Pequena reflexão sobre a 'injustiça social'

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Andei lendo por aí, que a esquerda tem muito a dizer sobre injustiça social. Realmente, ela tem mesmo: justificar o porquê de, em nome da justiça social, cometer-se cada vez mais injustiça, ao invés de minimizá-la. Na verdade, eles precisam abandonar o "dizer", o discurso ideológico, e ver se fazem algo na prática, de fato. Um dos graves problemas da ideologia é colocar o homem no "mundo da lua", fora da realidade, como se o teletransportasse até um mundo mágico e irreal, aos moldes de Alice no País das Maravilhas. E, com isso, ele nunca entenderá o mundo real, e sonhará com um mundo utópico e impossível, onde acreditará fielmente (uma fé cega, diga-se de passagem) em contribuir com a injustiça aumentando-a sensivelmente. 

Quanto ao argumento de que a direita não se preocupa com a "injustiça social" e deveria fazê-lo politicamente, saliento que o objetivo do Estado não é paparicar grupo(s) ou indivíduo(s), mas sustentar a ordem institucional e legal de maneira que todos possam alcançar, pelo esforço e mérito próprios, seus objetivos, ao invés de distribuir privilégios aqui e acolá (normalmente aos alinhados ideologicamente com o governo). Acredito que a liberdade de mercado e o empreendedorismo são as melhores formas de se gerar "justiça social", seja lá o que isso represente, pois onde há uma economia forte e produtiva os níveis de pobreza e miséria são baixos, e onde cada vez mais há a mão forte do Estado, normalmente limitando a iniciativa privada e cobrando altos impostos, a proporção de pobreza e miséria aumenta em relação ao maior nível de intervencionismo. Um Estado menos interventor (e se levarmos em consideração que o governo administra mal e porcamente os recursos, a maioria dele servindo aos interesses do próprio governo) produz uma sociedade mais "justa", não no sentido de uma justiça igualitária, onde todos serão contemplados com os mesmos benefícios (algo utópico e irreal servindo apenas à manutenção hegemônica da ideologia, no caso, a marxista), mas onde as possibilidades do cidadão sair da indigência econômica são realmente factíveis. A história prova-o; e a mais recente... nem é preciso falar. 

Um detalhe: biblicamente, a responsabilidade de cuidar do próximo, dada pelo Senhor, foi à igreja e não as forças seculares, de maneira que há um desvirtuamento de propósitos quando a igreja transfere a sua prerrogativa bíblica para um Estado não-bíblico. É uma delegação invalidada pois está posto na incapacidade e desautorização da igreja em fazê-lo. Qualquer tentativa nesse sentido é desrespeitosa, negligente e insubordinada. Não compete à igreja subdelegar o que lhe foi expressamente incumbido pelo Senhor. Se uma igreja age assim, está em flagrante pecado. 

Ah!, apenas para não haver confusão, assim como na parábola do Bom Samaritano, há um dever individual de cada cristão no auxílio ao próximo, realizando-se concomitantemente com a sua participação na obra eclesial. Uma coisa não exclui a outra, e ambas fazem parte do mandato cristão.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos
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O pecado do adultério segundo John Wenham, e do divórcio segundo eu

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Li, nesta manhã, uma postagem no Facebook, atribuída a John Wenham[1], a qual copiei e colei abaixo. Após, uma pequena reflexão a partir do que o teólogo e pastor Wenham escreveu:

"Hoje em dia, consideramos o adultério como tão natural que deixamos de perceber quão distorcidos se tornaram os nossos valores. Quando um homem rouba um bem valioso de uma outra pessoa, a lei o trata com severidade. Mas quando um homem seduz e rouba a esposa de um outro homem e rouba dos filhos a mãe, provavelmente escapará de qualquer punição. Entretanto, em termos do mal provocado e da destruição da felicidade humana, o primeiro crime é insignificante em comparação com o segundo." - John Wenham

E, nessa linha de pensamento, incluo também o divórcio, pois praticamente ninguém se divorcia para ficar solteiro ou sozinha. Todos, em princípio, já têm um ou uma pretendente nova, se é que já não fez a ele ou ela um "juramento" de romper o seu casamento para viverem finalmente juntos e para sempre (a mesma promessa feita e não cumprida ao primeiro(a) cônjuge. 

O divórcio rouba dos filhos o pai e/ou a mãe, e, em muitos casos, até mesmo os dois; e dos maridos e esposas parte de si mesmo, como afirmou o Senhor Jesus:

"Ele respondeu: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador 'os fez homem e mulher' e disse: 'Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne'? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe" [Mt 19.4-6].

O problema é que muitos alegam não terem feito uma boa escolha, mas, quem garante que não o farão novamente? Se os critérios de escolha fossem a observância da palavra de Deus, em oração e prudência, e não meramente a carnalidade (podendo ser simplesmente o impulso carnal), muita coisa seria diferente; inclusive, o poder para suportarem-se mutuamente nas várias dificuldades que haveriam de surgir.

De outra maneira, há crentes que se aventuram a um risco desnecessário, como se dispusessem a participar de uma "roleta-russa", ao casarem-se com incrédulos apostando na possibilidade de Deus vir a convertê-los um dia [leia 1 Co 7.16]. Conheço o testemunho de muitos irmãos e irmãs que escolheram esse caminho errado e pagaram um preço alto, às vezes resultando no divórcio e em um lar desfeito, em filhos que rejeitam o Evangelho exatamente pelo mau testemunho dos pais divorciados, entre outros tantos problemas.[2] Eventualmente, Deus pode derramar a sua graça sobre o cônjuge incrédulo, convertendo-o, e pode valer a pena dizem, mas deixará para trás, quase sempre, um rastro de destruição e de incredulidade pelo caminho. Porém, não vale o perigo de ser a causa para o endurecimento ainda maior do coração incrédulo; e nada disso aconteceria se o cristão não se rebelasse contra Deus, não se dispusesse a ser independente ou autônomo, esperando que o Senhor "abençoasse" uma união biblicamente reprovável.

O adultério é apenas mais um pecado cometido pelo afastamento da vontade divina, a rebeldia que muitos dizem não ter mas têm-na dissimuladamente, uma forma de se omitir da responsabilidade, a principal causa e origem das outras péssimas escolhas que fazemos.[3]

Infelizmente, o padrão vigente em boa parte da igreja e em boa parte dos cristãos atualmente reflete a sua adequação ao "estilo secular e mundano de vida", e o desprezo a Deus e sua vontade expressamente revelada, a qual finge-se não ler, saber ou existir.

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Notas:
[1] Não duvido da autoria do texto, de que seja realmente de John Wenham, por conhecer e confiar em quem o citou, o Eric N. de Souza, autor do blog "Outdoor Teológico", apenas não a confirmei.
[2] Tratei da questão do casamento misto na postagem "Pode o Cristão se casar com uma incrédula?"
[3] É claro que, como calvinista, acredito que tudo, inclusive a rebeldia do homem, está dentro do decreto eterno de Deus, mas isso, de maneira alguma, eximi-nos da responsabilidade pelos nossos atos, logo, a desculpa de que Deus quis assim é apenas "furada", e coloca o seu proponente em mais uma categoria, a dos "infantes na fé", senão, dos cínicos. 

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos
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A generalização do caos

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Muitas pessoas encontram-se desanimadas com o quadro político, econômico e social no país, e são tomadas de sobressalto a cada novo escândalo veiculado pela mídia, chegando-se mesmo a uma angústia da alma, a um estado de desolação, sem esperanças ou perspectivas a motivá-las a um futuro, ainda que longínquo, em que o Brasil possa ressurgir da lama na qual está atolado até o cocuruto.

A questão não se resume aos escândalos diários, como se fosse apenas o desdobramento do ofensa à ordem do dia anterior, mas deve-se ter a real dimensão de tudo isto que está acontecendo e por quais motivos e objetivos acontecem. Não é simplesmente roubalheira ou corrupção ocasionais, ainda que perdurem ao menos nos últimos 12 anos de governo (até porquê o histórico de corrupção na república é algo germinal; iniciou-se antes mesmo do fim da Monarquia), e nem tão somente ligados apenas a um partido, o PT. É claro que as dimensões do furto, da corrupção, dos desvios públicos atingiram níveis inimagináveis nas mãos de Lula e Dilma, ao ponto em que a maior empresa brasileira e uma das dez maiores do mundo até 2008, encontra-se em estado falimentar; se fosse uma empresa privada já teria quebrado, mas como não é, respira por aparelhos, em coma.

A pergunta que se deve fazer é: Como se mantém um governo no poder? Como fazê-lo perpetuar-se? E garantir que se perpetue?

O dinheiro é apenas o meio para se conseguir isso, comprando votos, corrompendo, alugando cargos, favorecendo aos amigos do "rei", ou seja, aparelhando o Estado de tal maneira que não haja resistência à permanência ou manutenção no poder de um grupo ideológico. E os marxistas sabem e souberam muito bem fazer isso (e estão fazendo "com louvor"), debaixo de nossas barbas, sem que haja uma efetiva oposição, sem que muitas lideranças, por conveniência, desonestidade, cumplicidade ou ignorância de-se conta do acontece e foi tramado há mais de vinte anos pelo Foro de São Paulo [1], seguindo a cartilha do Fabianismo e Gramscianismo [2]. O que se chama "oposição" não o é de princípios mas de cargos e postos, apenas querem assumir o lugar do PT e tocar o barco tal ou qual eles tocam. Em suma, seria trocar seis por meia-dúzia. Então, pensar apenas em um escândalo, em um roubo, em um desmando, em uma afronta à lei, é ter uma visão localizada, minimizada da realidade, faltando-se compreender a abrangência efetiva do propósito marxista e sua união continental para a implantação de uma "pátria totalitária" na América Latina. Saindo o PT, entra-se outro partido de esquerda (onde estão os partidos conservadores no Brasil? Ninguém sabe, ninguém viu!), e a valsa continuará sendo tocada na mesma toada. O próprio fato da maioria das pessoas acreditarem no absurdo de que o PSDB e DEM são partidos de direita ou conservadores, detalha minuciosamente o estado de manipulação e ignorância histórica, política e de valores morais em que o país se encontra. É pessimismo, podem dizer alguns, mas a realidade o prova, e a história mais recente (vide Argentina, Venezuela, Bolívia, etc) apenas se repete por aqui também.

Qual a solução? A curto e médio prazo, não vejo uma solução efetiva. A coisa está tão preta, mas tão preta, que o "reino de terror" está em franco desenvolvimento, e o que virá pelos próximos meses e anos não é nada animador. Enquanto as pessoas permanecerem atentas apenas ao "último escândalo", nada ou pouco poderá ser feito efetivamente. A solução é a longo prazo, uma mudança de mentalidade, o abandono da mente carnal e marxista por uma mente cristã. E isso somente acontece quando as pessoas entendem e aceitam o Evangelho, em todo o seu corpo, em toda a sua totalidade. Para um veneno (o pecado, o crime, a impiedade, a imoralidade, etc), apenas o antídoto: Cristo![3]

Para muitos parecerá simplismo ou reducionismo, mas como alguém pode caracterizar ou considerar o Evangelho de Cristo desta maneira?

Porém o ódio deste mundo a ele e a sua palavra é algo entranhado no DNA humano, subindo à cabeça e descendo ao coração, de uma maneira tão virulenta que é mais fácil imaginar um mundo perfeito criado pelas mãos humanas mas que não saí do discurso ideológico, pois a realidade e a história provam, e provaram, a sua eficácia em negá-lo na prática, do que aceitar o jugo leve e suave de Cristo.

Ainda que o mundo não conheça a graça de Cristo, é-se possível viver em um mundo minimamente em ordem (se é que tal existe), mesmo na desordem pós-Queda [4]. Sociedades não muito antigas como a européia e a americana fundadas em valores cristãos parecem-me ainda possíveis; mesmo que na atual conjuntura de degradação mental e espiritual, seja uma loucura para os tolos!

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Notas: 
[1] O Foro de São Paulo é uma organização criada em 1990 por Fidel Castro, Hugo Chaves e Lula com o nítido objetivo de implementar a "grande pátria", ou seja, a comunização de toda a América Latina nos moldes de Cuba. Basta olhar para os nossos vizinhos (Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador, p. ex.), e também o Brasil, para ver como eles foram bem sucedidos em seus intentos nefastos. 
[2] Fabianismo e Gramscianismo são movimentos políticos marxistas que acreditam na progressiva e gradual evolução da sociedade, utilizando da democracia, para instalar o comunismo. 
[3] Mesmo sabendo que um reino de paz não acontecerá antes do retorno do Senhor Jesus, urge-se ainda mais a pregação do evangelho. Não para mudar o estado geral de coisas, as quais parecem quase irreversíveis, e não somente no Brasil mas no mundo, mas para que, ao menos, alguns saibam que a saída está aí, bem na cara de todos, mas por uma série de fatores, entre eles a Queda e a depravação total do homem (que a mentalidade moderna teima em não reconhecer), eles escolheram o caminho tortuoso da ilusão, de se criar uma outra realidade, onde o massacre ideológico teima em afirmar e insistir na criação de um mundo perfeito à margem de Deus e do seu Evangelho, o que é impossível, um sofisma dos mais grandiosos. De qualquer forma, como servos, resta-nos proclamar o Reino, e que ele venha!
[4] Queda é o evento no qual o homem e a mulher, no Éden, desobedeceram a Deus e, por isso, o pecado entrou no mundo. A visão bíblica e cristã é de que com ela toda a criação foi corrompida, não somente o homem, mas todo o Cosmos. 

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos
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Um Deus preso no tempo

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É sempre complicado falar das coisas de Deus, mesmo guiados pelo Espírito Santo, a nossa visão é limitada pela infinitude, transcendência e perfeição divinas, então entender e compreender tudo é impossível, sendo seres limitados e imperfeitos, muitas coisas nos serão ininteligíveis e incompreensíveis, no sentido de sabermos em detalhes explica-las. Devemos, logo, ter a humildade de reconhecer os termos demarcados pelo Senhor a impedir-nos de esmiuçar e descrever toda a verdade. Ainda que nos seja revelado tudo nas Escrituras, tudo aquilo que ele quis manifestar, muitas delas serão aceitas pela fé, sabendo ser a Bíblia a palavra divina, ela é a verdade, e de que, se o Senhor escreveu, independente da capacidade de entender um ou outro enunciado, deve ser simplesmente aceita e jamais questionada, evitando-se a especulação, exatamente por sua complexidade. Enquanto Deus vê o todo, vemos, quando atentamos corretamente, fracionada e parcial. Deve bastar-nos, e ser suficiente para deleitarmo-nos, reconhecer a realidade da Escritura, posto Deus tê-la escrito e revelado, mesmo sem nos dar maiores explicações. Rejeitar algo maravilhoso, sublime, porque não as alcançamos, pela insignificância e limitação da mente e espírito, torna-nos em arrogantes, presunçosos, incapazes de admitir a própria realidade, auspiciando nas divagações e especulações uma vantagem suficiente para igualar-nos a Deus (ou até mesmo tornar-nos superiores), e assim encobrir a debilidade inerente e contemplada na natureza humana.

Eleição incondicional é, então, o ato divino de escolher pessoas entre a totalidade da humanidade caída, condenada, morta espiritualmente, e fazer delas o seu povo, regenerando-as e salvando-as da condenação advinda pelo pecado; sem que elas tivessem condição alguma a favorecê-las na escolha, pois a escolha é dele, feita exclusivamente por ele, pela liberdade e vontade soberanas que ele tem de escolher sem qualquer restrição, coação ou limitação exterior a ele. Deus é absoluto, supremo em suas decisões, implicando ser ele livre para escolher quem quer, da maneira que quer, sem ninguém poder questioná-lo, como Paulo, peremptoriamente, declara em Romanos:

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” (Rm 9.20)

Deus livremente escolhe, segundo a sua vontade, de entre os seus inimigos, pessoas as quais separou para serem o seu povo.

Como Deus é eterno, e tudo relacionado com ele é eterno, a eleição também é eterna. Há várias passagens na Escritura afirmando a nossa eleição antes da fundação do mundo. Esta expressão não está limitada a um momento histórico, a um evento temporal, mas significa que, desde sempre, desde quando o Senhor existe, ela foi planejada, estando sempre em sua mente, assim como a sua causa também é eterna. Pense um pouco, e tente responder: Você pode dizer o motivo pelo qual, não havendo nada em nós a agradá-lo, Deus elege?

Seria por ele ter antevisto, no tempo, que responderíamos prontamente ao chamado santo do Senhor? De ter ele previsto que alguns creriam e, por isso, predestinou-os à salvação? Esta é, certamente, a resposta mais óbvia, uma solução humana que não contempla a realidade divina, porém tem uma aceitação quase unânime, em nossos dias. Também chamado de presciência, advoga o conhecimento prévio de Deus de todas as coisas como o motivo para a eleição. Acontece haver duas definições de presciência, uma antibiblica e a outra bíblica. A primeira, definida como Deus não estando no tempo, mas este sendo parte da criação, vê tudo e todos num mesmo instante. A dificuldade em se dar um sentido exato à sentença é facilmente verificada em como dispomos de uma linguagem restrita para um conhecimento também restrito. Um instante é uma fração de tempo, contido no tempo, mas não há como abandoná-lo na tentativa de trazer significado ao termo “presciência”, pois, de outra maneira, tornar-se-ia, por completo, incompreensível. Ao dizer que Deus vê tudo num instante, mesmo esse “instante” sendo infinito e eterno, é prova da delimitação reservada ao homem de não alcançar a amplitude indeterminada, a perfeição intangível, a santidade ilimitada, da mente divina. É preciso, muitas vezes, para a nossa compreensão, rebaixarmos a magnitude de Deus ao nível da insignificância humana.
  
Prosseguindo, a ideia de presciência, definida segundo uma ótica não bíblica, tem a conotação de Deus prever, antever, conhecer de antemão, todos os atos e eventos históricos, antes deles se realizarem. Assim, Deus, conhecendo que fulano responderia positivamente ao chamado ou “esforço” do Espírito, através da fé, crendo para a sua salvação, tornou-se um eleito, em definição corrente e usual entre os cristãos. Ao ver os eventos descortinados diante dos olhos, e a resposta positiva do homem, Deus o predestinou, elegendo-o. Encontramos um sério problema nesta definição, posto Deus escolher quem o escolheu, mesmo o fazendo antes dos eventos, mas apenas um momento após vislumbrá-los, antevê-los, significando, de qualquer maneira, que a escolha divina se deu após a decisão, a escolha humana estabelecendo-se efetivamente. Ou seja, do ponto de vista lógico, Deus escolheu depois da escolha do homem, logo, não é, na verdade, a escolha divina, mas a ratificação divina à escolha humana. Somente depois de confirmado pelo antever, Deus tornou-a firme, validando a eleição, cuja causa e origem está no homem, cuja atitude de responder positivamente ao chamado divino é a razão, o agente eficaz que justifica a existência do não existente, sendo a origem da eleição, o ato motivador e o princípio gerador. Deus nada pode fazer, como um agente passivo, se tornando prisioneiro da vontade humana. Mas há algo ainda pior: este esquema faz de Deus prisioneiro do tempo, ou seja, prisioneiro da sua própria criação. 

Se a presciência é a antevisão de Deus dos fatos futuros, e ele elege o homem a partir dessa visão, mesmo Deus não estando no tempo, ele estaria “refém” do tempo, posto somente "validar" a eleição após certificar-se da resposta positiva do homem. Ora, há uma visão do futuro, o próprio futuro é um fragmento temporal, e a resposta humana se dará nele, então a presciência, como um “decreto comprobatório” dessa visão, depende essencialmente da resposta transitória do homem, levando a uma decisão temporal, não eterna, tornando o próprio Deus em um ser limitado por sua própria criação. Neste sentido, Deus elegeria e predestinaria somente "após" observar a resposta positiva ou negativa do homem. Há, aqui, uma condição de subordinação de Deus, passível de afetar o atributo da soberania, na qual ele pode tudo, ontologicamente, mas está condicionado à iniciativa humana, no tempo, no sentido de o seu conhecimento, ainda que completo, amplo, o restringe e o faz dependente, podendo tornar-se imobilizado nos casos das respostas serem negativas. Sendo eterno, se sujeitaria a efemeridade, resignando-se a uma mera coadjuvância, não o causador e gerador do ato, mas uma testemunha ocular; onde a sua vontade não é imperiosa, determinante, mas sancionada por uma ação futura, temporal, a não apenas influenciar, mas ocasionar a eternidade. Ou seja, não é o eterno a fundar o tempo, mas uma fração ou frações dele a sedimentar o perene. E a própria ideia de Deus conforme revelado na Escritura tornar-se-ia impossível, ou, no mínimo, questionável. 

Uma analogia possível, guardadas as devidas proporções, seria um copo de suco de laranja ser a causa da existência da laranjeira e seus frutos; em outras palavras, o menor, o suco de laranja, fundacionaria o maior, a laranjeira, quando na verdade acontece o contrário. O temporal nunca poderá justificar e fundamentar o eterno, posto ser este a instituir aquele. E Deus estaria aprisionado em sua própria criação, não somente agora mas para sempre, dadas as consequências da eternidade firmarem-se nas ações transitórias, das quais ele não tem poder de decisão, nem são por ele controladas.

Podemos resumir este estado de coisas em duas frases:

Deus escolhe, elege, o salvo”. Esta proposição não fere, enfraquece a soberania divina, ou transforma-o em um mero espectador, mas em um agente ativo na ação de escolher. É ele quem, por sua exclusiva vontade, decide, a partir de si mesmo, quem será eleito, sem atentar para nenhum fator externo a ele. 

O homem, ao responder positivamente, pela fé, é escolhido por Deus”. Esta proposição faz de Deus um agente passivo, que decide a partir de uma ação exterior a si, como uma reação à resposta positiva ou negativa do homem; pois, antes, a sua motivação está associada, ou melhor, parte da resposta humana, da manifestação da sua vontade, sem a qual Deus está incapacitado de condenar ou não, posto o homem ser autônomo e detentor do livre-arbítrio. Em linhas gerais, Deus está em uma camisa de força, imóvel, podendo apenas assentir ao movimento humano, concordando ou discordando mentalmente, mas ratificando-o, independente da resolução tomada pelo homem, a qual, em última instância, põe termo à questão, dando-lhe o desfecho final. 

Isso faz de Deus, em algum aspecto, refém da autonomia humana, de tal maneira que ele estará condicionado a ela, submetendo-se (e a ideia de voluntariedade inexiste como explicação), numa posição subjacente, secundária, ao desígnio estabelecido pelo homem a partir da própria vontade; esta, sim, determinante da eleição, enquanto a divina é apenas confirmatória, e não causativa, ratificando o que Deus já havia vislumbrado, por verdadeiro, pela antevisão. 

Nesse aspecto, a soberania divina é frágil, enquanto a força encontra-se na vontade determinada do homem; e nem mesmo Deus pode demovê-lo para o bem, pois sua vontade permanece imperiosa; assim, se o homem desejar permanecer em sua rebeldia, Deus não poderá fazer nada. Como observador, resta-lhe a condição de testemunha, estando apto a confirmar e declarar o assistido, cumprindo o papel de passividade cabível. Ainda mais angustiante é saber que, segundo essa definição, o Senhor ama a todos os homens, indistintamente, e não pode exercer nenhuma ação visando preservar o objeto do seu amor, antes, porém, deve respeitar e salvaguardar as decisões tolas de suas criaturas, culminando em lança-las, os amados, no Inferno. Após a condenação, o amado tornar-se-á em odiado, e sobre ele a ira e justiça divinas recairá. Temos, via de regra, um deus esquizofrênico, o qual ama suas criaturas, derramando sobre elas a sua graça, morrendo por todas elas na cruz, pagando o sacrifício impossível de ser quitado, mas, na hora “h”, nada disso se torna relevante, pois se o homem não quiser receber todas essas dádivas, pode recusá-las, anulando os seus eventuais efeitos, tornando-os inócuos como uma rosca espanada. 

Outra analogia seria a de um garoto, de dez anos, subir no alto de um prédio de cinco andares, vestido de Super-Homem, e ameaçar atirar-se do telhado. Ele acredita possível voar, e espera alcançar a mesma velocidade do Homem-de-aço, vista no último filme. Ainda que tenha machucado algumas vezes, e tirado sangue de joelhos e cotovelos, sempre reputou ser aquilo fruto de uma kriptonita invisível, enfraquecendo-o. Porém, agora, ele está certo de não haver nenhuma ameaça, nem mesmo tênue. Sente-se corajoso como nunca para realizar o mesmo feito do seu ídolo. Seu avô chega a tempo de impedi-lo, e tenta demovê-lo dessa ideia, dizendo que, se pular, ele morrerá, não verá mais seus pais, seus irmãos, os colegas de escola, não tomará mais sorvete, nem jogará futebol, o seu PlayStation será dado ao irmão caçula, que herdará também o quarto e todos os demais brinquedos... Além do mais, diz, você não é o Super-Homem, o Super-Homem não existe, é uma história, e homem nenhum jamais voou por si mesmo. Então, durante a conversa, ele se aproxima o suficiente para agarrar a criança, salvando-a de precipitar-se no vazio, mas insiste em convencê-la, argumentando, crendo que ela acreditará na própria insensatez e gravidade do seu ato, e pelo seu livre-arbítrio¹ decidirá com correção. Mas o garoto está cheio da conversa do avô e, mentalmente, quer provar que está certo; o Super-Homem não é uma mentira, ele viu, estava lá, voando, atravessando paredes, segurando aviões em pleno voo, mostrando o quanto era hábil no que fazia. Num átimo, lança-se do topo do edifício, estatelando-se no chão. O avô, no momento em que podia segurá-lo, recua a mão, lembrando-se de que a decisão é do netinho, e ele não pode interferir em suas escolhas, mesmo danosas e mortais. Quase teve remorsos, mas entendeu ser impossível ir contra a decisão da criança. Mesmo sabendo que o conhecimento dela da realidade era insuficiente para tomar uma decisão acertada, mesmo sabendo que esteve, até aquele tempo, enganada com a ilusão hollywoodiana de um super-herói voador, que sua mente estava mais afeita à fantasia do que à verdade, mesmo assim, não poderia intervir. Considerou-se impotente, entristecido, mas convicto de haver preservado a vontade da criança, a qual, em última instância, não a teve cumprida, posto não ter voado, nem permanecido vivo, como supunha, chegando a um final impensado e não desejado. 

Se porventura, todos os homens negassem a graça, a expiação e a justificação de Cristo (hipoteticamente, claro, a despeito de muitos já o fazerem efetivos), as quais não saíram da categoria de possibilidades, jamais, e em tempo algum, alcançaram o estado de certezas, elas não teriam qualquer sentido, e seriam um retumbante fracasso. Deus teria malogrado em seu propósito, o de salvar alguns, e ainda hoje, segundo essa visão, ele fracassou, pois, se Cristo morreu por todos e sua graça é resistível, não há eficiência na expiação e justificação, em salvar todos, mas apenas a contingência de, eventualmente, um e outro decidir abandonar o pecado e aceitar a salvação (mais por um mérito pessoal que pelo convencimento sobrenatural); além do quê, Deus passaria o atestado de incompetência.

Diante desta descrição, como não julgar esse "Deus" um miserável, e cego, e nu, submetendo a sua sabedoria, perfeição, santidade e poder, às vontades de suas criaturas imperfeitas, tolas, pecadoras e frágeis? 

Pois bem, a maior parte desse esquema não provém da Bíblia, nem da revelação divina, mas de distorções interpretativas do texto sagrado (ainda que exista uma lógica interna culminando nessa conclusão, contudo, o pressuposto do livre-arbítrio e do tempo, onde a vontade está atrelada, e sob os efeitos da transitoriedade, não se harmoniza com a realidade bíblica, sendo um equívoco) aliadas à especulações filosóficas e a necessidade de justifica-las, tendo como ponto comum a rebeldia e intransigente autoglorificação humana, em que o seu destino depende exclusivamente de si mesmo. Mas, se nos aspectos mais comuns e insignificantes da vida, nem assim o homem tem o poder de estabelece-los, muitas vezes, por que haveria de deter praticamente a totalidade das virtudes necessárias à salvação da alma, garantindo um lugar ao lado de Deus, na eternidade (algo que demandaria uma sabedoria próxima da perfeição)? Se está à mercê de forças externas a si, capazes de determinarem parte do curso existencial terreno, em um aspecto temporal, o que dizer de algo grandioso e dependente de um grau superlativo de virtudes? Ao ponto de ser necessário um estado de harmonia absoluta entre o espírito do homem e o Espírito de Deus? De onde tiraria essa superioridade espiritual sendo detentor de uma alma caída, pecadora e corrupta? Qual transformação seria indispensável à essa conversão? Uma vontade dominada pelo pecado? Controlada pela carne? Em oposição a Deus? 

Alguém dirá: Mas o Senhor derrama a sua graça sobre aquele homem, e ele pode então ver...

Ao que digo: será? Se ele é capaz de vislumbrar as benevolências, o amor, o sacrifício, a misericórdia e a graça divinas, e permanece resoluto em manter o seu estilo de vida, depravado, corrupto, e maldito, terá entendido de verdade quem é Deus? Quem ele é? E, caso não tenha entendido, de que adiantará a graça se não pode, ao menos, movê-lo ao conhecimento divino? Será uma graça inútil, anulada por sua estupidez.
  
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Notas:
[1] A própria noção de "livre-arbítrio" está equivocada, posto a criança estar "presa", de alguma maneira, a uma coação exterior a si mesmo, ou seja, o personagem "Super-homem", o último filme, a sua fantasia de homem-de-aço, tudo isso cooperando para mover a sua vontade a fim de realizar o ato desejado. O livre-arbítrio não é sinônimo de vontade, pois esta é controlada pelo Espírito Santo ou pelo pecado. Não há meio termo; enquanto o livre-arbítrio pressupõe neutralidade, uma neutralidade livre de qualquer influência ou coação externa e interna (somos, desde cedo, expostos à moral, à ética, a valores sociais, leis, etc, capazes de formar o nosso caráter, e, ao se ter um caráter, levando-nos para um lado ou outro, em nossas decisões, já não somos "neutros", significando na impossibilidade da neutralidade, logo, do livre-arbítrio)
[2] Advogo que nem mesmo Deus detém o livre-arbítrio, pois ele não pode fazer, nem como hipótese, algo que contradiga o seu Ser, de maneira que ele somente fará e decidirá por atitudes segundo a sua natureza, e jamais contra ela. 
[3] Fragmento de um esboço, a tornar-se apostila ou livro, sobre a Eleição Incondicional, portanto, são ideias e exposição preliminares, podendo sofrerem alterações, no futuro.  

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos
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Não há bem que se torne em mal!

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O mundo está mesmo uma coisa, parece o campo de recreação do diabo, se é que ele é capaz de se divertir com algum evento. No fundo, ele é apenas um fracassado, mesmo conseguindo uma vitória ali, outra acolá, é um malogrado, uma desgraça!

Hoje, pela manhã, recebi a ligação de uma funcionária, em prantos, comunicando-me o assassinato do seu filho, ontem à noite. Ele havia saído da penitenciária, onde cumpria pena por tráfico, e estava em condicional. Quase certo ser um caso de “acerto de contas” entre bandidos. Porém, não pude deixar de me apiedar do sofrimento daquela mãe com a perda do filho. Seja bandido ou o que for, ele é filho, e não dá para aquilatar a dor pela perda. Orei com ela, pedindo ao Senhor para fortalecê-la e confortá-la, assim como a sua família.

Por certo, ele encontrou o que procurou durante a sua vida, um fim trágico para uma vida desperdiçada, na qual o caminho da bandidagem parece ser uma via fácil, porém curta.

Há tempos, ouvi uma entrevista de um garoto de nove anos, mula do tráfico na favela onde morava, no Rio, dizendo que pouco importava o que lhe acontecia, morrer, matar, não fazia diferença. Para alguém que sequer começara a viver, uma afirmativa dessas reflete o quão expostas as crianças estão ao mundo adulto, onde a morte ou o assassinato (assim como o sexo inconsequente) parece ser uma opção como escolher o sabor de um sorvete.

Logo depois, outra funcionária relatou um tiroteio onde morava, noite passada, quando chegou em casa; tempo suficiente para se esconder atrás do fogão junto com a filha, enquanto a netinha e o marido refugiavam-se atrás do sofá, ao som do espocar das balas, algo que, segundo ela, durou cerca de cinco minutos. Descreveu, com uma naturalidade assombrosa, o incidente, entremeado por sorrisos que pareciam ignorar a gravidade da situação. Disse que a netinha ficou em estado de choque, e custou a dormir em meio a pesadelos e acessos de pânico, mesmo tomando um chá de maracujá com açúcar.
        
Tudo isso parece muito comum e natural na sociedade, uma sociedade em que os valores morais foram se perdendo à medida em que ela se afastou proposital e (in)conscientemente de Deus e sua Lei.
        
Alguém pode dizer que estou a tratar a questão com cinismo ou insensibilidade, mas descrevo apenas a causa pelo estado atual de degradação, apatia, e contemporização com o mal ao qual nos aliamos silenciosamente, e que o mundo, de forma geral, ignora e não quer ver, por teimosia, autossuficiência, ignorância ou insensatez. A destruição de valores caros ao ocidente, os fundamentos a estabelecerem a sociedade (a tradição judaico/cristã), não se daria impunemente, sem consequências dramáticas e nefastas para o cidadão comum, muito distante das reuniões regadas a "comes e bebes" onde o mal é maquinado e lançado sobre as pessoas com o falso argumento de serem para o seu próprio bem. Não há bem que se torne em mal, se antes não for o mal travestido de bem. Deus transformou o mal na vida de José em bem (Gn 50.20), mas nunca o contrário pode ser reivindicado, demonstrando a insensatez, o descalabro e a malignidade dos proponentes de “um bem utópico”, impossível, cujos resultados são a desgraça, a morte e a destruição.

Penso não haver muito mais a se acreditar neste mundo, pois ele caminha célere para o abismo mais profundo e tenebroso; podemos sim, pelo poder do Evangelho, como servos inúteis de Cristo, resgatar um ou outro, ou mesmo alguns, desse redemoinho sinistro, funesto, no qual a humanidade se envolveu e do qual não pode sair por suas próprias forças, a despeito da ilusão propagandeada de ser uma questão de tempo para tudo chegar ao seu devido lugar.

A queda vertiginosa dos fundamentos do ocidente, a família, a lei, o Cristianismo, a educação, principalmente, e não nesta ordem, têm tornado o mundo em um local caótico e desenfreado, onde o certo é tido como errado, e o errado é posto como certo, num caminho capaz de ser revertido se o homem voltar-se para o Senhor, em busca da verdadeira sabedoria, da verdadeira paz e espiritualidade, do conforto seguro em estar em suas mãos santas.
       
O profeta já alertava, há milênios:

Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! Ai dos que são poderosos para beber vinho, e homens de poder para misturar bebida forte; Dos que justificam ao ímpio por suborno, e aos justos negam a justiça! Por isso, como a língua de fogo consome a palha, e o restolho se desfaz pela chama, assim será a sua raiz como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, e desprezaram a palavra do Santo de Israel” (Isaías 5.20-24).

A resposta está naquele que, sendo Deus, humilhou-se e assumiu a forma de homem, fazendo-se um de nós, e, por nós, padeceu, morreu e ressuscitou, a fim de ajuntar para si mesmo um povo que, independente do mundo e daqueles que o governam, esperam firmes na sua volta, quando estaremos para sempre com ele, o Pai e o Espírito, em comunhão perene, trinitariana, em adoração constante, sem as distrações e a superficialidade desta vida, na qual o pecado é a sua força motriz. É a garantia dada por ele mesmo, Jesus Cristo:

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.27-30).

E, deixo ao final uma questão: por que você não reconhece a verdade, Cristo, e contenta-se com a mentira mais vergonhosa e insana alardeada pelos agentes do Inferno?

Com você a resposta, para hoje e sempre.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos

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Pagando a dívida, e ainda devedor (comentário a Gl 2:20)

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Gálatas 2.20 é um versículo precioso, poderia dizer, inigualável. Não somente porque foi o versículo da minha conversão [que descrevi no texto O dia em que Cristo me fez], mas porque, de uma forma singular, poder-se-ia resumir a vida cristã ou, ao menos, descrevê-la plenamente. É também o alvo, o de um dia poder dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. São palavras que me acalentam, me dominam, me compungem a encontrar-me nelas. Poderia ser a epígrafe cravada na minha sepultura, porém, muito mais a quero gravada em meu coração. O resumo de tudo o que almejo e quero experimentar. Mais do que isso, ser. E desde aquele momento, decorei-as, como se decora a melodia da mais bela entre todas as canções. Como se ouvisse a sinfonia perfeita, inefável, a síntese do mais puro e santo sentido, ainda que com palavras indizíveis em sua verdade absoluta e extraordinária. Como se estivesse a construir algo que sei impossível, por mim mesmo, construir. De certa forma, invejo a Paulo por ter sido ele e não eu a proferi-las; mas creio que saídas de sua boca, elas têm o som da minha voz, o som da sua voz, o som da voz de todos os santos, daqueles que são um em Cristo, e por ele vivem.
     
Mas, o que levou o apóstolo a proferi-las?
    
A mensagem central de Gálatas é a disputa: Lei x Evangelho. Em vários momentos, parece haver o desprezo de Paulo pela lei, como se fosse descartável e não existisse mais nenhum sentido nela. Mas esse não é o caso. Em outra carta, ele diz: E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” [Rm 7.12]. E, ainda: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei” [Rm 3.31].
    
O que está em disputa entre Paulo e os judaizantes é a lei como instrumento de salvação. Eles pregavam contra o Evangelho, ao afirmar que era necessário se cumprir toda a lei para salvar-se. Por isso, o apóstolo diz: “Se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” [ 2.21]. Ora, se para ser salvo o crente deveria cumprir toda a lei, qual a razão de Cristo encarnar, padecer, e morrer na cruz? Por isso o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo [2.16]. Desta forma, Paulo constrói a defesa do Evangelho da Graça, sem que haja nenhum tom antinominiano [1] em seu discurso, pelo contrário: “É porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” [2.18].

Se Cristo pagou na cruz a dívida que tínhamos para com Deus, e se está paga, definitivamente paga, o que mais podemos fazer que Ele não fez? Fico a imaginar Paulo rindo-se da tolice desses homens, mas entristecendo-se pelo caráter sutil e maligno de distorcerem a fé a fim de enganar incautos, e anular a graça. Cristo, ao destruir o pecado e seu caráter condenatório sobre os eleitos, não poderia restituí-lo novamente, ao ponto em que seria exigido o cumprimento da lei para a salvação. Se a justiça foi decretada na cruz para os que creem, se o pecado foi morto, ressuscitá-lo significaria dizer, entre outras coisas, que a obra do Senhor não foi eficaz, e de que, loucamente, ao trazer a justiça, trouxe a injustiça.

O apóstolo está a condenar aqueles que anteriormente pregavam o Evangelho da graça, para agora viver pela lei, tornando-os em transgressores, porque quem não está morto para a lei, vive para ela, ou seja, vive para a morte, pois pela lei ninguém pode ser justificado perante Deus [3.11], antes está debaixo da maldição da lei. Ao contrário, quem está morto para a lei, vive para Deus, eternamente. Paulo ensina a teologia correta, a doutrina correta, mas muito mais do que isso.

• Ele disse que estava morto para a lei.
• Que estava crucificado com Cristo.
• Que vivia, não mais ele, mas Cristo.
• Que Cristo o amou, e se entregou a si mesmo por ele.

Então, o que levou o apóstolo a proferir o verso 2.20?

A consciência de tudo isso acima, mas, sobretudo, reconhecer que, sem Cristo, nada disso seria possível. Nem mesmo ele, Paulo, seria possível. De uma forma maravilhosa, Paulo reconhecia a completa dependência do Senhor, e a obra fantástica que fez para que ele pudesse reconhecer-se em Cristo. Sem ele, o que seria Paulo? Sem Cristo, o que seria eu? Você? Não haveria esperança, não haveria o perdão, nem a salvação. Apenas a tristeza assoladora de que a condenação era questão de tempo, irremediável, uma maldição a pairar sobre nossas cabeças eternamente. E se eu, antes condenado, agora salvo pelo poder de Deus, o que quereria exaltar em mim mesmo para voltar à destruição? Ou seria possível exaltar-me na ruína? Ou antes, ser um dia como Cristo é? Pois se olharmos para nós, como somos, sem Cristo, não haverá nada além de condenados sem que seja preciso esperar o castigo, pois estamos já a “curtir”, sobre nós, a ira de Deus. Se olhar para mim, descobrirei apenas que sou miserável, e nu, e cego. Se olhar, e apenas me ver, há um pecador naufragando em pecados. Se sou o futuro, não há futuro; apenas o passado de morte, de sofrimento e angústia. Ao contrário, se vejo Cristo em mim, assim como Paulo o via em si, as coisas mudam de figura. Já não sou mais um condenado, antes justificado. De pecador, a santo. De maldito, a bendito. De desgraçado e vil, a agraciado e amado.

A teologia de Paulo [2] estava certa. Ela lhe trouxe esperança, certeza, convicção. E abriu-lhe os olhos para a mais surpreendente e inesperada verdade, de que ele já não era mais ele, mas Cristo a viver nele. E trazia no seu corpo as marcas do Senhor [6.17], marcas profundas que não o impediam de se ver como era, de reconhecer o que era, de gloriar-se nas fraquezas para que o poder do Senhor em si habitasse [1Co 12.9]. Porém, antes era necessário que compreendesse e conhecesse isso, para depois sentir; pois, como sentir o que não se conhece ou não compreende? Como alguém desejará o que não conhece?

Como qualquer homem, ele tinha de nascer, crescer e amadurecer na fé. Mas ninguém nasce por si mesmo; era necessário que fosse gerado por Cristo; que o sangue do Senhor não somente o limpasse dos pecados, mas corresse em suas veias e bombeasse no seu coração a vida. A vida que somente o Senhor poderia dar, e deu, a despeito de todo o desejo de nos apossar dela como se fosse nossa por direito, e não por dádiva, misericordiosa, e graciosamente entregue pelo amor com que Deus nos amou. O caminho nos é mostrado, mas não há nada que nos faça andar nele, se não nos for revelado. Quem não pode ver, como saberá onde andar?

O certo é que, como João o Batista disse, era necessário que ele diminuísse e Cristo crescesse [Jo 3.30].

E assim será para todos os que foram crucificados e mortos com Cristo.

Se ele não viver em nós, a morte viverá.

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Notas: 
[1] Antinomianismo significa “antilei”. É o oposto de legalismo, e como ele, uma heresia. Para os defensores do antinomianismo, o crente não tem de obedecer à lei de Deus, pois Cristo à pregou na cruz. E se a pregou na cruz, está-se livre para viver como quiser, inclusive pecando o quanto quiser; ao ponto de até mesmo distorcerem o sentido de graça, ao afirmar que, quanto mais se peca, mais a graça se manifesta.
[2] Paulo, ao defender magistralmente o Evangelho da graça, afirmando a justificação somente pela fé no sangue derramado de Cristo na cruz, defende também a sua autoridade e ministério contra os falsos-mestres, os detratores que buscavam difamá-lo e desqualificá-lo como apóstolo. E nada mais verdadeiro do que reafirmar que estava morto para si, para viver para Cristo, enquanto aqueles queriam viver por si mesmos.
- Aguçado pela conversa com uma querida irmã, lembrei-me que devia um texto sobre Gl 2.20. E, por mais que escreva, sempre serei devedor a Deus por tê-lo dado a mim.
- Não entrei muito na questão da impossibilidade da lei como meio de salvação, a qual farei brevemente em outro texto.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: 
Kálamos

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O pecado do adultério segundo John Wenham, e do divórcio segundo eu

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Por Jorge Fernandes Isah


Li, nesta manhã, uma postagem no Facebook, atribuída a John Wenham¹, a qual copiei e colei abaixo. Após, uma pequena reflexão a partir do que o teólogo e pastor Wenham escreveu:

"Hoje em dia, consideramos o adultério como tão natural que deixamos de perceber quão distorcidos se tornaram os nossos valores. Quando um homem rouba um bem valioso de uma outra pessoa, a lei o trata com severidade. Mas quando um homem seduz e rouba a esposa de um outro homem e rouba dos filhos a mãe, provavelmente escapará de qualquer punição. Entretanto, em termos do mal provocado e da destruição da felicidade humana, o primeiro crime é insignificante em comparação com o segundo." - John Wenham

E, nessa linha de pensamento, incluo também o divórcio, pois praticamente ninguém se divorcia para ficar solteiro ou sozinha. Todos, em princípio, já têm um ou uma pretendente nova, se é que já não fez a ele ou ela um "juramento" de romper o seu casamento para viverem finalmente juntos e para sempre (a mesma promessa feita e não cumprida ao primeiro(a) cônjuge. 

O divórcio rouba dos filhos o pai e/ou a mãe, e, em muitos casos, até mesmo os dois; e dos maridos e esposas parte de si mesmo, como afirmou o Senhor Jesus: 

"Ele respondeu: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador 'os fez homem e mulher' e disse: 'Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne'? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe" [Mc 19.4-6].

O problema é que muitos alegam não terem feito uma boa escolha, mas, quem garante que não o farão novamente? Se os critérios de escolha fossem a observância da palavra de Deus, em oração e prudência, e não meramente a carnalidade (podendo ser simplesmente o impulso carnal), muita coisa seria diferente; inclusive, o poder para suportarem-se mutuamente nas várias dificuldades que haveriam de surgir.

De outra maneira, há crentes que se aventuram a um risco desnecessário, como se dispusessem a participar de uma "roleta-russa", ao casarem-se com incrédulos apostando na possibilidade de Deus vir a convertê-los um dia [leia 1 Co 7.16]. Conheço o testemunho de muitos irmãos e irmãs que escolheram esse caminho errado e pagaram um preço alto, as vezes resultando no divórcio e em um lar desfeito, em filhos que rejeitam o Evangelho exatamente pelo mau testemunho dos pais divorciados, entre outros tantos problemas². Eventualmente, Deus pode derramar a sua graça sobre o cônjuge incrédulo, convertendo-o, e pode valer a pena dizem, mas deixará para trás, quase sempre, um rastro de destruição e de incredulidade pelo caminho. Porém, não vale o perigo de ser a causa para o endurecimento ainda maior do coração incrédulo; e nada disso aconteceria se o cristão não se rebelasse contra Deus, não se dispusesse a ser independente ou autônomo, esperando que o Senhor "abençoasse" uma união biblicamente reprovável.

O adultério é apenas mais um pecado cometido pelo afastamento da vontade divina, a rebeldia que muitos dizem não ter mas têm-na dissimuladamente, uma forma de se omitir da responsabilidade, a principal causa e origem das outras péssimas escolhas que fazemos.

Infelizmente, o padrão vigente em boa parte da igreja e em boa parte dos cristãos atualmente reflete a sua adequação ao "estilo secular e mundano de vida", e o desprezo a Deus e sua vontade expressamente revelada, a qual finge-se não ler, saber ou existir.

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Notas: 
[1] Não duvido da autoria do texto, de que seja realmente de John Wenham, por conhecer e confiar em quem o citou, o Eric N. de Souza, autor do blog "Outdoor Teológico", apenas não a confirmei.
[2] Tratei da questão do casamento misto na postagem "Pode o Cristão se casar com uma incrédula?"
[3] É claro que, como calvinista, acredito que tudo, inclusive a rebeldia do homem, está dentro do decreto eterno de Deus, mas isso, de maneira alguma, eximi-nos da responsabilidade pelos nossos atos, logo, a desculpa de que Deus quis assim é apenas "furada", e coloca o seu proponente em mais uma categoria, a dos "infantes na fé", senão, dos cínicos. 

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Fonte: Kálamos
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O evangelho caquético do deus defeituoso

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Por Jorge Fernandes Isah


Por que as pessoas querem excluir da natureza divina a ira e a justiça? Por que os textos bíblicos onde esses atributos são manifestados encontram-se reclusos, como se não fizessem parte do Evangelho e fosse proibido exibi-los?

Por que limitar Deus àquilo que mais agrada o coração do homem, de forma que lhe traga um falso consolo? Por que Cristo é muitas vezes estigmatizado como se fosse um molenga, não-viril, um “maria-vai-com-as-outras” que aceita tudo de todos? Por que querem que Ele negue-se a Si mesmo em favor do homem? Por quê? Por quê?... Compartimentá-lO, desagregá-lO de Si mesmo é uma tática maligna de desprezar e rejeitar aquilo que Ele é.

Infelizmente, entre os cristãos, não parece haver uma unidade quanto ao verdadeiro Deus, quanto ao entendimento da sua natureza, quanto ao que nos foi revelado na Escritura; e a maioria se sente constrangida quando tem de dar explicação a uma passagem em que Deus pune, disciplina, condena.

É como se tivéssemos arrancado páginas e mais páginas da Bíblia a fim de não sermos incomodados com situações violentas, mas que revelam o poder soberano e justo dEle. Não é essa atitude uma violação à natureza divina? O arrogante desprezo de não reconhecer a superioridade da Sua revelação em detrimento da nossa reles concepção? Acontece que cristãos fracos têm pregado doutrinas fracas em que um deus fraco é incapaz de atitudes soberanas; ao contrário, esses cristãos raquíticos proclamam um evangelho caquético de um deus defeituoso e imperfeito que não ultrapassa a extensão da mente obliterada pelas trevas.

Como Marcião e tantos outros heréticos, os pseudocristãos estão mais preocupados em não se envolverem em dificuldades, em facilitarem o seu trabalho, em adequarem a mensagem do evangelho ao estado servil, ao utilitarismo em que muitos ministérios reduziram a Escritura, como o meio de se atingir os seus objetivos iníquos e fraudulentos. No fundo, é um evangelho covarde e bajulador, seguido por uma turba de tolos e impenitentes que, não ingenuamente, estão preocupados em atender os seus próprios interesses, crendo que a pregação espúria de um falso cristianismo será a sua “tábua de salvação” financeira, emocional e espiritual. São cegos guiando cegos até o precipício mais tenebroso da ignorância, da desfaçatez, da estupidez, e da malícia diabólica. Não há inocentes, são todos culpados dos piores pecados contra Deus, enquanto mantêm bilhões manietados por uma discursividade cativa ao impudor satânico.

O objetivo é um só: glorificar o homem, e usar o nome do Senhor como uma espécie de muleta na qual os seus infames propósitos de poder, glória e riquezas realizar-se-ão. Não há nada de espiritual neles, apenas a carne gritando como louca, seduzindo a si mesma, na manifestação mais doentiamente possível da corrupção, rebeldia e irregeneração mental do homem caído.

Mesmo servos fiéis, mentes brilhantes, teólogos, pastores, missionários e outros trabalhadores dedicados à seara de Cristo, são apanhados na teia maligna de distinguir os atributos divinos em dois grupos: os facilmente detectáveis, e com os quais se tornará menos difícil manter um discurso agradável aos ouvidos impuros (questões como o amor, a bondade e benignidade divinas são reciclados de maneira tão antagônicas à revelação escriturística que se tornam em distorções da Sua natureza), e aqueles com os quais se deve manter distância, quando muito citá-los rapidamente a fim de não serem notados pelo ouvinte, e nem seja necessário dar explicações que denunciarão a inclinação viciosa da pregação. Poder-se-ia chamar de negligência, omissão, se não fosse um estratagema maroto e cínico de se ocultar a verdade.

É por isso que se está a criar uma geração de crentes fracos, incapazes de responder ao mundo a razão da fé cristã. Assim, se limitam a ecoar os ditames seculares da tolerância, da contemporização, quando a sociedade é completamente intolerante e intransigente quanto a Cristo e Sua palavra.

Por isso, eles não aceitam Cristo como a única verdade, como o único caminho, como a única vida. Por isso, não aceitam o Cristo irado, vingador, que julgará e condenará os pecadores impenitentes. Por isso, não aceitam Cristo como único Rei, Senhor e Salvador, porque, desta forma, teriam de se sujeitar ao Seu reinado e senhorio. Por isso, se criou uma imagem de um Cristo subserviente, adocicado, meigo até ao nível da mais pavorosa demência. Por isso, não querem ser confrontados pela Palavra, mas criaram a sua própria interpretação falaciosa, conduzindo-a até aquele cantinho onde o homem jaz morto; onde a última pá de terra é jogada sobre o seu cadáver.

Alguns gnósticos retrataram Cristo assim, como um ser espiritual neutro, inofensivo, abestalhado. Católicos e espíritas descrevem-no quase como se fosse uma donzela indefesa; outros, como um lunático. Há os que O pintam como um homem comum, sujeito às fraquezas e passível de erros. Há os que ainda O vêem como um perigoso potencial, um revolucionário temível. Há os que simplesmente O ignoram, e ainda aqueles que O desdenham. Contudo, Paulo alerta: Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará (Gl 6.7); mas os tolos não ouvem avisos nem os consideram. São rebeldes obstinados, aos quais está destinada a condenação eterna, e, ainda assim, mesmo no inferno, considerar-se-ão certos em sua inútil revolta.

A verdade é que Cristo é o Senhor de todas as coisas, o Deus Vivo em que “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9); o Senhor dos Exércitos (Sl 84.3), o Guerreiro (Ap 19.13-16) , o Justo (Tg 5.6), o Unigênito Filho Amado de Deus (Jo 1.18), o Criador de todas as coisas sem o qual nada existiria (Jo 1.3), o Salvador (Tt 3.6) e Juiz (At 10.42). Será que estas qualidades anulam o Seu amor, bondade, benignidade, santidade e retidão? NÃO! Todas elas são atributos divinos, e não podem ser repartidas como se possível fosse setorizá-lO. Qualquer tentativa de separar a unidade divina, puxando-a para um lado ou outro, é desqualificá-lO, reduzi-lO a um arremedo daquilo que Ele mesmo revelou-nos. É o pecado supremo de não glorificá-lO; de esquecer, não temer, nem servi-lO como Deus zeloso, cuja ira se acende contra todo o rebelde. Nenhum profeta ou apóstolo teve a audácia e insolência de minimizá-lO, antes foram guiados pelo Espírito Santo na coragem e obediência em descrevê-lO assim como Ele é, assim como se deixou mostrar e quis se revelar.

Como sempre digo, a verdade não precisa ser defendida, mas proclamada (porque anunciar a verdade é a forma de melhor defendê-la do embuste, ao revelar-lhe a artimanha e o seu artificioso ardil). Deus não precisa que o defendamos de supostos ataques humanistas e das investidas diabólicas, mas Ele precisa ser proclamado como a Bíblia O revela: Deus Todo-Poderoso, soberano e Senhor de tudo e todos, não uma bijuteria sobre a mesa da qual nos lembramos apenas quando se vai tirar o pó. De outra forma, como os eleitos serão regenerados e abandonarão as falsas doutrinas? E como os santos serão feitos à imagem perfeita de Cristo?

Ocultar ou rejeitar partes da revelação divina em nada afeta a Sua natureza e glória, mas nos coloca em “maus-lençóis”, ao tornar-nos odiosos diante dEle, que não tem por inocente aquele que tomar o Seu nome em vão (Ex 20.7).

Que se pregue o Evangelho da verdade, em sua totalidade, não aquilo que pode ser conveniente e falsamente interpretado como a completude da revelação, quando não passa de um fragmento descontextualizado em que uma mínima parte verdadeira é reunida a uma maioria mentirosa e, assim, utilizada para construir e validar um complexo falacioso.

Deus é Todo-Poderoso, e não há nada n'Ele que O envergonhe, porque é santo, justo e o único Senhor. Da mesma forma, não pode haver nada que nos escandalize na Escritura (refiro-me a Deus, Sua natureza, propósitos e ações, pois, o diabo, seus anjos e os homens são completamente reprováveis e escandalosos), antes rendamos honra e glória ao Deus que está diante de nós, e pelo qual somos chamados a confiar no Evangelho como a Sua fiel revelação.

E livremo-nos definitivamente do evangelho capenga do deus falseado, para se viver a verdade santa e objetiva da Palavra do Deus Vivo.

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Fonte: Kálamos
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Materialismo: um salto de fé

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Por Jorge Fernandes Isah


Sempre entendi que um darwinista baseia todas as suas convicções e conceitos não na ciência, muito menos na comprovação científica ou empirismo, mas na falsa premissa da não existência de Deus.

O que os move não é o conhecimento científico, nem as descobertas que “poderiam” apontar para a não existência de Deus, mas o contrário, eles direcionam e acomodam a ciência para dentro do seu escopo filosófico, o qual se evidencia metodologicamente corrompido pela forma como se manipulam, burlam, gerenciam as informações a fim de se ratificar o pressuposto filosófico da não existência de Deus.

A ciência torna-se apenas o veículo para a corroboração da crença na descrença; o meio pelo qual eles dão vazão aos seus pressupostos através da falsa ideia de que estão à procura da razão e da verdade; quando a ciência transforma-se no meio de propagação doutrinária, a despeito do seu apelo pseudo-racional querer excluir a fé, quando, na verdade, ela está arraigada na fé. É o discurso panfletário idealizando-se anti-panfletário, como se fosse possível condenar o proselitismo religioso usando-se do proselitismo para difundir o materialismo, uma nova religião tão ou mais radical como nenhuma outra já foi.

No fundo, o cético faz da ciência e de si mesmo os seus “deuses”; esses são os elementos forjadores da cosmovisão materialista, e ao rejeitarem o Criador simplesmente o substituem por Suas criaturas [sim, a ciência não é criação humana, mas parte da criação divina, assim como o homem]. É o que Paulo alerta: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos… Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém” [Rm 1.22, 25]. Na verdade, esse trecho da Escritura explica muito bem o que acontece atualmente: o homem se entregando à pregação, ao discurso, em favor do autonomismo, e assim excluí-se o teocentrismo para, em seu lugar, erguer altares antropocêntricos.

Em suas argumentações e sofismas, os crédulos ateus utilizam-se do fato da ciência não ser neutra para contaminá-la com sua filosofia naturalista, e assim dizer que agem em neutralidade. Parecendo racionais são levianos, e forçam até a exaustão o rótulo de inconsistentes, místicos e preconceituosos aos outros crédulos [em especial, os cristãos] quando suas concepções estão viciadas exatamente pela inconsistência, pelo misticismo, preconceitos e uma metodologia completamente corrompida. Verdadeiramente os naturalistas não estão a serviço da ciência, mas servem-se dela para atingir seus objetivos; usam-na como “ambiente” para disseminar e estabelecer seus dogmas. Em sua maioria são tão fundamentalistas como os fundamentalistas que atacam e execram, pois não estão dispostos ao diálogo, mas à doutrinação mais agressiva que se possa estabelecer e exercitar, e ela começa pelo pressuposto de desqualificar e rejeitar qualquer premissa que não seja igual a “Deus não existe” [não que haja algum benefício em dialogar com eles, pois se encontram de tal maneira presos em seu círculo vicioso que a menor hipótese de liberdade intelectual parecem-lhes pior do que o ferrolho a prender-lhes pés e mãos].

Afinal, quem é mais crédulo? O crente ou o ateu?

É interessante que o “novo ateísmo”[1] proclama a liberdade do homem de todas as formas de opressão religiosa, e o faça direcionando-o explicitamente ao materialismo filosófico, como única e última opção. Ou seja, prega-se uma “libertação”, mas essa libertação somente existirá se o liberto tornar-se ateu. Não é interessante? Quer dizer que para se ser livre o homem somente o será se a liberdade o levar ao âmago do sistema ateísta? E até onde será possível ir em defesa dessa liberdade? Como reagirão diante daqueles que se recusarem  a aceitá-la? Os neo-ateístas não estarão revivendo tudo aquilo que dizem combater, mas que é bem possível repetir em nome da sua fé? Ao final, o que teremos serão homens enjaulados, sem sequer uma réstia de luz.

Esse método se assemelha, ou melhor, é idêntico ao discurso marxista. Ao livrar o homem do capitalismo, fatalmente a única opção passa a ser o comunismo. O homem é livre para escolher o comunismo, e tão somente ele; e, chegando lá, estará invariavelmente aprisionado ao sistema, sem nenhuma chance de volta ou outra opção de escolha. A menos que se auto-imploda por ineficiência ou fragilidade, por sua própria inexiquilidade. Em nada é diferente da liberdade que bois e porcos têm no “corredor da morte” em direção ao matadouro. Não há escolha nem salvação. Essa é a liberdade do ateísmo e do marxismo… Mais uma mentira vergonhosa, em que o homem está preso pela suposta liberdade de querer se manter preso.

Por exemplo, Richard Dawkins[2] propõe a mesma libertação comunista: a de aprisionar o homem no ateísmo, no materialismo. E somente estando-se ali ele será, no seu conceito esdrúxulo, livre. Mas livre de quê? De algum tipo de fé? De algum tipo de sistema autoritário e despótico? De algum tipo de jogo onde as cartas estejam marcadas? E depois nos chamam de burros, de cegos. Ou querem enganar a quem além de si mesmos? Como esses homens podem conviver com tanta incoerência e ilogicidade? Somente a desonestidade intelectual como resposta. Ou seria uma fé equivocada? Ao ponto em que o “neo-ateísmo” esforça-se em excluir a história da própria História?

O modelo que desejam para a sociedade é, basicamente, o modelo marxista implementado na extinta URSS por Lenin e Stalin, na China por Mao, em Cuba por Fidel, no Camboja por Pol Pot, e em tantos outros lugares; é o mesmo projetado pelo ateísmo moderno: para aniquilar a ideia de Deus é preciso exterminar o homem, ao não permitir que ele pense, racionalize, mas tenha seus pensamentos reduzidos a um padrão de indiferença, onde todos estarão confinados a um modelo unificado de comportamento e expressão: a submissão cega. Milhões de pessoas sentiram na pele a ideologia marxista, o controle do Estado sobre a sociedade e o indivíduo; a impossibilidade de se “escapar” com vida desse sistema a não ser rendendo-se incondicionalmente; ser controlado completamente pelas forças de “libertação”, ou seja, fazer do homem uma simples máquina a serviço da vontade burocrática. Isso é fruto de um irracionalismo voluntário, da falta de discernimento analítico, o aniquilamento do senso crítico, da razão, tornando homens em manadas de idiotas.

O Estado não serve, precisa ser servido em sua voracidade perversa; o Estado não admite Deus, mas quer se fazer um; o Estado não pretende ter cidadãos, mas escravos; não aceita nada menos do que o seu ideal maníaco de onipotência e onipresença. Da mesma forma, o gene egoísta é a nova desculpa para que o Estado controle, domine e subjugue o homem. E a desculpa é sempre a mesma escandalosa mentira: assim é melhor!… Mas para quem?

A loucura doentia do neo-ateísmo, que simplesmente revive conceitos experimentados e fracassados à exaustão, como se fossem novidade, é ser essencialmente aquilo que diz combater. Será que os novos ateus pretendem reescrever a História, ou ficarão apenas na idade média, em especial no período negro da inquisição? Se o falso cristianismo existe e é injusto, há contudo o verdadeiro cristianismo, o qual é justo. Mas o que dizer do marxismo? Que nada mais é do que o materialismo levado às últimas consequências? O naturalismo em sua expressão mais virulenta e odiosa? Em qual lugar houve justiça? Ele apenas promoveu e ainda promove a injustiça em sua sanha destrutiva, em sua descrença em Deus e nos valores cristãos. Ateísmo e marxismo são irmãos siameses a serviço do mesmo senhor: o diabo!

E como tal, não prescinde a fé, mas vive por ela… equivocadamente, diga-se de passagem, posta num ídolo de barro.

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Notas:

[1] Novo ateísmo ou antiteísmo é a oposição ativa ao teísmo, ao ponto em que não basta rejeitar a Deus, mas lutar para o extermínio de qualquer crença divina, pois, assim o mundo seria muito melhor. Ou seja, eles crêem que não crendo tudo caminhará para a perfeição, mas, além da crença em si mesmo e em suas idéias, o que têm de concreto?
[2] Clinton Richard Dawkins é o maior expoente do neo-ateísmo na atualidade. Ele conclama os ateus a “sairem do armário” e ir à luta contra as religiões e seus deuses, e militarem por um mundo melhor, onde não há espaço para as religiões.

- Este texto tem como ponto de partida o “Bate-Papo com André Venâncio” e os vários comentários à postagem, e a leitura do ótimo livro “Cartas para Dawkins”, da Editora Monergismo.

- Para o título, utilizei-me de uma expressão do filósofo e teólogo dinamarquês, considerado o pai do existencialismo, Soren Kierkegaard, “o salto da fé”, o qual para ele a fé é uma aposta, uma aventura arrojada, um mergulho no desconhecido, um salto arriscado, em que a fé se opõe à razão, de tal forma que são mutuamente exclusivas. Acredito que o darwinismo é mais ou menos isso: uma fé-cega a lançar o homem na treva mais densa que a mente humana pode conceber.

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Fonte: NAPEC
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