Como se tornar um cristão nominal?

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Por Rev. Jôer Corrêa Batista


Primeiro, vá à igreja apenas uma vez por semana. Se você for ao culto matutino, não vá ao noturno, se for ao culto noturno ignore o matutino. Escolha um dia da semana, os domingos são os preferíveis, mas pode-se optar por outro trabalho durante a semana, o importante é não ir mais que uma vez. Ao longo de sua carreira cristã nominal você conseguirá passar semanas ou talvez meses sem frequentar os cultos, perceberá que eles se tornarão cada vez menos necessários à sua fé nominal.

Em segundo lugar, abandone o hábito de orar sempre. Ore nos cultos, nas reuniões da igreja, ore quando alguém estiver perto de você, ore nos momentos de aflições e principalmente nas reuniões de oração, quando ocasionalmente você participar de uma delas. Mas abandone o hábito de orar em secreto e orar diariamente. A oração gera em nós um senso de dependência, nos leva a considerar a presença invisível e real de Deus, e esta concepção de uma realidade espiritual prejudica a carreira de um cristão nominal.

Em terceiro lugar, não leia a Bíblia. Esqueça esse hábito de preservar horas tranquilas compostas de oração e leitura bíblica. Leia a Bíblia nos cultos, a quantidade de leitura que temos nos cultos deve ser suficiente para manter o sentimento de que somos cristãos. Deixe sua Bíblia no carro, assim você não terá o trabalho de levá-la para casa durante a semana. Lembre-se que seu alvo é chegar ao ideal do nominalismo cristão, que é a capacidade de cultuar a Deus sem Bíblia. Com o passar do tempo e persistência você conseguirá e muitos admirarão a sua memória.

Em quarto lugar, não evangelize. Assuma uma postura neutra, assim você não sofrerá oposição dos ímpios, pelo contrário, eles aprovarão seu comportamento e acharão você uma pessoa legal por ser igual a eles e fazer as coisas que eles fazem. Isso é bom, principalmente porque você não terá a necessidade de dar testemunho através de seu comportamento estando, assim, livre para viver a vida cristã do seu jeito.

Em quinto lugar, não frequente a Escola Dominical. Matricule-se para manter seu nome no rol dos cristãos, mas não freqüente. Aproveite o domingo com outras programações mais importantes que a fé cristã. Passeios, viagens, baladas de sábado à noite e até estudos como o vestibular são boas justificativas para você não se sentir culpado. Não se preocupe com a necessidade indicada pelos seus líderes de se ter conhecimento bíblico e doutrinário. Você pode até aprender algumas doutrinas, o que você não deve fazer é praticá-las. Encha seu intelecto de verdades da Escritura, mas lembre-se são apenas idéias, convença-se que são teorias, e que na prática não funcionam.

Em sexto lugar, não desenvolva relacionamento com outros membros da igreja. Saia logo do culto assim que ele terminar. Não se demore conversando com os irmãos ou algum visitante. Eles chamam isso de comunhão, e você pode achar esses momentos muito agradáveis. Se for obrigado a ficar, não aprofunde seu relacionamento e mantenha distância dos grupos de serviços da igreja.

Em sétimo lugar, batize-se e participe da ceia regularmente. Nada melhor que os sacramentos para nos fazer sentir cristãos. Professe sua fé, mas lembre-se que os compromissos assumidos naquele dia, são meros atos religiosos. Não tome a ceia com fé, nem envolva a fé nessas cerimônias, caso contrário elas poderão se tornar mais que cerimônias, podendo até mesmo ser meio de graça em sua vida, e isto é nocivo para a carreira de um cristão que quer se tornar nominal.

Acima de tudo, se você realmente pretende se tornar um cristão nominal, considere que a grande diferença entre os nominais e os cristãos verdadeiros é a fé. Não a fé qualquer, mas aquela que, segundo uma definição de um autor cristão... é o que se recebe de Deus; não uma mera aceitação do que é revelado em Sua Palavra, mas um princípio sobrenatural de graça que existe no Deus das Escrituras. Devo dizer ainda que a fé é indispensável ''somente'' para ler a Palavra de Deus (Jo 20.31), para ouvir a pregação (Gl 3.2), para a oração (Tg 1.6), para a vida diária (2Co 5.7, Gl 2.20) e para a nossa partida deste mundo (Hb 11.13).

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Fonte: Igreja Cristã Reformada do Campo Belo
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Pode Deus ser soberano e, ao mesmo tempo, exigir obediência de suas criaturas?

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Por Paulo Ribeiro


"Se Deus pré destinasse as ações humanas não seriam necessárias exortações, e a Bíblia está repleta delas!".

Essa é uma afirmação que ouço frequentemente de quem não gosta da doutrina dos decretos segundo o pensamento reformado, de quem não a entende ou de quem simplesmente se incomoda com a existência de um Deus que interage com sua criação dirigindo-a segundo o seu propósito ao invés de deixá-la movimentar-se ao impulso da contingência. 

Muitos dos que afirmam frases como essa também não gostam de pensar em um Deus deste tipo pois este modus operandi faria dele um Deus "controlador", transgressor do arbítrio humano, e isso é inconcebível para muitos. Um Deus que rege sua criação DETERMINANDO o curso de cada uma das partes dela e, inclusive, as vontades de suas criaturas inteligentes, pode assemelhar-se a um "deus violador" (me desculpem a força do termo, mas estou amenizando o peso da analogia que já ouvi) e o resultado de tal ação imanente pode igualar-se ao que os filósofos chamam de fatalismo.

A doutrina dos decretos de Deus afirma, em poucas palavras, que Deus decretou todas as coisas, inclusive o mal, desde a eternidade; não somente os acontecimentos finais que se conformem à Sua vontade última, mas cada meio e processo pelos quais o Senhor atua em sua criação, conduzindo-a segundo seu propósito soberano. Os decretos são imutáveis pois erguem-se a partir de um Deus imutável, e compõem, em última análise, um só decreto eterno que engloba todas as coisas. Deus diz em Isaías: "... Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará" (Is 14.24) e Paulo afirma que Deus "faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Textos bíblicos como estes, entre tantos outros por toda a Escritura, apontam e elucidam a doutrina pela qual afirmamos a absoluta soberania de Deus e seu absoluto controle sobre sua criação.

Diante disso, confesso minha dificuldade em entender o repúdio dos referidos inquiridores pelo ensino de que a soberania de Deus atinge completamente a todas as coisas. Também acho difícil conceber que alguém se oponha à verdade bíblica de que não pode haver outra forma plausível por meio da qual Deus se relaciona com sua criação senão através de uma direção positiva, deliberada, poderosa, teleológica (que visa a propósitos pré-definidos) e soberanamente controladora; sim, controladora. Porém, tentarei elencar algumas objeções trazidas à doutrina bíblica de que Deus decreta não somente o curso da história como opera nas vontades de suas criaturas racionais, persuadindo-as segundo o beneplácito de sua soberana vontade.

Uma das objeções, como antecipamos, é a de que uma influência absolutamente controladora como esta que defendemos resultaria em um "fatalismo teísta". Mas isso é totalmente falso e facilmente refutado. Na doutrina filosófica do fatalismo, o que determina o curso da história é o acaso ou uma certa "inteligência" cega e impessoal. Na doutrina bíblica, Deus, um Ser pessoal, poderoso, amoroso e inteligente é quem determina os rumos da história de acordo com seus propósitos (Sl 33.9; Jó 23.13,14). No fatalismo, somente os fins são considerados. Na doutrina bíblica, Deus não somente decreta os fins, mas os meios pelos quais os Seus fins são levados à cabo (Ef 1.11) - isso será muito importante logo adiante. Dessa forma, a doutrina dos decretos em nada se assemelha a uma interpretação fatalista sobre a influência de Deus na história. E afirmar o contrário é blasfêmia.

Outra objeção comum que se faz à doutrina reformada dos decretos é que o substrato de suas proposições é incoerente com o livre-arbítrio do homem e faz de Deus o autor do pecado. Com efeito, essa objeção também pode ser refutada. Em primeiro lugar, a Bíblia não afirma que o homem possui livre-arbítrio. Pelo contrário, a Sagrada Escritura mostra claramente o homem como escravo de suas paixões pecaminosas (Ef 2.1-3; Rm 7.14-21). Em segundo, se procurássemos compreender a extensão plena dos decretos divinos em fusão à livre-agência dos homens (qualidade intelectual de o homem tomar decisões, sempre dentro das capacidades e limitações de sua natureza), arrogaríamos nada além de frustração para nós mesmos. Nosso intelecto é finito e imperfeito, e sofre com o que Alvin Platinga chamou de "efeitos noéticos do pecado". Portanto, não podemos enquadrar a ação divina concebendo-a ou descrevendo-a segundo nossa limitada percepção, mas devemos nos submeter ao que o Senhor nos revela em sua Palavra, e Ele nos mostra que, ao mesmo tempo em que opera nas vontades de suas criaturas racionais (Êx 7.3; Is 6.9,10; At 2.23; 4.28; Rm 9.18), a elas é atribuída a responsabilidade por seus atos, precisamente pelo fato de serem racionais! Lucas, em Atos 2.23 diz que Jesus morreu pelo desígnio eterno de Deus embora a culpa pelo assassinato de Jesus tenha sido atribuída aos judeus (At 3.15), e Tiago 1.13 diz que Deus não tenta ninguém. Em suma, a doutrina dos decretos divinos não interfere no suposto livre-arbítrio humano simplesmente porque este livre-arbítrio não existe; e tal doutrina não torna Deus o autor do pecado porque o mal é operado por agentes morais, racionais e que têm diante de si um amplo testemunho da existência de Deus pelo qual eles são indesculpáveis (Rm 1.20). Se não conseguimos entender de que maneira Deus pode ter decretado todas as coisas e, ao mesmo tempo, não poder ser culpado pelo pecado, devemos calar-nos diante da Escritura e não sucumbir ao desejo de reduzir seu ensinamento às categorias de nosso entendimento.

Há ainda outra objeção à doutrina dos decretos conforme a Bíblia a expõe, e é precisamente aquela que abre a discussão deste artigo: "Se Deus decretasse de antemão todas as ações dos homens, não seriam necessárias as incontáveis passagens bíblicas que nos exortam a tomar esta ou aquela medida, esta ou aquela decisão ou escolher entre este ou aquele caminho". Ora, mais uma vez a própria Escritura responde a esta objeção. Quanto às exortações divinas gerais, dirigidas a todos os homens (eleitos e não-eleitos), Deus aponta sua vontade simplesmente porque lhe é servido (I) reivindicar seus direitos reais e soberanos sobre o pecador, (II) revelar seus atributos e propósitos de uma forma mais específica, translúcida, clara e persuasiva, (III) chamar pecadores ao arrependimento e à fé e (IV) acentuar sua justiça e a condenação dos que, tendo ouvido a pregação da Palavra, rejeitarem o chamado à salvação, ficando ainda mais expostos à ira escatológica de Nosso Senhor.

Contudo, a Palavra de Deus desempenha um papel especial no coração dos regenerados. Ela é instrumento de seu Santo Espírito na santificação, consolo, encorajamento e direcionamento do povo da aliança. Paulo, aos Tessalonicenses, afirma que a Palavra de Deus atua eficazmente nos que creem (1Ts 2.13). Pedro mostra enfaticamente a instrumentalidade da Palavra na transformação do caráter dos crentes (2Pe 1.4). Hebreus nos prova que a Palavra é a única luz objetiva mediante a qual uma pessoa, pela atuação poderosa do Espírito, discerne a si mesma e os fatos de sua existência. Finalmente, Efésios 6.17 diz que a Palavra de Deus é o instrumento pelo qual o Espírito atua em nós. Assim, vemos que não há incongruência alguma entre a realidade dos decretos soberanos e exaustivos de Deus e a existência de constantes apelos e exortações em Sua Palavra. Conforme sublinhamos, Deus decreta não somente os fins, mas os meios pelos quais seus fins são cumpridos. Destarte, podemos afirmar com certeza: Deus decreta todas as coisas e, simultaneamente, nos convoca a obedecê-lo, sendo a própria convocação do Senhor, como Palavra de Sua boca, um instrumento pelo qual Ele opera em nós o querer e o efetuar, segundo sua boa vontade (Fp 2.13). As constantes exortações do Senhor ao seu povo não se antagonizam ao fato de que Ele decretou todas as coisas. São, na verdade, a ferramenta por meio da qual Deus cumpre o seu decreto eterno.

A doutrina dos decretos de Deus, conforme a Bíblia nô-la apresenta, é tremendamente gloriosa e ultrapassa a capacidade humana de perscrutá-la ou sintetizá-la para que se adeque às suas categorias. A postura legitimamente cristã diante desta doutrina deve ser a de afirmar o que diz a Bíblia, ainda que a compreensão acerca dela se mostre limitada e insatisfeita. Como o apóstolo Paulo, digamos apenas: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33).

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Sobre o autor: Teólogo, professor, articulista e apologeta do cristianismo. Durante anos trabalhou profissionalmete como músico até iniciar formalmente seus estudos na área teológica. Graduou-se em Teologia e realizou diversos cursos nas áreas de interpretação bíblica e homilética. Atualmente dá continuidade a seus estudos em nível de pós-graduação no CPAJ - Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, braço exclusivo da Universidade Mackenzie para o enfoque em Teologia. No ministério de ensino, organiza periodicamente open classes de apologética cristã preparando discípulos de Cristo para responder às objeções e ataques que se faz às doutrinas critãs. É professor da Escola de Formação Teológica Coram Deo.

Fonte: Teologia Expressa
Divulgação: Bereianos
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À noite, todos os gatos são pardos

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Confesso que no fundo de meu coração tenho medo de um dia vir a afastar-me de Deus e de Sua verdade.

Tenho medo, explico, porque vejo no fundo de meu coração uma tendência constante para afastar-me de Deus. Sinto que a tentação para a heterodoxia e para a liberação total são perigos reais que me cercam diariamente. Vejo com muita clareza que submeter-me às Escrituras e crer em Deus é um milagre na minha vida.

Vi a apostasia acontecer muito de perto ao longo da minha vida. Um famoso professor de Bíblia do Recife, que foi a pessoa que me encaminhou ao seminário, abandonou a fé cristã depois de trair a mulher e abandoná-la com nove filhos. Eu estava no primeiro ano! Três colegas meus de classe, no seminário, entre os mais brilhantes da turma, hoje nem professam mais o cristianismo. Um jovem promissor que chegou ao Evangelho por minha instrumentalidade, e que posteriormente chegou até a estudar no L’Abri, com Francis Schaeffer, renegou o cristianismo histórico. Uma conhecida minha, desde a infância, que é missionária no estrangeiro, acaba de comunicar aos pais que não é mais cristã, depois de começar a viver com um homem casado. Líderes que conheci e admirei e segui durante os primeiros anos de minha vida, não deixaram as denominações evangélicas, mas já não crêem mais naquilo que me ensinaram.

Há advertências constantes nas Escrituras contra a apostasia. Apostatar significa afastar-se da verdade de Deus revelada nas Escrituras, como resultado de uma mudança de pensamento, e levantar-se em rebelião aberta contra ela. O que leva uma pessoa a fazer tudo isso, a abandonar a fé bíblica, seguir a heterodoxia, renegar os valores morais do cristianismo e pregar a liberação total?

Não pretendo entrar aqui na delicada questão acerca da salvação do apóstata. Talvez noutro post eu tente esclarecer os motivos para acreditar que um apóstata, no sentido real da palavra, nunca foi verdadeiramente salvo. Creio na perseverança final dos santos, dos eleitos.

O que eu gostaria é de inquirir acerca dos motivos que levam uma pessoa a abandonar a fé histórica do Cristianismo, após ter pregado e defendido essa fé por muito tempo. É evidente que não poderei inquirir aqui sobre os desígnios misteriosos de Deus. A minha inquirição é apenas psicológica, espiritual e teológica.

O Novo Testamento nos dá vários motivos pelos quais as pessoas se desviam da fé. Na parábola do semeador, lemos acerca dos que creram por um tempo e depois se desviaram, por causa dos cuidados desse mundo e por causa das perseguições que começaram a experimentar por causa do Evangelho. São aqueles que não acolheram sinceramente a verdade para serem salvos. A eles, o próprio Deus envia a operação do erro e da mentira (2Ts 2.9-11). Há também os que, depois de algum tempo, passaram a dar ouvidos a doutrinas de demônios (1Tm 4.1). Outros, se desviaram da fé para professar uma doutrina que acharam que era mais intelectual (1Tm 6.20-21). Com mais freqüência, há os que foram levados pela cobiça, como Judas, Balaão e Demas, que amou o presente mundo. A demora, a relutância, a indolência e a negligência em romper definitivamente com o pecado e o erro são causas prováveis de apostasia, conforme o autor de Hebreus ensina em toda a sua carta. Ele avisa que a dureza de coração e a incredulidade são capazes de afastar alguém do Deus vivo (Hb 3.12-13).

Em resumo, os motivos externos são vários: amor ao dinheiro, orgulho, problemas morais não resolvidos, vaidade intelectual, falta de coragem para assumir a verdade e desejo de novidades. A raiz de tudo isso, ao meu ver, é a falta de um coração regenerado, um motivo que os autores bíblicos estão sempre prontos a admitir.

O apóstata pode permanecer muitos anos na igreja e no ministério cristão sem jamais revelar a apostasia que já aconteceu em seu coração. Outros, assumem a apostasia e rompem abertamente com a fé cristã histórica, e geralmente adotam outras doutrinas que mesmo aparecendo com cara de novas e revestidas de respeitabilidade intelectual, nada mais são que as velhas heresias teológicas e morais que a Igreja já enfrentou ao longo dos anos. Eu não me espantaria se por detrás dos grandes desvios teológicos da história encontrássemos pecados não resolvidos, orgulho, vaidade intelectual, soberba, dureza de coração e – obviamente – corações não regenerados. É claro que nunca saberemos ao certo. A história não registra essas coisas que sempre são abafadas, escondidas e quase nunca declaradas.

Até onde entendo, só há uma coisa que mantém o cristão na verdade: o temor a Deus, a humildade e um coração quebrantado. Os que verdadeiramente se humilham diante de Deus e tremem de sua Palavra, mesmo que errem em pontos secundários, que caiam eventualmente em pecados, jamais se afastarão definitivamente de Deus e da sua palavra. O verdadeiro crente não pode mais abandonar a Deus. Nem que queira. Nem que em momentos terríveis diga a Deus que nunca mais o servirá. Ele acaba voltando. O apóstata vence essa barreira. Ele consegue passar o limite. Ele consegue pular a cerca. Ele não receia o que poderá acontecer. Pois no fundo ele realmente não acredita.

A apostasia é uma realidade muito mais presente nos meios evangélicos brasileiros do que se deseja perceber. O falso conceito de tolerância, o relativismo, a falta de convicções doutrinárias, o liberalismo teológico travestido de ciência, tudo isso favorece um quadro cinza e enevoado onde os contornos do verdadeiro Cristianismo não são percebidos com clareza. À noite, todos os gatos são pardos.

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Fonte: PIPG
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Calvino, a Fé e a Confissão Positiva

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Por Thomas Magnum


É claro que minha intensão nesse artigo não é trabalhar anacronicamente com relação ao reformador genebrino e a teologia da prosperidade. Mas não podemos negar que os reformadores no século dezesseis já tinham problemas com alguns hereges que gostavam de infiltrar certos tipos de heresias no meio da igreja Deus. O exemplo disso são os que defendiam revelações extrabíblicas nos dias de Lutero, afirmando que a bíblia não era suficiente [1].

Tenho por grande apreço ler as Institutas de Calvino, por esses dias meditando no que o reformador diz sobre a fé no terceiro livro, me debrucei sobre o trecho que diz:

Pois a fé certamente não promete nem longevidade nesta vida, nem honra, nem riquezas – uma vez que o Senhor não nos quis oferecer nenhuma dessas coisas –, mas se dá por satisfeita com a certeza de que, por mais que nos faltem muitas coisas que dizem respeito ao sustento desta vida, Deus não nos há de faltar jamais [2].

A fé defendida pelos pensadores da teologia da prosperidade tem por fundamento o pensamento positivo, a confissão positiva. Esse tipo de fé ou crença fundamenta-se no próprio homem, é uma fé psicologizada, humanista, que retorna a si num ciclo vicioso. Essa crença não tem nenhuma ligação com o que a Bíblia fala sobre a fé que repousa na vontade soberana de Deus. Nossa fé não é uma coleira posta em Deus, que lhe obriga fazer tudo que pedimos, como afirma a confissão positiva. Calvino refletia na fé como um dom de Deus (Ef 2.8), como sistema de doutrinas (I Tm 4.1), como o agarrar-se em Deus (Jo 3.16). A palavra fé e suas correlatas no Antigo Testamento equivalem à confiança e é encontrada mais de cento e cinquenta vezes. O Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento nos diz:

A fé em Deus significa, para Jesus, o estar aberto às possibilidades que Deus apresenta (cf. Mc 11.22: eehete pistin theouy “tende fé em Deus”). Inclui, também, o contar com Deus, que não se contenta apenas com a coisa dada e o evento acontecido. Expressões tais como: echein pistin theou (“ter fé em Deus, Mc 11.22) e prostithenai pistin (“aumentar a fé”, Lc 17.5) mostram como foi entendido o ensinamento de Jesus a respeito da fé. Havia um tipo especial de fé em Deus, ou seja, a fé em Jesus. A antítese entre pequeno e grande (Lc 17.6; Mt 17.20) apresenta um contraste entre a atitude humana e a grandeza da promessa. O que ocorre dentro do homem é pequeno em comparação com a grandeza que vem de Deus. Mesmo assim, Jesus falava de uma fé ilimitada como quem descreve algo novo. Não edificava sobre alguma coisa já existente: Sua base era uma coisa nova. Apesar disto, Seu ensino era bem diferente do entusiasmo desenfreado, porque não se divorciava do constante esforçar-se com Deus e do conversar com Ele. Ficava dentro do círculo da confiança (heb. bittahori) e do conhecimento (dalat). Jesus Se voltava para o indivíduo, porque Seu povo, como um todo, era conclamado à decisão da fé (Lc 19.42). As declarações que se fazem acerca da fé, na tradição sinótica, sempre são qualificadas. Aqui talvez se possa perceber influências posteriores (cf. o imperativo metanoeite, “arrependei-vos”, à luz do recebimento da mensagem da salvação). Não se deve, no entanto, esquecer-se de que toda conclamação e declaração da parte de Jesus continha os elementos da fé, da confiança, do conhecimento, da decisão, da obediência e da auto-direção. Não se pode entender a pregação de Jesus à parte dos aspectos multilaterais da fé (heb. *emunah) e confiança (heb. bittahori). A fé de Jesus era dirigida para a realidade. Estava profundamente envolvida no ato do viver, e estava num plano completamente diferente de abstrações hipotéticas. [3]

Portanto a fé em Deus não é uma mágica ocultista, não é uma abstração do poder interior ou a expressão de um sentimento mitológico de poder que provem do homem. A fé repousa em Deus que é o próprio autor dela (Hb 11.1), a fé é dada ao homem (Ef 2.8), embora essa fé precise ser posta em Deus por atitude do ser criado, ela provém do próprio Deus. Então, nossa fé não depende do que temos. Nossa felicidade não é proveniente do que Deus nos deu ou não, mas é equipada e sossegada no ser de Deus. Calvino continua:

Quaisquer que sejam as misérias e calamidades que atinjam na terra aos que Deus abraçou com seu amor, estas não podem, porém, impedir que sua benevolência seja para eles felicidade plena. Por isso, quando quisermos exprimir a suma felicidade, pusemos a graça de Deus como um manancial do qual brotam para nós bens de todos os tipos [4].

Esse manancial de bênçãos para o povo eleito de Deus é sua graça benevolente e soberana. Ao contrário do que os adeptos da teologia da prosperidade afirmam, lemos o que diz Habacuque:

Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas” [5].

Ainda continuamos a ler o que Calvino diz em seu comentário expositivo de Hebreus:

O Senhor prontamente e ao mesmo tempo encoraja nossa fé e subjuga nossa carne. Ele deseja que nossa fé permaneça serena e repouse como se estivesse em segurança, num sólido abrigo. Ele exercita nossa carne com várias provas a fim de que ela não se precipite na indolência [6]. 

Ao refletir sobre o repouso da fé na soberana vontade de Deus, entendemos que ele ouve nossas orações, mas, isso não é garantia que ele responderá positivamente a tudo que queremos, vide a passagem de I João:

E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe fizemos.” I Jo 5.14,15

Lemos ainda no Antigo Testamento:

Tu, pois, não ores por este povo, nem levante por ele clamor ou oração, nem me supliques, porque eu não te ouvirei. Jeremias 7.16

Com isso, fica claro para nós que Deus é Senhor de nossas vidas, ele nos dirige os passos e nos concede graciosamente o dom da vida.

Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. Atos 17.28

A vontade de Deus é tremenda e soberana como já dissemos, desejo finalizar com o Salmo 29, que nos convoca a tributar ao Senhor glória e força, pois sua voz se ouve sobre tudo e todos. Sua vontade majestosa reina para sempre:

DAI ao SENHOR, ó filhos dos poderosos, dai ao SENHOR glória e força. Dai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR na beleza da santidade. A voz do SENHOR ouve-se sobre as suas águas; o Deus da glória troveja; o SENHOR está sobre as muitas águas. A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade. A voz do SENHOR quebra os cedros; sim, o SENHOR quebra os cedros do Líbano. Ele os faz saltar como um bezerro; ao Líbano e Siriom, como filhotes de bois selvagens. A voz do SENHOR separa as labaredas do fogo. A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o SENHOR faz tremer o deserto de Cades. A voz do SENHOR faz parir as cervas, e descobre as brenhas; e no seu templo cada um fala da sua glória. O SENHOR se assentou sobre o dilúvio; o SENHOR se assenta como Rei, perpetuamente. O SENHOR dará força ao seu povo; o SENHOR abençoará o seu povo com paz.

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Notas:
[1] História da Igreja Cristã, Robert H. Nichors – Ed. Cultura Cristã
[2] As Institutas da Religião Cristã, João Calvino – Ed. Unesp
[3] Dicionário Internacional de Teologia do NT – Ed. Vida Nova
[4] As Institutas da Religião Cristã, João Calvino – Ed. Unesp
[5] Bíblia Sagrada, Almeida RA – Habacuque 3.17-19.
[6] Comentário Expositivo de Hebreus, João Calvino – Ed. Fiel.

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Divulgação: Bereianos
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Respostas à algumas objeções contrárias à doutrina da graça irresistível

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Por Álvaro Rodrigues


A doutrina da graça irresistível é o quarto dos cinco pontos da soteriologia calvinista. É um ensino que está conectado com a Depravação total. Creio que só passamos a entender o conceito de graça irresistível quando levamos em conta a terrível condição do homem após a queda. Esta condição a qual nos referimos não é outra, senão a incapacidade deste homem de, por si mesmo, se salvar. Esta inabilidade é, então, a depravação total, que é o primeiro dos cinco pontos da soteriologia calvinista. O nosso objetivo, no entanto, não é tratar em específico da depravação total, mas sim da graça irresistível, respondendo à algumas objeções contrárias a esta preciosa doutrina. Assim sendo, começaremos definindo o que seria graça irresistível, e em seguida responderemos a tais objeções.

Definição

A graça irresistível refere-se a eficácia da graça de Cristo em transformar e regenerar por meio da pregação aqueles que foram incondicionalmente eleitos pelo Pai (Jo 5:21-25, 6:44, Mt 11:25-27, Rm 8:30). Para ser mais claro, podemos dizer que a graça irresistível é a confirmação no tempo da eleição efetuada por Deus antes da fundação do mundo. Como também é a comprovação de que os propósitos Deus jamais poderão ser impedidos ou frustrados pelos seres humanos. Esta graça irresistível (eficaz) é o chamado interno, que é feito pelo Espírito Santo aos eleitos. Este chamado, portanto, se distingue do chamado externo que é feito através da pregação do evangelho (At 16:14, 1 Co 1:24, Rm 8:30). Este chamado interno sobrepuja a resistência do homem que, naturalmente, é depravado e inimigo de Deus. Isto posto, aprendemos que somente este ensino é coerente com a realidade da depravação, pois não haveria outra maneira do homem se salvar, a não ser por um milagre regenerador conhecido por graça irresistível (Jo 1:12-13, 6:44, At 16:14).

Objeções à doutrina

Alguns arminianos e anti-calvinistas tem levantado objeções contra esta doutrina. Vejamos duas das principais objeções, seguidas com as devidas respostas.

1ª objeção: “A graça irresistível é um erro, pois implica dizer que Deus concede a graça salvífica  apulso, por força ou violência, para os tais eleitos”.

Resposta: Tal objeção não faz o menor sentido. Por que? Simples, quando se usa expressões tais como “salvar na marra, apulso ou por violência” isto implica em resistência ou relutância da parte de quem, no momento, está sofrendo a ação. Mas a graça irresistível não ensina que, enquanto Deus está regenerando, o homem se encontra resistindo a tal regeneração, como se Deus dissesse “eu estou neste momento te transformado”, e o homem replicasse “não, não, pare com isto”. Claro, bem sabemos que o homem não-regenerado é inimigo de Deus e a resistência às coisas de Deus é algo comum em sua vida. Porém a resistência natural deste homem às coisas de Deus é anterior ao momento em que a regeneração está sendo efetuada. Em outras palavras, não há resistência à obra regeneradora no momento em que ela está acontecendo; a resistência é anterior ao momento. A resistência é ao chamado externo, ou a pregação. Deus salva eficazmente, de uma forma tão gloriosa, que em momento algum a vontade do homem é violentada. Simplesmente há uma mudança no coração do homem. Deus, milagrosamente, transforma o coração de pedra, que é naturalmente indisposto a crer, em um coração de carne que é disposto a crer. Este milagre é maravilhosamente descrito pelo profeta Ezequiel.

E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis. E habitareis na terra que eu dei a vossos pais e vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus. (Ez 36:26-28)

Mas se mesmo depois de o arminiano ter lido esta argumentação, e continuar afirmando que a graça irresistível é inconsistente, visto que violenta a vontade humana, eu poderei também dizer que o arminianismo, com a sua incoerente regeneração parcial, também sofre do mesmo problema. No arminianismo, os homens são incapazes de crer, e por serem incapazes, Deus tem regenerado parcialmente os homens que são alcançados pelo evangelho, e faz isto sem considerar a escolha dos homens de quererem ser ou não regenerados parcialmente. Ora, como alguém foi transformado parcialmente sem nunca ter pedido tal transformação e mesmo assim não ser uma transformação que violenta a vontade da criatura? Se Deus não considerou a liberdade da criatura, foi na marra que Ele a regenerou parcialmente? A regeneração parcial é uma graça preparatória dada por Deus aos homens de uma forma que violenta a vontade desses homens?

E não fará sentido o arminiano dizer que Deus concedeu a regeneração aos homens, visto que estes escolheram recebê-la. Por que? Simples, no arminianismo é impossível escolher sem antes ser regenerado parcialmente. Os arminianos acreditam em livre-arbítrio libertário, isto é, um arbítrio que tornou-se livre após a ação da regeneração parcial.

Observação: Qualquer bom entendedor saberá que não estou dizendo que o arminianismo ensina uma regeneração parcial na marra. E eles podem até mesmo usar o nosso argumento acima para defender que não há violência nenhuma da parte de Deus sendo dirigida a vontade humana. Então, a minha questão é dizer que: se há incoerência com a graça irresistível, então há também com a regeneração parcial arminiana. 

2ª objeção: “A graça irresistível é falsa, pois a bíblia claramente ensina que muitos tem resistido a graça de Deus”.

Um versículo muito utilizado pelos arminianos na tentativa de sustentar esta objeção é Atos 7:25. Vejamos o texto: 

Atos 7:25 “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvidos, vós sempre  resistis ao Espírito Santo ; assim, vós sois como vossos pais”. 

Resposta: Primeiramente, levando em conta todo o contexto do versículo, o resistir ao Espírito Santo aqui é primeiramente uma referência aos Israelitas, que assim como os seus pais, que constantemente  rejeitavam os anúncios e ordens dos profetas do Antigo Testamento (que foram incumbidos por Deus de anunciarem o arrependimento, mediante os preceitos descritos na Lei), eles agora resistiam da mesma forma a ordem de arrependimento, dada pelos evangelistas e apóstolos, mediante a pregação do evangelho.

Em segundo lugar, para entendermos que o texto não ensina que a vontade de Deus pode ser frustrada pelo querer humano, se faz necessário expor os dois aspectos  da vontade de Deus, tais como: o “prescritivo e o decretivo”. O primeiro é uma referência aquilo que Deus quis que seriam os seus mandamentos; estes mandamentos são constantemente resistidos. O segundo é com referência ao plano eterno de Deus; aquilo que Ele soberanamente decidiu fazer ou decretar. Tendo então esta distinção em mente, entendemos que o problema aparente do versículo em questão é solucionado. Vejamos então o que a Escritura nos revela.

Na Bíblia vemos Deus decretando algo que Ele, em seus mandamentos, não ordena. Por exemplo, Ele de forma nenhuma, em seus mandamentos, ordenou Pilatos, Herodes, os Judeus e gentios, matarem à Cristo. Muito pelo contrário, Ele em seus mandamentos diz “não matarás” (Ex 20:13) Porém, sabemos que a mesma Escritura nos revela que Ele decretou a morte de Seu Filho juntando todos estes personagens “para fazerem tudo o que a Sua mão e conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (At 4:28). Ou seja, neste versículo fica claro que Deus decretou a morte de Cristo, e isto usando meios. E os meios são os próprios os homens os quais Ele ordena “não matarás”.

Em Ex 20:16 Deus, em seus mandamentos (aspecto prescritivo), condena de forma clara a mentira. Porém Ele mesmo enganou um profeta (aspecto decretivo) em determinada ocasião para o cumprimento de seus propósitos (Ez. 14:9,10). E também fez o mesmo com Acabe, quando pôs o espírito de mentira (aspecto decretivo) na boca dos profetas para enganá-lo, dizendo que ele (Acabe) venceria a batalha, sendo que isto jamais aconteceria (1 Rs 22:19-23).

Em Ex 4:21-23 o Senhor ordena que Faraó (aspecto prescritivo) deixe o povo de Israel ir. Mas no cap. 8:1 o Senhor diz que endurecerá o coração de Faraó (aspecto decretivo) para que não deixe ir o povo. Ou seja, Deus decretando algo que Ele nunca ordenou.

Cristo, em Mc 16:15, nos ordena pregar o evangelho a toda a criatura (aspecto prescritivo). Entretanto, nem sempre é de sua vontade que isto aconteça (Tg 4:15), como é o caso de Paulo e seus companheiros que foram impedidos, pelo Espírito Santo, de pregar o evangelho na Ásia e Bitínia (At 17:6,7).

A ordem de Deus (aspecto prescritivo), era que os irmãos de José deveriam amá-lo e não vendê-lo como escravo. Porém, o próprio José diz Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito” (Gn 45:8).

Existem vários outros textos na Bíblia que comprovam estas verdades. Mas creio que estes são suficientes para comprovar o que estamos defendendo.

Diante destes exemplos, e do claro ensino bíblico da vontade de Deus, entendemos então que o “resistir ao Espírito Santo” não quer dizer que Deus desejava salvar alguém e este alguém frustrou os Seus planos. O texto fala simplesmente do aspecto prescritivo da vontade de Deus que é “ordenar a todos os homens o arrependimento” (At 17:30). Isto é, Deus desejou que os profetas e apóstolos pregassem o arrependimento, o que não quer dizer que Deus queria o arrependimento dos que jamais se arrependeriam. O ato de resistir aos profetas significa resistir ao aspecto prescritivo da vontade de Deus; aspecto este que tinha como único objetivo ORDENAR O ARREPENDIMENTO. Em última instância, o que há no texto é um “resistir da ordem para se arrepender” e não um resistir “à vontade de Deus para salvar”. Há uma enorme diferença entre “Deus querer ordenar o arrependimento” e “querer salvar”. Na Bíblia, em certas ocasiões, a ordem de arrependimento feita por Deus através da Lei e do evangelho, tem a finalidade de endurecer ainda mais o réprobo (Is 6: 9-11, Mc 4:11,12, 2 Co 2:15-18).

Dito essas coisas, podemos então entender que os dois aspectos (prescritivo e decretivo) da vontade de Deus resolvem o dilema do texto em questão. Logo, os interpretes que insistem na ideia errada de que a vontade de Deus pode ser frustrada pelo querer humano, terão problemas com textos tais como: 

Bem sei eu que tudo podes, e NENHUM DOS TEUS PROPÓSITOS podem ser impedidos”. (Jó 42:2)

Para o arminiano, Deus tem um propósito, um desejo e um anseio pela salvação de todos os homens. E como Deus quer a salvação de todos, o Espírito Santo faz de tudo para convencer todos os homens. Porém, tais ensinos vão de encontro ao que Jó, inspirado pelo Espírito de Deus, afirmou aqui. O servo de Deus deixa claro que, se Deus tem um propósito ou um pensamento, Ele fará conforme o que pensou. Então, se Ele pensou em salvar, Ele de fato salvará. Mas como nem todos são salvos, conclui-se que Ele nunca pensou em salvar a todos.

O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará.” Isaías 14:24

Novamente a Escritura, através de Isaías afirma que o que Deus deseja e pensa, Ele faz. Os decretos divinos não estão sujeitos às ações dos homens como ensina o arminianismo. 

Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” Isaías 55:11 

Aqui a Escritura dá testemunho da eficácia da palavra de Deus, quando afirma que a mesma alcançará os resultados que Deus quer. Ora, se eu digo que por Deus ordenar o arrependimento de todos, Ele objetiva com isto a salvação de todos, logo tais objetivos não foram atingidos. Afinal, nem todos foram ou serão salvos. Entretanto, está claro que Deus faz toda a sua vontade, sendo assim, a graça salvífica ou irresistível não pode ser frustrada.

Eu anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; Eu digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10).

Mais uma vez fica evidente o fato de que Deus fará toda a sua vontade. Se Ele então tem a vontade de salvar a todos, logo todos serão salvos. Então, se insistirmos que é da vontade Dele a salvação de todos, estaremos dizendo que os propósitos de Deus foram derrubados pelo querer do homem. 

Conclusão

Penso então que se considerarmos tudo o que já foi escrito, não poderemos continuar crendo no ensino de que Deus pode desejar a salvação de alguém sendo que tal desejo não é concretizado. A graça irresistível é, portanto, uma graça triunfante; ela é a demostração de que Deus é soberano em regenerar os eleitos, objetivando com isto a salvação dos tais. Podemos então concluir dizendo que: a graça irresistível, de forma alguma, prega uma salvação na marra, apulso, ou que viola a vontade da criatura. Que a graça irresistível é a confirmação de que a vontade de Deus é, e sempre será realizada. E que até mesmo o aspecto prescritivo da vontade de Deus que é resistido, é resistido por que Deus em seu decreto assim o quer. De sorte que Deus continua e continuará soberano sobre todas as coisas.

Soli Deo Gloria

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Fonte: A suficiência das Escrituras
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9 linhas de argumento em favor do Princípio Regulador do Culto

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Por T. David Gordon


A - Argumento a partir dos Limites do Poder da Igreja (Bannerman defende bem este argumento)

Breve descrição do argumento: A igreja é uma instituição; instituída pelo mandamento positivo do Cristo ressuscitado, e autorizada por Ele a exigir obediência a Seus mandamentos e participação em Suas ordenanças. A Igreja não recebeu autoridade de exigir obediência a seus próprios mandamentos, e não recebeu qualquer autoridade para exigir participação em ordenanças fabricadas por ela. O Princípio Regulador do Governo Eclesiástico está por trás do Princípio Regulador do Culto.

Exemplos de textos relevantes – Mt 28.18-20; 2 Co 1.24; Rm 14.7-9

B. Argumento a partir da Liberdade de Consciência (Ed Clowney o defende bem)

Breve descrição do argumento: É pecado induzir o povo a agir de modo contrário ao que eles creem que é correto. Além disso, Deus exige de nós que O adoremos somente como Ele revelou. Portanto, exigir que uma pessoa, no culto corporativo, faça algo que Deus não exigiu força a pessoa a pecar contra sua consciência, ao fazê-la realizar o que ela não crê que Deus a chamou a praticar.

Exemplos de textos relevantes – Rm 14; 1 Co 8.4-13

C. Argumento a partir da Fé (John Owen apresenta convincentemente este argumento)

Breve descrição do argumento: Onde Deus não se revelou, nenhuma resposta de fé é possível, por definição. E, sem fé, é impossível agradar a Deus. Portanto, Deus não pode se agradar do culto que é infiel, isto é, o culto que não é uma resposta obediente à sua revelação.

Exemplos de textos relevantes – Rm 14.23; Hb 11.6 e todo o capítulo.

D. Argumento a partir da distância do Criador e da criatura (Calvino e Van Til caminham nesta direção em todos os seus escritos; e, curiosamente, Barth também)

Breve descrição do argumento: Os caminhos e pensamentos de Deus estão acima dos nossos como os céus estão acima da terra. O que nos faz pensar que podemos penetrar o que agradaria a Deus?

Exemplo de textos relevantes – Is 40.12-14; Dt 29.29; Is 55.9; Pv 25.2.

E. Argumento a partir do caráter de Deus como zeloso

Breve descrição do argumento: O caráter de Deus como Deus zeloso é apresentado em textos que proíbem certas coisas (criar imagens) no culto a Deus. Portanto, a proibição de criar imagens de escultura ou qualquer outra semelhança de algo no céu ou na terra fundamenta-se no caráter de Deus como Deus zeloso e, portanto, não fundamenta-se em alguma peculiaridade da aliança do Sinai.

Exemplos de textos relevantes – Ex 20.4-5; 34.14

F. Argumento a partir daquelas passagens onde a piedade é descrita como fazer exclusivamente o que Deus deseja

Breve descrição do argumento: Em muitas passagens, os ímpios são descritos não cumprindo o que é contraditório à vontade de Deus, mas o que está além de Sua vontade. Da mesma forma, os piedosos são descritos por seu temor diante da presença de Deus, ao fazer exclusivamente o que Deus deseja.

Exemplos de textos relevantes – Is 66.104; Dt 12.29-32; Lv 10.1-2; 1 Sm 13.8-15; 15.3-22

G. Argumento a partir da severidade dos castigos temporais infligidos sobre aqueles que oferecem a Deus culto diferente daquele que Ele prescreveu

Breve descrição do argumento: Há passagens em que as pessoas oferecem culto a Deus, em um desejo aparentemente bem-intencionado de agradá-lO, mas o fazem de alguma forma não prescrita por Deus, e Seu castigo sobre eles é severo.

Exemplo de textos relevantes – Lv 10.1-2; 1 Sm 13.8-15

H. Argumento a partir da tendência pecaminosa para a idolatria (Rm 1)

O argumento de Paulo em Romanos 1.19ss é que a raça humana, em sua revolta contra Deus, está “adorando e servindo a criatura em lugar do Criador”. Ademais, isso não se deve à ignorância, mas à corrupção moral: “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”. cf. Thomas E. Peck, Miscellanies, vol. I, p. 96-97: “O homem, portanto, é incompetente para imaginar modos de adoração porque ele não sabe que modos são mais bem adaptados para expressar a verdade ou as emoções que à verdade convém produzir”.

I. Argumento a partir da História da Igreja

Breve descrição do argumento: A história da igreja amplamente demonstra que criaturas caídas, deixadas a suas próprias maquinações, inevitavelmente produzem adoração que é ímpia. A Reforma em especial, como um movimento histórico, presta testemunho da corrupção que lentamente se infiltra no culto quando o culto não é regulado pela vontade revelada de Deus.

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Fonte: First Reformed Presbyterian Church of Cambridge
Tradução: Josaías Jr.
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Inaptos para decidir

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Por Renato César 


Todos aqueles que frequentam este blog e outros tantos que tratam da polêmica questão da existência do livre-arbítrio já se depararam com extensos argumentos em torno da liberdade humana para a salvação. Longe de querer estabelecer um fim a toda a discussão em volta do tema, desejo trazer à baila algumas observações que julgo relevantes para o entendimento da participação supostamente livre do indivíduo no ato de sua conversão. Meu intuito é refletir a respeito de um aspecto básico: como definir se alguém é espiritualmente capaz para decidir?

Salvo exceções, todos querem o melhor para si. Assim, qualquer ser humano mentalmente capaz e sadio que esteja diante de dois caminhos, sendo que um conduz à vida e o outro à morte, irá escolher, naturalmente, o melhor caminho para si, que é, obviamente, o caminho da vida. Assim, se um indivíduo escolhe a morte, devemos supor que ele atravessa um terrível quadro de depressão ou é tão louco quanto uma pessoa que rasga dinheiro, e não vemos loucos rasgando dinheiro com muita facilidade. É claro que, em casos extremos, alguns poderiam escolher o caminho da morte por convicções pessoais, mas neste caso estariam fazendo isso pelo enganoso convencimento de ser o melhor, e não o pior, e logo estariam sendo traídos pela razão, equiparando-se a loucos.

Enfim, o ser humano nasce com um instinto de autopreservação, que explica facilmente o medo que muitos tem da morte. Esse instinto está presente na natureza de cada pessoa, e é este mesmo instinto que irá motivar cada uma a buscar sempre o melhor para si: paz, conforto, saúde... e vida. Se isso é verdade, então temos que se alguém escolhe sofrer ou morrer está indo contra seus próprios instintos de sobrevivência.

Quando alguém rejeita o evangelho, o que este alguém está dizendo para Deus é algo como: “Olha, Senhor, a proposta de uma vida eterna plenamente feliz parece muito boa, mas eu prefiro meus poucos segundos aqui na Terra de aparente felicidade e autorrealização para depois passar a eternidade morta”. É claro que isso não faz o menor sentido. Logo, deve haver alguma justificativa minimamente razoável que explique a opção que alguém faz pela autodestruição. Ou este alguém é louco ou está muito doente.

Não à toa Jesus proferiu a parábola do homem rico de Lucas 12:16-20, que termina assim: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”. Somente um louco pensaria que o pouco tempo que tem neste mundo seria justificativa para viver uma vida materialista e esvaziada de valores espirituais. E é exatamente isso que a acontece! O homem parece louco por rejeitar a Deus e preferir os prazeres terrenos. Sua mente está terrivelmente doente, e por isso ele não consegue optar pelo que é obviamente bom nem consegue ver o que está evidente, e esta é, e sempre será, uma pedra no sapato dos libertaristas.

Os que advogam a plena liberdade humana, como um suposto estado de neutralidade entre o bem e o mal em que cada um se encontra ao escolher o que é melhor para si, precisam explicar como alguém em pleno juízo pode simplesmente optar por aquilo que lhe é desfavorável. Mas não pode haver qualquer explicação razoável a não ser que a visão e compreensão que este alguém tem das coisas espirituais esteja fatalmente prejudicada, do mesmo modo que não há como argumentar que alguém que quer se matar esteja em pleno estado de consciência quando o normal, natural e bíblico é preservar a si próprio. 

Somente a incapacidade espiritual para compreender a mensagem da cruz pode explicar a rejeição ao evangelho, pois qualquer um que entende realmente a dádiva da salvação jamais a rejeita, mas, ao contrário, humilha-se diante de seu Criador com um coração contrito e arrependido por reconhecer o estado de pecado no qual se encontra e perceber a maravilhosa graça manifesta na cruz do Calvário.

Os que acusam calvinistas de incoerentes ou antibíblicos precisam, no mínimo, explicar o que leva alguém a preferir o prazer fugaz desta vida em vez da alegria da vida eterna junto ao Rei dos reis. Afinal, é bem mais fácil aceitar que o Deus soberano e infinitamente mais sábio que nós humanos tenha eleito incondicionalmente apenas alguns para a salvação segundo Seu propósito do que concordar com a ideia de uma liberdade que conduz à morte, representando, incontestavelmente, uma incoerência com a lógica mais fundamental existente em torno do desejo de viver inerente ao ser humano.

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Fonte: Bereianos
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Sobre Pastores que são Políticos

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Por Thiago Oliveira


Eu não vou deixar de ser embaixador da pátria celestial para ser simplesmente presidente dos Estados Unidos”.

A frase acima é de Billy Grahan, pastor e evangelista bastante popular nos EUA. Foi uma resposta para aqueles que o convidavam a ingressar na carreira política e pretendiam lança-lo à presidência da república. Convicto do seu chamado como pastor, recusou veementemente. Todavia, não deixou de ser relevante para a sociedade norte-americana, tendo acesso a Casa Branca e sendo conselheiro de vários chefes de Estado.

No Brasil, em anos de eleição vemos a candidatura de diversos pastores, que se arvoram na carreira política com o discurso de ser “luz” e mudar os rumos da nação através do exercício do seu mandato. E como existe o chavão “irmão vota em irmão”, pastor, então, sai na frente. Mas seria mesmo algo bom para um pastor e para a igreja envolver-se com a política partidária? Será que um pastor pode ser político ao mesmo tempo em que exerce o ministério eclesiástico?

Diante de um questionamento parecido, o Rev. John MacArthur respondeu assim: "Se você é um pregador de Jesus Cristo e você é um pastor então deve ser conhecido por proclamar o evangelho de Jesus Cristo e nada mais. Então, se você quiser servir em algo que não tem qualquer influência na eternidade, não tem qualquer influência no Reino de Deus, então você pode fazer isso. Mas um pastor fazer isso eu acho que é se prostituir, distanciando-se da sua vocação e da única coisa que faz a diferença que é a pregação do evangelho de Jesus Cristo e o avanço do Reino. (...) A Igreja precisa ficar fora da politicagem e votar na justiça, e ela precisa proclamar o evangelho."

João Calvino, tratando sobre o governo eclesiástico em sua obra máxima, as Institutas (Volume 4, Capítulo XV), combateu veementemente as pretensões do clero. Calvino lembra da discussão que houve, durante a santa ceia, sobre quem era o maior dentre os apóstolos (Lc 22:24-26). Segundo ele, Jesus freia à aspiração dos discípulos dizendo-lhes que o Reino dele não era temporal, mas sim espiritual. Não pertencente a este mundo, sendo assim, deixou claro que a tarefa dos seus apóstolos não poderia envolver uma administração mundana (lembrando que nesse contexto os integrantes do clero eram também, em bom número, prefeitos das cidades e detentores de cargos públicos).

O reformador também recorda o exemplo contido em Atos 6: 1-4. Ali houve uma contenda quanto a distribuição dos alimentos. As viúvas dos gregos reclamavam que não estavam sendo assistidas como as viúvas dos hebreus. Quando a queixa chegou até os apóstolos estes disseram: “Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas”. Assim, incubiram outros homens para realizar tal tarefa. Calvino então chega à seguinte conclusão: Se os apóstolos não se acharam dignos de conciliar as duas funções, a de administrar à Palavra e a de administrar o serviço da distribuição dos mantimentos, como é que os que desempenham a função eclesiástica se acham no direito de realizar esta dupla empresa? O resultado desse duplo empreendimento é deixar a deriva o rebanho do Senhor, realizando o trabalho que outra pessoa poderia muito bem realizar.

A questão não é demonizar a política e desmotivar cristãos que tem vocação para a magistratura civil. O cristianismo é capaz de se inserir em toda e qualquer esfera da sociedade, julgá-la e redimi-la através do exercício dos valores bíblicos. Um cristão pode sim ser um político e prestar um grande serviço para Deus e para a sociedade. Todavia, não compete aos ministros da Palavra realizarem tal função, pois não há tarefa mais honrosa e mais impactante para a sociedade do que ministrar o Evangelho de Cristo e promover o Reino dos Céus.

Paulo escrevendo ao jovem pastor Timóteo, compara o episcopado com uma figura militar (2Tm 2:3-4). As palavras do apóstolo dizem que “ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra”. Um soldado em campanha é um soldado executando as ordens do seu superior. Pouco interessa se ele é agricultor, pintor, professor, ou empresário. Ele não pode pensar nos seus negócios particulares quando está prestando seus serviços militares. É preciso foco, obediência e sobretudo uma entrega total e sacrificial.

Assim como o soldado em guerra deixa para trás a sua vida e não pensa em nada a não ser a guerra, o pastor também deve evitar tudo aquilo que desvie a sua atenção e mergulhe de cabeça no penoso, e ao mesmo tempo gratificante, ofício ministerial. Sendo assim, é fácil concluirmos que um pastor que tem vocação dupla está muito mais propenso a ter um desempenho ruim no seu episcopado. Imaginemos então ele exercendo um cargo político, seja no legislativo ou no executivo. Ele daria conta?

Governar uma cidade, um estado, um país, é algo que exige muito de qualquer pessoa. É desgastante ter que passar o dia fazendo diversas reuniões de planejamento, viagens com a mais diversificada finalidade e etc. Gerir a coisa pública não é o mesmo que gerir uma empresa. E temos já exemplos negativos dos pastores empresários. Isso posto, deixo bastante clara a posição de que o pastor não pode exercer cargo político. Se quer abraçar a carreira política, que abra mão do seu ministério e deixe de usar indevidamente o título de pastor.

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Fonte: Bereianos
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