Expiação: universal ou limitada?

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Cristo não veio ao mundo e morreu na cruz para possibilitar a salvação dos homens e sim salvar os homens de seus pecados, sendo estes pecados o motivo de nossa destituição do Reino de Deus (Rm 3.10-12,23).


Não é difícil notar, no entanto, que as doutrinas humanistas não enxergam isso por pura dureza, porque nenhum ser humano consegue admitir que a sua "salvação depende exclusivamente da volição divina [de Deus] e não com suas próprias forças humanas". Se a salvação possui nossa participação, voltamos então para as heresias pelagianas e semi-pelagianas do Catolicismo Romano, isto é, da graça merecida, sendo que o dom de crer se torna uma "boa obra".

Cristo veio para salvar somente o seu povo, não encontro no texto de Mateus 1.21 a ideia de "possibilidade de salvação", o texto está "afirmando" um desígnio. E em Efésios 5.25,26, afirma que o próprio Cristo se entregou por sua noiva e verteu o seu sangue na cruz para salvá-la e redimi-la de seus pecados, para apresentá-la pura e imaculada. Portanto, o povo que Cristo veio salvar, este também que é conhecido como A noiva do Cordeiro, o Corpo de Cristo e Igreja, estes que compõem o "corpo", nada mais são do que aquelas pessoas que foram agraciadas com o dom da Fé para que possam crer, e isso não vem de nós mesmos, mas vem de Deus (Ef 2.8-10, cf At 13.48).

"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12,13)

Torno novamente a dizer que "Cristo não morreu para possibilitar a salvação para o mundo," e sim, para salvar pecadores ímpios dignos de condenação, para que tenhamos agora paz com Deus e que passemos a estar firmes na graça. Não é difícil entender isso, está na Bíblia, basta ter acesso a ela (Romanos 5.1,2,7-11).

Cristo não veio para aplacar os pecados do mundo, mas para aplacar os pecados dos eleitos (pessoas de várias etnias, raças, tribos e nações) para que, em tempo oportuno, viessem a crer; o oposto da fé é a incredulidade, e se o sangue de Cristo serve para aplacar a ira de Deus contra o ímpio, por que ainda se prega o Evangelho, sendo que Cristo morreu por todo o mundo e, muitos não creem? Se Cristo levou sobre si os nossos pecados, e segundo os sinergistas "os pecados do mundo", sendo que também a incredulidade é um pecado, por que ninguém é salvo? 

Não consigo ver consistência nas doutrinas humanistas do "Livre-Arbítrio" sinérgico quando comparo tal declaração de "possibilidade salvífica ao mundo" a um pecado chamado incredulidade. Analisando Isaías 53.4-7, não consigo cogitar uma doutrina que faz caso do "Livre-arbítrio" humano, mas não toleram a liberdade de Deus quando quer escolher pecadores para serem salvos. Mas espere: ao tratar de salvação, o homem possui Livre-arbítrio e Deus “não”? E se o homem e Deus possuem o atributo de Livre-arbítrio (um juízo de escolha 100% livre de qualquer ação, influência e inclinação de outro agente externo) por que há a diferença de Deus, anjos e homens, criaturas, Reino Celestial e inferno? O Livre-arbítrio não deve ser respeitado quando homens não querem ser salvos e, quando os mesmos, mesmo na incredulidade, não querem ir ao inferno? Se há Livre-arbítrio, ele deve ser considerado em seu todo, se não seria prática de barganhas e infidelidades, uma dualidade divina inescrupulosa!

Portanto, fico com esta afirmativa; que Deus em seu amor e misericórdia, de seu bel prazer e soberana vontade, resolveu salvar pecadores e justifica-los em seu filho Cristo Jesus, e pecadores foram preteridos para o Juízo. Esse ato é a realização da misericórdia de Deus em seu infinito amor e, a execução do ato da justiça e a merecida punição do culpado. Não vejo acepção quando o mesmo Deus salva e condena "pecadores iníquos de mesma proporção".

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Autor: Klarystone P. Leal
Divulgação: Bereianos
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A essência singular da fé - 1/2

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Tendo visto o objeto da fé, partamos agora em direção à forma ou à essência singular e natureza da fé. A essência de algo é aquilo que faz com que este algo seja o que é. A essência de uma coisa a identifica e a distingue de todas as demais coisas. Uma coisa pode possuir apenas uma única essência. Logo, se há duas essências, há também duas coisas. Portanto, de semelhante modo, a fé possui uma essência que lhe é exclusiva.

Neste ponto, devemos notar em que consiste (e também em que não consiste) a natureza essencial da fé.

Em primeiro lugar, a fé não consiste em amor, que é aquilo que os papistas e os arminianos afirmam. O amor não é a essência da fé, pois 1) fé e amor são duas virtudes distintas: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor” (1Co 13:13). É demasiado óbvio que uma virtude não pode ser a essência de uma outra. 2) O amor é o fruto da fé. Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5:6). A fé, portanto, não extrai sua eficácia do amor, antes, a fé é eficaz para a operação do amor, assim como a prática de toda virtude por meio do amor. Atentem também para o ímpeto da palavra ἐνεργέω (energeo) (cf. Rm 7:5; Cl 1:29). O resultado de algo não pode ser sua essência.

Em segundo lugar, a fé não consiste na obediência e observância dos mandamentos de Deus, que é algo que as partes supramencionadas afirmam. Pois a fé se distingue expressamente das obras (1Co 13:13). E também: Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1Tm 1:5). Sim, na questão da justificação, as obras e a fé são contrastadas. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3:28). Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras” (Tg 2:18).

A fé verdadeira é a fonte das boas obras. Estas são frutos e característica da fé, tornando-se evidente, portanto, que onde as boas obras estão ausentes, também a fé verdadeira está ausente. “Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2:26). Certamente o corpo está morto, caso a respiração tenha cessado. Semelhantemente, tal fé está morta, isto é, a verdadeira fé não está presente quando ela não se manifesta.

Mesmo se sustentarmos que o amor e a observância dos mandamentos não são a forma ou natureza essencial da fé, longe esteja de nós sustentar que a fé pode existir sem o amor. Quando um homem torna-se um crente, ele não apenas recebe iluminação aos olhos do entendimento e em certo grau se torna familiarizado com o Mediador e os benefícios da aliança, mas também se torna, desse modo, amorosamente cativo. O crente se regozija no fato de que há salvação, perdão de pecados e um Espírito que o santifica. Ele se regozija no fato de que há um Cristo e que Ele lhe é oferecido. Ele tem amor pela verdade (2 Ts 2:10). Tendo agora recebido e tendo sido unido a Cristo pela fé, seu amor para com Deus e Cristo é inflamado, e com toda sua disposição ele deseja ser obediente. Nós amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4:19).

Em terceiro lugar, a essência mesma da fé não consiste em confiar que Cristo é meu Salvador, uma vez que:

(1) Cristo não morreu por todos os homens. Todo indivíduo precisaria, portanto, de fundamentos sólidos a partir dos quais seria capaz de concluir que Cristo morreu por ele e é, pois, seu Salvador.

(2) Deus de fato ordenou que todos que ouvissem Sua palavra cressem, mas Ele não ordenou que todos cressem que Cristo é seu Salvador. Não há um único texto na Bíblia para apoiar isso, de maneira que é simples imaginação afirmar que todos devem crer que Cristo é seu Salvador. Se assim fosse, ele creria numa mentira e iria para o inferno ao aderir a tal ilusão.

(3) Crer que Cristo é meu Salvador pertence à certeza, que é um fruto da fé, o qual pode variar em grau e pode, pois, estar inteiramente ausente. Portanto, a fé verdadeira permanece, e aquele que a possui permanece um verdadeiro crente.

(4) Vários indivíduos que creram temporariamente estão plenamente seguros de si mesmos e não possuem a menor dúvida de que Cristo é seu Salvador e morreu por eles. Eles, todavia, não possuem fé verdadeira e irão se encontrar em engano. Segue, pois, que a fé verdadeira não consiste em confiar que Cristo morreu por mim.

Em quarto lugar, a essência da fé não consiste em desejar ter Jesus como Salvador. Desejar, ou se dispor, pode ser considerado como um ato interno. Uma pessoa percebe a verdade, a necessidade e a excelência de ter Jesus como seu Salvador, e assim deseja tê-Lo como tal. Esse desejo interno incide no objeto em si, mas não nas circunstâncias concomitantes – tais como a necessidade de se abandonar a vida mundana, de buscar Cristo em verdade (agindo assim frequentemente), de entrar verdadeiramente em aliança com Cristo, encontrando somente n'Ele seu deleite. Também é necessário ao crente tomar o mundo como seu inimigo, testemunhando e batalhando contra ele, e estar disposto, por amor a Cristo, a suportar toda pobreza, nudez, perseguições e zombaria. Isto, contudo, não condiz com tais pessoas, e, portanto, eles abandonam por aquilo que Ele é, cedendo, portanto, às suas concupiscências. Destarte, o desejo deles nada mais é do que o desejo de Balaão: Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o dele” (Nm 23:10).

Tal desejo pode ser também de uma natureza extrovertida, isto é, o ser que se expande em direção a Cristo, por meio do qual determinada pessoa demonstra ao Senhor Jesus seu desejo vertical por Ele e Seus benefícios, com o esquecimento de tudo o mais. Uma vez que seu coração não o condena, isso lhe dá liberdade para ir a Cristo e recebe-Lo pela fé como seu Salvador. Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22:17). Desse modo, visto que o desejo não precede o exercício da fé, na medida em que se considera a natureza da questão, embora onde quer que exista um desejo tão expansivo, existe também a verdadeira fé.

Em quinto lugar, a essência da fé não consiste num assentimento da verdade do Evangelho. Uma pessoa pode ter uma compreensão bastante clara de todos os mistérios da fé, na medida em que diz respeito tanto às suas verdades quanto à sua excelência. Deixemo-lo aquiescer com plena confiança a essas verdades como verdades, bem como à excelência delas – mesmo isto não é verdadeira fé. De fato, é verdade que os crentes também possuem conhecimento e assentimento, contudo, não podem se apoiar nisso. Eles sabem e têm experiência que esses elementos não os levam a se tornar participantes de Cristo, e, portanto, eles vão além e se apropriam de Cristo. Eles se apoiam n'Ele, confiando seus corpos e almas a Cristo, para que Ele possa justificá-los, etc. Portanto, se um homem não possui nada mais do que o conhecimento e assentimento, ele pode estar certo de que possui meramente a fé histórica ou temporal. Porém, se um indivíduo percebe dentro de si mesmo o exercício real da confiança em Cristo, considerando-a como um fruto de seu assentimento (tomando-o como o ato essencial da fé), ele de fato possui a verdadeira fé. Contudo, ele está equivocado ao considerar que o conhecimento é a natureza essencial da fé. Ilustraremos isto mais adiante na questão que se segue. A essência singular ou forma da fé não consiste, pois, nessas seis questões supramencionadas. Devemos, portanto, considerar agora em que consiste o ato singular e essencial da fé.

Questão: O ato essencial da fé consiste em assentir às verdades divinas e às promessas do Evangelho, ou, antes, consiste numa confiança sincera em Cristo para ser justificado, santificado e conduzido, por Ele, à felicidade?

Resposta: Antes de respondermos, queremos afirmar que:

(1) Não entendemos esse confiar em Cristo como equivalente à certeza – a convicção de que se é pessoalmente um participante de Cristo e todas Suas promessas, ou a paz e quietude resultantes dentro da alma, pois todas estas são frutos da fé, que são mais evidentes em um, e menos em outro. Pelo contrário, entendemos por confiar o ato expansivo [dinâmico] do coração por meio do qual o homem, ao se render e receber a Cristo, Lhe confia corpo e alma, a fim de que Ele possa salvá-lo. Podemos compará-lo a um credor que confia seu dinheiro a alguém, dando-o. De semelhante modo, podemos também compará-lo a alguém que, colocando-se sobre os ombros de um homem robusto a fim de ser carregado através de um rio, confia nele, inclinando-se e fiando-se nele, permitindo-se, desse modo, ser conduzido ao local designado.

(2) Afirmamos que um conhecimento das verdades do Evangelho e o assentimento às mesmas são os pré-requisitos necessários para tal confiança. Sustentamos, ainda, que, posteriormente, a fé também se foca continuamente sobre e é ativada pelas promessas.

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Autor: Wilhelmus à Brakel
Fonte: The Christian's Reasonable Service
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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Por quem Cristo intercede?

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Na própria obra de nossa salvação, há duas ações que Cristo fez. (Não me refiro ao plano eterno que torna possível nossa salvação, mas apenas na sua produção em tempos históricos). Estes dois atos históricos de Cristo, são:

1. Sua entrega voluntária, no passado, 
2. Sua intercessão por nós, agora.

Na entrega que Cristo fez de Si mesmo, incluo Sua prontidão para sofrer tudo o que estava envolvido em Sua vinda para morrer, isto é, o esvaziar-Se de Sua própria glória, e o nascer de uma mulher, Seus atos de humildade e obediência à vontade do Pai através de toda a Sua vida, e, finalmente, Sua morte na cruz.

E na intercessão de Cristo por nós, incluo também Sua ressurreição e ascensão, pois são a base de Sua intercessão. Sem elas, não poderia haver intercessão.

Veremos estas duas coisas em maiores detalhes depois, mas quero fazer alguns comentários agora. Estes dois atos têm a mesma intenção. Sua entrega voluntária e intercessão destinam-se a "trazer muitos filhos à glória." (Hebreus 2:10). Os benefícios intencionados por estes dois atos destinam-se às mesmas pessoas; Ele ora em favor daqueles por quem morreu. (João 17:9). Sabemos que Sua intercessão deve ser bem sucedida - "Pai, graças te dou, por me haveres ouvido", disse Ele certa vez. (João 11:41). Segue-se, então, que todos por quem Ele morreu necessariamente receberão todas as boas coisas obtidas através daquela morte. Isso claramente destrói o ensino de que Cristo morreu por todos os homens!

A entrega voluntária de Cristo e Sua intercessão são o único meio para realizar nossa redenção.

É importante verificar, nas Escrituras, como a entrega voluntária de Cristo e Sua intercessão estão ligadas intimamente. Por exemplo:

"Cristo justifica aqueles cujas iniquidades (ou pecados) Ele carregou(lsaías 53:11).
"Cristo intercede por aqueles cujos pecados Ele carregou(lsaías 53:12).
"Cristo ressuscitou dos mortos para justificar aqueles pelos quais Ele morreu(Romanos 4:25).

Cristo morreu pelos eleitos de Deus e agora ora por eles (Romanos 8:33-34). Isso deixa claro que Cristo não pode ter morrido por todos os homens, pois se tivesse, então todos os homens seriam justificados, o que, sem dúvida alguma, não acontece.

Sacrificar e orar são tarefas requeridas de um sacerdote. Se ele falhar em qualquer uma delas, terá falhado na qualidade de sacerdote de Seu povo. Jesus Cristo é mencionado tanto como nossa propiciação (sacrifício) quanto como nosso advogado (representante) (1João 2:1-2). Ele é mencionado tanto como oferecendo Seu sangue (Hebreus 9:11-14), quanto como intercedendo por nós (Hebreus 7:25). Posto que é um sacerdote fiel, Ele precisa realizar estas duas tarefas com perfeição. Visto que Suas orações são sempre ouvidas, Ele não pode estar intercedendo por todos os homens, porquanto nem todos os homens são salvos. Isso deixa claro que Ele também não pode ter morrido por todos os homens.

Devemos também nos lembrar da maneira como Cristo agora intercede por nós. As Escrituras dizem que é pela apresentação de Seu sangue no céu (Hebreus 9: 11-12, 24). Em outras palavras, Ele intercede apresentando Seus sofrimentos ao Pai. Os dois atos, sofrimento e intercessão, devem, portanto, estar relacionados à mesma pessoa, caso contrário, não adiantaria usar um como base para o outro.

O próprio Cristo associa Sua morte e Sua intercessão como o único meio para nossa redenção, em Sua oração no capítulo 17 de João. ( "Não oro pelo mundo, mas por aqueles...") Nessa oração, Ele Se refere à entrega de Si mesmo na morte, e Sua oração é por aqueles que o Pai havia dado a Ele. Não podemos separar estes dois atos, se o próprio Cristo os une. Um sem outro não teria valor, como Paulo argumenta: "E, se Cristo não ressuscitou (e portanto não está intercedendo agora), é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados." (1 Coríntios 15:17).

Portanto, se separarmos a morte de Cristo de Sua intercessão, não há segurança de salvação para nós. De que valeria dizer que Cristo morreu por mim, no passado, se Ele agora não intercede por mim? E somente se Ele nos justifica agora que somos salvos da condenação de nossos pecados. Eu ainda poderia estar condenado se Cristo não intercedesse por mim. É claro que Sua intercessão deve ser em favor das mesmas pessoas pelas quais Ele morreu - e, sendo assim, Ele não pode ter morrido por todos!

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Autor: John Owen
Fonte: The Death of Death in the Death of Christ. John Owen - 1647
Tradução: Versão em português do livro, traduzido pela Editora PES, disponível aqui! Se preferir, leia em PDF, aqui!
Divulgação: Bereianos
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Deus odeia os pecadores!

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"Deus odeia o pecado mas ama o pecador" é um jargão evangélico muito difundido que encontra terreno fértil até mesmo entre os reformados. Entretanto, a despeito de sua popularidade, passa longe da verdade bíblica. Minha oração é que este brevíssimo texto traga luz ao problema e iniba a perpetuação desta inverdade perniciosa.

Para início da discussão, a Bíblia NUNCA separa o pecador dos seus pecados. Para Deus, o pecado não é um "conceito", uma "abstração teórica" satélite ao homem, mas são atos, intenções e pensamentos cometidos por pessoas reais, e a elas associados. O pecado não é uma palavra em um dicionário, mas uma deformidade no caráter do homem, sendo, assim, indissoluvelmente conectado a pecadores. O Rev. Solano Portela, em um artigo bastante elucidativo, análogo e anterior ao meu, diz:

"[...] é impossível separar o pecado do pecador, como se o pecado fosse uma entidade com vida independente, que apenas se utiliza do corpo e da mente do praticante" [1].

Solano está certo.

Outrossim, se fosse verdade que Deus odeia o pecado enquanto ama pecadores, estes não iriam para o inferno. Antes, Deus condenaria ao inferno o "conceito" do pecado, ou: Deus empregaria uma substância amorfa e abstrata, a chamaria de "pecado" e a enviaria ao inferno na consumação dos tempos. Contudo, sabemos que não é assim que acontece. Com efeito, Deus envia PESSOAS, ao inferno. O Senhor condena PECADORES - e não o "pecado"! - ao inferno. Óbvio como parece, Deus procede assim porque odeia pecadores, e o remanescente de Deus só é salvo porque O apraz atribuir os seus pecados a Cristo.

Aliás, isso nos leva a um importante argumento cristológico. Quem morreu de forma expiatória e vergonhosa como sacrifício aceitável a Deus não foi um conceito, mas uma pessoa. Cristo assumiu o pecado dos eleitos e morreu por eles, vicariamente. A própria encarnação de Cristo está ligada à sua identificação com aquilo para o que apontava a ira condenatória de Deus. Se Cristo veio como homem (1Tm 2.5) é porque os homens - os seres humanos - são os destinatários da terrível e justa ira divina. A Bíblia diz que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5.8). Cristo não morreu por uma ideia, Ele morreu por PESSOAS, já que os pecados delas não estão separados delas.

Além disso, a Bíblia cristaliza, logo adiante, ainda em Romanos:

"Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rom 5:9-10).

Deus está irado com PESSOAS, e não com uma ideia, com uma abstração. Este texto diz que nós, antes de termos os benefícios da obra de Cristo aplicados a nós, éramos inimigos de Deus. Inimigos! E diz ainda que fomos reconciliados. Ora, a reconciliação pressupõe uma condenação, e, seguindo a leitura deste pequeno versículo constatamos que o que foi condenado por Deus não se trata de um conceito, mas de pessoas. É evidente que Deus tem algo muito pessoal contra pecadores e que sua ira é direcionada a eles. Os homens em si mesmos, e não uma abstração intitulada "pecado", são alvos da ira divina. Se Deus odiasse um conceito chamado "pecado", o Filho de Deus não viria na forma de homem, mas na "forma" de tal conceito. Não sei como isso se pareceria...

Repare ainda que o verso diz que nós fomos reconciliados pela morte do Filho. Portanto, não se engane! O fato de que Deus "odeia o pecado mas ama pecadores" não foi verdadeiro sequer com o Unigênito do Pai, tampouco o será com seus filhos adotivos. Deus odiou a Cristo no último momento de Sua humilhação (Mt 27.46; 1Jo 4.10).

Por fim, concluo dizendo que a doutrina do ódio de Deus por pecadores não resulta apenas de uma inevitabilidade teológica - que, per se, já seria uma evidência inequívoca e fatalmente bíblica deste ensino - , mas encontra respaldo textual claro, translúcido, facilmente disponível a qualquer regenerado que aborde a Bíblia com sinceridade.

O Salmo 11.5 diz:

"O Senhor prova o justo; porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma".

E Paulo, aos Romanos, argumenta:

"Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. [...] E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" (Rom 9:13-15,22).

Ambos os textos não poderiam ser mais claros: Deus odeia pecadores. Odeia ao ponto de condená-los ao inferno por toda a eternidade. Não é a ideia "pecado" com a qual Deus está irado, mas com os próprios pecadores, que O desafiam na sua rebeldia.

Destarte, devemos evitar a propagação de jargões populares que, embora algumas vezes possam ser bem intencionados, corrompem a preciosa verdade divina e pulverizam equívocos doutrinários corrosivos. Deus não ama o pecador enquanto odeia o pecado. Deus ama aqueles por quem Cristo morreu. E aqueles por quem Cristo não morreu, estes não têm o seu nome escrito no livro da vida (Ap 20.15).

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Notas:
1. PORTELA, Solano. Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador! É isso mesmo?. O Tempora o Moraes. Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2009/10/deus-odeia-o-pecado-mas-ama-o-pecador-e.html. Acesso em: 10 out. 2015.

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Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
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Pagando a dívida, e ainda devedor (comentário a Gl 2:20)

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Gálatas 2.20 é um versículo precioso, poderia dizer, inigualável. Não somente porque foi o versículo da minha conversão [que descrevi no texto O dia em que Cristo me fez], mas porque, de uma forma singular, poder-se-ia resumir a vida cristã ou, ao menos, descrevê-la plenamente. É também o alvo, o de um dia poder dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. São palavras que me acalentam, me dominam, me compungem a encontrar-me nelas. Poderia ser a epígrafe cravada na minha sepultura, porém, muito mais a quero gravada em meu coração. O resumo de tudo o que almejo e quero experimentar. Mais do que isso, ser. E desde aquele momento, decorei-as, como se decora a melodia da mais bela entre todas as canções. Como se ouvisse a sinfonia perfeita, inefável, a síntese do mais puro e santo sentido, ainda que com palavras indizíveis em sua verdade absoluta e extraordinária. Como se estivesse a construir algo que sei impossível, por mim mesmo, construir. De certa forma, invejo a Paulo por ter sido ele e não eu a proferi-las; mas creio que saídas de sua boca, elas têm o som da minha voz, o som da sua voz, o som da voz de todos os santos, daqueles que são um em Cristo, e por ele vivem.
     
Mas, o que levou o apóstolo a proferi-las?
    
A mensagem central de Gálatas é a disputa: Lei x Evangelho. Em vários momentos, parece haver o desprezo de Paulo pela lei, como se fosse descartável e não existisse mais nenhum sentido nela. Mas esse não é o caso. Em outra carta, ele diz: E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” [Rm 7.12]. E, ainda: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei” [Rm 3.31].
    
O que está em disputa entre Paulo e os judaizantes é a lei como instrumento de salvação. Eles pregavam contra o Evangelho, ao afirmar que era necessário se cumprir toda a lei para salvar-se. Por isso, o apóstolo diz: “Se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” [ 2.21]. Ora, se para ser salvo o crente deveria cumprir toda a lei, qual a razão de Cristo encarnar, padecer, e morrer na cruz? Por isso o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo [2.16]. Desta forma, Paulo constrói a defesa do Evangelho da Graça, sem que haja nenhum tom antinominiano [1] em seu discurso, pelo contrário: “É porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” [2.18].

Se Cristo pagou na cruz a dívida que tínhamos para com Deus, e se está paga, definitivamente paga, o que mais podemos fazer que Ele não fez? Fico a imaginar Paulo rindo-se da tolice desses homens, mas entristecendo-se pelo caráter sutil e maligno de distorcerem a fé a fim de enganar incautos, e anular a graça. Cristo, ao destruir o pecado e seu caráter condenatório sobre os eleitos, não poderia restituí-lo novamente, ao ponto em que seria exigido o cumprimento da lei para a salvação. Se a justiça foi decretada na cruz para os que creem, se o pecado foi morto, ressuscitá-lo significaria dizer, entre outras coisas, que a obra do Senhor não foi eficaz, e de que, loucamente, ao trazer a justiça, trouxe a injustiça.

O apóstolo está a condenar aqueles que anteriormente pregavam o Evangelho da graça, para agora viver pela lei, tornando-os em transgressores, porque quem não está morto para a lei, vive para ela, ou seja, vive para a morte, pois pela lei ninguém pode ser justificado perante Deus [3.11], antes está debaixo da maldição da lei. Ao contrário, quem está morto para a lei, vive para Deus, eternamente. Paulo ensina a teologia correta, a doutrina correta, mas muito mais do que isso.

• Ele disse que estava morto para a lei.
• Que estava crucificado com Cristo.
• Que vivia, não mais ele, mas Cristo.
• Que Cristo o amou, e se entregou a si mesmo por ele.

Então, o que levou o apóstolo a proferir o verso 2.20?

A consciência de tudo isso acima, mas, sobretudo, reconhecer que, sem Cristo, nada disso seria possível. Nem mesmo ele, Paulo, seria possível. De uma forma maravilhosa, Paulo reconhecia a completa dependência do Senhor, e a obra fantástica que fez para que ele pudesse reconhecer-se em Cristo. Sem ele, o que seria Paulo? Sem Cristo, o que seria eu? Você? Não haveria esperança, não haveria o perdão, nem a salvação. Apenas a tristeza assoladora de que a condenação era questão de tempo, irremediável, uma maldição a pairar sobre nossas cabeças eternamente. E se eu, antes condenado, agora salvo pelo poder de Deus, o que quereria exaltar em mim mesmo para voltar à destruição? Ou seria possível exaltar-me na ruína? Ou antes, ser um dia como Cristo é? Pois se olharmos para nós, como somos, sem Cristo, não haverá nada além de condenados sem que seja preciso esperar o castigo, pois estamos já a “curtir”, sobre nós, a ira de Deus. Se olhar para mim, descobrirei apenas que sou miserável, e nu, e cego. Se olhar, e apenas me ver, há um pecador naufragando em pecados. Se sou o futuro, não há futuro; apenas o passado de morte, de sofrimento e angústia. Ao contrário, se vejo Cristo em mim, assim como Paulo o via em si, as coisas mudam de figura. Já não sou mais um condenado, antes justificado. De pecador, a santo. De maldito, a bendito. De desgraçado e vil, a agraciado e amado.

A teologia de Paulo [2] estava certa. Ela lhe trouxe esperança, certeza, convicção. E abriu-lhe os olhos para a mais surpreendente e inesperada verdade, de que ele já não era mais ele, mas Cristo a viver nele. E trazia no seu corpo as marcas do Senhor [6.17], marcas profundas que não o impediam de se ver como era, de reconhecer o que era, de gloriar-se nas fraquezas para que o poder do Senhor em si habitasse [1Co 12.9]. Porém, antes era necessário que compreendesse e conhecesse isso, para depois sentir; pois, como sentir o que não se conhece ou não compreende? Como alguém desejará o que não conhece?

Como qualquer homem, ele tinha de nascer, crescer e amadurecer na fé. Mas ninguém nasce por si mesmo; era necessário que fosse gerado por Cristo; que o sangue do Senhor não somente o limpasse dos pecados, mas corresse em suas veias e bombeasse no seu coração a vida. A vida que somente o Senhor poderia dar, e deu, a despeito de todo o desejo de nos apossar dela como se fosse nossa por direito, e não por dádiva, misericordiosa, e graciosamente entregue pelo amor com que Deus nos amou. O caminho nos é mostrado, mas não há nada que nos faça andar nele, se não nos for revelado. Quem não pode ver, como saberá onde andar?

O certo é que, como João o Batista disse, era necessário que ele diminuísse e Cristo crescesse [Jo 3.30].

E assim será para todos os que foram crucificados e mortos com Cristo.

Se ele não viver em nós, a morte viverá.

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Notas: 
[1] Antinomianismo significa “antilei”. É o oposto de legalismo, e como ele, uma heresia. Para os defensores do antinomianismo, o crente não tem de obedecer à lei de Deus, pois Cristo à pregou na cruz. E se a pregou na cruz, está-se livre para viver como quiser, inclusive pecando o quanto quiser; ao ponto de até mesmo distorcerem o sentido de graça, ao afirmar que, quanto mais se peca, mais a graça se manifesta.
[2] Paulo, ao defender magistralmente o Evangelho da graça, afirmando a justificação somente pela fé no sangue derramado de Cristo na cruz, defende também a sua autoridade e ministério contra os falsos-mestres, os detratores que buscavam difamá-lo e desqualificá-lo como apóstolo. E nada mais verdadeiro do que reafirmar que estava morto para si, para viver para Cristo, enquanto aqueles queriam viver por si mesmos.
- Aguçado pela conversa com uma querida irmã, lembrei-me que devia um texto sobre Gl 2.20. E, por mais que escreva, sempre serei devedor a Deus por tê-lo dado a mim.
- Não entrei muito na questão da impossibilidade da lei como meio de salvação, a qual farei brevemente em outro texto.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: 
Kálamos

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Por quem Cristo morreu?

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Neste vídeo, o Rev. Dorisvan Cunha expõe um dos pontos mais controvertidos da Teologia Reformada; a extensão da expiação de Cristo. A pergunta é: por quem Cristo morreu? Ele morreu por toda a humanidade ou Ele morreu apenas pelos pecados do Seu povo?


Assista:



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Fonte: Guerra Pela Verdade
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Resposta ao Pr. Silas Daniel - Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão

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Por Franklin Ferreira


Silas Daniel respondeu à minha avaliação de seu texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68) em três longos textos, publicados no site da CPAD. Tratarei de todos eles nesta postagem.

INTRODUÇÃO

Palavras têm significado. Portanto, há que se fazer uma diferença entre semipelagianismo e semiagostinianismo: o primeiro ensina que a graça de Deus e a vontade do homem trabalham juntas na salvação, e o homem deve tomar a iniciativa; a fé e o arrependimento são obras humanas, sendo consideradas pré-requisitos para se receber o Espírito. O segundo ensina que a graça de Deus se estende a todos, capacitando uma pessoa a escolher e a fazer o necessário para a salvação; a fé e o arrependimento são dons do Espírito. Esta diferença não pode ser subestimada. Ainda que o termo “semipelagianismo” tenha sido cunhado pelos luteranos no século XVI, e usado na Epítome da Fórmula de Concórdia, para, retrospectivamente, rotular a teologia associada à João Cassiano (conhecida como massilianismo, mas que também tem sido chamada pelos católicos de semipelagiana). 

Já “molinismo” é a noção ensinada pelo jesuíta Luis de Molina, no século XVI. Esta posição foi uma ruptura não só com os ensinos de Agostinho e Aquino sobre a predestinação, mas também com os de Armínio (na medida em que o molinismo defende que Deus sabe que, se certa pessoa for colocada em uma situação particular, ela não irá resistir à graça). O autor busca respaldo no molinista, ainda que se identifique como arminiano. Para tentar responder à questão “quem criou o que Deus previu?”, ele apela à ideia do “conhecimento divino do futuro contingente condicional” (a scientia media, ideia elaborada por de Molina), que supostamente teria respaldo bíblico (ele cita apenas um texto-prova em apoio a esta ideia). O molinismo tem sido popularizado atualmente por William Lane Craig e Alvin Plantinga. No site Bereianos há farto material refutando o molinismo (escritos por Joseph Nally, James Anderson, John Frame, Herman Bavinck, Matthew McMahon, Paul Helm e François Turretini). E na Teologia Sistemática que escrevi com Alan Myatt há seções tratando criticamente esta posição.

De toda forma, a teologia católica tem rejeitado o ensino associado com o semipelaginismo (ou massilianismo) como herético, desde o Sínodo de Orange, de 529 (Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, 374):

“Cân. 4. Se alguém professa que, para sermos purificados do pecado, Deus aguardou a nossa vontade, não porém que também o querer ser purificados se dá em nós mediante a inspiração e a obra do Espírito Santo, este tal se opõe ao mesmo Espírito Santo, que diz por meio de Salomão: ‘A vontade é preparada pelo Senhor [Pv 8.35 septg.], e ao Apóstolo, que salutarmente anuncia: ‘É Deus que opera em vós tanto o querer como o realizar segundo seu beneplácito’ [cf. Fp 2.13]”.

Silas reconhece que errou em seu estudo da soteriologia dos teólogos medievais. Ele havia, confiantemente, escrito em seu artigo publicado na revista Obreiro Aprovado que “o que prevaleceu na Igreja, desde o século 6 em diante, foi uma soteriologia que aceitava a Depravação Total, mas negava o conceito de predestinação”. Agora, nas postagens mais recentes, escreve, corrigindo-se, que “houve um excesso (...) [de sua] parte ao desprezar 100% de todo e qualquer vestígio da compreensão agostiniana em relação à mecânica da Salvação durante a Idade Média”. Tratarei do uso da história por parte de Silas neste texto, mas me causa desconforto o uso recorrente da expressão “mecânica da salvação”, o que, me parece, remete o debate à posição católica popular (como conectada ao recebimento mecânico da graça pelos sacramentos, numa distorção daquilo que o catolicismo denomina de ex opere operato) ou evangélica popular (como relacionada à “aceitação” de Cristo diante do apelo, que assegura aquele que “se decidiu” a salvação, conforme sistema popularizado pelo pelagiano Charles Finney), o que empobrece a linguagem do debate. 

1. SOTERIOLOGIA AGOSTINIANA NA IDADE MÉDIA

Parece óbvio escrever isso, mas nenhum especialista em história do pensamento cristão afirmou que há plena concordância entre os teólogos medievais que citei e as formulações de Agostinho, o “Doutor da Graça”, como parece ter entendido o autor. Mas não há como notar que há sim algum tipo de continuidade entre as formulações de Agostinho e dos teólogos medievais que citei anteriormente: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino, além de Jan Hus e John Wycliffe. Mesmo quanto ao conceito do livre-arbítrio há diferenças de definição entre estes autores (e não só entre eles, mas entre Martinho Lutero, João Calvino e Jonathan Edwards. cf. R. C. Sproul, Sola Gratia). No afã de provar que os autores antigos não eram “calvinistas” (ou, pelo menos, eram mais próximos do “arminianismo”), o autor perdeu de vista o que afirmei em meu primeiro texto, quando lembrei que há diferenças significativas entre os teólogos cristãos, uma constatação que deveria ser óbvia para qualquer um familiarizado com fontes primárias. “Um bom ponto de partida para tratar de temas teológicos controversos é começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições professadas, e não com as posições de teólogos, por mais importantes que estes sejam”. Em outras palavras, o que determina o que tal tradição crê (no caso, a tradição católica, reformada, luterana, batista, etc.) são seus documentos confessionais, não a posição de seus teólogos, mesmo dos mais representativos – pois este recurso, via de regra, se vale da falácia do argumento da autoridade (ad verecundiam) e também suscita a pergunta: por que recorrer a teólogo tal, quando se pode citar outro teólogo?

Usando a data da queda do Império Romano do Ocidente, que a historiografia tradicional emprega para marcar o fim da Antiguidade clássica, o autor rejeita Próspero de Aquitânia como um escritor medieval, desconsiderando o fato de que, intelectualmente, pode-se citar as origens do pensamento medieval cristão em Agostinho de Hipona, o “mestre do ocidente” (Philotheus Boehner e Etienne Gilson, História da filosofia cristã) – por exemplo, Jacques LeGoff situa Agostinho num primeiro período do medievo, que “balança da Antiguidade Tardia e a alta Idade Média” (cf. Homens e mulheres da Idade Média; cf. também A. S. McGrade (org.), Filosofia medieval; Josep-Ignasi Saranyana, La filosofía medieval: desde sus orígenes patrísticos hasta la escolástica barroca; Etienne Gilson, A filosofia na Idade Média; D. W. Hamlyn, História da filosofia ocidental, etc.). Ao tratar da rejeição da heresia pelagiana no Sínodo de Cartago, em 418, M. Pohlenz afirmou: “O fato de a Igreja ter-se pronunciado por tal doutrina [da necessidade da graça] assinalou o fim da ética pagã e de toda a filosofia helênica – e assim começou a Idade Média” (cf. Giovanni Reale & Dario Antiseri, História da filosofia. v. 2). 

De qualquer forma, há algumas afirmações questionáveis por parte do autor sobre os teólogos citados. Sobre Próspero, supondo haver ocorrido uma mudança em sua posição (várias citações deste autor podem ser encontradas em Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 1) – Próspero, após abandonar a Gália, onde contendia com os discípulos de Cassiano, se tornou secretário de Leão I, sendo influente na composição do Tomo a Flaviano, fundamental na preparação da Definição de Calcedônia (cf. Philip Jenkins, Guerras santas). E os cânones do Sínodo de Orange foram baseados em uma coletânea de textos de Agostinho (chamadas Sententiae) “recolhidas em Roma pela metade do século V por Próspero de Aquitânia” (cf. Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, p. 139). Pode-se citar neste contexto, outro importante agostiniano, Isidoro de Sevilha, considerado o último grande Pai latino, que defendeu as posições agostinianas sobre predestinação e graça em sua obra Etymologie (livro VII) – e foi ele, mais do que Agostinho (que tratou mais da predestinação para a vida eterna, do que à condenação eterna), que formulou a doutrina da predestinação dupla (Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 3).

Sobre Anselmo e Bernardo, o autor reconhece que ambos seguiram a Agostinho, ainda que “foram menos consistentes que Gottschalk em sua fidelidade à visão agostiniana”, como ele mesmo escreve. Mas este não é o ponto em questão. O fato é que ambos eram monergistas, como aqueles que forem às suas obras poderão comprovar. Sobre Bradwardine, o autor afirma, categoricamente, sem apresentar fontes, que ele “não cria na depravação total, dizendo que o pecado original não teria causado consequências mais graves sobre a natureza humana”. Na verdade, este teólogo medieval não enfatizou tal doutrina por uma razão metodológica: “Bradwardine apoia sua teologia anti-pelagiana com uma doutrina metafísica da onipotência divina consideravelmente distinta das ideias de Agostinho, resultando em que a dependência soteriológica total da humanidade em Deus é considerada uma consequência do caráter do ser humano como criatura e não de sua pecaminosidade. A Queda não é, portanto, tida como um divisor de águas na economia da salvação”. Outro teólogo medieval pode ser citado como um firme agostiniano, Gregório de Rimini: “Enquanto o predestinarismo de Bradwardine é resultante de sua doutrina metafísica da onipotência divina, o de Gregório surge de seu conceito cristologicamente centrado na história da salvação” (cf. Alister McGrath, Origens intelectuais da Reforma). De qualquer forma, recomendo a obra de McGrath, que oferece uma boa discussão do impacto de Bradwardine e de Rimini na teologia posterior, e as diferenças entre as escolas filosóficas de ambos.

Acerca de Tomás de Kémpis, há uma carta que Susanna Wesley escreveu ao seu filho John, reclamando por aquele crer na predestinação (datada de 8 de junho de 1725; cf. Susanna Wesley: The Complete Writings). E a respeito de Tomás de Aquino, ele também reconhece que ele “cria na predestinação agostiniana só para os eleitos”. Portanto, a afirmação de seu primeiro artigo, de que não havia ninguém que ensinasse a doutrina da predestinação entre Agostinho e a Reforma Protestante, é falaciosa – ainda que ele reconheça, corretamente, em seu primeiro artigo, que, “do século 16 ao 18 a principal corrente no meio protestante mundial era o que se convencionou chamar de calvinismo”. Portanto, para deixar claro, o que era comum a todos os teólogos medievais citados acima era a crença na predestinação dos eleitos, ou aqueles que são salvos; mas eles (com a possível exceção de Isidoro e Gottschalk) negavam que Deus predestinaria ativamente pecadores ao inferno, desde a eternidade, sem levar em conta suas próprias escolhas. Tal posição está em harmonia com o que havia sido definido no Sínodo de Quierzy, em 850 (cf. Denzinger-Hünermann [ed.], Compêndio, 621-621):

“Cap. 1. Deus onipotente criou o homem sem pecado, reto e com livre-arbítrio e, querendo que permanecesse na santidade da justiça, colocou-o no paraíso. O homem, porém, usando mal o livre-arbítrio, pecou e caiu, e se tornou a ‘massa da perdição’ de todo o gênero humano. Deus bom e justo escolheu, porém, dessa massa de perdição, segundo sua presciência, os que por graça predestinou [Rm 8.29s; Ef 1.11] à vida, e predestinou-lhes a vida eterna; dos outros, porém, que segundo o juízo da justiça deixou na massa da perdição, ele sabia com antecedência que se perderiam, não porque os tivesse predestinado a se perderem, mas porque, sendo justo, lhes predestinou uma pena eterna. E por isso falamos, simplesmente, de uma só predestinação de Deus, que se refere quer ao dom da graça, quer à retribuição da justiça. 
Cap. 2. No primeiro homem perdemos o livre-arbítrio, e o recebemos mediante Cristo nosso Senhor; de uma parte, temos o livre-arbítrio para o bem, prevenido e ajudado pela graça, de outra temos o livre-arbítrio para o mal, abandonado pela graça. Temos, pois, o livre-arbítrio, porque foi libertado pela graça e pela graça foi sanado do arbítrio corrompido.”

2. A RESSURGÊNCIA DA SOTERIOLOGIA AGOSTINIANA

Silas se equivoca ao supor que dei “a entender que a posição agostiniana referente à (...) Salvação era, se não majoritária, pelo menos de grande influência na Idade Média, quando, na verdade, ela não foi nem majoritária, nem de grande influência na época de nenhum desses nomes, mas muito ao contrário”. Nenhum especialista em história do pensamento cristão fez tal afirmação. Também é evidente para qualquer estudioso do período medieval que o pelagianismo e o massilianismo (ou “semipelagianismo”) eram a posição dominante no catolicismo popular medieval, ainda que os principais teólogos do período seguissem em maior ou menor grau a soteriologia de Agostinho. E é justamente a prevalência do “semipelagianismo” na igreja medieval que fornece o contexto para que a Reforma Protestante seja chamada de “renascença agostiniana” (cf. Timothy George, Teologia dos reformadores) e o movimento puritano inglês e escocês dos séculos XVI e XVII seja chamado de “agostinianismo reformado” (cf. J. I. Packer, “Os puritanos”, Robin Keeley (org.), Fundamentos da teologia cristã).

Assim sendo, é necessário dizer que ainda que quase todos os teólogos reformados e luteranos no continente, assim como os teólogos puritanos na Inglaterra, fossem firmemente monergistas, há diferenças de método e ênfase entre eles, como qualquer leitor dos mesmos sabe (pode-se citar, somente a título de ilustração, Martinho Lutero, Martin Bucer, Ulrich Zwinglio, João Calvino, Teodoro de Beza, William Perkins e William Ames). Aliás, não deixa de ser irônica a tentativa do autor de usar o pensamento de João Calvino como uma espécie de gabarito para analisar os autores mais antigos – quando a obra de Ames, The Marrow of Theology foi imensamente mais influente no calvinismo na Inglaterra e nas treze colônias na América (que se tornariam os Estados Unidos) nos séculos XVII e XVIII que as Institutas da Religião Cristã

Portanto, mais uma vez: o que define uma tradição não são os escritos dos teólogos que pertencem à certa tradição, mas sim as confissões de fé que resumem esta tradição. Se o leitor, portanto, quer saber o que a tradição reformada ensina sobre predestinação, deve ir diretamente à Confissão de Fé de Westminster (III.1-8), à Confissão Belga (Artigo 16), à Segunda Confissão Helvética (X.1-9) e aos Cânones de Dort (I.6-18, II.8-9, e rejeições de erros).

3. A PROGRESSÃO DO DOGMA

Em nenhum de meus escritos afirmo algo como uma “forte linhagem histórica calvinista”, como o autor sugere. Nem mesmo fiz isso em minha avaliação do artigo dele. Na verdade, a meu ver, o maior erro presente na análise histórica de Silas Daniel é o anacronismo, que “consiste em utilizar os conceitos e ideias de uma época para analisar os fatos de outro tempo” – segundo Lucien Febvre, o pecado mortal do historiador. Com isso, as nuances e diferenças na soteriologia dos pais latinos e gregos que viveram antes de Agostinho, assim como dos teólogos medievais, são perdidas, justamente por, no caso, o autor não permitir aos Pais da Igreja e Medievais falarem, mas tentar impor a estes autores categorias interpretativas estranhas ao pensamento deles, tais como “cinco pontos do calvinismo” ou do “arminianismo”. Ele constantemente usa estas categorias de avaliação (ou lentes interpretativas), tentando achar “textos-prova”, a favor ou contra estes, nos diversos escritores citados. Portanto, o uso destes eixos interpretativos, de forma anacrônica, torna sua pesquisa histórica comprometida.

Os eixos interpretativos devem ser: monergismo e sinergismo, ou agostinianismo e pelagianismo (e suas gradações, semiagostinianismo e “semipelagianismo”). Neste sentido, todos os autores que citei afirmaram uma soteriologia monergística (ainda que com diferenças entre si e inconsistências), e todos os que citei, em maior ou menor grau, seguiram as formulações de Agostinho sobre a predestinação (cf. a tabela em Reginald Garrigou-Lagrange, Grace: Commentary on the Summa Theologica of St. Thomas, ch. 1). Deve-se ter em mente que o autor-chave que mitigou e reinterpretou os ensinos de Agostinho sobre a graça foi Gregório I, o Grande – e que, junto com Agostinho, é considerado um dos “fundadores da Idade Média” latina (cf. J. LeGoff, Homens e mulheres da Idade Média).

O autor cita Jack Cottrell em seu apoio, para afirmar o que deveria ser claro: que nenhum Pai da Igreja antes de Agostinho cria na predestinação graciosa e soberana, ainda que usem tal fraseologia ocasionalmente (cf. 1 Clemente, 1.1; 6.1; 29.1; 46.4; 50.6-7). Mas, ao mesmo tempo em que critica Michael Horton, Cottrell (e, parece, Silas) cai no mesmo erro que ele visa corrigir; ele, aparentemente, não faz o serviço completo, ou seja, demonstrar qual seja a doutrina da salvação dos Pais da Igreja antes de Agostinho.

Por exemplo, a noção de livre-arbítrio em vários dos Pais (Justino, Irene e Tertuliano) estava, na maioria das vezes, conectada à teodicéia, não à soteriologia. E isso se deu porque a apologética destes Pais era dirigida contra o determinismo cego presente na cultura greco-romana. Sobre a salvação, em linhas gerais, os Pais diziam que a antiga lei tinha sido abolida, e o evangelho seria a nova lei. Deste modo, os Pais ressaltaram a obediência à esta nova lei, bem como a imitação de Cristo, como sendo o caminho da salvação, e o conteúdo essencial da vida cristã. Mesmo em Agostinho não havia uma noção da imputação da justiça de Cristo aos pecadores, recebida pela fé somente (um tema-chave da Reforma protestante do século XVI). Também se enfatizava que o Espírito Santo era recebido por meio do sacramento do batismo. Em outras ocasiões, a salvação era apresentada em termos de imortalidade e indestrutibilidade, em vez de perdão dos pecados. E vários dos Pais orientais, inclusive João Cassiano, no ocidente, afirmaram a doutrina sinergística da theosis, ensinando que a salvação seria adquirida por meio da divinização do homem. Em linhas gerais, estas várias formulações confundiram os ensinos bíblicos sobre a justificação e a santificação. Por outro lado, a noção da eleição por meio da presciência divina estava conectada, muitas vezes, com a previsão de algum tipo de mérito. Justino, por exemplo, afirmou que Deus “prevê que alguns se salvarão pela penitência” (cf. 1 Apologia, 28.2). Ainda assim, a morte e a ressurreição de Cristo eram enfatizadas como constituindo o fundamento da salvação dos homens – mas Cottrell e Silas parecem ignorar estas nuanças, que tornam a teologia dos Pais bem diferente da posição arminiana clássica (para a soteriologia dos Pais da Igreja, cf. J. N. D. Kelly, Patrística, caps. 13-14; Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 1, cap. 6).

De qualquer forma, duvido que um arminiano genuíno endosse tais posições – e Silas cai na própria armadilha que visa refutar. Por causa da interpretação anacrônica que arminianos contemporâneos (e mesmo calvinistas, como Steven J. Lawson, no irregular Pilares da graça, v. 2) fazem dos escritores cristãos da Antiguidade e do Medievo, variações e diferenças entre os escritores antigos na soteriologia são ignoradas, justamente por não permitir que estes escritores falem, mas tentar impor categorias interpretativas estranhas ao pensamento deles. Mesmo a interpretação que Silas oferece de aspectos da soteriologia de Agostinho incorre no anacronismo, pois ele tenta interpretá-la pela lente dos “cinco pontos” do calvinismo. Uma interpretação da posição de Agostinho, sucinta, sóbria e muito mais perto da verdade, é sugerida por Colin Brown (cf. Filosofia e fé cristã):

“Frequentemente tem sido dito que tanto o catolicismo quanto o protestantismo têm sua origem em Agostinho. O primeiro obtém dele (mas não exclusivamente dele) seu alto conceito da igreja e dos sacramentos. O último segue Agostinho na sua visão da soberania de Deus, da perdição do homem no pecado e da graça de Deus que é o meio exclusivo para trazer a salvação ao homem. Assim como ocorre a todos os ditados fáceis, esta declaração acerca de Agostinho simplifica demais. Há, certamente, católicos hoje que compartilham do ponto de vista de Agostinho acerca da salvação e protestantes que não compartilham dele. Seja como for, porém, foi de Agostinho mais do que qualquer outro teólogo individualmente que o pensamento medieval recebeu seu arcabouço teológico de ideias. Mesmo quando pensadores posteriores alteraram a pintura dentro do quadro, o arcabouço com que começaram foi a teologia da igreja primitiva em geral e a de Agostinho em particular”.

O que é preciso ter em mente é que os escritos dos Pais da Igreja, especialmente no que se refere ao ensino da graça antes da controvérsia pelagiana, não pretendiam ser apresentações doutrinárias sobre salvação no sentido estrito do termo. Como resultado, não podemos esperar deles um quadro completo destes artigos de fé. Até porque a soteriologia não foi um problema com o qual eles precisaram se defrontar, já que os principais debates estavam relacionados com a Trindade e a divindade de Cristo – e resulta daí as tensões e mesmo contradições presentes em seus escritos, quando tratam da soteriologia.

Também é importante destacar que o Sínodo de Orange rejeitou o pelagianismo e o “semipelagianismo” (massilianismo), e a noção de que Deus predestinaria pecadores à perdição. Mas não rejeitou a predestinação para a vida eterna, e afirmou que a fé seria resultado da ação prévia do Espírito Santo (Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, 397):

“[Conclusão redigida pelo bispo Cesário de Arles] Segundo a fé católica cremos também que, depois de ter recebido a graça pelo batismo, todos os batizados, com o auxílio e a cooperação de Cristo, podem e devem cumprir quanto diz respeito à salvação da alma, se quiserem empenhar-se fielmente. Ao contrário, não só não acreditamos que pelo divino poder alguns tenham sido predestinados ao mal, mas, se há alguns que querem crer em tamanho mal, com toda a reprovação lhes dizemos: anátema!
Professamos e cremos também, para nossa salvação, que cada boa obra não somos nós a iniciar, sendo depois ajudados pela misericórdia de Deus, mas que ele, sem que preceda algum mérito bom, nos inspira antes de tudo a fé e o amor a ele, para que, de uma parte, procuremos com fé o sacramento do batismo e, de outra, depois do batismo, com seu auxílio possamos cumprir o que lhe agrada. Por isso, evidentissimamente, é preciso crer que tão admirável fé – seja a do ladrão que o Senhor chamou para a pátria do paraíso [Lc 23.43], seja a do centurião Cornélio [At 10.3], seja a de Zaqueu, que mereceu acolher o próprio Senhor [Lc 19.6] – não vem da natureza, mas foi doada pela generosidade da graça divina”.

O que se rejeitou no Sínodo de Orange, portanto, foi a ideia de que predestinação e reprovação seriam noções simétricas. A posição estabelecida neste sínodo foi reafirmada no Sínodo de Quierzy, em 853, que rejeitou o ensino da predestinação à perdição (atribuído a Gottschalk), reafirmando que Deus predestina pela graça e salva pela misericórdia, e a reprovação é um ato de perfeita justiça, que pronuncia a pena unicamente para punir a falta, e após a previsão dessa: “Cap. 3. (...) Que alguns sejam salvos é dom daquele que salva; que alguns ao contrário se percam é culpa dos que se perdem” (Denzinger-Hünermann [eds.], Compêndio, 623). O Sínodo de Valença, realizado em 855, afirmou: “Cân. 3. (...) Assim professamos com fé a predestinação dos eleitos à vida e a predestinação dos ímpios à morte; na eleição dos que devem ser salvos, a misericórdia de Deus precede o mérito, mas na condenação dos que perecerão, o desmérito precede o juízo de Deus” (Denzinger-Hünermann [eds.], Compêndio, 628).

CONCLUSÕES

Três observações finais: parece que Silas ficou espantado com a repercussão de seu texto, mesmo em círculos fora das Assembleias de Deus. Isso se deu, me parece, por ser um texto bem escrito e por, finalmente, haver uma boa defesa do arminianismo – não do velho pelaginismo, ainda tão presente em nosso meio, mesmo em denominações históricas. E deve-se ter em mente que o debate soteriológico não está circunscrito a uma denominação. Ao escrever sua defesa do arminianismo, o autor está dialogando com toda a igreja evangélica.

Não indiquei ao Silas comentários bíblicos para suplementar a falta de exegese em seu texto. Isso seria indelicadeza de minha parte. Os indiquei aos leitores de meu texto, como qualquer um pode conferir, indo à primeira postagem. De qualquer forma, o desafio feito ao fim daquele texto permanece – por mais valioso que seja o diálogo com a tradição cristã, no fim, o que decidirá todo debate entre irmãos será a “exegese, exegese e mais exegese”. Pois, como diz a Confissão Belga (Artigo 2), “Deus se fez conhecer, ainda mais clara e plenamente, por sua sagrada e divina Palavra, isto é, tanto quanto nos é necessário nesta vida, para sua glória e para a salvação dos que lhe pertencem”.

Por fim, muitos leitores elogiaram o tom cordial de parte a parte. Isso se dá porque Silas, diferente de escritores pelagianos, não trata o calvinismo como uma heresia. E, é necessário deixar claro, mesmo calvinistas não tratam o arminianismo como herético. Ou, pelo menos, não deveriam. Por exemplo: Agostinho, refutou os erros dos massilianos (“semipelagianos”) em duas obras (A predestinação dos santos e O dom da esperança), mas tratou-os como irmãos ou amigos errados, não como hereges. William Ames (que foi conselheiro do presidente do Sínodo de Dort, Johannes Bogerman), escreveu que o arminianismo “não é corretamente uma heresia, mas um erro perigoso na fé”.

John Wesley reconheceu, em 1745, que sua teologia estava “a um fio de cabelo” do pensamento de João Calvino: “Ao atribuir todo o bem à livre graça de Deus. Ao negar o livre-arbítrio natural e o poder antecedente à graça. E, ao excluir o mérito humano; mesmo para o que ele realizou ou pratica pela graça de Deus”. Isso é exemplificado numa conversa que Charles Simeon teve com Wesley, em 1784:

“Senhor, sei que o chamam de arminiano; e algumas vezes sou chamado de calvinista; portanto, deveríamos desembainhar as espadas. Porém, antes de consentir em iniciar o combate, permita-me fazer-lhe algumas perguntas (...). Diga-me: o senhor se sente uma criatura depravada, tão depravada que nunca teria pensado em voltar-se para Deus, se ele não tivesse colocado isso em seu coração?
Sim [replicou o veterano], sinto-o realmente.  
E não tem esperança alguma de tornar-se aceitável perante Deus por qualquer coisa que possa fazer por si; e espera na salvação exclusivamente através do sangue e da justiça de Cristo?  
Sim, unicamente por meio de Cristo. 
Mas, senhor, supondo-se que foi inicialmente salvo por Cristo, não poderia de alguma outra forma salvar-se depois, através de suas próprias obras? 
Não, mas terei de ser salvo por Cristo do princípio ao fim. 
Admitindo, portanto, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, o senhor, de um modo ou de outro não tem que se manter por suas próprias forças? 
Não. 
Nesse caso, então, o senhor tem que ser mantido, cada hora e momento, por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe? 
Sim, inteiramente. 
E toda sua esperança está firmada na graça e misericórdia de Deus, para ser preservado até o seu reino celeste?
Sim, não tenho esperanças senão nele. 
Então, senhor, com sua permissão embainharei novamente a minha espada; pois este é todo o meu calvinismo; esta é a minha eleição, minha justificação pela fé, minha perseverança final; em suma, é tudo quanto sustento, e como o sustento; portanto, se lhe parecer bem, em lugar de buscarmos termos e frases que serviriam de base para luta entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas sobre as quais concordamos.”

O grande desejo de John Wesley, ao qual ele devotou sua vida, foi pregar “as três grandes doutrinas bíblicas: o pecado original, a justificação pela fé e a consequente santidade”. Que Deus nos dê de seu Espírito Santo para não apenas confessar tais doutrinas, mas pregá-las com zelo e paixão nesta época em que a igreja cristã é desafiada e confrontada com um ambiente cultural e político cada vez mais hostil à fé evangélica.

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Divulgação: Bereianos
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