Objeções à doutrina da eleição soberana de Deus

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Esta edição de Sound of Grace lida com alguns dos argumentos usados por aqueles que discordam com a visão histórica de que a Bíblia fala sobre “eleição”. Uma das objeções mais comuns é algo parecido com isso:

“Eu concordo de coração que Deus ‘escolhe algumas pessoas para serem salvas’. Entretanto, Sua escolha é baseada inteiramente em Sua presciência. Como Deus vê o futuro e ‘prevê’ todas as coisas que acontecerão, Ele claramente pré-conhece aqueles que desejarão aceitar Jesus quando a oportunidade for apresentada. Deus, com base nessa ‘presciência’ (conhecimento prévio), escolhe aqueles que Ele ‘prevê’ que aceitarão a Cristo por seu próprio livre-arbítrio”.

Não é necessário pensar muito para ver que esta ideia nega completamente que Deus, no sentido que for, soberanamente escolhe homens para salvação. De forma simples, uma visão como esta, na verdade, diz o seguinte:

Porque todos os arminianos são calvinistas

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Quero apresentar um argumento contra o arminianismo baseado em uma falha interna dentro do esquema arminiano de predestinação.

Meu argumento, em poucas palavras:

“A posição arminiana sobre a predestinação é inescapavelmente calvinista (mais ou menos). Por causa disso, a única opção é aceitar o teísmo aberto ou o calvinismo”.

No século XVI, o teólogo católico romano e jesuíta Luis de Molina (1535–1600) propôs a ideia do conhecimento médio, mais tarde adotada (mas modificada) por Jacob Armínio (1560–1609).

Essa posição ficou conhecida como Molinismo. Pode ser que o “conhecimento médio” de Molina refere-se a liberdade de escolha, não predestinação. Mais tarde, os arminianos sequestraram o conhecimento médio de Molina para seus propósitos pessoais. Em outras palavras, Molina não é o vilão que presumimos, o que coloca os arminianos em uma posição precária de serem meio que inovadores.

Geralmente, os arminianos defendem que Deus poderia saber, antes de escolher indivíduos, o que um certo número de seres humanos, que são livres, fariam em certas circunstâncias. Em outras palavras, Deus sabe o que acontecerá e o que poderia acontecer sob certas condições.

Como resultado, para o arminiano, Deus elege baseado em seu “conhecimento médio” de que certos indivíduos responderão favoravelmente ao evangelho sob circunstâncias específicas. Deus não elege independente e incondicionalmente em Cristo, mas “reage” à escolha de um ser finito, a qual ele conheceu de antemão. Ele escolhe baseado em um condição futura (escolha).

Se a presciência de Deus depende de condicionais futuras, devemos perguntar se ela é ignorante em algum sentido (daí, o “teísmo aberto”). Mas, isso é um assunto pra outra hora.

No esquema arminiano, Deus “vê” o que aconteceria baseado em uma condicional futura e, então, escolhe com base no que ele “vê” acontecer em um mundo puramente condicional. Nesse esquema, Deus conhece condicionais condicionalmente.

Em resumo, o arminianismo introduz uma categoria separada, na qual a decisão humana se torna o fator causal que determina o evento. Essa é uma forma de semi-pelagianismo.

Entretanto, há uma falha para a qual eu gostaria de chamar atenção neste esquema, e uma que não vi ainda proposta antes. Pode ser que alguém tenha feito isso, mas não li ainda esse argumento em particular.

A Falha

Primeiro, certamente todos nós concordamos que Deus tem conhecimento de todos os mundos possíveis. Seu conhecimento não é limitado a um mundo, mas a todos os mundos possíveis no qual há um número infinito de possibilidades (por exemplo, não há cachorros em um certo mundo).

Por causa de sua liberdade absoluta, Deus não foi coagido a criar esse mundo particular em que vivemos. Teoricamente, ele poderia ter criado um mundo diferente em particular com base em seu conhecimento de um número infinito de outros mundos possíveis.

Ao eleger com base em uma condição futura, Deus está elegendo com base em um certo mundo possível que, então, ele escolhe trazer à existência. Daí, este mundo em que vivemos.

Neste mundo (i.e., um mundo possível A), ele escolhe a {pessoa x} com base na fé prevista.

Mas, neste mesmo mundo, ele não escolhe a {pessoa y} porque não houve fé prevista.

A pessoa x está predestinada à vida eternal, mas a pessoa y não está. Tudo porque a pessoa x creu (pela liberdade de sua vontade) com base em uma condicional futura.

Entretanto, em outro mundo possível (i.e., mundo possível B), a {pessoa y} crê, enquanto a {pessoa x} não.

Devemos nos perguntar o seguinte:

Por que Deus escolheu trazer à existência o mundo possível A, mas não o mundo possível B?

Ele escolheu assim, diz o calvinista, por causa de sua decisão livre e soberana de criar o mundo possível A, mas não o mundo possível B. Mas, o arminiano deve conceder que Deus, assim, elege um mundo no qual alguns creem e outros não, quando ele poderia ter eleito um mundo diferente no qual os resultados seriam diferentes. No final, a eleição ainda é, em última análise, escolha de Deus.

Deus poderia ter trazido à existência o mundo possível B? Claro. O fato de que ele não traz à existência o mundo possível B mostra que, portanto, ele está elegendo a {pessoa x} e não a {pessoa y} porque ele poderia ter criado um mundo possível diferente (mundo possível B) onde a {pessoa y} seria salva.

No fim, para o arminiano, Deus ainda elege. Ele elege um certo mundo no qual alguns têm a fé prevista e outros não, quando, de fato, ele poderia ter escolhido criar um mundo diferente em que pessoas diferentes seriam salvas. O arminiano não consegue escapar da eleição soberana. Em certo sentido, o arminiano ainda é um calvinista, ainda que um “calvinista anônimo”.

Claro, o conhecimento médio é uma bobagem. É semi-pelagiano. Ele se rende ao deus da liberdade humana e torna Deus um servo dos homens. Mas, mesmo quando isso é feito, o arminiano não pode escapar de uma forma de calvinismo onde, em última análise, Deus elege com base em sua escolha soberana. Não surpreende, então, que tantos arminianos tenham se tornado socinianos ou virado teístas abertos. Ou eles se voltam para Leibniz e argumentam que Deus escolheu este mundo porque é o melhor de todos os mundos possíveis.

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Autor: Mark Jones
Fonte: The Calvinist International
Tradução: Josaías Jr 
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

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[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 3)

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Nesta série involuntariamente e lamentavelmente esporádica, eu estive considerando a pergunta: O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo? No primeiro post eu argumentei que a Bíblia afirma (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus acerca dos contrafactuais de liberdade da criatura (isto é, o conhecimento acerca do que qualquer agente criado irá livremente fazer se colocado em determinadas circunstâncias), mas o Molinismo não possui nenhuma vantagem sobre o Agostinianismo no que diz respeito a (1) e (2). Eu concluí com a seguinte afirmação:

“Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

No segundo post eu examinei um candidato para a proposição p: a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo (uma coisa que os molinistas invariavelmente afirmam, mas que os agostinianos normalmente negam). Cheguei à conclusão de que a Bíblia não oferece suporte para o incompatibilismo. Neste post eu vou considerar um segundo candidato a proposição p: a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos.


A BÍBLIA E A VONTADE SALVÍFICA DE DEUS

Alguns molinistas tem argumentado que a Bíblia ensina que Deus deseja a salvação de todos e que o Molinismo faz melhor justiça a este ensino do que seu principal rival, o Agostinianismo. Kenneth Keathley, por exemplo, em seu livro Salvation and Sovereignty, aponta três textos bíblicos em particular – João 3:16, 1 Timóteo 2:3-4 e 2 Pedro 3:9 – como exemplos de passagens que ensinariam a vontade salvífica e universal de Deus. Keathley então começa a argumentar que o Molinismo faz mais justiça a este ensinamento bíblico na medida em que afirma tal desejo divino e ao mesmo tempo dá uma melhor explicação sobre o porquê esse desejo não se realiza. (Keathley assume, como faço aqui, que o universalismo é falso).

Vamos começar examinando se o desejo de Deus para a salvação universal é realmente um ponto afirmado de forma clara e explícita nas Escrituras. João 3:16 deve ser o versículo mais conhecido na Bíblia:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” [ACF]

Observe cuidadosamente o que o texto diz e o que ele não diz. O texto fala que o amor de Deus para “o mundo” era tal que Deus enviou o seu Filho unigênito, com o objetivo de que todo aquele que nele crê (no Filho) tenha a vida eterna. O texto não diz que Deus deseja que cada pessoa creia e que, assim, tenha a vida eterna. Alguém poderia pensar que essa é uma implicação do texto, mas ela não é indicada explicitamente. Ela se torna uma implicação apenas se existem determinados pressupostos como, por exemplo, o pressuposto de que “o mundo” refira-se a todas as pessoas, e que o amor de Deus para X implica que Deus deseja que X tenha a vida eterna. Meu propósito aqui não é questionar essas suposições (embora eu vá, pelo menos, destacar que João em nenhum lugar de seu evangelho ou de suas epístolas usa
kosmos de uma maneira que implica “todas as pessoas”). Pelo contrário, meu objetivo é simplesmente observar que a ideia de que Deus deseja a salvação universal, mesmo que seja verdade, não pode ser extraída diretamente de João 3:16.

Considere agora 1 Timóteo 2:3,4

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” [ACF]

Este parece um pouco mais claro até você aprender que a palavra grega para ‘todos’ às vezes pode levar o sentido de todos sem distinção (em português: “todos os tipos”) ao invés de todos sem exceção. Qual o sentido que melhor se ajusta nesse caso? Bem, isso é uma questão de debate entre os comentaristas. Dado o contexto imediato (considerando como Paulo usa ‘todos’ nos versos 1-2), é razoável pensar que o objetivo de Paulo aqui não é dizer que Deus deseja que cada pessoa seja salva, mas sim que Deus deseja que as pessoas de todas as faixas – tanto aquelas de alto status como as da plebe como nós – sejam salvas. De acordo com o evangelho da graça, Deus não privilegia uma classe de pessoas em detrimento de outra quando se trata de salvação. Como Calvino afirmou: “Com isso, realmente outra não é sua intenção, senão dizer que Deus não fechou o caminho da salvação a nenhuma ordem de homens, senão que, antes, de tal modo derramou sua misericórdia, que não quer que algum dentre eles seja dela carente” (Institutas, 3.24.16) . Ainda que alguém não esteja completamente convencido dessa leitura do texto, se deve, pelo menos, admitir que é linguisticamente plausível e que faz sentido no contexto imediato.

Finalmente, vamos considerar 2 Pedro 3:9:

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se.” [AR]

Mais uma vez, em uma leitura superficial isto parece ser um gol olímpico dos molinistas: Deus deseja que todos se arrependam de modo que ninguém venha a perecer. No entanto, assim como o texto de 1 Timóteo 2, a declaração de Pedro deve ser interpretada no seu contexto. A abrangência de “ninguém” e de “todos” é qualificada pelo público a quem Pedro está escrevendo: o “convosco” no início do versículo. A segunda metade deve ser entendida assim: “não querendo que nenhum de vocês se perca, senão que todos vocês venham a arrepender-se”.

Agora, novamente, pode muito bem ser possível inferir uma reivindicação mais ampla sobre o desejo de Deus para a salvação universal, ao trazer consigo suposições teológicas complementares derivadas de outros textos e ensinamentos bíblicos. Meu objetivo aqui é apenas enfatizar que não há nenhuma afirmação clara e explícita de um desejo salvífico universal em 2 Pedro 3:9.

Para ser mais claro: eu não quero argumentar contra a ideia de que Deus deseja que todos sejam salvos. Acredito firmemente que Ele queira, mas num sentido devidamente qualificado. Estou simplesmente observando que não existem textos bíblicos que afirmam explicitamente essa ideia ou que diretamente a implicam. É uma inferência (e eu acho que garantida) a partir de uma série de diferentes textos interpretados em termos da abrangente linha de história bíblica .

Em todo caso, pode-se verificar que essa questão é em grande parte irrelevante quando se trata de avaliar o Molinismo. Porque, como irei argumentar agora, mesmo que venhamos a admitir que a Bíblia de fato ensina um desejo salvífico universal da parte de Deus, está longe de ser claro que o Molinismo faça mais justiça a esse ensino que o Agostinianismo.

SERÁ QUE O MOLINISMO TEM VANTAGEM SOBRE O AGOSTINIANISMO?

Vamos supor, então, que a Bíblia ensine que Deus deseja que todos sejam salvos. Será que o Molinismo acomoda melhor esse ensino que o Agostinianismo? Os molinistas também acreditam que, ao contrário do que Deus deseja, nem todos serão salvos. Logo, os molinistas devem conciliar estas duas reivindicações:

A: Deus quer que todo o mundo seja salvo.
B: Nem todo mundo será salvo.

Existem basicamente duas opções aqui para o molinista. A primeira é dizer que nem todo mundo é salvo porque a garantia de salvação universal não estava dentro do poder de Deus. Precisamos lembrar, porém, que os molinistas desejam afirmar a providência divina abrangente, segundo a qual tudo no mundo ocorre de acordo com um eterno decreto divino. Assim, a partir de uma perspectiva molinista, dizer que Deus não poderia garantir que todos fossem salvos é equivalente a dizer que Deus não poderia ter eternamente decretado a salvação de todos, o que significa (em termos molinistas) que Deus não poderia tornar real um possível mundo possível onde todos fossem salvos (ou, sendo mais preciso, que Deus não poderia tornar real um mundo onde todas as pessoas que existem naquele mundo fossem também salvas nele).


Lembre-se que no esquema molinista, Deus não pode tornar real qualquer mundo possível. A escolha de qual mundo irá se tornar real é limitada pelos contrafactuais de liberdade da criatura (uma liberdade não-determinista). Há um subconjunto de mundos possíveis (às vezes chamados de mundos “viáveis”) em que Deus é capaz de tornar real com base no seu conhecimento médio. Assim, de acordo com esta primeira opção, o molinista estaria dizendo que apesar de existirem possíveis mundos onde todos são salvos, não há mundos factualizáveis onde todos são salvos (presumivelmente, Deus queria que houvessem alguns desses mundos, mas isso estava além de Seu controle. Deus só podia jogar com as cartas que tinha, e a mão que deram a Ele não foi a melhor possível).

Logo, nesta primeira forma de conciliar A e B, Deus não poderia satisfazer seu desejo de salvação universal simplesmente porque não havia mundos factualizáveis onde a salvação universal de fato ocorresse. A dificuldade para o molinista, no entanto, é que não existe apoio bíblico positivo para tal afirmação. Além disso, não há boas razões teológicas ou filosóficas para crer em tal afirmação, a menos que você já esteja comprometido com o Molinismo. O melhor que o molinista pode fazer aqui é insistir que “pelo que sabemos” não existem mundos factualizáveis onde todos são salvos; em outras palavras, que nada do que conhecemos tem o poder de descartar isso. Mas, claramente, isso não é bom o suficiente para estabelecer os credenciais bíblicos do Molinismo. O que precisamos aqui é de alguma razão para achar que o Molinismo se ajusta melhor aos dados bíblicos que seus concorrentes.

A segunda maneira do molinista conciliar A e B é propor que Deus poderia ter tornado real um mundo onde todos são salvos, mas que ele tinha uma razão primordial para não fazê-lo. Os molinistas podem oferecer (e têm oferecido) várias sugestões quanto a qual seria esse motivo:

  • Talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorresse fossem mundos muito escassamente povoados e, portanto, apenas um número relativamente pequeno de pessoas iria desfrutar das bênçãos da salvação.
  • Na verdade, talvez a maior preocupação de Deus não é concretizar um mundo onde todos são salvos, mas sim concretizar um mundo onde existe um equilíbrio global otimizado entre salvos e não salvos (como o William Lane Craig propõe aqui).
  • Uma sugestão intimamente relacionada: talvez a maior preocupação de Deus seja concretizar um mundo onde a felicidade humana líquida (o que levaria em conta tanto a felicidade total dos salvos e a infelicidade total dos perdidos) é maximizada.
  • Como alternativa, talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorre também viriam a ser mundos onde há terríveis males morais que ultrapassam o bem da salvação universal (ou, mais precisamente, superam o bem da salvação de todos os seres humanos caídos nesse mundo).

No final, realmente não importa o motivo específico que o molinista ofereça aqui, porque a lógica subjacente é a mesmo: sendo tudo igual, Deus iria tornar real um mundo onde todos são salvos, mas todo o resto já não seria igual.

Uma vez que o molinista faz essa jogada, no entanto, o jogo para, pois o agostiniano pode e, de fato, faz a mesma jogada. Os agostinianos irão afirmar que Deus poderia ter decretado um mundo onde todos são salvos, mas Deus tinha uma boa razão primordial para não fazê-lo. Ele pode até mesmo concordar que com todo o resto sendo igual, Deus teria decretado a salvação universal, mas tudo não continuaria a mesma coisa: Deus tinha outras considerações (mais elevadas). Em toda a probabilidade o agostiniano irá apontar para o desejo de Deus de expressar sua liberdade soberana na eleição e glorificar a si mesmo através da exibição tanto de sua misericórdia (na salvação imerecida de alguns seres humanos caídos) e da sua justiça (na justa condenação de outros seres humanos caídos). Na verdade, o agostiniano pode citar Romanos 9:14-24 como apoio bíblico positivo para a sua posição, que é muito mais do que o molinista pode fazer em relação às especulações sobre as razões de Deus (voltarei a esse ponto depois).

Mais uma vez vemos que o Molinismo está, na melhor das hipóteses, empatado com o Agostinianismo em relação aos dados bíblicos. Mesmo admitindo que a Bíblia ensine o desejo de salvação universal da parte de Deus, o Molinismo não faz mais justiça que o Agostinianismo em relação a esse ensino (isto é, não é melhor em conciliar esse ensino com o ensino bíblico adicional  de que alguns não serão salvos).

Na próxima parte desta série, irei considerar um outro candidato para a proposição p, sendo mais específico, a proposição de que Deus não é “o autor do pecado”.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 2)

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Esse será o segundo post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10.

Nesta curta série, estou considerando a seguinte pergunta: “O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo?”. No primeiro post, eu resumi como eu pretendo abordar a questão, antes de olhar para dois ensinos bíblicos que o Molinismo procura acomodar: (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus sobre os contra-factuais de liberdade da criatura. Cheguei à conclusão de que, apesar de a Bíblia, de fato, afirmar (1) e (2), e o Molinismo ser consistente com a Bíblia nesses pontos, o Agostinianismo também é. Logo, o Molinismo não detém vantagem alguma sobre o Agostinianismo com respeito a (1) e a (2). Eu, então, acrescentei:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo molinismo e negada pelo agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Nos próximos posts eu quero examinar três potenciais candidatos para a proposição p do lado molinista: (1) que o incompatibilismo é verdadeiro; (2) que Deus deseja que todos sejam salvos; e (3) que Deus não é o autor do pecado.



Incompatibilismo acerca do livre arbítrio

Como eu disse no primeiro post, os molinistas estão comprometidos com uma visão libertária do livre-arbítrio, e isso envolve duas reivindicações básicas:

Incompatibilismo: A verdadeira liberdade é incompatível com o determinismo.
Liberdade: Nós fazemos, pelo menos algumas, verdadeiras escolhas livres, i.e., escolhas pelas quais podemos ser considerados moralmente responsáveis.

Em conjunto, essas duas afirmações implicam que o determinismo é falso, mas, como os compatibilistas geralmente concordam que nós, de fato, fazemos escolhas verdadeiramente livres, a primeira reivindicação é o que realmente distingue os libertários dos compatibilistas.


Portanto, a questão que realmente importa aqui é saber se a Bíblia oferece algum suporte para o incompatibilismo. Antes de responder a essa pergunta, no entanto, gostaria de fazer duas observações preliminares. A primeira é esta: Eu argumentei antes que existem diferentes tipos de determinismo e que, em certos sentidos não-triviais, o Molinismo é determinista. O que o molinista realmente rejeita é o determinismo causal, ou seja, a tese de que todo evento é implicado por causas anteriores suficientes. Assim, quando considerarmos a reivindicação incompatibilista no que se segue, devemos entendê-la como a alegação de que a liberdade é incompatível com determinismo causal.

Em segundo lugar, apesar de não haver dúvidas de que os molinistas são comprometidos ao libertarianismo, existe um debate se os agostinianos são comprometidos ao compatibilismo ou não.

Felizmente, não precisamos resolver esse debate aqui. Ou o agostinianismo é consistente com uma visão libertária do livre arbítrio ou não é. Se ele for compatível com o libertarianismo, segue-se que qualquer apoio bíblico a favor do mesmo (se existir) não favoreceria o molinismo sobre o agostinianismo. Se não for, o molinismo teria vantagem somente se a Bíblia oferecesse algum suporte para o incompatibilismo. Mas, como irei argumentar agora, isso não é o que acontece.

Até onde tenho conhecimento, não há nada na Bíblia que chegue perto de, explicitamente ou diretamente, implicar no incompatibilismo sobre o livre arbítrio, ou seja, que implique que a verdadeira liberdade seja incompatível com o determinismo causal. Na verdade, é difícil até imaginar como seria tal afirmação. Certamente, não devemos esperar que a Bíblia afirme explicitamente que a liberdade (ou a responsabilidade moral) seja incompatível com o determinismo. E seria raciocínio circular argumentar algo como: “A Bíblia ensina que nós fazemos algumas livres escolhas; o determinismo é incompatível com a livre escolha; portanto, a Bíblia implica que nós possuímos um livre-arbítrio não-determinista”. Tal argumento meramente assume o incompatibilismo como uma de suas premissas. A questão é se a Bíblia oferece algum apoio independente a favor dela.

Quando os molinistas (juntamente com outros cristãos que defendem o libertarianismo) são chamados a defender seu ponto de vista sobre o livre-arbítrio, eles raramente apelam diretamente a textos bíblicos pela simples razão de que não existem textos bíblicos que servem para esse fim. Normalmente eles irão apelar para intuições de senso comum sobre o livre-arbítrio ou a um ou mais argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo. Então, a defesa deles se torna algo do tipo: 1 – a Bíblia afirma que podemos fazer escolhas livres (ou seja, escolhas pelas quais somos moralmente responsáveis); 2 – as escolhas livres devem ser libertárias (apelando a intuições e/ou a argumentos filosóficos); portanto, a Bíblia dá suporte ao libertarianismo (ao menos indiretamente).

Esta linha de raciocínio pode ser criticada de diversas maneiras. Em primeiro lugar, a noção de que o libertarianismo é a visão de senso comum sobre livre-arbítrio é altamente questionável. Uma série de estudos têm sido feitos sobre a questão e não estamos nem perto de um consenso. Dependendo de quais perguntas são feitas (e como exatamente essas questões são enquadradas), parece que a intuição de algumas pessoas as inclina para o incompatibilismo e outras inclinam-se para o compatibilismo. Na verdade, parece que muitas pessoas têm intuições conflitantes quando se trata de livre arbítrio e responsabilidade moral.

Quanto aos argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo, mais uma vez, o júri não se decidiu. Admito que existam alguns argumentos impressionantes a favor do incompatibilismo, mas também existem respostas, igualmente impressionantes, a esses argumentos. Além disso, existem argumentos filosóficos pesados contra as descrições libertárias (por exemplo, a objeção da sorte e a objeção do “o indeterminismo não ajuda em nada”). Na situação que o debate sobre o livre-arbítrio está atualmente, é justo dizer que o campo está dividido igualmente entre compatibilistas e incompatibilistas. Além do mais, os últimos nem sempre são libertários; entre os incompatibilistas, temos alguns que são céticos, e até mesmo negam, o livre arbítrio.

Em todo caso, tudo isso é (em grande parte) irrelevante. Lembre-se que a questão que estamos considerando aqui é se algum ensinamento bíblico favorece o molinismo quando deparado ao agostinianismo. Apelos a intuições extra-bíblicas ou a argumentos filosóficos, obviamente, não contam como ensinamentos bíblicos!

Há um versículo, no entanto, que muitos libertários têm apontado como dando apoio ao livre-arbítrio não-determinístico:

Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar. (1 Coríntios 10:13)

A sugestão é que o apóstolo Paulo está afirmando (ou, pelo menos, assumindo) alguma versão do Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA):

PPA: Uma pessoa é moralmente responsável por uma ação apenas se essa pessoa pudesse ter agido de outra maneira (ou seja, capaz de fazer o contrário).

O argumento é mais ou menos o seguinte: Paulo está dando aos Coríntios (e por extensão, a todos os cristãos) a garantia de que sempre que um crente é confrontado com uma tentação ao pecado, Deus irá garantir que o crente tenha a capacidade de resistir a essa tentação e não sucumbir a ela. Em outras palavras, quando um crente é tentado a cometer algum pecado, Deus irá garantir fielmente que o crente tem a capacidade de fazer o contrário, ou seja, de não cometer o tal pecado. O crente tem, assim, o poder de escolha contrária – ou seja, ele possui um livre arbítrio libertário. (Este argumento assume, razoavelmente o bastante, que o crente é moralmente responsável se ele resistir ou não à tentação).


Existem, no entanto, vários problemas neste apelo a 1 Coríntios 10:13:

1. Existe uma discussão (mesmo entre os libertários) sobre a veracidade do PPA (e, de fato, sobre qual versão do PPA é verdade, pois existem variações da versão básica mencionada acima). Alguns defensores do libertarianismo argumentam que a condição sine qua non do livre-arbítrio libertário não é o PPA, mas sim alguma outra condição, como a condição da “fonte final” (ou seja, uma pessoa faz uma livre escolha somente se ela é a “fonte final” dessa escolha). Assim, mesmo que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, não seria uma consequência lógica que o verse também desse suporte ao libertarianismo.

2. Não somente existem libertários que rejeitam o PPA, como também existem alguns compatibilistas contemporâneos que o endossam (ou, pelo menos, uma versão  compatibilista do PPA). Existem maneiras de entender as frases “poderia ter agido de outra maneira” e “capaz de fazer o contrário ” que são consistentes com o determinismo causal. Assim, ainda que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, isso não seria garantia de que desse suporte apenas à versão incompatibilista do PPA. Claramente, o que Paulo diz no texto não é detalhado o suficiente para distinguir a compreensão compatibilista da libertária do termo “capacidade” (crucial ao texto).

3. Observe duas coisas sobre as declarações de Paulo no verso: Em primeiro lugar, elas são dirigidas especificamente aos crentes, e não para todos os seres humanos (veja o 1 Cor. 10: 1). Em segundo lugar, eles indicam que Deus proverá, ativamente, algo para os crentes (algo que eles não teriam de alguma outra maneira no curso normal dos acontecimentos). Então, se essa garantia de Paulo realmente implica uma visão libertária do livre-arbítrio, implica também que a liberdade não-determinista é algo que Deus vai ativamente (de forma sobrenatural?) conceder aos cristãos quando esses enfrentarem as tentações. Mas isso não é suficiente para o molinista. Pois, de acordo com o mesmo, todos os seres humanos têm uma liberdade não-determinista durante o curso normal dos acontecimentos (já que a liberdade não-determinista é para eles uma condição necessária para a responsabilidade moral). Ao final das contas, uma leitura libertária de 1 Coríntios 10:13 vai contra os pressupostos básicos da Molinismo.

Então aqui está a conclusão. 1 Coríntios 10:13 não oferece apoio claro a uma visão incompatibilista do livre arbítrio. Há maneiras simples e consistentes com o compatibilismo de entender essa garantia paulina. Na realidade, a única maneira de sair com uma noção de livre-arbítrio não-determinista a partir desse texto é ao adicionar vários argumentos filosóficos a ele (de que o PPA é o princípio distintivo do libertarianismo, de que as versões compatibilistas do PPA são inadequadas, etc.) e, mesmo assim, o verso não vai levar ao libertarianismopara todos” como proposto pelo Molinismo.

Eu não estou ciente de qualquer outro texto ou ensinamento bíblico que ofereça algum apoio direto a favor do incompatibilismo sobre o livre arbítrio. Concluo, portanto, que não há tal apoio. No próximo post desta série, vou considerar se o ensino bíblico de que Deus deseja que todos sejam salvos favorece o molinismo sobre o agostinianismo.

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Nota: Para algumas críticas incisivas do apelo molinista/arminiano a 1 Cor. 10:13, veja os seguintes posts de Steve Hays:

Molinismo e 1 Cor 10:13 (Traduzido por Alison Aquino)

Rota de Escape (em inglês)
Escolha contrária (Traduzido por Alison Aquino)
Contrafactuais e escolhas contrárias (em inglês)
Eterna Insegurança (em inglês)

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Corazim, Betsaida e o Molinismo

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Considere este post como uma (longa) nota ao meu post anteriorUm dos textos preferidos dos molinistas é Mateus 11:21-24, porque o mesmo indica (1) que existem contrafactuais verdadeiros de liberdade, isto é, verdades sobre o que as criaturas livres teriam feito em diferentes circunstâncias, e (2) que Deus sabe destes contrafactuais. No post anterior eu apontei que, apesar de (1) e (2) apoiarem o Molinismo quando confrontado com pontos de vista como o Teísmo Aberto, eles não o favorecem se comparado ao Agostinianismo, já que o mesmo também afirma (1) e (2). (O ponto onde o Molinismo e Agostinianismo divergem, pelo menos, filosoficamente, está no que diz respeito à natureza da liberdade da criatura e como o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais da liberdade se relacionam com seu decreto eterno.)

Neste post eu quero destacar um comentário feito por Dan como incentivo a um exame mais detalhado de Mateus 11:21-24 e sua relevância para o debate entre molinistas e agostinianos. Dan escreveu:

Um dos clássicos “textos de prova” em favor do conhecimento médio também parece resistente a uma leitura agostiniana/calvinista e parece favorecer a liberdade não-determinista. Mateus 11:21 diz: “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza”.
No calvinismo, a graça irresistível (também conhecida como “regeneração monergista” ou “chamado eficaz”) determina a conversão de tal forma que qualquer pessoa, dada a graça irresistível de Deus, não pode resistir e irá eventualmente se arrepender. Além disso, sem a graça irresistível, ninguém pode se converter devido a sua depravação.
Por esse versículo, sabemos que o povo de Corazim não se arrependeu, mas o povo de Tiro teria se arrependido se as mesmas obras tivessem sido feitas lá. Tiro era notoriamente pecaminosa, então a comparação tem como propósito envergonhar as pessoas de Corazim. Eles realmente tiveram uma grande oportunidade de se arrepender, logo, sua escolha de permanecer no pecado foi mais perversa do que a de Tiro. No entanto, no Calvinismo, Deus não deu ao povo de Corazin a única coisa que Ele sabia que poderia ativar e causar o arrependimento: a graça irresistível. Isso por si só é problemático!
Mas há um outro problema que diz respeito ao povo de Tiro. Nem as pessoas de Corazim nem as de Tiro se arrependeram. No calvinismo, poderíamos concluir com segurança que nenhum deles recebeu a graça irresistível, porque se tivessem recebido, eles se arrependeriam. Mas o versículo nos dá o contra-factual: o povo de Tiro teria se arrependido, se as mesmas obras fossem ali realizadas. Então, como é que Tiro poderia se arrepender sem a graça irresistível? No calvinismo, ficamos com a contradição de que a graça irresistível tanto é quanto não é uma condição necessária para o arrependimento.
Para evitar o problema, alguns podem dizer que o arrependimento não é verdadeiro arrependimento. Mas Cristo pregou sobre o verdadeiro arrependimento: arrependam-se pois o Reino de Deus está próximo! Ele nunca usa “arrependimento” como falso arrependimento e Ele sempre denuncia qualquer pretensão exterior de conversão e expõe qualquer auto-engano e falsa segurança. Além do mais, isso invalida (provavelmente inverte) o principal objetivo de Cristo de dizer as pessoas de Corazim que elas eram piores do que as de Tiro. É melhor recusar a ceia do Senhor do que participar de forma fingida, é melhor não saber o caminho da justiça do que conhecê-lo e sair dele, logo, é melhor viver em pecado aberto do que viver com um falso arrependimento. Portanto, se o arrependimento é um falso arrependimento, o povo de Corazim é melhor do que o de Tiro, porque eles evitaram um falso arrependimento. Mas isso é o oposto do que Cristo quer dizer.
A melhor solução parece ser negar a graça irresistível e dizer que o homem tem liberdade não-determinista em relação a resistir a graça de Deus.

Estas observações são certamente interessantes e merecem uma resposta. Mas, antes de entrar em detalhes, vamos considerar os detalhes do contexto em seus próprios termos:

Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti. (Mateus 11:20-24)

O texto nos diz explicitamente que o propósito de Jesus ao dizer estas palavras era “denunciar as cidades”, porque elas não se arrependeriam apesar de ter testemunhado muitos dos milagres que Jesus havia realizado. Eles tinham provas suficientes, mas recusaram reconhecer a autoridade de Jesus e desprezaram seu convite ao arrependimento. De forma mais específica, a denúncia de Jesus se dá com uma comparação com as antigas cidades notoriamente depravadas de Tiro, Sidom, e Sodoma.

Agora, será que essas declarações de Jesus apoiam as afirmações molinistas da forma que Dan nos está sugerindo? Em primeiro lugar, não é óbvio que devamos supor que Jesus esteja fazendo a afirmação contrafactual precisa que os molinistas assumem. Certamente Jesus está fazendo declarações assertivas aqui. Mas será que ele está realmente afirmando algo tão específico como uma verdade contrafactual literal sobre o que as pessoas dessas cidades antigas teriam feito se Jesus tivesse realizado os mesmos milagres diante deles? (Devemos notar, de passagem, que esse teria sido um possível mundo muito diferente deste!)

A questão que Jesus trata aqui é simplesmente que o povo de Corazim e Betsaida tinha um coração endurecido e que eles eram merecedores do Juízo por sua incapacidade de se arrepender; na verdade, eles foram ainda mais teimosos e culpáveis do que o povo de Tiro e Sidom. Esse ponto não implica por si só a precisa reivindicação contrafactual que Dan e outros molinistas assumem. A título de comparação, suponha que eu fosse repreender um dos meus filhos, dizendo: “Se eu lhe pedisse isso mil vezes, ainda assim você não faria o que lhe foi dito!”. Em face disso, essa afirmação tem a forma de um contrafactual de liberdade (se S estava na condição C, S faria/não faria A). Mas será que eu estou mesmo afirmando a proposição específica de que meu filho não faria o que eu havia pedido se ele realmente se encontrasse em circunstâncias em que eu lhe havia dito isso mil vezes (literalmente!)? Sugerir isso seria claramente interpretar excessivamente minhas palavras. Colocando em termos técnicos: essa interpretação acabaria perdendo o verdadeiro conteúdo proposicional da minha fala.

Naturalmente, o fato de que minha declaração não tinha o propósito de ser tomada de forma literal não significa que a proposição contrafactual seja falsa. A questão aqui é o significado da minha declaração (ou seja, qual proposição está expressando) ao invés de sua veracidade (ou seja, se a proposição expressa é realmente verdadeira). Ao fazer essa declaração, estou basicamente afirmando algo sobre a teimosia do meu filho. E o que estou afirmando é verdadeiro!

Da mesma forma, ao questionar se Jesus está realmente afirmando a proposição contrafactual que Dan assume que ele esteja, eu, enfativamente, não estou sugerindo que Jesus poderia afirmar algo falso. Ao contrário, estou sugerindo que a verdade que Ele está afirmando é muito mais simples: as pessoas de Corazim e Betsaida são teimosas e duras de coração (até mais do que o povo de Tiro e Sidon) e elas serão julgadas por isso. E essa verdade é tão consistente com a perspectiva agostiniana quanto com a perspectiva molinista.

A lição então é que os molinistas provavelmente colocam mais peso sobre este texto do que ele realmente contém. Quando prestamos atenção ao argumento que Jesus está fazendo, podemos ver que suas palavras não contém o tipo de vinculações filosóficas que apoiariam as reivindicações molinistas acerca dos contrafactuais de liberdade. Adaptando uma fala de Ludwig Wittgenstein: Os molinistas estão fazendo a “linguagem comum” de Jesus sair em férias.

Mas vamos supor que eu esteja errado sobre tudo isso. Vamos supor que Jesus realmente esteja afirmando proposições contrafactuais que Dan e outros molinistas acham que Ele esteja. Será que isso iria favorecer o Molinismo sobre o Agostinianismo, sabendo que este último rejeita a liberdade não-determinista e afirma a graça irresistível?

Uma questão importante diz respeito ao tipo de arrependimento tratado no versículo 21. Dan afirma que este deve ser “o verdadeiro arrependimento” ao invés de um “falso arrependimento”. Mas eu estou em dúvida sobre essa dicotomia simples. Parece-me que a Bíblia deixa espaço para um tipo de arrependimento que é genuíno até certo ponto (ou seja, não é totalmente sincero, não também não é um mero teatro) e ainda assim é não-salvífico (ou seja, fica aquém da verdadeira conversão espiritual). O arrependimento dos ninivitas no livro de Jonas pode muito bem ser um exemplo de tal arrependimento.

Se um arrependimento não-salvífico e limitado desse tipo está em vista no versículo 12, as questões que Dan levanta sobre a Depravação Total e a Graça Irresistível estão além da discussão. E isso não iria mudar em nada a denúncia que Cristo faz. Jesus, na realidade, estaria dizendo algo como: “Se os meus milagres tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, eles teriam se arrependido [isto é, com um limitado arrependimento não-salvífico], mas vocês têm visto os milagres e não responderam a eles com nenhum tipo de arrependimento! “Tal leitura seria inteiramente consistente com a observação (correta) de Dan de que “o principal objetivo de Cristo era dizer que as pessoas de Corazim eram piores do que as de Tiro”.

Mas mais uma vez, vamos assumir a suposição de Dan para o bem do argumento, ou seja, vamos assumir que o arrependimento no versículo 21 deve ser arrependimento totalmente salvífico. Isso iria levantar um problema para o Agostinianismo/Calvinismo? Eu não penso assim, e vou explicar por que, em resposta ao argumento de Dan.

Dan observa que, na visão calvinista, nem o povo de Tiro nem o de Sidom, nem as pessoas de Corazim ou Betsaida haviam recebido a Graça Irresistível, porque se eles tivessem, teriam se arrependido. Isso é verdade: decorre da própria definição de Graça Irresistível. (Eu prefiro falar de “graça eficaz”, mas não vamos tergiversar sobre rótulos.) Dan assume ainda mais, no entanto, que, no cenário contrafactual em que Tiro e Sidom se arrependeriam em resposta às grandes obras, eles não haviam recebido a Graça Irresistível. Assim, ele conclui que o versículo 21 não se ajusta com aquilo que o calvinista alega (que ninguém pode se arrepender sem graça irresistível).

Mas esta suposição é injustificada. Na interpretação padrão de contrafactuais, precisamos considerar se o efeito do contrafactual (de Tiro e Sidom se arrependerem) é verdade no mais próximo mundo possível em que o fator antecedente (i.e., o povo de Tiro e Sidon ver as grandes obras) é verdade. Por tudo o que sabemos, o mais próximo mundo possível é aquele em que o povo de Tiro e Sidom recebem a Graça Irresistível. Certamente, Dan não nos deu nenhuma boa razão para excluir esta possibilidade. Tendo em conta que em uma visão compatibilista da liberdade, as livres escolhas de uma pessoa são determinadas não só por fatores internos a essa pessoa, mas também por fatores externos (ou seja, circunstâncias), e que podem haver relações causais complexas entre esses fatores internos e externos, seria difícil de refutar esta suposição. Deus trabalha fora seu decreto através de uma multiplicidade de meios inter-relacionados. Por que o mundo mais próximo possível em que Deus decreta que os milagres de Cristo seriam realizados em Tiro e Sidom não poderiam também ser um mundo onde Deus leva Tiro e Sidom ao arrependimento através de sua Graça Irresistível?

Com efeito, para levar a discussão um pouco mais adiante, por que os milagres não podem fazer parte dessa graça irresistível? (Créditos a Paul Manata por sugerir essa idéia). No coração da doutrina da graça irresistível está simplesmente a afirmação de que Deus tem poder para trazer qualquer pecador  espiritualmente morto que Ele escolhe para a salvação, de tal forma que eles vêm a Cristo livremente (ou seja, sem coerção; veja WCF 10.1). Mas Deus é livre para usar uma ampla variedade de meios (incluindo meios circunstanciais) para cumprir o seu chamado eficaz em diferentes pessoas, como a diversidade de testemunhos de conversão cristã ressalta. Não devemos pensar na Graça Irresistível como uma espécie de interruptor espiritual interno que Deus simplesmente pressiona a fim de levar alguém a conversão! Haverá sempre alguns meios que são centrais e universais entre as conversões genuínas, tais como a obra interna do Espírito Santo ao trazer convicção do pecado e a compreensão do evangelho. Mas os meios circunstanciais pelo qual Deus leva a fé e o arrependimento podem e, de fato, variam consideravelmente.

Tendo dito tudo isso, dentro de uma visão reformada da providência divina e do chamado eficaz, os pressupostos de Dan sobre o cenário contrafactual em que os povos de Tiro e Sidom se arrependeriam são injustificados. E, portanto, mesmo se admitirmos suas outras hipóteses (isto é, que Jesus está fazendo uma reivindicação contrafactual literal e precisa e que o arrependimento no versículo 21 deve ser um arrependimento salvífico), os pronunciamentos de Cristo em Mateus 11:21-24 não dão nenhum apoio adicional ao Molinismo se deparado contra o Agostinianismo/Calvinismo. Uma perspectiva calvinista e compatibilista pode acomodar estas declarações de Cristo tão bem como uma perspectiva molinista e libertária.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 1)

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O Molinismo é uma teoria que pretende conciliar uma robusta doutrina da providência e presciência divina com uma visão libertária do livre-arbítrio, apelando para a noção do conhecimento médio divino: o eterno conhecimento de Deus sobre os chamados contra-factuais da liberdade da criatura em questão, ou seja, as verdades contingentes acerca de quais seriam as possíveis criaturas que livremente escolheriam a Deus se elas fossem colocadas sob determinadas circunstâncias. (Para outros posts, em inglês, tratando do Molinismo, clique aqui)

O Molinismo é mais frequentemente criticado por razões teológicas ou filosóficas principalmente porque ele é justamente defendido com base em suas supostas virtudes teológicas e filosóficas. E não há nada de errado nisso. Eu mesmo já lancei objeções ao Molinismo por razões teológicas e filosóficas. (Então está tudo bem, certo?) No entanto, para o cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus e a autoridade final em questões teológicas, a pergunta preeminente deve ser: O quanto será que a Bíblia dá suporte ao Molinismo? (Não me proponho a defender neste momento o princípio metodológico subjacente, irei simplesmente admiti-lo.)

Existem pelo menos dois componentes na questão que estamos tratando. Em primeiro lugar, será que o Molinismo é consistente com a Bíblia? Em outras palavras, será que a Bíblia ensina coisas que são (ou parecem ser) incompatíveis com os princípios ou as implicações do Molinismo? Em segundo lugar, será que a Bíblia oferece algum suporte positivo para as alegações propriamente pertencentes ao Molinismo, ou seja, aqueles princípios que distinguem o Molinismo das principais alternativas concorrentes (como Agostinianismo e o Teísmo Aberto)? Nesta série de posts, proponho explorar essas questões tendo como referência alguns textos bíblicos chaves. Vou me concentrar especialmente em como o Molinismo se compara ao Agostinianismo (que é, sem dúvida, seu principal concorrente entre os teólogos cristãos ortodoxos). (Nota: Estou usando o termo Agostinianismo simplesmente como abreviação para o determinismo divino causal. Não assumimos aqui que o próprio Santo Agostinho tenha, de fato, crido no Agostinianismo nesse sentido! Mas, definindo o Agostinianismo dessa maneira, iremos incluir a maioria dos calvinistas confessionais e, penso eu, muitos dos tomistas conservadores.)

Antes de entrar no centro da questão, eu deveria tratar uma preocupação que alguns leitores podem apresentar. Eu não estou assumindo que a Bíblia responda a todas as questões filosóficas nem que possa resolver qualquer disputa filosófica. É evidente que existem algumas questões filosóficas (por exemplo, se é possível viajar no tempo ou não, se os números são entidades reais, e se o utilitarismo de regra colapsa no utilitarismo de ato) que a Bíblia sequer pretende abordar (e isso também é uma coisa boa!). Mas, ao mesmo tempo, eu considero que a Bíblia faz algumas afirmações filosóficas (de fato, a declaração de abertura da Bíblia é profundamente metafísica!) e ainda mais frequentemente expressa coisas (afirmações, promessas, comandos, etc.) que têm implicações ou pressuposições filosóficas razoavelmente claras.

Então, de uma forma mais crua, eu acredito que a Bíblia nos apresenta uma série de “pontos” que devem tanto informar quanto restringir a nossa maneira de filosofar. Algumas teorias filosóficas são consistentes com esses pontos, enquanto que outras não são. Algumas teorias filosóficas se adequam melhor a esses pontos que outras. Algumas perguntas filosóficas não são determinadas pela evidência bíblica, mas nem todas são assim. Então, as perguntas exploradas nesta série incluem: (1) Quais são os pontos bíblicos importantes (ou alguns deles) quando se trata de avaliar o Molinismo? e (2) O quanto será que o Molinismo se adéqua a esses pontos?

A providência divina abrangente

Um dos temas mais importantes da Bíblia é o controle providencial abrangente de Deus sobre sua criação (às vezes chamado de “providência divina meticulosa”). Tudo o que acontece na criação ocorre de acordo com o plano soberano de Deus; nada acontece a não ser por Sua vontade. Os teólogos têm feito várias distinções entre a vontade ativa e permissiva de Deus, a vontade decretadora (secreta) e preceptiva (revelada), a vontade antecedente e conseqüente (e assim por diante), mas o argumento central é o mesmo: Deus tem um decreto eterno que cobre todo evento na criação, e esse decreto infalivelmente irá acontecer.

Aqui estão alguns textos específicos que ilustram esta penetrante doutrina bíblica:

O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Isaías 14:24, 27)

Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores.Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim.Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade.Que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e assim o farei vir; eu o formei, e também o farei.” (Isaías 46:8-11)

Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” (Lamentações 3:37,38)

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)

Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” (Efésios 1:11)

Particularmente notáveis são as afirmações bíblicas do controle soberano de Deus sobre as ações pecaminosas de suas criaturas, de tal forma que até mesmo essas ações fazem parte de seu plano providencial (por exemplo, Gênesis 50:20,  Juízes 14:1-4, 1 Samuel 2:25, Isaías 10:5-19, Atos 4:27,28, Romanos 9:14-21).

Uma das virtudes do Molinismo é que o mesmo procura acomodar este importante tema bíblico. De acordo com o Molinismo, Deus, de fato, tem um decreto eterno infalível; todos os eventos na criação foram ordenados por Deus. Citando um de seus defensores:

Essa visão não só dá espaço para a liberdade humana, mas dá a Deus um meio de escolher qual mundo de criaturas livres Ele deseja criar. Pois, sabendo como as pessoas iriam livremente escolher sob quaisquer circunstâncias que fossem, Deus pode, pelo Seu decreto, colocar apenas essas pessoas [que o escolheriam] sob essas circunstâncias, realizando assim Seus propósitos finais através das decisões livres das criaturas. Assim, empregando seu conhecimento hipotético, Deus pode planejar um mundo nos mínimos detalhes e ainda assim fazê-lo sem aniquilar a liberdade da criatura, uma vez que Deus já levava em conta nas equações quais pessoas livremente escolheriam sob várias circunstâncias. Como o conhecimento hipotético de Deus encontra-se logicamente entre o Seu conhecimento natural e Seu conhecimento livre, os molinistas o chamam de conhecimento médio de Deus. [2]

Logo, sobre este ponto, o Molinismo claramente apresenta vantagem sobre alternativas como o Teísmo Aberto (que rejeita a doutrina da providência divina abrangente). No entanto, como o Agostinianismo também afirma essa doutrina, nesse ponto o Molinismo não pode afirmar ser mais bíblico do que o Agostinianismo. Em outras palavras, o ensinamento da Bíblia sobre o controle providencial abrangente de Deus não favorece o Molinismo quando comparado ao Agostinianismo.

Contrafactuais da liberdade

O princípio que define o Molinismo é a afirmação de que Deus possui o chamado conhecimento médio e de que Ele baseia Seu eterno decreto nesse conhecimento prévio. O conhecimento médio é o conhecimento de Deus (precedente a Criação) acerca do quê as possíveis criaturas (ou seja, qualquer criatura que Deus possa trazer à existência) livremente escolheriam sob qualquer conjunto específico de circunstâncias. Por exemplo, de acordo com o Molinismo, Deus sabe desde a eternidade o que eu iria livremente escolher para comer no café da manhã se eu estivesse hospedado no Hilton Atlanta em 18 de Novembro de 2015 e me fosse apresentada uma determinada gama de opções enquanto eu sentia fome. Este conhecimento não implica por si só que eu irei fazer tal livre escolha, mas apenas que eu faria essa livre escolha se Deus decidisse me criar e organizar tudo, providencialmente, para que me fossem apresentadas as opções nessa data em particular, sob essas específicas circunstâncias.

Da mesma forma, de acordo com o Molinismo, Deus também sabe desde a eternidade o quê Schmames Anderson (meu irmão gêmeo do mal, uma possível criatura que Deus misericordiosamente optou por não criar no mundo real) livremente escolheria comer no café da manhã em circunstâncias semelhantes. (Suponho eu que seria “papas de milho” ou “pãozinho com salsa branca”.)

Portanto o Molinismo implica em: (i) realmente existirem tais verdades contrafactuais sobre as livres escolhas das possíveis criaturas; e (ii) no conhecimento de Deus, desde a Eternidade (ou seja, antes da Sua decisão de criar um mundo), sobre essas verdades contrafactuais. Tanto (i) quanto (ii) tem sido desafiados pelos críticos do Molinismo, mas essa não é a minha preocupação aqui. Em vez disso, quero considerar se há apoio bíblico para essas afirmações distintas do Molinismo.

Compreensivelmente, os molinistas têm colocado grande peso nas declarações das Escrituras que, em face disso, pressupõem o conhecimento hipotético de Deus de como as pessoas se comportariam se elas se encontrassem sob determinadas circunstâncias (especificamente como eles se comportariam se o mundo fosse diferente do que é, daí o termo “contrafactuais de liberdade”). Os textos bíblicos incluem: 1 Sm. 23:8-14; Ez. 3:6; Jr. 38:17-18; Mt. 11:21-24; Mt. 12:7; Lc. 22:67-68; Jo 18:36; 1 Co. 2:8.

Eu concordo que haja, de fato, um forte apoio bíblico a ideia de conhecimento contrafactual de Deus acerca das escolhas humanas. No entanto, devemos notar algo muito importante sobre estes textos: eles não afirmam explicitamente que as escolhas feitas (ou as que seriam feitas) são escolhas de natureza libertária.

É completamente razoável inferir que as escolhas em questão sejam escolhas livres, uma vez que as criaturas são (ou seriam) consideradas moralmente responsáveis por essas escolhas. Mas existe um debate muito grande entre os filósofos sobre qual seria o tipo necessário de liberdade para que se possa haver uma cobrança de responsabilidade moral sobre as criaturas. De um lado estão os libertários, que argumentam que a liberdade genuína requer o indeterminismo causal (isto é, as livres escolhas não podem ser causalmente determinadas por eventos ou estados anteriores). E do outro lado estão os compatibilistas, que argumentam que a liberdade genuína seja compatível com o determinismo causal.

Os molinistas, por definição, sustentam uma visão libertária (incompatibilista) da liberdade. A principal virtude do Molinismo, de acordo com seus defensores, é que ela concilia a liberdade (libertária) humana com a providência divina abrangente. Mas, os textos bíblicos citados acima não abordam a questão do tipo de liberdade que os seres humanos possuem. Eles não favorecem uma visão libertária sobre uma visão compatibilista. Se os molinistas os usam como suporte para a ideia de que existe o conhecimento contrafactual de Deus acerca da liberdade incompatibilista, é porque eles estão admitindo que esse tipo de liberdade seja necessário para que haja responsabilidade moral. Mas essa é uma afirmação filosófica discutível; não é algo que pode ser diretamente inferido a partir dos textos.

Os agostinianos tipicamente sustentam uma visão compatibilista da liberdade. Nesse ponto de vista, não há nenhum problema em afirmar que Deus tem o conhecimento contrafactual da liberdade humana. Este conhecimento não é um conhecimento médio (que por definição é o conhecimento contrafactual de uma liberdade incompatibilista). Ao invés disso, ele cai sob o conhecimento natural de Deus ou sob o Seu conhecimento livre. (Agostinianos podem assumir diferentes pontos de vista aqui, mas esse debate interno não vem ao caso. Todos os Agostinianos irão afirmar que Deus tem um conhecimento contrafactual abrangente).

O resultado, então, é que os textos bíblicos citados em apoio ao Molinismo (os textos que implicam (1) que existem verdades contrafactuais sobre as livres escolhas dos seres humanos; e (2) que Deus conhece essas verdades) são igualmente consistentes com o Agostinianismo se não formos levantar a questão da natureza das escolhas dos seres humanos (libertária versus compatibilista). Logo, esses textos favorecem o Molinismo apenas diante de alternativas concorrentes que negam (1) ou (2) (como o Teísmo Aberto ou a visão da Presciência Simples). Mas eles não favorecem o Molinismo diante do Agostinianismo pelo simples fato de o último também afirmar (1) e (2).

Podemos ser tentados a ir mais longe e argumentar que, à luz das objeções filosóficas à ideia de que não se pode haver verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista (por exemplo, a chamada objeção base), esses textos bíblicos na verdade apoiariam o Agostinianismo e não o Molinismo. Eu suspeito que o molinista aqui irá retrucar que existem objeções filosóficas ao compatibilismo (isto é, argumentos a favor do incompatibilismo) que pesam tanto quanto os argumentos contra a existência de verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista. O que essa resposta não leva em conta (penso eu) é que o molinista tem que lidar com dois conjuntos de problemas: objeções ao conhecimento médio e objeções à liberdade indeterminística (por exemplo, a famosa objeção da sorte). De toda maneira, está claro que neste momento o debate mudou, saiu das implicações superficiais dos textos bíblicos citados acima para disputas metafísicas mais profundas.

E agora? Para onde vamos?

Vimos que em relação a duas afirmações bíblicas significativas (a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus de contrafactuais) não dá ao Molinismo vantagem alguma sobre o Agostinianismo, uma vez que ambas as posições são consistentes com esses ensinamentos bíblicos (pelo menos de cara). Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Na próxima parte desta série, irei considerar algumas proposições candidatas a p.

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Notas:
[1] Para uma discussão mais detalhada sobre o ensinamento bíblico da providência divina, leia os capítulos  8-9 do livro Systematic Theology por John Frame , ou os capítulos 3-5  de The Reformed Doctrine of Predestination por of Loraine Boettner.
[2] William Lane Craig, “God Directs All Things,” em Four Views on Divine Providence, ed. Dennis W. Jowers (Zondervan, 2011), p. 82, enfâse adicionada. O “conhecimento natural” de Deus é o Seu conhecimento acerca de todas as possibilidades e necessidades, que é fundamentado na natureza essencial de Deus. O “conhecimento livre” de Deus é Seu conhecimento acerca de todas as verdades contingentes sobre o mundo real, esse conhecimento está fundamentado no eterno e livre decreto de Deus.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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