Quem Deve Ensinar no Culto Público?

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Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”. (1 Coríntios 14:26)

Aqui o apóstolo Paulo fala sobre o culto público – “quando vos ajuntais. Ele lista determinadas coisas que poderiam acontecer no culto público. É importante observar que cada elemento de culto que ele menciona dependia de um dom do Espírito Santo para acontecer. O dom de profecia (1 Coríntios 12:28; 14:1,3) era necessário para que houvesse “revelação” e os dons de línguas e de interpretação (1 Coríntios 12:10,30) eram necessários para que houvesse “língua” e “interpretação” (1 Coríntios 14:26). Semelhantemente, o dom de mestre (1 Coríntios 12:28) era necessário para que houvesse “doutrina”.

A necessidade dos dons do Espírito para realizar cada um desses atos de culto implica que são atividades que o homem não tem em si mesmo a capacidade de realizar. O homem não tem a capacidade de profetizar ou de falar e compreender uma língua que ele nunca estudou. Semelhantemente, ele não tem a capacidade de ensinar verdades espirituais. Tudo o que acontece no culto deve ser feito para a edificação. Mas o homem não tem a capacidade de edificar o seu próximo. Por isso, é necessário que o Espírito opere através dele. Por isso, não é qualquer um que pode ensinar no culto público. Somente os que Deus capacitou espiritualmente para que fossem mestres. Em 1 Coríntios 12, Paulo questiona: “Porventura são todos apóstolos? são todos profetas? são todos mestres?” (1 Coríntios 12:29) Não.

É importante perceber também que o que Paulo diz sobre o dom de mestre implica que quem tem esse dom exerce ou deveria exercer o ofício de mestre. Em outras palavras, quando Paulo fala sobre o dom de mestre, ele não está falando de uma capacitação que membros comuns da Igreja recebem para pregar de vez em quando. Ele estava falando da capacitação espiritual para exercer um ofício, para ocupar um cargo. Quem tinha o dom do apostolado era um apóstolo. Quem tinha o dom de profecia era um profeta. Da mesma forma, quem tem o dom de mestre é um mestre, isto é, exerce o ofício de mestre, ocupa o cargo de mestre. Essa é a sua função no corpo, como ele diz também na epístola aos Romanos:

Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé… se é ensinar, haja dedicação ao ensino. (Romanos 12:4-7)

O dom do apostolado (1 Coríntios 12:28-29; Efésios 4:11) era a capacitação do Espírito Santo para que os apóstolos definissem a fé cristã e edificassem a Igreja (Mateus 10:5-8; João 14:1-3,16-17; 15:26; Atos 1:1-8; 1 Coríntios 3:10-11; 15:1-2,11; Efésios 2:20). Quando os apóstolos chegavam em um determinado lugar para ensinar a Palavra de Deus e plantar uma igreja, eles passavam um tempo naquele lugar, mas eles não tinham uma igreja fixa e permanente. Os apóstolos só permaneciam na igreja enquanto ela estava em fase de organização. Quando a igreja se mostrava capaz de existir sem a presença dos apóstolos, eles partiam para fazer o mesmo – ensinar a Palavra de Deus e plantar uma igreja – em outro lugar. Mas se os apóstolos exerciam a função de ensinar enquanto eles estavam presentes, era necessário que outros assumissem essa função depois que eles partissem. É por isso que eles promoviam a eleição de presbíteros:

E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido. (Atos 14:21-23)

Esses presbíteros, que eram eleitos pela igreja e não escolhidos diretamente pelos apóstolos, eram responsáveis pelo governo da Igreja depois que os apóstolos fossem embora. E dentre esses presbíteros, existiam aqueles que seriam responsáveis pelo ensino:

Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei: Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. (Tito 1:5-9)

Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo”. (1 Timóteo 3:1-7)

Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. (1 Timóteo 5:17)

Paulo queria que Tito e Timóteo estabelecessem presbíteros para governar e ensinar as igrejas. Aqui vemos que quando o Novo Testamento fala sobre o “bispo” e sobre o “presbítero”, está falando sobre o mesmo ofício. Como já vimos em Atos 14, a forma de estabelecer presbíteros era promovendo uma eleição na igreja. Ou seja, quando Paulo diz que Tito e Timóteo deveriam estabelecer presbíteros, isso não significa que eles deveriam escolher as pessoas diretamente. Eles deveriam promover uma eleição. As características que Paulo lista não é porque os presbíteros seriam escolhidos diretamente por eles, mas porque Tito e Timóteo, ao promover a eleição, deveriam estabelecer esses critérios para os candidatos. Não era qualquer um que tinha o direito de se candidatar. Nenhum novo convertido (“neófito”), por exemplo, poderia se candidatar (1 Timóteo 3:6).

Quando Paulo escreveu 1 Timóteo, ele tinha enviado Timóteo para cidade de Éfeso (1 Timóteo 1:3). Em Atos dos Apóstolos, encontramos o registro do último discurso de Paulo aos presbíteros de Éfeso:

De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja. E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus. Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis mais o meu rosto. Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados. De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber. Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles”.(Atos 20:17-36)

Essa passagem também mostra que os bispos eram os presbíteros, pois as mesmas pessoas que são chamadas de presbíteros no verso 17 são chamadas de bispos no verso 28. Além disso, vemos que os presbíteros/bispos são os pastores da Igreja, pois ele chama a igreja de rebanho e diz que a função dos presbíteros/bispos é pastorear. “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (v. 28). De que maneira eles pastoreariam a igreja? Da mesma forma que eles já tinham sido pastoreados por Paulo. Como Paulo enfatiza em seu discurso, “Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia… jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 18, 20). Por isso, ele disse a Timóteo e a Tito que era necessário que esses presbíteros fossem “aptos para ensinar” (1 Timóteo 3:2) e “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tito 1:9). A capacidade de ensinar incluia a capacidade de “convencer os que o contradizem” porque “existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores” (Tito 1:10), que são os “lobos vorazes, que não pouparão o rebanho” (Atos 20:29).

O que tudo isso deixa claro é que os mestres (1 Coríntios 12:28), isto é, aqueles que são ordinariamente encarregados de ensinar a Igreja (Romanos 12:7; 1 Coríntios 14:26), não são todos (1 Coríntios 12:29), mas aqueles que ocupam o ofício de presbítero e foram especialmente capacitados para “trabalhar na palavra e na doutrina” (1 Timóteo 5:17). Como já demonstramos, a capacidade de exercer qualquer função na igreja depende de uma capacitação especial do Espírito Santo. Portanto, as características que Paulo lista em Tito 1:5-9 e 1 Timóteo 3:1-7 são as características visíveis que demonstram se alguém verdadeiramente tem esse dom do Espírito, tendo sido espiritualmente capacitado para ensinar verdades espirituais ao rebanho de Cristo. E a existência de um processo de reconhecimento desse dom demonstra que não é suficiente que alguém simplesmente acreditasse ter e dissesse ter o dom. Para ser admitido ao ofício, era necessário que demonstrassem ter as características que Paulo lista e também era necessário que essas características fossem publicamente reconhecidas pela igreja através de uma eleição promovida por aqueles que já eram oficiais. Esse é o processo que costumamos chamar de ordenação.

A ideia de que qualquer cristão pode ensinar na igreja ignora o que Paulo ensina sobre a nossa completa incapacidade de edificar o nosso irmão e sobre a necessidade das operações do Espírito para que ele seja edificado. Se uma operação específica do Espírito é necessária para produzir um determinado efeito, não podemos tentar produzir o mesmo efeito de outras maneiras. Se os apóstolos, mesmo depois de conviver tanto tempo com Jesus, precisaram ser especialmente capacitados pelo Espírito para edificar a igreja, por que a continuidade do ensino na Igreja ao longo dos séculos não precisaria de uma capacitação especial? E que autoridade nós temos para alterar a forma apostólica, divinamente inspirada? “E louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes os preceitos como vo-los entreguei” (1 Coríntios 11:2).

Se alguém que não tem o dom de cura (1 Coríntios 12:28) impõe suas mãos sobre um enfermo e determina que ele seja curado, qual é o resultado? O resultado é que o enfermo continua doente. Se alguém que não tem o dom de profecia tenta profetizar, qual é o resultado? O resultado é que suas palavras são uma falsa profecia. E se alguém que não tem o dom de ensino é colocado na igreja para ensinar, qual é o resultado? O resultado é que o seu ensino não produzirá um verdadeiro impacto espiritual nos seus ouvintes. Onde o dom de ensino é ignorado, onde a forma apostólica de estabelecer mestres não é respeitada, é certo que a qualidade do ensino da igreja entrará em decadência e haverá abundância de heresias. O Espírito deu dons específicos para que a Igreja persevere na sã doutrina e seja preservada dos falsos ensinos (Efésios 4:11-14). Se o Espírito estabeleceu um determinado dom para preservar a sã doutrina na igreja, não podemos esperar que o mesmo resultado seja obtido de outra maneira.

Por isso, se queremos que a sã doutrina seja restaurada em nossas igrejas, é urgente que voltemos a confessar e a praticar o que lemos na pergunta 158 do Catecismo Maior:

158. Por quem a Palavra de Deus deve ser pregada?
A Palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que têm dons suficientes e são devidamente aprovados e chamados para o ministério. (Catecismo Maior de Westminster)

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Autor: Rev. Frank Brito
Fonte: Catequese Presbiteriana

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O Mito da Neutralidade

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Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha. (Mateus 12:30)

1. PREOCUPAÇÕES CENTRAIS

Você é um cristão. Você crê em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Você o adora em tudo o que faz. Você procura obedecer a Sua Palavra. Você quer honrá-lo em tudo o que faz e como filho de Deus quer que outros creiam em Cristo e sirvam a Deus. Você sabe como desafiar outros que não creem em Jesus Cristo, Senhor e Salvador para que também submetam as suas vidas a Ele.

A principal pergunta a ser considerada é como pode dar melhor testemunho do Senhor. O EUA foi fundado como uma nação cristã[1], e hoje a maioria das pessoas se declaram cristãos. Há igrejas quase em cada esquina e muita gente que você conhece pessoalmente diz ser cristã.[2] Como alcançar essas pessoas? Como deveria raciocinar com eles? Que método deve seguir para mostrar-lhes que Deus existe? É disso que trata este livro.

Todos os cristãos precisam de teologia

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É incrível, como existe no meio evangélico dos nossos dias, cristãos avessos ao labor teológico. Eis uma realidade que nem os reformadores gostariam de presenciar no nosso tempo. Nos últimos dias, percebi isso de forma mais aguda e acentuada. Há nos arraiais evangélicos pessoas que de tal forma rejeitam a teologia, não seria isso um grande contrassenso? Me parece que o discurso do amor é uma antítese ao labor teológico. 

Dificilmente um texto como esse resolveria a questão, dificilmente um sermão pregado no púlpito dia de domingo conseguiria destruir essa fortaleza que existe no coração de muitos. Acredito que, uma clareza de conceitos, processo de ensino e advertência sobre a importância da teologia, provocariam um passo no longo percurso da quebra de paradigmas. 

Não se deve negar que, durante muito tempo, a teologia esteve confinada num mundo acadêmico, toda a questão que envolve a teologia sempre distanciou o público leigo desse privilégio bíblico. Talvez sua linguagem técnica, sua rigorosidade científica, seu aspecto erudito, construíram muros ao invés de pontes para com o público cristão leigo. É possível que, certa "distinção clerical", tenha gerado ao longo do tempo um abismo entre a teologia e os iniciantes no caminho do saber bíblico. 

No entanto, a Escritura afirma e direciona o caminho do sacerdócio universal, não apenas a liderança eclesiástica deve vivenciar o labor teológico, mas, todo aquele que professa ser cristão (1Pe 2.9). Todos os cristãos, a Escritura afirma, devem crescer não apenas na graça, mas também no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 3.18). Retomemos o ensino bíblico do sacerdócio de todos os crentes! É verdade que entre abismos e muros, o trabalho de criar pontes será bem maior. Lembro-me, várias vezes, em aulas do seminário, professores repetirem: "somos chamados como construtores de pontes e não de muros". 

A ideia que Deus capacita apenas alguns e outros ficam somente como expectadores existe, e tem causado o desperdício e desconforto na causa do Reino. Infelizmente o que se dedica ao labor teológico é visto como orgulhoso, prepotente, sabedor da verdade e que de forma arrogante só sabe criticar ao invés daquele que mesmo sem saber muita coisa, consegue amar sem fazer acepções. Nunca deveria existir essa oposição da teologia e o amor, da teologia e a humildade, da teologia e a piedade. Na verdade, o verdadeiro propósito do conhecimento redundará em adoração através de uma vida piedosa, como testemunho. Esse é o fundamento da teologia, a glória de Deus e uma vida piedosa. 

Como um cristão pensa que se opor a teologia o faz mestre na piedade? A definição da teologia não deveria ser aquilo, que o cristão leigo ou não, deveria admitir buscar todos os dias? Conhecimento de Deus não deveria ser desejado? É importante perceber o fato de que hoje muitos dos que rejeitam essa vida acadêmica, são os mesmo que criticam quem assim o faz, negando por sua própria conduta seu discurso repetitivo e obsessivo por mais amor e menos intelecto. Devemos considerar do mesmo modo quem usa o academicismo como chicote e Bíblia como pedrada. De fato, muitos usam do "tulipar" ou "teologizar" para bater e pisar no corpo no qual Cristo é o cabeça, não sabendo realmente como usar esse labor para a glória de Deus. 

Há passagens bíblicas que mostram claramente a importância da teologia para todo o cristão e o quanto ela está a serviço do povo de Deus. Mais ainda: que existe benefício para todo o povo de Deus em todos os campos do labor teológico. 

• Conforme a ordem dada ao sacerdócio real e a nação santa sobre o anúncio das grandezas de Deus (1Pe 2.9), esse é um ponto que se requer preparo no falar. Não deve ser negligenciado, pois as grandezas de Deus não podem ser anunciadas de qualquer forma. E, a parte da teologia que esmera-se nesse assunto, é a homilética, visto que, não somente prepara bem o pregador para o púlpito, mas, todo cristão para uma boa transmissão dessa verdade bíblica. 

 A grande comissão nos ordena a fazer discípulos e a forma como devemos fazer é ensinando (Mt 28.19-20), a ordem deve ser obedecida. Devemos ensinar tudo aquilo que Cristo ordenou e isso requer conhecimento sobre Deus, seus mandamentos, sua lei. Como podemos fazer discípulos sem teologia? A teologia nos ajuda a romper com os métodos modernos, para crescer no conhecimento da teologia bíblica e exegética. 

 Pedro, no capítulo 3, verso 15, da sua primeira carta, nos diz que devemos estar preparados para responder à todo aquele que nos inquirir a respeito da esperança que há em nós, a razão da nossa fé. Ou seja, é necessário que tenhamos conhecimento bíblico. Chamamos isso na teologia de apologética, isto é, um discurso de defesa da fé cristã bem embasado nas Escrituras. 

 Há passagens na Bíblia de difícil interpretação, até o apóstolo Pedro concordou com isso (2Pe 3.16), inclusive, nesse mesmo verso, ele fala de homens que distorcem a Escritura para a sua própria destruição. Pedro traz-nos um alerta para que não sejamos enganados, de forma que não suceda perdermos nossa firmeza. A hermenêutica é o campo da teologia que se encarrega de examinar o sentido preciso de uma passagem bíblica. Como disse Pedro, todo cristão deve crescer na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. 

Poderia continuar propondo pontos que, de forma clara, são necessários a todo cristão, de fato, todos nós precisamos da teologia. Aprimorar nosso conhecimento a respeito de Deus através da Sua Palavra. Devemos ser inclinados ao labor teológico, ortodoxia e ortopraxia não são opostas, na verdade, são inseparáveis. Sejamos construtores de uma teologia saudável, que seja uma ponte para nossos irmãos da igreja local. Todo cristão deve desejar conhecer a respeito da revelação especial, eis um exemplo claro do conselho de Paulo a Tito:

"Você, porém, fale o que está de acordo com a sã doutrina. Em tudo seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo boas obras. Em seu ensino, mostre integridade e seriedade; use linguagem sadia, contra a qual nada se possa dizer, para que aqueles que se opõem a você fiquem envergonhados por não poderem falar mal de nós." (Tito 2.1, 7-8.)

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Autora: Morgana Mendonça
Divulgação: Bereianos
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O Pastor precisa mesmo ser Teólogo?

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Mais uma vez, dirijo-me aos pastores. É importante deixar claro que não falo como pastor, mas como ovelha que tem alguns pedidos a fazer. Não falo em tom de superioridade, mas com muito carinho e respeito aos pastores. Tem sido semeada em muitas igrejas - e até em instituições teológicas - a ideia de que ser pastor não é ser teólogo. Antes de qualquer coisa, quero esclarecer que não sou a favor de uma teologia sem espiritualidade, nem de que o conhecimento bíblico apenas, sem que haja uma vida piedosa, seja suficiente. Também não estarei dizendo que não se pode ser pastor sem ter feito algum curso teológico. O ponto não é esse e não entrarei nessa questão.

Dito isso, apresento-lhes um fato: não é pequena a quantidade de igrejas que são pastoreadas por homens com raso conhecimento teológico e superficial conhecimento bíblico. Há instituições que carecem profundamente da sã doutrina e do zelo pelas Escrituras. Mas a grande pergunta é: Se isso é um fato, por qual motivo ele existe? Tenho um palpite. Acredito que tudo que deixamos de lado, seja em qualquer área de nossa vida, é porque não consideramos importante (que Deus tenha misericórdia de nós, pois fazemos isso). E, se a teologia tem sido deixada de lado por alguns pastores/igrejas/instituições, é porque ela não tem sido considerada importante. A teologia ortodoxa afirma que o estudo sobre Deus (Theo + logia) deve ser baseado única e exclusivamente na Bíblia. O que me leva a concluir que, quando o estudo teológico é deixado de lado, a própria Escritura também não tem sido considerada importante.

Então, surge o ponto central deste meu escrito: É possível ser pastor e não ser teólogo? Minha resposta vai mais além que um simples "não". O conceito de pastor e teólogo tem sido dicotomizado quando, na realidade, ambos nunca deveriam, nem poderiam ser considerados diferentes com relação ao pastorado. Vejamos o que Efésios 4:11-14 diz:

"E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro." 

Note, no versículo 11, que as expressões "pastores e mestres" estão ligadas. No grego, elas são apontadas por um mesmo artigo. Alguns para apóstolos; Outros para profetas; Outros para evangelistas; E, por fim, outros para PASTORES e MESTRES. Essas últimas expressões, que formam um mesmo grupo - e não dois, caracterizam os dons espirituais de homens que têm a responsabilidade de cuidar e guiar o rebanho. Sim, são os pastores. Mas o que quer dizer "mestres"? Em outras versões, encontramos a palavra "doutores" no lugar de "mestres". Essas palavras querem dizer a mesma coisa: pessoas que detém conhecimento. E, se estamos falando de mestres da igreja, que tipo de conhecimento seria se não o do Filho de Deus (v.14), o próprio Cristo, revelado na Escritura?


O próprio texto deixa claro para quais finalidades Deus designou essas pessoas. No aspecto positivo, "preparar os santos para a obra do ministério", edificar o "corpo de Cristo" - a Igreja, alcançar a "unidade da fé" e "conhecimento do Filho de Deus" - Jesus Cristo, chegar à "maturidade", atingir "a medida da plenitude de Cristo". No aspecto negativo, evitar que sejamos "como crianças", "jogados para cá e para lá por todo vento de DOUTRINA" (ênfase minha), evitar homens que "induzem ao erro". Fica claro, pelo texto, que ser pastor é ser mestre, de modo que eles tenham o conhecimento suficiente para tudo isso. Então do que estamos falando? De pastores teólogos! Sim, existem teólogos que não são pastores, mas é inadmissível biblicamente a existência de pastores não teólogos.

É provável que, até aqui, a maioria destes pastores dos quais me refiro já tenham desistido de ler este texto. Discursos e atitudes como essas provocam justamente aquilo que deve se evitado pelo pastor e mestre. As igrejas não têm crescido. Os irmãos têm permanecido como crianças, levados por qualquer vento de doutrina. E a consequência disso é erro por cima de erro. Meu convite é a você, ovelha como eu, que tem sido prejudicado pela ausência de líderes como esses. Oremos e trabalhemos por uma radical mudança em nosso meio. Não podemos nos calar. A igreja tem voz. Podemos e devemos cobrar, com amor e humildade, que nossos pastores empenhem-se no estudo teológico para servir melhor as suas igrejas. Até quando vamos ter perguntas sem respostas? Até quando vamos engatinhar enquanto outras igrejas crescem em maturidade bíblica? Aos pastores não teólogos, falo pautado na Palavra e não com minha autoridade própria, arrependam-se e mudem de atitude, ou vocês verão suas ovelhas sendo melhor pastoreadas por pregações do YouTube do que por vocês.

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Autor: Richardson Gomes
Fonte: Electus
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Discurso de Formatura

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Minha turma começou com um bom número, e dessa turma original sobramos apenas eu e meu amigo Geraldo. Muitos desistiram por variados motivos. Eu mesmo pensei em desistir muitas vezes. Por que tinha que ser tão difícil? Por que atender essa exigência de passar por um seminário para cumprir com a vocação?

E por falar em vocação, não sei por que as pessoas insistem com essa ideia que só a vocação pastoral produz seminarista. Há outros ministérios na igreja que dependem de um bom preparo teológico. Acrescentaria que todo cristão deveria perseguir esse preparo! Diferente dos meus amigos de turma - ou pelo menos a maioria deles - não fui parar num seminário por vocação pastoral. Entendo que a igreja também precisa de mestres. 

Seja lá qual for a vocação ministerial que nos levou ao seminário, ela não é exatamente a mesma da vocação profissional como engenharia, medicina, letras... Ninguém deseja aqui fazer do seu chamado um comércio, o ganha pão. Estamos aqui para servir nosso Senhor. Contudo, as exigências no preparo acadêmico são as mesmas! 

Quem vai para a universidade estudar medicina será um “profissional” da medicina. Quem vai para universidade estudar engenharia será um “profissional” da engenharia. E quem vai para a universidade estudar teologia será também um "profissional" como os outros? 

Segundo Justo Gonzáles, no caso dos estudos teológicos, as universidades se transformam em seminários para trazer a teologia de volta do secularismo para o campo religioso. O seminário, como “sementeira”, seria o lugar mais adequado no qual as sementes, nós, os vocacionados, seriam cuidadas, regadas, cultivadas em boa terra. 

Mas até onde nos distanciamos do profissionalismo presente em todas as outras áreas do saber humano neste mundo de exigências? Onde está a relevância entre nossa vocação e o profissionalismo? Fui convidado para falar exatamente sobre isso... Aqui está minha resposta. 

No princípio era a Palavra e a palavra ainda não estava escrita. Parece estranho, mas a fé já operou sem o recurso de um texto. Se Moisés é o autor de Gênesis, onde estava a teologia, o conhecimento sobre Deus, no período dos patriarcas? Tradição oral? Alguns textos soltos de tradições diferentes? 

Hoje é possível comprar uma Bíblia por dois reais na SBB, e estamos tão acostumados com o livre acesso à Bíblia – louvado seja Deus por isso! – que não paramos, por um segundo, para pensar em como se buscava o conhecimento sobre Deus no tempo em que não havia Bíblia. 

Assim como a Antiga Aliança antecede a própria Escritura, a Nova Aliança também foi inaugurada sem texto. A religião do Caminho prosperava pelo poder do Espírito Santo através do testemunho dos discípulos do Cristo. Claro, apontando para as Escrituras da Antiga Aliança, tudo se cumpriu – “são as Escrituras que testemunham a meu respeito”, disse Jesus. Mas, a verdade é que o Novo Testamento ainda não estava lá. 

Só um pouquinho mais tarde, homens, inspirados por Deus, escreveram epístolas e evangelhos. Esses documentos circulavam entre as comunidades cristãs, mas não é possível medir a real dimensão da propagação dos ensinos do Novo Testamento pela distribuição de cópias feitas à mão naquela fase apostólica e nos primeiros séculos seguintes. Se não temos, hoje, a carta de Paulo endereçada aos laodicenses, é fácil supor que alguma coisa também ficou faltando para muitos cristãos nos primórdios da igreja. 

Não estou aqui querendo negar a inspiração da Bíblia e questionar sua inerrância. Tão pouco desprezar sua relevância! Nós, batistas, cremos que a Bíblia é a única autoridade, a única regra de fé. O que desejo com esta introdução é apenas destacar a realidade de mundo, daquela narrada nos textos bíblicos, para entender o desafio que temos diante de nós, hoje, em nossa realidade de mundo. 


O modus operandi da fé foi evoluindo junto com a humanidade. Dos discursos apologéticos da patrística às profundas elucubrações teológicas da escolástica, a Súmula Teológica de Tomas de Aquino figura como monumental catedral gótica, na qual ele inclui todo o universo e os vários elementos servem para contrabalançar os outros, de tal forma que todo o edifício sobe a alturas inesperadas. E foi assim que a cobrança por uma produção intelectual elevada entrou em nosso pacote de exigências na vocação ministerial. 

A Reforma protestante foi concebida e nasceu no ambiente universitário, e foi nas universidades que surgiram seus líderes durante várias gerações. Martinho Lutero, além de sacerdote e monge agostiniano, foi, acima de tudo, professor universitário. 

Melâncton, que recebeu o título de Mestre da Alemanha, se interessou pela educação ministerial após constatar que alguns sacerdotes haviam aceitado a fé da Reforma simplesmente, mas sem entender as diferenças entre a fé reformada e a católica romana. Alguns não sabiam ler e tinham poucos textos decorados, como o Credo, os Dez Mandamentos e o Pai Nosso. 

A resposta para essa situação foi a crescente ênfase na necessidade de expandir o escopo da educação teológica. Até então, o que se fazia com o pastor ou sacerdote era a ordenação, sendo que os estudos poderiam ser realizados mais tarde ou não. Mas já em meados daquele século, o normal era que os candidatos ao ministério luterano fossem provenientes das universidades, onde faziam estudos teológicos e se preparavam para a tarefa de ensinar o povo. 

Foi inaugurada uma corrida pelo melhor preparo dos vocacionados dos dois lados, católicos romanos e protestantes. O currículo foi sendo ampliado para atender a demanda de um novo mundo exigente no campo intelectual, um desafio cada vez maior diante dos vocacionados. 

Nada disso ocorreu na contramão do mundo. Se o verbo se fez carne na plenitude dos tempos, o que esperar das outras coisas? Se o ambiente intelectual, político e tecnológico, a partir do século XVI, promoveu o “profissionalismo” dos vocacionados ao ministério, o que devemos esperar de nossos dias? Se a rudimentar imprensa de Gutenberg alavancou tudo isso, o que esperar da internet no nosso século? 

Já percebemos, há muito tempo, que aquela proposta do homem universal do século XV não era viável. Acreditava-se àquela época que era possível instruir o homem para dominar todas as áreas do saber. Um homem que sabia de tudo, um homem universal. Que frustração...

A cada dia, o que cada um de nós consegue saber é apenas uma pequena fração do conhecimento humano. Por mais que um vocacionado se dedique aos estudos, sempre haverá alguém em sua congregação que, em algum outro campo do conhecimento, saberá mais que o ministro. E se considerarmos apenas o conhecimento teológico, ainda que tivesse a vida inteira dedicada aos estudos apenas do evangelho de João seria impossível saber de tudo o que hoje se sabe, se discute e se está descobrindo a seu respeito. 

O profissionalismo, em todas as áreas do saber, cresce de acordo com a demanda de um mundo de exigências. Por que seria diferente com a teologia, a rainha das ciências? Nosso desafio é encontrar a relevância de nossa vocação e do profissionalismo que somos cobrados, pois somos agentes dessa evolução desde o início. Não podemos abandonar a corrida porque o mundo continuará sua carreira e ficaremos para trás. 

A educação teológica não deveria ficar restrita aos vocacionados. Deveria ser a preocupação e dedicação de todo cristão que entende a importância de conhecer o Deus que adora e serve, de estar preparado para apresentar os argumentos, os motivos, a razão de sua fé. 

O desafio de nossa vocação hoje é: não apenas conhecer Bíblia e teologia, mas também e acima de tudo saber como usar esse conhecimento de forma a promover o diálogo com o restante do conhecimento humano. Esse desafio não é fácil, mas precisa ser encarado com bravura! 

Precisamos romper com essa cultura do anti-intelectualismo em nossas igrejas, que não só compromete o conhecimento das ciências de modo geral, mas já, há algum tempo, compromete até mesmo o conhecimento teológico e bíblico. 

Vivemos uma geração de crentes que não conhece Bíblia! Começamos a viver a triste realidade de encontrar ateus e devotos de outras religiões mais proficientes no conhecimento bíblico do que os cristãos! Tenho medo do tempo em que não seremos ameaçados pela espada, pelo fogo ou por leões, mas, pela nossa própria ignorância. 

Respostas prontas já não nos ajudam mais a sobreviver nesse mundo de constantes mudanças, de um profissionalismo exigente que ajudamos a engatilhar lá no passado e deu no que deu... Está aqui! Cobrando nossa responsabilidade nessa parceria “vocação” e “profissionalismo”. 

Essa carreira é nossa! Precisamos retomar a corrida do ponto que tropeçamos. A humanidade avança, e precisamos estar prontos. Assim, se o mundo nos forçar a correr com ele uma milha, estejamos prontos para correr duas!

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Autor: André R. Fonseca
Fonte: Teologia et cetera
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Cristianismo e Ciência são opostos?

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"O homem é um ser pensante. Não é nos bens que busco a minha dignidade, mas no controle de minha mente. Eu não teria mais capacidade mental pela simples possessão de mais terras. Por intermédio do espaço, o universo me contém e, de fato, me absorve como a um simples borrão. No entanto, é por meio do pensamento que eu compreendo o universo". - Blaise Pascal; Cientista, filósofo, teólogo e matemático cristão.

"Graças te dou, Criador e Deus, pois tu me concedeste esta alegria em tua criação e me alegro com as obras de tuas mãos. Vê, pois, que completei o trabalho para o qual fui chamado. Nele, usei todos os talentos que tu concedestes ao meu espírito". - Johannes Kepler; Astrônomo.

Quando tratamos de ciência somos remetidos imediatamente e diametralmente a dedução de que a ciência aniquila a fé; em nosso recorte aqui, o cristianismo. Mas seria isso realmente procedente? Será que um verdadeiro cristão não pode fazer ciência? Será que o cristianismo condena a ciência? Perguntas como essas são comuns, principalmente entre jovens cristãos que estão prestes a escolher um curso universitário. Visto vivermos hoje em um contexto utilitarista e niilista, que muitas pessoas não estudam mais para crescerem em vários aspectos espirituais, intelectuais, culturais; o que temos são pessoas, inclusive cristãos, que escolhem determinados cursos universitários apenas pelo dinheiro e, às vezes, por qualquer outro motivo, e até mesmo sem motivo nenhum. A corrida utilitária tem sido mais disputada do que a São Silvestre. O que diz a história sobre o cristianismo e a ciência? Diz muito! Houveram cientistas cristãos famosos? Sim, e muitos! Ninguém disse isso na escola, não é? Mas iremos examinar, ainda que brevemente, alguns pontos fundamentais em relação ao cristianismo e ciência. Claro que minha intenção aqui não é fazer um opúsculo sobre história da ciência, mas, minha intenção é ajudar jovens cristãos a conhecerem um pouco da história, bem como poder fazer ciência sem que isso não contradiga a nossa fé e glorifique a Deus.

O que é a ciência? A palavra ciência vem do termo latino scientia, que significa conhecimento. A ciência moderna é uma mistura de dedução e indução, de racionalismo e empirismo, que surgiu no século XVI e deu origem ao que conhecemos como a era científica. E o que o cristianismo tem haver com a era científica? Francis Schaeffer nos diz:

Tanto Alfred North Whitehead (1861-1947) como J. Robert Oppenheimer (1904-1967) enfatizaram que a ciência moderna surgiu a partir da perspectiva cristã do mundo. Whitehead foi um matemático e filósofo extremamente respeitado, e Oppenheimer, após tornar-se diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, em 1947, escreveu sobre uma gama de assuntos relacionados a ciência "[...] Whitehead (em seu livro A ciência e o mundo moderno) disse que o cristianismo é a mãe da ciência, em virtude da 'insistência medieval sobre a racionalidade de Deus".[i]

Não há nada mais falacioso do que dizer que a história nega uma proximidade entre o cristianismo e a ciência, a fé não é antagônica a pesquisa científica. É claro que existirá um antagonismo quando os pressupostos da ciência estão na autonomia da razão, no cientificismo e no historicismo. Nos diz D. James Kennedy: "A religião não foi sempre inimiga da ciência? Não! Além do que, muitos estudiosos concordam que a revolução científica, que teve seu grande momento no século XVII, foi originada em sua maior parte pelo cristianismo reformado".[ii]

No campo científico moderno, diferentemente do que muitos dizem e tocam trombeta nos quatro cantos do planeta, existe uma quantidade considerável de cientistas que acreditam na existência de um Criador.

Em 1916 e 1997 realizaram-se dois estudos famosos que servem de base para essa disputa. O psicólogo americano James Leuda conduziu a primeira pesquisa com cientistas, na qual indagava se eles acreditavam em um Deus que se dispõe a se comunicar com a humanidade, ao menos por meio da oração. Quarenta por cento responderam “sim”, 40% “não” e 20% disseram não ter certeza "[...] Alister McGrath, teólogo, com doutorado em biofísica pela Universidade de Oxford, escreve que a maioria dos vários cientistas incrédulos que conhece são ateus por outros motivos e não por causa da ciência que praticam".[iii]

Ainda colhendo depoimentos sobre a importância do cristianismo no desenvolvimento científico, no excelente livro A Alma da Ciência, Nancy Pearcey e Charles Thaxton nos dizem que:

De acordo com o escritor científico Loren Eiseley, o aspecto curioso do mundo científico em que vivemos é justamente o fato de esse mundo existir. Com frequência, os ocidentais pressupõem, de modo inconsciente, uma doutrina do Progresso Inexorável, como se a simples passagem de tempo conduzisse inevitavelmente a um conhecimento cada vez maior, tão certo como uma noz se transforma numa nogueira. De acordo com Eiseley, Os arqueólogos seriam obrigados a nos dizer, porém, que várias grandes civilizações surgiram e desapareceram sem terem desenvolvido uma filosofia científica. O tipo de pensamento conhecido hoje em dia como científico, com sua ênfase na experimentação e na formulação matemática, surgiu numa cultura específica – a Europa Ocidental – e em nenhuma outra.
Eiseley conclui que a ciência não é, de modo algum, “natural” para a humanidade. A curiosidade sobre o mundo é, de fato, uma atitude natural, mas a ciência institucional é mais do que isso. “Ela possui regras que devem ser aprendidas e práticas e técnicas que devem ser transmitidas de uma geração para outra pelo processo formal do ensino”, observa Eiseley. Em resumo, é “uma instituição cultural inventada, que não se encontra presente em todas as sociedades, e não uma instituição que se pode esperar surgir do instinto humano”. A ciência “exige um tipo de substrato único para se desenvolver”. Sem esse substrato “está tão sujeita à decomposição e à morte quanto qualquer outra atividade humana”. 
Qual é esse substrato singular? Eiseley o identifica, de modo um tanto relutante, como sendo a fé cristã. “Numa dessas estranhas permutações das quais a história oferece raros exemplos ocasionais”, diz ele “foi o mundo cristão que, por fim, deu à luz de maneira clara e sistematizada ao método experimental da ciência propriamente dita.”
Eiseley não é o único a observar que a fé cristã inspirou, de várias formas, o nascimento da ciência moderna. Os historiadores da ciência desenvolveram um respeito renovado pela Idade Média, incluindo uma reverência semelhante pela visão de mundo cristã cultural e intelectualmente predominante ao longo desse período. Nos dias de hoje, os mais diversos estudiosos reconhecem que o cristianismo forneceu, tanto os pressupostos intelectuais, quanto a sansão moral para o desenvolvimento da ciência moderna.[iv]

Somente a cosmovisão do cristianismo poderia propiciar o desenvolvimento da ciência de forma institucionalizada. As demais visões de mundo contrariam e impossibilitavam o surgimento e desenvolvimento da ciência como campo de trabalho do conhecimento, somente uma epistemologia cristã foi capaz de dar ao mundo o que conhecemos hoje como ciência moderna.


Ao pensarmos sobre a questão epistemológica, estamos num campo que concerne à possibilidade do conhecimento, da teoria do conhecimento e da realidade do conhecer e empregar esse saber, esse conhecer é inteiramente ligado ao propósito, ao telos, queira ou não, a ciência tem de ter um viés teleológico, tem de ter uma finalidade. Do contrário, não há propósito nem um motivo para o emprego científico. Ninguém faz ciência por nada, ciência obriga necessariamente a mente para uma finalidade de pesquisa. Essa possibilidade de conhecer, só pode ser defendida a partir de pressupostos cristãos. Se existe uma finalidade, existe uma origem, existe um originador, existe um criador. A ciência só tem sentido se é fundamentada em pressupostos epistemológicos, se não se pode conhecer, por que pesquisar?

Ao dobrar-se sobre a pesquisa científica o pesquisador não deve concluir o inverso sobre a lei e a ordem da natureza. Não deve deduzir que o fato de a natureza possuir leis e ordens, isso aponta para o Deus criador, mas o fato de existir e ser necessário o Deus criador é que gera lei e ordem na natureza. O decreto imutável de Deus não deixa de fora nada em sua criação. Nem as leis da natureza, nem a matemática. Até os resultados de cálculos matemáticos estão sob o decreto de Deus. A verdadeira ciência não contradiz o cristianismo, a verdadeira ciência glorifica o Criador. Mas, como falamos anteriormente, se os pressupostos científicos estão errados, a ciência será má. Se os pressupostos estão corretos, a ciência será boa. A verdadeira ciência exulta: Somente a Deus toda glória!

A Teologia Reformada e a Ciência
           
Como já vimos, a reforma protestante deu grande impulso ao pensamento científico, não é nossa proposta aqui analisar e esquadrinhar historicamente o processo de desenvolvimento e contribuições dadas à ciência a partir da reforma, mas somente pontuar esse fato que é de alta relevância ao nosso argumento. É importante notar que as doutrinas defendidas pela reforma foram de grande valia para o desenvolvimento científico, a exemplo disso temos o conceito de desgraça e caridade em Blaise Pascal que pertenceu a um grupo reformista chamado jansenistas que advogavam conceitos calvinistas em sua doutrina.[v]
            
Tanto a doutrina dos mandatos – espiritual, social e cultural, como a doutrina da depravação total foram importantes no pensamento científico. Podemos frisar o mandato cultural que impele o homem a ler a criação e dominá-la como descrito no Gênesis 1.26-30. A reforma protestante foi uma alavanca para o progresso da pesquisa científica que já tinha considerável expressão na idade média como vimos anteriormente. A proliferação do conhecimento por conta da imprensa e da distribuição de livros que agora estavam sendo distribuídos para o povo, isso inicia-se de forma expressiva com os escritos de Lutero e depois dos demais reformadores, embora já tivéssemos algo expressivo com os pré-reformadores.

As Raízes Cristãs da Ciência

A ciência moderna teve uma força motriz cristã, meu apontamento aqui vai para três grandes pensadores: Johannes Kepler, Blaise Pascal e Isaac Newton, que eram cristãos comprometidos e ninguém em sã consciência no mundo científico pode negar a importância e influência desses três homens no desenvolvimento científico. Johannes Kepler cunhou a frase “Pensando os pensamentos de Deus depois dele” e escreveu: “Uma vez que nós, os astrônomos, somos sacerdotes do grande Deus no que se refere ao livro da natureza, nos será de grande benefício refletirmos, não sobre a glória da nossa mente, mas acima de tudo, sobre a glória de Deus”. Pascal, como já dissemos, foi alguém muito importante e sua epistemologia científica estava baseada na teologia calvinista. Pascal, foi matemático, filósofo e um cientista profícuo. Disse Pascal: “A fé nos diz o que os sentidos não percebem, mas sem contradizer suas percepções. Ela apenas transcende sem contradizer”, ela aponta para o conhecimento de Deus dizendo que:

O Deus dos cristãos não é apenas um Deus autor de verdades matemáticas e da ordem dos elementos. Esta é a noção dos pagãos e dos epicuristas [...] Mas o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, O Deus de Jacó, O Deus dos cristãos é um Deus de amor e consolação.[vi] 

Newton é outro nome que queria mencionar, certa vez ele disse em Principia (Princípios Fundamentais): “O belíssimo sistema do sol, planetas e cometas, só poderia provir da vontade e do controle de um Ser inteligente e Poderoso”.

Outra grande citação de Newton, esta contra o ateísmo dizia o seguinte:

O ateísmo é completamente sem sentido. Quando olho para o sistema solar, vejo a terra na distância correta do sol para receber a quantidade de luz e calor apropriadas. Isso não acontece por acaso.[vii]

E, por fim, Michael Faraday. Ele deu uma das maiores contribuições na área da eletricidade. Faraday descobriu a indução eletromagnética e inventou o gerador. Francis Schaeffer menciona que Faraday pertencia a um grupo de cientistas cuja posição era: “Onde as Escrituras silenciam, nós silenciamos”.[viii]

Chegando ao fim de nosso breve passeio na história da ciência, reproduzo a lista de cientistas criacionistas, descrita por D. James Kennedy em que nos mostra uma pequena parte da influência do ensino bíblico da criação reconhecido na ciência, ainda que não seja regra todo criacionista ser crente na Bíblia, de qualquer forma temos aqui um pressuposto ancorado no Deus Criador.


        Cirurgia anti-séptica – Joseph Lister

        Bacteriologia – Louis Pasteur
        Cálculo e Dinâmica – Isaac Newton
        Mecânica celestial – Johannes Kepler
        Química – Robert Boyle
        Anatomia comparativa – Georges Cuvier
        Ciências da computação – Charles Babbage
        Análise dimensional – Lord Rayleig
        Eletrônica – John Ambrose Fleming
        Eletrodinâmica – James Clerk Maxwell
        Eletromagnetismo – Michael Faradey 
        Energética – Lord Kelvin
        Entomologia de insetos vivos – Henri Fabre
        Teoria de campo – Michael Faraday
        Mecânica dos fluidos – George Stokes
        Astronomia galáctica – William Herschel
        Dinâmica dos gases – Robert Boyle
        Genética – Gregor Mendel
        Geologia glacial – Louis Agassiz
        Ginecologia – James Simpson
        Hidrografia – Matthew Maury
        Hidrostática – Blaise Pascal


Só para citar alguns nomes. Voltamos a pergunta do nosso título – Cristianismo e Ciência são opostos? Não. O cristianismo se opõe a falsa ciência, que baseia-se em falsos pressupostos e, consequentemente, numa epistemologia incoerente com a realidade. Somente o cristianismo pode explicar a realidade, somente a Bíblia pode conduzir o homem à verdade. Por isso, um trabalho científico que desenvolve pesquisa no campo da filosofia natural, precisa ter uma sólida base na revelação especial de Deus, a Bíblia, e dobrar-se ao Deus criador e soberano sobre céus e Terra. Concluo com a famosa frase de um cientista cristão:



"Pensemos os pensamentos de Deus depois dele". - Johannes Kepler


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Notas:

[i] How should we the live?, Old Tamppan: Fleming H. Revell, 1976, p.132.
[ii] E se Jesus não tivesse nascido, São Paulo – SP: Editora Vida, 2001, p.125.
[iii] Fé na era do ceticismo, São Paulo – SP: Editora Vida Nova, 2015, pp. 118,119.
[iv] A alma da ciência, fé cristã e filosofia natural, São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2005, pp.15,16.
[v] Havendo interesse da parte do leitor sobre a epistemologia pascaliana, poderá encontrar um excelente estudo sobre o tema no ensaio sobre epistemologia pascaliana do filósofo Luiz Felipe Pondé – Conhecimento na desgraça, editora Edusp.
[vi] Citação extraída do livro E se Jesus não tivesse nascido, São Paulo – SP: Editora Vida, 2001, p.135.
[vii] Ibid., p.136.
[viii] Ibid

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Autor: Thomas Magnum
Fonte: Electus
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A ortodoxia no abismo semântico

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Por Thomas Magnum


Ao lidar com uma questão semântica no atual cenário religioso brasileiro – com um recorte na problemática da identidade teológica da igreja no país – é impossível ignorar que o linguajar evangélico é um fator que tem sido correntemente crescente e curiosamente dissidente de uma explosão religiosa no Brasil e que tem raízes no liberalismo teológico e no sincretismo nascente do colonialismo com o catolicismo europeu, pajelança, espiritismo de mesa branca e religiões afrodescendentes.

De fato, e de verdade, a questão não passa somente por uma ambiguidade presente no estudo da ciência da religião, mas também por uma ambivalência de termos. Embora tenhamos uma linguagem cristã aparentemente bíblica no contexto apontado aqui, temos uma disparidade de questões que separam a falsa teologia da verdadeira teologia.

Francis Schaeffer desenvolve esse raciocínio de forma singular em seu livro O Deus que Intervém, quando fala do misticismo semântico empregado na relação religiosa e a linguagem teológica do cristianismo. Schaeffer diz algo muito interessante:

Uma ilusão de comunicação e conteúdo é dada de forma que, quando uma palavra é usada deste modo deliberadamente indefinido, o ouvinte “pensa” que sabe o que ela significa.*

Temos com isso uma questão muito interessante de que muitas vezes a teologia é expressa de forma descritivamente escriturística, mas, aquilo que foi dito se instala no campo do subjetivismo e de outra forma leva o receptor da mensagem a um campo epistemologicamente estranho a sã doutrina.

Ao ouvirmos falar de sangue, expiação, cruz, inferno, condenação, ira, juízo, salvação, espiritualidade, santificação, eleição, justificação, reino de Deus; estamos num campo comum em relação aos termos vocabulares da linguagem cristã. Mas, ao investigarmos como cada palavra recebe conotações diferentes, percebemos como existe um abismo entre o que foi escrito e o que foi inscrito pelo homem, pela cultura, pela tradição religiosa. Reconhecemos a clara diferença entre exegese e eixegese. O que notamos é que muitas instituições chamadas de evangélicas professam documentalmente uma fé bíblica, mas, na prática a Bíblia não é suficiente, a Palavra de Deus deve ser “acrescentada”, isso é um trágico contexto. O interessante aqui é que esse acréscimo se dá com palavras que estão na Bíblia, “mas não são da Bíblia”, portanto, uma hermenêutica que não serve a Palavra de Deus e não é fiel ao genuíno ensino das Escrituras Sagradas.

Sem sombra de dúvida, há uma forte influência ainda que inconscientemente da escola de interpretação de Alexandria, posteriormente seu crescente desdobramento com Orígenes deram suporte para muitos problemas na igreja cristã, fornecendo aparato para interpretações estranhas as verdades sagradas do Evangelho de Deus. Temos também o presente pensamento do Iluminismo nesse processo de subjugação da Escritura as ideias filosóficas presentes nesse período histórico.

Ao se falar de salvação em Cristo, nos deparamos muitas vezes com conotações muito distantes do que realmente é a obra salvadora de Jesus Cristo na cruz. Para muitos a salvação é um passaporte para uma vida melhor sob vários ângulos, fornecidos por gurus que maculam as verdades santas do Evangelho Eterno. Ao se tratar de fé, nos deparamos com uma série de amuletos, herança do sincretismo e pluralismo religioso que se desenvolveu do corolário das Escrituras.

Interessante notarmos que quando o protestantismo chegou ao Brasil, não ouve aqui o mesmo impacto cultural que a teologia reformada causou em países europeus. Tivemos aqui uma ênfase na espiritualidade e numa postura em relação ao reino de Deus muito próxima das visões de Lutero e dos Anabatistas e um tanto quanto distantes do que Calvino tinha ensinado em Genebra e sua perspectiva sobre cosmovisão cristã, embora que esse termo ainda não era utilizado. Essa questão trouxe um afrouxamento na educação do povo e no interesse pelo estudo da Sagrada Escritura, consequentemente o crescimento do fanatismo, legalismo, ignorância a respeito do reino de Deus cresceram.

Sobre esse descompromisso com a correta interpretação das Escrituras surgem oceanos de heresias e ventos de doutrinas como dizia Paulo, que enganam o povo e lhe arrastam para os falsos ensinos. Ao lidarmos com essa questão semântica, devemos estar submissos a Palavra de Deus, devemos ser zelosos pela suficiência das Escrituras, sua exposição e sua regra áurea da hermenêutica Bíblica que diz que: a Escritura interpreta a Escritura. A desvalorização do ensino bíblico e da exposição da Escritura tem causado muitos males. A preguiça de muitos pastores em dar a sua congregação alimento espiritual tem sido um preço muito alto e um campo muito vasto para lobos que enganam o rebanho. Seminários teológicos que são centros liberais de teologia, professores apostatas e ateus que não creem no que está escrito, causam efeitos trágicos na vida de muitos alunos.

Como podemos lidar com essa situação? Como a igreja cristã pode vencer o liberalismo prático e o secularismo em seu seio? Como o cristianismo atual poderá sobreviver em frente a uma avalanche de ideias megalomaníacas que transformaram igrejas em clubes, cultos em shows, louvores em encenação performática? Com lidar com uma cultura que se afasta de Deus numa era pós-cristã?

Os desafios que temos hoje circulam mais no campo das ideias do que na perseguição física como no passado. Doravante ser cristão, é ser discípulo de Jesus e apegados a sua revelação nas Santas Escrituras. Um dia desses conversando com um jovem cristão universitário ele me disse que o grande problema do esfriamento espiritual da igreja moderna é que ela não lê as Escrituras; mas, tenho uma fundamental discordância desse ponto. É claro que concordo que o relaxamento na leitura da Palavra é evidente, porque temos crentes analfabetos de Bíblia na igreja, cristãos que estão a muitos anos frequentando uma igreja, mas, não sabem o que é o pentateuco, ou os evangelhos e muito pior do que termos técnicos, não sabem que é o Espirito Santo, nem o Jesus das Escrituras. Em muitos casos o que muitos cristãos creem são figuras folclóricas com nomes de personagens bíblicos, ou seja, sua crença não está fundamentada no ensino bíblico de determinado assunto ou pessoas da Bíblia. A dificuldade não é somente na leitura, mas na compreensão do texto lido. A falta de exposição da Bíblia nos púlpitos tem causado isso. Os pregadores através de exposições bíblicas ensinam o povo a ler devidamente a Bíblia, é claro que temos a dependência do Espírito Santo de Deus para nos ensinar e nos guiar na verdade (Jo 16.13), no entanto fomos dotados de intelecto e capacidade de aprendizado, por isso temos tantas instruções na Bíblia para que meditemos, leiamos, guardemos, examinemos as Escrituras Sagradas.

O fator semântico é algo que pode impedir o crescimento de um crente e a fé na verdadeira Palavra de Deus, a verdade é a verdade de Deus como dizia Calvino. É claro que não digo com isso que um crente precisa aprender as línguas bíblicas para ouvir a voz de Deus, acredito que a Escritura fala com o povo de Deus na língua vernácula. Mas o trabalho dos pregadores e ensinadores é de fundamental importância para a igreja, esses sim devem ter um conhecimento abalisado das Escrituras e estarem sempre procurando aperfeiçoamento nos estudos teológicos para ensinarem o povo.  

Ao tratarmos com o princípio Sola Scriptura e Tota Scriptura da reforma (Somente a Escritura e toda a Escritura), estamos incluindo nisso uma correta interpretação da Palavra de Deus, respeitando seu contexto histórico e sua gramática, por isso usamos o método histórico-gramatical. Evidente que a Palavra alcança o crente leigo, mas existem casos que exigem esforço intelectual para uma correta compreensão do que Deus revelou, por isso insisto na importância da ortodoxia, ortopraxia e ortopatia. Temos que crer na verdade de Deus revelada, como Ele a revelou (ortodoxia), viver por essa verdade que nos foi dada (ortopraxia) e ter nossos sentimentos (ortopatia) regidos por ela.

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* O Deus que Intervém, Francis Schaeffer - Ed. Cultura Cristã

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Divulgação: Bereianos
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