Discurso de Formatura

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Minha turma começou com um bom número, e dessa turma original sobramos apenas eu e meu amigo Geraldo. Muitos desistiram por variados motivos. Eu mesmo pensei em desistir muitas vezes. Por que tinha que ser tão difícil? Por que atender essa exigência de passar por um seminário para cumprir com a vocação?

E por falar em vocação, não sei por que as pessoas insistem com essa ideia que só a vocação pastoral produz seminarista. Há outros ministérios na igreja que dependem de um bom preparo teológico. Acrescentaria que todo cristão deveria perseguir esse preparo! Diferente dos meus amigos de turma - ou pelo menos a maioria deles - não fui parar num seminário por vocação pastoral. Entendo que a igreja também precisa de mestres. 

Seja lá qual for a vocação ministerial que nos levou ao seminário, ela não é exatamente a mesma da vocação profissional como engenharia, medicina, letras... Ninguém deseja aqui fazer do seu chamado um comércio, o ganha pão. Estamos aqui para servir nosso Senhor. Contudo, as exigências no preparo acadêmico são as mesmas! 

Quem vai para a universidade estudar medicina será um “profissional” da medicina. Quem vai para universidade estudar engenharia será um “profissional” da engenharia. E quem vai para a universidade estudar teologia será também um "profissional" como os outros? 

Segundo Justo Gonzáles, no caso dos estudos teológicos, as universidades se transformam em seminários para trazer a teologia de volta do secularismo para o campo religioso. O seminário, como “sementeira”, seria o lugar mais adequado no qual as sementes, nós, os vocacionados, seriam cuidadas, regadas, cultivadas em boa terra. 

Mas até onde nos distanciamos do profissionalismo presente em todas as outras áreas do saber humano neste mundo de exigências? Onde está a relevância entre nossa vocação e o profissionalismo? Fui convidado para falar exatamente sobre isso... Aqui está minha resposta. 

No princípio era a Palavra e a palavra ainda não estava escrita. Parece estranho, mas a fé já operou sem o recurso de um texto. Se Moisés é o autor de Gênesis, onde estava a teologia, o conhecimento sobre Deus, no período dos patriarcas? Tradição oral? Alguns textos soltos de tradições diferentes? 

Hoje é possível comprar uma Bíblia por dois reais na SBB, e estamos tão acostumados com o livre acesso à Bíblia – louvado seja Deus por isso! – que não paramos, por um segundo, para pensar em como se buscava o conhecimento sobre Deus no tempo em que não havia Bíblia. 

Assim como a Antiga Aliança antecede a própria Escritura, a Nova Aliança também foi inaugurada sem texto. A religião do Caminho prosperava pelo poder do Espírito Santo através do testemunho dos discípulos do Cristo. Claro, apontando para as Escrituras da Antiga Aliança, tudo se cumpriu – “são as Escrituras que testemunham a meu respeito”, disse Jesus. Mas, a verdade é que o Novo Testamento ainda não estava lá. 

Só um pouquinho mais tarde, homens, inspirados por Deus, escreveram epístolas e evangelhos. Esses documentos circulavam entre as comunidades cristãs, mas não é possível medir a real dimensão da propagação dos ensinos do Novo Testamento pela distribuição de cópias feitas à mão naquela fase apostólica e nos primeiros séculos seguintes. Se não temos, hoje, a carta de Paulo endereçada aos laodicenses, é fácil supor que alguma coisa também ficou faltando para muitos cristãos nos primórdios da igreja. 

Não estou aqui querendo negar a inspiração da Bíblia e questionar sua inerrância. Tão pouco desprezar sua relevância! Nós, batistas, cremos que a Bíblia é a única autoridade, a única regra de fé. O que desejo com esta introdução é apenas destacar a realidade de mundo, daquela narrada nos textos bíblicos, para entender o desafio que temos diante de nós, hoje, em nossa realidade de mundo. 


O modus operandi da fé foi evoluindo junto com a humanidade. Dos discursos apologéticos da patrística às profundas elucubrações teológicas da escolástica, a Súmula Teológica de Tomas de Aquino figura como monumental catedral gótica, na qual ele inclui todo o universo e os vários elementos servem para contrabalançar os outros, de tal forma que todo o edifício sobe a alturas inesperadas. E foi assim que a cobrança por uma produção intelectual elevada entrou em nosso pacote de exigências na vocação ministerial. 

A Reforma protestante foi concebida e nasceu no ambiente universitário, e foi nas universidades que surgiram seus líderes durante várias gerações. Martinho Lutero, além de sacerdote e monge agostiniano, foi, acima de tudo, professor universitário. 

Melâncton, que recebeu o título de Mestre da Alemanha, se interessou pela educação ministerial após constatar que alguns sacerdotes haviam aceitado a fé da Reforma simplesmente, mas sem entender as diferenças entre a fé reformada e a católica romana. Alguns não sabiam ler e tinham poucos textos decorados, como o Credo, os Dez Mandamentos e o Pai Nosso. 

A resposta para essa situação foi a crescente ênfase na necessidade de expandir o escopo da educação teológica. Até então, o que se fazia com o pastor ou sacerdote era a ordenação, sendo que os estudos poderiam ser realizados mais tarde ou não. Mas já em meados daquele século, o normal era que os candidatos ao ministério luterano fossem provenientes das universidades, onde faziam estudos teológicos e se preparavam para a tarefa de ensinar o povo. 

Foi inaugurada uma corrida pelo melhor preparo dos vocacionados dos dois lados, católicos romanos e protestantes. O currículo foi sendo ampliado para atender a demanda de um novo mundo exigente no campo intelectual, um desafio cada vez maior diante dos vocacionados. 

Nada disso ocorreu na contramão do mundo. Se o verbo se fez carne na plenitude dos tempos, o que esperar das outras coisas? Se o ambiente intelectual, político e tecnológico, a partir do século XVI, promoveu o “profissionalismo” dos vocacionados ao ministério, o que devemos esperar de nossos dias? Se a rudimentar imprensa de Gutenberg alavancou tudo isso, o que esperar da internet no nosso século? 

Já percebemos, há muito tempo, que aquela proposta do homem universal do século XV não era viável. Acreditava-se àquela época que era possível instruir o homem para dominar todas as áreas do saber. Um homem que sabia de tudo, um homem universal. Que frustração...

A cada dia, o que cada um de nós consegue saber é apenas uma pequena fração do conhecimento humano. Por mais que um vocacionado se dedique aos estudos, sempre haverá alguém em sua congregação que, em algum outro campo do conhecimento, saberá mais que o ministro. E se considerarmos apenas o conhecimento teológico, ainda que tivesse a vida inteira dedicada aos estudos apenas do evangelho de João seria impossível saber de tudo o que hoje se sabe, se discute e se está descobrindo a seu respeito. 

O profissionalismo, em todas as áreas do saber, cresce de acordo com a demanda de um mundo de exigências. Por que seria diferente com a teologia, a rainha das ciências? Nosso desafio é encontrar a relevância de nossa vocação e do profissionalismo que somos cobrados, pois somos agentes dessa evolução desde o início. Não podemos abandonar a corrida porque o mundo continuará sua carreira e ficaremos para trás. 

A educação teológica não deveria ficar restrita aos vocacionados. Deveria ser a preocupação e dedicação de todo cristão que entende a importância de conhecer o Deus que adora e serve, de estar preparado para apresentar os argumentos, os motivos, a razão de sua fé. 

O desafio de nossa vocação hoje é: não apenas conhecer Bíblia e teologia, mas também e acima de tudo saber como usar esse conhecimento de forma a promover o diálogo com o restante do conhecimento humano. Esse desafio não é fácil, mas precisa ser encarado com bravura! 

Precisamos romper com essa cultura do anti-intelectualismo em nossas igrejas, que não só compromete o conhecimento das ciências de modo geral, mas já, há algum tempo, compromete até mesmo o conhecimento teológico e bíblico. 

Vivemos uma geração de crentes que não conhece Bíblia! Começamos a viver a triste realidade de encontrar ateus e devotos de outras religiões mais proficientes no conhecimento bíblico do que os cristãos! Tenho medo do tempo em que não seremos ameaçados pela espada, pelo fogo ou por leões, mas, pela nossa própria ignorância. 

Respostas prontas já não nos ajudam mais a sobreviver nesse mundo de constantes mudanças, de um profissionalismo exigente que ajudamos a engatilhar lá no passado e deu no que deu... Está aqui! Cobrando nossa responsabilidade nessa parceria “vocação” e “profissionalismo”. 

Essa carreira é nossa! Precisamos retomar a corrida do ponto que tropeçamos. A humanidade avança, e precisamos estar prontos. Assim, se o mundo nos forçar a correr com ele uma milha, estejamos prontos para correr duas!

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Autor: André R. Fonseca
Fonte: Teologia et cetera
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Os atributos do cristão - 2/2

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2. O relacionamento dos cristãos com os inimigos (12.14,17-21)  
  
Tendo aduzido as obrigações dos cristãos na esfera pessoal, sentimental, espiritual, social e relacional (12.9-16), Paulo, agora, tece uma série de imperativos sobre como os cristãos devem se portar com aqueles que os consideram inimigos.

Uma vez que Jesus, os apóstolos e os cristãos primitivos tiveram opositores, os cristãos hodiernos também terão. Os cristãos não fazem inimigos, porém muitos ímpios os veem como inimigos por conta da fé que professam. O apóstolo exibe alguns deveres negativos e positivos que precisamos observar em nosso relacionamento com os inimigos.   
    
Stott ressalta:

A ética cristã, porém, nunca é puramente negativa; assim, cada um dos quatro imperativos negativos de Paulo vem acompanhado de uma contrapartida positiva. Portanto, não devemos amaldiçoar, mas abençoar (vs.14); não devemos retaliar, mas fazer o que é direito e viver em paz (vs.17-18); não devemos procurar vingança, mas deixar isso com Deus e, entrementes, continuar servindo nossos inimigos (vs.19-20); e não devemos deixar-nos vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem (vs.21).[28] 

Vejamos, pois, os ditames negativos e positivos:

a) As Obrigações negativas (12.14b, 17a, 19)

Paulo traceja o que não devemos fazer no relacionamento com os nossos inimigos. Três atitudes passivas são elencadas.  
              
i. Não devemos amaldiçoar nossos inimigos (vs.14b)

O verbo amaldiçoar καταράουαι (kataraomai), significa “desejar o mal”; “rogar pela destruição de outrem”. Assim, o apóstolo recomenda-nos a não evocarmos maldição sobre os que nos perseguem. Lloyd Jones observa que, para o cristão, o perigo não é o uso de expressões fortes ou de linguagem grosseira ou maligna, e sim pedir que Deus amaldiçoe esses tais[29] (Mt 5.44; 1Pe 2.21-23).

Não suplicar pela desgraça de nossos opositores é um desafio extremamente fastidioso, pois nossa natureza pecaminosa batalha pelo contrário disso, ou seja, amaldiçoar. Por mais difícil que seja, devemos abençoar e orar pela conversão de nossos algozes (Lc 6.28). Calvino relata com nitidez este axioma:  

Eu disse que isso é mais difícil do que abster-se da vingança, ao ser alguém afrontado. Pode haver alguém que esconda suas mãos de fazer vingança e refreie seu desejo de injuriar com seus lábios, mas que em seu coração ainda gostaria de destruir seus inimigos, ou que fossem eles atingidos por algum dano provindo de alguma outra fonte. Ainda que tais pessoas sejam por demais pacíficas para que desejem algum mal a alguém, dificilmente um em cem desejará fazer o bem a alguém de quem só tenha recebido injúrias. O fato é que a maioria das pessoas começa a lançar suas maldições sem sentir por isso qualquer pejo. Não obstante, Deus, por meio de sua Palavra, não só impede nossas mãos de praticarem o mal, mas também domina os sentimentos de amargura que saturam nosso espírito.[30]    
   
ii. Não devemos retribuir o mal que recebemos da mesma forma (vs.17a)

Esta exortação negativa é um adendo da exortação positiva, descrita no versículo 14. O cerne desta admoestação consiste em não buscarmos a retaliação. Quando alguém nos maldiz, se recusa a nos ajudar, nos defrauda, ou até mesmo nos agrida fisicamente, logo surge o desejo de revidar todo o infortúnio que sofremos.

Desse modo, Paulo, aqui, combate o desejo de vingança (1Ts 5.15; 1Pe 3.9) e o direito de assumirmos a posição que pertence exclusivamente ao magistrado, a saber, a punição pelo crime.

David Stern define a vingança como ser vencido pelo inimigo, a quem você permite incitá-lo a pagar na mesma moeda pelos impulsos do mal de sua própria velha natureza, os quais você deveria subjugar.[31] Vingar a nós mesmos é apropriar-se de uma prerrogativa que não nos pertence. A vingança compete a Deus, somente. Gerir a vingança é urdir contra a autoridade do nosso Senhor (Hb 10.30).    
    
Hendriksen observa:

Mesmo no Antigo Testamento, o mandamento “olho por olho... dente por dente” (Êx 21.24,25; Lv 24.20 e Dt 19.21) se aplica à administração pública da lei criminal (veja Lv 24.14), e foi promulgada com o fim de desanimar a pratica de buscar a vingança pessoal. [...] O que Paulo (aqui em Rm 12.17) proíbe - o desejo de retaliação – é o mesmo pecado contra o qual Jesus advertiu (Mt 5.38-42; Lc 6.29, 35). Esse ensino de nosso Senhor pode ser considerado um desenvolvimento ulterior da instrução veterotestamentária que se encontra em Levítico 19.18, Deuteronômio 32.35 e Provérbios 20.22.[32]      

iii. Ao invés de sermos vingadores, devemos dar lugar à ira (vs.19)

Conforme vimos anteriormente, não devemos buscar a represália contra alguém que nos fez o mal. Em vez disso, Paulo orienta-nos a dar lugar à ira. Mas, o que significa dar lugar à ira? Existem quatro interpretações para essa expressão.

A primeira interpretação sugere que, ao invés de vingar a si mesmo, o cristão não deve agir impulsivamente, reagindo ao infortúnio que sofreu, retribuindo o mal com o mal. Antes, ele deve manter a calma e “esquecer” todo o revés ficando apenas irado, temporariamente. A segunda interpretação, por sua vez, assinala que dar lugar à ira é simplesmente o cristão deixar o seu inimigo descarregar toda a sua ira nele, através de agressão física ou verbal. 

A terceira interpretação refere-se à penalidade judicial executada pelos magistrados civis contra as más ações dos homens. Finalmente, a quarta interpretação alega que dar lugar à ira refere-se à ira santa de Deus. 

Certamente, a quarta interpretação é a mais plausível, uma vez que se harmoniza com o contexto do próprio versículo 19b, onde Paulo cita Deuteronômio 32.35 (veja a ira de Deus enfatizada em 1.18, 2.5; 5.9; 9.22; Ef 2.3; 1Ts 1.10; 2.16; 5.9).   

Quando buscamos por vingança, não estamos pecando apenas contra as pessoas, mas contra o próprio Deus. A vingança pertence ao Senhor. Ele sabe exatamente como e quando retribuir cada um segundo as suas obras. Calvino escreve:

O apóstolo, contudo, não cita esta passagem como que para conceder-nos o direito de inflamar-se de ira assim que formos injuriados, nem nos manda que oremos a Deus para que vingue nossas injúrias na proporção do excitamento de nossa carne. Ele nos ensina, primeiramente, que não é nossa tarefa exigir vingança, a menos que queiramos usurpar a responsabilidade [e competência] divina. E, em segundo lugar, ele afirma que não devemos temer que os ímpios se prorrompam com maior ferocidade ao ver-nos suportar nosso sofrimento com paciência, pois Deus não assume em vão o ofício de vingador.[33]  
                 
b) As Obrigações positivas (12.17b-18, 20-21)

Desta vez, Paulo vai listar o que devemos fazer no relacionamento com os nossos inimigos. Quatro atitudes ativas são mencionadas. 
                
i. Devemos abençoar nossos inimigos (vs.14a)

Em vez de retribuirmos o mal que sofremos da mesma forma (vs.17a), buscando vingança (vs.19), devemos, porém, abençoar aqueles que nos perseguem. Paulo reporta-se ao ensino de Jesus, descrito em Mateus 5.44 e Lucas 6.27-28. Abençoar, aqui, denota “solicitar a benção de Deus sobre outrem”.  
  
A perseguição tende a gerar em nós ressentimento e desejo de retaliação, por isso a dificuldade de anuirmos a este preceito. Mesmo que nos reprimimos da desforra, ainda assim estaremos interiormente eivados de ideias vingativas. Abençoar nossos inimigos demonstra uma conduta mais difícil de exercer, embora não seja impossível para aqueles que são regenerados e habitados pelo Espírito Santo, que os capacita para a obediência. 

Calvino acentua que não só não podemos invocar algum mal sobre nossos inimigos, mas é também preciso desejar que os mesmos sejam prósperos e orar para que Deus lhes faça o bem, mesmo quando nos aborreçam e nos tratem de forma hostil. Quanto mais difícil nos torna a prática de tais gentilezas, mais intensamente devemos esforçar-nos por atingi-las.[34] 
                   
ii. Devemos tentar viver em paz com todos (vs.18)

Paulo realça a necessidade de vivermos em harmonia com as pessoas. A expressão se possível é, por vezes, interpretada erroneamente. Alguns entendem que o apóstolo está exortando que, “se vocês puderem”, vivam pacificamente com todos. Entretanto, não é isso o que Paulo quer dizer.

A frase se possível indica que nem sempre viveremos em paz com todas as pessoas, mas que devemos tentar com afinco vivermos pacificamente. Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: vivam em harmonia com todos, exceto se alguns tornarem isso algo impossível (Gn 3.18; Mt 5.9; Hb 12.14; Tg 3.17). 

Ao longo de nossas vidas, iremos nos deparar com pessoas hostis e rixosas. E, por vezes, manter uma convivência pacífica com essas pessoas não será possível. Logo, a tentativa de viver em paz com todos é um desafio.  

A expressão quanto depender de vós, ou, “no que depender de vós”, salienta que devemos batalhar para tentarmos viver em paz com todos. Existem situações que requerem de nós tenacidade [persistência] para mantermos a harmonia com as pessoas. John Murray atesta que a disposição e a conduta pacífica são virtudes a serem cultivadas em nosso relacionamento com todos os homens; não existe qualquer circunstância em que devemos suspender nossos esforços para conservar e promover a paz.[35]

Em contraposição, há circunstâncias em que não podemos abrir mão da verdade para manter uma paz consensual e adulterada. Geoffrey Wilson assegura que, quando a verdade deve ser sacrificada pela paz, então o preço da paz está alto demais. Nunca devemos procurar manter a paz com o mundo ou com cristãos pelo sacrifício de alguma parte da verdade divina. Um cristão deve estar disposto a ser impopular, para que possa ser útil e fiel. Contra qualquer dificuldade ou oposição, ele deve diligentemente lutar pela fé, que foi uma vez entregue aos santos.[36]

Hendriksen afirma com propriedade que, se a manutenção da paz subentende o sacrifício da verdade ou da honra, a paz deve ser abandonada (Lc 12.51-53).[37] Sendo assim, caso nossas tentativas de viver em harmonia sejam frustradas por alguns insolentes, não estaremos pecando, uma vez que Deus não irá nos responsabilizar pela ausência de paz. 

iii. Devemos fazer o bem aos nossos inimigos (vs.20)

O presente versículo é uma citação de Provérbios 25.21-22. Além de não fazermos o mal aos opositores da fé, é necessário também sermos bondosos para com eles. Não devemos apenas não revidar o mal que os nossos inimigos fazem contra nós, mas, sobretudo, ajudá-los em qualquer tipo de privação em que estiverem sofrendo.  
  
Todavia, é difícil saber o que Paulo quis dizer com a expressão amontarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Existem duas interpretações principais para esta expressão.

A primeira interpretação sugere que o “amontoar brasas de fogo sobre a cabeça dos nossos inimigos” significa que devemos fazer o bem a eles, a fim de que o castigo divino imposto sobre nossos algozes seja deveras maior, sabendo que não irão reconhecer o que fizermos. Em outras palavras, o motivo de sermos bondosos para com nossos adversários é a severa punição que irão receber de Deus.

Essa interpretação deve ser rejeitada, pois, além de contradizer os versículos 17-19, que nos admoestam a não sermos vingadores, e que a vingança pertence a Deus, somente, transmite a ideia de que os nossos atos de bondade têm como objetivo o premente castigo dos inimigos da fé; ou seja, ministrar o bem seria um meio de nos vingarmos deles.

A segunda interpretação, por sua vez, possui algumas variações acerca do estado psicológico em que os nossos inimigos são induzidos. Em vez de revidarmos todo o mal que sofremos dos nossos adversários com o mal, manifestamos atos de bondade para com eles. Refutamos o mal com o bem. Com isso, geramos em nossos oponentes um intenso sentimento de vergonha e tristeza, onde reconhecem que suas atitudes perversas foram um erro.

Indubitavelmente, a segunda interpretação é a mais apropriada. O “amontoar brasas de fogo sobre a cabeça dos nossos inimigos” “refere-se a um costume antigo dos egípcios no qual uma pessoa que quisesse demonstrar público arrependimento carregava uma panela de brasas vivas sobre a cabeça. As brasas simbolizavam a dor ardente de sua vergonha e culpa”.[38]

Lloyd Jones corrobora:

Como resultado da sua bondade, o seu inimigo terá intenso sentimento de vergonha e remorso. Ele experimentará uma espécie de queimação, uma penetrante angústia em sua mente, em seu coração e em seu espírito, e a esperança que você tem é que ele sinta isso em tal medida que será levado a examinar-se e a arrepender-se. Você o abalará e ele se porá a reconsiderar o que lhe fez, e então verá quão terrível foi causar a você esse mal. [...] Não se pode garantir esse resultado. Seu inimigo pode não reagir favoravelmente, porém isso não é responsabilidade sua. A sua tarefa é fazer tudo o que puder para leva-lo a essa condição.[39]  

Não envergonhamos nossos adversários sendo hostis, mas demonstrando bondade. Não vencemos nossos inimigos pela violência, mas por nossa piedade (1Pe 2.15).  

iiii. Devemos vencer o mal que recebermos com o bem (vs.21)

Além de estar ligado ao versículo anterior, o versículo a lume resume toda a perícope, sendo também o ápice deste capítulo. Temos aqui um imperativo negativo e um positivo. Paulo enfatiza o que não devemos fazer e, finalmente, o que devemos fazer.

Em primeiro lugar, o apóstolo exorta que não devemos permitir que o mal triunfe sobre nós. O mal, neste contexto, significa a atitude de retribuir a perversidade que sofremos de nossos adversários da mesma forma (vs.19a). Em outras palavras, devemos lutar para não sermos vencidos pela retaliação, obstando ao seu impulso.

 Em segundo lugar, Paulo admoesta que vencemos o mal com a prática do bem. Devemos retribuir o mal que nossos oponentes nos infligem com expressões de bondade. É dessa maneira que triunfamos sobre a maldade.

John Murray salienta que, mediante a prática do bem, compete a nós sermos instrumentos que apagam a animosidade e a má vontade daqueles que nos perseguem e maltratam. A vingança fomenta a contenda e desperta as chamas do ressentimento. Quão sublime é o alvo de conduzir nossos adversários ao arrependimento ou à vergonha que restringirá e, talvez, removerá as ações malignas compelidas pela hostilidade.[40]

CONCLUSÃO

Só iremos cumprir os deveres pessoais, sentimentais, espirituais, sociais e relacionais se amarmos primeiramente a Deus (Dt 6.5). O amor ao Senhor é o alicerce dos relacionamentos fraternais. Se o amarmos, certamente iremos amar nossos irmãos (1Jo 4.7-8, 20-21).

Não devemos amar uns aos outros porque é simplesmente uma obrigação estabelecida na Escritura (Mt 22.34-40; Jo 13.34-35; Rm 13.8); e também pelos méritos dos nossos irmãos. Jamais! Pelo contrário, devemos amar uns aos outros da forma com que Deus nos ama em Cristo, a saber, incondicionalmente! 
       
De modo semelhante, somos orientados pelas Escrituras a amarmos os inimigos da fé. Quando amaldiçoamos nossos oponentes (vs.14), retribuímos o mal que nos fazem com o mal (vs.17), buscando vingança (vs.19), a maldade prevalece e somos derrotados. 

Contudo, se abençoarmos nossos adversários (vs.14), estaremos, de fato, praticando o bem (vs.17). Se batalharmos pela paz (vs.18), se deixarmos a vingança para Deus (vs.19), e amarmos os nossos inimigos (vs.20), venceremos o mal com o bem. Não obteremos a vitória sobre a maldade pelos nossos próprios esforços, porém mediante a fé. Através da justificação, recebemos poder do Espírito Santo para amar e sermos bondosos para com os nossos inimigos.   

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NOTAS:
28. John Stott. A mensagem de Romanos, pág 405.
29. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 524.
30. Calvino. Romanos, pág 451.
31. David Stern. Comentário Judaico do Novo Testamento, pág 465.
32. William Hendriksen. Romanos, pág 551.
33. Calvino. Romanos, pág 457.
34. Ibid, pág 450.
35. John Murray. Romanos, pág 503.
36. Geofrey Wilson. Romanos, pág 183-184.
37. William Hendriksen. Romanos, pág 553. 
38. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1517.
39. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 606-607.
40. John Murray. Romanos, pág 507.     

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos

Leia também:
Os atributos do cristão - 1/2

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Atos dos Apóstolos não ensina o socialismo/comunismo

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"Entretanto, certo homem, chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas, em acordo com sua mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos. Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus" (Atos 5:1-4).

Não faz muito tempo vi o excelentíssimo senhor governador do Estado do Maranhão, Flávio Dino, comunista assumido, declarar que a Bíblia ensina o comunismo ao descrever o modo como os cristãos primitivos viviam (veja aqui). De acordo com ele, o fato de os cristãos venderem as suas propriedades e distribuírem o produto entre todos prova que o comunismo é bíblico.

Gary North desmonta a alegação de Flávio Dino, ao fazer o seguinte comentário sobre a passagem citada de Atos dos Apóstolos:

A contestação de Pedro a Ananias revelou um princípio de propriedade do Novo Testamento. No meio de um programa de caridade voluntária sem precedentes dentro da igreja em Jerusalém, ainda havia um compromisso ao princípio da propriedade privada. A prática dos apóstolos de serem depositários das propriedades dos membros da igreja local não era baseada em nenhum princípio de compulsão. A membresia de ninguém estava em risco por se recusar a doar. Os apóstolos não estavam ameaçando nenhum membro que tivesse propriedades com a perda de acesso à Ceia do Senhor. Pedro perguntou retoricamente: "Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder?". Essa foi basicamente a mesma pergunta retórica feita pelo senhor da vinha na parábola contada por Jesus sobre os trabalhadores assalariados. "Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?" (Mt 20.15a). Foi sobre a base desse princípio de propriedade privada que Jesus usou essa parábola para ensinar sobre a soberania de Deus ao oferecer a vida eterna. Pedro aqui reafirmou o mesmo princípio de propriedade privada.
O socialismo é a rejeição da propriedade privada dos meios de produção. Essa é a razão pela qual é impossível provar a validade do socialismo pela prática da igreja em Jerusalém. Havia um compromisso fundamental com a igualdade econômica por meio da caridade voluntária, mas isso não tinha nada a ver com socialismo. Voluntarismo não tem nada a ver com socialismo. O governo civil numa economia socialista confisca o capital privado. Isso reduz a capacidade do antigo dono do capital de exercer caridade. O socialismo substitui o voluntarismo pela ameaça da violência física. O socialismo envia o coletor de impostos à porta do dono da propriedade. Ele exige a transferência da propriedade ao Estado. Se o dono recusa submeter-se, o coletor de impostos envia a polícia, que vai armada pegar tudo que o coletor exigir. O socialismo é baseado na ameaça da compulsão física. 
A declaração de Pedro a Ananias permanece como uma barreira à invocação do socialista, em favor de sua causa, da prática de propriedade comum da igreja de Jerusalém. Os membros da igreja de Jerusalém possuíam propriedades. Esse é o porquê eles foram capazes de criar um sistema de propriedade comum. Havia um mercado livre para os bens de capital. O capital tinha sido possuído privativamente no antigo Israel, e era privativamente possuído no Império Romano. Havia um mercado livre. Portanto, os membros vendiam seus bens de menor capital de giro, e davam o dinheiro aos apóstolos como depositários.
Fonte: Gary North. Sacrifício e Domínio: Um Comentário Econômico sobre Atos. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2009. pp. 65-66.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
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Algumas objeções contemporâneas no âmbito do Culto consideradas e refutadas - 1/4

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Hoje, a maior parte das vozes que criticam o sola scriptura aplicado no âmbito do culto (i.é, o princípio regulador) são os que se consideram como verdadeiramente reformados.[60]

Esses apologistas da decadência e da manutenção da situação dominante trazem alguns argumentos interessantes que pensam justificar o abandono generalizado do princípio regulador do culto em favor de uma concepção de culto luterana/episcopal. Com o intuito de aguçar a nossa compreensão quanto ao relacionamento do sola scriptura com o culto bíblico, iremos examinar e refutar tais argumentos.

1. O Argumento da “Falsa Compreensão da Ética e da Adiaforia”

O primeiro argumento utilizado contra o princípio regulador do culto baseia-se numa falsa compreensão do sentido e relacionamento do sola scriptura, do princípio regulador e da liberdade cristã ou adiaforia. Schlissel escreve:

Cosmovisão Reformada (3/3) - Redenção

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REDENÇÃO

A restauração da criação exigirá um trabalho inspirado pelo Espírito Santo de construção de instituições de cuidado e de hábitos revitalizantes.

Que amor é esse que assume tais riscos?

O Deus do pacto de Israel e Pai de Jesus Cristo é um Criador pródigo e inventivo, que – no que pode nos parecer quase loucura – confiou o cuidado e o desenvolvimento[1] da criação a nós, Suas criaturas, comissionadas como portadoras de Sua imagem.

Comissionados e dotados de forma a cumprir essa missão de cultivo da imagem de Deus, nós trabalhamos e descansamos, fazemos amor e arte, cultivamos a terra e transformamos seu fruto no pão nosso de cada dia ao mesmo tempo em que concretizamos nossos sonhos mais extravagantes em catedrais e arranha-céus. Essa criação da cultura de portador da imagem [de Deus] será mais frutífera quando tomar para si a responsabilidade do grão do universo – isto é, quando nosso trabalho e lazer forem semeados nos “sulcos” das normas vivificantes de Deus.

Portanto, a criação vem acompanhada de uma missão e uma vocação. Sermos portadores da imagem de Deus é uma tarefa e uma responsabilidade confiada às criaturas. Se Deus criou a partir do e para o amor, então Ele também nos criou com o convite para amar o mundo e, desse modo, promover o seu – e o nosso – florescimento.

Contudo…

Nós confessamos – e muito frequentemente experienciamos – uma ruptura nessa alegre visão do amor criativo. Embora o amor autossacrificial de Deus nos tenha confiado o cuidado e cultivo de Sua criação, a humanidade tomou posse disso como se fosse um direito seu, ao invés de recebê-lo como uma dádiva. Dessa forma, nossa missão de desenvolver o potencial latente na criação acabou assumindo a forma de um invencionismo irrestrito ao invés da co-criação normatizada. Embora esse impulso criacional pela poeisis[2] não poderia ser suprimido ou apagado, o bom impulso criacional de fazer foi distorcido e mau direcionado: ao invés de fazer amor, fizemos guerra (e mesmo agora quando fazemos amor, estamos propensos a fazê-lo de formas que vão contra aquilo que é, de fato, bom para nós). Longe de cultivarmos a terra, nós criamos sistemas inteiros que a espoliam avidamente. Longe da criação normatizada, a humanidade se encontra propensa à transgressão licenciosa. Falhamos em conduzir adiante a missão que fora confiada a nós como portadores da imagem de Deus.

Mas ainda assim…

Nosso bom Criador não nos abandonou aos nossos próprios planos. Apesar de termos rompido a plenitude do amor criativo, nosso Deus complacente também rompeu nosso céu de bronze, juntamente com nosso desejo de nos fecharmos na imanência, ao manifestar-Se na carne – a nossa carne – como a imagem do Deus invisível. Jesus de Nazaré apresentou-Se como o segundo Adão, sendo nosso modelo daquilo que significa cumprir a missão original de cultivo da imagem [de Deus]. A Palavra se fez carne, não para salvar nossas almas de um mundo caído, mas, sim, para nos restaurar como amantes deste mundo – para nos (re)habilitar a cumprir aquela comissão criativa. De fato, Deus nos salva para que – novamente, numa espécie de loucura divina[3] – possamos salvar o mundo, para que possamos (re)fazer o mundo corretamente. E o amor redentor de Deus transborda em seus efeitos cósmicos, dando esperança à essa criação que geme em angústias.

Portanto, nossa redenção não é uma espécie de suplementação ao ser humano; na verdade, a redenção é o que possibilita que alguém seja realmente humano, e assim cumprir a missão que nos caracteriza como portadores da imagem de Deus. Irineu de Lyon apreende essa questão de forma sucinta: “A glória de Deus é um ser humano vivendo em plenitude” [4]. A redenção não acrescenta descabidamente uma espécie de anexo espiritual, nem nos liberta da condição humana a fim de alcançarmos um estado angelical. Pelo contrário, a redenção é a restauração de nossa humanidade, e a nossa humanidade está inseparavelmente ligada à nossa missão de sermos os criadores de cultura, sendo co-criativos juntamente com Deus.

Embora a redenção de Deus seja cósmica, e não simplesmente antropocêntrica, não obstante, ela opera de acordo com aquele “escândalo” criacional original mediante o qual a humanidade é comissionada como embaixadora, e mesmo como co-criadora, para o bem do mundo. Agora, também por meio de um “escândalo”, nós somos comissionados como co-redentores.

Embora não seja uma questão semelhante a: “salve a líder de torcida, salve o mundo” [5], a controversa economia da redenção, contudo, também não sugere: “salve a humanidade, salve o mundo”.

Uma das palavras utilizadas no Novo Testamento para se referir à salvação (soteria) traz consigo tanto a ideia de livramento e liberação quanto de saúde e bem-estar. Portanto, a salvação é libertação de nossa desordem e também restauração para a saúde e florescimento. Não consigo imaginar uma imagem melhor a esse respeito do que os tipos de práticas salutares que Wendell Berry apresenta e celebra em sua recente coleção intitulada “Bringing It To The Table: On Farming and Food” [6]. Considere, por exemplo, o elogio que Berry faz aos agricultores Amish que vivem no nordeste do estado de Indiana, que estão “trabalhando para restaurar os solos que foram exauridos anteriormente por outras pessoas”. Esta é uma versão compacta de nosso chamado para redimirmos o mundo. Sistemas, instituições e práticas falharam crassamente em cuidar do solo (e dos animais que viviam dele), sugaram-no e espoliaram a terra sem restaurá-la. O erro – sim, o pecado – desses lucros ilícitos há de se revelar brevemente, pois tais sistemas e práticas vão contra o grão do universo. A própria criação nos diz que estamos fazendo as coisas de modo errado. Nesse caso, a redenção é tangível e concreta: a saber, na rotação de culturas, na fertilização do solo e na atenção àquilo que o solo “está querendo nos dizer”. O trabalho feito para se restaurar o solo exaurido está situado dentro de um estilo de vida – de fato, é um estilo de vida.

Graças sejam dadas a Deus, pois tal remissão, revitalização e labor cultural não estão apenas sob a responsabilidade dos cristãos. Embora a Igreja seja, de fato, o povo que foi regenerado e revestido de poder pelo Espírito Santo para as boas obras da criação da cultura, o antegosto da vinda do Reino não está confinado à Igreja. O Espírito Santo é pródigo em espalhar sementes de esperança[7]. Assim, nós experimentamos avidamente antegostos onde quer que encontremos essas sementes. O Deus criador e redentor apresentado nas Escrituras tem prazer na literatura judaica que alcança as profundezas do potencial da linguagem, no mercado muçulmano que coloca em ação o grão do universo, e nos casamentos estruturados de agnósticos e ateus. Nós também podemos ter essa iniciativa de Deus e celebrar essas mesmas coisas.

Mas com o que a redenção se assemelha? Na maior parte das vezes, você a reconhece quando a vê, uma vez que ela é semelhante ao florescimento. A redenção é semelhante a uma vida bem vivida. É semelhante ao modo como as coisas deveriam ser de fato; é semelhante a um pomar bem cultivado, carregado de frutos produzidos por antigas raízes; é semelhante ao trabalho que edifica a alma e traz deleite; é semelhante a um marido e sua esposa, já anciãos, rindo de maneira hilária com seus bisnetos. É semelhante a uma bailarina que alonga seu corpo até o limite, encarnando, assim, uma estonteante beleza nos músculos e tendões que se retesam com devoção. É semelhante ao aluno de graduação debruçado sobre um microscópio, explorando nichos e recantos naquela microcriação engendrada por Deus, e, desse modo, buscando maneiras de desfazer a maldição. É semelhante à abundância para todos.

A redenção soa como as surpreendentes cadências de um concerto de Bach, cujo ritmo parece fazer a alma se expandir. A redenção é semelhante a um escritório onde todos cantarolam com um senso de harmonia naquela missão, por vezes pontuado por risadas colaborativas. É semelhante aos grunhidos e gritos de um jogador de tênis, cujas técnicas “blistering serve” e “liquid forehand” são decretos[8] de coisas que não poderíamos jamais sonhar. A redenção soa como as questões de uma aluna da terceira série, cujo professor se interessa suficientemente pelo seu bem-estar de modo a instigar sua curiosidade, dando espaço para uma curiosidade santificada a respeito deste mundo bom criado por Deus. E soa até mesmo como o debate espirituoso de um jovem casal que está discernindo quais as implicações do fato de que seu casamento é uma amizade que representa a comunidade que Deus deseja (e que Ele é).

A redenção cheira como o tom de carvalho de um vinho Chardonnay produzido no vale de Napa que nos dá anseios nas papilas gustativas. Cheira como a terra debaixo de nossas unhas após plantarmos peônias e gérberas. Cheira a uma cozinha de inverno, repleta de vapor, onde uma família reunida está se preparando para a ceia. Cheira à sabedoria ancestral de um livro herdado de um avô, ou àquele “cheiro de rua” que o cachorro da família rescende nos meados de Novembro. Cheira ao ato de ir de bicicleta ao trabalho numa manhã nevoenta de primavera. Cheira até mesmo à salgada pungência do trabalho duro e àquele singular leque de odores que banha o nascimento de uma criança.

A redenção tem o gosto de uma colheita de outono que deu frutos, não obstante o labor afetuoso e o cuidado atencioso para com o solo e a plantas. Tem o gosto de um peru do Dia de Ações de Graças, cuja “natureza própria de peru” ganha vida a partir de seu próprio deleite animal ao ar livre. A redenção tem gosto da deliciosa amargura do lúpulo de uma bebida compartilhada com os amigos de um pub da vizinhança. Tem até mesmo o gosto de comer seus brócolis porque sua mãe te ama o suficiente para querer que você se alimente bem.

Portanto, a redenção se assemelha à poesia corporal de Rafael Nadal e o sorriso de menino de Brett Favre numa noite agradável; soa como as amáveis risadas de Paul e Julia Child, e cheira à cozinha desta; a redenção reverbera como as profundas performances de Yo-Yo Ma em seu violoncelo; parece com o verso frenético da poesia de Auden ou o deleite vivo dos versos leves de Updike; é semelhante ao cuidado compassivo de Paul Farmer ou Madre Teresa. A redenção pode se manifestar de forma espetacular, fabulosa e (quase) triunfante.

Mas na maior parte do tempo, a redenção delegada pelo Espírito Santo é semelhante àquilo que Raymond Carver chama “um coisinha boa” [9]. É semelhante ao nosso trabalho cotidiano bem-feito por amor, em ressonância com o desejo de Deus para Sua criação – contanto que nosso “trabalho pé-no-chão” esteja instalado como parte de uma contribuição para os sistemas e estruturas de desenvolvimento. A redenção é semelhante à realização de nosso dever de casa, ao preparar as merendeiras das crianças, à construção feita com qualidade e com a devoção de um artesão, e é também semelhante à elaboração de um orçamento municipal que discirna o que realmente importa e que, assim, contribui para o bem comum. Certamente que a redenção é o fim do apartheid, mas também as amizades, antes impossíveis, que foram forjadas nas circunstâncias que se seguiram. É um assento vago no ônibus para quem quer que seja[10], mas é também travar relações com meus vizinhos que são diferentes de mim. É nada menos do que tentar mudar o mundo, todavia isso começa em nossas casas, em nossas igrejas, em nossos bairros e escolas.

Não deveríamos ficar surpresos pelo fato de que a redenção nem sempre manifestar-se-á de modo triunfante. Se Jesus vem como o segundo Adão que molda o desenvolvimento da cultura redentiva, então, neste nosso mundo devastado, esse labor cultural apresentará uma forma cruciforme. Todavia, também assemelhar-se-á à esperança que tem fome da alegria e deleite [Jeremias 15:16].

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NOTAS:
[1] Deus nos confiou o desenvolvimento da criação para que pudéssemos explorar as potências latentes, enterradas pelo próprio Deus no seu mundo criado. É o que os neocalvinistas chamam de “Mandato Cultural”, baseado em Gênesis 1:28 e 2:17, e que se baseia na tarefa de trabalhar e desenvolver a cultura, visando a glória de Deus. Isso envolve a redenção da cultura, ciência, arte e intelecto, para que o Reino de Deus, que já está inaugurado mas não plenamente estabelecido, venha progressivamente se instaurar. Nas palavras de Von Gronigen: “O primeiro mandato que foi dado tem sido corretamente citado como sendo o mandato cultural. Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o. Todas as formas de vida na terra foram, de forma específica, colocadas sob a supervisão dos vice-gerentes humanos. Com esta responsabilidade, veio o privilégio de usar as plantas, seus frutos e sua semente para manter a vida e a energia para realizar as tarefas reais. A humanidade poderia responder obedientemente ao mandato cultural para a glória de Deus por causa da sua criação à imagem e semelhança de Deus. Deus, através da exposição deste mandato, colocou a humanidade em um relacionamento singular com o cosmos. Na realidade, foi um relacionamento de governador sobre o domínio cósmico. Mas este governo envolvia trabalho. O trabalho é, consequentemente, tanto um privilégio real como também uma responsabilidade.” (Gerard Van Groningen. In: Criação e Consumação, v. 1).
[2] Poiesis (no original grego: ποιεσις), segundo o Dicionário Heidegger, de Michael Inwood, significa: “o fazer, fabricação, produção, poesia, poema’, que, por sua vez, vem de poiein, "fazer". Aristóteles distingue poiesis, "o fazer" – que essencialmente possui um produto final, um poeima – de praxis, "ação" – que não possui. (p. 144). Sendo assim, a poesis é a capacidade criativa inerente ao homem, que trabalha a partir de um material preexistente, seja físico ou não (como no caso do poema que trabalha com a linguagem), dando-lhe uma forma final que pode ser apreendida pelo intelecto, abstração ou tato humanos. Deus deu ao homem essa capacidade de co-criar juntamente com Ele, a partir dos materiais que Ele disponibilizou ao homem.
[3] O termo “loucura” aqui utilizado trata-se, evidentemente, não de uma falta de reverência aos pensamentos e atitudes de Deus, mas, sim, de uma contraposição entre a Mente Divina e o bom senso humano, como o Apóstolo Paulo já havia dito: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1:25).
[4] Essa afirmação (gloria Dei homo vivens) de um dos mais proeminentes Pais da Igreja pode, num primeiro momento, chocar os neófitos ou aqueles que não se aprofundaram ainda no estudo teológico. Contudo, o contexto e o sentido mais profundo nos leva a compreender a beleza e ortodoxia da frase: combatendo os gnósticos, que depreciavam a parte física da Criação, incluindo o corpo humano, Irineu se levanta para dizer que o homem coroa a Criação de Deus, já que foi criado à Sua imagem e semelhança. E não apenas isso, o próprio Deus assumiu a condição humana, fazendo-se carne e habitando entre nós. Portanto, a afirmação de que Cristo, o Filho, é a glória de Deus (O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, Hebreus 1:3) não contradiz a afirmação de Irineu; antes, a complementa, pois Cristo, o homem perfeito, reflete a imagem e semelhança de Deus também perfeitamente. Segue-se daí que por ter cumprido plenamente a vontade de Deus, e por ter expressado claramente o caráter de Deus, Jesus Cristo é o homem que viveu e vive em plenitude, sendo tudo aquilo que Deus planejou e pretendeu para o homem. Portanto, Cristo, o homem que vive plenamente (pois dEle procede a própria Vida), é a glória de Deus.
[5] Referência ao seriado “Heroes”, no qual o personagem Hiro é avisado por seu “eu” do futuro de que a chave para a vitória dos heróis é “salvar a líder de torcida”. A frase “salve a líder de torcida, salve o mundo” torna-se, consequentemente o lema da série. A líder de torcida em questão é uma personagem que aparece posteriormente na narrativa, que também possui superpoderes. No texto em questão, o autor quer dizer que a economia da salvação, embora não seja limitada a apenas um indivíduo, também não se estende a toda humanidade, como postula o Arminianismo.
[6] A expressão “bring something to the table” (literalmente, trazer algo à mesa) significa fornecer algo que há de trazer um benefício. O título do livro faz um jogo de palavras com a questão de uma alimentação e cultivo saudáveis e os benefícios decorrentes desses hábitos.
[7] O autor faz menção à ideia de “sementes do Verbo” (logos spermatikoi), postulada por Justino, o Mártir, um dos pais apologistas. Esse grande filósofo cristão discorre em suas obras 1 e 2 Apologia e Diálogo com o Judeu Trifão que há sementes da Verdade em várias culturas e povos, mesmo naqueles que não foram iluminados com a revelação plena manifesta em Jesus Cristo. Joseph Ratzinger, em seu livro Padres da Igreja, observa a respeito do pensamento de Justino: “o projeto divino da criação e da salvação [...] se realiza em Jesus Cristo, o Logos, isto é o Verbo eterno, a Razão eterna, a Razão criadora. Cada homem, como criatura racional, é partícipe do Logos, leva em si uma "semente", e pode colher os indícios da verdade. Assim o mesmo Logos, que se revelou como figura profética aos Judeus na Lei antiga, manifestou-se parcialmente, como que em "sementes de verdade", também na filosofia grega. Mas, conclui Justino, dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do Logos na sua totalidade, origina-se que "tudo o que foi expresso de positivo por quem quer que seja, pertence a nós cristãos" (2 Apologia 13, 4).
[8] Decretos são as normas estruturais moldadas e configuradas por Deus e que são a base mesma da existência dos entes. Sendo assim, cada ente possui uma lógica e estrutura interna criada e determinada por Deus – daí a sua harmonia e substancialidade. Deus plasmou o universo com Sua Lei, de modo que ela não apenas governa sobre os entes, mas também nestes entes. A vocação do indivíduo humano é a norma gravada em seu ser pelo poder de Deus. Se cumprirmos nossa vocação, não apenas nos tornamos quem Deus planejou que fossemos, mas também estamos em total harmonia com a normatização da criação original.
[9] Nome de um conto de Raymond Carver.
[10] Referência a Rosa Parks, uma costureira norte-americana que se tornou símbolo do movimento dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos ao se recusar a ceder seu lugar no banco de um ônibus a um homem branco (que, naquela época segregacionista, tinham preferência sobre as pessoas negras), dando início, portanto, ao que ficou conhecido como “Boicote aos Ônibus de Montgomery”. Nessa parte do texto, o autor diz que a Redenção suprime essas barreiras (segregação étnica, social, política e cultural) criadas pelos efeitos do pecado na mente humana, pois o ensino bíblico é que “de um só sangue fez toda a geração dos homens” (Atos 17:26), e que todos, independentemente da cor de sua pele, condição social ou nacionalidade, foram criados à imagem e semelhança de Deus (Genêsis 1:27). Além disso, em Cristo, todos são reunidos em um só corpo chamado Igreja, na qual exercem funções primordiais e inseparáveis como membros, de forma que neste corpo místico “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

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Autor: James K.A. Smith
Fonte: CARDUS
Tradução: Fabrício Tavares
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Sexo ou Gênero?

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Temos acompanhado uma grande discussão nacional em torno da inclusão da ideologia de gênero no ensino público brasileiro. Todavia, será que estamos por dentro do verdadeiro significado dessa proposta?

No livro Sociologia em Movimento, Ed. Moderna, pags. 337ss. (distribuído pelo MEC para o ensino médio) consta que "O conceito de gênero não se fundamenta em um princípio evolutivo, biológico ou morfológico, e sim em uma construção social”, isto é, "uma construção cultural estabelecida socialmente através de símbolos e comportamentos, e não uma determinação de diferenças anatômicas entre os seres humanos" (p. 339).

Isso quer dizer que identidade de gênero é algo totalmente diferente de sexo, pois diz respeito a uma escolha do indivíduo quanto ao seu comportamento sexual e não à sua conformação sexual anatômica em si. A ideologia de gênero prega, na verdade, a formação de indivíduos sexualmente versáteis, que decidirão que tipos de comportamento sexual adotarão para a sua conduta pessoal.

Está em andamento uma apologia aberta ao fim da família como a conhecemos, com o propósito de se produzir a verdadeira igualdade e liberdade humana. Os proponentes da “identidade de gênero” acusam a sociedade patriarcal, da qual a igreja e a família estão no fundamento, como uma das principais explicações para a discriminação social, e que a forma de se reverter esse quadro social é por meio de uma reconstrução dos papéis sociais estabelecidos.

Nos escritos desses ideólogos sociais a “família burguesa” ou “família patriarcal” que precisa ser desconstruída é a família natural, formada por um pai-marido, uma mãe-esposa e por filhos, e substituída por uma “família” mais versátil, onde os papeis não sejam tão estruturalmente definidos.

Nas Escrituras, especialmente em Paulo, quando os problemas de relações humanas e familiares são tratados, os autores bíblicos remetem a base das relações para a criação (1 Co 7; Ef 5). Os papéis são definidos por Deus e organizados segundo o critério da ordem da criação.

As acusações de que todos os males sociais têm seu fundamento nessa ordem são falaciosas e grosseiras, pois o evangelho cristão sempre teve uma conotação libertadora dos indivíduos. Os erros apontados pelos críticos do modelo cristão ignoram que sua causa advém exatamente do pecado e suas conseqüências nefastas na vida das sociedades. Essa ousadia perniciosa em desobedecer e declarar maliciosamente a sua liberdade perante Deus.

A ideologia de gênero navega pelas mesmas águas que sempre navegaram as ideologias que negam a soberania divina sobre a criação. É um equívoco crer que a libertação dos sistemas cristãos promoverá mais igualdade entre as pessoas, pois a história sempre mostrou que o oposto é o que acontece: Mais opressão e mais totalitarismo.

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Autor: Rev. Helio de Oliveira Silva
Fonte: Anunciando Todo o Desígnio de Deus

Para saber mais sobre a ideologia de gênero, clique aqui!
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O Pentecostalismo e seus Danos à Igreja de Deus

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A. Os Três Perigos

Ao longo de sua história, a igreja cristã tem enfrentado três graves perigos: o paganismo, o papismo e o pentecostalismo.

O paganismo ameaçou a igreja logo nos primeiros anos de sua existência, especialmente por meio de um misto de religiões, filosofias e fábulas que mais tarde ficou conhecido como gnosticismo. Esse modelo exercia forte atração sobre os cristãos menos preparados porque, além de oferecer experiências místicas, como visões e coisas do tipo (Cl 2.18), também impunha aos seus seguidores normas de conduta que pareciam piedosas — regrinhas como “não pode isso”, “não pode aquilo” (Cl 2.20-23). O maior atrativo do gnosticismo, porém, estava na alegação de que seus adeptos formavam uma elite espiritual detentora de um grau de espiritualidade e conhecimento (gnosis) que outras pessoas eram incapazes de ter.

O papismo, por sua vez, desenvolveu-se em decorrência de processos muito mais longos e complexos, iniciados já no século 2, e que culminaram no surgimento de uma espécie de príncipe eclesiástico com autoridade universal, supostamente dotado de infinitos poderes temporais e espirituais — uma espécie de deus, reconhecido, aliás, como infalível!

Por causa do papismo, a igreja medieval ficou muitas vezes nas mãos de homens inescrupulosos, imorais e corruptos que, em nome de Cristo e em benefício próprio, cometeram atrocidades como as guerras das Cruzadas, os crimes da Inquisição e a exploração impiedosa do povo por meio da venda de relíquias e de indulgências. O caos e a vergonha a que o papismo lançou a igreja deram ensejo à Reforma Protestante do século 16.

O terceiro perigo, o pentecostalismo, é de todos o mais recente e também o mais danoso, posto que abriga elementos dos dois primeiros e, conforme será demonstrado, trouxe prejuízos para o cristianismo que nem mesmo os piores inimigos da fé foram capazes de causar nesses 2 mil anos de história eclesiástica.

O surgimento do movimento pentecostal geralmente é datado de 1906, ano em que William Joseph Seymour, um pregador afro-americano, iniciou reuniões num barracão na Rua Azuza, número 312, em Los Angeles, EUA. Nessas reuniões, a ênfase era a busca do batismo com o Espírito Santo, o que Seymour cria ser uma experiência mística pós-conversão, acompanhada pelo falar em línguas.

Ora, a Bíblia ensina que o batismo do Espírito Santo é dado a todos os crentes, sem que eles precisem se esforçar para obtê-lo (1Co 12.13; Gl 3.2). Também ensina que isso ocorre no momento da conversão (Ef 1.13), sem nenhuma necessidade de ser evidenciado pelo dom de línguas, já que, na Igreja Primitiva, esse dom era dado somente a alguns (1Co 12.30).

Contudo, os seguidores de Seymour criam que o batismo do Espírito Santo era uma espécie de segunda bênção (a primeira bênção seria a conversão) dada por Deus somente a quem a buscasse com orações, jejuns, clamores, lágrimas e vigílias. Por isso, testemunhas oculares relataram que, na Rua Azuza, as pessoas passavam dias e noites gritando, chorando, gemendo, uivando, pulando, girando e se contorcendo, enquanto clamavam pela “bênção”. Já os que eram “batizados” balbuciavam o que criam ser línguas estranhas e, em êxtase, caíam no chão onde ficavam rolando ou se sacudindo, numa manifestação frenética de loucura total. Outros, ainda, desmaiavam e ficavam deitados por horas a fio, inertes como se estivessem mortos.

Tudo isso, pensavam, era necessário e valia a pena, pois o batismo do Espírito Santo, uma vez recebido, elevaria o crente a um novo e mais rico patamar espiritual, tornando-o participante de uma elite de homens santos e fazendo-o desfrutar de uma vida repleta de experiências poderosas e arrebatadoras com Deus.

Foi dito aqui que o primeiro grande perigo que ameaçou a igreja de Cristo foi o paganismo manifesto em doutrinas gnósticas. Pois bem… O pentecostalismo demonstrou ser um dos maiores danos que já sobrevieram à igreja porque, com sua ênfase numa doutrina jamais ensinada nas Escrituras, trouxe de volta para o cristianismo precisamente aquelas velhas noções pagãs, apegando-se ao êxtase, ao frenesi espiritual e, especialmente, ao principal conceito gnóstico da existência de uma elite espiritual que se situa acima dos crentes comuns.

Então, como ocorreu com o gnosticismo nos séculos 1 e 2, a possibilidade de provar emoções novas e de fazer parte de uma elite espiritual fez com que o pentecostalismo atraísse uma imensa massa de pessoas ignorantes, ávidas por experiências místicas e sedentas por conquistar o reconhecimento e a admiração dos seus correligionários.

Conforme dito anteriormente, a segunda maior ameaça sofrida pela igreja ao longo dos séculos foi o papismo. Ora, o pentecostalismo também não deixou de fora os principais elementos desse mal. Com efeito, além de trazer novamente para a igreja de Cristo o velho paganismo combatido pelos pais apostólicos do século 2, o movimento pentecostal trouxe também para a igreja evangélica o velho papismo combatido pelos reformadores do século 16. A diferença é que o papismo pentecostal é um papismo piorado.

De fato, se no romanismo foi acolhida a figura de um papa apenas, no movimento pentecostal ocorreu a diabólica proliferação de um exército de pequenos papas locais, todos reivindicando autoridade divina e infalibilidade absoluta sob os títulos de bispo, apóstolo, profeta ou patriarca.

Com incrível ousadia, todas essas figuras alegam que Deus lhes fala diretamente e, à semelhança dos pontífices medievais, não aceitam que suas opiniões ou condutas sejam questionadas por ninguém e em nenhum grau. Também à semelhança dos papas renascentistas, esses facínoras exploram a boa-fé do povo e juntam tesouros para si, vendendo quinquilharias que dizem ser santas e dotadas de poder. Na verdade, isso acontece hoje numa escala tão grande que é fácil concluir que os papas medievais, em termos de engano e estelionato, teriam muito que aprender com os pequenos papas da atualidade que reinam soberanos nas igrejas pentecostais.

Β. Uma fábrica de seis males

Se o pentecostalismo abriga elementos do paganismo e do papismo, há também outras razões muito mais perceptíveis que comprovam que essa vertente dita evangélica é um risco terrível para a causa cristã. Para expor essas razões, basta descrever o pentecostalismo como uma fábrica de seis males: heresia, superstição, falsos irmãos, hipocrisia, desordem e desilusão. Neste artigo serão expostos somente os dois primeiros males. Os demais serão abordados na parte 3 desta série.

Por que podemos afirmar seguros que o pentecostalismo é uma fábrica de heresias? A resposta é simples e lógica: Crendo que Deus fala diretamente aos seus apóstolos e profetas, bem como àqueles que foram agraciados com a “segunda bênção”, os pentecostais não valorizam o estudo teológico, a exegese ou mesmo as lições mais elementares da hermenêutica bíblica. Para que — dizem eles — se afadigar na análise do texto bíblico, no aprendizado das línguas originais ou na leitura de obras de profundidade doutrinária se Deus nos fala diretamente? Aliás, no afã de ressaltar essa fábula, alguns pastores mais criativos deixam uma cadeira vazia ao seu lado no púlpito, afirmando que aquele lugar é ocupado por um anjo ou pelo próprio Espírito Santo que, pondo-se ao seu lado, sussurra as coisas que ele deve dizer à multidão.

Agravando essa situação, grande parte dos líderes pentecostais se opõe ferozmente ao estudo da teologia, dizendo que “a letra mata” (2Co 3.6). Ora, o fácil contexto dessa citação é suficiente para mostrar que Paulo fala ali da Lei Mosaica (a letra) e seu impacto mortal sobre aqueles que tentam ser justificados através da sua observância. Para os pentecostais, porém, nesse texto, Paulo, justamente o apóstolo mais estudioso do Novo Testamento (At 26.24), reprovava o dedicado estudo da Palavra de Deus!

O resultado dessas proezas é que o pentecostalismo acaba sendo um prato cheio para os que se deleitam na preguiça intelectual e dá ensejo para que homens sem preparo, seguindo as imaginações de seu próprio coração e chamando tudo o que lhes vêm à mente de “revelação”, ensinem aos seus seguidores absurdos que vão desde as tolices mais chocantes até as heresias mais deploráveis e destruidoras. Na verdade, esse fato é tão notável e evidente que qualquer crente com conhecimento teológico básico sabe que é mais fácil encontrar um dente na boca de um torcedor corintiano do que uma frase de alto valor doutrinário na boca de um pastor pentecostal.

De fato, poucas vezes na história do pensamento cristão existiu uma fábrica de heresias tão produtiva como o pentecostalismo. Há algum tempo eu adquiri o grau de mestre (Th.M) em teologia histórica e posso afirmar depois de muitos anos de estudo que nem Márcion, o arqui-herege do século 2, nem os montanistas, nem os defensores da cristologia heterodoxa que ameaçou a igreja nos séculos 4 e 5, nem os cátaros, nem o catolicismo medieval, nem os radicais da época da Reforma, nem as seitas pseudocristãs da atualidade superaram o pentecostalismo na produção de doutrinas blasfemas, desvios teológicos, erros de interpretação, ensinos destruidores, lições vergonhosas e propostas antibíblicas.

Quem duvida, deve estudar esses movimentos e compará-los com as aberrações que dia após dia brotam dos púlpitos pentecostais. Sem dúvida, o crente sincero se sentiria mais à vontade numa missa dirigida pelo Papa Inocêncio III do que num “culto de libertação” realizado por pentecostais. Se bem que, na verdade, o melhor mesmo seria não comparecer em nenhuma das duas reuniões.

O segundo mal que a máquina pentecostal produz incansavelmente é a superstição. Mais uma vez, a noção de que Deus fala diretamente a seus profetas, revelando coisas novas a cada dia, fez com que o pentecostalismo abrisse as portas para o misticismo religioso, repleto de crendices toscas inventadas por pessoas que diziam ter recebido uma “revelação” qualquer.

Os reformadores do século 16 afirmavam que a superstição é filha da ignorância. Assim, sem conhecer a doutrina bíblica e fiando-se nas ilusões de inúmeros sonhadores, os pentecostais passaram a acreditar em frases mágicas (“eu determino”, “tá amarrado”; “eu tomo posse”, “eu não aceito…”), em rituais de quebra de maldição, na força maior de orações feitas de madrugada, no poder de objetos ungidos com óleo de cozinha e até em água milagrosa obtida por meio de um copo deixado sobre o aparelho de TV durante a transmissão de um programa evangélico qualquer.

Percebendo a facilidade com que as massas criam nessas fábulas, homens perversos e impostores foram atraídos para o meio pentecostal onde conquistaram facilmente postos de liderança (para se destacar no meio pentecostal basta gritar, sapatear e rodopiar bastante). Então, movidos pela ganância, esses homens inventaram ainda mais superstições, criaram um amplo comércio de relíquias muito semelhante ao que a igreja católica explorou na Idade Média e enriqueceram vendendo cacarecos ungidos para o povo iludido, prometendo saúde e prosperidade por meio dessas coisas (2Pe 2.1-3).

A massa desesperada seguiu esses golpistas, acreditando que sua vida ia melhorar e, então, os salões pentecostais ficaram lotados. Foi assim que o pentecostalismo fez com que a igreja do Senhor recebesse a fama de um covil de ladrões e a maravilhosa fé cristã, exposta e defendida por gigantes e santos do passado, ficasse com a pecha de uma religião de feiticeiros, muito semelhante à macumba, ao candomblé, ao baixo catolicismo e ao fetichismo de tribos primitivas. Com efeito, nenhuma outra estratégia do diabo foi capaz de emporcalhar tanto o santo nome da igreja de Deus.

O terceiro mal que o pentecostalismo fabrica incessantemente são os falsos irmãos. Infelizmente, ao contrário do que muitos pensam, um número enorme de pentecostais jamais conheceu a salvação anunciada no verdadeiro evangelho. Isso acontece especialmente porque quem se filia a esse movimento geralmente o faz em busca dos milagres de Cristo e não do seu perdão. Porém, outra causa para o grande número de incrédulos dentro dessa vertente evangélica está no fato de que os pentecostais acreditam piamente na heresia arminiana da perda da salvação.

Consequentemente, ainda que afirmem em teoria que a salvação é somente pela fé em Cristo, na prática, os pentecostais vivem tentando se manter salvos por meio da religiosidade aparente, das práticas rituais e da observância de regrinhas inventadas pela igreja. Por incrível que pareça, muitos deles chegam a acreditar que preservam a salvação porque não deixam a barba crescer ou porque nunca vestiram uma bermuda!

Tudo isso mostra que muitos pentecostais jamais entenderam as Boas Novas de Cristo, sendo apenas incrédulos cheios de medo tentando melhorar de vida ou buscando ser salvos pelo esforço próprio.

Obviamente, essa presença enorme de falsos crentes no meio evangélico, produzida especialmente pelo movimento pentecostal, é uma das principais causas do descrédito a que foi lançado o cristianismo nos tempos modernos.

A hipocrisia é o quarto mal que a máquina pentecostal fabrica. A ênfase numa espiritualidade marcantemente exterior, com gritos, pulos e quedas no chão, deu espaço para constantes representações teatrais. Com efeito, simulando o que chamam de “transbordar do Espírito”, muitos pentecostais sapateiam, rodopiam e se contorcem como loucos, tudo para convencer os outros de que são fervorosos espiritualmente. Também a altíssima valorização do falar em línguas impeliu esse povo ao fingimento, levando-os a repetir, por conta própria, três ou quatro sílabas desconexas a fim de dar a impressão de que foram agraciados com o maravilhoso dom descrito em Atos 2 (muitos deles, depois de “falar em línguas de anjos” no domingo, falam a língua dos demônios durante a semana na forma de palavrões!). Buscando ainda status dentro da igreja, muitos pentecostais fingem profetizar, quando, na verdade, somente dizem qualquer coisa que lhes venha à mente e que possa estar relacionada à vida alheia. Naturalmente, todo esse teatro é facilmente percebido por qualquer pessoa normal, o que transforma a fé cristã em motivo de piadas aos olhos dos incrédulos.

O quadro descrito acima desemboca facilmente no quinto mal produzido pelas igrejas pentecostais: a desordem. Nem num hospício, nem num desfile de carnaval, nem na Câmara dos Deputados em Brasília é possível ver e ouvir as loucuras e sandices que se veem e ouvem num culto pentecostal. Ali uns riem, outros uivam; uns correm de lá para cá, outros rolam no chão; uns dançam, outros oram aos gritos… No final, dizem que tudo isso é fervor ou ação do Espírito Santo. Pra piorar, os pentecostais ainda afirmam que a igreja ordeira, centrada no estudo da Palavra, marcada por decência, reverência e santo temor é, na verdade, fria e precisa aprender muito com eles se quiser amadurecer na vida cristã!

Finalmente, o sexto mal que se origina no pentecostalismo é a desilusão. Ouvindo profecias vazias e revelações inventadas, muitas pessoas criam esperanças que jamais se cumprem e que as lançam, enfim, num poço de frustração. Quando isso acontece, para agravar a situação, mestres impostores as atormentam ainda mais, dizendo que as ditas profecias não se cumpriram por causa da falta de fé. Então, além de frustradas, essas pessoas passam a se sentir também culpadas, vivendo infelizes pelo resto da vida.

Outros, seguindo orientações que lhes disseram ter sido reveladas por Deus, tomam decisões ou praticam coisas que acabam por destruir sua família, seu casamento, sua juventude, seu futuro, sua saúde, sua carreira e seu patrimônio. Quando, enfim, despertam para isso, percebem muitas vezes que é tarde demais.

Há ainda aqueles que, numa busca escravizadora pelo que acreditam ser o batismo do Espírito Santo, entregam-se a um rigorismo cruel que os priva do lazer (cinema é pecado!), do conforto (mulher de calça comprida? Nem pensar!), do alegre convívio com os filhos pequenos (ir à praia com eles seria pura carnalidade!) e até dos prazeres do leito conjugal. No fim de tudo, ao descobrirem que nada disso teve qualquer proveito, passam a se lamentar frustrados, percebendo que foram enganados, que a vida passou e que aquilo que perderam não pode mais ser recuperado.

Veem-se, assim, quão horríveis são os males causados pelo pentecostalismo. Como evitá-los? Como fugir deles? Esse será o tema do último artigo desta série.

C. Ressalvas e Opções

Muitas pessoas vão dizer que nesta série de artigos eu faço confusão entre pentecostalismo e neopentecostalismo. Dirão que, na verdade, é somente o neopentecostalismo que realiza os abusos que tenho enumerado, estando o pentecostalismo “clássico” livre disso tudo.

Esse parecer resulta de certas distinções que foram feitas no passado entre o chamado pentecostalismo de “primeira onda” (com ênfase no batismo do Espírito acompanhado de línguas estranhas), o pentecostalismo de “segunda onda” (com ênfase em curas e milagres) e o da “terceira onda” (que adota a teologia da prosperidade). Sem dúvida, essa distinção tem certo valor como forma de classificação que auxilia a análise histórica do movimento. Contudo, a observação do cenário atual mostra que, na prática, a referida diferenciação tornou-se obsoleta, não fazendo mais qualquer sentido.

Com efeito, como acontece em qualquer praia em que uma “onda” logo se mistura com a outra, o mesmo ocorreu com o pentecostalismo. Por isso, hoje é possível perceber que a “primeira”, a “segunda” e a “terceira onda” se mesclaram, viraram uma vaga só, espumando heresias, confusões, fraudes, escândalos e hipocrisias. Assim, a diferença entre pentecostalismo e neopentecostalismo, se houver, poderá talvez ser encontrada na eventual ênfase que cada igreja em particular dá a um erro específico. Na base, porém, todo o movimento se iguala, pois as comunidades que o compõem adotam os mesmos pressupostos, praticam e pregam basicamente as mesmas coisas, afirmando a crença na “segunda bênção”, nas revelações e nos portentos supostamente concedidos por Deus aos seus falsos apóstolos e profetas ilusórios.

Feita essa ressalva, importa agora voltar a atenção para os crentes em Cristo que se encontram nas igrejas pentecostais. Sim, há cristãos de verdade nessas comunidades. Eu conheço muitos deles. Trata-se de irmãos em Cristo que percebem que algo está errado, que sentem a falta de alimento sólido, que observam inconformados aquelas manifestações fingidas de arrebatamento espiritual, que sofrem percebendo a ação de espertalhões e a santidade hipócrita de quem louva a Deus com gritos mas tem a vida suja (Is 29.13).

São irmãos que, à vezes, se sentem culpados, pensando: “Será que o errado sou eu? Será que não tenho fervor? Será que Deus está realmente agindo aqui e só eu não estou vibrando? Por que não sinto vontade de gritar e pular? Por que não consigo falar em línguas? E quanto a essas profecias, curas e orações barulhentas? Será que só eu percebo que são forçadas?”.

Tive contato com muitos irmãos amados que enfrentaram esses dilemas no meio pentecostal e que hoje estão num aprisco bíblico. Outros, porém, geralmente por causa de vínculos sociais e afetivos, ainda vivem nesse meio, mesmo se sentindo incomodados e pouco à vontade. Para esse crentes de verdade, creio haver quatro opções:

1. Permanência com influência: Nessa primeira opção, o crente permanece na igreja em que está, tentando mudar as coisas. Trata-se de uma decisão nobre, mas a experiência mostra que tem poucos resultados. Ademais, essa opção tem se mostrado perigosa, pois, geralmente, com o passar do tempo, os crentes que a adotam ficam indiferentes diante do erro. Aos poucos, sem que percebam, tornam-se menos rígidos em seus julgamentos. A constante e tácita convivência com a mentira faz com que, para eles, o mal se torne normal (e até engraçado). O resultado final é que, sem alimento espiritual e com as faculdades amortecidas, seu testemunho entra em colapso, seu casamento começa e enfrentar crises e seus filhos, quando crescem, correm para o mundo, dizendo que tudo na igreja não passa de representação barata.

2. Ecclesiola in ecclesia: Essa expressão significa “pequena igreja dentro da igreja” e foi usada especialmente pelos puritanos da Inglaterra para se referir a pequenos grupos de crentes verdadeiros que se reuniam para cultuar a Deus de maneira correta, sem, contudo, se desligar da igreja maior, cheia de erros, à qual pertenciam. Essa opção pode ser útil, especialmente porque uma ecclesiola seria um bom lugar para levar o visitante, sem passar vergonha. Além disso, talvez seja uma forma de obter alimento verdadeiro. Porém, essa alternativa é perigosa porque pode gerar orgulho espiritual ou até mesmo uma forma de elitização. Ademais, a liderança da igreja maior se indisporá com grupos assim e os problemas serão inevitáveis.

3. Formação de uma nova igreja por um grupo: A vantagem dessa opção é o surgimento quase imediato de uma igreja séria. Porém, os perigos dessa medida a tornam desaconselhável. Isso porque a nova igreja nascerá com a fama de dissidente, enfrentando a forte oposição da igreja de origem. Esta, em regra, não poupará esforços para caluniá-la, enfraquecê-la e até destruí-la. Ainda que possa sobreviver a tudo isso, o sofrimento decorrente dessas investidas deixará marcas que poderiam ser evitadas caso fosse adotado um modo de agir diferente.

4. Saída individual pacífica: De todas as alternativas, essa é a melhor. Nessa opção, o crente simplesmente se desliga da comunidade maculada em que se encontra e se filia a uma igreja séria, onde poderá nutrir comunhão com seus irmãos e cultuar a Deus longe de escândalos, encenações e badernas. Na igreja que pastoreio tenho várias ovelhas que, pertencendo a comunidades pentecostais no passado, tomaram essa iniciativa e hoje fazem parte do nosso rol de membros. O senso de terem achado finalmente o seu lar, a alegria de aprender a Palavra de Deus a partir da hermenêutica sadia e o alívio de terem se livrado de um ambiente eclesiástico nocivo, repleto de excessos e de maluquices, fazem desses irmãos os mais gratos e vibrantes crentes que há no nosso meio.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Igreja Batista Redenção
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