obviamente muitos casos devem ter acompanhamento pastoral e aconselhamento. Muitos casos são traumáticos e com isso ocorre também a decepção de muita gente com a igreja e cresce o número dos sem igreja ou de igrejas domésticas. Não temos espaço para tratar disso agora, mas, existem bons livros escritos sobre tais assuntos. 

Quero concluir dizendo que a igreja foi criada por Deus, as portas do inferno não prevalecem contra ela, Cristo ama sua igreja e devemos amá-la também. A igreja está fundamentada em Cristo e Cristo é a verdade (Jo 14.6). Lembre que a verdade e a vida são ligadas ao caminho. Jesus alimenta e cuida da igreja (Ef 5.29). Procure uma igreja bíblica, confessional, em que a Palavra seja genuinamente pregada e ensinada.

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Fonte: Electus
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A morte de John Bunyan

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Por George Offor (1787 - 1864)


A morte de John Bunyan ocorreu em 31 de agosto de 1688, pouco mais de 300 anos atrás [data quando o autor escreveu este texto]. Bunyan nasceu em Elstow perto de Bedford em 1628. Ele foi convertido sob a poderosa obra do Espírito de Deus em 1650. Ele foi pastor em Bedford por 16 anos, morreu em Holborn e foi sepultado em Bunhill Fields. O seguinte relato de sua morte é por George Offor, escrito em suas memórias de 1862:

O tempo se aproximava, quando, no meio de sua utilidade, e sem aviso prévio, ele estava prestes ser convocado para seu descanso eterno. Ele havia sido seriamente atacado com uma pestilência perigosa, que em anos anteriores, devastou este país, chamado de doença do suor, uma doença tão misteriosa e fatal como a cólera tem sido nos últimos tempos. A doença contou com grande prostração de força, mas, sob a gestão cuidadosa de sua esposa carinhosa, sua saúde tornou-se suficientemente restabelecida para capacitá-lo a realizar uma obra de misericórdia, a partir do cumprimento de que, como um abençoado perto de seu incessante trabalho terreno, ele estava prestes a subir para junto seu Pai e seu Deus, para ser coroado com a imortalidade. 

Um pai tinha sido gravemente ofendido pelo  filho, e ameaçou deserdá-lo. Para evitar a dupla maldade de um pai morrendo de raiva de seu filho, e a grave consequência ao filho de ser cortado de seu patrimônio, Bunyan se aventurou novamente, em seu estado fraco, pelo seu trabalho habitual, para ganhar as bênçãos do pacificador. Ele fez uma viagem a cavalo para Reading, sendo o único modo de viajar naquela época, e foi recompensado com o sucesso. Voltando para casa por meio de Londres para dar a notícia gratificante, ele foi ultrapassado pelo excesso de chuvas, e, em um estado de esgotamento, ele encontrou refúgio agradável na casa de seu amigo Christian Sr. Strudwick, e foi lá apanhado com uma febre fatal. Sua bem-amada esposa, que tão poderosamente pediu sua liberdade aos juízes, e com quem ele estava unido havia 30 anos, percorreu uma grande distância para ir até ele. De Bedford até Londres foram dois dias de viagem.

Provavelmente, no início, seus amigos tinham esperanças de sua recuperação rápida, mas quando veio o golpe, todos os seus sentimentos e os de seus amigos, parecem ter sido absorvidos pelas bênçãos antecipadas de imortalidade, a tal ponto, que nenhum registro é deixado para saber se sua esposa, ou qualquer um dos seus filhos, viu-o atravessar o rio da morte. Há testemunho abundante de sua fé e paciência, e que a presença de Deus estava eminentemente com ele.

Ele suportou seus sofrimentos com toda a paciência e coragem que se poderia esperar de um homem assim. Sua renúncia foi mais exemplar, suas expressões eram apenas "um desejo de partir, para ser dissolvido, para estar com Cristo". Seus sofrimentos foram curtos, sendo limitados a 10 dias. Ele teve um quadro de Espírito Santo, desejando que seus amigos orassem com ele, e unia-se fervorosamente com eles no exercício. Suas últimas palavras, enquanto lutava com a morte, foram:

"Não chores por mim, mas por si mesmos. Eu vou para o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sem dúvida, através da mediação de seu bendito Filho, me receberá, apesar de eu ser um pecador, onde espero que dentro em breve me  reunirá, para cantar a nova canção, e permanecer eternamente feliz, num mundo sem fim. Amém". 

Sentia-se o sólido chão sob seus pés na passagem do rio preto que não tem ponte, e seguiu a sua peregrinação rumo à cidade celestial, em agosto de 1688, no sexagésimo ano de sua idade. As circunstâncias de sua morte pacífica são bem comparadas pelo Dr. Cheever à experiência do Sr. Standfast, quando ele foi chamado para passar o rio: a grande calma, o pé firme, dirigindo-se aos espectadores, até que seu semblante mudou, o seu forte homem curvou-se debaixo dele, e suas últimas palavras foram: "Leve-me, porque eu vou para ti." Em seguida, a alegria entre os anjos enquanto eles saudaram o herói dessas lutas espirituais, e conduziu sua alma errante para a Nova Jerusalém, que ele tão bem descreveu como "a cidade santa", e, em seguida, sua admiração e espanto ao descobrir quão infinitamente sua curta descrição veio à tornar-se bem-aventurada realidade.


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Fonte: Puritans Sermons - Reproduzido com permissão da Banner of Truth - Revista Edição 299-300, agosto-setembro 1998.
Tradução: César Augustos Vargas Américo
Divulgação: Bereianos

*Leia também o excelente artigo sobre a biografia de John Bunyan: "O sofrimento em John Bunyan", altamente recomendável!
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Noutética: confrontando o homem com a Palavra de Deus

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Por Thiago Oliveira


Dentre as principais formas de aconselhamento cristão, sinto um apreço pela metodologia noutética. O termo “Noutético” é derivado de uma palavra grega que significa “por em mente” (formado de nous, “mente”, e tithemi, “pôr”). O aconselhamento noutético seria então aquele que direciona, ensina, exorta, confronta o aconselhando com os princípios bíblicos. O seu fundamento está na máxima reformada “Sola Scriptura”, e não poderia ser diferente, já que o principal teórico do aconselhamento noutético é Jay Adams. Ele foi o deão do Instituto de Estudos Pastorais e professor de teologia prática no Seminário Teológico Westminster, na Filadélfia, Estados Unidos; graduado com especialização em homilética e oratória; também pastoreou vários ramos da Igreja Presbiteriana da Pensilvânia e Nova Jérsei.

No entanto, vemos o uso de “nouthetéo” nos escritos paulinos. Sempre que o termo aparece, está estritamente associado a uma intenção pedagógica (Atos 20.31, Romanos 15.14, 1 Coríntios 4.14, Colossenses 1.28 e 3.16, 2 Tessalonicenses 3.15 e Tito 3.10). Pode-se afirmar, também, que a teoria noutética se baseia na confrontação de Natã com Davi, depois do pecado que este cometeu contra Urias e Bate-Seba (2Samuel 12).

De acordo com a noutética, o aconselhamento se dá em confrontação com a Palavra. Visando não apenas uma mudança comportamental, ele vai um pouco mais fundo e visa a transformação da cosmovisão, dando as “lentes da Escritura” ao aconselhando. O objetivo da noutética é levar o homem à viver em conformidade com a Lei do Senhor. A santificação, portanto é o resultado final que os adeptos do aconselhamento noutético desejam alcançar.

Algumas pessoas consideram que a teoria noutética é desumana em alguns pontos, pois sua aplicação seria apenas para que a pessoa aconselhada reconhecesse a sua vida pecaminosa, não se importando com as questões cruciais do ser humano. Afirmam também que ela apenas lança luz aos erros, repreende, mas não encoraja. Todavia, não concordo com tal crítica, pois vemos Jesus utilizar dessa técnica com muito amor e mansidão aos discípulos no caminho de Emaús.

Esta narrativa registrada em Lucas 24: 13-35, mostra dois seguidores de Jesus voltando de Jerusalém muito desanimados após a crucificação de Jesus. Eles estavam frustrados e murmuravam pelo caminho. O Mestre se aproxima, só que eles não o reconheceram. Cristo os instiga a falar. Ouve suas queixas. Se mostra solidário. Mas num determinado momento, Jesus os confronta com as Escrituras e demonstra através de textos veterotestamentários que estes não deveriam se entristecer. O efeito foi tão positivo que os dois homens convidaram o peregrino a cear com eles. Naquele contexto era uma clara demonstração de intimidade, o que mostra que estes ficaram muito à vontade com o “estranho peregrino”. Quando o pão é partido, o Cristo ressurreto se manifesta e os dois discípulos, antes tristes e abandonando o Evangelho por pensar que a cruz tinha posto fim a tudo, voltam para Jerusalém, agora felizes, esperançosos, compondo a Igreja do Senhor.

De igual modo, no já citado exemplo de Davi confrontado por Natã, vemos que o profeta foi bem didático e sutil em sua confrontação e fez com que Davi conhecesse o próprio erro, sem precisar dizer isso. O resultado foi o melhor possível, pois levou ao Rei uma atitude de humilhação diante de Deus.

Outra acusação é a de que a noutética descredencia a Psicologia. Logicamente devemos considerar que a Psicologia tem seus méritos e deméritos, pois a linha freudiana da psicanálise, mais comum e mais utilizada, está repleta de valores antibíblicos. Isto posto, é preferível ficar com a Palavra que é inspirada e inerrante, útil para o ensino da justiça (2Timóteo 3:16).

Por último, tem o problema de que nem todos são cristãos e creem na Palavra, sendo assim, não deveria ser usado no aconselhamento de pessoas incrédulas. Discordo veementemente, pois o texto sagrado é possuidor de uma sabedoria milenar, aplicável a diversas áreas da vida humana. Podemos aplicar valores bíblicos para tratar de negócios, família, complexos, etc. Ademais, também seria uma oportunidade ímpar para anunciar a mensagem libertadora do Evangelho. Como está escrito:

Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. Ora o servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” - João 8:31-36

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Fonte: Cristianismo Simples
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