Como o cristão (não) deve lidar com o estudo teológico

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A teologia é sem dúvida uma bênção do Senhor na vida do crente. É através do labor teológico que nós podemos conhecer melhor o Deus a quem servimos e adoramos. É por isso que soa muito estranho quando alguém afirma: “eu só quero Jesus, não doutrina.” Mas não é esse o ponto que pretendo tratar aqui. Que há cristãos que negligenciam o estudo teológico é fato, mas há também aqueles que gostam de teologia, porém não a fazem da maneira correta e pelos motivos corretos. É sobre estes que eu quero falar.

Se por um lado a igreja do Senhor sofre porque há muitos que deixam de lado o estudo doutrinário, há também, cada vez mais, cristãos que, apesar de se dedicarem a teologia, agem de uma maneira inadequada a respeito. Gostaria de citar alguns dos problemas a respeito destes últimos.

O primeiro problema é sobre aqueles que ao começarem a estudar um pouco de teologia, acham que podem opinar sobre todos os assuntos com propriedade. Eu vejo isso com muita frequência nas redes sociais, especialmente no Facebook. Alguém posta algo sobre pentecostalismo e o ex-pentecostal, que se tornou reformado depois de ler dois ou três artigos em sites e blogs, critica ferrenhamente o post sobre este movimento como se fosse conhecedor o suficiente dele (quando na verdade não é). Isso se aplica a outros tópicos teológicos também. Mas a questão é que essas pessoas têm sede por criticar ou opinar sobre qualquer coisa que diz respeito à teologia, quando elas mesmas não tem propriedade o bastante para falar. 

As consequências disso são inúmeras. Um exemplo disso é uma divisão radical no corpo de Cristo por questões secundárias, ao ponto de muitos se comportarem de forma semelhante aos coríntios: “Eu sou de Paulo”, e outro “Eu sou de Apolo” (1 Coríntios 3.4). Tal divisão acarreta ainda outras consequências como até mesmo xingamentos! 

Não é assim que as coisas devem funcionar. O cristão que tem começado a se dedicar a teologia deve sempre ter em mente que muitas coisas não são tão simples como ele pensa que é. E quando isso não ocorre, é uma clara evidência de imaturidade.

Outro problema associado a este é o motivo pelo qual eles estudam teologia. Há muitos cristãos que “teologam” simplesmente por amor a debates. Eles são ávidos por confrontar posições opostas às suas, a fim de derrubar os argumentos contrários e sair como vencedor. Eu não estou aqui dizendo que debates são de tudo ruins. Eu mesmo aprecio isso em alguns casos. Porém, o ponto é: eles não estão preocupados em se aquele debate vai render algum fruto de piedade ou amadurecimento ao seu irmão, ou até mesmo (por que não?) se o debate vai proporcionar troca de conhecimentos e uma interação saudável. Isso pode levar uma das partes a repensar aquilo que ele tem defendido e a amadurecer. 

Além disso, e talvez mais importante ainda, é o fato destes cristãos não usarem a doutrina para o benefício da igreja. Eu mesmo já fui muito tentado a isso e tenho errado bastante. A teologia virou algo que não tem mais nenhuma relação com a igreja local. Estuda-se apenas para benefício próprio, não para instruir seus irmãos. Isso é egoísmo!

É aqui que o trabalho do pastor como teólogo-orientador entra. Ele precisa aconselhar as suas jovens ovelhas que, embora amem a teologia, precisam saber se comportar de forma adequada em relação a ela. Elas precisam entender que teologia não é algo banal, mas algo sério, pois lida com as coisas do Senhor. Além disso, precisam estar cientes do motivo pelo qual elas querem aprender mais da palavra de Deus. Eu penso que isso terá impacto significativo tanto na igreja local quando na igreja do Senhor como um todo.

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Autor: Alison Aquino
Divulgação: Bereianos
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Que amor é este?

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Por Francisco Alison Silva Aquino


Arminianos como Dave Hunt assumem uma filosofia humanista do amor, e então quando a argumentação bíblica do calvinista mina este mesmo humanismo, eles dizem: “que horrível! Que amor é este?” ou: “Um Deus que ama alguns e não outros não é o Deus da Bíblia” e outras frases semelhantes. Fale sobre o amor de Deus e o arminiano rapidamente se lembrará de João 3.16, como se este texto fosse a pedra fundamental do arminianismo como parece ser muitas vezes nos debates sobre soteriologia.

No entanto, vamos ver como Deus, em Cristo Jesus, expressa seu amor:

Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” (João 15.13)

Todos são amigos de Cristo? Obviamente nem todos são.

Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.” (João 15.14,15)

Aqui, Jesus diz que a maior expressão do seu amor pelas pessoas é que ele dá sua vida por seus amigos, e nem todos os homens são seus amigos. Um universalista ou um arminiano, porém, dirá: “Mas isto não prova a expiação limitada” (ou o amor incondicional de Deus somente pelos eleitos). “Veja, Cristo não diz que ele dá sua vida apenas pelos seus amigos.” Bem, que amor é este?

Jesus busca mostrar que tipo de amor é este ao fazer uma afirmação a respeito do alvo deste amor, sendo que este é demonstrado através da entrega da sua própria vida por seus amigos. Porém, o arminiano quer nos fazer crer que Jesus dá sua vida por aqueles que não são seus amigos também, nossos inimigos. Aqueles que buscam nos consumir.

Imagine que você tem uma esposa e que costuma dar rosas para ela. Se você comprasse rosas para outras mulheres que não a sua esposa a quem você realmente ama, como você acha que ela se sentiria? O que distinguiria as suas ações para com sua esposa as quais demonstrariam seu amor por ela das suas ações para com as outras mulheres?[1] Certamente a esposa se perguntaria: “Que amor é este?”

Cristo amou a sua noiva e somente por ela se entregou. O amor incondicional de Deus é revelado no caráter particular desta entrega tão maravilhosa. 

Em outras palavras, é o arminiano quem faz caricatura do amor de Deus, não o calvinista.

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Nota:
[1] Eu não acho que a compra das rosas para a esposa seja a melhor forma de demonstrar o seu amor pela esposa, mas o exemplo é apenas para fazer uma analogia.

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Fonte: Pelo Calvinismo
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A divindade e a personalidade do Espírito Santo

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Por Francisco Alison Silva Aquino


As discussões em torno da pessoa do Espírito Santo, a princípio, foram um pouco negligenciadas nos primeiros séculos da igreja cristã. Isto se deve principalmente ao fato de que a pessoa de Cristo é que era alvo de controvérsias teológicas. O credo de Nicéia (325), por exemplo, embora cite a expressão “Espírito Santo”, não faz nenhuma descrição mais detalhada quanto a Ele. No credo Niceno diz: “... e novamente virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo.” 

No entanto, algumas descrições quanto à pessoa do Espírito foram sendo feitas no decorrer da história. No credo niceno-constantinopolitano (381), o qual constitui uma ratificação do credo niceno com alguns pormenores a mais, diz: “... e se encarnou [do Espírito Santo...]”. Em outra parte afirma: “E no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do pai e do Filho, o que juntamente com o pai e o filho é adorado e glorificado, o que falou através dos profetas;”. Aqui nós temos uma descrição um pouco mais ampla da pessoa do Espírito. Já no credo atanasiano (c.500), várias vezes é mencionada a pessoa do Espírito Santo. Nele é enfatizado que o Espírito Santo também é Deus juntamente com as duas outras pessoas da trindade: o Pai e o Filho. O credo usa expressões tais como: “o Espírito Santo eterno”, “Espírito Santo onipotente”, “o Espírito Santo é Deus”, “o Espírito Santo é Senhor”, etc.

A ortodoxia enfatiza a divindade plena do Espírito em igualdade com o Pai e o Filho. No entanto, existe outro aspecto a respeito do Espírito, além da sua divindade, digno de ser tratado com bastante diligência, a saber, a sua personalidade. Uma vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas e um único Deus, iguais em essência, e sendo o Pai e o Filho seres pessoais, também o Espírito o é. 

Estes dois aspectos (divindade e personalidade) do Espírito Santo tem sido negados por algumas seitas e religiões. Enquanto determinadas religiões, como o islamismo, uma vez que este nega a unidade absoluta de Deus, negam o primeiro, geralmente seitas (ex. As Testemunhas de Jeová) negam o segundo, embora nós possamos dizer que em muitos casos negar um aspecto implica em negar o outro. Assim sendo, analisemos então o que as Escrituras dizem a respeito destes dois aspectos intrínsecos à pessoa do Espírito Santo.

Quanto à divindade do Espírito, as Escrituras são claras ao atribuir a estes atributos pertencentes somente a Deus. Logo em Gênesis nós vemos uma indicação de um desses atributos quando lemos que “o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. Ou seja, o Espírito participou da atividade criadora da terra, atividade esta realizada pelas pessoas da trindade. Em outras palavras, o Espírito estava presente na obra da criação, demonstrando assim o atributo da onipotência que o caracteriza como ser divino. Jó também atribuiu sua criação ao Espírito: “O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida.” (Jó 33.4).

Outro atributo concedido ao Espírito Santo é a onipresença: “Para onde me irei do teu ESPÍRITO, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.” (Salmos 139.7-10). 

O texto de Isaías 40.13-14 demonstra o atributo da onisciência: “Quem guiou o ESPÍRITO do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento?” (Isaías 40.13-14).

Além dos versículos que demonstram os atributos divinos do Espírito, há outras passagens da Escritura que claramente afirmam que o Espírito Santo é Deus. Talvez o texto mais claro quanto a isso seja o de Atos 5.3-4 que diz: “Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao ESPÍRITO SANTO, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a DEUS.” (Atos 5:3-4). Em outras palavras, a passagem nos diz que mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus, uma vez que aquele também compartilha da essência divina.

Quanto à personalidade do Espírito, as Escrituras são ainda mais claras ao tratar o Espírito como um ser pessoal. A palavra para “Espírito” no grego é pneuma. Esta palavra é neutra, porém quando usada para o Espírito possui um artigo masculino. Um fato que indica que o Espírito Santo é uma pessoa é que ele, como Consolador (parakletos, João 14.26; 15.26), é colocado ao lado de Cristo como o consolador que estava para partir. Além disso, a Escritura também confere ao Espírito atributos pessoais. Vejamos alguns deles.

João 14.26 indica o atributo da inteligência: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ENSINARÁ todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”. O papel do Espírito em nos ensinar toda a verdade aponta para o aspecto pessoal do Espírito. Uma força impessoal não poderia fazer isso. 

O texto de Atos 16.7 mostra que o Espírito Santo tem vontade: “E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito não lho PERMITIU.”. Mais claro ainda é o texto de I Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um COMO QUER.” Uma força impessoal obviamente não tem vontade. 

Outros textos mostram que o Espírito também tem sentimentos (emoções). Isaías 63.10 diz: “Mas eles foram rebeldes, e CONTRISTARAM o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.” (Isaías 63:10). Também o texto de Efésios 4.30: “E não ENTRISTEÇAIS o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” (Efésios 4.30). Uma mera influência ou força não pode se entristecer.

Além de todos estes textos que comprovam a personalidade do Espírito, outras passagens demonstram que o Espírito realiza atos próprios de uma pessoa como falar, sondar, testificar, revelar, ordenar, interceder, entre outros. Quem realiza todos estes atos só pode ser um ser pessoal, não pode ser uma mera influência, poder ou força impessoal.

Como afirma Erickson: “Todas essas considerações levam a uma conclusão. O Espírito Santo é uma pessoa, não uma força, e tal pessoa é Deus, na mesma dimensão e da mesma forma que o Pai e o Filho”. 

Aqueles que negam que o Espírito é Deus e aqueles que negam sua personalidade, afirmando que Ele é apenas uma força, incorrem no erro gravíssimo de ofendê-lo. É necessário que tais pessoas tenham seus olhos abertos para contemplarem a maravilha da pessoa e da obra do Espírito Santo como um ser divino e pessoal. 

O erro da própria igreja cristã tem sido esquecer a pessoa do Espírito. Como afirma Franklin Ferreira e Alan Myatt: “Devemos dar ao Espírito Santo, que é plenamente divino, a mesma glória que damos ao Pai e ao Filho. Agir de outra forma é cair em algum tipo de subordinacionismo.” O Espírito Santo deve ser adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho como nos diz o credo de Constantinopla: 'no Espírito Santo, Senhor e vivificador, o qual procede do Pai e do Filho; que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado'”.

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Notas:
[1] Millard J. Erickson, Introdução a Teologia Sistemática, p.349.
[2] Franklin Ferreira & Allan Myatt, Teologia sistemática, p. 340-341.

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Divulgação: Bereianos
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A teologia de Santo Agostinho

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Por Francisco Alison Silva Aquino


Agostinho é considerado um dos maiores teólogos da história da igreja, desde os tempos pós-apostólicos até os dias de hoje. Historiadores como Adolf Von Harnack, por exemplo, diriam que Agostinho é o maior vulto da igreja entre o apóstolo Paulo e o reformador Martinho Lutero. Sua contribuição para o pensamento cristão é sem dúvida muito rica, uma vez que ele tratou de vários temas bíblicos, assim como de debates a respeito dos mais controversos assuntos teológicos. Nesse sentido, vejamos algumas contribuições deste grande mestre do período patrístico.

No que diz respeito às obras de Agostinho de Hipona, algumas merecem destaque tais como: Confissões (397), Da graça e do livre arbítrio (426-427), Da trindade (c. 399- c. 419) e a Cidade de Deus. Seus escritos tiveram grande impacto na construção do pensamento cristão em toda a história da igreja. É praticamente impossível estudar o pensamento de determinado teólogo sem ver ali traços do pensamento de Agostinho.

Agostinho se preocupou em defender alguns pontos teológicos muito importantes para a teologia cristã, tais como a trindade e a doutrina da predestinação.

Ele esteve meditando no problema da trindade durante toda a sua vida cristã. É importante destacar que ele aceitava a verdade de que só existe um Deus e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são ao mesmo tempo distintos e coessenciais, e numericamente um em substância. Embora ele não tentasse provar essas verdades, ainda assim ele cria que a escritura as ensinava quase a cada página. 

Kelly nos mostra algo muito interessante a respeito da ideia de processão do Espírito e a geração do filho. Ele diz:

“Agostinho sempre encontrou dificuldade para explicar o que era a processão do Espírito ou em que ela difere da geração do filho. Ele estava certo, no entanto, de que o Espírito é o amor mútuo do pai e do filho (communem que invicem se diligunt pater et filius caritatem), o vínculo consubstancial que Os une. Seu ensino constante foi, portanto, de que ele é o Espírito tanto de um como de outro; em sua maneira de se expressar, o Espírito Santo não é o Espírito de um deles, mas de ambos.” (KELLY, 1994, p. 208).

Nesse sentido, Agostinho cria que o Pai e o Filho formam um princípio único em relação ao Espírito Santo. Por isto Agostinho ensinou a doutrina da dupla processão do Espírito a partir do Pai e do Filho (filioque) mais inequivocamente do que qualquer um dos pais ocidentais que vieram antes deles.

Muitas outras considerações a respeito da doutrina da trindade desenvolvida por Agostinho poderiam ser exploradas aqui, porém o que já foi dito é o bastante para comprovar que este grande teólogo defendeu esta verdade maravilhosa com tanto afinco. No entanto, Agostinho é mais lembrado por suas controvérsias com Pelágio acerca da doutrina da depravação humana.

A controvérsia inicia com uma afirmação na obra “Confissões” de Agostinho que provocara Pelágio. Agostinho dissera: “Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes”. Esta oração reconhecia a necessidade que o homem tem da graça soberana. Agostinho entendia que Deus faria no homem o que requer dele. Pelágio simplesmente não podia aceitar isso. Para ele, uma ordem divina implica na capacidade humana de obedecê-la.

Sobre esta controvérsia, Lawson afirma:

“Este foi o cerne da disputa entre Agostinho e Pelágio. Agostinho ensinava que o homem, na queda de Adão, perdeu toda a capacidade de obedecer a Deus. Por causa do pecado original, os seres humanos não podem realizar o que Deus requer. Pelágio, confiando na razão humana, mais que na revelação divina, concluiu que a responsabilidade necessita de capacidade. A despeito do ensino da escritura, ele insistia sobre a capacidade natural do homem caído em guardar a lei de Deus. As principais facetas do ensino de Pelágio consistiam num exaltado conceito da responsabilidade humana e o conceito deficitário da soberania divina.” (LAWSON, 2013, p. 289)

Assim sendo, Agostinho trouxe uma compreensão mais aprofundada a respeito da doutrina da depravação do homem. Enquanto muitos negavam o estado de miserabilidade do homem no pecado, Agostinho defendia que cada ser humano nasce em pecado (Sl 51.5) e que a menos que Deus intervenha com sua graça soberana ninguém pode ser salvo.

Por fim, este mestre do pensamento cristão é referência para todos os teólogos posteriores a ele, de modo que é impossível ler o pensamento de outros grandes vultos do pensamento cristão sem enxergar as tonalidades agostinianas nos escritos destes mestres.

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Referências:
KELLY, J.N.D. Patrística: Origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 1994.
LAWSON, Steve. Pilares da graça: Longa linha de vultos piedosos. São José dos Campos: Fiel, 2013.

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Divulgação: Bereianos 
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João 1:9 e a doutrina da graça preveniente

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Por Francisco Alison Silva Aquino


Calvinistas e arminianos concordam que o ser humano é totalmente depravado. Talvez seja este um dos principais pontos de convergência entre TULIP[1] e FACTS[2], os sistemas soteriológicos calvinista e arminiano respectivamente. Isso significa que todas as faculdades do homem foram afetadas pelo pecado, inclusive a vontade, de modo que, à parte da graça de Deus ninguém pode ser salvo. Neste sentido, tanto calvinistas quanto arminianos são contra a ideia pelagiana de que o homem não foi afetado pela queda de Adão e que, por isso, ele pode se achegar a Deus por sua livre vontade.

O ponto de divergência entre calvinistas e arminianos é como o homem pode ser salvo uma vez que ele está morto em delitos e pecados (Ef 2.1). O calvinista dirá que é Deus quem opera eficazmente na vida do homem para que ele se converta, de modo que uma resposta contrária não é possível. Isto é, Deus age sozinho por intermédio do Espírito Santo para que o homem seja convencido do seu pecado e creia. Isso é o que chamamos de monergismo. No que diz respeito a operação da graça, dizemos que ela é irresistível. Para o arminiano, Deus concede uma graça que capacita o homem a crer. Se Deus não tomasse a iniciativa ninguém seria salvo. Contudo, essa graça não é eficaz no sentido de que ela não torna a resposta do homem certa. Ou seja, Deus concede sua graça a fim de tornar possível que o homem creia, mas não o faz crer, pois a fé é resultado da cooperação de Deus e do homem (sinergismo)[3]. É nesse sentido que arminianos afirmam que Deus não crê pelo homem. Deste modo, a graça é resistível (do ponto de vista arminiano).

Nas palavras do próprio Armínio:

“Um homem rico dá esmolas a um pobre e faminto mendigo, com as quais ele poderá ser capaz de manter a si mesmo e à sua família. Isso deixa de ser um presente puro porque o mendigo estendeu sua mão para recebê-la? Pode-se dizer com propriedade que a “esmola dependia parcialmente da liberdade do doador e parcialmente da liberdade do recebedor”, embora o último poderia não ter possuído a esmola a não ser que estendesse a sua mão? Pode se dizer corretamente que porque o mendigo está sempre preparado para receber, “ele pode receber ou não a esmola, como lhe agradar”? Se essas afirmações sobre o mendigo que recebe a esmola não puderem verdadeiramente ser feitas, muito menos podem ser feitas com relação ao dom da fé, cujo recebimento requer muito mais atos da graça divina”[4]

Eu não irei comentar sobre esta citação, pois a minha intenção foi apenas deixar claro que até para o arminianismo a fé é um dom de Deus. No entanto, nos voltemos agora para o ponto de divergência entre calvinismo e arminianismo: como o homem chega à fé?

Segundo o arminianismo, a fé só é possível porque Deus concede a sua graça preveniente. Como o próprio nome sugere, a graça preveniente é uma graça que “vem antes”, que antecede a conversão. Há duas visões dentro do sistema arminiano a respeito da extensão da graça preveniente. Para Armínio, a graça preveniente é concedida através da pregação do evangelho, nesse sentido, nem todas as pessoas se beneficiarão dela, pois algumas pessoas nunca ouviram o evangelho. Outra visão foi proposta por John Wesley. Ele afirmava que existe uma medida de graça preveniente disponível para todo homem que vem ao mundo. Wesley fez uma conexão da doutrina da graça preveniente à doutrina da providência de Deus. Nesse sentido, nenhum ser humano estaria alheio à alguma medida desta graça. Em outras palavras, a graça preveniente coloca o homem numa posição na qual ele pode escolher entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, aceitar a Cristo ou rejeitá-lo.

Seja como for, o arminianismo afirma a necessidade de uma “graça capacitadora” para que o homem possa crer, a saber, a graça preveniente. Na tentativa de sustentar este ensino, arminianos utilizam alguns textos (Jo 1.9; Jo 6.44; Jo 12.32). Dentre estes, talvez o principal versículo utilizado na tentativa de fundamentar esta ideia é Jo 1.9. É este verso que iremos analisar.

O texto diz: “Pois a verdadeira luz, que ilumina a todo homem, estava chegando ao mundo.” Arminianos veem aqui uma evidência para a doutrina da graça preveniente. Steve Witzki, por exemplo, afirma que Jo 1.9 “ensina que Cristo trouxe luz suficiente ao mundo para graciosamente iluminar cada pessoa. Esta iluminação não garante a salvação de ninguém, mas torna a salvação possível.” [5] Neste sentido, afirmar que Cristo “ilumina” a todos significa que eles recebem uma forma de “graça comum” que, de alguma forma, restaura o arbítrio perdido em Adão e os coloca em um estado no qual o homem pode agora aceitar ou rejeitar a Cristo.

O problema é que Jo 1.9 de forma alguma ensina isso. Não há nenhuma indicação de que “a luz” ou a graça que provém desta luz coloca o homem em um estado “neutro” no qual ele agora pode dizer sim ou não para Cristo. Alguns arminianos usam a seguinte ilustração: a ação da graça preveniente é como o ato de ligar uma lanterna num quarto escuro. A luz da lanterna não modifica nenhuma propriedade físico-química do quarto, apenas torna visível o que não era visível.

No entanto, esta ilustração não funciona. Na verdade, tal analogia destrói a ideia ensinada pelo arminianismo a respeito da graça preveniente. Se esta luz não traz nenhuma modificação ao ser lançada sobre alguém, mas apenas torna visível o que antes não era visível, a conclusão a qual chegamos soa bastante calvinista. Isto é, a ilustração demonstra que a luz, em vez de trazer alguma capacitação para o homem, revela aquilo que ele é. É neste sentido que a luz ilumina a todo homem.

A propósito, o contexto de João 1.9-13 sugere exatamente isso. A palavra phōtizei (ilumina) se refere não a uma iluminação interior que capacita (ou possibilita) alguém a fazer algo (crer, neste caso), mas a exposição que vem quando a luz é lançada sobre algo. Comentando o uso de phōtizei em Jo 1.9, D.A. Carson afirma: 

“A iluminação interior agora não está em vista (seja da revelação geral seja da luz especial que acompanha a salvação). Antes, o que está em jogo é a revelação objetiva, a ‘luz’, que vem ao mundo com a encarnação da Palavra, a invasão da ‘verdadeira luz’. Ela brilha sobre todo homem e divide a espécie: aqueles que odeiam a luz reagem como o mundo faz (1.10): eles fogem para que suas obras não sejam expostas por essa luz (3.19-21). Mas alguns recebem essa revelação (1.12,13), e assim fazendo testemunham que suas obras são feitas por meio de Deus (3.21). No Evangelho de João, repetidamente acontece que a luz brilha sobre todos e força uma distinção (e.g. 3.19-21; 8.12; 9.39-41). Essa luz “brilha sobre todo homem” (quer ele veja isso quer não) (Barrett, p. 161).”[6]

Assim sendo, a luz expõe e revela o estado moral e espiritual do coração humano. João 1.9 não está afirmando alguma graça que capacita o homem a crer, antes o objetivo da vinda de Cristo, a luz, está relacionada à separação daqueles que o odeiam daqueles que recebem de bom grado a revelação. Em resumo, a luz revela o estado em que as pessoas se encontram no seu relacionamento com Deus. 

Podemos afirmar que a doutrina da graça preveniente é uma doutrina muito atraente, pois ela consegue em alguma medida resolver o problema da depravação total do homem a qual o impede de se achegar a Deus. Por outro lado, esta doutrina carece de fundamento bíblico, o fator principal na construção de um sistema teológico. A conclusão que podemos tirar é que a doutrina da graça preveniente é fruto da tentativa de resolver determinados problemas teológicos os quais carecem de base bíblica.

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Notas:
[1] Acróstico do sistema soteriológico calvinista: Total depravity (Depravação total), Unconditional election (Eleição incondicional), Limited atonement (Expiação limitada), Irresistible Grace (Graça irresistível) e Perseverance of the saints (Perseverança dos santos).
[2] Acróstico do sistema soteriológico arminiano: Freed to believe by God’s grace (Libertos para crer pela graça de Deus), Atonement for all (Expiação para todos), Conditional election (Eleição condicional), Total depravity (Depravação total) e Security in Christ (Segurança em Cristo). Para uma melhor compreensão dos cinco pontos do arminianianismo veja:
[3] Perceba que eu não estou afirmando que no arminianismo a fé é algo que parte do homem, uma vez que este sistema nega isso. Arminianos concordam com calvinistas ao afirmar que a fé é um dom de Deus (2.8). No entanto, Deus não torna o resultado pretendido inevitável, pois o homem ainda precisa receber esse dom do alto. Além disso, como eu deixei bem claro, o arminianismo não afirma que a salvação em si é uma obra de Deus e do homem, mas a fé, o que não é exatamente a mesma coisa.
[4] The apology or defense of James Arminius, D.D., against Thirty-one Theological Articles, in Arminio, The works of James Arminius: The London edition, 2:52.
[5] http://www.fwponline.cc/v18n2/v18n2witzki.html
[6] D. A. Carson, comentário de João, p.124.

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Fonte: Pelo Calvinismo
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Eleição individual em Efésios 1:4

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Por Francisco Alison Silva Aquino


Há uma tendência da parte de muitos intérpretes em ver a descrição de Paulo acerca da eleição como sendo exclusivamente corporativa. Mas uma análise mais precisa indica que a eleição em vista é ao mesmo tempo corporativa e individual. 

Que a eleição é corporativa é indiscutível, uma vez que Deus escolheu sua igreja antes da fundação do mundo, sendo ela composta de judeus e gentios crentes conforme Paulo nos diz em Ef 2.14, 16. O problema é interpretar a passagem como sendo de caráter corporativo apenas e não individual. Mas analisemos a perícope em questão.

Paulo nos diz que Deus “nos elegeu nele [em Cristo] antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor”. Alguns interpretam a passagem como significando que Deus escolheu um povo, isto é, a igreja, como um conceito abstrato, mas que não escolheu individualmente quem fará parte desse povo. Mas antes de entrar na análise exegética propriamente dita, analisemos uma ilustração proposta por Thomas Schreiner a fim de entendermos se a eleição corporativa faz sentido:

“Suponha que você diga: “Eu vou escolher comprar um time de baseball profissional.” Isto faz sentido se você então compra o Minnesota Twins ou o Los Angeles Dodgers. Mas se você faz isto, você escolhe os membros daquele time específico sobre outros jogadores individuais em outros times. Não faz sentido dizer: “Eu vou comprar um time de baseball profissional” que não tem membros, sem jogadores, e então permite que quem desejar vir jogue no time. No último caso, você não escolheu um time. Você tem escolhido que haja um time, a composição do que está totalmente fora do seu controle. Então escolher um time requer que você escolha um time entre outros juntamente com os indivíduos que o compõem. Escolher que haja um time não implica na escolha de um grupo sobre outro, mas apenas que um grupo pode formar em um time se eles quiserem. O ponto da analogia é que se há realmente tal coisa como a escolha de um grupo específico, então a eleição individual está implicada na eleição corporativa.”[1]

A ilustração em si demonstra que uma eleição exclusivamente corporativa não faz sentido. Mas vejamos mais algumas considerações de caráter exegético para a fundamentação da concepção de uma eleição individual. 

O versículo posterior nos diz que Deus “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”. O que temos aqui é a doutrina da adoção. Certamente ninguém afirmaria que indivíduos não são adotados ou que Cristo redimiu por meio do seu sangue a igreja corporativamente. Mas que Deus adotou indivíduos, redimindo-os individualmente

Uma passagem paralela a Efésios 1.4 é Romanos 8.30 que diz: “e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.” Todos creem que as bênçãos aqui como o chamado e a justificação, por exemplo, são individuais. A pergunta é: que sentido faria interpretar essas bênçãos como sendo individuais e a eleição como exclusivamente corporativa? Nenhum! Isso iria contra os princípios elementares da hermenêutica. 

Outra razão pela qual a interpretação de que a eleição é apenas corporativa não faz sentido é o que está expresso no verso 13 que diz: “no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” Certamente ele está falando a indivíduos bem como à igreja enquanto entidade corporativa. Ninguém diria que a igreja é selada com o espírito santo corporativamente, mas que cada um que crê é selado individualmente

Analisando Ef 1.4, Forster e Marston afirmam: 

“Nós somos escolhidos em Cristo. Isto não significa que nós fomos escolhidos para sermos colocados em Cristo. Isto significa que quando nós nos arrependemos e nascemos de novo no corpo de Cristo, nós participamos do seu povo eleito.”[2]

No entanto, o texto não diz que Cristo foi eleito como alguns interpretam. O objeto do verbo “escolher” é “nos”. Além disso, quando o texto diz “nos escolheu nele” isto provavelmente significa que Deus escolheu que a salvação seria experimentada “através de Cristo”. Ele é o agente e a pessoa através de quem a obra eletiva de Deus se concretizaria.

Um comentário de Steve Hays é crucial para o entendimento do texto em questão. Ele diz:

“A eleição corporativa pressupõe eleição individual. “Escolher” aqui significa selecionar de um grupo, não selecionar um grupo abstrato cujos membros são completados depois. A objeção arminiana significa dizer que Deus escolheu Cristo e que qualquer um que escolhe Cristo está “em Cristo”. Ok, então por que alguém escolhe Cristo? O texto diz que Deus nos predestinou — não Cristo, mas os indivíduos — para ser adotados como seus filhos através de Jesus Cristo.”[3]

Uma análise do verbo grego pode nos ajudar a compreender melhor o texto. Steve Hays prossegue:

“O verbo (eklego) normalmente toma um objeto definido: Cristo escolheu os doze apóstolos (Lc 6.13; Jo 6.70; 13.18; At 1.2). O pai escolheu o filho (Lc 9.35). A igreja escolheu Estêvão (At 6.5). A igreja escolheu Silas e Barnabé (At 15.22). Não há, então, presunção de que o verbo não toma um objeto definido e/ou tem uma classe plural, abstrata em vista. A noção de escolha do senso comum é geralmente construída para significar “selecionar de um grupo,” não “selecionar um grupo”. O uso bíblico simplesmente confirma esta noção.”

Neste sentido, concluímos que o entendimento de que a eleição é exclusivamente corporativa não se sustenta dada a análise exegética do texto aqui tratado. Uma análise mais cuidadosa do texto aponta para uma eleição não só corporativa, mas individual também. Ou seja, Deus escolheu, antes da fundação do mundo, aqueles que fariam parte da sua igreja, os quais seriam redimidos pelo sangue do mediador e salvador Jesus Cristo.

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Notas:
[1] Disponível em http://pelocalvinismo.blogspot.com.br/2014/07/romanos-9-ensina-eleicao-individual_14.html
[2] Forster and Marston, God's Strategy 97
[3] Disponível em http://pelocalvinismo.blogspot.com.br/2014/08/eleicao-corporativa-ou-individual.html

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Fonte: Pelo Calvinismo
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Um breve panorama das heresias cristológicas sobre as naturezas de Cristo

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Por Francisco Alison Silva Aquino


A história do cristianismo tem como uma de suas principais marcas o surgimento de doutrinas que vão de encontro ao ensinamento bíblico. Já na igreja apostólica do Novo Testamento, nós percebemos facilmente a existência de heresias destruidoras. Em I Jo 4.1-3 nós lemos:

Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. Nisto conheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não é de Deus; mas é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que havia de vir; e agora já está no mundo.” 

Outra passagem do Novo Testamento afirma: “Porque já muitos enganadores saíram pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Tal é o enganador e o anticristo.” (II Jo 7)

Estas passagens demonstram claramente que já no período neotestamentário havia conceitos equivocados a respeito de Cristo. Os textos dizem que alguns afirmavam que Cristo não vira em carne. E foi justamente esse um dos objetivos de João ao escrever essa epístola: enfrentar a heresia gnóstica do primeiro século. Talvez essa tenha sido a heresia mais perigosa que ameaçava a igreja dos três primeiros séculos. 

O gnosticismo (do grego “gnosis”, sabedoria) defende um forte dualismo espírito/matéria. A ideia gnóstica é que enquanto o espírito é “bom”, a matéria é essencialmente “má”. Essa percepção trouxe várias consequências desastrosas para o cristianismo. Uma delas é, que, pela lógica, se a matéria é essencialmente má, logo, Cristo não poderia ter “vindo em carne” (I Jo 4.2), negando assim a doutrina bíblica da encarnação como o cristianismo ortodoxo crê. Além disso, consequentemente, a humanidade de Cristo também era negada.

Franklin Ferreira (2007, p.487) agrupa as heresias antigas sobre as naturezas de Cristo em duas classes: primeira, as negações da humanidade de Jesus Cristo, que seriam o docetismo, o apolinarismo e o eutiquianismo. Segunda, as negações da divindade de Cristo, que seriam o ebionismo, o adocionismo e o arianismo.

O docetismo tem uma forte ligação com o gnosticismo tratado há pouco. O nome docetismo vem do grego dókesis cujo significado é “aparência”. Isto é, os docetas criam que, pelo fato de a matéria ser intrinsecamente má, Cristo não foi plenamente encarnado na carne, pois uma vez que a matéria tem essa característica, o espírito, que é bom, não poderia se envolver com ela. O corpo de Jesus, então, era uma mera ilusão e somente “parecia” que Cristo tinha sido crucificado. 

Um outro ensinamento difundido no século IV por Apolinário, bispo de Laodicéia (310-390), pregava que Cristo era divino mas não humano (apolinarismo). Ele entendia que Jesus Cristo não possuía uma alma racional humana, a alma divina (ou logos) teria tomado o lugar da alma humana. As ideias de Apolinário foram condenadas no concílio de Constantinopla no ano 381.

A última heresia que negava a humanidade de Cristo foi o eutiquianismo. Essa heresia era defendida por um monge de Constantinopla chamado Eutiques. Ele defendia que a natureza divina de Cristo absorveu a natureza humana. Nesse sentido, Cristo teria apenas uma natureza após a união, a divina, revestida de Carne humana. O eutiquianismo, conhecido posteriormente como monofisismo, foi condenado em Calcedônia e continuou exercendo influência sobre Cristãos do Egito, Etiópia, Síria, Armênia e outras regiões. Em oposição ao monofisismo, o concílio de Calcedônia reconhecia o diofisismo (duas naturezas).

A segunda classe de heresias cristológicas é aquela referente aos ensinamentos que negam a divindade de Cristo. São Elas: ebionismo, o adocionismo e o arianismo.

Os ebionistas defendiam uma heresia surgida em Israel no final do primeiro século. O ebionismo parece ter desaparecido conforme a igreja foi se tornando cada vez mais gentílica e menos judaica. O nome é derivado do hebraico “’ebyôn”, que significa “pobre”, “necessitado”, etc. O ensino ebionista era que Jesus Cristo não era Deus, mas somente um profeta extraordinário, o qual se identificava com os pobres (daí o nome), sendo filho natural de José e Maria. Segundo Berkhof (1992, p.43), os ebionistas “negavam tanto a divindade de Cristo como o seu nascimento virginal”.

Outra heresia que negava a divindade de Cristo foi o adocionismo. O ensinamento por trás dessa heresia era que Jesus era simplesmente um homem virtuoso, tão submisso ao Pai que este o adotou como o salvador dos homens. Tal doutrina foi ensinada por Paulo de Samosata, bispo de Antioquia. Segundo ele, Jesus teria sido iluminado por Deus de maneira extraordinária, sendo progressivamente aperfeiçoado até que ele tornou-se Cristo, o filho de Deus com uma posição divina. Porém, filho por “adoção”, não por natureza. Logo, a existência eterna de Cristo com o pai foi negada pelos adocionistas também.

Por último, o arianismo foi a principal heresia dos primeiros séculos da história do cristianismo. Ário foi um presbítero de Alexandria que ensinava que Cristo era apenas uma criatura, não o Deus eterno. Uma expressão típica desse movimento era que “houve um tempo quando Cristo não era”. Os debates em torno dessa doutrina resultaram na formulação de uma das mais importantes confissões de fé cristãs: o credo de Nicéia, elaborado no primeiro grande concílio da igreja em 325 na cidade de Nicéia (atual İznik, Turquia).

O surgimento de heresias na história da igreja tem conduzido servos de Deus a debates com o objetivo de definir o ensinamento correto das Escrituras. No entanto, mesmo em meio a tantas controvérsias, o Senhor cuidou de preservar a sua verdade através dos séculos.

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Referências:
FERREIRA, Franklin & Alan Myatt. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
BERKHOF, Louis. A história das doutrinas cristãs. São Paulo: Pes, 1992.

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Fonte: Bereianos
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Uma refutação ao artigo intitulado "Desmistificando um falso dilema calvinista"

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Por Francisco Alison Silva Aquino


No meu blog Pelo Calvinismo eu postei um artigo intitulado "Um argumento cristológico contra o princípio das possibilidades alternativas." desenvolvido por James N. Anderson. O objetivo do artigo consistia em refutar o conceito de PPA (princípio das possibilidades alternativas) se utilizando de um argumento cristológico. A questão é que os arminianos afirmam que a habilidade de fazer o contrário (livre arbítrio libertário) é uma condição necessária para a responsabilidade moral. Nesse sentido, James Anderson, com base em um argumento cristológico, refuta tal ideia.

O motivo pelo qual escrevo este breve artigo reside no fato de uma má compreensão por parte do nosso irmão Pr. Flávyo a respeito do argumento desenvolvido por James N. Anderson (veja aqui). Sendo assim, algumas considerações devem ser feitas.

Em resposta à primeira premissa: “Cristo não poderia ter pecado” Flavyo responde o seguinte:

“Um calvinista entende que Cristo não podia pecar em virtude de uma predestinação, pré-ordenação, porque assim todos os seres deste mundo, incluindo a Cristo, foram predestinados.”

Primeiro, não é intenção do autor demonstrar de que depende o “não pecar” de Cristo, se de uma predestinação ou da própria natureza dele (como se ambas se contradissessem!). A ideia de todo o silogismo é desmistificar o conceito arminiano de livre arbítrio libertário (poder de escolha contrária como sendo base da responsabilidade) partindo de um argumento Cristológico. 

O fato é que se, como dizem os arminianos, o poder de escolha contrária é uma condição necessária para a responsabilidade moral, então Cristo poderia ter pecado (tomando esse argumento como um exemplo, embora pudéssemos utilizar outros). No entanto, se Cristo NÃO PODERIA ter pecado, como tanto calvinistas como arminianos creem, então se segue que o poder de escolha contrária não é condição necessária para a responsabilidade moral. Mas se, como o Pr. Flavyo disse, a responsabilidade de Cristo está intrinsecamente ligada à sua natureza, então podemos aplicar a mesma ideia com os homens caídos, isto é, eles são responsáveis por fazerem coisas conforme sua própria natureza, e aqui não entramos nem no campo da causação propriamente dita. Basta dizer que não há espaço para livre arbítrio libertário aqui. Se existe uma base para uma responsabilidade moral, tal base não é a suposta liberdade como querem os arminianos. E isso responde ao que ele propõe em seguida ao dizer:

Ora, o fato de Cristo se abster de pecar não encontra pouso em uma predestinação, mas em sua liberdade. Por ser não escravo do pecado, como toda a humanidade caída e, portanto, sendo livre do pecado, podia se abster do pecado. O não pecar advém de sua própria natureza santa, do seu ser, de seu interior, de sua liberdade e não de uma força irresistível exterior, mas como fruto de sua liberdade, a mesma liberdade do pecado que deseja conceder a todos e que concede aos que crêem, isto é, a possibilidade de (pela Graça) resistir ao pecado. Jo 8.32-36.

Não há nem uma refutação aqui ao silogismo apresentado por Anderson. Ou seja, não há nenhuma justificativa em defesa do princípio das possibilidades alternativas. Ademais, é esperado que o nosso irmão apresente seus argumentos em favor do livre arbítrio libertário sem ferir os princípios elementares que regem o silogismo. Que o leitor tire suas conclusões.

Em seguida, Flávyo afirma:

É claro que Cristo era moralmente responsável, pois agiu em sua liberdade. O que o calvinista tenta supor é que se Cristo não podia pecar então, subentende-se que, ele não era livre e ainda assim moralmente responsável por seus atos.
Ora, tal pensamento faz com o pecado pareça uma brincadeira ou que se as tentações (que nos seduzem ao pecado) fossem mera ilusão e não uma investida, uma possibilidade. Como se Cristo, por uma determinação e não em razão de si mesmo, estivesse impedido de pecar.

Novamente não há nenhuma refutação aqui. Temos que ter em mente que o ponto aqui é se de fato o livre arbítrio libertário é uma condição sine qua non da responsabilidade moral. Ele falha mais uma vez em provar isso. Repetindo: partindo da ideia de que Cristo não poderia pecar, como de fato não podia, (e aqui não importa se isso é em virtude de predestinação ou seja lá o que for!), então o poder de escolha contrária não é condição da responsabilidade moral. Mas se esse tal livre arbítrio libertário é uma condição sine qua non da responsabilidade moral isso tem que ser demonstrado. Essa é a falha do Pr. Flávyo. 

Ele continua citando textos que comprovam que Cristo não poderia ter pecado mesmo em meio às tentações. Mas eu me pergunto qual a razão disso. Será que ele pensa que alguém duvida que Cristo não poderia ter pecado? Espero que não. Mais uma vez: nenhuma refutação até agora.

Ele acrescenta:

O não pecar não é fruto de pré-condição, mas de sua própria natureza. A possibilidade do pecado, mediante as tentações, estava sempre diante dele (enquanto homem-Deus), e como o leão, mesmo tendo fome e fragilizado em sua natureza humana, não contrariou sua natureza divina.” 

Pouco importa isso para o argumento, a questão ainda permanece sem ser respondida.

E por último:

Portando, dizemos nós, já está mais que demonstrado que o fato de Cristo não poder pecar não implica em uma negativa de possibilidades alternativas, pois no mínimo poderia escolher como (modo) não pecar. Falso, não é o princípio das possibilidades alternativas, mas o dilema levantado pelo teólogo predestinista.

Mais que demonstrado? Onde? Na verdade o autor só fez o que eu gostaria: provar que a responsabilidade moral não se baseia em um poder de escolha contrária (livre arbítrio libertário). Colocando de outra forma, PPA não é uma condição sine qua non da responsabilidade moral. De acordo com o próprio irmão, no mínimo, a condição para responsabilidade moral reside na própria natureza pecaminosa do homem (sem entrar aqui no campo da causação), não na sua suposta liberdade, livre arbítrio libertário ou seja lá o nome que queiram dar. Parece que ele nem percebeu!

Quanto às considerações a respeito dos concílios eu não comentarei nada por dois motivos: (1) Não vejo como isso atrapalha o objetivo do artigo de James Anderson; (2) Não contribui em nada na tentativa de refutar o artigo. 

Finalmente, temo que o nosso irmão não tenha compreendido o objetivo por trás do silogismo, a saber, provar que a responsabilidade moral não se baseia em liberdade libertária. Portanto, ao concluir que Cristo não poderia ter pecado, e ele é responsável por se abster de pecar, segue-se que o livre arbítrio libertário NÃO É CONDIÇÃO PARA A RESPONSABILIDADE MORAL. Em outras palavras, a ideia de que alguém só pode ser considerado responsável se ele puder fazer o contrário é FALSA. Eu poderia continuar citando alguns pontos contraditórios do nosso irmão, mas como eles nem ajudam e nem atrapalham o objetivo central do artigo, então eu opto por não me prolongar aqui. Logo, concluo dizendo que não houve refutação alguma contra o argumento elaborado por Anderson. 

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Fonte: Pelo Calvinismo
Divulgação: Bereianos
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A Bíblia ensina (ou pressupõe) o livre arbítrio libertário?

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Por Francisco Alison Silva Aquino


A fim de “preservar o caráter de Deus”, os arminianos acreditam que para isso, a única solução possível é a de que os homens, necessariamente, devem ter o que é chamado de livre arbítrio libertário. De acordo com Roger Olson, o livre arbítrio libertário (ou livre arbítrio não compatibilista) “é a livre agência que permite às pessoas fazerem o contrário do que fazem”[1]. É o que poderíamos chamar também de “poder de escolha contrária”. Olson nos dá um exemplo em sua obra para que possamos entender melhor o que isso significa. Vejamos:

“Por exemplo, uma pessoa pode escolher livremente entre pizza e macarrão para o jantar [presumindo que ambos estejam disponíveis], se a pessoa escolher macarrão, a escolha é livre no sentido não compatibilista de que a pizza também poderia ter sido escolhida. Nada determinou a escolha do macarrão, exceto a decisão da pessoa.” (p.27).

O mesmo autor aplica este conceito aos assuntos espirituais afirmando que este é um dom de Deus por meio da graça preveniente, isto é, a graça que capacita os primeiro indícios de uma boa vontade em relação a Deus.

Outra razão pela qual os arminianos creem que o livre arbítrio libertário é o único refúgio para resolver os problemas teológicos, é que somente tal conceito é compatível com a responsabilidade humana. Em outras palavras, alguém só pode ser considerado responsável por seus atos se ele puder escolher o contrário. Afirmar algo diferente seria injustiça! Dizem eles.

Vale salientar também que, segundo os proponentes deste conceito, negá-lo, é ir contra a nossa própria “intuição”, ou contra o nosso próprio sistema de leis, e que a ideia de um poder de escolha contrária é bastante “óbvia”. 

No entanto, tais afirmações nada mais são que estados subjetivos. Assim, um arminiano não pode provar a existência de um livre arbítrio meramente porque ele é “tão óbvio” como parece. O óbvio deve ser transformado em argumentos conclusivos antes que o ponto seja óbvio para outra pessoa.

Para não ficarmos presos no abstrato, vejamos apenas um exemplo bíblico que supostamente pressupõe o livre arbítrio libertário. Depois analisaremos outros textos que provam o contrário.

Talvez um dos mais usados (ou o mais usado) é o exemplo de Caim. A Bíblia diz: “Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? e por que está descaído o teu semblante? Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar.” (Gn 4.6-7).

Muitos afirmam que o caso de Caim é um exemplo nítido de livre arbítrio libertário. Estes dizem que é bastante óbvio que Caim poderia ter escolhido fazer o contrário. Por que eles afirmam isso? Simplesmente porque qualquer outra ideia que não esse poder de escolha contrária faria de Deus um ser ambíguo e não haveria como responsabilizar o homem uma vez que ele não podia fazer diferente. Mas nada disso é pressuposto aqui no texto. Em primeiro lugar, Deus de forma alguma estaria sendo ambíguo. Ele não está sendo incoerente senão falando uma verdade: “porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar.” Onde a Bíblia nos diz que o dever pressupõe o poder? Em nenhum lugar das escrituras, a responsabilidade pressupõe liberdade (ou livre arbítrio). Ademais, as escrituras sequer tratam da relação entre estes conceitos.

Agora, atentemos para uma passagem do novo testamento que contraria o conceito aqui tratado. É a passagem em que Pedro nega a Cristo por três vezes. Mas antes, permitam-me inquirir: Pedro foi responsabilizado (ou pode ser responsabilizado) ou não por ter negado a Cristo? Eu acredito que todos concordam que sim. A outra pergunta é: Pedro poderia não ter negado a Cristo? Isto é, ele poderia ter feito o contrário? Vejamos o texto:

Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que esta noite, antes que o galo cante três vezes me negarás. Respondeu-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de modo algum te negarei. E o mesmo disseram todos os discípulos.” (Mt 26.34)

Observem que Jesus enfaticamente afirma que Pedro, antes que o galo cantasse, o negaria por três vezes. O mais interessante é que o próprio Pedro diz: “de modo algum te negarei”. E o que aconteceu? A Bíblia prossegue o relato em Mateus 26.69-74 afirmando que Pedro realmente nega a Cristo por três vezes como Jesus havia dito. Finalmente, No v. 75 diz: “Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E saindo dali, chorou amargamente”.

Então, onde está o livre arbítrio libertário aqui? Em outras palavras, Pedro poderia ter feito diferente? Vimos que não. Afirmar o contrário faria do próprio Cristo um mentiroso (ou não-onisciente) uma vez que ele disse que Pedro o negaria e, é claro, ninguém se atreve a afirmar algo desse tipo. E a responsabilidade, onde fica? Para o calvinista não há nenhum problema em responder que ela permanece, esta pergunta fica para o arminiano que sustenta que alguém só pode ser responsabilizado por algo se ele puder fazer o contrário.

Vejamos II Pe 1.20: “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.” Todos nós sustentamos a inspiração bíblica, que a Bíblia é a palavra de Deus e que foi escrita por homens da parte de Deus. Pense um pouco agora: como poderia ter acontecido se esses escritores tivessem liberdade libertária? Se em vez de cada palavra, cada construção gramatical que eles escreveram eles pudessem ter escrito outra coisa e Deus não pudesse controlar o que eles escreveram? Se eles tivessem liberdade libertária e essa é a palavra de Deus, Deus deu muita sorte. Essa é a única conclusão que nós podemos chegar.

Poderíamos citar outros textos, mas estes são suficientes para mostrar a falácia do livre arbítrio libertário. Nesse sentido, podemos ver que tal conceito acarreta vários problemas teológicos, além de não ter respaldo bíblico.

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Nota:
[1] OLSON, Roger. Teologia arminiana: mitos e realidades. 1 ed. São Paulo: Reflexão, 2013.

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Fonte: Pelo Calvinismo
Imagem: A Negação de Pedro, por Caravaggio - 1610, atualmente no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. Layout adaptado ao blog Bereianos.
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