Uma carta aberta aos pastores - sobre o casamento gay nos EUA

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A Suprema Corte neste país [EUA] promulgou seu julgamento. As manchetes informam que um pouco mais da metade dos juízes da Suprema Corte consideram a liberdade de orientação sexual, um direito para todos os americanos. Esta troca de valores não aparece como uma surpresa para nós. Já sabemos que o deus deste século cega as mentes daqueles que não acreditam (2 Cor. 4:4). O dia 26 de junho de 2015 fica como um marco americano de demonstração desta antiga realidade.


Nos próximos dias, irão esperar de você, como um pastor, que forneça comentários sensatos e conforto para o seu rebanho. Este é um momento crítico para os pastores, e surge como um lembrete de que uma formação adequada é crucial para um pastor. Estou escrevendo esta mensagem curta como de um pastor para outro. Os meios de comunicação estão cheios de atualizações, e eu não preciso juntar a minha voz nessa briga. Em vez disso, eu quero ajudá-lo a pastorear sua igreja nesse momento confuso. Além dos artigos úteis no blog Preaching and Preachers, eu também quero transmitir os pensamentos abaixo que, creio eu, vão ajudar a enquadrar a questão de uma maneira bíblica.

1 – Nenhum tribunal humano tem a autoridade de redefinir o casamento, e o veredicto de ontem não muda a realidade do casamento que foi ordenado por Deus. Deus não foi derrotado nesta decisão, e todos os casamentos serão julgados de acordo com fundamentos bíblicos no Ultimo Dia. Nada irá prevalecer contra Ele (Provérbios 21:30) e nada vai impedir o avanço de Seu Reino (Dan 4:35).

2 – A Palavra de Deus pronunciou seu julgamento sobre toda nação que redefiniu o mal como o bem, a escuridão como a luz, e o amargo como o doce (Isaías 5:20). Como uma nação, os EUA continuam a colocar-se na mira do julgamento. Como proclamador da verdade, você é responsável por nunca comprometer estas questões. De todas as maneiras, você deve se manter firme.

3 – Esta decisão prova que estamos claramente em minoria, e que somos um povo separado (1 Pedro 2: 9-11; Tito 2:14). Como escrevi no livro “Why Government Can’t Save You”, as normas que moldaram a cultura ocidental e a sociedade americana deram lugar ao ateísmo prático e ao relativismo moral. Esta decisão simplesmente acelerou a taxa de declínio dos mesmos. A moralidade de um país nunca vai ser mais alta que a moralidade de seus cidadãos, e sabemos que a maioria dos americanos não têm uma cosmovisão bíblica.

4 – A liberdade religiosa não é prometida na Bíblia. Na América, a Igreja de Jesus Cristo tem desfrutado de uma liberdade sem precedentes. Isso está mudando, e a nova norma pode, na verdade, incluir a perseguição (o que será algo novo para nós). Nunca houve um momento mais importante para homens talentosos ajudarem a liderar a igreja ao lidar, de forma competente, com a espada do Espírito (Efésios 6:17).

5 – O casamento não é o campo de batalha final, e os nossos inimigos não são os homens e mulheres que procuram destruí-lo (2 Coríntios 10:4). O campo de batalha é o Evangelho. Tenha cuidado para não substituir a paciência, o amor e a oração por amargura, ódio, e política. A medida que você guiar cuidadosamente seu rebanho afastando-o das armadilhas perigosas que aparecem à frente, lembre-os do imenso poder do perdão por meio da cruz de Cristo.

6 – Romanos 1 identifica claramente a evidência da ira de Deus sobre uma nação: a imoralidade sexual seguida da imoralidade homossexual culminando em uma disposição mental reprovável. Esta etapa mais recente nos lembra que a ira de Deus veio na íntegra. Vemos agora mentes reprováveis em todos os níveis de liderança – no Supremo Tribunal Federal, na Presidência, nos gabinetes, na legislatura, na imprensa e cultura. Se o diagnóstico da nossa sociedade está de acordo com Romanos 1, então, também devemos seguir a receita encontrada em Romanos 1 – não devemos nos envergonhar do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação! Neste dia, é nosso dever divino fortalecer a igreja, as famílias, e testemunhar o evangelho ao tirar os absurdos pragmáticos que distraem a igreja de sua missão ordenada por Deus. Homossexuais (como todos os outros pecadores) necessitam ser avisados do juízo eterno iminente e precisam ter o perdão, a graça e a nova vida, amorosamente oferecidos através do arrependimento e da fé no Senhor Jesus Cristo.

Em última análise, a maior contribuição ao seu povo será a de mostrar paciência e uma confiança inabalável na soberania de Deus, no Senhorio de Jesus Cristo, e na autoridade das Escrituras. Mire seus olhos no Salvador, e lembre-os de que quando Ele voltar, tudo será corrigido.

Estamos orando para que você proclame firmemente a verdade, e que se posicione de maneira inabalável em Cristo.

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Autor: John MacArthur
Fonte: The Master's Seminary
Tradução: Olhai e Vivei
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O Misticismo

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Por John MacArthur


Misticismo é a crença de que a realidade espiritual é perceptível fora da esfera do intelecto humano e dos sentidos naturais. Ele busca a verdade internamente, valorizando os sentimentos, a intuição, e outras sensações interiores, mais do que os dados externos, objetivos e observáveis.

O misticismo, em última análise, fundamenta sua autoridade em uma luz auto autenticada e auto efetivada, vinda do interior da pessoa. Sua fonte de verdade é o sentimento espontâneo e não o fato objetivo. As formas mais complexas e extremas de misticismo são encontradas no hinduísmo e em seu reflexo ocidental, a filosofia da Nova Era. 

Assim, um misticismo irracional e anti-intelectual, que é a antítese da teologia cristã, tem se infiltrado na igreja. Em muitos casos, os sentimentos individuais e a experiência pessoal têm tomado o lugar da sã interpretação Bíblica. A questão “o que a Bíblia significa para mim?” Tem se tornado mais importante do que “o que a Bíblia significa?” 

Trata-se de uma abordagem das Escrituras que é terrivelmente imprudente. Ela mina a integridade e a autoridade bíblicas, sugerindo que a experiência pessoal deve ser buscada mais do que uma compreensão das Escrituras. Com frequência, ela considera a "revelação" particular e as opiniões pessoais iguais à verdade eterna da inspirada Palavra de Deus. Portanto, deixa de honrar a Deus e, em lugar disso, exalta o homem. E, o pior de tudo, pode — e geralmente o faz — levar à horrenda ilusão de que o erro é a verdade. Exageradas formas de misticismo têm florescido em décadas recentes, oferecidas por fornecedores que fazem da mídia religiosa a sua plataforma. Os shows televisados, apresentando bate-papos, têm sido vitrines de quase todas as extravagantes interpretações teológicas que podemos imaginar, feitas por pessoas descuidadas e sem instrução — indo desde os que reivindicam terem viajado para o céu, e voltado, até os que enganam seus telespectadores com novas verdades, supostamente reveladas por Deus a eles, em secreto. 

Esse tipo de misticismo tem produzido várias aberrações, incluindo o movimento de sinais e maravilhas e um falso evangelho, que promete saúde, riqueza e prosperidade. Trata-se de mais uma evidência de que o avivamento gnóstico está assolando a igreja e minando a fé na suficiência de Cristo. 

Diante do tamanho da igreja contemporânea, o neo-gnosticismo de hoje constitui uma ameaça de muito maior alcance que seu predecessor do primeiro século. Além do mais, os líderes da igreja primitiva estavam unidos em oposição à heresia gnóstica. Infelizmente, isto não acontece em nossos dias. 

O que pode ser feito? Ao apontar a suficiência de Cristo Paulo confrontou o gnosticismo (Cl 2.10). Ainda hoje, essa continua sendo a resposta.

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Fonte: Nossa Suficiência em Cristo, John MacArthur. Editora Fiel. 
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O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 3/3



por John MacArthur


Evangelicalismo? Dificilmente

Claramente, Brown, Pinnock, Greg Boyd e a maioria dos principais defensores do novo modelo do teísmo relacional querem ser aceitos como evangélicos. Próximo do fim de seu artigo, Brow pergunta em voz alta se o novo modelo de pensamento tem lugar debaixo do guarda-chuva evangélico. Mas ele fornece um quadro mais útil das boas-novas de Deus ou é um “outro evangelho”?

As gerações mais antigas de evangélicos teriam respondido essa questão sem hesitação, declarando que a mensagem do teísmo relacional é “outro evangelho” (Gl 1.8, 9). Além disso, seria exatamente assim que eles teriam respondido se socinianos, unitaristas, liberais e vários outros mascates de novas teologias tivessem feito o mesmo desafio ao “velho modelo”.

Infelizmente, o principal segmento dessa geração de evangélicos parece carecer da vontade ou do conhecimento de decidir se os teístas relacionais são lobos em pele de cordeiro ou se são verdadeiros reformadores. Mas deve ser claramente afirmado: por qualquer definição de evangelicalismo com integridade histórica, o teísmo relacional se opõe ao próprio núcleo de verdades que os evangélicos representam. Portanto, por qualquer definição bíblica, eles são hereges, pregadores de um evangelho diferente. Essas duas acusações são substanciadas pelo abandono da expiação substitutiva por parte do teísmo relacional.

De fato, a única diferença significativa entre os teístas relacionais de hoje e os socinianos de tempos passados é que os socinianos negavam a divindade de Cristo, o que os teístas relacionais ostensivamente não fazem. Por outro lado, os teístas relacionais negam a divindade do próprio Deus, humanizando-o e tentando reconciliá-lo com os modernos padrões de correção política.

Em “Evangelical Megashift”, Robert Brow alega que “a influência do vento [a teologia do novo modelo] chega inesperadamente através de cada fenda quando nós lemos As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis”. Lewis não era um teólogo, e não há dúvida de que suas posições foram atenuadas no que diz respeito às penas eternas. Ele afirmava outras posições que causavam arrepios no velho modelo evangélico, mas seria espantoso se ele realmente tivesse simpatia pela posição dos teístas relacionais sobre uma divindade domesticada e diminuída.

Nas Crônicas de Nárnia, Aslan, o feroz e amoroso leão, representa Cristo. Suas garras são espantosamente terríveis, cortam como facas quando as unhas estão à mostra, mas são macias e aveludadas quando as unhas estão encolhidas. Ele é tanto bom quanto temível. Quando as crianças do conto de Lewis olharam para ele, elas “começaram a tremer”. Sr. Castor diz sobre ele: “Ele é selvagem, vocês sabem. Ele não é um leão domesticado”. E Lewis, como narrador, observa: “As pessoas que não estiveram em Nárnia talvez pensem que uma coisa não possa ser boa e má ao mesmo tempo”.

Esse mesmo falso pressuposto básico foi o ponto inicial da heresia do teísmo relacional. Os teólogos do novo modelo partiram do pressuposto de que Deus não podia ser bom e terrível ao mesmo tempo e, a partir daí, começaram a despir Deus daqueles atributos de que eles não gostavam. Assim como os socinianos e os liberais que os precederam, os teístas relacionais procuram orientar a questão de forma a fazer com que Deus seja “bom” de acordo com uma definição humanista, terrena, de “bom”. Eles estão inventando um deus de sua própria autoria.

No livro final da série Crônicas de Nárnia, um macaco ímpio coloca uma pele de leão sobre um asno e finge que ele é Aslan. Essa é uma sinistra e perigosa pretensão, e no fim ela conduz à perdição de incontáveis narnianos. O deus do teísmo relacional é como um asno com pele de leão, e está afastando muitas pessoas do glorioso Deus das Escrituras. Deus é bom e temível. Sua ira é tão real quanto seu amor. Ele é aquele que “guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado” (Êx 34.7) sem satisfazer sua própria justiça e sua ira.

Os verdadeiros evangélicos nunca abandonam essas verdades, e aqueles que não podem digerir Deus da forma em que ele se revelou não têm o direito de rotular-se de “evangélicos”. Essas são questões pelas quais vale a pena lutar, como provam tanto a história da Igreja quanto as Escrituras. O surgimento do teísmo relacional é uma grave ameaça à causa do verdadeiro evangelho. Deus pode levantar uma nova geração de guerreiros evangélicos com coragem e convicção para lutar pela verdade da expiação substitutiva.


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Fonte: Eu não sei mais em quem eu tenho crido / Douglas Wilson (org.) - São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Págs. 92-93

Leia também: 
O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 1/3
O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 2/3
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O Ataque dos Teístas Relacionais à Expiação - 2/3



por John MacArthur


A doutrina bíblica da expiação substitutiva


Na cruz, Deus fez de Cristo uma propiciação – uma satisfação da ira divina contra o pecado (Rm 3.25). O sacrifício que Cristo ofereceu foi um pagamento da penalidade pelo pecado, penalidade que foi estabelecida por Deus. Cristo ofereceu a si mesmo sobre a cruz a Deus. Ele “nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.2, itálico acrescentado). Sua morte foi um sacrifício oferecido para saciar a justiça de Deus. Essa foi a única forma pela qual Deus podia continuar sendo justo enquanto justificava os pecadores (Rm 3.26). Essa foi a única forma pela qual ele podia perdoar o pecado sem comprometer sua própria justiça e santidade. 

A Escritura expressamente ensina isso. Cristo morreu em nosso lugar e em nosso favor. Cristo se ofereceu “uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos” (Hb 9.28). Ele “carregou em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1Pe 2.24), e, quando foi pregado sobre a cruz, ele sofreu a plena ira de Deus em nosso favor. “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.4, 5). “O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos
” (Is 53.6). “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gl 3.13). Esses são princípios estabelecidos no sistema sacrificial do Antigo Testamento, e não conceitos extraídos dos paradigmas legais grego e romano, como os teístas relacionais tanto alegam.  

Foi Deus quem decretou e orquestrou os eventos da crucificação. Atos 2.23 diz que Cristo foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus”. A mão e o conselho de Deus determinaram cada faceta do sofrimento de Cristo (At 4.28). De acordo com Isaías 53.10, “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”. Esse mesmo versículo diz que o Senhor fez de seu Servo uma “oferta pelo pecado”. Em outras palavras, Deus puniu Cristo pelo pecado sobre a cruz, e, portanto, fez dele uma oferta pelo pecado. Toda a ira e vingança do Todo-Poderoso ofendido foi colocada sobre ele, e ele se tornou o Cordeiro sacrificial que carrega os pecados de seu povo. 

Essa é a essência do livro de Hebreus. “É impossível que o sangue de carneiros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). O verso 10 diz: “Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas”. Muito claramente esses versos estão ensinando que Cristo foi sacrificado como uma expiação sangrenta para cumprir as exigências da justiça de Deus. Não é de se espantar que muitos achem chocante essa verdade. Ela é chocante. E ela é profunda. Ela deve nos colocar prostrados diante de Deus. Qualquer “novo modelo” que diminua ou negue a verdade do sofrimento vicário de Cristo nas mãos do próprio Deus é um “modelo” seriamente defeituoso.

O que você pensa quando pondera a morte de Cristo sobre a cruz? O teísmo relacional reafirma a velha mentira liberal de que ele foi basicamente um mártir, uma vítima da humanidade – entregue à morte nas mãos de homens maus. Mas a Escritura diz que ele era o Cordeiro de Deus, uma Vítima da ira divina. 

O que fez com que as misérias de Cristo sobre a cruz fossem tão difíceis de suportar não foi o escárnio, nem a tortura, nem o abuso dos homens maus, foi o fato de que ele levou sobre si todo o peso da fúria divina contra o pecado. Os sofrimentos mais dolorosos de Jesus foram não somente aqueles infligidos pelos cravos, pregos e espinhos, a mais excruciante agonia que Cristo suportou foi a plena penalidade pelo pecado em nosso favor – a ira de Deus derramada sobre ele em medida infinita. Lembre-se de que quando ele, finalmente, clamou em agonia, foi por causa das aflições que ele recebeu da própria mão de Deus: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34). Nós não podemos sequer começar a saber o que ele sofreu.

Essa é uma terrível realidade a ser ponderada. Mas nós temos coragem para não seguir os teístas relacionais na rejeição da noção de que ele suportou a punição de seu Pai por causa de nossos pecados, pois nessa verdade está a própria espinha dorsal do genuíno Cristianismo. Essa é a principal razão pela qual a cruz é uma ofensa (cf. 1Co 1.18). 

A Escritura diz: “[Deus] o [Cristo] fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21). Nossos pecados foram imputados a Cristo, e ele suportou o preço cruel de ser nosso substituto. Da mesma forma, sua justiça foi imputada a todos os que crêem, e esses crentes ficam diante de Deus plenamente justificados, vestidos com as puras vestes brancas da perfeita justiça de Deus. Em outras palavras, esse é o sentido do que aconteceu na cruz para cada crente: Deus tratou Cristo como se ele tivesse vivido nossa vida pecaminosa, de forma que ele possa nos tratar como se nós tivéssemos vivido a vida perfeita e imaculada de Cristo. 

Negue a natureza vicária da expiação – negue que nossa culpa foi transferida a Cristo e que ele suportou a penalidade correspondente a ela – e você terá negado o próprio fundamento de nossa justificação. Se nossa culpa não foi transferida a Cristo e paga na cruz, como a justiça de Cristo pode ser imputada a nós para nossa justificação? Toda visão deficiente da expiação tem que lidar com esse problema, e, infelizmente, aqueles que compreendem equivocadamente o sentido da expiação, invariavelmente, acabam proclamando um evangelho diferente, um evangelho que nega o princípio da justificação pela fé. 


A luta pela expiação

A expiação é um tema teológico que tem sido debatido desde que Anselmo de Canterbury (1033-1109) começou a focalizar a clara luz da Escritura sobre esse tão negligenciado e geralmente mal compreendido aspecto da redenção. A Igreja primitiva, consumida por controvérsias sobre a Pessoa de Cristo e a natureza da Divindade, mais ou menos tomou por certa a doutrina da expiação. Ela raramente era um assunto de debate ou análise sistemática nos escritos da Igreja primitiva, mas, quando os Pais da Igreja escreveram sobre a expiação, eles empregaram a terminologia bíblica sobre resgate e propiciação. 

Poucos argumentam que os Pais da Igreja tinham uma compreensão bem formada da expiação como uma substituição penal, mas Augustus Hodge salientou que a idéia de expiação vicária estava mais ou menos implícita em sua compreensão, exatamente como se ela fosse “geralmente deixada em um alto grau como pano de fundo e misturada confusamente com outros elementos da verdade ou da superstição”. Especificamente, alguns dos Pais da Igreja pareciam confusos sobre a natureza do resgate pago por Cristo – especialmente sobre a questão de a quem esse resgate era devido. Alguns deles pareciam pensar que esse resgate foi pago a Satanás, como se Cristo tivesse pago uma taxa ao demônio para libertar os pecadores. Essa posição geralmente é chamada de teoria do resgate da expiação.

Contudo, de acordo com Hodge, “com poucas exceções, toda a Igreja, desde o começo, tem afirmado a doutrina da redenção no sentido de uma propiciação literal de Deus através da expiação do pecado”. Certos comentários sobre o resgate de Cristo, feitos pelos Pais da Igreja, não deveriam ser admitidos como afirmações doutrinárias estudadas e conscientes, mas como expressões infantis de uma deformada e inadequada doutrina da expiação. Philip Schaff, comentando sobre a falta de clareza sobre a expiação nos escritos da Igreja primitiva, diz:

“Os mestres da Igreja primitiva viviam mais em grata alegria da redenção do que em reflexão lógica sobre ela. Nós percebemos em suas exibições desse abençoado ministério a linguagem de um sentimento entusiástico em vez da linguagem de uma análise aguda e de definições cuidadosas”. Contudo, Schaff acrescenta: “Todos os elementos essenciais da posterior doutrina da redenção podem ser encontrados, de forma expressa ou implícita, antes do fim do século 2º” 

Até Anselmo, nenhum teólogo de ponta tinha gasto realmente muita energia na sistematização da doutrina bíblica da expiação. Anselmo escreveu sobre esse assunto a obra Cur Deus Homo? [Por que Deus se Tornou Homem?], oferecendo evidência bíblica de que a expiação não foi um resgate pago por Deus ao demônio, mas um débito pago a Deus em favor dos pecadores, uma satisfação da justiça divina. A obra de Anselmo sobre a expiação lançou os fundamentos para a Reforma Protestante e se tornou o próprio coração da teologia evangélica. A articulação da doutrina de Anselmo, conhecida como teoria da substituição penal, há muito tempo tem sido considerada um aspecto essencial de toda doutrina verdadeiramente evangélica. Historicamente, todos aqueles que abandonaram essa posição passaram a integrar movimentos fora do evangelicalismo.

Um contemporâneo próximo de Anselmo, Pedro Abelardo, respondeu com uma posição sobre a expiação que é virtualmente a mesma posição mantida por alguns dos principais teístas relacionais modernos. De acordo com Abelardo, a justiça de Deus é submissa ao seu amor. Ele não exige pagamento pelo pecado. Em vez disso, o valor redentivo da morte de Cristo consistiu no poder do exemplo amoroso que ele deixou para que os pecadores seguissem. Essa posição é geralmente chamada de teoria da influência moral da expiação. A posição de Abelardo foi posteriormente adotada e refinada pelos socinianos do século 16 (como discutido acima).

Claro, como acontece com a maioria das heresias, há um pedacinho de verdade na teoria da influência moral. A obra expiatória de Cristo é a expressão consumada do amor de Deus (1Jo 4.9, 10). Ela também é um motivo para o amor do crente (1Jo 4.7, 8, 11), mas o grande problema com a abordagem de Abelardo é que ele fez da expiação nada mais que um exemplo. Se Abelardo estivesse certo, a obra de Cristo na cruz nada realizaria de objetivo em favor dos pecadores – pois não haveria o aspecto de propiciação real na morte de Cristo. Isso faz com que a redenção do pecador seja essencialmente nossa responsabilidade. Os pecadores são “redimidos” por seguirem o exemplo de Cristo. A “salvação” é reduzida a uma reforma moral motivada pelo amor. Trata-se de uma forma de salvação pelas obras.

A posição de Abelardo sobre a expiação é a doutrina que está no núcleo da teologia liberal. Como toda forma de salvação pelas obras, ela é um evangelho diferente daquele apresentado como boas-novas na Escritura.

Uma terceira posição sobre a expiação foi inventada por Hugo Grotius (1583- 1645) durante a controvérsia arminiana na Holanda. Conhecida como a teoria governamental da expiação, essa posição é uma espécie de meio-termo entre Abelardo e Anselmo. De acordo com Grotius, a morte de Cristo foi uma demonstração da justiça de Deus, mas não um pagamento real em favor dos pecadores. Em outras palavras, a cruz mostra com o que se pareceria a punição pelo pecado se Deus o tratasse como merece, mas nenhum pagamento vicário do débito dos pecados foi feito por Cristo.

Grotius, assim como Abelardo e os socinianos, cria que Deus pode perdoar pecados sem qualquer tipo de pagamento, mas dizia que a dignidade e autoridade da lei de Deus ainda precisavam ser afirmadas. O pecado é um desafio ao direito que Deus tem de governar. Se Deus simplesmente negligenciasse o pecado, ele estaria abrindo mão de seu direito moral de governar o universo. Dessa forma, a morte de Cristo foi necessária para manter sua autoridade como governante, pois ela provou sua prontidão e seu direito de punir, muito embora ele renuncie às reivindicações de sua justiça contra pecadores arrependidos. A morte de Cristo, portanto, não foi uma substituição pela punição merecida por alguma outra pessoa, mas simplesmente um exemplo público da autoridade moral de Deus e de sua aversão ao pecado.

Em outras palavras, diferentemente de Abelardo, Grotius viu que a morte de Cristo revelou tanto a ira quanto o amor de Deus. Como Abelardo, contudo, Grotius cria que a expiação foi exemplar, e não substitutiva. Cristo realmente não sofreu no lugar de qualquer outra pessoa. A expiação não teve uma realidade objetiva em favor dos pecadores, ela foi somente um gesto simbólico. A morte de Cristo foi somente um exemplo e a redenção, portanto, depende completamente de algo que o pecador precisa fazer. Dessa forma, a teoria governamental também resulta inevitavelmente em salvação pelas obras.

O novo modelo teísta relacional parece vacilar entre duas opiniões erradas, às vezes ecoando o governamentalismo de Grotius, às vezes ecoando suspeitosamente a teoria de Abelardo, mas uma coisa sobre a qual todos os teístas relacionais concordam é esta: Anselmo e a posição da substituição penal da expiação são obsoletos, parte de um modelo ultrapassado que eles mal podem esperar para que o movimento evangélico jogue fora.

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Continua nos próximos dias...

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Fonte: Eu não sei mais em quem eu tenho crido / Douglas Wilson (org.) - São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Págs. 87-91

Leia também: 

O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 1/3
O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 3/3 (em breve)
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O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 1/3

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Por John MacArthur


Há mais de uma década, um artigo controvertido em Christianity Today anunciou o surgimento do teísmo relacional. O artigo “Evangelical Megashift” foi escrito por Robert Brown, um proeminente teólogo canadense. Brown descreveu uma mudança radical no horizonte evangélico – uma “mega mudança” em direção a um “novo modelo” de pensamento, distanciado do teísmo clássico (que Brown rotulou de “velho modelo” teológico). O que o artigo destacava era o movimento que hoje é conhecido como visão “relacional” de Deus, ou“teísmo relacional”. 

Embora o próprio Brown seja um defensor do teísmo relacional, seu artigo de 1990 nem exaltou nem condenou essa mega mudança. Nele, Brown procurou apenas descrever como a nova teologia era radicalmente diferente do conceito evangélico de Deus, propondo novas explicações para conceitos bíblicos como ira divina, justiça divina, julgamento e expiação – e assim por diante, sobre cada aspecto da teologia evangélica. 

A questão de uma Divindade manipulável 

O artigo de Brown retratou o novo modelo teológico em termos benevolentes. Ele viu o movimento como uma tentativa de remodelar algumas das mais difíceis verdades da Escritura, empregando paradigmas mais amigáveis para explicar Deus. 

De acordo com Brown, o velho modelo teológico coloca Deus sob uma luz severa. No evangelicalismo do velho modelo, Deus é um magistrado rigoroso cujo julgamento é um veredito cruel e inflexível. O pecado é uma ofensa contra sua lei divina; a ira de Deus é a fúria de um soberano indignado, é uma retribuição sem alento pelo pecado; e a expiação pode ser adquirida somente se o pagamento total pela penalidade judicial do pecado for feito.

No novo modelo teológico, contudo, o modelo de Deus como magistrado é colocado de lado em favor de um modelo mais congênito – o modelo de Deus como um Pai amoroso. Os pensadores do novo modelo querem eliminar as conotações negativas associadas com as difíceis verdades bíblicas, tais como a ira divina e a justa retribuição de Deus contra o pecado. Dessa forma, eles simplesmente redefinem esses conceitos utilizando modelos que evocam “a ternura de um relacionamento familiar”. Por exemplo, eles sugerem que a ira divina nada mais é que um tipo de desprazer paterno que inevitavelmente faz com que Deus nos dê encorajamentos amorosos. Deus é um “juiz” somente no sentido dos juízes do Antigo Testamento (como Débora, Gideão ou Samuel) – significando que ele é um defensor de seu povo, e não uma autoridade que move um julgamento contra ele. O pecado é simplesmente um “mau comportamento” que rompe a comunhão com Deus, e a solução para ele é sempre correção, nunca retribuição. Nem mesmo o inferno é realmente uma punição, mas a maior expressão da liberdade dos pecadores, porque, de acordo com o pensamento do novo modelo, “a destinação ao inferno não é uma sentença judicial”– de forma que, se alguém vai para lá, é puramente por escolha própria. 

Foram-se todos os vestígios da severidade divina. Deus foi diminuído e domesticado. De acordo com o novo modelo teológico, Deus não deve ser pensado como justamente indignado contra a desobediência de suas criaturas. Aliás, o artigo de Brown tinha um subtítulo: “Por que você pode não ter ouvido sobre ira, pecado e inferno recentemente”. Ele caracterizou o Deus do novo modelo teológico como uma divindade mais gentil, amorosa e amigável. 

Além disso, um dos principais objetivos da mega mudança promovida pelo teísmo relacional parece ser eliminar completamente o temor do Senhor. De acordo com Brown, “ninguém negaria que é mais fácil se relacionar com um Deus percebido como mais gentil e amoroso”. 

Logicamente, o Deus do velho modelo teológico também é incessantemente gracioso, misericordioso e amoroso (um fato que não poderia ser percebido na grosseira caricatura que os defensores do novo modelo pintam quando descrevem “o velho modelo da ortodoxia”). Mas os teólogos do velho modelo ensinam que há mais no caráter de Deus do que beneficência. Deus também é santo, justo e irado contra os ímpios todos os dias (Sl 7.11). Ele é ardente em sua indignação contra o pecado (cf. Sl 78.49; Is 13.9-13; Sf 3.8). O temor do Senhor é a própria essência da verdadeira sabedoria (Jo 28.28; Sl 110.10; Pv 1.7; 9.10; 15.33). O “temor do Senhor” é até mesmo motivo para o evangelismo (2Co 5.11). “Nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.29; cf. Dt 4.24) e “terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31). 

Contudo, os teístas relacionais estão determinados a eliminar ou deixar de explicar toda característica do caráter de Deus exceto aquelas que são instantaneamente “percebidas como gentis e amorosas”. Eles não querem se comprometer com um Deus que exige ser temido. Sua teologia tem o objetivo de construir uma divindade manipulável, um deus com o qual “é mais fácil se relacionar” – um ser semi-divino que foi despido de todas as características da glória e da majestade divina que possam provocar qualquer temor ou medo na criatura. Eles o transformaram em um gentil e inofensivo criado celestial.

Redefinindo a expiação 

Acima de tudo, o deus do novo modelo nunca exige qualquer pagamento pelo pecado como uma condição para o perdão. De acordo com o novo modelo, se Cristo sofreu por nossos pecados, foi somente no sentido de que ele “absorveu nosso pecado e suas consequências” – certamente não que ele tenha recebido qualquer punição imposta por Deus em nosso lugar na cruz. Ele simplesmente tornou-se participante conosco no problema humano de dor e sofrimento (afinal, a “dor e o sofrimento” terrenos são exatamente as piores consequências do pecado que os teólogos do novo modelo podem imaginar). 

O ponto mais perturbador no artigo de Robert Brown é uma observação dispensável quase incidental já perto do fim, na qual ele afirma que, de acordo com a teologia do novo modelo, “a cruz não foi um pagamento judicial”, mas simplesmente uma expressão visível, espaço-temporal, de como Cristo sempre sofreu por causa de nosso pecado. Em outras palavras, de acordo com o novo modelo teológico, a obra expiatória de Cristo não foi verdadeiramente substitutiva; ele não fez um pagamento de resgate pelo pecado; nenhuma culpa foi imputada a ele; Deus não o puniu como um substituto pelos pecadores. Nada de seu sofrimento na cruz foi administrado por Deus. Em vez disso, de acordo com o novo modelo, expiação significa que nossos pecados são simplesmente “perdoados” pelo simples exercício da tolerância amorosa de Deus; nosso relacionamento com Deus é normalizado; e Cristo “absorveu as consequências” de nosso perdão (o que provavelmente significa que ele sofreu a indignidade e vergonha que acompanham a resignação à ofensa). 

Então o que significa a cruz, de acordo com os teólogos do novo modelo? Muitos deles dizem que a morte de Cristo foi nada mais que uma exposição pública das terríveis consequências do pecado – de forma que, oferecendo seu sangue para satisfazer a justiça de Deus, Cristo estava apenas demonstrando os efeitos do pecado para cumprir uma percepção pública de justiça. Outros teólogos do novo modelo vão ainda mais além, virtualmente negando a necessidade de qualquer tipo de resgate pelo pecado. Além disso, todo o conceito de um pagamento para expiar a culpa do pecado é um non sense se os teístas relacionais estiverem certos. 


Dessa forma, os teólogos do novo modelo modificaram drasticamente a doutrina da expiação de Cristo, e nesse processo eles formaram um sistema que em nenhum sentido é verdadeiramente evangélico, mas é um repúdio do núcleo da singularidade do evangelho. Realmente não é exagerado dizer que sua doutrina rala e franzina da expiação oblitera o verdadeiro significado da cruz. De acordo com o teísmo relacional, a cruz é simplesmente uma prova demonstrativa da “espontaneidade para sofrer” que Cristo tinha – e, nessa visão aguada da expiação, ele sofre juntamente com o pecador, e não no lugar do pecador. 

É minha convicção que esse erro é a raiz de uma árvore doente que nunca poderá gerar frutos (cf. Mt 7.18-20; Lc 6.43). A história da Igreja está cheia de exemplos daqueles que rejeitaram a natureza vicária da expiação de Cristo e, portanto, naufragaram na fé. 

A redução sociniana 

De fato, as inovações do “novo modelo” descritas por Robert Brown no artigo de 1990 – e os princípios distintivos do teísmo relacional, inclusive a posição dos teístas relacionais sobre a expiação – não são um “novo modelo”. Elas cheiram a Socinianismo, uma heresia que floresceu no século 16. 

Assim como o moderno teísmo relacional, o Socinianismo do século 16 foi uma tentativa de livrar os atributos de Deus de tudo aquilo que parecia cruel ou severo. De cordo com o Socinianismo, o amor é o atributo governante de Deus. Seu amor essencialmente subjuga e anula seu desprazer pelo pecado. Sua bondade cancela sua ira. Portanto, de acorodo com os socinianos, Deus é perfeitamente livre para perdoar os pecados sem exigir pagamento de qualquer tipo. 

Além disso, os socinianos argumentavam que a idéia de que Deus exige um pagamento pelos pecados é contraditória com a própria noção de perdão. Eles alegavam que os pecados podiam ser redimidos ou resgatados, mas não os dois. Se um preço deve ser pago, então os pecados não são verdadeiramente “perdoados”. E se Deus realmente deseja perdoar o pecado, então nenhum pagamento de resgate é necessário. Além disso, de acordo com o argumento sociniano, se um preço é exigido, então a graça não é mais graça do que qualquer transação legal, como o pagamento de um ticket de zona azul. 

Inicialmente, esse argumento pode parecer sutilmente apelativo à mente humana, mas ele é completamente contrário ao que a Escritura ensina sobre graça, expiação e justiça divina. Ele depende de definições daqueles termos que ignoram o que a Escritura ensina claramente. 

A graça não é incompatível com o pagamento de um resgate. Foi puramente pela graça que o próprio Deus (na Pessoa de Cristo) fez o pagamento que nós devíamos ter feito. De fato, de acordo o 1João 4.9, 10, essa é a expressão consumada da graça e do amor divino – que Deus prontamente enviou seu

Filho para suportar um mundo de culpa e morrer pelo pecado para propiciar sua justa indignação, satisfazer plenamente sua justiça, e, portanto, redimir os pecadores:

Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” [grifo acrescentado] (1Jo 4.10). Cristo veio para ser “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Essa linguagem é uma clara referência ao sistema sacrificial do Antigo Testamento, deliberadamente evocando o conceito de expiação, que, no sistema sacrificial judaico, envolvia o pagamento de um preço de sangue, uma penalidade pelo pecado. 

Além disso, qualquer pessoa que estude o que a Escritura tem a dizer sobre o perdão de pecados verá muito rapidamente que a aspersão do sangue de Cristo é o único fundamento sobre o qual os pecados podem ser perdoados. Não pode haver perdão a menos que um resgate sangrento seja pago. Lembre-se, isso é exatamente o que socinianos e teístas relacionais negam. Eles dizem que o perdão é incompatível com o pagamento de uma penalidade – os pecados que devem ser resgatados nunca foram remidos verdadeiramente. Mas Hebreus 9.22 refuta claramente essa alegação: “Sem derramamento de sangue não há remissão”.

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Continua nos próximos dias...

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Fonte: Eu não sei mais em quem eu tenho crido / Douglas Wilson (org.) - São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Págs. 83-87

Leia também: 
O ataque dos teístas relacionais à Expiação - 3/3 (em breve)
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Cristão Reformado: não se esqueça da ressurreição

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Por John MacArthur


Em 1874, um ministro batista chamado Robert Lowry redigiu um dos mais comoventes hinos e que muito exaltou a ressurreição de Jesus Cristo – “Fundo, no túmulo, Ele deitou”. Note como estes versos contrastam a impotência da morte e do sofrimento com o poder da ressurreição de Cristo:

      Fundo, no túmulo, Ele deitou, Jesus, meu Salvador;
      À véspera do dia seguinte, Jesus, meu Senhor!
      Em vão observam o leito de Jesus, meu Salvador;
      Em vão, eles selam o morto, Jesus, meu Senhor!
      A morte não pode deter sua presa, Jesus, meu Salvador;
      Ele rompeu as barreiras, Jesus, meu Senhor!

A morte, o mais terrível inimigo do homem, não tem poder para reinar sobre o Senhor da vida. Essa verdade tem significado para você e para mim, aqui e agora, no vigésimo primeiro século. Você pode ver isto na parte mais emocionante e comovente do hino de Lowry, o refrão que pontua cada estrofe.

      Do túmulo, Ele ergueu-se,
      Com um poderoso triunfo sobre seus inimigos,
      Ele ergueu-se, como um conquistador,
      Vencendo o domínio da escuridão
      Ele vive para sempre, com seus santos a reinar.
      Ele levantou-se! Ele levantou-se!
      Aleluia! Cristo ressuscitou!

Você vê nestas linhas o que a ressurreição de Jesus significa para você? Se você é um cristão, pode se regozijar no fato de que Cristo levantou-se dos mortos como um conquistador, um campeão que vive para sempre, para reinar “com seus santos”. Isso se refere à promessa baseada em nosso batismo na morte e ressurreição em Cristo – é a nossa esperança e a razão e base de tudo o que cremos.

Mas, e se não houve a ressurreição? E, se a ressurreição de Jesus Cristo é apenas um mito do primeiro século a ser ignorado ou marginalizado como uma questão secundária? As implicações dessa abordagem são devastadoras para o cristianismo.

Chamo sua atenção ao que Paulo escreveu em 1 Coríntios 15.16-19, de modo que você possa ver o que acontece quando esquece a ressurreição.

Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.

Sem dúvida, se Jesus ainda está no túmulo, se Ele é perpetuamente o sofredor e nunca, o conquistador, então você e eu estamos desesperadamente perdidos. E, embora esse não seja o caso, quero focalizar no hipotético “e, se” que Paulo presume temporariamente, em 1 Coríntios 15. “E, se a ressurreição fosse um mito? E, se Jesus Cristo ainda estivesse morto e no túmulo?”

Em primeiro lugar, vocês ainda estariam em seus pecados, sob a tirania da morte, juntamente com o mais vil e incrédulo pagão. Se Jesus não ressuscitou dos mortos, então, o pecado ganhou a vitória sobre Ele e continua a ser vitorioso sobre você também. Se Jesus permaneceu no túmulo, então, quando você morrer haverá de permanecer morto. Além do mais, visto que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23), se você tivesse de permanecer morto, a morte e a punição eterna seriam o seu futuro.

A razão de confiarmos em Cristo é para perdão de pecados. Porque é do pecado que precisamos ser salvos. “Cristo morreu pelos nossos pecados” e “foi sepultado, e... ressuscitou ao terceiro dia” (1 Co 15.3-4). Se Cristo não ressuscitou, sua morte foi em vão, sua fé nEle seria sem sentido, e seus pecados ainda seriam contados contra você e não haveria nenhuma esperança de vida espiritual.

Segundo, se não há ressurreição, então, “ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram” (v.18). Isso significa que todo santo do Antigo Testamento, e todo santo desde que Paulo escreveu estaria sofrendo em tormento neste exato momento. Isso incluiria o próprio Paulo, os outros apóstolos, Agostinho, Lutero, Calvino, Wesley, Moody, e os santos de fé e oração que você conheceu – todo e qualquer crente, em todas as eras, também estaria no inferno. Sua fé teria sido em vão, seus pecados não teriam sido perdoados, e seu destino seria a condenação.

À luz das outras consequências, a última é bem óbvia: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Sem a ressurreição de Cristo, a salvação e as bênçãos que ela traz, o cristianismo seria sem sentido e lamentável. Sem a ressurreição não teríamos o Salvador, o perdão e o evangelho, jamais teríamos a fé significativa, nem a vida, e nunca poderíamos ter esperança por alguma dessas coisas.

Esperar em Cristo somente nesta vida seria ensinar, pregar, sofrer, sacrificar-se, e trabalhar inteiramente por nada. Se Cristo ainda está morto, então Ele somente não tem habilidade de salvar você no futuro, mas Ele também não pode lhe ajudar agora. Se Ele não estivesse vivo, onde estaria sua fonte de paz, alegria ou satisfação hoje? A vida cristã seria uma galhofa, uma farsa, uma piada cruel e trágica. Os cristãos sofreriam e até morreriam porque a fé seria apenas tão cega e patética quanto a daqueles “crentes” que seguiram Jim Jones e o Templo do Povo, David Koresh e as Raízes Davídicas, e Marshall Applewhite e a seita do Portão do Céu.

Se o cristão não tem um Salvador, senão Cristo; um Redentor, senão Cristo; e um Senhor, senão Cristo; e, se Cristo não é ressurreto, Ele não está vivo; nesse caso, a nossa vida cristã é sem vida. Nós nada teríamos para justificar nossa fé, nosso estudo bíblico, nossa pregação ou testemunho, nossa adoração e serviço de culto a Ele, e nada para justificar nossa esperança nesta vida ou na próxima. Nós nada mereceríamos, senão a compaixão reservada para os tolos.

Mas, Deus sim ressuscitou “dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.24-25). Porque Cristo vive, nós também viveremos (Jo 14.19). “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.30-31).

Não somos dignos de pena, pois Paulo imediatamente encerra a terrível seção “e, se”, dizendo: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1 Co 15.20). Como Paulo disse, no final de sua vida, “sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito [i.e. sua vida] até aquele Dia” (2 Tm 1.12).

Aqueles que não esperam somente em Cristo para salvação são verdadeiros tolos; eles são os que precisam ouvir seu testemunho compassivo sobre o triunfo da ressurreição de Cristo. Então, não esqueça a ressurreição; regozije-se nela e glorie-se nela, pois Ele ressuscitou de fato.

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Sobre o assunto Páscoa, leia também: "Verdades e Mitos sobre a Páscoa".
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O Estupro dos Cânticos de Salomão - 4/4

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Por John MacArthur

Antes de encerrarmos esta breve série, prometi responder tantas perguntas quanto possível daquelas pessoas que têm comentado aqui, via e-mail, através do Twitter e no Challies.com.

Primeiramente, gostaria de agradecer a Tim Challies pela coragem em hospedar uma discussão acerca deste tópico. A simples menção de boas maneiras e linguagem, obviamente suscita paixões no evangelicalismo contemporâneo – e não necessariamente de uma maneira que seja útil. Não é fácil encontrar fóruns na internet onde uma questão tão volátil pode ser discutida abertamente com lucro. E, devido a alguns dos vários problemas que esta série tem abordado, mesmo fóruns Cristãos não são sempre um paraíso a salvo da profanação e do comportamento grosseiro e carnal. Sou grato ao Tim por assegurar um nível mais digno de diálogo.

Faço eco ao choque total que Tim expressou quando foi exposto a algo do material do sermão de Driscoll na Escócia (a mensagem que disparou esta série neste blog). Após ler algumas das declarações ultrajantes de Driscoll, Tim reagiu da mesma maneira que qualquer Cristão de mente pura reagiria:

Eu tenho um verdadeiro problema com qualquer um que interprete os Cânticos de Salomão deste jeito... Para ser honesto, as palavras me faltam quando eu sequer tento me explicar – quando eu tento explicar como eu simplesmente não posso sequer conceber os Cânticos de Salmão assim. A natureza poética dos Cânticos é inteiramente corroída quando atribuímos tal significado a eles: tal significado específico. E eu fico pensando qual o bem que pode fazer a um casal estar apto a dizer “Veja, este ato sexual específico é obrigatório na Escritura. Portanto, vamos praticá-lo”. Isso pode ser dito a um cônjuge que não tem desejo de fazer este ato, ou que até mesmo o considera de mau gosto. E ainda, com nossa interpretação dos Cânticos de Salomão, a qual realmente não temos meios de provar (pelo menos, não para além de qualquer dúvida razoável), estamos potencialmente forçando um parceiro relutante a fazer algo. Eu apenas... novamente, as palavras realmente me faltam aqui.

Tim, você estava certo em ficar chocado. A coisa mais chocante para mim é que algumas pessoas não parecem estar chocadas de maneira alguma. O que facilmente receberia do mundo uma classificação NC-171, está sendo divulgado e defendido por alguns na igreja.

Devo explicar que não uso a internet diretamente; Eu nem sequer possuo um computador ou uma conexão a internet em minha casa. Sou totalmente dependente da equipe e dos estagiários no ministério pastoral que imprimem o material que preciso para ler e garantem que eu o consiga.

Portanto, para aqueles que talvez esperassem que eu interagiria com seus comentários em tempo real no blog, simplesmente não tenho meios fáceis de fazer isto. Faço uma varredura nos comentários quando os recebo – que usualmente não é até o dia seguinte – mas não posso responder os comentários do blog diretamente, nem seria capaz de devotar meu tempo aos fóruns de internet mesmo se estivesse conectado.

Mas, quero aproveitar esta oportunidade para responder as perguntas mais freqüentes dos últimos dias. Praticamente todos os questionamentos e críticas que têm sido levantados podem ser agrupados em duas categorias. Alguns poucos são questionamentos e observações sobre a interpretação adequada dos Cânticos de Salomão. Praticamente todo o restante tem a ver com minhas críticas a Mark Driscoll.

Responderei muitos questionamentos da primeira categoria e sumariarei minhas respostas a segunda categoria em duas respostas finais.

1. Podemos “dar o sentido” quando pregamos a poesia sem fazer uma exposição versículo por versículo, preceito por preceito? Ou é melhor deixá-lo “cuidadosamente velado” como MacArthur escreve?

A pergunta interpreta erroneamente o que eu disse. Nunca sugeri que o claro significado de qualquer texto deva ser “cuidadosamente velado”. Eu apontei para o fato de que algumas coisas na Escritura estão cuidadosamente veladas, e nós não devemos impor nossas próprias interpretações especulativas sobre elas.

Em outras palavras, estou incitando os pastores a lidar com o que o texto diz, e se afastar de impor um estilo gnóstico de significados secretos sobre as idéias que são deliberadamente deixadas obscurecidas ou totalmente escondidas pelo Espírito Santo.

Não estou dizendo nada além do que diria sobre interpretações especulativas de qualquer parte da Escritura: isto é insensato. Não, isto é seriamente perigoso. “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós...” (Deut. 29:29).

Também estou dizendo que o modo como o Espírito discursa sobre a santa intimidade e privacidade do amor conjugal é a antítese do tipo grosseiro das pseudo-interpretações gráficas que alguns evangélicos contemporâneos parecem almejar.

2. Os Cânticos de Salomão são um livro explicitamente erótico. Como pode você possivelmente argumentar que este livro da Bíblia, o qual é a Santa Palavra de Deus, é qualquer coisa, menos “completamente explícito”? Não é uma negação do óbvio afirmar que os Cânticos de Salomão não são uma bela descrição gráfica de sexo?

Explícito – ek • SPLIS • isto – Expressar distintamente tudo o que se entende; não deixando nada meramente implícito ou sugerido; sem ambigüidades.

Desde que não há nenhuma menção de uma parte reprodutiva do corpo ou ato sexual nos Cânticos de Salomão, nenhum comentarista dos Cânticos que se preze jamais faria sequer tal afirmação acerca deste livro. Além do mais (e este é o ponto chave de toda a discussão), os Cânticos de Salomão não são literatura “erótica” em qualquer sentido que seja – i. é., não se destina a despertar os leitores sexualmente. Claramente, ele nunca deveria ser pregado de uma maneira que tenha este efeito. Este é um ponto tão óbvio que apenas um explorador do livro o ignoraria por interesses lascivos.

3. Você não vê a distinção entre metáfora e eufemismo?

É claro. Mas as vezes uma metáfora é também um eufemismo, e este é claramente o caso de algumas das disputadas imagens dos Cânticos de Salomão. Não há meio exegético para decidir o que as várias jóias, flores, aromas, óleos e outros prazeres sensuais nomeados no poema representam na mente do autor. Ele propositalmente os deixa vagos. Portanto, não significa necessariamente que os símbolos devam ter qualquer relação de um-para-um com as realidades correspondentes; ao contrário, eles são emblemas gerais da beleza e do desejo. Salomão usa o simbolismo ao invés de dizer qualquer coisa explícita – o que (por definição) torna aquelas metáforas eufemísticas também.

Ao longo daquelas linhas, Richard Hess, nas páginas 34-35 de seu Baker Old Testament Commentary, observa os perigos da leitura demasiada das belas metáforas dos Cânticos:

As metáforas dos Cânticos são as mais ricas de qualquer dos livros da Bíblia. De qualquer modo, não pretendem prover uma simples correspondência do tipo um-para-um. De fato, os intérpretes são mais susceptíveis a perderem-se em absurdos quando se esforçam para igualar as coisas onde elas não são explícitas... A melhor interpretação deve manter-se sensível à linguagem das imagens e tentar seguir seus contornos sem impor demasiada exigência sobre os detalhes de interpretação... Os cânticos não apresentam entretenimento a seus leitores através de exposições lascivas, nem os educa como um manual de sexo.

4. Será que seus escrúpulos acerca de descrições gráficas de atos sexuais não são culturais e produtos de uma geração? Talvez a cultura na qual você ministra não seja tão desinibida quanto as sub-culturas que outros pregadores estão tentando alcançar.

Sexo não é algo novo na era pós-moderna. Cada cultura e cada geração tem lidado com as mesmas obsessões e perversões que lidamos hoje – embora nem sempre com a mesma auto-indulgência desenfreada que nossa cultura tem encorajado. Cada cristão tem sempre encarado os mesmos desejos e tentações que nos assaltam: “Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão a que é comum ao homem” (1 Coríntios 10:13). Aqueles que pensam que a pornografia e a libertinagem desenfreada não eram comuns na era pré-internet devem visitar as ruínas de Pompéia e ver como era a vida na cultura de Roma durante a geração do apóstolo Paulo.

Paulo ministrou em culturas muito menos “inibidas” que a nossa. No entanto, quando ele achou necessário lidar com tópicos sexuais – seja para dar instruções positivas sobre a relação no casamento ou exortações negativas acerca de pecados sexuais – ele nunca falou em termos sexualmente gráficos.

Além disso, o que era pecaminoso na era de Paulo ainda é pecaminoso em nossa cultura saturada de pornografia. E a estratégia de Paulo para alcançar os Coríntios (uma das sub-culturas mais pervertidas sexualmente já conhecida) é a mesma estratégia que devemos usar hoje. Isto inclui alguns cuidados, dignidades e ensino autenticamente bíblico sobre questões de sexo (cf. 1 Coríntios 7). Santidade, e não um método de como aconselhar sobre sexo, é o coração do que os pastores deveriam estar ensinando sobre sexo (especialmente em uma cultura viciada em sexo). E nosso ensino sobre o assunto deve ser feito com graça, dignidade e santificação, não na forma de uma comédia erótica.

A verdade é que a Palavra de Deus nunca dá instruções específicas sobre os detalhes das preferências sexuais de um casal em sua vida sexual. Sermões que pretendem encontrar tais instruções, como a preocupação sexual demonstrada nesses assaltos aos Cânticos de Salomão, são mais prejudiciais que úteis – porque erguem a imaginação do pregador a uma posição mais elevada de proeminência e autoridade do que a verdadeira revelação de Deus.

Nem Paulo ou qualquer outro legítimo líder da igreja em 2000 anos têm sequer achado necessário (ou mesmo útil) utilizar a sabedoria das ruas para a educação sexual – nem como uma estratégia evangelística, e certamente nem como um meio de santificação para as pessoas já dominadas pela conversação sobre sexo de uma cultura corrompida. Adotar a obsessão do mundo por conversação sexual e suja não pode possibilitar um efeito santificador, porque a própria estratégia é profana.

A noção de que sub-culturas degeneradas e pessoas sexualmente viciadas não podem ser alcançadas sem o “aprender a falar a língua deles”, é uma falácia absoluta. A Grace Church está a sete milhas de Hollywood, no coração do Sul da Califórnia, em uma cultura carnal de prazer doentio, bem conhecida no mundo todo por tudo, menos por valores espirituais saudáveis. Nenhuma cidade na América é mais “desigrejada” que nosso vale, o qual abriga mais de três milhões de pessoas. O povo da Grace Church está alcançando amigos e vizinhos em todas as sub-culturas imagináveis – dos ex-presidiários aos ex-católicos e as pessoas na indústria do entretenimento. Batizamos novos convertidos praticamente todo domingo a noite. Não é necessário nem útil injetar referências sexuais explícitas nas conversas a fim de alcançar pessoas de tais culturas. Deus os traz a Cristo através do Evangelho.

5. Você intitulou seus artigos de “O estupro dos Cânticos de Salomão”. Se você discorda tanto da linguagem forte e de temas sexuais, não parece ser sobre isto o tópico?

Um dos problemas fundamentais em toda essa discussão é a recusa por parte de muitos em reconhecer a distinção crucial (e fundamental) entre linguagem forte e linguagem obscena. O próprio Mark Driscoll contribuiu para esta confusão ao misturar e obscurecer os dois assuntos em sua mensagem ano passado na Conferência Desiring God. A Escritura condena hereges em termos vigorosos, as vezes indelicados, (por exemplo, Gálatas 5:12). Mas a Bíblia nunca é indecente, e a linguagem forte na Escritura certamente não faz da linguagem profana ou suja uma piada aceitável (Efésios 5:4).

No primeiro artigo da série, expliquei por que o título é apropriado. Se alguém acha que é um exemplo do que tenho condenado, esta pessoa não entendeu nada do que falei. O estupro é um ato de violação forçada; e este tratamento dos Cânticos de Salomão é um abuso do livro, arrancando-lhe o véu designado por Deus, contaminando publicamente sua pureza, e mantendo-o a vista para olhares e sorrisos maliciosos.

6. O sermão de Driscoll foi realmente tão ruim quanto você diz? Você não está exagerando o que, em última análise, foi apenas uma diferença no estilo?

Durante a Controvérsia Downgrade, Charles Spurgeon foi essencialmente acusado da mesma coisa – uma deturpação dos fatos e uma reação exagerada as questões. Aqui está o que Spurgeon disse em resposta aos seus críticos:

A controvérsia que tem se levantado de nossos artigos anteriores é muito ampla em seu alcance. Mentes diferentes terão suas próprias opiniões quanto a maneira com a qual os combatentes têm se portado; de nossa parte estamos satisfeitos em deixar milhares de assuntos pessoais passarem desapercebidos. O que importa quais sarcasmos e gracejos possam ter sido proferidos às nossas custas? A poeira da batalha baixará no devido tempo; pois, no presente, o interesse principal é manter o estandarte em seu lugar, e preparar-se contra as arremetidas do adversário.
Nosso alerta tinha a intenção de chamar atenção para um mal que pensávamos ser aparente a todos: nunca imaginamos que “a questão precedente” seria levantada, e que uma companhia de estimados amigos arremeteria em meio aos combatentes, e declararia que não havia motivo para a guerra, mas que nosso moto poderia continuar a ser “Paz, paz!” No entanto, tal tem sido o caso, e em muitos lugares a pergunta principal não é o “Como podemos remover o mal?”, mas “Existe algum mal para ser removido?” Nenhum fim de carta tem sido escrito com isto como seu tema – “As acusações feitas pelo Sr. Spurgeon são realmente verdadeiras?” Deixando de lado a questão de nossa própria veracidade, não poderíamos ter qualquer objeção a uma discussão mais aprofundada do assunto. Por todos os meios, deixe a verdade ser conhecida.

No espírito de Charles Spurgeon, então, sinto que não há outro curso de ação, a não ser deixar que a verdade seja conhecida. Este link (o qual alguém me enviou por e-mail ontem) o levará a algumas das coisas que Mark Driscoll tem dito sobre os Cânticos de Salomão. Minha preferência seria não “linkar” aquelas coisas de maneira alguma (de fato, há muito mais que eu poderia “linkar”), e gostaria de avisar que o conteúdo é altamente ofensivo (especialmente por ter sido pregado em um culto de Domingo onde crianças, adolescentes e jovens solteiros estavam presentes). Mas, como Paulo disse aos Coríntios, as vezes é necessário suportar uma pequena tolice a fim de que a verdade seja conhecida.

O Novo Testamento não poderia ser mais claro. A boca fala do que o coração está cheio (Mateus 12:34). E aqueles que ensinam publicamente são levados a um nível mais alto de responsabilidades (Tiago 3:1). Pastores, em particular, devem ser modelos de pureza (1 Tim. 4:12), acima de qualquer reprovação, tanto dentro da igreja como fora dela (1 Tim. 3:2-7). Pureza na doutrina, pureza na vida e pureza no falar fazem parte das qualificações bíblicas para aqueles que serão porta-vozes de Deus.

Efésios 4:29 Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que seja boa para a necessária edificação, a fim de que ministre graça aos que a ouvem.

Efésios 5:4–5 Nem baixeza, nem conversa tola, nem gracejos indecentes, coisas essas que não convêm; mas antes ações de graças. Porque bem sabeis isto: que nenhum devasso, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus.

1 Tessalonicenses 4:7 Porque Deus não nos chamou para a imundícia, mas para a santificação. Portanto, quem rejeita isso não rejeita ao homem, mas sim a Deus, que vos dá o seu Espírito Santo.

Tito 2:6–8 Exorta semelhantemente os moços a que sejam moderados. Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra integridade, sobriedade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo nenhum mal que dizer de nós.

É por isso que estou fazendo uma discussão tal como esta. Porque o Novo Testamento faz uma discussão assim. Não é simplesmente uma diferença de opinião, geração, preferência, estilo ou metodologia. É uma discussão que se levanta dos claros mandatos do Novo Testamento relacionados ao caráter de um presbítero. De qualquer modo, não acho que tenha reagido com força suficiente.

7. Por que você escolheu Driscoll e o conectou com os “desafios sexuais”? Por que levá-lo a público? Ele já se arrependeu de seu discurso underground, e está sendo discipulado de maneira particular por homens como John Piper e C. J. Mahaney, que o fazem prestar contas. Você os consultou antes de chamar Driscoll pelo nome? Se o problema é tão sério como você alega, por que eles não disseram nada publicamente acerca disto?

No sermão que motivou esta série, Mark Driscoll (falando especificamente as esposas na congregação) fez vários comentários que foram muito, mas muito piores do que sórdidos desafios sexuais. Além do mais, os editos de Driscoll às mulheres casadas não eram meros “desafios”, mas diretivas reforçadas com a alegação de que “Jesus Cristo ordena que você faça [isto]”. Este material tem estado online e circulado livremente por mais de um ano. Mas você terá muita dificuldade para encontrar um único fórum sequer na Web onde alguém tenha exigido que Driscoll explicasse porque ele se sentia livre para dizer tais coisas publicamente.

Estou apontando algo que não deve ser nenhum pouco controverso: pastores não são livres para falar assim. Em resposta, uma enchente de jovens revoltados, incluindo muitos pastores e seminaristas – nenhum dos quais tenha sequer tentado uma conversa em particular comigo sobre este tópico – têm se sentido livres para postar insultos e públicas reprovações em um fórum público, declarando enfaticamente (sem a óbvia consciência da ironia) que eles não crêem que tais coisas devam ser tratadas em fóruns públicos.

(Para ser claro: não estou sugerindo que alguém precisa me contatar em particular sobre declarações públicas que eu tenha feito. Muito pelo contrário. Mas aqueles que insistem que tais desacordos devam ser tratados privadamente revelam a hipocrisia do que alegam quando usam fóruns públicos para censurar e acusar um pastor de quem eles discordam.)

Quando 1 Timóteo 5:20 diz: “Aqueles que continuam em pecado, repreenda-os na presença de todos”, ele está falando aos presbíteros em particular. Aqueles em um ministério público devem ser repreendidos publicamente quando seus pecados se repetem, em público, e são confirmados por várias testemunhas.

No entanto, tenho escrito para Mark em particular sobre minhas preocupações. Ele rejeitou meu conselho. Com relação a este fato, ele pregou o sermão que venho citando, sete semanas após receber minha carta privada onde o encorajava a levar a sério o padrão de Santidade que as Escrituras impõem aos pastores. Aqui está uma pequena seleção da carta de seis páginas que o enviei:

Você [não] pode fazer cristãos adotarem modismos mundanos como se fossem um caso bíblico – especialmente quando aqueles modismos estão diametralmente em oposição ao discurso saudável, mente pura e comportamento casto que Deus nos conclama a exibir. Em sua essência, trata-se de ideologia. Não importa o quanto a cultura possa mudar, a verdade nunca muda. Quanto mais a igreja se acomoda as bases elementares da cultura, mais ela comprometerá inevitavelmente sua mensagem. Não devemos trair nossas palavras através de nossas ações; devemos estar no mundo, mas não ser do mundo... É vital que você não envie uma mensagem sobre a importância da sã doutrina e uma mensagem totalmente diferente sobre a importância do discurso são e da pureza de mente irrepreensível.

A resposta de Mark Driscoll a esta admoestação e as coisas que ele tem dito desde então só têm aumentado minha preocupação.

Mark Driscoll realmente expressou arrependimento sobre a reputação que sua língua o rendeu a alguns anos atrás. No entanto, nenhuma mudança substancial é observável. Apenas a algumas semanas, em uma diatribe raivosa dirigida a homens de sua congregação, Driscoll mais uma vez lançou um palavrão totalmente desnecessário. Algumas semanas antes disto, ele fez um escárnio público de Eclesiastes 9:10 (algo que ele tem feito repetidamente), fazendo piada disto em cadeia nacional. Então, aqui estão mais dois vídeos inapropriados de Driscoll que estão circulando entre jovens e estudantes universitários por quem tenho alguma responsabilidade pastoral. Em sua imaturidade, eles geralmente pensam que é maravilhosamente legal e transparente para um pastor falar assim. E eles se sentem a vontade para xingar e fazer piadas de forma semelhante em ambientes mais casuais.

Já passou da hora da questão ser tratada publicamente.

Finalmente, é seriamente exagerado dizer do envolvimento de John Piper e C. J. Mahaney que eles estão “discipulando” Mark Driscoll. Em primeiro lugar, a idéia de que um homem crescido, já em ministério público e sob os holofotes da TV nacional, necessita de espaço para “receber a instrução de mentores” antes que seja justo sujeitar suas atitudes públicas ao escrutínio bíblico parece inverter todo o processo. Estes problemas têm sido discutidos em ambos os contextos, público e privado, por pelo menos três ou quatro anos. Em algum ponto, o argumento de que esta é uma questão de maturidade e que Mark Driscoll apenas precisa de tempo para amadurecer perdeu a eficácia. Neste ínterim, a mídia está tendo um festival para escrever histórias que sugerem que conversação desprezível é uma das marcas registradas do “Novo Calvinismo”; e inúmeros estudantes a quem amo e conheço pessoalmente estão sendo conduzidos a um comportamento carnal semelhante ao imitarem o discurso e estilo de vida de Mark Driscoll. Para tudo há um limite.

Sim, eu informei John Piper e C. J. Mahaney das minhas preocupações sobre este material a várias semanas atrás. Discriminei todas estas questões em detalhes muito mais minuciosos do que tenho escrito aqui, e disse-lhes expressamente que estava preparando esta série de artigos para o blog.

Para aqueles que perguntam por que os pastores Piper e Mahaney (e outros em posições chaves de liderança) não têm expressado publicamente suas próprias preocupações similares, esta não é uma pergunta para mim. Espero que você escreva e pergunte a eles.

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1 É uma espécie de classificação de conteúdo para que os pais americanos tenham uma idéia daquilo com que seus filhos estão tendo contato. NC-17 seria, por exemplo, um filme contendo senas de sexo explícito ou violência excessiva. Poderia ainda conter obscenidades, pornografias, linguagem sexual ou violenta [N. do T.].

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Fonte: Grace to you
Tradução: Nelson Ávila
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