Regeneração vs. Oração do Pecador

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Se você já se deparou com alguém “evangelizando” pelas ruas e pedindo para que tão somente as pessoas recitem uma oração já preparada em seu panfleto e assim garantam sua salvação, então você já teve contato com a falsa doutrina da “Graça Livre. Nos últimos anos essa posição se tornou bem conhecida devido à influência de gente como John R. Rice, Jack Hyles, Charles Stanley e Zane Hodges. Essas pessoas tentam passar a aparência de que promovem uma espécie de posição de “Sola Gratia. Apesar do nome, a questão é que elas não poderiam estar mais distantes disso. Após um exame minucioso, é fácil descobrir que o grupo troca livremente a palavra graça” por “fé” como se estivessem falando exatamente da mesma coisa. Deixe-me explicar… apesar de a posição da “Graça Livre” parecer tentar admiravelmente proteger a doutrina da “justificação somente por meio  da fé”, no processo ela acaba deixando de lado a doutrina bíblica da “salvação somente pela graça”. Para surpresa de absolutamente ninguém, essas pessoas se posicionam firmemente contra o conceito de regeneração monergista. E isso está intimamente relacionado ao tópico em questão. Elas rejeitam todas as evidências bíblicas que sugerem que a regeneração precede a fé. Em vez disso, eles vêem a fé como algo que deve contribuir para o preço de sua salvação. Então, embora pareçam estar promovendo uma posição de “Graça Livre”, o fato é que eles não acreditam que a fé surge como um dom de Deus. Se esse é o caso, a salvação não é somente por graça e somente por meio da fé, mas por “graça + fé”. Então, ao final das contas, essa teologia acaba sendo autodestrutiva. Charles Spurgeon certa vez disse:

Lembrem-se disso ou poderão cair no erro de fixar tanto a vossa mente na fé, que é o canal da salvação, ao ponto de esquecer que a graça é fonte até da própria fé. A fé é a obra da graça de Deus em nós. “Ninguém pode vir a mim, diz Jesus, a menos que o Pai, o qual me enviou, o atrair. A Graça é a primeira e última causa da salvação; e a fé, essencial como seja, é apenas uma parte importante do mecanismo que a graça emprega. Somos salvos “por meio da fé”, mas a salvação é “pela graça”.

Acreditem essas pessoas ou não, é a posição reformada que na verdade abraça uma real Graça Livre (e sem aspas). Isto é porque Deus tanto inicia quando nos dá uma nova vida PARA QUE NÓS POSSAMOS acreditar. Essa nova disposição é o que nos leva ao arrependimento. O arrependimento é necessário para nossa salvação… o próprio evangelho claramente e sem ambiguidade diz isso… isso não é um acréscimo. Mas, é preciso dizer, esse arrependimento certamente não vem da nossa própria habilidade intrínseca natural. A graça de Deus é o que nos permite fazer isso. Se olharmos para 2 Timóteo 2:25, fala de como os crentes devem responder às pessoas que se opõem ao evangelho e o que Deus pode fazer por eles: “Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura DEUS LHE DARÁ ARREPENDIMENTO para conhecerem a verdade”.

Em outras palavras, o arrependimento é algo que é concedido por Deus – o resultado que naturalmente procede do fato de Deus ter aberto os nossos olhos e nos mostrado a nossa necessidade de Cristo à luz de Sua santidade, beleza e excelência. Um homem não regenerado não pode apreender tais verdades espirituais (1 Coríntios 2:14). Quando 2 Timóteo 2:25 diz que a ação da graça de Deus os leva a “um conhecimento da verdade”, isso está se referindo claramente à salvação. Não é algo que surge a partir de nós mesmos em nossas naturezas não-regeneradas. E no que consiste esse arrependimento? Primeiro, é um arrependimento de toda confiança que colocamos em nossa própria capacidade de nos salvar. Isto é, um arrependimento completo da confiança que colocávamos em nossas “boas” obras. É um completo e humilde reconhecimento que parte do Espírito Santo de que somos espiritualmente impotentes. Em seguida, devido ao fato de a regeneração ter iluminado nossa compreensão espiritual, circuncidado o nosso coração, curado nossos ouvidos surdos, aberto nossos olhos espirituais e implantado novas afeições, portanto, agora amamos a Deus mais do que amávamos ao pecado antes. Deus opera o arrependimento em nós, pois o objeto de nossas afeições foi mudado. Ninguém diz que Jesus é o Senhor senão pelo Espírito Santo. Então isso significa que não queremos mais viver um estilo de vida de pecado ininterrupto. O poder do pecado foi quebrado. Aqueles que continuam em um estilo de vida de pecado podem realmente não ter garantia alguma de sua salvação. As pessoas que negam a precedência da regeneração em relação a fé estão promovendo a perigosa teologia antinomiana que parece sustentar uma versão corrompida da doutrina da Eterna Segurança. Esse grupo abraça o conceito de que qualquer pessoa que já tenha repetido a oração do pecador numa tarde de evangelismo provavelmente foi salva e ainda que mais tarde ela venha se revelar ateia ou budista, isso não importa, afinal de contas ela já está dentro do grupo dos salvos.

A visão da maioria dos cristãos através da história da igreja é que as Sagradas Escrituras nunca afirmam tal coisa. Há avisos claros contra aqueles que fazem profissões (falsas) e vivem em pecado ininterrupto. 1 João 2:19 ensina que aqueles que deixam a fé nunca fizeram parte dela para começar. E Jesus também diz:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. (Mateus 7:21-23)

Observe que o texto diz que Ele nunca os conheceu. Não diz aos falsos professos que Ele os conheceu e deixou de conhecê-los mais tarde. Não, diz “eu nunca te conheci”. Isso significa que existem pessoas que acreditam em Cristo mas de maneira imprópria e não-salvífica. Isso deve ser decepcionante, mas se nos apegarmos às promessas de Deus, obteremos grande consolo, porque a nossa regeneração muda a disposição de nossos corações, da hostilidade ao afeto por Cristo, e nos implanta um princípio de perseverança. O cristão, apesar de poder cometer graves pecados, não pode viver continuamente neles. Pelo contrário, tanto a fé como o desejo de obedecer possuem uma natureza contínua. Deus encoraja e disciplina aos que Ele ama, para que eles continuem em sua fé. Em 1 Coríntios 11:31,32, Paulo diz: “Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo”. Uma pessoa que se recusa a se arrepender do pecado, como uma professa cristã, pode eventualmente vir a ser excomungada, com na esperança de que ela seja reconciliada/restaurada à comunhão por meio do arrependimento. Não podemos dizer a alguém que vive em pecado que eles podem ter segurança da salvação. Fazer isso não faz nenhum bem à pessoa em questão. É totalmente prejudicial.

Geralmente essas pessoas definem os que acreditam no Senhorio de Cristo como indivíduos que acreditam na necessidade da disposição de abandonar os pecados ou de entregar a vida a Cristo para ser salvo. Ao criticá-los, os antinomianos vêem essas coisas como desnecessárias para a salvação, como um acréscimo ao evangelho. Em outras palavras, podemos nos apegar aos pecados e não ter desejo algum de entregar nossas vidas a Cristo, desde que tenhamos feito algum tipo de profissão de fé. Tal crença é horrível e antitética a tudo o que a Bíblia ensina e precisa ser censurada de todas as maneiras. O arrependimento nunca é visto como opcional. Uma pessoa verdadeiramente regenerada desejará acreditar e obedecer. Freqüentemente falharemos miseravelmente, mas o Espírito que habita em nós nos pressiona para a santificação. Um estilo de vida de pecado sem desejo de obedecer a Cristo é um sinal bem óbvio de que a pessoa não é regenerada e se encontra em grande perigo. Mas seja o que for que a nossa consciência nos acuse, podemos nos voltar em fé até Cristo e Ele nos perdoará.

Os antinomianos também acusam os reformados de acreditarem que as promessas da Palavra de Deus, embora necessárias para a segurança, não são suficientes. Ou seja, que é preciso também olhar para as suas obras e que nenhum crente pode ter 100% de garantia de salvação ao apenas olhar para as promessas na Palavra de Deus para o crente. Sério mesmo? Pelo contrário, a posição Reformada é a única que confia na suficiência das promessas de Deus. Aqueles que fazem tais acusações esquecem que a santificação também é uma promessa de Deus ao crente. Veja João 15:16: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.

Cristo antes nos adverte contra não permanecer na videira e diz que aqueles que não o fizerem serão queimados, mas então no versículo 16 Ele afirma que Ele mesmo nos escolheu e nos designou para dar frutos… logo, o verdadeiramente regenerado não acabará no mesmo lugar daqueles que caíram. Cristo garante isso. Cristo não pode perder um crente sequer. Ele intercede por nós (Romanos 8:34) para que não fracassemos. Será que a oração de Cristo pelos seus eleitos pode falhar? Hebreus 7:25 também confirma a oração de Cristo por nós: “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” Esta é a palavra de Deus e, portanto, quando notamos que nossas obras evidenciam a verdadeira crença, a glória delas vai somente para Deus porque foi Ele quem estabeleceu que daríamos frutos. Esses frutos não nascem de nossa natureza caída. O apóstolo Paulo disse em Efésios 2:10: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” O texto apresenta continuamente esta mensagem: que é necessário perseverar e que Deus nos concede a capacidade de fazê-lo. Aqueles que não perseveram não podem viver em segurança.

Então, ao invés do famoso bordão “uma vez salvo, salvo para sempre”, acreditamos que Cristo nunca perderá um cristão. Acreditamos que Ele nos capacitará a perseverar e nos salvará por completo. “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Deus concede o desejo de continuar até o fim, sempre lembrando que somos pecadores e que podemos confiar somente em Cristo. Nosso desejo por fé, arrependimento e obediência é um presente da pura graça de Deus, não algo que devemos inventar em nossa carne. A posição antinomiana pensa que se o arrependimento é exigido, então de alguma forma estamos pedindo confiança nas obras. Desculpe-me, mas uma fé verdadeira produz obras porque a regeneração e a santificação são uma obra de Deus. Não é você que decide quando nascer de novo. Não é você quem estabelece o significado de ter um espírito vivificado. Tudo isso é obra de Deus. Aqueles que confiam em sua própria capacidade de ter fé são os que, em última análise, confiam em si mesmos, uma vez que tal fé é produzida à parte do trabalho regenerativo de Deus. Novamente, na posição antinomiana, a fé é um produto da natureza humana não-regenerada. Mas se não é a graça de Deus que te faz nascer de novo (e sim uma cooperação entre o homem e Deus), será que essa graça é realmente livre?

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.(João 1:12,13)

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Autor: John Hendrix
Fonte: Monergism
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
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A vontade de Deus pode ser resistida?

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Nada pode ser resistido se não estiver nos planos de Deus. O homem não é uma deidade semelhante a Deus para que passe por cima de seus planos quando quiser, pois se fosse assim, o homem agiria independentemente de Deus e cuidaria de sua própria vida.

Escrevo isso pelo fato de eu ter lido um breve texto dizendo que nós, os calvinistas, "não entendemos que a Graça pode ser resistida", entretanto, ignorante são os próprios arminianos, os quais não entendem que todas as coisas foram criadas por Deus, que a história e o tempo estão todos submetidos ao Soberano Senhor, e cremos como dizem nas Escrituras Sagradas, que tudo Ele determinou; ninguém resiste a sua vontade, "pois querendo Ele quem impedirá?".

A cada dia que se passa, muitos homens falam e dizem mil palavras afirmando que amam a Deus, que servem e Ele e etc, mas o que está maquinado em seus corações é o ego. Estão endurecidos em suas vontades carnais, lutam por coisas humanas e a satisfação de suas vontades, sem saber que estas são as suas sentenças.

Lembrem-se, a graça só é resistida se estiver nos planos de Deus, e Ela só é aceita se também estiver em seus planos. Portanto, saibamos que tudo acontece por meio d'Ele, conforme Ele determinou.

Eu posso dizer dessa maneira porque um dia eu fui um arminiano e graças a Deus pude enxergar através do viés das Escrituras, e, iluminado pelo seu Santo Espírito, entendi que "Livre Arbítrio" é ilusão. Pois, segundo o entendimento, quem possuí esse atributo age e escolhe sem alguma influência de um agente determinante, que não tenha alguém dirigindo a sua vida (Leia Sl 139.16; Pv 19.21; Pv 21.1). Por este fato, compreendo que quem possuí esse atributo é somente Deus, sendo notório o por que Ele é a vida, é o poder, é a misericórdia, é o tempo (passado, presente e futuro; perfeitamente Eterno) e que Ele também é o próprio amor encarnado.

Não vejo algumas dessas qualidades no ser humano, e no amor e misericórdia, nestas, também somos imperfeitos. Por estes fatos não possuímos "livre arbítrio"; se possuíssemos este atributo valeria a pena Deus ter criado o inferno? Desde quando alguém que possuí esse atributo iria querer ir para lá? Já que é assim, Deus está sendo injusto em condenar os que estão lá, pois houve uma violação do "Livre arbítrio" de muitas pessoas.

Acredito que muitos arminianos não concordarão com isso, e outros serão iluminados e entenderão. Seja como for, posso ficar tranquilo sabendo que cada detalhe foi minunciosamente arquitetado pelo Senhor Jeová (Deus), a quem eu amo. Pois, se não fosse por meio de Cristo eu jamais conheceria a sua salvação e propiciação pelos meus pecados, n'Ele sou justificado.

Antes que eu encerre, duas coisas irei aqui escrever:

1- Deus é soberano, e, por meio d'Ele tudo foi predeterminado, entretanto, somos agentes responsáveis por nossos atos. Se você estudou sobre paradoxos, com certeza você me entenderá. Mais a frente passarei outros textos falando sobre isso detalhadamente;

2- A Graça salvadora não é preveniente, como disse antes, e falo isso sabendo do que se refere "preveniente". Pois, se fosse assim, ao analisarmos esta soteriologia, vários textos bíblicos como Jonas 2.9; João 6.37,44; João 10.27,28; Rm 9; Ef 1.3-14; João 1.12-13; Ef 2.8-10 estariam equivocados. Por isso fico com a Eleição Incondicional, a qual tange toda a Escritura, sem nela fazer alguma deturpação; os atributos imutáveis de Deus e a Expiação Limitada.

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Autor: Klarystone P. Leal
Divulgação: Bereianos
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Corazim, Betsaida e o Molinismo

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Considere este post como uma (longa) nota ao meu post anteriorUm dos textos preferidos dos molinistas é Mateus 11:21-24, porque o mesmo indica (1) que existem contrafactuais verdadeiros de liberdade, isto é, verdades sobre o que as criaturas livres teriam feito em diferentes circunstâncias, e (2) que Deus sabe destes contrafactuais. No post anterior eu apontei que, apesar de (1) e (2) apoiarem o Molinismo quando confrontado com pontos de vista como o Teísmo Aberto, eles não o favorecem se comparado ao Agostinianismo, já que o mesmo também afirma (1) e (2). (O ponto onde o Molinismo e Agostinianismo divergem, pelo menos, filosoficamente, está no que diz respeito à natureza da liberdade da criatura e como o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais da liberdade se relacionam com seu decreto eterno.)

Neste post eu quero destacar um comentário feito por Dan como incentivo a um exame mais detalhado de Mateus 11:21-24 e sua relevância para o debate entre molinistas e agostinianos. Dan escreveu:

Um dos clássicos “textos de prova” em favor do conhecimento médio também parece resistente a uma leitura agostiniana/calvinista e parece favorecer a liberdade não-determinista. Mateus 11:21 diz: “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza”.
No calvinismo, a graça irresistível (também conhecida como “regeneração monergista” ou “chamado eficaz”) determina a conversão de tal forma que qualquer pessoa, dada a graça irresistível de Deus, não pode resistir e irá eventualmente se arrepender. Além disso, sem a graça irresistível, ninguém pode se converter devido a sua depravação.
Por esse versículo, sabemos que o povo de Corazim não se arrependeu, mas o povo de Tiro teria se arrependido se as mesmas obras tivessem sido feitas lá. Tiro era notoriamente pecaminosa, então a comparação tem como propósito envergonhar as pessoas de Corazim. Eles realmente tiveram uma grande oportunidade de se arrepender, logo, sua escolha de permanecer no pecado foi mais perversa do que a de Tiro. No entanto, no Calvinismo, Deus não deu ao povo de Corazin a única coisa que Ele sabia que poderia ativar e causar o arrependimento: a graça irresistível. Isso por si só é problemático!
Mas há um outro problema que diz respeito ao povo de Tiro. Nem as pessoas de Corazim nem as de Tiro se arrependeram. No calvinismo, poderíamos concluir com segurança que nenhum deles recebeu a graça irresistível, porque se tivessem recebido, eles se arrependeriam. Mas o versículo nos dá o contra-factual: o povo de Tiro teria se arrependido, se as mesmas obras fossem ali realizadas. Então, como é que Tiro poderia se arrepender sem a graça irresistível? No calvinismo, ficamos com a contradição de que a graça irresistível tanto é quanto não é uma condição necessária para o arrependimento.
Para evitar o problema, alguns podem dizer que o arrependimento não é verdadeiro arrependimento. Mas Cristo pregou sobre o verdadeiro arrependimento: arrependam-se pois o Reino de Deus está próximo! Ele nunca usa “arrependimento” como falso arrependimento e Ele sempre denuncia qualquer pretensão exterior de conversão e expõe qualquer auto-engano e falsa segurança. Além do mais, isso invalida (provavelmente inverte) o principal objetivo de Cristo de dizer as pessoas de Corazim que elas eram piores do que as de Tiro. É melhor recusar a ceia do Senhor do que participar de forma fingida, é melhor não saber o caminho da justiça do que conhecê-lo e sair dele, logo, é melhor viver em pecado aberto do que viver com um falso arrependimento. Portanto, se o arrependimento é um falso arrependimento, o povo de Corazim é melhor do que o de Tiro, porque eles evitaram um falso arrependimento. Mas isso é o oposto do que Cristo quer dizer.
A melhor solução parece ser negar a graça irresistível e dizer que o homem tem liberdade não-determinista em relação a resistir a graça de Deus.

Estas observações são certamente interessantes e merecem uma resposta. Mas, antes de entrar em detalhes, vamos considerar os detalhes do contexto em seus próprios termos:

Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti. (Mateus 11:20-24)

O texto nos diz explicitamente que o propósito de Jesus ao dizer estas palavras era “denunciar as cidades”, porque elas não se arrependeriam apesar de ter testemunhado muitos dos milagres que Jesus havia realizado. Eles tinham provas suficientes, mas recusaram reconhecer a autoridade de Jesus e desprezaram seu convite ao arrependimento. De forma mais específica, a denúncia de Jesus se dá com uma comparação com as antigas cidades notoriamente depravadas de Tiro, Sidom, e Sodoma.

Agora, será que essas declarações de Jesus apoiam as afirmações molinistas da forma que Dan nos está sugerindo? Em primeiro lugar, não é óbvio que devamos supor que Jesus esteja fazendo a afirmação contrafactual precisa que os molinistas assumem. Certamente Jesus está fazendo declarações assertivas aqui. Mas será que ele está realmente afirmando algo tão específico como uma verdade contrafactual literal sobre o que as pessoas dessas cidades antigas teriam feito se Jesus tivesse realizado os mesmos milagres diante deles? (Devemos notar, de passagem, que esse teria sido um possível mundo muito diferente deste!)

A questão que Jesus trata aqui é simplesmente que o povo de Corazim e Betsaida tinha um coração endurecido e que eles eram merecedores do Juízo por sua incapacidade de se arrepender; na verdade, eles foram ainda mais teimosos e culpáveis do que o povo de Tiro e Sidom. Esse ponto não implica por si só a precisa reivindicação contrafactual que Dan e outros molinistas assumem. A título de comparação, suponha que eu fosse repreender um dos meus filhos, dizendo: “Se eu lhe pedisse isso mil vezes, ainda assim você não faria o que lhe foi dito!”. Em face disso, essa afirmação tem a forma de um contrafactual de liberdade (se S estava na condição C, S faria/não faria A). Mas será que eu estou mesmo afirmando a proposição específica de que meu filho não faria o que eu havia pedido se ele realmente se encontrasse em circunstâncias em que eu lhe havia dito isso mil vezes (literalmente!)? Sugerir isso seria claramente interpretar excessivamente minhas palavras. Colocando em termos técnicos: essa interpretação acabaria perdendo o verdadeiro conteúdo proposicional da minha fala.

Naturalmente, o fato de que minha declaração não tinha o propósito de ser tomada de forma literal não significa que a proposição contrafactual seja falsa. A questão aqui é o significado da minha declaração (ou seja, qual proposição está expressando) ao invés de sua veracidade (ou seja, se a proposição expressa é realmente verdadeira). Ao fazer essa declaração, estou basicamente afirmando algo sobre a teimosia do meu filho. E o que estou afirmando é verdadeiro!

Da mesma forma, ao questionar se Jesus está realmente afirmando a proposição contrafactual que Dan assume que ele esteja, eu, enfativamente, não estou sugerindo que Jesus poderia afirmar algo falso. Ao contrário, estou sugerindo que a verdade que Ele está afirmando é muito mais simples: as pessoas de Corazim e Betsaida são teimosas e duras de coração (até mais do que o povo de Tiro e Sidon) e elas serão julgadas por isso. E essa verdade é tão consistente com a perspectiva agostiniana quanto com a perspectiva molinista.

A lição então é que os molinistas provavelmente colocam mais peso sobre este texto do que ele realmente contém. Quando prestamos atenção ao argumento que Jesus está fazendo, podemos ver que suas palavras não contém o tipo de vinculações filosóficas que apoiariam as reivindicações molinistas acerca dos contrafactuais de liberdade. Adaptando uma fala de Ludwig Wittgenstein: Os molinistas estão fazendo a “linguagem comum” de Jesus sair em férias.

Mas vamos supor que eu esteja errado sobre tudo isso. Vamos supor que Jesus realmente esteja afirmando proposições contrafactuais que Dan e outros molinistas acham que Ele esteja. Será que isso iria favorecer o Molinismo sobre o Agostinianismo, sabendo que este último rejeita a liberdade não-determinista e afirma a graça irresistível?

Uma questão importante diz respeito ao tipo de arrependimento tratado no versículo 21. Dan afirma que este deve ser “o verdadeiro arrependimento” ao invés de um “falso arrependimento”. Mas eu estou em dúvida sobre essa dicotomia simples. Parece-me que a Bíblia deixa espaço para um tipo de arrependimento que é genuíno até certo ponto (ou seja, não é totalmente sincero, não também não é um mero teatro) e ainda assim é não-salvífico (ou seja, fica aquém da verdadeira conversão espiritual). O arrependimento dos ninivitas no livro de Jonas pode muito bem ser um exemplo de tal arrependimento.

Se um arrependimento não-salvífico e limitado desse tipo está em vista no versículo 12, as questões que Dan levanta sobre a Depravação Total e a Graça Irresistível estão além da discussão. E isso não iria mudar em nada a denúncia que Cristo faz. Jesus, na realidade, estaria dizendo algo como: “Se os meus milagres tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, eles teriam se arrependido [isto é, com um limitado arrependimento não-salvífico], mas vocês têm visto os milagres e não responderam a eles com nenhum tipo de arrependimento! “Tal leitura seria inteiramente consistente com a observação (correta) de Dan de que “o principal objetivo de Cristo era dizer que as pessoas de Corazim eram piores do que as de Tiro”.

Mas mais uma vez, vamos assumir a suposição de Dan para o bem do argumento, ou seja, vamos assumir que o arrependimento no versículo 21 deve ser arrependimento totalmente salvífico. Isso iria levantar um problema para o Agostinianismo/Calvinismo? Eu não penso assim, e vou explicar por que, em resposta ao argumento de Dan.

Dan observa que, na visão calvinista, nem o povo de Tiro nem o de Sidom, nem as pessoas de Corazim ou Betsaida haviam recebido a Graça Irresistível, porque se eles tivessem, teriam se arrependido. Isso é verdade: decorre da própria definição de Graça Irresistível. (Eu prefiro falar de “graça eficaz”, mas não vamos tergiversar sobre rótulos.) Dan assume ainda mais, no entanto, que, no cenário contrafactual em que Tiro e Sidom se arrependeriam em resposta às grandes obras, eles não haviam recebido a Graça Irresistível. Assim, ele conclui que o versículo 21 não se ajusta com aquilo que o calvinista alega (que ninguém pode se arrepender sem graça irresistível).

Mas esta suposição é injustificada. Na interpretação padrão de contrafactuais, precisamos considerar se o efeito do contrafactual (de Tiro e Sidom se arrependerem) é verdade no mais próximo mundo possível em que o fator antecedente (i.e., o povo de Tiro e Sidon ver as grandes obras) é verdade. Por tudo o que sabemos, o mais próximo mundo possível é aquele em que o povo de Tiro e Sidom recebem a Graça Irresistível. Certamente, Dan não nos deu nenhuma boa razão para excluir esta possibilidade. Tendo em conta que em uma visão compatibilista da liberdade, as livres escolhas de uma pessoa são determinadas não só por fatores internos a essa pessoa, mas também por fatores externos (ou seja, circunstâncias), e que podem haver relações causais complexas entre esses fatores internos e externos, seria difícil de refutar esta suposição. Deus trabalha fora seu decreto através de uma multiplicidade de meios inter-relacionados. Por que o mundo mais próximo possível em que Deus decreta que os milagres de Cristo seriam realizados em Tiro e Sidom não poderiam também ser um mundo onde Deus leva Tiro e Sidom ao arrependimento através de sua Graça Irresistível?

Com efeito, para levar a discussão um pouco mais adiante, por que os milagres não podem fazer parte dessa graça irresistível? (Créditos a Paul Manata por sugerir essa idéia). No coração da doutrina da graça irresistível está simplesmente a afirmação de que Deus tem poder para trazer qualquer pecador  espiritualmente morto que Ele escolhe para a salvação, de tal forma que eles vêm a Cristo livremente (ou seja, sem coerção; veja WCF 10.1). Mas Deus é livre para usar uma ampla variedade de meios (incluindo meios circunstanciais) para cumprir o seu chamado eficaz em diferentes pessoas, como a diversidade de testemunhos de conversão cristã ressalta. Não devemos pensar na Graça Irresistível como uma espécie de interruptor espiritual interno que Deus simplesmente pressiona a fim de levar alguém a conversão! Haverá sempre alguns meios que são centrais e universais entre as conversões genuínas, tais como a obra interna do Espírito Santo ao trazer convicção do pecado e a compreensão do evangelho. Mas os meios circunstanciais pelo qual Deus leva a fé e o arrependimento podem e, de fato, variam consideravelmente.

Tendo dito tudo isso, dentro de uma visão reformada da providência divina e do chamado eficaz, os pressupostos de Dan sobre o cenário contrafactual em que os povos de Tiro e Sidom se arrependeriam são injustificados. E, portanto, mesmo se admitirmos suas outras hipóteses (isto é, que Jesus está fazendo uma reivindicação contrafactual literal e precisa e que o arrependimento no versículo 21 deve ser um arrependimento salvífico), os pronunciamentos de Cristo em Mateus 11:21-24 não dão nenhum apoio adicional ao Molinismo se deparado contra o Agostinianismo/Calvinismo. Uma perspectiva calvinista e compatibilista pode acomodar estas declarações de Cristo tão bem como uma perspectiva molinista e libertária.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Se o amor de Deus é livre, então o calvinismo está errado?

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Por Turretinfan


Eu escutei várias vezes uma objeção ao calvinismo bastante semelhante ao título deste post. O argumento é que a “graça irresistível” vai contra a natureza de Deus, já que Ele deseja que O amemos livremente. Paul Manata apresentou uma resposta sucinta a esse tipo de argumento.

Gostaria de apenas complementar algumas reflexões sobre os pontos apresentados pelo meu amigo Paul. Frequentemente ouvimos que o ensino calvinista da graça irresistível é, de certo modo, equivalente a um estupro divino. Essa analogia é necessariamente equivocada. Primeiramente, porque o estupro envolve violação da vontade da vítima. Contudo, a graça eficaz de Deus não viola a vontade do homem, antes, a transforma. O ato da regeneração, que procede de Deus e muda completamente o homem, não é uma coerção da vontade (como no caso do estuprador), nem é um engodo da vontade (como o faz um hipnotista). Deus efetivamente muda os desejos de uma pessoa de forma que ela deixar de odiar a Deus e de imaginar que O ama, passando a amá-Lo verdadeiramente.  

Em segundo lugar, em adição ao fato de que Deus ordena o amor (que é justamente o ponto abordado de forma bastante competente pelo meu amigo Paul), Deus também ameaça com a punição aqueles que não amam. Roger Olson tecnicamente pode sustentar a posição de que “para que possa haver um relacionamento de amor, é necessário ser factualmente possível para ambas as partes a possibilidade de dizer ‘não’ para o outro”, mesmo em face de uma ordem. Afinal de contas, as pessoas de fato dizem “não” para os mandamentos divinos de amar a Deus e amar ao próximo. Todavia, se essa saída é empregada, a analogia do estupro automaticamente cai por terra. Afinal, ainda consideraríamos como vítima de um estupro uma pessoa que desse seu consentimento somente após ter uma arma apontada para sua cabeça, mesmo se tecnicamente dissesse “sim”. Contudo, o poder coercitivo da mensagem de Jesus é mais forte ainda: “Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer” (Lc 12:5).   
     
Logo, por um lado, a graça irresistível não é uma coerção, e, por outro, Deus (inegavelmente) emprega a coerção. Então a objeção levantada por Olson não pode se sustentar porque ela perde de vista a questão e porque ela se depara com um ponto que Olson deve aceitar como verdadeiro. Olson (e outros não-calvinistas) deve admitir que Deus emprega a coerção por meio de ameaças de castigos sobre aqueles que não fazem o que lhes é ordenado. Todavia, a graça irresistível é um meio usado por Deus que, em si mesmo, não envolve coerção, mas sim transformação.

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Fonte: Turretinfan
Tradução: Fabrício Moraes
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O Eterno Propósito

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Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha explica, com base em Efésios 3:11 e Romanos 8:28-30, qual é o plano de Deus para o Seu povo? Qual é o eterno propósito de Deus? Através dos decretos de Deus podemos ter a segurança de nossa salvação?

Assista!



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Fonte: Guerra pela Verdade
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Graça invencível

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Por Rev. Ronaldo Mendes


Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus,  que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos.”  (2Tm 1.8-9)

Em suas cartas, muitas vezes, o apóstolo Paulo olhava para trás, para a sua própria vida com sentimento de tristeza, mas também maravilhado. Tristeza pelo que ele havia sido no passado: orgulhoso, autoconfiante, arrogante e rejeitava a Cristo. Porém ele olha também extasiado para aquilo que é agora com Cristo: o líder da comunidade cristã, aquele que recebeu a revelação direta de Deus, um plantador de igrejas e acima de tudo, um homem determinado a conhecer o Senhor Jesus.

Com o passar dos anos os cristãos têm debatido muito sobre o processo de conversão. Como se dá? Depende ou não do homem? A Bíblia não nos deixa dúvida que é pela graça de Deus (Ef 2.8). Sem a graça de Deus desde a eternidade passada, não haveria salvação no presente (cf 2Tm. 1.9).

A posição da igreja reformada no decorrer da história da igreja é que a nossa resposta a Deus depende da graça divina, do começo até o fim. Nós não recebemos a influência do Espírito Santo quando cremos, mas para crermos. A realidade que a Bíblia apresenta sobre o homem é que ele é incapacitado de ir a Deus porque está morto em seus pecados: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados”(Ef. 2.1 ler: Rm 8.7; Jo 6.44). Essa verdade não é muito aceita por “teólogos psicólogos ” dos dias de hoje.

Se somos incapazes de fazer alguma coisa, como age essa graça maravilhosa para salvação do homem o qual está morto?

Deus escolheu antes da fundação do mundo

E isso  foi de acordo com o propósito de Deus: “assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef. 1.4-5). A Escritura Sagrada também afirma que Deus nos conheceu de antemão: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Rm 8.28-30) -  No grego a palavra “antemão” vem de uma raiz que dá origem a palavra “horizonte”(harizo). A constelação de nome Horion tem a mesma raiz e é a constelação que está no limite do olho humano, ou seja, até ali o olho humano enxerga. Com a palavra predestinação, entendemos que desde os tempos eternos Deus nos trouxe para o seu horizonte.

Deus conhece os que são seus – “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor.” (2Tm 2.19)  Nós acordamos quando Deus nos chamou. Muitos cristãos perdem um bom tempo discutindo sobre predestinação, quando o que Deus tenciona é que desfrutemos dela. Temos que descansar na salvação de Cristo. Deus te escolheu para um propósito assim como escolheu Jeremias (cf Jr. 1.5).

Deus cuida dos escolhidos

Deus conduz a nossa vida para a conversão – Acredito, um pouco por experiência própria, que o Senhor conduz com segurança aqueles que hão de conhecê-lo. É claro que tem casos onde o Senhor se mostra à pessoa que está num estado terminal de saúde, ou vítima de um acidente. Mesmo assim, o Senhor se faz conhecer a ele. O Senhor conduz, e cuida dos Seus eleitos para que eles tenham conhecimento de Sua Palavra. Deus nos prepara para a salvação. Isso também é Graça de Deus. Apesar de tudo que Paulo viveu o Senhor o preservou para que ele tivesse aquele encontro com Cristo que mudaria a sua vida (cf At. 9). O rei Davi disse ao Senhor: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.” (Sl 139.16). Não só presciência de Deus é destacada aqui, mas também o seu controle total sobre a vida de seus eleitos.

Deus chama os escolhidos

Esse é o momento em que dizemos: “agora entendo!”  O apóstolo de Cristo destaca: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8.28). Como acontece esse chamado da Graça? “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou...” (Rm 8.30). O chamado acontece através da Palavra de Deus: “… E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?…”(Rm 10.14). E ainda diz o apóstolo: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.”(v.17). John Bunyan, conta em seu livro “graça abundante” que chegando em uma cidade ouviu um grupo de mulheres que estavam conversando e ele achava que elas estavam fofocando. Quando ele chegou perto para ouvir, percebeu que elas estavam falando de Cristo, nunca mais ele esqueceu o que ouviu, e Deus trabalhou em sua vida até leva-lo à salvação.

Aqui precisamos destacar algo muito importante:

A mensagem do Evangelho é para todos, como disse Jesus: “… Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” (Mc 16.15). Todos devem ouvir sobre Cristo, sua obra e poder! Essa é a chamada externa. Desde o AT que esta verdade é anunciada: “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas.” (Sl 96.3).

Só o chamado externo é insuficiente para habilitar um pecador a vir a Jesus Cristo. Quem não for eleito, ainda que seja chamado pela Palavra de Deus, jamais virá a Cristo Jesus! Eles jamais aceitarão ao Senhor Jesus Cristo!

Mas a mensagem da Palavra de Deus se torna eficaz para os eleitos – Conhecida como Chamada Eficaz, que é um ato especial do Espírito Santo, o qual opera o novo nascimento. A regeneração é uma experiência que pertence somente aos eleitos. Essa é a chamada “interna” que transforma coração duro como pedra em um de carne, maleável (cf Ez 36.26). A chamada Eficaz é um chamamento tanto “interior” quanto “exterior”.

Conclusão: Como você tem enxergado essa graça em sua vida? Muitos escoram na graça e vivem em pecados, outros vivem indiferentes na igreja não querendo fazer nada porque são salvos, isso é o que importa. Mas nós sabemos que não é bem assim. A graça nos mostra que não somos melhores do que ninguém na igreja; somos todos salvos pela mesma graça; não há lugar para o orgulho e a prepotência. Quem pensa que a predestinação é pretexto pra viver uma vida mundana, não compreendeu o plano de salvação de Deus. Como destacou Pedro: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Somos o povo santo de Deus e separado para as boas obras (cf Ef 2.10).

“Tudo é pela graça na vida cristã, do início ao fim” (D M Lloyd-Jones)             

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Fonte: Solus Christus
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O que é Graça?

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Por Abraham Booth (1734-1806)


Paulo emprega a palavra "graça" para significar o oposto de "obras e méritos". "Pela graça sois salvos. ... não por obras" (Ef. 2:8-9). Graça significa favor imerecido ou favor dado sem que seja ganho por esforço algum.

Pela palavra "misericórdia" entendemos que alguém em dificuldade ou derrotado, está recebendo um benefício. Misericórdia faz supor uma pessoa sofredora a quem ela é concedida. Semelhantemente, "graça" sempre pressupõe indignidade na pessoa que a recebe. Se alguém nos dá qualquer coisa por graça, é porque nós não a merecemos. Qualquer coisa que mereçamos por direito, não pode ser nossa por graça. Graça e mérito não podem estar ligados no mesmo ato. São realidades tão opostas como luz e trevas. "Se é por graça, então não é por obras; de outra maneira, a graça já não é graça" (Rom. 11:6).

Assim, dizemos que nós recebemos a graça de Deus. Estamos dizendo, ao mesmo tempo, que somos indignos dela e que não podemos trabalhar por ela. Desta maneira, definimos graça como ela é usada no Novo Testamento, ou seja, "O eterno e absolutamente livre favor de Deus concedido a pessoas indignas e culpadas na doação de bênçãos espirituais e eternas".

A graça de Deus é eterna

À graça, de modo algum, depende do mérito humano; depende só da vontade de Deus. Não é ganha por mérito nem perdida por culpa. A graça é absolutamente livre de qualquer influência humana. Portanto nada há que possa derrotá-la, uma vez que ela foi dada. Por isso, Deus pode dizer: "... pois que com amor eterno te amei" (Jer. 31:3). Tal é a gloriosa base da nossa salvação!

Graça não é como uma franja de ouro na fímbia do vestuário; não é como um enfeite que decora um vestido; porém, é como o propiciatório do Tabernáculo, que era de ouro — de ouro puro — inteiramente de ouro! Portanto, aprendemos como estão seriamente enganados os que sugerem que a graça de Deus pode ser alcançada pelas boas obras. A graça de Deus recusa-se a ser ajudada naquilo que ela tem de fazer. Não seria um insulto à soberania de Deus sugerir que Ele precisa de ajuda do pobre desempenho do homem? A graça, ou é absolutamente livre de toda a nossa influência, ou então não é graça de modo algum.

Salvação, totalmente gratuita!

A graça "reina", diz Paulo em nosso texto (Rom. 5:21). Assim, a graça é comparada a um rei. Nos versículos anteriores, também o pecado é comparado a um rei. Como o pecado aparece armado de poder destrutivo, infligindo a morte, assim a graça aparece armada de invencível poder, amorosamente determinada a salvar. E "onde o pecado abundou, a graça o superou em tudo"(v. 20). Assim, o controle é da graça.

Em outras palavras: aqueles a quem Deus salva por Sua vontade misericordiosa, certamente estão totalmente salvos. Se Deus graciosamente resgata homens do poder do pecado, e lhes dá novas habilidades espirituais, então, não serão deixados para se fazerem suficientemente santos para entrarem no céu. Se a obra graciosa de Deus ficasse restrita a isso, a consequência final ainda seria duvidosa; a graça não estaria reinando. Além disso — admitindo-se que tal coisa fosse possível — os que conseguissem santificar-se por seus próprios esforços, ficariam muito, orgulhosos pelo que fizeram — o que seria diametralmente o oposto da graça!

Portanto, se a graça há de reinar, ela tem que ser o único meio de salvação. Por Sua vontade misericordiosa, Deus não apenas tem que começar, mas também continuar e completar a salvação do pecador. Então, se pode dizer com certeza que a graça "reina". Certamente uma certeza maravilhosa como esta glorifica a Deus.

A graça se adapta melhor à nossa necessidade do que qualquer outra coisa. Visto que o pecado é um tirano que reina sobre nós, e pretende levar-nos à morte eterna, que esperança podemos ter de salvação firmados em nossos próprios esforços? Quando nossas consciências ficam alarmadas por causa de nossas muitas falhas vergonhosas, não entramos em desespero? Lembre-se, porém, de que a salvação é pela graça de Deus! A graça de Deus está fundamentada na obediência perfeita e meritória de Cristo. O pecado não pode destruir o valor disso. A graça pode reinar sobre a maior indignidade. Na verdade, é só com o indigno que a graça se preocupa. Isso é assombroso! Isso é maravilhoso! Há esperança de salvação para o pior indivíduo, se é que ela é assegurada pela riqueza da graça que reina.

Teremos que ver nas próximas vezes como a graça reina na nossa eleição — chamamento, perdão justificação, adoção, santificação e perseverança.

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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Via: Josemar Bessa

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Como a Graça Controla o Chamado

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Por Abraham Booth (1734-1806)


O fato de Deus graciosamente escolher um povo para Si, dentre toda a raça humana pecadora, não é inicialmente conhecido pelos que são escolhidos. Eles nada sabem a respeito do assunto antes de se converterem. O Espírito Santo, portanto, precisa realmente chamá-los um por um, ou eles jamais saberão que são filhos de Deus! Esta experiência é conhecida nas Escrituras como "chamados por Deus" (I Cor. 1:9); "chamados pela graça" (Gal. 1:15); "chamados pelo evangelho" (II Tess. 2:14). O Espírito Santo serve-Se do evangelho para efetuar esse chamamento.

Os pecadores estão espiritualmente mortos. Eles aceitam a verdade do evangelho só quando o Espírito Santo os vivifica. "Os mortos ouvirão. . . e os que ouvirem viverão" (Jo. 5:25). O pecador recém-despertado talvez se sinta longe de Deus, porém, o evangelho diz: "... o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" (Jo. 6:37). Assim, o pecador espiritualmente vivificado vem a Jesus, confiando na verdade do evangelho. Esta é, em suma, a experiência de quem é chamado pela graça. O fato de qualquer pecador ser chamado deve-se inteiramente à graça divina. "Deus chamou-me por Sua graça", disse Paulo. E nenhum santo jamais alegará outra causa.

Os pecadores, em geral, consideram suas ofensas contra Deus mais como falhas do que como crimes. Eles dormem em seus pecados, sonhando com uma misericórdia geral que, (esperam), lhes seja outorgada. Eles jazem inconscientes de seu perigo, até que o Espírito de Deus os toca e os convence de sua pecaminosidade. Mas quando eles são levantados da morte espiritual pelo Espírito de Deus, aprendem repentinamente que cada um de seus pecados os coloca sob a maldição de Deus. Os deveres negligenciados, as boas dádivas de Deus ingratamente usadas, os atos de rebelião cometidos contra Deus assediam a mente do pecador recém-despertado e perturbam sua alma. A consciência aguça o seu ferrão e a culpa se torna um peso. Ele vê que a santa lei de Deus é justa. A ruína passa a ser vista como inevitável para os pecadores não perdoados.

Daí, pelo Espírito e pela palavra da verdade, os pecadores despertados aprendem que são incapazes de escapar da lei de Deus por qualquer esforço próprio. Esta convicção os torna alarmados por não terem percebido antes sua ignorância e indiferença. Agora eles sabem que as Escrituras são verdadeiras quando atribuem ao homem natural a condição de um "cão que retorna ao seu vômito", a uma "porca lavada que retorna ao espojadouro de lama" (II Ped. 2:22) e a "um sepulcro aberto" (Sal. 5:9). Ao invés de viverem cada momento no ininterrupto e vibrante amor de Deus, como a lei divina exige, eles viveram — oh vergonha! — inteiramente voltados para o amor de si mesmos e para o pecado. Certamente a lei de Deus é justa! "Maldito é todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gal. 3:10). Uma vez que não permaneceram, eles são de fato malditos.

Ora, deve ser claro que tais pessoas admitirão prontamente que qualquer esperança para elas só será possível se Deus for misericordioso.
A graça, como meio de salvação, está inteiramente à disposição de qualquer um que reconhece seu demérito aos olhos de Deus.

Diante disso, poderíamos pensar que um pecador despertado para sua necessidade correria para receber uma salvação tão graciosa. Verdade maravilhosa! Espantoso favor! Que mais se poderia esperar? No entanto, a observação mostra que os pecadores despertados são, às vezes, muito lentos para receber este conforto. Isso acontece não porque a graça de Deus é deficiente, nem porque a salvação é de algum modo incompleta, e sim porque freqüentemente o pecador acha que ainda não teve bastante consciência do seu pecado, ou porque sente que ainda não deseja Cristo suficientemente. Isso evidencia que ele ainda compreende mal a glória da salvação pela graça.

Nossa convicção de pecado ou o desejo de termos Cristo como nosso Salvador não persuade a Deus a ser gracioso para conosco. São experiências necessárias para nos tornar desejosos de receber a graça, mas não são necessárias para levar Deus a ser gracioso conosco. É a graça que controla o ato de Deus quando Ele nos chama, e não o nosso montante de tristeza por causa dos pecados, nem o quanto desejamos ser salvos. Precisamos cuidar que não desejemos as misérias da incredulidade, a fim de obtermos permissão para crer.

O chamado do evangelho é para pecadores infelizes que, de si mesmos, nada têm em que possam confiar. Aquele que verdadeiramente crê em Cristo precisa confiar nEle como Justificador do ímpio (Rom. 4:5). O pecador que se sente, de algum modo, melhor do que o ímpio, não é encorajado a buscar a Cristo, e sim o pecador que sabe que é tão culpado quanto todos os outros! "Não vim chamar os justos", disse Jesus, "mas os pecadores ao arrependimento" (Mat. 9:13).

A base da esperança do crente e a fonte de sua alegria espiritual não decorrem do pensamento que ele fez alguma coisa para merecer sua própria salvação (chame isso de "crença" ou o que você quiser), mas das verdades de que a salvação é de graça e de que o Salvador "veio salvar o que se tinha perdido" (Mat. 18:11). Um crente depende da graça que não exige mérito, e de um Salvador que supre toda a justiça necessária.

Consciente, então, de que está na mesma situação de culpa de todos os outros ímpios do mundo, o pecador despertado está convencido de que seu chamado se deve exclusivamente ao fato de Deus lhe ter sido gracioso. Ele não conhece outra razão para isso. Ele está plenamente persuadido de que Deus deu o primeiro passo. Quando ele pensa na experiência de ter sido despertado para reconhecer sua necessidade espiritual, ele diz: "Eu fui achado por Aquele a Quem nem amei nem procurei".

Ser chamado por Deus é puramente um ato de Sua graça. Ter consciência de que a graça discriminativa de Deus te particularizou e te chamou, embora você não fosse diferente de todos os outros pecadores, deve encher o teu coração de gratidão cristã. Este fato encherá o teu coração de grande incentivo para piedosa obediência e serviço cristão fervoroso.

Que direi a você que ainda não foi chamado? Se você deixar este mundo no estado em que está, estará perdido para sempre. Só os que são chamados aqui, são glorificados lá. Não suponha que o conhecimento dos fatos do evangelho poderá te salvar, se o teu coração está frio e sem qualquer sentimento de amor a Deus. Que vantagem haverá para você se deixar entre teus amigos a lembrança de um respeitável caráter, e você mesmo for perdido? Queira Deus que este não seja o caso com os meus leitores!


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Fonte: Josemar Bessa

Respostas à algumas objeções contrárias à doutrina da graça irresistível

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Por Álvaro Rodrigues


A doutrina da graça irresistível é o quarto dos cinco pontos da soteriologia calvinista. É um ensino que está conectado com a Depravação total. Creio que só passamos a entender o conceito de graça irresistível quando levamos em conta a terrível condição do homem após a queda. Esta condição a qual nos referimos não é outra, senão a incapacidade deste homem de, por si mesmo, se salvar. Esta inabilidade é, então, a depravação total, que é o primeiro dos cinco pontos da soteriologia calvinista. O nosso objetivo, no entanto, não é tratar em específico da depravação total, mas sim da graça irresistível, respondendo à algumas objeções contrárias a esta preciosa doutrina. Assim sendo, começaremos definindo o que seria graça irresistível, e em seguida responderemos a tais objeções.

Definição

A graça irresistível refere-se a eficácia da graça de Cristo em transformar e regenerar por meio da pregação aqueles que foram incondicionalmente eleitos pelo Pai (Jo 5:21-25, 6:44, Mt 11:25-27, Rm 8:30). Para ser mais claro, podemos dizer que a graça irresistível é a confirmação no tempo da eleição efetuada por Deus antes da fundação do mundo. Como também é a comprovação de que os propósitos Deus jamais poderão ser impedidos ou frustrados pelos seres humanos. Esta graça irresistível (eficaz) é o chamado interno, que é feito pelo Espírito Santo aos eleitos. Este chamado, portanto, se distingue do chamado externo que é feito através da pregação do evangelho (At 16:14, 1 Co 1:24, Rm 8:30). Este chamado interno sobrepuja a resistência do homem que, naturalmente, é depravado e inimigo de Deus. Isto posto, aprendemos que somente este ensino é coerente com a realidade da depravação, pois não haveria outra maneira do homem se salvar, a não ser por um milagre regenerador conhecido por graça irresistível (Jo 1:12-13, 6:44, At 16:14).

Objeções à doutrina

Alguns arminianos e anti-calvinistas tem levantado objeções contra esta doutrina. Vejamos duas das principais objeções, seguidas com as devidas respostas.

1ª objeção: “A graça irresistível é um erro, pois implica dizer que Deus concede a graça salvífica  apulso, por força ou violência, para os tais eleitos”.

Resposta: Tal objeção não faz o menor sentido. Por que? Simples, quando se usa expressões tais como “salvar na marra, apulso ou por violência” isto implica em resistência ou relutância da parte de quem, no momento, está sofrendo a ação. Mas a graça irresistível não ensina que, enquanto Deus está regenerando, o homem se encontra resistindo a tal regeneração, como se Deus dissesse “eu estou neste momento te transformado”, e o homem replicasse “não, não, pare com isto”. Claro, bem sabemos que o homem não-regenerado é inimigo de Deus e a resistência às coisas de Deus é algo comum em sua vida. Porém a resistência natural deste homem às coisas de Deus é anterior ao momento em que a regeneração está sendo efetuada. Em outras palavras, não há resistência à obra regeneradora no momento em que ela está acontecendo; a resistência é anterior ao momento. A resistência é ao chamado externo, ou a pregação. Deus salva eficazmente, de uma forma tão gloriosa, que em momento algum a vontade do homem é violentada. Simplesmente há uma mudança no coração do homem. Deus, milagrosamente, transforma o coração de pedra, que é naturalmente indisposto a crer, em um coração de carne que é disposto a crer. Este milagre é maravilhosamente descrito pelo profeta Ezequiel.

E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis. E habitareis na terra que eu dei a vossos pais e vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus. (Ez 36:26-28)

Mas se mesmo depois de o arminiano ter lido esta argumentação, e continuar afirmando que a graça irresistível é inconsistente, visto que violenta a vontade humana, eu poderei também dizer que o arminianismo, com a sua incoerente regeneração parcial, também sofre do mesmo problema. No arminianismo, os homens são incapazes de crer, e por serem incapazes, Deus tem regenerado parcialmente os homens que são alcançados pelo evangelho, e faz isto sem considerar a escolha dos homens de quererem ser ou não regenerados parcialmente. Ora, como alguém foi transformado parcialmente sem nunca ter pedido tal transformação e mesmo assim não ser uma transformação que violenta a vontade da criatura? Se Deus não considerou a liberdade da criatura, foi na marra que Ele a regenerou parcialmente? A regeneração parcial é uma graça preparatória dada por Deus aos homens de uma forma que violenta a vontade desses homens?

E não fará sentido o arminiano dizer que Deus concedeu a regeneração aos homens, visto que estes escolheram recebê-la. Por que? Simples, no arminianismo é impossível escolher sem antes ser regenerado parcialmente. Os arminianos acreditam em livre-arbítrio libertário, isto é, um arbítrio que tornou-se livre após a ação da regeneração parcial.

Observação: Qualquer bom entendedor saberá que não estou dizendo que o arminianismo ensina uma regeneração parcial na marra. E eles podem até mesmo usar o nosso argumento acima para defender que não há violência nenhuma da parte de Deus sendo dirigida a vontade humana. Então, a minha questão é dizer que: se há incoerência com a graça irresistível, então há também com a regeneração parcial arminiana. 

2ª objeção: “A graça irresistível é falsa, pois a bíblia claramente ensina que muitos tem resistido a graça de Deus”.

Um versículo muito utilizado pelos arminianos na tentativa de sustentar esta objeção é Atos 7:25. Vejamos o texto: 

Atos 7:25 “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvidos, vós sempre  resistis ao Espírito Santo ; assim, vós sois como vossos pais”. 

Resposta: Primeiramente, levando em conta todo o contexto do versículo, o resistir ao Espírito Santo aqui é primeiramente uma referência aos Israelitas, que assim como os seus pais, que constantemente  rejeitavam os anúncios e ordens dos profetas do Antigo Testamento (que foram incumbidos por Deus de anunciarem o arrependimento, mediante os preceitos descritos na Lei), eles agora resistiam da mesma forma a ordem de arrependimento, dada pelos evangelistas e apóstolos, mediante a pregação do evangelho.

Em segundo lugar, para entendermos que o texto não ensina que a vontade de Deus pode ser frustrada pelo querer humano, se faz necessário expor os dois aspectos  da vontade de Deus, tais como: o “prescritivo e o decretivo”. O primeiro é uma referência aquilo que Deus quis que seriam os seus mandamentos; estes mandamentos são constantemente resistidos. O segundo é com referência ao plano eterno de Deus; aquilo que Ele soberanamente decidiu fazer ou decretar. Tendo então esta distinção em mente, entendemos que o problema aparente do versículo em questão é solucionado. Vejamos então o que a Escritura nos revela.

Na Bíblia vemos Deus decretando algo que Ele, em seus mandamentos, não ordena. Por exemplo, Ele de forma nenhuma, em seus mandamentos, ordenou Pilatos, Herodes, os Judeus e gentios, matarem à Cristo. Muito pelo contrário, Ele em seus mandamentos diz “não matarás” (Ex 20:13) Porém, sabemos que a mesma Escritura nos revela que Ele decretou a morte de Seu Filho juntando todos estes personagens “para fazerem tudo o que a Sua mão e conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (At 4:28). Ou seja, neste versículo fica claro que Deus decretou a morte de Cristo, e isto usando meios. E os meios são os próprios os homens os quais Ele ordena “não matarás”.

Em Ex 20:16 Deus, em seus mandamentos (aspecto prescritivo), condena de forma clara a mentira. Porém Ele mesmo enganou um profeta (aspecto decretivo) em determinada ocasião para o cumprimento de seus propósitos (Ez. 14:9,10). E também fez o mesmo com Acabe, quando pôs o espírito de mentira (aspecto decretivo) na boca dos profetas para enganá-lo, dizendo que ele (Acabe) venceria a batalha, sendo que isto jamais aconteceria (1 Rs 22:19-23).

Em Ex 4:21-23 o Senhor ordena que Faraó (aspecto prescritivo) deixe o povo de Israel ir. Mas no cap. 8:1 o Senhor diz que endurecerá o coração de Faraó (aspecto decretivo) para que não deixe ir o povo. Ou seja, Deus decretando algo que Ele nunca ordenou.

Cristo, em Mc 16:15, nos ordena pregar o evangelho a toda a criatura (aspecto prescritivo). Entretanto, nem sempre é de sua vontade que isto aconteça (Tg 4:15), como é o caso de Paulo e seus companheiros que foram impedidos, pelo Espírito Santo, de pregar o evangelho na Ásia e Bitínia (At 17:6,7).

A ordem de Deus (aspecto prescritivo), era que os irmãos de José deveriam amá-lo e não vendê-lo como escravo. Porém, o próprio José diz Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito” (Gn 45:8).

Existem vários outros textos na Bíblia que comprovam estas verdades. Mas creio que estes são suficientes para comprovar o que estamos defendendo.

Diante destes exemplos, e do claro ensino bíblico da vontade de Deus, entendemos então que o “resistir ao Espírito Santo” não quer dizer que Deus desejava salvar alguém e este alguém frustrou os Seus planos. O texto fala simplesmente do aspecto prescritivo da vontade de Deus que é “ordenar a todos os homens o arrependimento” (At 17:30). Isto é, Deus desejou que os profetas e apóstolos pregassem o arrependimento, o que não quer dizer que Deus queria o arrependimento dos que jamais se arrependeriam. O ato de resistir aos profetas significa resistir ao aspecto prescritivo da vontade de Deus; aspecto este que tinha como único objetivo ORDENAR O ARREPENDIMENTO. Em última instância, o que há no texto é um “resistir da ordem para se arrepender” e não um resistir “à vontade de Deus para salvar”. Há uma enorme diferença entre “Deus querer ordenar o arrependimento” e “querer salvar”. Na Bíblia, em certas ocasiões, a ordem de arrependimento feita por Deus através da Lei e do evangelho, tem a finalidade de endurecer ainda mais o réprobo (Is 6: 9-11, Mc 4:11,12, 2 Co 2:15-18).

Dito essas coisas, podemos então entender que os dois aspectos (prescritivo e decretivo) da vontade de Deus resolvem o dilema do texto em questão. Logo, os interpretes que insistem na ideia errada de que a vontade de Deus pode ser frustrada pelo querer humano, terão problemas com textos tais como: 

Bem sei eu que tudo podes, e NENHUM DOS TEUS PROPÓSITOS podem ser impedidos”. (Jó 42:2)

Para o arminiano, Deus tem um propósito, um desejo e um anseio pela salvação de todos os homens. E como Deus quer a salvação de todos, o Espírito Santo faz de tudo para convencer todos os homens. Porém, tais ensinos vão de encontro ao que Jó, inspirado pelo Espírito de Deus, afirmou aqui. O servo de Deus deixa claro que, se Deus tem um propósito ou um pensamento, Ele fará conforme o que pensou. Então, se Ele pensou em salvar, Ele de fato salvará. Mas como nem todos são salvos, conclui-se que Ele nunca pensou em salvar a todos.

O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará.” Isaías 14:24

Novamente a Escritura, através de Isaías afirma que o que Deus deseja e pensa, Ele faz. Os decretos divinos não estão sujeitos às ações dos homens como ensina o arminianismo. 

Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” Isaías 55:11 

Aqui a Escritura dá testemunho da eficácia da palavra de Deus, quando afirma que a mesma alcançará os resultados que Deus quer. Ora, se eu digo que por Deus ordenar o arrependimento de todos, Ele objetiva com isto a salvação de todos, logo tais objetivos não foram atingidos. Afinal, nem todos foram ou serão salvos. Entretanto, está claro que Deus faz toda a sua vontade, sendo assim, a graça salvífica ou irresistível não pode ser frustrada.

Eu anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; Eu digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10).

Mais uma vez fica evidente o fato de que Deus fará toda a sua vontade. Se Ele então tem a vontade de salvar a todos, logo todos serão salvos. Então, se insistirmos que é da vontade Dele a salvação de todos, estaremos dizendo que os propósitos de Deus foram derrubados pelo querer do homem. 

Conclusão

Penso então que se considerarmos tudo o que já foi escrito, não poderemos continuar crendo no ensino de que Deus pode desejar a salvação de alguém sendo que tal desejo não é concretizado. A graça irresistível é, portanto, uma graça triunfante; ela é a demostração de que Deus é soberano em regenerar os eleitos, objetivando com isto a salvação dos tais. Podemos então concluir dizendo que: a graça irresistível, de forma alguma, prega uma salvação na marra, apulso, ou que viola a vontade da criatura. Que a graça irresistível é a confirmação de que a vontade de Deus é, e sempre será realizada. E que até mesmo o aspecto prescritivo da vontade de Deus que é resistido, é resistido por que Deus em seu decreto assim o quer. De sorte que Deus continua e continuará soberano sobre todas as coisas.

Soli Deo Gloria

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Fonte: A suficiência das Escrituras
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