O que é Graça?

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Por Abraham Booth (1734-1806)


Paulo emprega a palavra "graça" para significar o oposto de "obras e méritos". "Pela graça sois salvos. ... não por obras" (Ef. 2:8-9). Graça significa favor imerecido ou favor dado sem que seja ganho por esforço algum.

Pela palavra "misericórdia" entendemos que alguém em dificuldade ou derrotado, está recebendo um benefício. Misericórdia faz supor uma pessoa sofredora a quem ela é concedida. Semelhantemente, "graça" sempre pressupõe indignidade na pessoa que a recebe. Se alguém nos dá qualquer coisa por graça, é porque nós não a merecemos. Qualquer coisa que mereçamos por direito, não pode ser nossa por graça. Graça e mérito não podem estar ligados no mesmo ato. São realidades tão opostas como luz e trevas. "Se é por graça, então não é por obras; de outra maneira, a graça já não é graça" (Rom. 11:6).

Assim, dizemos que nós recebemos a graça de Deus. Estamos dizendo, ao mesmo tempo, que somos indignos dela e que não podemos trabalhar por ela. Desta maneira, definimos graça como ela é usada no Novo Testamento, ou seja, "O eterno e absolutamente livre favor de Deus concedido a pessoas indignas e culpadas na doação de bênçãos espirituais e eternas".

A graça de Deus é eterna

À graça, de modo algum, depende do mérito humano; depende só da vontade de Deus. Não é ganha por mérito nem perdida por culpa. A graça é absolutamente livre de qualquer influência humana. Portanto nada há que possa derrotá-la, uma vez que ela foi dada. Por isso, Deus pode dizer: "... pois que com amor eterno te amei" (Jer. 31:3). Tal é a gloriosa base da nossa salvação!

Graça não é como uma franja de ouro na fímbia do vestuário; não é como um enfeite que decora um vestido; porém, é como o propiciatório do Tabernáculo, que era de ouro — de ouro puro — inteiramente de ouro! Portanto, aprendemos como estão seriamente enganados os que sugerem que a graça de Deus pode ser alcançada pelas boas obras. A graça de Deus recusa-se a ser ajudada naquilo que ela tem de fazer. Não seria um insulto à soberania de Deus sugerir que Ele precisa de ajuda do pobre desempenho do homem? A graça, ou é absolutamente livre de toda a nossa influência, ou então não é graça de modo algum.

Salvação, totalmente gratuita!

A graça "reina", diz Paulo em nosso texto (Rom. 5:21). Assim, a graça é comparada a um rei. Nos versículos anteriores, também o pecado é comparado a um rei. Como o pecado aparece armado de poder destrutivo, infligindo a morte, assim a graça aparece armada de invencível poder, amorosamente determinada a salvar. E "onde o pecado abundou, a graça o superou em tudo"(v. 20). Assim, o controle é da graça.

Em outras palavras: aqueles a quem Deus salva por Sua vontade misericordiosa, certamente estão totalmente salvos. Se Deus graciosamente resgata homens do poder do pecado, e lhes dá novas habilidades espirituais, então, não serão deixados para se fazerem suficientemente santos para entrarem no céu. Se a obra graciosa de Deus ficasse restrita a isso, a consequência final ainda seria duvidosa; a graça não estaria reinando. Além disso — admitindo-se que tal coisa fosse possível — os que conseguissem santificar-se por seus próprios esforços, ficariam muito, orgulhosos pelo que fizeram — o que seria diametralmente o oposto da graça!

Portanto, se a graça há de reinar, ela tem que ser o único meio de salvação. Por Sua vontade misericordiosa, Deus não apenas tem que começar, mas também continuar e completar a salvação do pecador. Então, se pode dizer com certeza que a graça "reina". Certamente uma certeza maravilhosa como esta glorifica a Deus.

A graça se adapta melhor à nossa necessidade do que qualquer outra coisa. Visto que o pecado é um tirano que reina sobre nós, e pretende levar-nos à morte eterna, que esperança podemos ter de salvação firmados em nossos próprios esforços? Quando nossas consciências ficam alarmadas por causa de nossas muitas falhas vergonhosas, não entramos em desespero? Lembre-se, porém, de que a salvação é pela graça de Deus! A graça de Deus está fundamentada na obediência perfeita e meritória de Cristo. O pecado não pode destruir o valor disso. A graça pode reinar sobre a maior indignidade. Na verdade, é só com o indigno que a graça se preocupa. Isso é assombroso! Isso é maravilhoso! Há esperança de salvação para o pior indivíduo, se é que ela é assegurada pela riqueza da graça que reina.

Teremos que ver nas próximas vezes como a graça reina na nossa eleição — chamamento, perdão justificação, adoção, santificação e perseverança.

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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Via: Josemar Bessa

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Perdão



Por Abraham Booth


O perdão do pecado é aquilo que o pecador espiritualmente despertado mais deseja. Todavia, é possível o perdão? Sem a Bíblia jamais saberíamos se tal perdão seria possível. Vemos, nas Escrituras, que Deus fala de Sua misericórdia desde os dias mais antigos: "O Senhor... perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado" (Ex. 34:7).

Na Bíblia Deus fala de muitos modos a respeito do Seu perdão, como também sobre a pecaminosidade humana, de muitas maneiras diferentes. Os pecadores são descritos como "corrompidos" e "abomináveis". O perdão de Deus é descrito como "limpeza" e "cobertura". Os pecadores são descritos como "devedores" e "sobrecarregados". O perdão é apresentado como "apagador" de dívidas e como "levantador" do abatido. As ofensas "vermelhas" são tornadas brancas "mais que a neve". O perdão de Deus é inteiramente adequado ao teu pecado!

O perdão de Deus para o pecado é gratuito, pleno e eterno. Estes três aspectos merecem considerações mais detalhadas, para mostrar quão completamente Deus na Sua misericórdia perdoa os pecadores.

Este perdão é gratuito. Não há condições para serem cumpridas antes dele ser dado. Os exemplos das Escrituras tornam isso bem claro. Que condições Saulo de Tarso teve de cumprir antes de ser perdoado? Nenhuma! Ele era um inimigo de Deus. Foi perdoado não porque tivesse cumprido certas condições, mas, "para que em mim, o principal pecador, evidenciasse Jesus Cristo a Sua completa longanimidade e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna" (I Tim. 1:16). Paulo, sem merecer, foi perdoado como "um modelo" para nós, da graça perdoadora de Deus.

Que condições Zaqueu, ou a samaritana, ou o carcereiro de Filipos cumpriram para obterem o perdão? Nenhuma, de fato! Nenhum deles merecia ser perdoado. Outros exemplos também poderiam ser citados, porém contentar-me-ei com apenas mais um. Que condições o ladrão moribundo teve de cumprir para ser perdoado? Também nenhuma! Ele era um notório pecador. Teria ele razão para esperar uma resposta feliz à sua oração: "Lembra-te de mim..."? Seu perdão foi unicamente um ato da graça de Deus! E o fato de só ele ter sido perdoado, dos dois ladrões, é um ato da graça discriminativa.

Ainda que este perdão seja gratuito para os pecadores, nunca devemos esquecer-nos de que Cristo pagou um alto preço por ele. Perdão para a menor das nossas ofensas só se tornou possível porque Cristo cumpriu as mais aflitivas condições, — Sua encarnação, Sua perfeita obediência à lei divina e Sua morte na cruz. O perdão que é absolutamente gratuito ao pecador teve um alto custo para o Salvador. Entretanto, no exato momento de pagar esse preço, como para mostrar que ele não foi pago em favor de pessoas justas ou dignas aos seus próprios olhos, Jesus moribundo perdoou livremente o ladrão. É evidente que o perdão vem pela graça, e a graça é favor dado sem o cumprimento de quaisquer condições preestabelecidas.

Penso que já foram apresentados fatos suficientes para provar que o perdão é gratuito. Eu poderia facilmente acrescentar outros fatos. Mas deixo-os de lado e só quero lembrar-te de um versículo marcante: "Quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho" (Rom. 5:10). Está claro, então, que o perdão não foi dado por qualquer coisa boa que tais "inimigos" tivessem feito!

Em segundo lugar, este perdão é pleno. Mesmo só um pecado traz a maldição da lei sobre o pecador. O perdão deve ser pleno o suficiente para incluir cada pecado, e deve abranger os piores pecados, não importando quão perversos eles sejam, ou de outro modo tal perdão seria inadequado. Uma pessoa com um só pecado não perdoado, está perdida.

O sangue de Cristo tem valor infinito por causa da gloriosa dignidade d Aquele que o derramou. A morte de Cristo é capaz de "nos purificar de toda injustiça" (I Jo. 1:9), e isso significa que nos pode purificar de cada pecado, por pior que seja, e de todos os pecados, não importando quão numerosos sejam eles.

Podemos muito bem clamar: "Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade e esqueces da rebelião do restante da tua herança. O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na benignidade. Tornará a apiedar-se de nós; subjugará as nossas iniquidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar" (Miq. 7:18-19).

Venha, então, trêmulo pecador! Pense nas riquezas da graça! Não permitas que nenhum pecado, ou mesmo uma multidão deles, te leve ao desespero. Deus nunca confere o Seu favor por causa do merecimento do pecador e nunca o nega por causa do seu demérito. A graça é livre e plena. Descanse sobre esta verdade!

Em terceiro lugar, o perdão é para sempre. Esta é a coroação final de um perdão completo. Ele é irreversível. As Escrituras dizem isto claramente: "... de seus pecados não me lembrarei mais" (Heb. 8:12). Esta promessa não é condicional, e sim absoluta. Não depende do perfeito comportamento subsequente do pecador (Se dependesse, então esse perdão certamente fracassaria e não poderia ser mantido). Depende do valor eterno da morte expiatória do Senhor e da inabalável fidelidade de Deus. "Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões" (Sal. 103:12). "Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica" (Rom. 8:33). Estas fortes expressões significam que o perdão jamais poderá ser revertido.

O fato de Deus castigar Seus filhos quando eles pecam, não significa que eles possam perder o seu perdão. O castigo que lhes impõe é evidência do Seu amor e do Seu interesse por eles, e não um sinal de que os está rejeitando.

O fato dos crentes orarem continuamente para que Deus lhes perdoe os pecados, não significa que eles já não estejam perdoados. Eles buscam a consciência de que foram perdoados. Não vamos imaginar que toda vez que eles pecam, arrependem-se, confessam o seu pecado e pedem perdão, Deus realiza novos atos de perdão. Contudo, eles precisam conscientizar-se sempre de que o perdão já lhes pertence, por serem filhos de Deus.

Quão glorioso, portanto, é o perdão que procede da graça de Deus. Quão completo é esse perdão! Nada existe que possa levar o pior pecador a deixar de pedi-lo. Ninguém tem razão para dizer: "Infelizmente, meus pecados são enormes demais!"

"Que diremos, pois, permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum" (Rom. 6:1-2). Antes, o pecador perdoado dirá com a mais profunda gratidão: "Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome... (porque) é ele que perdoa todas as tuas iniquidades" (Sal. 103:1,3).

"O perdão de Deus é da mesma natureza dEle. Não é estreito, difícil, frio, restrito e condicionado como o perdão que impera entre os homens; mas é pleno, livre, insondável, sem limites, absoluto — é da mesma natureza das excelências de Deus. Lembrem-se disso, pobres almas, quando tiverem de tratar com Deus a respeito deste assunto. O perdão não é merecido por obras piedosas realizadas antes, porém, é o mais forte motivo para se viver piedosamente depois de recebê-lo. Aquele que não aceita o perdão, a não ser que possa merecê-lo de uma forma ou de outra, não participará dele. Aquele que presume tê-lo recebido, e não se sente obrigado a ser obediente a Deus por causa do perdão que recebeu, na verdade não goza dele!"

Leitor, um tal perdão não seria próprio para você? Almeja ser perdoado? Então, olhe para Jesus que morreu por você. Isso que tanto deseja é um dom livre que se tornou possível por causa do Seu sacrifício a favor dos pecadores.

Você já está perdoado? Então o teu coração deve estar cheio de santo amor pelo Senhor e de compaixão para com qualquer que te ofenda. Aquele que se considera perdoado, mas não perdoa aos outros, "é mentiroso" (I Jo. 4:20).


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Via: Josemar Bessa
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O propósito final da graça de Deus



Por Abraham Booth


A graça de Deus é mais maravilhosa do que a graciosidade entre os seres humanos por causa dos assombrosos dons que ela proporciona a indignos pecadores. E o propósito final da graça de Deus é tão glorioso quanto a graça em si mesma. O propósito final de Deus é que os pecadores sejam levados, por fim, ao ditoso lugar de vida eterna com Ele. O céu é o último dom gracioso de Deus.

A Bíblia usa linguagem figurada para descrever a felicidade do céu. Ela fala de coroas, de tronos e de um reino. Fala de uma herança eterna a ser desfrutada pelos filhos de Deus. Fala de prazeres, para sempre, à mão direita de Deus.

Os crentes já têm um antegozo desta alegria. A fé é descrita como "a substância das coisas que se esperam" (Heb. 11:1). O crente tem vida eterna agora. Talvez as alegrias do mundo porvir são antecipadas mais claramente em certas ocasiões do que em outras, porém sempre serão sentidas, em alguma medida, em todos os tempos.

A felicidade futura dos crentes pode ser contemplada em dois estágios: primeiro, depois da morte e antes da ressurreição; segundo, depois da ressurreição e do juízo.

1. A alma do crente entra na glória imediatamente após a morte. Assim, para o crente, a morte é uma bênção! "Tudo é vosso", diz Paulo, "seja a vida, seja a morte" (I Cor. 3:21-22). A morte é o portal da glória. E, como Paulo diz em outro lugar, "desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (II Cor. 5:8). Como Jesus disse ao ladrão moribundo: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Luc. 23:43).

Cristo prometeu-lhe as alegrias do paraíso, tão logo lhe sobreviesse a morte.

Completamente libertados de toda a espécie de perturbações, os espíritos eternos dos santos alegram-se em estar com Cristo. Vêem Sua glória e Suas perfeições deslumbrantemente reveladas, as quais antes só entendiam obscuramente. Cultuam com reverente gratidão a graça que os levou até ali.

Não estão simplesmente olhando para o Senhor glorioso. O Senhor está solícito para com eles e alegra-Se com eles. Certamente podemos depreender isso do amistoso relacionamento, que Ele manteve com os Seus discípulos quando esteve aqui na terra. Ele agora está exaltado no céu e Sua amizade com Sua família na glória deve ser mais exaltada ainda. Os membros dela partilham da Sua glória, e isso deve aumentar ainda mais a admiração deles!

A capacidade do crente para apreciar as glórias da redenção advinda do Salvador será grandemente aumentada desde que o embotamento pecaminoso deste mundo tenha ficado para trás. Se Paulo com sua compreensão terrena pôde exclamar comovido, "O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus" (Rom. 11.33), quão maior deve ser a maravilha experimentada pelas almas dos crentes no céu! Pois ali elas vêem as grandes riquezas de Deus sem nenhum impedimento em sua visão. Vêem o poder de Deus. Vêem o amor de Deus. Vêem — como nunca antes — o pleno sentido daquilo que Cristo fez para salvá-las. Vêem, no céu, a plena maravilha da graça de Deus para com elas, pecadoras indignas que eram. Que êxtase de regozijo! Que arrebatadas emoções!

Nem mesmo a visão da justiça divina, revelada no julgamento dos incrédulos, em nada diminuirá o seu prazer em Deus. Pois agora a santa vontade deles é tão completamente de acordo com a vontade de Deus que eles concordam plenamente com aquilo que Ele faz.

Se o rosto de Moisés brilhou depois que ele esteve face a face com Deus no monte Sinai, quão maior será o brilho que Deus comunicará àqueles que O vêem na glória. E vendo a Deus mais claramente significa que o seu amor para com Ele será ainda maior. Livres de todo egoísmo e orgulho e de todas as imperfeições físicas que distorcem o culto aqui na terra, os santos no céu, podem, como nunca antes, adorar a este Deus de toda graça.

2. Todavia, enquanto a experiência do céu é tão feliz para os espíritos "desvestidos", como temos descrito, esta felicidade é menor do que aquela que gozarão depois da ressurreição.

Na ressurreição os corpos dos crentes voltarão à vida e se reunirão a seus espíritos. Isso será uma alegria! Enquanto os corpos dos santos estiverem confinados à sepultura, o efeito do pecado não é de todo debelado. Mas, quando seus corpos voltarem à vida, inteiramente novos e sem pecado, e se unirem às almas sem pecado, então a vitória sobre o dano que o pecado causou será triunfantemente completa.

É parte fundamental da fé cristã que os mesmos corpos que morreram por causa do pecado, sejam trazidos à vida outra vez para demonstrar a vitória de Cristo sobre o pecado. Contudo, embora sejam os mesmos corpos, eles serão diferentes em natureza. Serão agora corpos incorruptíveis, gloriosos e cheios de poder; serão espirituais como o corpo de Cristo na ressurreição. Podemos nós imaginar o esplendor desse corpo? (I Cor. 15:42-44; I Io. 3:2).

Outra coisa que aumentará a felicidade dos crentes na ressurreição é o fato de que eles, então, serão publicamente absolvidos pelo Juiz de toda a terra. O Juiz é Cristo, seu amigo e Salvador. A justiça de Cristo os protege. O sangue de Cristo expiou os seus pecados. Quem pode condená-los?

E esta felicidade é para sempre. A herança deles está salvaguardada de qualquer inimigo. A coroa é imarcescível. O reino é eterno. A felicidade dos crentes é tão duradoura quanto o seu Deus, que de tal modo os favoreceu com Sua graça. E Deus é infinito!

Assim, foi a benigna misericórdia de Deus que primeiro concebeu o meio de salvação e escolheu os pecadores que deveriam recebê-la. Foi a bondosa decisão de Deus que perdoou, justificou, adotou e santificou Seus filhos. Foi o benigno favor de Deus que providenciou todas as bênçãos necessárias para nutrir e preservar a vida espiritual dos crentes. E, finalmente, é a graciosa disposição de Deus que abre o céu aos crentes como um lar eterno. A graça de Deus tem sido central do começo ao fim. Quando toda a história estiver terminada, que regozijo haverá no céu, "porque ele trará a primeira pedra com aclamações: Graça, graça a ela" (Zac. 4:7). E todos os anjos clamarão com alegria, também.


Que outras coisas aumentarão a felicidade dos crentes no céu? Não me aventuro a indagar. Não devemos nos entregar à imaginação curiosa. A coisa importante é sabermos que somos herdeiros desta alegria.

Leitor, que pensa você a respeito de tudo isto? Provavelmente você espera ir para o céu quando morrer. Seria isso um mero desejo ou uma bem fundada esperança? Por que você espera ser feliz quando muitos serão eternamente miseráveis? Somente aqueles que conhecem a graça de Deus na terra verão a Sua glória no céu. Você não pode ter genuína esperança do céu no futuro, se não tiver agora o amor pela santidade, pois o céu, caso você entrasse lá, não seria um lugar feliz para você! Se você não ama o céu, mas apenas têm medo do inferno, que a graça de Deus te liberte, pois agora és herdeiro da destruição. Se você deixar este mundo nessa condição, nela viverá eternamente.

Você é uma pessoa séria? Você baseia a tua esperança na tua seriedade? Uma pessoa pode ser zelosa para com Deus e, no entanto, perecer para sempre (Rom. 9:31-32). Se você ama verdadeiramente a tua alma, não fique na incerteza quanto ao teu futuro. Leia a tua Bíblia; ore para que o Espírito da verdade te dirija.

Você é um filho de Deus? Então busque fazer acelerado progresso na religião vital. Use todos os meios da graça. Mantenha regular comunhão com Deus. Guarde-se contra o pecado habitante (Rom. 7:17). Jamais se esqueça de que fora de Cristo e da graça de Deus você é uma criatura indigna e culpada. Comporte-se sempre de tal maneira que quando o Noivo celestial voltar, Ele possa encontrá-lo pronto.

Talvez agora tenhamos aprendido que o livre favor de Deus outorgado a nós na salvação pela graça, é um tema tão sublime que tudo o que poderia ser dito, ou escrito a respeito dele, estará bem aquém de um estudo completo. Sim! O assunto permanecerá inexaurível, mesmo na eternidade, pois as riquezas de Cristo são insondáveis e a graça de Deus é incomensurável.


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Via: Josemar Bessa
 

Quão assombrosa é a graça!



Por Abraham Booth (1734-1806)


Se estudarmos abreviadamente os privilégios que os crentes possuem como resultado de sua adoção por Deus, veremos quão assombrosa é essa graça.

1. Os crentes agora têm um honroso caráter: não são servos nem amigos, mas filhos de Deus. E esta é uma condição inalterável. Os crentes são chamados reis e sacerdotes.

2. Os crentes têm uma marcante relação: não são meramente irmãos de Cristo, porém, são Sua noiva também. E esta união jamais será dissolvida.

3. Os crentes têm uma excelente herança: não meramente todo o auxílio da providência nesta vida, mas são herdeiros de toda a plenitude de Deus.

4. Os crentes desfrutam do benefício de ter o Espírito de Deus vivendo neles — o Espírito de adoção — como garantia de sua futura glória e como auxílio prático de sua vida espiritual hoje.

Que privilégio ser capaz de aproximar-se de Deus sem embaraço e sem temor. Nesse sentido, o mais pobre crente é mais rico do que todos os grandes nomes da terra.

Ora, que significam estas coisas para você? Você se denomina cristão? Você tem alguma experiência dos privilégios que acabei de expor? Se não tem, então, longe de ser um filho de Deus, você é — como direi a verdade? Será que a aceita? — você ainda é um filho do diabo.

Todavia, se você é um crente, você é um filho de Deus. Cuidado em comportar-se como tal. Deixe que os filhos deste mundo satisfaçam sua mentalidade estreita com as coisas terrenas. Você não deve comportar-se como eles. Porventura você não é um herdeiro do reino de Deus? Então você precisa cuidar do bem-estar da Igreja de Deus. "... tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai" (Fil 4:8).


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa

Fonte: Josemar Bessa
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Como a Graça Controla o Chamado

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Por Abraham Booth (1734-1806)


O fato de Deus graciosamente escolher um povo para Si, dentre toda a raça humana pecadora, não é inicialmente conhecido pelos que são escolhidos. Eles nada sabem a respeito do assunto antes de se converterem. O Espírito Santo, portanto, precisa realmente chamá-los um por um, ou eles jamais saberão que são filhos de Deus! Esta experiência é conhecida nas Escrituras como "chamados por Deus" (I Cor. 1:9); "chamados pela graça" (Gal. 1:15); "chamados pelo evangelho" (II Tess. 2:14). O Espírito Santo serve-Se do evangelho para efetuar esse chamamento.

Os pecadores estão espiritualmente mortos. Eles aceitam a verdade do evangelho só quando o Espírito Santo os vivifica. "Os mortos ouvirão. . . e os que ouvirem viverão" (Jo. 5:25). O pecador recém-despertado talvez se sinta longe de Deus, porém, o evangelho diz: "... o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" (Jo. 6:37). Assim, o pecador espiritualmente vivificado vem a Jesus, confiando na verdade do evangelho. Esta é, em suma, a experiência de quem é chamado pela graça. O fato de qualquer pecador ser chamado deve-se inteiramente à graça divina. "Deus chamou-me por Sua graça", disse Paulo. E nenhum santo jamais alegará outra causa.

Os pecadores, em geral, consideram suas ofensas contra Deus mais como falhas do que como crimes. Eles dormem em seus pecados, sonhando com uma misericórdia geral que, (esperam), lhes seja outorgada. Eles jazem inconscientes de seu perigo, até que o Espírito de Deus os toca e os convence de sua pecaminosidade. Mas quando eles são levantados da morte espiritual pelo Espírito de Deus, aprendem repentinamente que cada um de seus pecados os coloca sob a maldição de Deus. Os deveres negligenciados, as boas dádivas de Deus ingratamente usadas, os atos de rebelião cometidos contra Deus assediam a mente do pecador recém-despertado e perturbam sua alma. A consciência aguça o seu ferrão e a culpa se torna um peso. Ele vê que a santa lei de Deus é justa. A ruína passa a ser vista como inevitável para os pecadores não perdoados.

Daí, pelo Espírito e pela palavra da verdade, os pecadores despertados aprendem que são incapazes de escapar da lei de Deus por qualquer esforço próprio. Esta convicção os torna alarmados por não terem percebido antes sua ignorância e indiferença. Agora eles sabem que as Escrituras são verdadeiras quando atribuem ao homem natural a condição de um "cão que retorna ao seu vômito", a uma "porca lavada que retorna ao espojadouro de lama" (II Ped. 2:22) e a "um sepulcro aberto" (Sal. 5:9). Ao invés de viverem cada momento no ininterrupto e vibrante amor de Deus, como a lei divina exige, eles viveram — oh vergonha! — inteiramente voltados para o amor de si mesmos e para o pecado. Certamente a lei de Deus é justa! "Maldito é todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gal. 3:10). Uma vez que não permaneceram, eles são de fato malditos.

Ora, deve ser claro que tais pessoas admitirão prontamente que qualquer esperança para elas só será possível se Deus for misericordioso.
A graça, como meio de salvação, está inteiramente à disposição de qualquer um que reconhece seu demérito aos olhos de Deus.

Diante disso, poderíamos pensar que um pecador despertado para sua necessidade correria para receber uma salvação tão graciosa. Verdade maravilhosa! Espantoso favor! Que mais se poderia esperar? No entanto, a observação mostra que os pecadores despertados são, às vezes, muito lentos para receber este conforto. Isso acontece não porque a graça de Deus é deficiente, nem porque a salvação é de algum modo incompleta, e sim porque freqüentemente o pecador acha que ainda não teve bastante consciência do seu pecado, ou porque sente que ainda não deseja Cristo suficientemente. Isso evidencia que ele ainda compreende mal a glória da salvação pela graça.

Nossa convicção de pecado ou o desejo de termos Cristo como nosso Salvador não persuade a Deus a ser gracioso para conosco. São experiências necessárias para nos tornar desejosos de receber a graça, mas não são necessárias para levar Deus a ser gracioso conosco. É a graça que controla o ato de Deus quando Ele nos chama, e não o nosso montante de tristeza por causa dos pecados, nem o quanto desejamos ser salvos. Precisamos cuidar que não desejemos as misérias da incredulidade, a fim de obtermos permissão para crer.

O chamado do evangelho é para pecadores infelizes que, de si mesmos, nada têm em que possam confiar. Aquele que verdadeiramente crê em Cristo precisa confiar nEle como Justificador do ímpio (Rom. 4:5). O pecador que se sente, de algum modo, melhor do que o ímpio, não é encorajado a buscar a Cristo, e sim o pecador que sabe que é tão culpado quanto todos os outros! "Não vim chamar os justos", disse Jesus, "mas os pecadores ao arrependimento" (Mat. 9:13).

A base da esperança do crente e a fonte de sua alegria espiritual não decorrem do pensamento que ele fez alguma coisa para merecer sua própria salvação (chame isso de "crença" ou o que você quiser), mas das verdades de que a salvação é de graça e de que o Salvador "veio salvar o que se tinha perdido" (Mat. 18:11). Um crente depende da graça que não exige mérito, e de um Salvador que supre toda a justiça necessária.

Consciente, então, de que está na mesma situação de culpa de todos os outros ímpios do mundo, o pecador despertado está convencido de que seu chamado se deve exclusivamente ao fato de Deus lhe ter sido gracioso. Ele não conhece outra razão para isso. Ele está plenamente persuadido de que Deus deu o primeiro passo. Quando ele pensa na experiência de ter sido despertado para reconhecer sua necessidade espiritual, ele diz: "Eu fui achado por Aquele a Quem nem amei nem procurei".

Ser chamado por Deus é puramente um ato de Sua graça. Ter consciência de que a graça discriminativa de Deus te particularizou e te chamou, embora você não fosse diferente de todos os outros pecadores, deve encher o teu coração de gratidão cristã. Este fato encherá o teu coração de grande incentivo para piedosa obediência e serviço cristão fervoroso.

Que direi a você que ainda não foi chamado? Se você deixar este mundo no estado em que está, estará perdido para sempre. Só os que são chamados aqui, são glorificados lá. Não suponha que o conhecimento dos fatos do evangelho poderá te salvar, se o teu coração está frio e sem qualquer sentimento de amor a Deus. Que vantagem haverá para você se deixar entre teus amigos a lembrança de um respeitável caráter, e você mesmo for perdido? Queira Deus que este não seja o caso com os meus leitores!


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Fonte: Josemar Bessa

Nossa Justificação

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Por Abraham Booth (1734 - 1806)


Nossa justificação vem pela graça

A doutrina da justificação trata de como um pecador é aceito por um Deus santo. É uma verdade muito importante. Errar a respeito dela pode ter perigosas consequências. Por isso, esta verdade exige que a consideremos seriamente.

Justificação é um termo legal. Não significa, na realidade, tornar uma pessoa justa, em sua natureza. Justificação é o ato pelo qual um juiz declara que uma pessoa não é culpada. Portanto, a justificação é o oposto da condenação. Uma sentença de condenação jamais deve fazer de uma pessoa um criminoso. Ela declara apenas que tal pessoa deve ser punida. Do mesmo modo, a justificação não declara que uma pessoa é santa, mas que ela deve ser considerada como merecendo um prêmio.

Há duas maneiras possíveis para as pessoas serem justificadas. Se pudéssemos achar uma pessoa que nunca quebrou a lei de Deus, então essa pessoa seria justificada pela lei. Mas a Bíblia diz: "Todos pecaram" (Rom. 3:23); e "não há ninguém que faça o bem, não há sequer um" (Rom. 3:10). Definitivamente, portanto, ninguém será justificado pela lei. Razão porque a Bíblia fala de uma "justiça de Deus" que se manifestou sem lei (Rom. 3:21). Esta é a justificação que vem pela graça de Deus, e que é revelada no evangelho. Consideremos agora no que consiste esta justificação.

Diz-se-nos que "é Deus quem nos justifica" (Rom. 8:33). Todavia, Ele é a pessoa que temos ofendido com os nossos pecados. Por isso, esta justificação seguramente nos é imputada porque Deus é misericordioso e não porque nós a mereçamos.

Todas as três divinas pessoas da Trindade têm parte na nossa justificação. O Pai estabeleceu o modo pelo qual ela devia ser feita. Ele deu o Filho para cumprir a lei de modo perfeito, em benefício dos pecadores. O divino Filho obedeceu integralmente a vontade do Pai e suportou a maldição de lei violada pelos pecadores. E o Espírito Santo revela a livre disponibilidade do evangelho para os pecadores e habilita-os a recebê-lo. Assim, na linguagem triunfante de Paulo, podemos dizer: "Quem nos condenará?" Se o Deus triuno justifica, quem será maior do que Ele, para contestá-lO?

A Bíblia afirma que aqueles aos quais este maravilhoso favor é concedido são pecadores e pessoas ímpias. Isto significa que a justificação é "para aquele que não trabalha (por ganhá-la), mas para aquele que crê nAquele que justifica o ímpio" (Rom. 4:5).

Esta expressão — "Deus que justifica o ímpio" — leva alguns a arguirem, colericamente, que uma tal doutrina aniquila a necessidade do homem ser santo e praticar boas obras. Que necessidade há destas coisas, dizem eles, se Deus justifica o ímpio? Mas, o apóstolo não diz que Deus justifica aqueles que continuam na impiedade. Todos os justificados foram ímpios até o momento de serem justificados. Entretanto, a partir do instante em que são justificados, se tornam piedosos. Devemos insistir que as Escrituras afirmam que Deus justifica o ímpio. Desde que se diz que todo aquele que é justificado "não trabalha (para isto)", fica excluída toda a sua suposta dignidade, como causa de sua justificação.

A justificação só ocorre porque Deus é misericordioso. Este fato é expresso enfaticamente pelas palavras "Sendo justificados livremente por sua graça" (Rom. 3:24). Se estas palavras não provam que a justificação é totalmente livre, sem a menor consideração para com qualquer suposta bondade do pecador, então eu não sei que palavras poderiam provar esta verdade! Diz-se-nos plenamente que a bênção da justificação nos é dada sem qualquer causa oriunda de nós — pois é isso que significa "livremente pela graça".

Não há condições a serem cumpridas, nem mérito a ser ganho — com ou sem a ajuda de Deus. Enfim, não há pré-requisitos para que o pecador seja declarado "sem culpa". Nada é exigido, exceto que Deus seja misericordioso!


Mas como pode um Deus santo e justo ignorar, aparentemente, a impiedade do pecador e justificá-lo? Como pode uma pessoa iníqua ser declarada justa? Não seria isso um malogro da justiça?

A justiça pela qual uma pessoa há de ser justificada perante Deus precisa ser uma justiça perfeita. A lei de Deus exige perfeição e não pode aceitar menos do que isso. Onde, porém, o pecador encontrará uma tal perfeição? "... nenhuma carne será justificada diante Dele pelas obras da lei..." (Rom. 3:20). Ao invés da lei de Deus justificar um pecador, ela o denuncia quão grande pecador ele é! Por isso, todos quantos confiam na observação da lei, estão sob a maldição (Gal. 3:10). Pois aquele que "deixar de cumprir um só ponto da lei, é culpado de todos" (Tg. 2:10). Assim, dessa forma não há perfeita justiça para o pecador!

Se fosse possível adquirir justiça por guardar a lei de Deus, então Cristo não tinha necessidade de vir ao mundo. Se os homens pudessem ser justificados pela excelência de suas próprias vidas, então "Cristo morreu em vão" (Gal. 2:2). "Portanto, concluímos", escreve Paulo, 
"que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei" (Rom. 3:28).


Nossa fé, contudo, não é a razão da nossa justificação. Diz-se que os crentes são justificados pela fé, e não por causa da fé. Homem algum tem fé perfeita. Se a fé fosse a razão da justificação, então alguns crentes poderiam ser justificados por uma fé mais perfeita; outros, por uma fê menos perfeita. Ou isso, ou alguns seriam mais justificados do que outros! Tudo isso é absurdo. Além disso, torna a fé num meio de obter a justificação. Não! O que se diz é que a "justiça de Deus é revelada de fé em fé" (Rom. 1:17). Portanto, a fé não pode ser aquilo que nos torna justos.

Nem somos aceitos por Deus por causa de qualquer santidade produzida em nós pelo Espírito Santo, ou por causa de boas obras que tenhamos feito com o Seu auxílio. E se pensarmos que uma tal santidade é produzida por nós mesmos, então ela tem que ser considerada como nossa própria justiça. No entanto, o apóstolo Paulo torna claro que ele deseja ardentemente ser achado em Cristo "não tendo justiça própria que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé" (Fil. 3:9).

Se dissermos que a nossa própria justiça é a condição para nossa justificação, então estaremos tentando obter a nossa aceitação diante de Deus mediante esforço humano. Estaremos nos pondo de volta sob o conceito das obras; isso é o oposto do conceito da graça. O concerto das obras foi o arranjo que Deus fez com Adão, no qual Ele exigia perfeita obediência pessoal como condição de vida (Gen. 2:16-17).

O concerto da graça, contudo, é o arranjo pelo qual Deus faz ao pecador promessas de bênçãos, sem quaisquer condições. Na verdade, este concerto é chamado de "concerto da promessa" (Ef. 2:12).

Se, então, o pecador que procura a justificação é ímpio; se o Supremo Governador do mundo exige obediência perfeita; se uma tal perfeição não pode ser encontrada no nosso comportamento, nem mesmo na nossa fé e obras, como então seremos justificados? Por um substituto que pudesse realizar tudo aquilo que fosse necessário e creditá-lo em nossa conta. Daí dizer-se que "somos feitos justos pela obediência de Cristo" (Rom. 5:19), e "justificados pelo seu sangue" (Rom. 5:9). Nossa justificação é possível somente pela graça de Deus, porque a obra salvadora de Cristo é creditada a nós.


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa

Por que a Graça é bem sucedida?

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Por Abraham Booth (1734-1806)


A graça é bem sucedida devido Cristo ser quem é

Nossa salvação é perfeitíssima, porque Jesus Cristo é singularíssimo. Precisamos prestar cuidadosa atenção para compreender Suas naturezas. Cristo tinha duas naturezas, ainda que fosse uma só pessoa. Ele era Deus e homem. O fato dEle ser único neste sentido, é a razão por que a redenção que Ele obteve e oferece gratuitamente é perfeitíssima.

Ele tinha que ser verdadeiro homem. Originalmente a lei de Deus foi dada para os seres humanos a obedecerem, assim alguém poderia mostrar que uma pessoa seria capaz de cumpri-la com sucesso. Adão fracassou. Cristo, porém, foi bem sucedido. Ele nunca falhou em agradar ao Seu Pai. E o cumprimento da lei por Cristo foi aceitável porque Ele era verdadeiro homem. Se Ele fosse um anjo, não teria sido provado que um homem poderia cumprir a lei de Deus. Foi Adão — um homem — que pecou. Por isso, Cristo — um homem — precisava agora oferecer completa obediência. Além disso, a natureza humana de Cristo precisava estar ligada à natureza de nossos primeiros pais. Não seria adequado, se Sua natureza humana fosse repentinamente criada a partir do nada, porque, então, Ele não estaria ligado àqueles a quem veio salvar. O direito de redenção pertence somente a um parente próximo (Lev. 25:48-49).

Por outro lado, é igualmente importante que Sua natureza humana estivesse livre do pecado. Se Ele tivesse sido maculado, mesmo no mínimo grau, pela pecaminosidade que herdamos, então Ele não teria podido guardar a lei de Deus, como também nós não podemos. Como Deus é sábio! Não obstante ter sido necessário ao Salvador nascer de uma mulher, Ele foi concebido de tal maneira que ficou livre da culpa de Adão (Mat. 1:20). Cristo tomou aquela natureza pela qual veio o pecado (em Adão) sem qualquer pecaminosidade inerente nessa natureza.

Era também absolutamente necessário que o Salvador fosse Deus tanto quanto homem. Nós humanos temos de obedecer a Deus, porque dependemos dEle para tudo. Assim, nossa necessidade de obedecer decorre de nossa dependência. Desde que somos totalmente dependentes dEle, precisamos ser totalmente obedientes a Ele. Parte alguma de nós é independente de Deus e, portanto, disponível para obedecer a Deus no interesse de outrem. Toda nossa obediência deve ser apenas em nosso favor. Somente uma pessoa sem necessidade de obedecer a Deus por causa de si mesma, pode obedecer a Deus em favor de outros. Portanto, nosso Salvador deve ser Deus e não dependente de Deus como nós. Só uma pessoa divina que não seja dependente de qualquer outra pessoa, pode praticar atos de obediência desnecessários para ela mesma, e por isso disponíveis em favor de outros.

O pecado é um dano infinito. A maldade de qualquer ato mau é medida pela importância da lei que ele quebra. E a importância de qualquer lei está em proporção com a delicadeza e o status da pessoa que a formula. Portanto, desde que Deus possui beleza infinita, status e autoridade, Suas leis são de importância infinita e devemos obedecê-las inteiramente. Nossa desobediência é infinitamente criminosa. Consequentemente, nosso pecado merece punição infinita. Assim, quem seria capaz de suportar o peso de uma ira infinitamente divina sobre pecados infinitamente perversos, a não ser um Salvador infinitamente divino? Jesus precisa ser Deus tanto quanto homem, para ser um Salvador adequado. E, finalmente, nosso Salvador precisa ser Deus e homem ao mesmo tempo. Ele é o mediador entre Deus e o homem, entre o Soberano ofendido e o pecador ofensor. Se Jesus fosse apenas divino, Ele não poderia representar o povo. Se Jesus fosse apenas homem, não poderia interceder junto a Deus. Só a condição de deidade estaria alta demais para os seres humanos; só a condição de humanidade estaria baixa demais para Deus. Jesus precisava reunir as duas condições simultaneamente para ser a pessoa intermediária, ligando Deus e os seres humanos.

Para cumprir Seus deveres de sacerdote, profeta e rei, Jesus precisava ser tanto Deus como homem

1. Como sacerdote, Ele precisava ter algo a oferecer (Heb. 8:3). Mas, apenas como divino Ele não teria coisa alguma a oferecer a Deus. Cristo, portanto, teria de ser um homem a fim de possuir uma perfeita humanidade para oferecer. Entretanto, como mero homem, Ele não teria autoridade para dar a Sua vida e tornar a tomá-la. Cristo, portanto, para ter essa autoridade, precisava ser Deus. Ele morreu por causa da pecaminosidade infinita e, por isso, o oferecimento de Sua humanidade deve ter status infinito para ser adequada. Esse status só podia proceder de Sua divindade.

2. Como profeta, Ele precisava ser Deus para poder conhecer a mente de Deus e compreender a diversidade daqueles que, em cada época e nação, necessitariam do Seu ensino. Todavia a fim de revelar a vontade de Deus em Sua vida por modos compreensíveis aos homens, Ele precisava ser homem.

3. Como rei, Cristo precisava ser Deus para tornar-Se o Senhor de nossas consciências, o Cabeça da Igreja, o Doador da vida eterna aos Seus seguidores e o Juiz de todos. Contudo, Ele necessitava também de ser homem porque, sem essa condição, Ele não podia ser o Cabeça da mesma natureza do corpo ao qual está unido, nem compadecer-Se dos Seus súditos, como Ele fez — e faz.

Podemos, portanto, ter a mais plena convicção na excelência da obra de Cristo como Redentor, porque Ele está excelentemente equipado para essa tarefa pela Sua pessoa singular com duas naturezas. A salvação que um tal excelente Salvador oferece graciosamente, deve ser a melhor que pode haver. A graça reina!

Diante de tudo isso, que o leitor admire e adore o amor e a sabedoria de Deus! E que ele note quão sério é negar que Cristo é verdadeiramente Deus ou que é verdadeiramente homem. Ambas as negações destroem a Sua excelência como verdadeiro Mediador entre Deus e os crentes. Tanto a deidade como a humanidade de Cristo são essenciais à correta compreensão de toda a Sua obra salvadora.

Oxalá os pecadores corressem para esse Salvador tão adequado! Confiem nEle como poderoso para salvar; olhem para Ele para receberem instrução na verdade; esperem Sua proteção como Rei; rendam obediência a Ele; cultuem-nO, pois Ele é sobre todos, Deus bendito para sempre. Pela Sua excelência, a excelência da graça de Deus é revelada.


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Fonte: Josemar Bessa
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Ninguém tem direito a salvação!



Por Abraham Booth

Humildade para com os nossos semelhantes, amor e gratidão para com Deus — são estes os frutos de uma compreensão da graça discriminativa de Deus. A eleição, portanto, influencia-nos para nos tornar melhores crentes.

Ao mesmo tempo, por mais cheia de auxílio que esta verdade possa parecer àqueles que já são crentes, será que ela não vai desencorajar os que ainda não o são? Os que buscam tornar-se crentes poderão arguir: "Se eu não estiver entre os eleitos de Deus, então não importa o quanto eu deseje ser salvo, pois jamais o serei".

Este pode parecer um argumento plausível, mas na verdade é um grande erro. Deixe-me ilustrar o que quero dizer. Suponhamos que um alimento é repentinamente apresentado a um homem faminto. Teria sentido ele dizer: "Não sei se Deus pretende que eu seja alimentado por este determinado alimento. Por isso, não importa o quanto eu o deseje, não posso comê-lo". Não seria muito mais sensato dizer: "Tenho um forte apetite. O alimento é o meio de satisfazer o meu apetite. Portanto, eu comerei este alimento".

Ora, Cristo é o pão da vida, o alimento das nossas almas. Este alimento celestial é provido pela graça oferecida no evangelho, e livremente apresentado a todos os que têm fome, sem exceção. Que tem de fazer, então, o pecador espiritualmente despertado senão, sendo habilitado pelo Senhor, tomar, comer e viver para sempre? Os pecadores não são encorajados a crer em Jesus em troca de saberem que são eleitos. Não, as novas da misericórdia de Deus são dirigidas aos pecadores considerados como prontos para perecerem.

Todos, sem exceção, que conhecem sua situação perigosa e sentem sua incapacidade, são convidados, sem demora, a aceitarem as bênçãos espirituais, antes mesmo de pensarem a respeito de sua eleição. Assim, esta verdade não deve aterrorizar um despertado ou qualquer pessoa que tenha consciência de seu pecado. Os que estão indiferentes a respeito de suas almas, ou têm elevada opinião sobre sua própria bondade, de qualquer maneira jamais se incomodarão com a eleição!

No entanto, não poderia alguém dizer: "Se eu estou entre os eleitos, então necessariamente serei salvo, não importa como eu me comporte". Por acaso este ensino das Escrituras referente à graça discriminativa não encoraja o crente a viver descuidadamente?

Às vezes, você pode encontrar pessoas que dizem crer na eleição e cujas vidas são cheias de impiedade. Tais pessoas, porém, estão enganando a si mesmas. A eleição não significa meramente que um certo número de pessoas irá, seguramente, para o céu. A razão da eleição é que o povo de Deus fosse santo e irrepreensível diante dEle (Ef. 1:4), ou seja, a eleição significa que um certo número de santos alcançará o céu.

Deus não indicou apenas o lugar (o céu) para onde os eleitos irão, porém, mostrou também o caminho pelo qual eles chegarão lá, Paulo escreve: "Devemos sempre dar graças a Deus... por vos ter elegido desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito, e fé na verdade" (2 Tess. 2:13). Assim, uma parte essencial da experiência espiritual dos eleitos deve ser a "santificação" e a "fé na verdade". Onde estes elementos não estiverem presentes, não há eleição.

Há um outro argumento semelhante a este último, o qual se costuma apresentar contra a verdade da eleição. É o seguinte: qual é a utilidade da pregação, da oração e da auto-negação? Se os eleitos já estão certamente escolhidos, não há necessidade destas coisas. A resposta a este argumento é a mesma que demos ao argumento anterior, ou seja, Deus usa deliberadamente a pregação, a oração e a autonegação para efetuar aquele viver santo para o qual Ele escolheu o Seu povo. Posso mostrar o absurdo desse argumento por meio de outra ilustração.

Vamos concordar que há um Deus que governa todos os nossos negócios humanos por Sua providência. Se Ele planejou tudo aquilo que fará, então a objeção de que "se alguém é eleito, esse alguém não precisa ser santo", também se aplica a todos os negócios da vida diária. Se Deus planejou todos os negócios humanos, então quer com saúde ou doentes, quer bem sucedidos ou falhos em nossos negócios, quer habilidosos ou não na execução de nossas tarefas, tudo é governado pela providência.

Contudo, quem será tão insensato para dizer: "Não importa se eu como, durmo ou estudo, desde que as circunstâncias de minha vida já foram determinadas pela providência!" Uma vez que não raciocinamos tão absurdamente em relação aos afazeres de nossa vida natural, por que o faríamos em relação aos interesses de nossa vida espiritual?

O perfeito conhecimento de Deus inclui todos os detalhes de nossas vidas, tanto quanto o nosso destino final. Não podemos separar os pormenores do fim. Deus prevê que chegarão aos céus somente aqueles que, segundo Sua previsão, se tornam santos por esforço espiritual diário; e ninguém Ele prevê no inferno, exceto aqueles pecadores que diariamente rejeitam Sua verdade.

Alguns, porém, acrescentam o argumento: "Este ensino torna Deus injusto, desde que Ele é misericordioso para com alguns e não para com todos. Deus Se tornou desleal". Eu respondo: a injustiça só pode estar presente quando a recompensa proveniente de um compromisso assumido, deixa de ser dada. Se um magistrado aplica a lei rigorosamente, no caso de um pobre e, indulgentemente, no caso de um rico, ele é injusto. Todavia, se ele como um benfeitor é generoso para com os necessitados entre seus vizinhos, nunca diríamos que é obrigado a ser generoso para com todos os necessitados. Isto seria impertinência de nossa parte!

Se é apenas um problema de doação graciosa, não pode haver injustiça — mesmo que todos não recebam. E isto é ainda mais verdadeiro com relação a Deus, pois Ele é o Criador que tem o direito absoluto de fazer o que quiser com o que é Seu — e Sua natureza perfeita nos assegura que Ele nada faz de errado.

Deixe-me perguntar-te: todos os homens pecaram ou não? Se pecaram, então todos são culpados perante Deus. Se admitimos isso, então mesmo que todos perecessem Deus seria justo. E a eleição de alguns para a salvação não causa dano aos não eleitos. Assim, a "não-eleição" não é uma punição injusta.

Dizer que Deus não pode deixar ninguém perder-se, é dizer que todos têm direito à salvação. No entanto, ninguém tem direito à salvação. Ela é somente pela graça.

A verdade é que o argumento "Deus é injusto ao eleger alguns e não todos", procede da auto-estima que nós, erradamente, temos de nós mesmos e da visão míope que temos de Deus. Será o altíssimo e sublime Deus tão limitado que não possa fazer o que Lhe agrada?

Deixe-me, agora, mostrar-te o valor real e prático da eleição para nós. Primeiro, a verdade tem algo a dizer ao pecador descuidado. Você já viu que todos são culpados aos olhos de Deus, e que Ele escolheu alguns para a salvação, deixando outros sofrerem as justas consequências de seus pecados.

Como você pode saber que este não é o teu caso! Ser rejeitado por Deus é estar perdido para sempre. Você ainda está desinteressado? Ora, você está nas mãos de um Deus ofendido e, contudo, não tem idéia certa daquilo que Ele fará contigo! Se você teme a possibilidade do inferno, deve saber que é exatamente isso que merece. Você tem boas razões para tremer. Medite sobre estes fatos terríveis! Que o Senhor possa ajudar-te a "fugir da ira vindoura" (Mat. 3:7).

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Sobre o autor: Abraham Booth (1734- 1806) nasceu em Blackwell, condado de Derbyshire, Inglaterra. Quando tinha vinte e quatro anos, casou-se com Elizabeth Bowmar, filha de um fazendeiro, e logo após abriu uma escola num subúrbio de Nottingham. A pregação de alguns Batistas levou-o a um senso religioso e, em 1755, ele foi batizado por imersão. Em 1760, Booth tornou-se superintendente da congregação em Kirby-Woodhouse. Até então ele era um arminiano convicto, porém a partir daí ele mudou de posição, passando para as doutrinas sustentadas pelos Batistas Particulares. Sua obra “O reinado da graça” foi escrita em 1768. Logo depois disso a Igreja Batista Particular em Little Prescot Street, Londres, convidou-o a ser seu pastor, e nela foi ordenado em 1769. Booth faleceu em 1806, tendo sido pastor por trinta e cinco anos. Durante seu pastorado, foi fundada uma academia que hoje está em Oxford, conhecida como Regents Park College, destinada ao treinamento ministerial. Seus vários escritos foram coligidos e publicados em três volumes em 1813. A atual Igreja Batista Church Hill em Walthamstow, Londres – descendente direta da igreja em Little Prescot Street – ainda possui placa memorial erigida em homenagem a Booth pelos membros daquela igreja.

Fonte: Igreja Batista Graça e Paz
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