Podemos confiar na Bíblia mais do que na ciência evolucionária?

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Nota do tradutor:


O ensaio elaborado pelo Dr. James N. Anderson, apesar de não conter detalhes técnicos e científicos sobre a discussão Evolucionismo vs. Criacionismo, servirá de grande ajuda aos cristãos que se deparam com argumentos ateístas e secularistas. O mecanismo por trás do processo de seleção de teorias científicas é analisado e comentado de tal maneira que dá ao cristão comum ferramentas suficientes para fornecer uma defesa filosófica racional de sua posição no debate em questão. Como um cientista em formação, esse ensaio me ajudou a perceber e relembrar várias coisas que fazemos ao obter evidências empíricas e, creio eu, que será de grande proveito para todas as classes de cristãos.

Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

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[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

Ateísmo, Amoralismo e Não-Racionalismo

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Em Abril de 2010, o eticista Joel Marks sentou-se em frente ao seu computador e escreveu uma confissão para os leitores da coluna “Moral Moments” na revista Philosophy Now. Sua confissão dizia que ele tinha feito algo imoral. Sua confissão era que ele não poderia ter feito qualquer coisa imoral, em qualquer momento de sua vida, pois não exista coisa como a moralidade. Ou, ao menos, isso foi o que ele concluiu. O autor de “Moral Moments” saiu do armário como um “amoralista. Como ele mesmo coloca na primeira parte do seu “Manifesto Amoral”:

Esse filósofo tem há muito tempo trabalhado sob uma hipótese que nunca foi examinada, isto é, a hipótese de que existe uma coisa como certo e errado. Eu agora acredito que não existe.

Marks imediatamente passa a explicar o raciocínio por trás de sua “epifania chocante” (negrito acrescentado):

Em poucas palavras, eu me convenci que o ateísmo implica em amoralidade; e, uma vez sendo ateu, eu devo, portanto, abraçar a amoralidade. Eu chamo a premissa deste argumento de “ateísmo rígido” porque é análogo a uma tese em filosofia conhecida como “determinismo rígido.” Este último sustenta que se o determinismo metafísico é verdadeiro, então não existe tal coisa como livre arbítrio. Assim, um “determinista suave” acredita que, mesmo que o fato de você estar lendo essa coluna agora esteja seguindo a necessidade causal do Big Bang há quatorze bilhões de anos atrás, você ainda poderia ter livremente escolhido não lê-la. Analogamente, um “ateu suave ‘iria afirmar que alguém pode ser um ateu e ainda assim acreditar na moralidade. E, de fato, todos os que formam o grupo de Neo-Ateísmo … são  ateus “suaves”. Eu também era, até experimentar a minha epifania chocante de que os fundamentalistas religiosos estão corretos: sem Deus, não há nenhuma moralidade. Mas eles estão incorretos, eu ainda acredito, sobre a existência de um Deus. Por isso, eu creio que não há moralidade.

Você entendeu: os neo-ateus como Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Dennett e Sam Harris, são “ateus suaves”, porque eles negam a Deus mas ainda assim querem afirmar o realismo moral. O problema é que essa posição não é coerente nem estável, porque procura afirmar um fenômeno (neste caso, as normas morais objetivas) e ao mesmo tempo negar a estrutura metafísica que plausivelmente poderia explicar esse fenômeno. Marks resume como ele raciocinou o seu caminho do ateísmo “suave” para o “rígido”:

Por que eu agora aceito o ateísmo rígido? Bem, eu fiquei impressionado com os paralelos marcantes entre a religião e a moral, especialmente com o fato de que ambas valem-se de imperativos ou comandos que são destinados a serem aplicados universalmente. No caso da religião, e mais obviamente o teísmo, estes comandos emanam de um Comandante; “E a este todas as pessoas chamam de Deus”, como Aquino poderia ter escrito. O problema com o teísmo é, claro, são as razões instáveis para se crer em Deus. Mas o problema com a moralidade, eu afirmo agora, é que ela está em forma ainda pior que a religião neste respeito; pois se houvesse um Deus, Seus comandos fariam algum tipo de sentido. Mas se Deus não existe, como obviamente os ateus afirmam, então, que sentido poderia ser feito de haver comandos deste tipo? Em suma, enquanto os teístas assumem a existência óbvia de comandos morais como uma espécie de prova da existência de um Comandante, ou seja, Deus, eu agora tomo a não-existência de um Comandante como uma espécie de prova de que não existem comandos, ou seja, de que não existe a moral.

Em alguns aspectos, a confissão de Marks não é tão surpreendente. Afinal de contas, os teístas têm feito esse mesmo tipo de argumento (sem Deus, sem moral) por séculos. Além disso, um grande número de ateus influentes já fez a “boa confissão”: Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre, J. L. Mackie, e (mais recentemente) Alex Rosenberg.


Então eu não vou focar sobre o que acho que deve ser razoavelmente evidente para aqueles que refletiram sobre os fundamentos metafísicos da moralidade. Ao invés disso, quero me concentrar em alguns comentários que Marks faz na segunda parte do seu “Manifesto Amoral” que, embora tangencial às suas preocupações, creio ser bastante revelador e extremamente significativo. Pois o que Marks sugere nestas observações posteriores é que um ateu consistente deveria ser não só um amoralista que nega as normas morais objetivas, mas também um não-racionalista (i.e., alguém que nega a existência de normas racionais objetivas).

Ateísmo e Não-Racionalismo

Em uma seção intitulada “O que é a moralidade?”, Marks argumenta que, se (como ele acredita) o realismo moral é falso, devemos desistir de falar de “moralidade” de uma vez por todas (ao invés de, digamos, adotar uma posição de “como se fosse” ou então reequipar nosso vocabulário moral). A medida que ele explica as suas razões, observe a concessão que ele faz de passagem:

Eu sinto que o novo entendimento da moralidade como sendo mais mito que realidade é suficientemente importante para justificar a inconveniência de largar nossas maneiras habituais de falar e pensar sobre a Moralidade e aprender novas maneiras. Isso por duas razões. A primeira é o valor da própria verdade. Se é verdade que a moralidade metafísica não existe, então por essa razão apenas devemos acreditar que ela não existe. (Estritamente falando, eu deveria dizer: Se é racional acreditar que a moralidade metafísica não existe, então apenas por essa razão devemos acreditar). Observe que quando eu uso termos como “deveria”, “valor” e “garante” aqui, eu estou me referindo às normas epistêmicas, ou seja, aos padrões de conhecimento, e não às normas morais. Vou conceder que, no final, isso pode ser tanto uma questão de valor quanto de desejo subjetivo, pois algumas pessoas podem não se importar muito com a verdade (ou a racionalidade), ou pelo menos não colocam muita importância sobre ela, se, digamos , a alternativa seja a felicidade. Pense na pílula azul em Matrix. Logo, meu primeiro argumento se destina apenas para aqueles que tomariam a pílula vermelha.

Marks distingue aqui entre normas morais e normas epistêmicas. Brevemente definindo, as normas morais são padrões para o comportamento, enquanto que as normas epistêmicas são padrões para a crença; as normas morais estão conectadas com o comportamento correto, enquanto que as normas epistêmicas estão relacionadas ao pensamento correto. Quando falamos de “racionalidade” e “irracionalidade” estamos pressupondo que existem normas epistêmicas, assim como quando falamos de “moralidade” e “imoralidade” estamos pressupondo a existência de normas morais. Mas lembre-se que, como consequência de seu ateísmo, Marks agora nega que existam normas morais objetivas e reais. (“Por isso, creio eu, não há moralidade”.) Em vez de fazermos afirmações morais tradicionais, deveríamos apenas falar apenas de “valores ou desejos subjetivos”. Não existem verdades morais para debater ou aplicar em nossas vidas; tudo o que podemos adequadamente discutir são as nossas preferências e desejos pessoais.


Marks está ciente, no entanto, de que as normas morais e epistêmicas, apesar de distinguíveis, movem-se em órbitas semelhantes. Como o parágrafo anterior deixa claro, existem paralelos entre os dois tipos de normas, ainda que um tipo não possa ser reduzido ao outro. Assim, os motivos que Marks usa para negar a realidade das normas morais podem ser extrapolados (usando o mesmo fundamento) para negar a realidade das normas epistêmicas. Se você acha que falar de “moralidade” é realmente apenas “uma questão de valor ou desejo subjetivo”, o próximo passo natural é pensar que falar sobre “racionalidade” é “no final das contas … tanto uma questão de valor quanto de desejo subjetivo”. Em face disso, é difícil ver a razão pela qual, sob a cosmovisão ateísta, as normas epistêmicas existiriam enquanto que as normais morais não. Por que é que faria sentido falar em pensar corretamente mas não em agir corretamente? Por que haveriam padrões objetivos que governam nossas faculdades cognitivas mas não existiriam padrões objetivos que regem nossas outras faculdades? Para o ateu, existe uma linha muito tênue entre o amoralismo e o não-racionalismo.

Vamos nos aprofundar um pouco mais para estender o suporte para esta suposição. Por que o ateísmo convida o não-racionalismo? É comumente afirmado que o naturalismo metafísico é a cosmovisão ateísta mais consistente e parcimoniosa. De qualquer forma, eu acho que é seguro dizer que é a cosmovisão mais proeminente entre os intelectuais ateus de hoje. Como Alvin Plantinga observou, o naturalismo “é eminentemente atacável”:

Seu calcanhar de Aquiles (além de sua falsidade deplorável) é que não possui espaço para normatividade. Não há espaço, no naturalismo, para o certo ou o errado, o bom ou o ruim. (Alvin Plantinga, “Afterword,” in The Analytic Theist, ed. James F. Sennett (Eerdmans, 1998), p. 356.)

Eu acho que Plantinga está certo nesse ponto. Se o naturalismo implica que a única realidade é uma realidade cientificamente circunscrita (onde “ciência” é entendida em termos das ciências naturais: física, química e biologia). Tudo o que existe é suscetível às descrições e explicações científicas. No entanto, a ciência, por sua própria natureza, está restrita a afirmações descritivas. A ciência pode nos dizer qual é o caso, mas não pode nos dizer qual deveria ser o caso. A ciência não trata de afirmações normativas. Portanto, a ciência (e, por extensão, o naturalismo) não dá espaço para normas reais e objetivas da moralidade e racionalidade. “Não furtarás” não é uma afirmação científica. “Você não deve acreditar no que é logicamente inconsistente” também não é uma afirmação científica.


É certo que, apesar de o naturalismo ser a expressão mais natural do ateísmo, o ateísmo em si não implica no naturalismo. Existem alguns ateus não-naturalistas. De todas as maneiras, o ateísmo está, seguramente, comprometido com a ideia de que a realidade última (o que quer que ela seja) não é pessoal e é não-racional. Como tal, é difícil ver como uma cosmovisão ateísta poderia explicar a existência de normas epistêmicas objetivas, especialmente uma vez que ela já admite a ausência de normas morais objetivas.

LEVANTANDO AS OPÇÕES

Mas, novamente, vamos tentar ser mais específicos. Que tipo de opções o ateu tem quando se trata de compreender e explicar as normas epistêmicas? Aqui estão sete respostas possíveis; em cada caso, eu irei brevemente indicar a razão pela qual essa resposta não deve ser satisfatória para o ateu. (Nota: Não tenho a pretensão de dizer que estas opções são exaustivas ou mutuamente excludentes, apenas que elas são as únicas que se apresentam mais imediatamente).

Opção #1: As normas epistêmicas são apenas um subconjunto das normas morais. A partir desse ponto de vista, ser irracional é apenas ser imoral só que de uma maneira específica, isto é, ser intelectualmente irresponsável ou culpável. Esta é provavelmente a opção menos atraente para o ateu, porque isso significaria que o amoralismo implica no não-racionalismo. Qualquer dificuldade em explicar as normas morais sob o ponto de vista ateísta iria imediatamente aparecer nas tentativas de explicação das normas epistêmicas. (Existem outros problemas com esta opção, mas não irei tratar deles aqui).

Opção #2: As normas epistêmicas não são um subconjunto das normas morais, no entanto, são análogas. Isso não parece ser mais atraente para o ateu do que a primeira opção, uma vez que ainda conecta os dois tipos de normas de tal forma que elas tendem a permanecer juntas. Se os dois tipos de normas são análogos, então, presumivelmente, eles terão origens ou bases análogas. Mas se o ateísmo convida o amoralismo, então (por um argumento análogo) irá convidar o não-racionalismo também.

Opção #3: As normas epistêmicas são deontológicas na natureza; elas tratam de deveres ou obrigações intelectuais. Menciono isto como uma opção separada, embora eu suspeite que ela se reduz a #2 e #3. Em todo caso, essa não parece ser uma boa opção para o ateu. Deveres e obrigações só podem surgir em um contexto pessoal. Então quais são as pessoas que dão origem aos nossos direitos e obrigações intelectuais? Será que a raça humana como um todo de alguma forma impõe obrigações aos seus membros individuais? Ou alguns membros impõem obrigações a outros membros? Se assim for, com que autoridade? Por que eu devo isso a você ou a qualquer outra pessoa Porque devo usar minhas faculdades cognitivas de uma certa maneira? As funções intelectuais não parecem ser mais explicáveis, sob o ponto de vista ateísta, do que os deveres morais. Se um ateu poderia explicar último, presumivelmente, deveria explicar o primeiro. Mas não é esse precisamente o problema?

Opção #4: As normas epistêmicas são teleológicas na natureza; elas pertencem a finalidade ou função natural de nossas faculdades intelectuais. Eu acho que faz sentido entender algumas normas epistêmicas como teleológica na natureza. A epistemologia de função adequada de Alvin Plantinga é um caso em questão: pensar racionalmente é essencialmente usar as faculdades cognitivas da maneira que elas foram destinadas (leia-se: projetadas) a serem utilizadas, com a finalidade de adquirir crenças verdadeiras e evitar falsas. Mas, como Plantinga e outros observaram, enquanto que a epistemologia de função adequada se encaixa confortavelmente com o teísmo, ela não faz o mesmo com o ateísmo. É fácil perceber o porquê: o ateísmo não é amigo da teleologia na natureza. O apelo principal do darwinismo para os ateus é que ele pretende explicar a aparência de propósito e função na natureza sem qualquer apelo a causas finais (especificamente, sem qualquer causa final sobrenatural). Eu presumo que a única opção para um ateu aqui seria apelar para algum designer prévio dentro do universo natural, isto é, organismos não-humanos com consciência e inteligência (extraterrestres?) que de alguma forma despejaram sobre nós as nossas faculdades intelectuais. A falha em tal explicação é óbvia: ela só iria empurrar o problema um passo para trás. O que iria explicar as faculdades intelectuais desses organismos? Quais seriam os fundamentos de suas normas epistêmicas? (Aqueles que leram isso e acham que os teístas enfrentam o mesmo problema, não entenderam ainda as diferenças relevantes entre Deus e os organismos naturais).

Opção #5: As normas epistêmicas são de natureza subjetiva; elas estão fundamentadas em desejos, sentimentos, preferências, objetivos, ou algo humano nesse sentido. Deste ponto de vista, uma norma epistêmica como “a crença deve ser proporcional a evidência” é verdadeira por causa de certos estados psicológicos humanos (individuais ou coletivos). O problema, claro, é que essa posição é totalmente consistente com o não-racionalismo; que basicamente admite que não existem normas epistêmicas objetivas. O que estamos procurando aqui é uma explicação ateísta das normas epistêmicas objetivas. Essa opção está mais para uma rendição do que uma solução.

Opção #6: As normas epistêmicas são descrições de como nós normalmente pensamos. De acordo com essa resposta, ser racional é pensar normalmente, e ser irracional é pensar de forma anormal. O problema imediato aqui é a ambiguidade do termo “normal”. Isso pode significar simplesmente “comum” ou “regular” (como em “é normal haver trovoadas nesta época do ano”). Mas essa leitura não nos dará uma explicação adequada para as normas epistêmicas. Certamente não queremos dizer que ser racional é pensar da maneira que os seres humanos frequentemente ou regularmente pensam, como se o pensamento racional fosse apenas aquilo que é estatisticamente dominante. Isso seria confundir o descritivo com o prescritivo; confundir a epistemologia (como as pessoas devem pensar) com a psicologia (como as pessoas, de fato, pensam). Apenas considere o seguinte: se as pessoas regularmente formulassem suas crenças com base no achismo, isso faria o achismo ser algo racional?

Alternativamente, “normal” poderia significar “normativo”. Mas, então, essa resposta não seria nada mais que uma declaração vazia “as normas epistêmicas são descrições do que é epistemologicamente normativo”. A opção #6 desapareceria numa nuvem de tautologia, fazendo o ateu procurar outro lugar para uma explicação significativa das normas epistêmicas.

Opção #7: As normas epistêmicas são normas evolutivas, no sentido de que elas tem metas ou fins evolutivos; elas caracterizam operações e processos cognitivos que são vantajosos em termos evolutivos. Eu suspeito que muitos ateus irão gravitar em torno dessa opção pela mesma razão que eles gravitariam em torno de uma explicação evolutiva da moralidade. Na ausência de Deus, a pessoa tem pouca escolha a não ser buscar explicações puramente naturalistas do que somos, de onde viemos, e por que nos comportamos do jeito que nos comportamos. A Mãe Natureza e o Pai Darwin, em conjunto, entregarão as mercadorias.

A ideia básica, então, é que as faculdades cognitivas humanas evoluíram através de processos puramente naturais, com a seleção natural agindo sobre variações genéticas, e as normas epistêmicas caracterizam como essas faculdades cognitivas operam para nos dar verdadeiras crenças que servem ao propósito “final” de eficazmente se reproduzir e sobreviver. As operações ou processos cognitivos são racionais ou irracionais apenas no caso de tender a produzir, respectivamente, crenças verdadeiras ou falsas. As crenças verdadeiras promovem a sobrevivência. As falsas crenças dificultam a sobrevivência. Assim aquilo que é epistemologicamente normativo se reduz, em última análise, aquilo que é biologicamente vantajoso.

Existem vários problemas graves com esta explicação. Em primeiro lugar, a suposição de que a seleção natural tenderá a favorecer as faculdades cognitivas apontadas para a verdade é altamente questionável. Os organismos podem sobreviver eficazmente com falsas crenças assim como com crenças verdadeiras; na verdade, a maioria dos organismos do planeta se reproduzem e sobrevivem de forma muito eficaz, sem possuir qualquer tipo de crenças.

Além disso, como Plantinga e outros argumentaram, a evolução como um processo puramente naturalista seria totalmente cego ao conteúdo proposicional de nossas crenças e, assim, ao fato de elas serem verdadeiras ou falsas. (Veja, e.g., Alvin Plantinga, Where the Conflict Really Lies (Oxford University Press, 2011), pp. 316ff.) Dado o naturalismo, apenas as propriedades físicas dos nossos cérebros e as consequências físicas de nossos processos cerebrais poderiam ter qualquer influência causal sobre os resultados evolutivos. Em suma, a evolução não presta atenção ao que um organismo acredita que, apenas à maneira como ele se comporta. Como o filósofo Stephen Stich (entre outros) francamente admitiu, “a seleção natural não se preocupa com a verdade; se preocupa apenas com o sucesso reprodutivo”. (Stephen Stich, The Fragmentation of Reason (MIT Press, 1990), p. 62.)

Mas há um problema mais fundamental aqui. Mesmo se admitirmos que a evolução tenderia a favorecer faculdades cognitivas voltadas a crenças verdadeiras, uma explicação evolucionista das normas epistêmicas ainda seria aquém do esperado por esta simples razão: não há nada objetivamente normativo sobre os resultados evolutivos. A teoria evolucionista procura dar uma explicação naturalista sobre os organismos, de onde eles vieram e por que eles são do jeito que são. Mas é uma teoria descritiva – como deve ser quaisquer explicação derivada dessa teoria (como a explicação de nossas faculdades cognitivas). Do ponto de vista ateísta, não há nada objetivamente “certo” ou “errado” sobre o que a evolução produz. Os resultados da evolução não são objetivamente bons (ou objetivamente maus). Eles simplesmente são o que são.

O máximo que um ateu poderia dizer sobre a “bondade” ou o “acerto” de certos resultados evolutivos é que eles são subjetivamente bons: eles são bons porque nós mesmos os valorizamos (presumivelmente porque valorizamos coisas como nossa própria sobrevivência, crenças verdadeiras, experiências prazerosas, e assim por diante). Mas, nesse caso, a opção #7 entra em colapso com a opção #5 e o ateu não poderá seguir em frente. Da mesma forma, falar de “objetivos” ou “fins” evolutivos deve ser tratado como algo metafórico, uma vez que a evolução naturalista é, por definição, não direcionada e não intencional. Assim, se as “normas” epistêmicas devem ser explicadas em termos de tais “metas” ou “fins”, eles não podem ser tomados como literalmente normativos.

RESUMINDO

Como eu disse antes, eu não estou afirmando que essas são as únicas opções que o ateu poderia contemplar, mas elas parecem ser as principais. Sendo assim, eu diria que o ateu carrega o fardo da responsabilidade de indicar como as normas epistêmicas podem ser consistentemente explicadas sob um ponto de vista ateísta, especialmente se o ateu em questão já jogou as normas morais pela janela.

O que eu forneci aqui é pouco mais do que o esboço de um argumento. Mas a sua visão central pode ser simplesmente declarada da seguinte forma: dados os paralelos existentes entre as normas morais e as normas racionais, uma cosmovisão que luta para dar uma explicação consistente das primeiras também irá lutar para explicar as últimas.

Por conseguinte, eu afirmo que um ateu consistente deveria abraçar tanto o amoralismo (a negação das normas morais objetivas) quanto o não-racionalismo (a negação de normas epistêmicas objetivas). Ao menos os ateus que abraçaram abertamente o amoralismo também devem, por uma questão de coerência, defender o não-racionalismo, pois a lógica que leva do ateísmo ao amoralismo continua a avançar para o não-racionalismo. Alguns leitores podem levantar a questão de que eu não mostrei qualquer inconsistência lógica entre o ateísmo e a existência de normas epistêmicas objetivas. Isso é verdade, mas é igualmente irrelevante. O que temos aqui não é uma questão de consistência lógica rigorosa, mas sim de fundamento metafísico adequado.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts – Atheism, Amoralism and Arationalism
Tradução e adaptação: Erving Ximendes
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 3)

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Nesta série involuntariamente e lamentavelmente esporádica, eu estive considerando a pergunta: O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo? No primeiro post eu argumentei que a Bíblia afirma (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus acerca dos contrafactuais de liberdade da criatura (isto é, o conhecimento acerca do que qualquer agente criado irá livremente fazer se colocado em determinadas circunstâncias), mas o Molinismo não possui nenhuma vantagem sobre o Agostinianismo no que diz respeito a (1) e (2). Eu concluí com a seguinte afirmação:

“Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

No segundo post eu examinei um candidato para a proposição p: a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo (uma coisa que os molinistas invariavelmente afirmam, mas que os agostinianos normalmente negam). Cheguei à conclusão de que a Bíblia não oferece suporte para o incompatibilismo. Neste post eu vou considerar um segundo candidato a proposição p: a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos.


A BÍBLIA E A VONTADE SALVÍFICA DE DEUS

Alguns molinistas tem argumentado que a Bíblia ensina que Deus deseja a salvação de todos e que o Molinismo faz melhor justiça a este ensino do que seu principal rival, o Agostinianismo. Kenneth Keathley, por exemplo, em seu livro Salvation and Sovereignty, aponta três textos bíblicos em particular – João 3:16, 1 Timóteo 2:3-4 e 2 Pedro 3:9 – como exemplos de passagens que ensinariam a vontade salvífica e universal de Deus. Keathley então começa a argumentar que o Molinismo faz mais justiça a este ensinamento bíblico na medida em que afirma tal desejo divino e ao mesmo tempo dá uma melhor explicação sobre o porquê esse desejo não se realiza. (Keathley assume, como faço aqui, que o universalismo é falso).

Vamos começar examinando se o desejo de Deus para a salvação universal é realmente um ponto afirmado de forma clara e explícita nas Escrituras. João 3:16 deve ser o versículo mais conhecido na Bíblia:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” [ACF]

Observe cuidadosamente o que o texto diz e o que ele não diz. O texto fala que o amor de Deus para “o mundo” era tal que Deus enviou o seu Filho unigênito, com o objetivo de que todo aquele que nele crê (no Filho) tenha a vida eterna. O texto não diz que Deus deseja que cada pessoa creia e que, assim, tenha a vida eterna. Alguém poderia pensar que essa é uma implicação do texto, mas ela não é indicada explicitamente. Ela se torna uma implicação apenas se existem determinados pressupostos como, por exemplo, o pressuposto de que “o mundo” refira-se a todas as pessoas, e que o amor de Deus para X implica que Deus deseja que X tenha a vida eterna. Meu propósito aqui não é questionar essas suposições (embora eu vá, pelo menos, destacar que João em nenhum lugar de seu evangelho ou de suas epístolas usa
kosmos de uma maneira que implica “todas as pessoas”). Pelo contrário, meu objetivo é simplesmente observar que a ideia de que Deus deseja a salvação universal, mesmo que seja verdade, não pode ser extraída diretamente de João 3:16.

Considere agora 1 Timóteo 2:3,4

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” [ACF]

Este parece um pouco mais claro até você aprender que a palavra grega para ‘todos’ às vezes pode levar o sentido de todos sem distinção (em português: “todos os tipos”) ao invés de todos sem exceção. Qual o sentido que melhor se ajusta nesse caso? Bem, isso é uma questão de debate entre os comentaristas. Dado o contexto imediato (considerando como Paulo usa ‘todos’ nos versos 1-2), é razoável pensar que o objetivo de Paulo aqui não é dizer que Deus deseja que cada pessoa seja salva, mas sim que Deus deseja que as pessoas de todas as faixas – tanto aquelas de alto status como as da plebe como nós – sejam salvas. De acordo com o evangelho da graça, Deus não privilegia uma classe de pessoas em detrimento de outra quando se trata de salvação. Como Calvino afirmou: “Com isso, realmente outra não é sua intenção, senão dizer que Deus não fechou o caminho da salvação a nenhuma ordem de homens, senão que, antes, de tal modo derramou sua misericórdia, que não quer que algum dentre eles seja dela carente” (Institutas, 3.24.16) . Ainda que alguém não esteja completamente convencido dessa leitura do texto, se deve, pelo menos, admitir que é linguisticamente plausível e que faz sentido no contexto imediato.

Finalmente, vamos considerar 2 Pedro 3:9:

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se.” [AR]

Mais uma vez, em uma leitura superficial isto parece ser um gol olímpico dos molinistas: Deus deseja que todos se arrependam de modo que ninguém venha a perecer. No entanto, assim como o texto de 1 Timóteo 2, a declaração de Pedro deve ser interpretada no seu contexto. A abrangência de “ninguém” e de “todos” é qualificada pelo público a quem Pedro está escrevendo: o “convosco” no início do versículo. A segunda metade deve ser entendida assim: “não querendo que nenhum de vocês se perca, senão que todos vocês venham a arrepender-se”.

Agora, novamente, pode muito bem ser possível inferir uma reivindicação mais ampla sobre o desejo de Deus para a salvação universal, ao trazer consigo suposições teológicas complementares derivadas de outros textos e ensinamentos bíblicos. Meu objetivo aqui é apenas enfatizar que não há nenhuma afirmação clara e explícita de um desejo salvífico universal em 2 Pedro 3:9.

Para ser mais claro: eu não quero argumentar contra a ideia de que Deus deseja que todos sejam salvos. Acredito firmemente que Ele queira, mas num sentido devidamente qualificado. Estou simplesmente observando que não existem textos bíblicos que afirmam explicitamente essa ideia ou que diretamente a implicam. É uma inferência (e eu acho que garantida) a partir de uma série de diferentes textos interpretados em termos da abrangente linha de história bíblica .

Em todo caso, pode-se verificar que essa questão é em grande parte irrelevante quando se trata de avaliar o Molinismo. Porque, como irei argumentar agora, mesmo que venhamos a admitir que a Bíblia de fato ensina um desejo salvífico universal da parte de Deus, está longe de ser claro que o Molinismo faça mais justiça a esse ensino que o Agostinianismo.

SERÁ QUE O MOLINISMO TEM VANTAGEM SOBRE O AGOSTINIANISMO?

Vamos supor, então, que a Bíblia ensine que Deus deseja que todos sejam salvos. Será que o Molinismo acomoda melhor esse ensino que o Agostinianismo? Os molinistas também acreditam que, ao contrário do que Deus deseja, nem todos serão salvos. Logo, os molinistas devem conciliar estas duas reivindicações:

A: Deus quer que todo o mundo seja salvo.
B: Nem todo mundo será salvo.

Existem basicamente duas opções aqui para o molinista. A primeira é dizer que nem todo mundo é salvo porque a garantia de salvação universal não estava dentro do poder de Deus. Precisamos lembrar, porém, que os molinistas desejam afirmar a providência divina abrangente, segundo a qual tudo no mundo ocorre de acordo com um eterno decreto divino. Assim, a partir de uma perspectiva molinista, dizer que Deus não poderia garantir que todos fossem salvos é equivalente a dizer que Deus não poderia ter eternamente decretado a salvação de todos, o que significa (em termos molinistas) que Deus não poderia tornar real um possível mundo possível onde todos fossem salvos (ou, sendo mais preciso, que Deus não poderia tornar real um mundo onde todas as pessoas que existem naquele mundo fossem também salvas nele).


Lembre-se que no esquema molinista, Deus não pode tornar real qualquer mundo possível. A escolha de qual mundo irá se tornar real é limitada pelos contrafactuais de liberdade da criatura (uma liberdade não-determinista). Há um subconjunto de mundos possíveis (às vezes chamados de mundos “viáveis”) em que Deus é capaz de tornar real com base no seu conhecimento médio. Assim, de acordo com esta primeira opção, o molinista estaria dizendo que apesar de existirem possíveis mundos onde todos são salvos, não há mundos factualizáveis onde todos são salvos (presumivelmente, Deus queria que houvessem alguns desses mundos, mas isso estava além de Seu controle. Deus só podia jogar com as cartas que tinha, e a mão que deram a Ele não foi a melhor possível).

Logo, nesta primeira forma de conciliar A e B, Deus não poderia satisfazer seu desejo de salvação universal simplesmente porque não havia mundos factualizáveis onde a salvação universal de fato ocorresse. A dificuldade para o molinista, no entanto, é que não existe apoio bíblico positivo para tal afirmação. Além disso, não há boas razões teológicas ou filosóficas para crer em tal afirmação, a menos que você já esteja comprometido com o Molinismo. O melhor que o molinista pode fazer aqui é insistir que “pelo que sabemos” não existem mundos factualizáveis onde todos são salvos; em outras palavras, que nada do que conhecemos tem o poder de descartar isso. Mas, claramente, isso não é bom o suficiente para estabelecer os credenciais bíblicos do Molinismo. O que precisamos aqui é de alguma razão para achar que o Molinismo se ajusta melhor aos dados bíblicos que seus concorrentes.

A segunda maneira do molinista conciliar A e B é propor que Deus poderia ter tornado real um mundo onde todos são salvos, mas que ele tinha uma razão primordial para não fazê-lo. Os molinistas podem oferecer (e têm oferecido) várias sugestões quanto a qual seria esse motivo:

  • Talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorresse fossem mundos muito escassamente povoados e, portanto, apenas um número relativamente pequeno de pessoas iria desfrutar das bênçãos da salvação.
  • Na verdade, talvez a maior preocupação de Deus não é concretizar um mundo onde todos são salvos, mas sim concretizar um mundo onde existe um equilíbrio global otimizado entre salvos e não salvos (como o William Lane Craig propõe aqui).
  • Uma sugestão intimamente relacionada: talvez a maior preocupação de Deus seja concretizar um mundo onde a felicidade humana líquida (o que levaria em conta tanto a felicidade total dos salvos e a infelicidade total dos perdidos) é maximizada.
  • Como alternativa, talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorre também viriam a ser mundos onde há terríveis males morais que ultrapassam o bem da salvação universal (ou, mais precisamente, superam o bem da salvação de todos os seres humanos caídos nesse mundo).

No final, realmente não importa o motivo específico que o molinista ofereça aqui, porque a lógica subjacente é a mesmo: sendo tudo igual, Deus iria tornar real um mundo onde todos são salvos, mas todo o resto já não seria igual.

Uma vez que o molinista faz essa jogada, no entanto, o jogo para, pois o agostiniano pode e, de fato, faz a mesma jogada. Os agostinianos irão afirmar que Deus poderia ter decretado um mundo onde todos são salvos, mas Deus tinha uma boa razão primordial para não fazê-lo. Ele pode até mesmo concordar que com todo o resto sendo igual, Deus teria decretado a salvação universal, mas tudo não continuaria a mesma coisa: Deus tinha outras considerações (mais elevadas). Em toda a probabilidade o agostiniano irá apontar para o desejo de Deus de expressar sua liberdade soberana na eleição e glorificar a si mesmo através da exibição tanto de sua misericórdia (na salvação imerecida de alguns seres humanos caídos) e da sua justiça (na justa condenação de outros seres humanos caídos). Na verdade, o agostiniano pode citar Romanos 9:14-24 como apoio bíblico positivo para a sua posição, que é muito mais do que o molinista pode fazer em relação às especulações sobre as razões de Deus (voltarei a esse ponto depois).

Mais uma vez vemos que o Molinismo está, na melhor das hipóteses, empatado com o Agostinianismo em relação aos dados bíblicos. Mesmo admitindo que a Bíblia ensine o desejo de salvação universal da parte de Deus, o Molinismo não faz mais justiça que o Agostinianismo em relação a esse ensino (isto é, não é melhor em conciliar esse ensino com o ensino bíblico adicional  de que alguns não serão salvos).

Na próxima parte desta série, irei considerar um outro candidato para a proposição p, sendo mais específico, a proposição de que Deus não é “o autor do pecado”.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
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Não levantarás falso testemunho

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A famosa pergunta “O que é a verdade?” feita por Pilatos refletia um ceticismo exausto em relação a própria ideia de verdade ao invés de ser uma investigação filosófica séria, como muitos propõem. Quão trágico é que um homem confiado a resolver questões de vida e morte pudesse expressar uma atitude tão cínica. E quão diferente deveria ser a atitude dos cristãos, afinal Jesus os descreve como aqueles que “são da verdade” (João 18:37).

O valor supremo da verdade é evidenciado pelo nono mandamento: “Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex. 20:16). O mandamento tem uma preocupação imediata com a verdade num contexto judicial. Deuteronômio 19:15-21 dá instruções sobre testemunhos num caso criminal. Uma testemunha apenas é insuficiente para estabelecer uma acusação, deve haver duas ou três (Deut. 17:6, Mat. 18:16, 2 Cor. 13:1, 1 Tim 5:19). Se há alguma dúvida em relação a integridade da testemunha, os juízes devem “investigar de forma diligente”, e se descobrem que ela é uma “falsa testemunha” (Em hebraico, eid-sheker, mesmo termo usado em Ex. 20:16), ela deve receber a mesma sentença que seria aplicada aquele que estava sendo acusado. Portanto, o perjúrio trazia consigo a possibilidade de pena de morte dentro da Lei Mosaica.

Uma das bases lógicas para a proibição do falto testemunho é que a justiça requer a verdade. Se esperamos que a justiça seja feita no Tribunal, todos os fatos relevantes ao caso devem ser feitos conhecidos, o que requer que todas as testemunhas falem “a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade”. Justiça significa que o acusado é devido a verdade, independentemente de ele ser inocente ou culpado. O oitavo e o nono mandamento estão intimamente conectados: levantar falso testemunho é uma forma de rouba, é reter de alguém algo que é seu por direito. Um princípio similar se aplica a difamação: manchar o nome de alguém inocente é como roubar algo precioso (Prov. 22:1; Ecl. 7:1).

É claro, o nono mandamento não está restringido aos tribunais. Como todo o resto das Escrituras deixa abundantemente claro, falar a verdade é um dever moral fundamental e a honestidade é uma virtude moral básica. Os justos são caracterizados pela veracidade (de fato, eles “amam a verdade” conforme Zac. 8:16,19), enquanto que os ímpios tem “lábios mentirosos” (Sl. 31:18, 120:2, Prov. 10:18, 12:22, Sl. 101:7, Prov. 12:17, Jer. 9:5, Ose. 4:1-2). Uma das maneiras pela qual amamos nosso próximo é falando a verdade (Ef. 4:15,25).

Porque falar a verdade é tão importante? Como sempre, na ética cristã, a resposta é fundamentalmente teológica. Deus é “o Deus da verdade” (Isa. 65:16). A veracidade é um atributo essencial de Deus e de Sua Palavra (Jo. 4:23-24, 14:17, 15:26, 16:13, 17:17; 2 Tim. 2:15; Tito 1:2; 1 Jo. 4:6, 5:6). Por outro lado, falar mentiras reflete o caráter de Satanás e aqueles que o seguem (Jo. 8:44; 1 Tim. 1:10; 1 Jo. 2:22; Apo. 21:8). Como fomos criados a imagem de Deus, designados a refletir sua semelhança, devemos falar a verdade da mesma forma que Deus o faz. O nono mandamento, não menos que o sexto mandamento, depende da doutrina imago Dei.

Apesar de a maioria dos Dez Mandamentos terem uma forma negativa (“Não…”), cada um deles tem uma aplicação tanto positiva quanto negativa. Guardar o nono mandamento não se trata simplesmente de uma questão de evitar declarações falsas. Como o Catecismo Menor de WestminsterPerguntas e Respostas 77 reconhece, o mandamento também requer que busquemos e promovamos ativamente a verdade em nossas relações com os outros.

Promover a verdade envolve muito mais do que apenas fazer afirmações verdadeiras, pois é possível induzir ao erro sem proferir uma única declaração falsa. Se eu fosse escrever um relatório sobre alguém, enfatizando suas falhas ao mesmo tempo que ignoro toda virtude e valor desse alguém, todas as afirmações do meu relatório seriam verdadeiras, mas tomando-o como um todo não seria algo que se encaixaria em “promover a verdade”. Promover a verdade significa dar uma representação justa e exata das coisas como elas são, mesmo quando isso vai contra os nossos próprios interesses. Da mesma forma, devemos falar a verdade com um grau adequado de precisão, não sendo vagos ou ambíguos, de tal forma que obscureceríamos a verdade por motivos de interesse próprio ou para evitar a responsabilidade de nossas palavras. Em suma, promover a verdade significa amar a verdade, não para o seu próprio bem, mas partindo de um amor sincero a Deus e ao próximo.

Em dias que a confiança em figuras públicas está cada vez mais baixa, em que os meios de comunicação não fazem diferença entre notícias e propagandas, e em que o pós-modernismo enterra o próprio conceito de verdade, é imperativo que os cristãos se separem da cultura que os envolve e que sejam distinguidos por sua honestidade, integridade e fidelidade. Devemos ser homens de palavra porque, precisamente, somos homens da Palavra de Deus.

“O que é a verdade?” é uma pergunta filosófica importante, apesar do cinismo de Pilatos. Mas uma pergunta ainda mais importante pode ser feita: “Quem é a verdade?”. O homem que permanecia diante de Pilatos já havia dado Sua resposta (Jo. 14:6). Se afirmamos conexão com Cristo, nossas relações com crentes e descrentes devem corroborar nossa confissão de fé. Só podemos testemunhar a Verdade de forma fiel se formos conhecidos por testemunhar a verdade.

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 2)

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Esse será o segundo post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10.

Nesta curta série, estou considerando a seguinte pergunta: “O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo?”. No primeiro post, eu resumi como eu pretendo abordar a questão, antes de olhar para dois ensinos bíblicos que o Molinismo procura acomodar: (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus sobre os contra-factuais de liberdade da criatura. Cheguei à conclusão de que, apesar de a Bíblia, de fato, afirmar (1) e (2), e o Molinismo ser consistente com a Bíblia nesses pontos, o Agostinianismo também é. Logo, o Molinismo não detém vantagem alguma sobre o Agostinianismo com respeito a (1) e a (2). Eu, então, acrescentei:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo molinismo e negada pelo agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Nos próximos posts eu quero examinar três potenciais candidatos para a proposição p do lado molinista: (1) que o incompatibilismo é verdadeiro; (2) que Deus deseja que todos sejam salvos; e (3) que Deus não é o autor do pecado.



Incompatibilismo acerca do livre arbítrio

Como eu disse no primeiro post, os molinistas estão comprometidos com uma visão libertária do livre-arbítrio, e isso envolve duas reivindicações básicas:

Incompatibilismo: A verdadeira liberdade é incompatível com o determinismo.
Liberdade: Nós fazemos, pelo menos algumas, verdadeiras escolhas livres, i.e., escolhas pelas quais podemos ser considerados moralmente responsáveis.

Em conjunto, essas duas afirmações implicam que o determinismo é falso, mas, como os compatibilistas geralmente concordam que nós, de fato, fazemos escolhas verdadeiramente livres, a primeira reivindicação é o que realmente distingue os libertários dos compatibilistas.


Portanto, a questão que realmente importa aqui é saber se a Bíblia oferece algum suporte para o incompatibilismo. Antes de responder a essa pergunta, no entanto, gostaria de fazer duas observações preliminares. A primeira é esta: Eu argumentei antes que existem diferentes tipos de determinismo e que, em certos sentidos não-triviais, o Molinismo é determinista. O que o molinista realmente rejeita é o determinismo causal, ou seja, a tese de que todo evento é implicado por causas anteriores suficientes. Assim, quando considerarmos a reivindicação incompatibilista no que se segue, devemos entendê-la como a alegação de que a liberdade é incompatível com determinismo causal.

Em segundo lugar, apesar de não haver dúvidas de que os molinistas são comprometidos ao libertarianismo, existe um debate se os agostinianos são comprometidos ao compatibilismo ou não.

Felizmente, não precisamos resolver esse debate aqui. Ou o agostinianismo é consistente com uma visão libertária do livre arbítrio ou não é. Se ele for compatível com o libertarianismo, segue-se que qualquer apoio bíblico a favor do mesmo (se existir) não favoreceria o molinismo sobre o agostinianismo. Se não for, o molinismo teria vantagem somente se a Bíblia oferecesse algum suporte para o incompatibilismo. Mas, como irei argumentar agora, isso não é o que acontece.

Até onde tenho conhecimento, não há nada na Bíblia que chegue perto de, explicitamente ou diretamente, implicar no incompatibilismo sobre o livre arbítrio, ou seja, que implique que a verdadeira liberdade seja incompatível com o determinismo causal. Na verdade, é difícil até imaginar como seria tal afirmação. Certamente, não devemos esperar que a Bíblia afirme explicitamente que a liberdade (ou a responsabilidade moral) seja incompatível com o determinismo. E seria raciocínio circular argumentar algo como: “A Bíblia ensina que nós fazemos algumas livres escolhas; o determinismo é incompatível com a livre escolha; portanto, a Bíblia implica que nós possuímos um livre-arbítrio não-determinista”. Tal argumento meramente assume o incompatibilismo como uma de suas premissas. A questão é se a Bíblia oferece algum apoio independente a favor dela.

Quando os molinistas (juntamente com outros cristãos que defendem o libertarianismo) são chamados a defender seu ponto de vista sobre o livre-arbítrio, eles raramente apelam diretamente a textos bíblicos pela simples razão de que não existem textos bíblicos que servem para esse fim. Normalmente eles irão apelar para intuições de senso comum sobre o livre-arbítrio ou a um ou mais argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo. Então, a defesa deles se torna algo do tipo: 1 – a Bíblia afirma que podemos fazer escolhas livres (ou seja, escolhas pelas quais somos moralmente responsáveis); 2 – as escolhas livres devem ser libertárias (apelando a intuições e/ou a argumentos filosóficos); portanto, a Bíblia dá suporte ao libertarianismo (ao menos indiretamente).

Esta linha de raciocínio pode ser criticada de diversas maneiras. Em primeiro lugar, a noção de que o libertarianismo é a visão de senso comum sobre livre-arbítrio é altamente questionável. Uma série de estudos têm sido feitos sobre a questão e não estamos nem perto de um consenso. Dependendo de quais perguntas são feitas (e como exatamente essas questões são enquadradas), parece que a intuição de algumas pessoas as inclina para o incompatibilismo e outras inclinam-se para o compatibilismo. Na verdade, parece que muitas pessoas têm intuições conflitantes quando se trata de livre arbítrio e responsabilidade moral.

Quanto aos argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo, mais uma vez, o júri não se decidiu. Admito que existam alguns argumentos impressionantes a favor do incompatibilismo, mas também existem respostas, igualmente impressionantes, a esses argumentos. Além disso, existem argumentos filosóficos pesados contra as descrições libertárias (por exemplo, a objeção da sorte e a objeção do “o indeterminismo não ajuda em nada”). Na situação que o debate sobre o livre-arbítrio está atualmente, é justo dizer que o campo está dividido igualmente entre compatibilistas e incompatibilistas. Além do mais, os últimos nem sempre são libertários; entre os incompatibilistas, temos alguns que são céticos, e até mesmo negam, o livre arbítrio.

Em todo caso, tudo isso é (em grande parte) irrelevante. Lembre-se que a questão que estamos considerando aqui é se algum ensinamento bíblico favorece o molinismo quando deparado ao agostinianismo. Apelos a intuições extra-bíblicas ou a argumentos filosóficos, obviamente, não contam como ensinamentos bíblicos!

Há um versículo, no entanto, que muitos libertários têm apontado como dando apoio ao livre-arbítrio não-determinístico:

Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar. (1 Coríntios 10:13)

A sugestão é que o apóstolo Paulo está afirmando (ou, pelo menos, assumindo) alguma versão do Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA):

PPA: Uma pessoa é moralmente responsável por uma ação apenas se essa pessoa pudesse ter agido de outra maneira (ou seja, capaz de fazer o contrário).

O argumento é mais ou menos o seguinte: Paulo está dando aos Coríntios (e por extensão, a todos os cristãos) a garantia de que sempre que um crente é confrontado com uma tentação ao pecado, Deus irá garantir que o crente tenha a capacidade de resistir a essa tentação e não sucumbir a ela. Em outras palavras, quando um crente é tentado a cometer algum pecado, Deus irá garantir fielmente que o crente tem a capacidade de fazer o contrário, ou seja, de não cometer o tal pecado. O crente tem, assim, o poder de escolha contrária – ou seja, ele possui um livre arbítrio libertário. (Este argumento assume, razoavelmente o bastante, que o crente é moralmente responsável se ele resistir ou não à tentação).


Existem, no entanto, vários problemas neste apelo a 1 Coríntios 10:13:

1. Existe uma discussão (mesmo entre os libertários) sobre a veracidade do PPA (e, de fato, sobre qual versão do PPA é verdade, pois existem variações da versão básica mencionada acima). Alguns defensores do libertarianismo argumentam que a condição sine qua non do livre-arbítrio libertário não é o PPA, mas sim alguma outra condição, como a condição da “fonte final” (ou seja, uma pessoa faz uma livre escolha somente se ela é a “fonte final” dessa escolha). Assim, mesmo que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, não seria uma consequência lógica que o verse também desse suporte ao libertarianismo.

2. Não somente existem libertários que rejeitam o PPA, como também existem alguns compatibilistas contemporâneos que o endossam (ou, pelo menos, uma versão  compatibilista do PPA). Existem maneiras de entender as frases “poderia ter agido de outra maneira” e “capaz de fazer o contrário ” que são consistentes com o determinismo causal. Assim, ainda que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, isso não seria garantia de que desse suporte apenas à versão incompatibilista do PPA. Claramente, o que Paulo diz no texto não é detalhado o suficiente para distinguir a compreensão compatibilista da libertária do termo “capacidade” (crucial ao texto).

3. Observe duas coisas sobre as declarações de Paulo no verso: Em primeiro lugar, elas são dirigidas especificamente aos crentes, e não para todos os seres humanos (veja o 1 Cor. 10: 1). Em segundo lugar, eles indicam que Deus proverá, ativamente, algo para os crentes (algo que eles não teriam de alguma outra maneira no curso normal dos acontecimentos). Então, se essa garantia de Paulo realmente implica uma visão libertária do livre-arbítrio, implica também que a liberdade não-determinista é algo que Deus vai ativamente (de forma sobrenatural?) conceder aos cristãos quando esses enfrentarem as tentações. Mas isso não é suficiente para o molinista. Pois, de acordo com o mesmo, todos os seres humanos têm uma liberdade não-determinista durante o curso normal dos acontecimentos (já que a liberdade não-determinista é para eles uma condição necessária para a responsabilidade moral). Ao final das contas, uma leitura libertária de 1 Coríntios 10:13 vai contra os pressupostos básicos da Molinismo.

Então aqui está a conclusão. 1 Coríntios 10:13 não oferece apoio claro a uma visão incompatibilista do livre arbítrio. Há maneiras simples e consistentes com o compatibilismo de entender essa garantia paulina. Na realidade, a única maneira de sair com uma noção de livre-arbítrio não-determinista a partir desse texto é ao adicionar vários argumentos filosóficos a ele (de que o PPA é o princípio distintivo do libertarianismo, de que as versões compatibilistas do PPA são inadequadas, etc.) e, mesmo assim, o verso não vai levar ao libertarianismopara todos” como proposto pelo Molinismo.

Eu não estou ciente de qualquer outro texto ou ensinamento bíblico que ofereça algum apoio direto a favor do incompatibilismo sobre o livre arbítrio. Concluo, portanto, que não há tal apoio. No próximo post desta série, vou considerar se o ensino bíblico de que Deus deseja que todos sejam salvos favorece o molinismo sobre o agostinianismo.

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Nota: Para algumas críticas incisivas do apelo molinista/arminiano a 1 Cor. 10:13, veja os seguintes posts de Steve Hays:

Molinismo e 1 Cor 10:13 (Traduzido por Alison Aquino)

Rota de Escape (em inglês)
Escolha contrária (Traduzido por Alison Aquino)
Contrafactuais e escolhas contrárias (em inglês)
Eterna Insegurança (em inglês)

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Corazim, Betsaida e o Molinismo

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Considere este post como uma (longa) nota ao meu post anteriorUm dos textos preferidos dos molinistas é Mateus 11:21-24, porque o mesmo indica (1) que existem contrafactuais verdadeiros de liberdade, isto é, verdades sobre o que as criaturas livres teriam feito em diferentes circunstâncias, e (2) que Deus sabe destes contrafactuais. No post anterior eu apontei que, apesar de (1) e (2) apoiarem o Molinismo quando confrontado com pontos de vista como o Teísmo Aberto, eles não o favorecem se comparado ao Agostinianismo, já que o mesmo também afirma (1) e (2). (O ponto onde o Molinismo e Agostinianismo divergem, pelo menos, filosoficamente, está no que diz respeito à natureza da liberdade da criatura e como o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais da liberdade se relacionam com seu decreto eterno.)

Neste post eu quero destacar um comentário feito por Dan como incentivo a um exame mais detalhado de Mateus 11:21-24 e sua relevância para o debate entre molinistas e agostinianos. Dan escreveu:

Um dos clássicos “textos de prova” em favor do conhecimento médio também parece resistente a uma leitura agostiniana/calvinista e parece favorecer a liberdade não-determinista. Mateus 11:21 diz: “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza”.
No calvinismo, a graça irresistível (também conhecida como “regeneração monergista” ou “chamado eficaz”) determina a conversão de tal forma que qualquer pessoa, dada a graça irresistível de Deus, não pode resistir e irá eventualmente se arrepender. Além disso, sem a graça irresistível, ninguém pode se converter devido a sua depravação.
Por esse versículo, sabemos que o povo de Corazim não se arrependeu, mas o povo de Tiro teria se arrependido se as mesmas obras tivessem sido feitas lá. Tiro era notoriamente pecaminosa, então a comparação tem como propósito envergonhar as pessoas de Corazim. Eles realmente tiveram uma grande oportunidade de se arrepender, logo, sua escolha de permanecer no pecado foi mais perversa do que a de Tiro. No entanto, no Calvinismo, Deus não deu ao povo de Corazin a única coisa que Ele sabia que poderia ativar e causar o arrependimento: a graça irresistível. Isso por si só é problemático!
Mas há um outro problema que diz respeito ao povo de Tiro. Nem as pessoas de Corazim nem as de Tiro se arrependeram. No calvinismo, poderíamos concluir com segurança que nenhum deles recebeu a graça irresistível, porque se tivessem recebido, eles se arrependeriam. Mas o versículo nos dá o contra-factual: o povo de Tiro teria se arrependido, se as mesmas obras fossem ali realizadas. Então, como é que Tiro poderia se arrepender sem a graça irresistível? No calvinismo, ficamos com a contradição de que a graça irresistível tanto é quanto não é uma condição necessária para o arrependimento.
Para evitar o problema, alguns podem dizer que o arrependimento não é verdadeiro arrependimento. Mas Cristo pregou sobre o verdadeiro arrependimento: arrependam-se pois o Reino de Deus está próximo! Ele nunca usa “arrependimento” como falso arrependimento e Ele sempre denuncia qualquer pretensão exterior de conversão e expõe qualquer auto-engano e falsa segurança. Além do mais, isso invalida (provavelmente inverte) o principal objetivo de Cristo de dizer as pessoas de Corazim que elas eram piores do que as de Tiro. É melhor recusar a ceia do Senhor do que participar de forma fingida, é melhor não saber o caminho da justiça do que conhecê-lo e sair dele, logo, é melhor viver em pecado aberto do que viver com um falso arrependimento. Portanto, se o arrependimento é um falso arrependimento, o povo de Corazim é melhor do que o de Tiro, porque eles evitaram um falso arrependimento. Mas isso é o oposto do que Cristo quer dizer.
A melhor solução parece ser negar a graça irresistível e dizer que o homem tem liberdade não-determinista em relação a resistir a graça de Deus.

Estas observações são certamente interessantes e merecem uma resposta. Mas, antes de entrar em detalhes, vamos considerar os detalhes do contexto em seus próprios termos:

Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti. (Mateus 11:20-24)

O texto nos diz explicitamente que o propósito de Jesus ao dizer estas palavras era “denunciar as cidades”, porque elas não se arrependeriam apesar de ter testemunhado muitos dos milagres que Jesus havia realizado. Eles tinham provas suficientes, mas recusaram reconhecer a autoridade de Jesus e desprezaram seu convite ao arrependimento. De forma mais específica, a denúncia de Jesus se dá com uma comparação com as antigas cidades notoriamente depravadas de Tiro, Sidom, e Sodoma.

Agora, será que essas declarações de Jesus apoiam as afirmações molinistas da forma que Dan nos está sugerindo? Em primeiro lugar, não é óbvio que devamos supor que Jesus esteja fazendo a afirmação contrafactual precisa que os molinistas assumem. Certamente Jesus está fazendo declarações assertivas aqui. Mas será que ele está realmente afirmando algo tão específico como uma verdade contrafactual literal sobre o que as pessoas dessas cidades antigas teriam feito se Jesus tivesse realizado os mesmos milagres diante deles? (Devemos notar, de passagem, que esse teria sido um possível mundo muito diferente deste!)

A questão que Jesus trata aqui é simplesmente que o povo de Corazim e Betsaida tinha um coração endurecido e que eles eram merecedores do Juízo por sua incapacidade de se arrepender; na verdade, eles foram ainda mais teimosos e culpáveis do que o povo de Tiro e Sidom. Esse ponto não implica por si só a precisa reivindicação contrafactual que Dan e outros molinistas assumem. A título de comparação, suponha que eu fosse repreender um dos meus filhos, dizendo: “Se eu lhe pedisse isso mil vezes, ainda assim você não faria o que lhe foi dito!”. Em face disso, essa afirmação tem a forma de um contrafactual de liberdade (se S estava na condição C, S faria/não faria A). Mas será que eu estou mesmo afirmando a proposição específica de que meu filho não faria o que eu havia pedido se ele realmente se encontrasse em circunstâncias em que eu lhe havia dito isso mil vezes (literalmente!)? Sugerir isso seria claramente interpretar excessivamente minhas palavras. Colocando em termos técnicos: essa interpretação acabaria perdendo o verdadeiro conteúdo proposicional da minha fala.

Naturalmente, o fato de que minha declaração não tinha o propósito de ser tomada de forma literal não significa que a proposição contrafactual seja falsa. A questão aqui é o significado da minha declaração (ou seja, qual proposição está expressando) ao invés de sua veracidade (ou seja, se a proposição expressa é realmente verdadeira). Ao fazer essa declaração, estou basicamente afirmando algo sobre a teimosia do meu filho. E o que estou afirmando é verdadeiro!

Da mesma forma, ao questionar se Jesus está realmente afirmando a proposição contrafactual que Dan assume que ele esteja, eu, enfativamente, não estou sugerindo que Jesus poderia afirmar algo falso. Ao contrário, estou sugerindo que a verdade que Ele está afirmando é muito mais simples: as pessoas de Corazim e Betsaida são teimosas e duras de coração (até mais do que o povo de Tiro e Sidon) e elas serão julgadas por isso. E essa verdade é tão consistente com a perspectiva agostiniana quanto com a perspectiva molinista.

A lição então é que os molinistas provavelmente colocam mais peso sobre este texto do que ele realmente contém. Quando prestamos atenção ao argumento que Jesus está fazendo, podemos ver que suas palavras não contém o tipo de vinculações filosóficas que apoiariam as reivindicações molinistas acerca dos contrafactuais de liberdade. Adaptando uma fala de Ludwig Wittgenstein: Os molinistas estão fazendo a “linguagem comum” de Jesus sair em férias.

Mas vamos supor que eu esteja errado sobre tudo isso. Vamos supor que Jesus realmente esteja afirmando proposições contrafactuais que Dan e outros molinistas acham que Ele esteja. Será que isso iria favorecer o Molinismo sobre o Agostinianismo, sabendo que este último rejeita a liberdade não-determinista e afirma a graça irresistível?

Uma questão importante diz respeito ao tipo de arrependimento tratado no versículo 21. Dan afirma que este deve ser “o verdadeiro arrependimento” ao invés de um “falso arrependimento”. Mas eu estou em dúvida sobre essa dicotomia simples. Parece-me que a Bíblia deixa espaço para um tipo de arrependimento que é genuíno até certo ponto (ou seja, não é totalmente sincero, não também não é um mero teatro) e ainda assim é não-salvífico (ou seja, fica aquém da verdadeira conversão espiritual). O arrependimento dos ninivitas no livro de Jonas pode muito bem ser um exemplo de tal arrependimento.

Se um arrependimento não-salvífico e limitado desse tipo está em vista no versículo 12, as questões que Dan levanta sobre a Depravação Total e a Graça Irresistível estão além da discussão. E isso não iria mudar em nada a denúncia que Cristo faz. Jesus, na realidade, estaria dizendo algo como: “Se os meus milagres tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, eles teriam se arrependido [isto é, com um limitado arrependimento não-salvífico], mas vocês têm visto os milagres e não responderam a eles com nenhum tipo de arrependimento! “Tal leitura seria inteiramente consistente com a observação (correta) de Dan de que “o principal objetivo de Cristo era dizer que as pessoas de Corazim eram piores do que as de Tiro”.

Mas mais uma vez, vamos assumir a suposição de Dan para o bem do argumento, ou seja, vamos assumir que o arrependimento no versículo 21 deve ser arrependimento totalmente salvífico. Isso iria levantar um problema para o Agostinianismo/Calvinismo? Eu não penso assim, e vou explicar por que, em resposta ao argumento de Dan.

Dan observa que, na visão calvinista, nem o povo de Tiro nem o de Sidom, nem as pessoas de Corazim ou Betsaida haviam recebido a Graça Irresistível, porque se eles tivessem, teriam se arrependido. Isso é verdade: decorre da própria definição de Graça Irresistível. (Eu prefiro falar de “graça eficaz”, mas não vamos tergiversar sobre rótulos.) Dan assume ainda mais, no entanto, que, no cenário contrafactual em que Tiro e Sidom se arrependeriam em resposta às grandes obras, eles não haviam recebido a Graça Irresistível. Assim, ele conclui que o versículo 21 não se ajusta com aquilo que o calvinista alega (que ninguém pode se arrepender sem graça irresistível).

Mas esta suposição é injustificada. Na interpretação padrão de contrafactuais, precisamos considerar se o efeito do contrafactual (de Tiro e Sidom se arrependerem) é verdade no mais próximo mundo possível em que o fator antecedente (i.e., o povo de Tiro e Sidon ver as grandes obras) é verdade. Por tudo o que sabemos, o mais próximo mundo possível é aquele em que o povo de Tiro e Sidom recebem a Graça Irresistível. Certamente, Dan não nos deu nenhuma boa razão para excluir esta possibilidade. Tendo em conta que em uma visão compatibilista da liberdade, as livres escolhas de uma pessoa são determinadas não só por fatores internos a essa pessoa, mas também por fatores externos (ou seja, circunstâncias), e que podem haver relações causais complexas entre esses fatores internos e externos, seria difícil de refutar esta suposição. Deus trabalha fora seu decreto através de uma multiplicidade de meios inter-relacionados. Por que o mundo mais próximo possível em que Deus decreta que os milagres de Cristo seriam realizados em Tiro e Sidom não poderiam também ser um mundo onde Deus leva Tiro e Sidom ao arrependimento através de sua Graça Irresistível?

Com efeito, para levar a discussão um pouco mais adiante, por que os milagres não podem fazer parte dessa graça irresistível? (Créditos a Paul Manata por sugerir essa idéia). No coração da doutrina da graça irresistível está simplesmente a afirmação de que Deus tem poder para trazer qualquer pecador  espiritualmente morto que Ele escolhe para a salvação, de tal forma que eles vêm a Cristo livremente (ou seja, sem coerção; veja WCF 10.1). Mas Deus é livre para usar uma ampla variedade de meios (incluindo meios circunstanciais) para cumprir o seu chamado eficaz em diferentes pessoas, como a diversidade de testemunhos de conversão cristã ressalta. Não devemos pensar na Graça Irresistível como uma espécie de interruptor espiritual interno que Deus simplesmente pressiona a fim de levar alguém a conversão! Haverá sempre alguns meios que são centrais e universais entre as conversões genuínas, tais como a obra interna do Espírito Santo ao trazer convicção do pecado e a compreensão do evangelho. Mas os meios circunstanciais pelo qual Deus leva a fé e o arrependimento podem e, de fato, variam consideravelmente.

Tendo dito tudo isso, dentro de uma visão reformada da providência divina e do chamado eficaz, os pressupostos de Dan sobre o cenário contrafactual em que os povos de Tiro e Sidom se arrependeriam são injustificados. E, portanto, mesmo se admitirmos suas outras hipóteses (isto é, que Jesus está fazendo uma reivindicação contrafactual literal e precisa e que o arrependimento no versículo 21 deve ser um arrependimento salvífico), os pronunciamentos de Cristo em Mateus 11:21-24 não dão nenhum apoio adicional ao Molinismo se deparado contra o Agostinianismo/Calvinismo. Uma perspectiva calvinista e compatibilista pode acomodar estas declarações de Cristo tão bem como uma perspectiva molinista e libertária.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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