Deixando “R.I.P.” descansar em paz

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Eu tenho grande admiração pelos não cristãos que contribuíram para a melhoria da sociedade através das suas invenções, produção, liderança, literatura e arte. Recentemente, minha esposa e eu estávamos refletindo a respeito das notáveis maneiras pelas quais os trabalhos de Steve Jobs ajudaram a mudar o mundo em que vivemos. Eu amo muitas das belas obras de arte e música que foram produzidas por artistas seculares e, eu não quero, nem por um segundo, crer que devemos nos isolar do uso e desfrute das contribuições dos autodeclarados descrentes no mundo que nos cerca. Caso contrário, como declarou o apóstolo Paulo, teríamos “de sair do mundo” (1Co 5.10). Existe um princípio de graça comum em ação no mundo, pelo qual Deus permite que homens beneficiem uns aos outros, tornando a vida neste mundo caído um pouco menos dolorosa do que, de outra forma, ela seria.

Dito isto, tenho notado uma tendência preocupante nos últimos anos. Trata-se da maneira pela qual os crentes falam a respeito dos indivíduos que causam impacto na cultura com as suas mortes. Em vez de simplesmente expressarem apreço por suas vidas e realizações, tornou-se lugar-comum para os cristãos usar nas redes sociais a abreviatura R.I.P (“Rest In Peace”), ao falar sobre a morte desses indivíduos – em cujas vidas não houve evidência de graça salvífica. Correndo o risco de parecer mal-humorado, gostaria de expor algumas razões pelas quais estou preocupado com essa tendência.

Primeiro, quando empregamos a abreviatura R.I.P., estamos, inevitavelmente, admitindo uma condição ou estado inseparavelmente ligado à ideia de vida após a morte. Não estamos falando de algo indiferente à verdade do porvir. Alguém poderia retroceder neste ponto, sugerindo que R.I.P. nada mais é do que uma maneira de expressar apreço pelas realizações de uma pessoa. Contudo, enquanto certas palavras e frases podem ser fluidas em seu significado (por exemplo, “adeus” assumiu um significado diferente do seu antigo sentido em inglês: “Deus esteja com você”), “descanse em paz” dá a sensação de que o falecido está “num lugar melhor” – um lugar de descanso e paz. Se nos preocupamos com a salvação eterna dos homens, e se eles estão ou não confiando em Cristo somente para a vida eterna, então, devemos evitar, cuidadosamente, dar a impressão de que acreditamos em qualquer forma de universalismo.

Segundo, como cristãos, devemos nos revoltar com a ideia de “orar pelos mortos”, uma vez que não há uma única gota de apoio bíblico para tal ideia. Quando dizemos “descanse em paz”, corremos o risco de dar a impressão de que estamos orando pelo falecido – seja por autodenominados incrédulos ou por crentes autodeclarados. Por si só, isso deveria nos fazer dar uma pausa para decidirmos abandonar a prática.

Terceiro, as Escrituras ensinam, de maneira muito clara, a natureza onerosa tanto da paz como do descanso. A narrativa bíblica é sobre o descanso redentivo que Deus prometeu conceder através da vida, morte, ressurreição, ascensão, intercessão e retorno de Cristo (Mt 11.28-30; Hb 4.1-10). O descanso escatológico que Jesus adquiriu para os crentes lhe custou o preço do seu sangue (1Co 6.20; 1Pe 1.19). Além disso, as Escrituras são claras sobre não haver paz para os perversos (Is 48.22; 57.21). O Senhor advertiu através dos profetas, a respeito da mensagem dos falsos profetas: “Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6.14; 8.11). As Escrituras deixam bem claro que Deus comprou a paz apenas “pelo sangue da sua cruz” (Cl 1.20). O descanso e a paz pelos quais devemos passar – tanto para nós como para os que nos rodeiam – estão fundamentados na natureza da Pessoa e morte expiatória de Jesus. Se os homens passaram a vida rejeitando o Evangelho e não professaram a fé em Jesus, não deveríamos lhes oferecer paz e descanso póstumos. Isso coloca em risco a natureza da exclusividade de Jesus e do Evangelho – mesmo que esta não seja a nossa intenção.

Isto não quer dizer que os crentes devem ser apressados ou sem caridade na maneira como falam da morte daqueles que, provavelmente, morreram em incredulidade – ou que devemos falar de tal maneira que indique que sabemos com certeza aonde alguém foi quando morreu. Seguramente, temos consolo e alegria quando alguém que professou fé em Cristo – e em cuja vida houve fruto de que ele estava em Cristo (Mt 7.16,20), deixou esta vida. É o grande conforto dos crentes saber que os seus irmãos estão agora “descansando em paz”, que eles “descansam em Jesus” (1Ts 4.14). O Antigo Testamento fala dos crentes como sendo “reunidos ao seu povo” na hora da morte (Gn 25.8,17; 35.29; 49.29,33). Isto é reservado apenas para os crentes. Isto está em contraste com o modo como as Escrituras falam dos incrédulos em suas mortes. No entanto, quando perguntados sobre aqueles que nunca professaram fé em Cristo – alguém que passou a maior parte de sua vida aderindo a alguma religião falsa em particular – devemos lembrar que nenhum de nós conhece o que Deus, o Espírito Santo, faz nos corações de homens e mulheres momentos antes das suas mortes. Nenhum de nós sabe se a graça regeneradora de Deus veio no momento final; e, portanto, devemos apenas procurar, agora, alertar os vivos a respeito da ira, com o objetivo de manter a esperança da graça redentiva em Cristo.

Em dias nos quais a doutrina bíblica do inferno desapareceu virtualmente dos púlpitos em todo lugar, e as convenções sociais do nosso tempo exigem uma linguagem aparentemente mais agradável do que aquela que as Escrituras exemplificam e exigem, devemos proceder com um grande exame pessoal do que estamos dizendo e a razão de estarmos dizendo o que estamos dizendo. Devemos pesar as implicações do nosso discurso, tanto na forma verbal e escrita, lembrando que o mesmo Jesus que disse “vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.28-29), também disse, “que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36).

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Autor: Nick Batzig
Fonte: Reformation 21
Tradução: Rev. Alan Rennê
Divulgação: Bereianos
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Pecado, Graça Comum e Significado: Semântica pós-lapsária na Filosofia da Ideia Cosmonômica

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O objetivo deste texto é demonstrar a formulação Dooyeweerdiana sobre a questão do significado metafísico após a Queda adâmica. 

Herman Dooyeweerd (1894-1977) inicia sua Obra filosófica madura (A new critique of theoretical thought – NC) com uma crítica transcendental do pensamento teórico. O conteúdo restante do primeiro Volume é uma extensa crítica a história do pensamento teórico Ocidental. Os outros dois Volumes são articulações positivas de sua filosofia, principalmente sua ontologia com a inovadora ideia da teoria dos aspectos modais.

Em relação ao Significado, Dooyeweerd diz: “Significado é o ser de tudo o que é criado, até mesmo da natureza da nossa própria identidade, tendo raízes religiosas e origem Divina” (NC, Vol I. p. 4; TA). Portanto, dentro de um quadro teórico bíblico de “Criação-Queda-Redenção”, Dooyeweerd não afirma que a realidade meramente “possui” significado, ou que o significado é atribuído por um eu subjetivo humano, que em sua arbitrariedade postula significa à criação, como se essa fosse uma espécie de “tabula rasa” ou uma lousa em branco esperando alguém produzir significado em seu esvaziamento semântico. Pelo contrário, Dooyeweerd diz que as coisas SÃO significado, e a Origem desse significado é o próprio Deus.

Isso levanta uma problemática dentro dos próprios pressupostos de Dooyeweerd. Se as coisas são significado, e o pecado afetou drasticamente a criação, como fica a relação Significado-Realidade após essa virada pecaminosa?

O filósofo reformado Holandês responde a esse problema no segundo Volume do NC (§4). Dooyeweerd diz que, no tocante a sua natureza humana, Cristo é a raiz da criação renascida, e como tal, a própria plenitude do Significado, o fundamento criacional do significado em toda a realidade temporal. Mas nosso mundo temporal, em sua raiz religiosa apóstata está debaixo da maldição de Deus e da maldição do pecado.

HD continua seu raciocínio dizendo que há uma antítese radical no lado-Sujeito da raiz do cosmo terreno, podendo essa antítese ter sido reconciliada na redenção de Jesus Cristo. Mas o problema continua, pois na nossa realidade temporal, a implacável luta entre o reino de Deus e o reino das trevas prosseguirá até o fim do mundo. O pecado afetou nosso Cosmo em sua própria raiz e em sua refração temporal de significado. Isso não seria motivo suficiente (ou final) para diferenciarmos Significado da Realidade? A antítese radical entre o Reino de Deus e o das trevas não nos compele a aceitarmos o dualismo último entre a realidade e o significado? Será que a realidade pecaminosa ainda é significado?

Para HD, esse é o problema mais profundo da Filosofia Cristã, que necessariamente deve se apoiar na revelação Divina se não quiser cair na atitude da Filosofia imanente. Portanto nossa única garantia de resposta deve provir das Escrituras. Não sabemos como seria a realidade se ela fosse plenamente afetada pelo pecado irrestritamente. Mas graças a Deus esses efeitos desimpedidos não existem em nosso Cosmo terreno. O que nós sabemos é que a totalidade dos efeitos do pecado não rompe a dependência da criação com seu Criador, que em Sua justiça Divina, irá expressar sua reprovação a essa criação de um modo terrível e que, nesse processo, a realidade depravada somente pode mostrar seu modo de ser criacional como Significado. Será Significado em sua apostasia absoluta debaixo da maldição da ira de Deus, não podendo ser nessa própria condição, uma realidade sem significado.

A realidade pecaminosa permanece significado apóstata debaixo da lei e da maldição de Deus. No nosso Cosmo temporal a Graça Comum de Deus se revela (como Kuyper reiteradamente afirma) na preservação da ordem desse Cosmo. E é nessa Graça Preservativa que a refração temporal de significado permanece intacta. 

Nosso mundo caído não pode manter seu significado aparte de Cristo e da Graça comum. Portanto, para concluirmos, Dooyeweerd diz que não há nenhuma parte do espaço, não há nenhuma vida temporal, nenhum movimento temporal nem energia temporal, nenhum poder, sabedoria, beleza, amor, fé ou justiça que essa realidade pecaminosa pode manter como sua própria propriedade sem Cristo Jesus, em Quem a realidade encontra sua plenitude de significado e através de Quem Deus nos dará todas as coisas. O mundo temporal resiste à destruição do poder maligno do pecado pela Graça comum de Deus em Cristo.    
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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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A melhor forma de governo

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No último capítulo indicamos as principais funções do estado segundo a concepção calvinista. Neste capítulo demonstraremos que tipo de estado o calvinista poderia considerar ideal – o que é ordenado por Deus – para consumar as suas funções. Se o mundo não tivesse caído em pecado não haveria a possibilidade da incerteza quanto à forma ideal de estado. Este seria um estado mundial, um império mundial: o Reino de Deus. A forma de governo seria monárquica, com Adão à cabeça do império. Na nova terra haverá outras vezes um império mundial sob o segundo Adão – como rei. Mas nesta terra de pecado não poderá se estabelecer o estado mundial disposto por Deus. Para minimizar de algum modo a corrupção do homem, na torre de Babel, Deus dividiu os povos da terra em diferentes nações e línguas. Todavia, vários foram os intentos para conseguir um império mundial. O Anticristo com o recurso da força tratará de estabelecer um império; mas, este império será destruído por Cristo. Pode se dizer que Calvino favoreceria a formação de estados não tão extensos e poderosos, para que assim pudesse eliminar o perigo inerente em toda concentração excessiva de poder governamental. 

Cosmovisão Reformada (3/3) - Redenção

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REDENÇÃO

A restauração da criação exigirá um trabalho inspirado pelo Espírito Santo de construção de instituições de cuidado e de hábitos revitalizantes.

Que amor é esse que assume tais riscos?

O Deus do pacto de Israel e Pai de Jesus Cristo é um Criador pródigo e inventivo, que – no que pode nos parecer quase loucura – confiou o cuidado e o desenvolvimento[1] da criação a nós, Suas criaturas, comissionadas como portadoras de Sua imagem.

Comissionados e dotados de forma a cumprir essa missão de cultivo da imagem de Deus, nós trabalhamos e descansamos, fazemos amor e arte, cultivamos a terra e transformamos seu fruto no pão nosso de cada dia ao mesmo tempo em que concretizamos nossos sonhos mais extravagantes em catedrais e arranha-céus. Essa criação da cultura de portador da imagem [de Deus] será mais frutífera quando tomar para si a responsabilidade do grão do universo – isto é, quando nosso trabalho e lazer forem semeados nos “sulcos” das normas vivificantes de Deus.

Portanto, a criação vem acompanhada de uma missão e uma vocação. Sermos portadores da imagem de Deus é uma tarefa e uma responsabilidade confiada às criaturas. Se Deus criou a partir do e para o amor, então Ele também nos criou com o convite para amar o mundo e, desse modo, promover o seu – e o nosso – florescimento.

Contudo…

Nós confessamos – e muito frequentemente experienciamos – uma ruptura nessa alegre visão do amor criativo. Embora o amor autossacrificial de Deus nos tenha confiado o cuidado e cultivo de Sua criação, a humanidade tomou posse disso como se fosse um direito seu, ao invés de recebê-lo como uma dádiva. Dessa forma, nossa missão de desenvolver o potencial latente na criação acabou assumindo a forma de um invencionismo irrestrito ao invés da co-criação normatizada. Embora esse impulso criacional pela poeisis[2] não poderia ser suprimido ou apagado, o bom impulso criacional de fazer foi distorcido e mau direcionado: ao invés de fazer amor, fizemos guerra (e mesmo agora quando fazemos amor, estamos propensos a fazê-lo de formas que vão contra aquilo que é, de fato, bom para nós). Longe de cultivarmos a terra, nós criamos sistemas inteiros que a espoliam avidamente. Longe da criação normatizada, a humanidade se encontra propensa à transgressão licenciosa. Falhamos em conduzir adiante a missão que fora confiada a nós como portadores da imagem de Deus.

Mas ainda assim…

Nosso bom Criador não nos abandonou aos nossos próprios planos. Apesar de termos rompido a plenitude do amor criativo, nosso Deus complacente também rompeu nosso céu de bronze, juntamente com nosso desejo de nos fecharmos na imanência, ao manifestar-Se na carne – a nossa carne – como a imagem do Deus invisível. Jesus de Nazaré apresentou-Se como o segundo Adão, sendo nosso modelo daquilo que significa cumprir a missão original de cultivo da imagem [de Deus]. A Palavra se fez carne, não para salvar nossas almas de um mundo caído, mas, sim, para nos restaurar como amantes deste mundo – para nos (re)habilitar a cumprir aquela comissão criativa. De fato, Deus nos salva para que – novamente, numa espécie de loucura divina[3] – possamos salvar o mundo, para que possamos (re)fazer o mundo corretamente. E o amor redentor de Deus transborda em seus efeitos cósmicos, dando esperança à essa criação que geme em angústias.

Portanto, nossa redenção não é uma espécie de suplementação ao ser humano; na verdade, a redenção é o que possibilita que alguém seja realmente humano, e assim cumprir a missão que nos caracteriza como portadores da imagem de Deus. Irineu de Lyon apreende essa questão de forma sucinta: “A glória de Deus é um ser humano vivendo em plenitude” [4]. A redenção não acrescenta descabidamente uma espécie de anexo espiritual, nem nos liberta da condição humana a fim de alcançarmos um estado angelical. Pelo contrário, a redenção é a restauração de nossa humanidade, e a nossa humanidade está inseparavelmente ligada à nossa missão de sermos os criadores de cultura, sendo co-criativos juntamente com Deus.

Embora a redenção de Deus seja cósmica, e não simplesmente antropocêntrica, não obstante, ela opera de acordo com aquele “escândalo” criacional original mediante o qual a humanidade é comissionada como embaixadora, e mesmo como co-criadora, para o bem do mundo. Agora, também por meio de um “escândalo”, nós somos comissionados como co-redentores.

Embora não seja uma questão semelhante a: “salve a líder de torcida, salve o mundo” [5], a controversa economia da redenção, contudo, também não sugere: “salve a humanidade, salve o mundo”.

Uma das palavras utilizadas no Novo Testamento para se referir à salvação (soteria) traz consigo tanto a ideia de livramento e liberação quanto de saúde e bem-estar. Portanto, a salvação é libertação de nossa desordem e também restauração para a saúde e florescimento. Não consigo imaginar uma imagem melhor a esse respeito do que os tipos de práticas salutares que Wendell Berry apresenta e celebra em sua recente coleção intitulada “Bringing It To The Table: On Farming and Food” [6]. Considere, por exemplo, o elogio que Berry faz aos agricultores Amish que vivem no nordeste do estado de Indiana, que estão “trabalhando para restaurar os solos que foram exauridos anteriormente por outras pessoas”. Esta é uma versão compacta de nosso chamado para redimirmos o mundo. Sistemas, instituições e práticas falharam crassamente em cuidar do solo (e dos animais que viviam dele), sugaram-no e espoliaram a terra sem restaurá-la. O erro – sim, o pecado – desses lucros ilícitos há de se revelar brevemente, pois tais sistemas e práticas vão contra o grão do universo. A própria criação nos diz que estamos fazendo as coisas de modo errado. Nesse caso, a redenção é tangível e concreta: a saber, na rotação de culturas, na fertilização do solo e na atenção àquilo que o solo “está querendo nos dizer”. O trabalho feito para se restaurar o solo exaurido está situado dentro de um estilo de vida – de fato, é um estilo de vida.

Graças sejam dadas a Deus, pois tal remissão, revitalização e labor cultural não estão apenas sob a responsabilidade dos cristãos. Embora a Igreja seja, de fato, o povo que foi regenerado e revestido de poder pelo Espírito Santo para as boas obras da criação da cultura, o antegosto da vinda do Reino não está confinado à Igreja. O Espírito Santo é pródigo em espalhar sementes de esperança[7]. Assim, nós experimentamos avidamente antegostos onde quer que encontremos essas sementes. O Deus criador e redentor apresentado nas Escrituras tem prazer na literatura judaica que alcança as profundezas do potencial da linguagem, no mercado muçulmano que coloca em ação o grão do universo, e nos casamentos estruturados de agnósticos e ateus. Nós também podemos ter essa iniciativa de Deus e celebrar essas mesmas coisas.

Mas com o que a redenção se assemelha? Na maior parte das vezes, você a reconhece quando a vê, uma vez que ela é semelhante ao florescimento. A redenção é semelhante a uma vida bem vivida. É semelhante ao modo como as coisas deveriam ser de fato; é semelhante a um pomar bem cultivado, carregado de frutos produzidos por antigas raízes; é semelhante ao trabalho que edifica a alma e traz deleite; é semelhante a um marido e sua esposa, já anciãos, rindo de maneira hilária com seus bisnetos. É semelhante a uma bailarina que alonga seu corpo até o limite, encarnando, assim, uma estonteante beleza nos músculos e tendões que se retesam com devoção. É semelhante ao aluno de graduação debruçado sobre um microscópio, explorando nichos e recantos naquela microcriação engendrada por Deus, e, desse modo, buscando maneiras de desfazer a maldição. É semelhante à abundância para todos.

A redenção soa como as surpreendentes cadências de um concerto de Bach, cujo ritmo parece fazer a alma se expandir. A redenção é semelhante a um escritório onde todos cantarolam com um senso de harmonia naquela missão, por vezes pontuado por risadas colaborativas. É semelhante aos grunhidos e gritos de um jogador de tênis, cujas técnicas “blistering serve” e “liquid forehand” são decretos[8] de coisas que não poderíamos jamais sonhar. A redenção soa como as questões de uma aluna da terceira série, cujo professor se interessa suficientemente pelo seu bem-estar de modo a instigar sua curiosidade, dando espaço para uma curiosidade santificada a respeito deste mundo bom criado por Deus. E soa até mesmo como o debate espirituoso de um jovem casal que está discernindo quais as implicações do fato de que seu casamento é uma amizade que representa a comunidade que Deus deseja (e que Ele é).

A redenção cheira como o tom de carvalho de um vinho Chardonnay produzido no vale de Napa que nos dá anseios nas papilas gustativas. Cheira como a terra debaixo de nossas unhas após plantarmos peônias e gérberas. Cheira a uma cozinha de inverno, repleta de vapor, onde uma família reunida está se preparando para a ceia. Cheira à sabedoria ancestral de um livro herdado de um avô, ou àquele “cheiro de rua” que o cachorro da família rescende nos meados de Novembro. Cheira ao ato de ir de bicicleta ao trabalho numa manhã nevoenta de primavera. Cheira até mesmo à salgada pungência do trabalho duro e àquele singular leque de odores que banha o nascimento de uma criança.

A redenção tem o gosto de uma colheita de outono que deu frutos, não obstante o labor afetuoso e o cuidado atencioso para com o solo e a plantas. Tem o gosto de um peru do Dia de Ações de Graças, cuja “natureza própria de peru” ganha vida a partir de seu próprio deleite animal ao ar livre. A redenção tem gosto da deliciosa amargura do lúpulo de uma bebida compartilhada com os amigos de um pub da vizinhança. Tem até mesmo o gosto de comer seus brócolis porque sua mãe te ama o suficiente para querer que você se alimente bem.

Portanto, a redenção se assemelha à poesia corporal de Rafael Nadal e o sorriso de menino de Brett Favre numa noite agradável; soa como as amáveis risadas de Paul e Julia Child, e cheira à cozinha desta; a redenção reverbera como as profundas performances de Yo-Yo Ma em seu violoncelo; parece com o verso frenético da poesia de Auden ou o deleite vivo dos versos leves de Updike; é semelhante ao cuidado compassivo de Paul Farmer ou Madre Teresa. A redenção pode se manifestar de forma espetacular, fabulosa e (quase) triunfante.

Mas na maior parte do tempo, a redenção delegada pelo Espírito Santo é semelhante àquilo que Raymond Carver chama “um coisinha boa” [9]. É semelhante ao nosso trabalho cotidiano bem-feito por amor, em ressonância com o desejo de Deus para Sua criação – contanto que nosso “trabalho pé-no-chão” esteja instalado como parte de uma contribuição para os sistemas e estruturas de desenvolvimento. A redenção é semelhante à realização de nosso dever de casa, ao preparar as merendeiras das crianças, à construção feita com qualidade e com a devoção de um artesão, e é também semelhante à elaboração de um orçamento municipal que discirna o que realmente importa e que, assim, contribui para o bem comum. Certamente que a redenção é o fim do apartheid, mas também as amizades, antes impossíveis, que foram forjadas nas circunstâncias que se seguiram. É um assento vago no ônibus para quem quer que seja[10], mas é também travar relações com meus vizinhos que são diferentes de mim. É nada menos do que tentar mudar o mundo, todavia isso começa em nossas casas, em nossas igrejas, em nossos bairros e escolas.

Não deveríamos ficar surpresos pelo fato de que a redenção nem sempre manifestar-se-á de modo triunfante. Se Jesus vem como o segundo Adão que molda o desenvolvimento da cultura redentiva, então, neste nosso mundo devastado, esse labor cultural apresentará uma forma cruciforme. Todavia, também assemelhar-se-á à esperança que tem fome da alegria e deleite [Jeremias 15:16].

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NOTAS:
[1] Deus nos confiou o desenvolvimento da criação para que pudéssemos explorar as potências latentes, enterradas pelo próprio Deus no seu mundo criado. É o que os neocalvinistas chamam de “Mandato Cultural”, baseado em Gênesis 1:28 e 2:17, e que se baseia na tarefa de trabalhar e desenvolver a cultura, visando a glória de Deus. Isso envolve a redenção da cultura, ciência, arte e intelecto, para que o Reino de Deus, que já está inaugurado mas não plenamente estabelecido, venha progressivamente se instaurar. Nas palavras de Von Gronigen: “O primeiro mandato que foi dado tem sido corretamente citado como sendo o mandato cultural. Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o. Todas as formas de vida na terra foram, de forma específica, colocadas sob a supervisão dos vice-gerentes humanos. Com esta responsabilidade, veio o privilégio de usar as plantas, seus frutos e sua semente para manter a vida e a energia para realizar as tarefas reais. A humanidade poderia responder obedientemente ao mandato cultural para a glória de Deus por causa da sua criação à imagem e semelhança de Deus. Deus, através da exposição deste mandato, colocou a humanidade em um relacionamento singular com o cosmos. Na realidade, foi um relacionamento de governador sobre o domínio cósmico. Mas este governo envolvia trabalho. O trabalho é, consequentemente, tanto um privilégio real como também uma responsabilidade.” (Gerard Van Groningen. In: Criação e Consumação, v. 1).
[2] Poiesis (no original grego: ποιεσις), segundo o Dicionário Heidegger, de Michael Inwood, significa: “o fazer, fabricação, produção, poesia, poema’, que, por sua vez, vem de poiein, "fazer". Aristóteles distingue poiesis, "o fazer" – que essencialmente possui um produto final, um poeima – de praxis, "ação" – que não possui. (p. 144). Sendo assim, a poesis é a capacidade criativa inerente ao homem, que trabalha a partir de um material preexistente, seja físico ou não (como no caso do poema que trabalha com a linguagem), dando-lhe uma forma final que pode ser apreendida pelo intelecto, abstração ou tato humanos. Deus deu ao homem essa capacidade de co-criar juntamente com Ele, a partir dos materiais que Ele disponibilizou ao homem.
[3] O termo “loucura” aqui utilizado trata-se, evidentemente, não de uma falta de reverência aos pensamentos e atitudes de Deus, mas, sim, de uma contraposição entre a Mente Divina e o bom senso humano, como o Apóstolo Paulo já havia dito: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1:25).
[4] Essa afirmação (gloria Dei homo vivens) de um dos mais proeminentes Pais da Igreja pode, num primeiro momento, chocar os neófitos ou aqueles que não se aprofundaram ainda no estudo teológico. Contudo, o contexto e o sentido mais profundo nos leva a compreender a beleza e ortodoxia da frase: combatendo os gnósticos, que depreciavam a parte física da Criação, incluindo o corpo humano, Irineu se levanta para dizer que o homem coroa a Criação de Deus, já que foi criado à Sua imagem e semelhança. E não apenas isso, o próprio Deus assumiu a condição humana, fazendo-se carne e habitando entre nós. Portanto, a afirmação de que Cristo, o Filho, é a glória de Deus (O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, Hebreus 1:3) não contradiz a afirmação de Irineu; antes, a complementa, pois Cristo, o homem perfeito, reflete a imagem e semelhança de Deus também perfeitamente. Segue-se daí que por ter cumprido plenamente a vontade de Deus, e por ter expressado claramente o caráter de Deus, Jesus Cristo é o homem que viveu e vive em plenitude, sendo tudo aquilo que Deus planejou e pretendeu para o homem. Portanto, Cristo, o homem que vive plenamente (pois dEle procede a própria Vida), é a glória de Deus.
[5] Referência ao seriado “Heroes”, no qual o personagem Hiro é avisado por seu “eu” do futuro de que a chave para a vitória dos heróis é “salvar a líder de torcida”. A frase “salve a líder de torcida, salve o mundo” torna-se, consequentemente o lema da série. A líder de torcida em questão é uma personagem que aparece posteriormente na narrativa, que também possui superpoderes. No texto em questão, o autor quer dizer que a economia da salvação, embora não seja limitada a apenas um indivíduo, também não se estende a toda humanidade, como postula o Arminianismo.
[6] A expressão “bring something to the table” (literalmente, trazer algo à mesa) significa fornecer algo que há de trazer um benefício. O título do livro faz um jogo de palavras com a questão de uma alimentação e cultivo saudáveis e os benefícios decorrentes desses hábitos.
[7] O autor faz menção à ideia de “sementes do Verbo” (logos spermatikoi), postulada por Justino, o Mártir, um dos pais apologistas. Esse grande filósofo cristão discorre em suas obras 1 e 2 Apologia e Diálogo com o Judeu Trifão que há sementes da Verdade em várias culturas e povos, mesmo naqueles que não foram iluminados com a revelação plena manifesta em Jesus Cristo. Joseph Ratzinger, em seu livro Padres da Igreja, observa a respeito do pensamento de Justino: “o projeto divino da criação e da salvação [...] se realiza em Jesus Cristo, o Logos, isto é o Verbo eterno, a Razão eterna, a Razão criadora. Cada homem, como criatura racional, é partícipe do Logos, leva em si uma "semente", e pode colher os indícios da verdade. Assim o mesmo Logos, que se revelou como figura profética aos Judeus na Lei antiga, manifestou-se parcialmente, como que em "sementes de verdade", também na filosofia grega. Mas, conclui Justino, dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do Logos na sua totalidade, origina-se que "tudo o que foi expresso de positivo por quem quer que seja, pertence a nós cristãos" (2 Apologia 13, 4).
[8] Decretos são as normas estruturais moldadas e configuradas por Deus e que são a base mesma da existência dos entes. Sendo assim, cada ente possui uma lógica e estrutura interna criada e determinada por Deus – daí a sua harmonia e substancialidade. Deus plasmou o universo com Sua Lei, de modo que ela não apenas governa sobre os entes, mas também nestes entes. A vocação do indivíduo humano é a norma gravada em seu ser pelo poder de Deus. Se cumprirmos nossa vocação, não apenas nos tornamos quem Deus planejou que fossemos, mas também estamos em total harmonia com a normatização da criação original.
[9] Nome de um conto de Raymond Carver.
[10] Referência a Rosa Parks, uma costureira norte-americana que se tornou símbolo do movimento dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos ao se recusar a ceder seu lugar no banco de um ônibus a um homem branco (que, naquela época segregacionista, tinham preferência sobre as pessoas negras), dando início, portanto, ao que ficou conhecido como “Boicote aos Ônibus de Montgomery”. Nessa parte do texto, o autor diz que a Redenção suprime essas barreiras (segregação étnica, social, política e cultural) criadas pelos efeitos do pecado na mente humana, pois o ensino bíblico é que “de um só sangue fez toda a geração dos homens” (Atos 17:26), e que todos, independentemente da cor de sua pele, condição social ou nacionalidade, foram criados à imagem e semelhança de Deus (Genêsis 1:27). Além disso, em Cristo, todos são reunidos em um só corpo chamado Igreja, na qual exercem funções primordiais e inseparáveis como membros, de forma que neste corpo místico “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

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Autor: James K.A. Smith
Fonte: CARDUS
Tradução: Fabrício Tavares
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A quem Deus ama?

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Por Rev. Misael Nascimento


          “Três palavrinhas só
          Eu aprendi de cor:
          Deus é amor
          Tra-la-la-la-la-la-la-la-la!

A biblicidade desta letra é incontestável: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8).

Que Deus é amor é fato. A questão que se levanta é “a quem Deus ama?” Ao longo da história, tal pergunta tem recebido diversas respostas inadequadas, dentre as quais destaco cinco:

1 - Deus não se relaciona com a criação ao ponto de estabelecer vínculos de afeto. Ele criou o cosmos e se afastou dele. Este é o ponto de vista do deísmo.
2 - Deus não ama suas criaturas. Ele trata o universo caprichosamente, manipulando anjos e homens como fantoches. Isso é enfatizado em algumas correntes do satanismo. Ensina-se em tais círculos que Satanás é apenas uma pobre vítima dos atos arbitrários e injustos do Criador.
3 - O amor de Deus por tudo e todos sobrepuja sua justiça. Por amar, Deus não julga. Destarte, todos serão salvos. Define-se essa concepção como universalismo.
4 - Deus ama a todos os homens tanto como Criador quanto como Redentor e deseja que sejam todos salvos, mas o homem possui a capacidade de rejeitar o gracioso convite de Deus feito por meio de Cristo. Em suma, a vontade do homem pode impedir Deus de realizar seu propósito de salvação. Eis o Arminianismo — as denominações cristãs que creem dessa forma são chamadas arminianas, uma vez que esse ensino foi defendido por Jacó (James ou Thiago) Armínio, um teólogo do século 16 (1560-1609).
5 - Uma ala do calvinismo proclama que Deus ama somente aos eleitos. Os réprobos[1] são objeto unicamente da ira de Deus. O amor de Deus é entendido exclusivamente como seu favor concedido aos predestinados para a salvação, nada além disso.

Os três primeiros postulados são absolutamente contrários ao ensino da Escritura e rejeitados pela Igreja Cristã. O quarto não é abraçado pela Igreja Presbiteriana do Brasil e outras igrejas reformadas. Quanto ao quinto, é aceito por alguns calvinistas, mas eu a considero também inadequada.

Entendo que existe uma sexta resposta, mais fiel ao evangelho.

A essencialidade e unidade dos atributos divinos

Proponho uma ponderação sobre a harmonia essencial dos atributos divinos. Não se trata de nada sofisticado nem sustentado por dezenas de textos-prova. Eis o argumento:

Primeira premissa: Deus é amor e justiça.[2]
Segunda premissa: Se os atributos acima fazem parte da essência divina, e esta é indivisível, em Deus, amor e justiça jamais se separam.
Conclusão: Deus não deixa de ser amor quando se ira, nem deixa de ser justo quando ama.

Note que, na primeira premissa, utilizo a expressão “é” em lugar de “possui”. Além disso, entre os atributos, coloco um “e” e não um “ou”. Deus não apenas age com amor ou com justiça, mas amor e justiça fazem parte de sua essência. Uma vez que a essência de Deus é indivisível, nele, amor e justiça jamais se separam. Deus ama sendo justo e julga sendo amor. Amor e justiça coexistem no UM divino. Sendo assim, é plausível afirmar que o fato de os eleitos serem amados por Deus não significa que Deus não se ira com eles. Por conseguinte, o fato de Deus revelar-se irado contra os réprobos não quer dizer que ele não os ame.

Tal argumentação, estou certo disso, é contestável. Pode ser dito que a presença de um atributo não equivale à obrigatoriedade de sua manifestação em determinado contexto. Mesmo sendo amor, Deus pode demonstrar exclusivamente sua justiça aos réprobos ou vice-versa. Pode ser dito ainda que utilizo sem muita qualificação os termos “amor” e “ira”. Quem sabe eu descubra, para meu aperfeiçoamento, que alguém já assumiu tal posição no passado e foi corrigido de seu erro. Com humildade, porém, pretendo mantê-la como referência, pelo menos até o ponto de confirmá-la ou alterá-la, com base em mais leituras da Escritura e da Teologia.

Outra proposição, agora, sobre o cristão e o ódio

Convido você para acompanhar-me na reflexão sobre uma palavra de Jesus no sermão do monte:

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. […] Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (Mt 5.43-45, 48).

O cristão pode odiar seus inimigos? Cristo responde que não; é preciso amar até o mais cruel opositor. Como crianças espirituais questionamos a razão disso: Por que devemos amar nossos inimigos? A resposta do Redentor é dupla. Ele diz primeiramente que o amor ao inimigo é necessário “para que vocês se tornem filhos do Pai de vocês”.[3] Jesus estabelece uma ligação entre ser filho de Deus e amar aos inimigos.[4] A segunda parte da resposta é: Vocês devem amar aos inimigos porque Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (v. 45). Em suma, Cristo afirma que mesmo os piores seres humanos são objeto do amor providencial de Deus. A ideia é simples: Os inconversos são inimigos de Deus; mesmo assim Deus cuida deles com sua providência (sol e chuvas). Este amor providencial é o modelo para o amor que o cristão deve dispensar aos seus adversários.

Como explica Bavinck, “também, no lugar de perdição, há graus de punição e, consequentemente, chispas de sua misericórdia”[5] e ainda, “não é verdade que a justiça de Deus só pode ser manifesta na bem-aventurança dos eleitos, pois também no céu sua justiça e santidade estão radiantemente presentes, e até mesmo no inferno há alguma evidência de sua misericórdia e bondade”.[6] Por fim:

Os reprovados também recebem muitas bênçãos, que, como tais, não surgem do decreto da reprovação, mas da bondade e da graça de Deus. Eles recebem muitos dons naturais — vida, saúde, vigor, comida, bebida, bom ânimo e assim por diante (Mt 5.45; At 14.17; 17.27; Rm 1.19; Tg 1.17) — pois Deus não se permite ficar sem testemunho. Ele os suporta com muita paciência (Rm 9.22). Ele quer que o evangelho de sua graça seja proclamado a eles e não tem prazer em sua morte (Ez 18.23; 33.11; Mt 23.27; Lc 19.41; 24.47; Jo 3.16; At 17.30; Rm 11.32; 1Ts 5.9; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9).[7]

A palavra de Jesus em Mateus 5.43-48 deve ter soado estranha aos ouvidos dos judeus mais rigorosos porque estes sabiam, pelo AT, que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores (Sl 5.5).[8] Lemos que os “maus” e “injustos” são inimigos de Deus, destinados à condenação (Sl 11.4-7). O judeu mais espiritual podia afirmar como o salmista: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato” (Sl 139.21-22). Eis que, então, surge Jesus, Verbo de Deus, um com o Pai, ensinando que os “inimigos”, os “maus”, os “injustos” devem ser amados. E mais: A palavra traduzida por “amai” (agapaō) é a mesma que João usa com respeito ao amor de Deus pelos eleitos (Mt 5.44; Jo 3.16). Seria demais concluir que os discípulos devem amar aos “maus” e “injustos” assim como Deus, providencialmente, os ama?

O ensino é fechado nesses termos: Os discípulos, ao amarem os inimigos se tornam “perfeitos como perfeito é o […] Pai celeste” (v. 48). O adjetivo usado no original (teleioō) assegura o sentido de “genuíno”, “completo” ou “maduro”: “Sejam inteiros, indivisíveis em amor, assim como Deus é”,[9] ou como sugere Peterson: “Resumindo, o que quero dizer é: cresçam! Vocês são súditos do Reino; tratem de viver como tais. Assumam sua identidade, criada por Deus. Sejam generosos uns para com os outros, pois Deus age assim com vocês”.[10]

Uma leitura dos textos bíblicos que se referem ao ódio de Deus

Olhemos agora para alguns textos da Escritura que se referem ao ódio de Deus. Em Salmos 5.5, citado acima, consta que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores. Ele “abomina” os que amam a violência e “fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre”, além de “vento abrasador” (Sl 11.4-7). A situação é tão séria que, de acordo com Provérbios 3.33, “a maldição do Senhor habita na casa do perverso”.

O leitor certamente já ouviu a frase “Deus ama ao pecador e odeia o pecado”. Para alguns estudiosos sérios, essa afirmação é errada. Baseados nos textos acima (dentre outros), argumentam que Deus ama somente aos eleitos. Quanto aos ímpios, ele unicamente os odeia.[11] Afirmar o amor de Deus pelos réprobos — dizem — não apenas contradiz o ensino bíblico sobre a predestinação, mas também sobre a unidade divina (Deus não pode demonstrar dois amores, duas misericórdias), sua imutabilidade (Deus amaria os réprobos no tempo e os odiaria na eternidade), sua justiça (como é que Deus, que “não pode ver o mal”, amaria os que são completamente iníquos?). A ideia do amor de Deus pelos réprobos implicaria em uma noção incorreta de “amor temporário, limitado, mutável e injusto de Deus (fora de Jesus Cristo!)”.[12] Isso resultaria na destruição da antítese (Gn. 3.15), na amenização da depravação total, no comprometimento da expiação particular, na pregação do desejo de Deus de salvar o réprobo, no silenciamento e negação da eleição e reprovação incondicional, na recusa de condenação do arminianismo e seus mestres, e, finalmente, na permissão de comunhão com os arminianos.[13]

De fato aprecio respeitosamente a todos esses argumentos, que provêm de pessoas piedosas e teologicamente mais capazes do que eu. No entanto, proponho uma leitura diferenciada.

Primeiro, a fidelidade às Escrituras exige a pregação e o ensino de verdades aparentemente contraditórias. Sendo assim, o mestre e pregador fiel proclamará em alto e bom som e com toda a convicção, tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade do homem. Ele anunciará que Deus — Santo, Santo, Santo — odeia não apenas a transgressão, mas também ao transgressor. Ademais, afirmará ele que Deus é amor que se desdobra em atos benevolentes para com os inconversos.

Segundo, a afirmação do amor providencial de Deus pelos ímpios não fere a predestinação, pois deve ser dito que antes de os gêmeos nascessem, Deus escolheu a Jacó e odiou a Esaú (Rm 9.11-13). Por outro lado, Esaú subsistiu e prosperou graças à generosidade divina (Gn 33.9; cf. 1Cr 29.12). Se Isaque, o eleito, é o descendente “mediante a promessa” (Gl 4.23), Ismael, o inconverso filho da ”escrava” é tratado carinhosamente por Deus (Gn 21.8-21). Não é contestada a unidade divina: O mesmo Deus concede amor salvador aos eleitos e amor providencial àqueles que ele criou (sim, o fato de um réprobo existir e manter-se vivo é ato de misericórdia divina; Deus poderia não trazer tal indivíduo à luz ou mesmo matá-lo imediatamente após o seu nascimento). Não é atacada a imutabilidade divina pois é o mesmo Deus, rocha imutável, que no tempo faz chover sobre maus e bons, justos e injustos, e que na eternidade separa os salvos dos reprovados. Ao mesmo tempo, apregoa-se a justiça divina em amar a totalidade de sua criação e, ao mesmo tempo, derramar-se em ira sobre os que se recusam a ouvir ao evangelho.

Deus ama salvificamente aos eleitos e providencialmente a tudo o que criou. Discordo que essa seja uma noção incorreta do amor de Deus, nos termos apontados por Stewart. Trata-se de amor que sobrepuja nossa capacidade de entendimento. É amor que, afirmando a antítese, nos faz amar ao injusto, que declara a depravação total, mas enxerga no pagão Ciro (Is 45.1) um instrumento da bondade e justiça de Deus. Que crê e insiste na expiação particular e, ao mesmo tempo, declara que Deus ama ao mundo e salva a todo o que nele crê, que alardeia a eleição e reprovação incondicionais e firma-se na declaração de erro dos arminianos, ao mesmo tempo em que os ama. Sim, subscrevendo a condenação reformada ao Arminianismo do Sínodo de Dort, cremos na possibilidade de comunhão com aqueles que não têm um entendimento esclarecido dos chamados cinco pontos do Calvinismo (acróstico TULIP), pois é salvo aquele que está incluído no Pacto da Graça, que foi regenerado e creu em Cristo como Senhor e Salvador, mesmo que não saiba articular com maestria a doutrina (cf. At 18.24-28).

Eis o resumo da sexta posição: Descarto o universalismo; somente os que creem em Cristo como Senhor e Salvador serão salvos e os que não crerem serão eternamente condenados (Jo 5.24-29, 6.47). Rejeito também o Arminianismo; somente os eleitos recebem a dádiva da fé salvadora (Jo 6.65; At 13.48, 16.14; Rm 8.28-30, 9.6-18; Ef 1.3-14, 2.4-10). Não aceito ainda a proposição do amor divino unívoco — dispensado somente aos eleitos. Deus ama aos eleitos salvificamente, como Pai que os adota para íntima comunhão. Ao mesmo tempo ele possui um vínculo de amor providencial com toda a sua criação, o que inevitavelmente inclui os não-crentes. Esse último tipo de dispensação de amor não implica, necessariamente, em salvação, mas em criação e preservação. Não apenas isso: Deus até concede dons aos não-convertidos de modo que estes produzam coisas boas e belas, ainda que rebelando-se contra o Criador.

O escorregadio universo das palavras

Você aprendeu até aqui que todos os calvinistas concordam quanto ao amor de Deus pelos eleitos. Há uma divisão, porém, quando se fala do amor divino pelos réprobos. Um grupo diz que Deus só ama aos eleitos; o outro entende que ele ama a todas as suas criaturas, aos eleitos salvificamente e aos réprobos providencialmente. Eu me situo no segundo grupo.

O segundo grupo diz que Deus demonstra amor aos réprobos na graça comum. O primeiro argumenta — e prova biblicamente — que os termos “graça” e “misericórdia” só podem ser aplicados no contexto da aliança da salvação, da mediação de Cristo, da regeneração e do perdão de pecados. Tais palavras, dizem, não fazem sentido no contexto da criação. Eles citam teólogos do passado[14] e atuais que demonstram, pela Escritura, que o bem-estar e prosperidade dos ímpios não decorrem da benevolência divina e sim são como lugares escorregadios que os levam à “destruição” (Sl 73.18). Alguns desses teólogos chegam ao ponto de considerar como heresia a defesa da graça comum e propõem separação radical — impossibilidade de comunhão — entre os dois grupos, ou seja, para eles, o calvinismo puríssimo exige rompimento tanto com arminianos quanto com outros calvinistas que assumam a graça comum (ou o amilenismo, ou outros pontos de doutrina).

Os calvinistas da graça comum, por sua vez, admitem que nos primeiros quatro capítulos do livro de Gênesis não são encontradas as palavras “aliança” e “graça”; no entanto, ambas as ideias estão presentes, nos seguintes termos:

Na criação Deus estabeleceu um vínculo de amor e vida com tudo o que criou. Ele criou o universo e providenciou condições para o florescimento e manutenção da existência biológica. Criou o homem e deu-lhe ordenanças. A desobediência humana traria a morte como consequência. Todos os aspectos que compõem um pacto ou aliança estão presentes em Gênesis (as partes pactuantes, o vínculo de vida e amor e, por fim, privilégios e responsabilidades).[15]

Após a queda Deus podia simplesmente matar o primeiro casal, mas ele não fez isso. Pelo contrário, estabeleceu a antítese entre a descendência da serpente e o descendente da mulher (Cristo) e prometeu que este último esmagaria a cabeça do Tentador (Gn 3.15). Em seguida, cobriu a nudez do primeiro casal (Gn 3.21). Note que a palavra “graça” não se encontra no texto, mas a ideia está presente: Favor imerecido relacionado à salvação — a redenção dos eleitos de Deus.

Lemos em Gênesis 4 que Eva deu à luz a Caim que, ao matar seu irmão, demonstra pertencer à linhagem da serpente e tornou-se o primeiro ser humano amaldiçoado na Bíblia (Gn 4.1-8, 11; cf. 1Jo 3.12). Então, surpreendentemente, depois de amaldiçoar a Caim, Deus o marca a fim de preservar-lhe a vida física (Gn 4.15). Logo adiante, a descendência de Caim desenvolve pecuária, artes e siderurgia (cf. Gn 4.20-22). Deus dá a Caim, imerecidamente, condições para viver e desenvolver aspectos dos mandatos social e cultural, ainda que sob a égide do pecado, mui toscamente e para juízo. Isso se configura não como um favor para a salvação, mas providencial (Mt 5.45; cf. Ec 2.24-25) e torna possível falar do amor divino dirigido aos homens réprobos.

Perceba que ambos os grupos identificados como calvinistas abraçam a eleição, são conservadores em sua Teologia, entendem que Deus ama aos eleitos e trata a todos nesta vida — convertidos e inconversos — imerecidamente. A diferença é que, para o primeiro grupo, não podem ser usadas as palavras “misericórdia”, “graça” e “amor”, muito menos “graça comum”, quando se refere aos réprobos. O segundo grupo não vê problema no uso de tais termos.

Respeitando aos grandes teólogos do primeiro grupo, afirmo que, no escorregadio universo das palavras, dividimo-nos. “Você não pode usar a palavra graça nesse caso; os réprobos recebem uma benevolência divina que é diferente do amor”; ou “se você crê na graça comum não pode mais tomar santa ceia comigo”. Respeito quem pensa assim, mas discordo.

Mais: Por estranho que pareça, sou da opinião que a maior dificuldade do ser humano não é crer no ódio, e sim, no amor de Deus. Os réprobos descreem absolutamente e os eleitos, mesmo crendo, duvidam.[16] Ainda que eu pregue sem titubear que Deus julga (e condenará-castigará definitivamente) o Mal e os Maus, entendo que devo proclamar o amor divino revelado primeiramente na criação e providência e, de modo pleno e maravilhoso, em Cristo. Como Paulo no Areópago, proclamo aos ouvintes não-crentes que Deus “não está longe de cada um de nós”, nele “vivemos, e nos movemos, e existimos” e, por meio de Cristo há tanto redenção para os que crerem quanto juízo para os que não crerem (At 17.24-31). Os réprobos, quais réplicas de Satanás, já possuem de forma inata a certeza de que estão sob o juízo de Deus, e o odeiam por isso. Os eleitos, presos à sua estrutura pecaminosa, sabem que são pecadores, e afastam-se constrangidos de Deus. Cabe aos pregadores auxiliar as ovelhas do Senhor a beber nas águas da graça que perdoa, limpa e santifica e então, desafiá-las a demonstrar e anunciar a todos o amor de Deus que “excede todo entendimento” (Mt 5.43-48; Jo 3.16; Ef 3.14-21).

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Notas
[1] Ainda que sujeito a contestação, neste artigo eu utilizo o vocábulo eleito referindo-me ao indivíduo separado por Deus para ser dele, no desfrute de sua salvação. Os que são deixados no estado de depravação e, por conseguinte, serão condenados, são aqui denominados réprobos.
[2] Isso equivale a dizer que Deus é amor e santo (1Jo 4.8; cf. Is 6.3).
[3] Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).
[4] O termo usado no original grego denota finalidade: É preciso amar ao inimigo para tornar-se filho do Pai celestial. Essa condicionalidade é semelhante à encontrada na oração do Pai-Nosso: “Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam” (Mt 6.12 — NTLH).
[5] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Deus e a Criação. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 395. v. 2.
[6] BAVINCK, op. cit., p. 398.
[7] Ibid., p. 407.
[8] A tradução Revista e Atualizada (ARA) traduz como “aborreces” e “abomina”. Os termos na Bíblia Hebraica contêm a ideia de “ódio”.
[9] LOUW, J. P.; NIDA, E. A. Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains. 2. ed. New York: United Bible Societies, 1996, 88.100, p. 752–753.
[10] PETERSON, Eugene. Bíblia A Mensagem.
[11] Cf. BAKER, Kyle. O Ódio de Deus. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[12] STEWART, Angus. Graça Comum. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[13] Será que a “comunhão com os arminianos” é vedada aos crentes calvinistas? Eu não entendo que George Whitefield, um calvinista, pecou ao cultivar comunhão com o arminiano John Wesley.
[14] Especialmente VERMIGLI, Peter Martyr. Manual de Teologia Sistemática (cerca de 1656), citado por MOORE, Jonathan. É Novidade Negar a Graça Comum? Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[15] Cf. VAN GRONINGEN. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. v. 1.
[16] Ao ensinar os crentes sobre a correção divina, Calvino sublinha a necessidade de sermos confirmados na certeza de que Deus nos é propício, ou seja, nos ama infinitamente por meio de Cristo — CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. III.4.38. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 3).

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Fonte: Somente Pela Graça
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Você não precisa de religião para saber o que é certo e errado!

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Por Felipe Cruz


Muitas vezes quando evangelizamos, ouvimos a famosa frase: “Eu não preciso de religião para saber do que é certo e do que é errado”. O cético, ateu ou irreligioso nem imagina que a nossa resposta vai ser: "Exatamente!". Qualquer pessoa que crê na Bíblia pode verificar facilmente que Paulo, no capítulo 2 do livro de Romanos, vai falar que até mesmo os descrentes possuem uma lei moral escrita nos seus corações. Ele capacitou todos a conhecerem o que é certo e o que é errado. Ser um filantropo é correto; torturar bebês por diversão é errado. Preservar o meio ambiente é correto; estuprar uma mulher é sempre errado. A pergunta certa, então, seria: “De onde vem essa coisa chamada ‘moral objetiva’? Qual a base, o alicerce para essa moral? Qual a melhor explicação para a origem e a existência dela?”. 

Deus é a única explicação para os padrões morais objetivos. Para que existam enunciados morais universais conhecidos por todos os homens em todas as culturas, em todas as épocas, a única explicação plausível é a de que um Legislador universal tem imposto tais valores, do contrário, o estupro só seria errado se o próprio estuprador achasse que era errado. Ou então ele poderia apenas repetir a outra velha frase que a gente sempre ouve: “É errado para você, mas não é errado para mim”. O cristão, portanto, não é moral por medo ou por fraqueza. Apenas reconhecemos, em sóbrio diagnóstico, que o homem não é a medida de todas as coisas.

Assista o vídeo:



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Fonte: Dois dedos de Teologia - Racionalizando #2
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O Cristão pode ouvir música do mundo?

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Neste vídeo o Pr. Dorisvan é entrevistado pelo Missionário Paulo Ricardo e tenta responder uma das questões mais intrigantes no meio evangélico: é lícito ao cristão ouvir "música do mundo"?

Usando argumentos do Reformador João Calvino, o Pastor diz que mesmo os descrentes podem, pela graça comum de Deus, fazer poesias e cantar músicas que expressam a verdade. E visto que toda verdade procede de Deus, não devemos rejeitá-los, porquanto o mesmo procede de Deus.

Assista e tire suas conclusões.



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Fonte: Papo Reformado
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A Graça Comum e o Mandato Cultural levam ao mundanismo?

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Por 
Leonardo Verona


Muitos acusam Abraham Kuyper e o denominado “Neocalvinismo” de introduzirem o mundanismo no seio da igreja quando explicitam o conceito de Graça Comum e a doutrina do Mandato Cultural. Antes de entrar no mérito da questão é importante fazer algumas considerações conceituais e históricas, mesmo que introdutórias.

A alcunha “neo” adicionada ao termo calvinismo refere-se ao movimento iniciado por Abraham Kuyper na Holanda, no século XIX, ao contextualizar as doutrinas reformadas, mormente as calvinistas, à realidade do seu período. Kuyper evidenciou algumas doutrinas que estavam nas entrelinhas ou foram pouco comentadas por Calvino, como o conceito de Graça Comum e do Mandato Cultural. A Graça Comum é definida, de modo geral, como as bênçãos de Deus derramadas a todos os seres humanos, independentemente de suas crenças. O favor de Deus para com todos os seres humanos limita a atuação do pecado no mundo e distribuí diversos dons e talentos para a humanidade. Já a doutrina do Mandato Cultural é conceituada como o mandamento de Deus proferido ao homem, nos capítulos iniciais de Gênesis, para dominar e sujeitar a natureza, e cultivar e guardar o jardim. Este mandato está diretamente relacionado à ideia de produzir cultura, envolvendo todas as esferas sociais da humanidade.

Após estas considerações iniciais, adentremos ao questionamento aduzido pelos críticos do Neocalvinismo contra as doutrinas supracitadas. A crítica baseia-se, de modo geral, que a introdução destes conceitos leva a igreja ao mundanismo. A ideia é que ao aceitarmos que os ímpios podem realizar coisas boas e que os cristãos devem atuar na transformação das estruturas sociais, estaremos negando a antítese existente entre os filhos de Deus e os filhos da perdição, negando a doutrina da depravação total e levando a igreja a um ativismo social, tirando o foco do evangelismo e do segundo advento de Cristo.

Desculpe-me a expressão, mas estes argumentos são uma completa tolice. Primeiro, a doutrina da Graça Comum, tão evidente nas Institutas de Calvino, mesmo que não rotulada com este nome, não nega a antítese, já que apenas reconhece que toda verdade procede de Deus. A negação desta doutrina nos leva a muitos problemas, já que grandes feitos produzidos por ímpios como a cura de doenças, técnicas avançadas de agricultura, grandes obras literárias e etc, deverão ser, inevitavelmente, atribuídos à pecaminosidade humana ou ao diabo, o que é ridículo. Calvino nos adverte em suas Institutas que ao não reconhecermos a verdade aonde quer que ela esteja estaremos correndo o risco de sermos insultuosos para com o Espírito Santo de Deus. 

Segundo, dizer que a Graça Comum é contrária a doutrina da Depravação Total é na verdade assinar um atestado de superficialidade com relação às doutrinas Reformadas! A Depravação Total não afirma que tudo que é produzido pelo ímpio é necessariamente mau e que o ser humano é absolutamente depravado, mas que o pecado afetou todas as áreas da existência humana, tornando o ser humano cego para a realidade de Deus, já que após a queda morremos espiritualmente. O ímpio, pela graça de Deus, pode produzir coisas boas, mesmo que por motivações equivocadas e não reconhecendo que seus talentos provêm de Deus. 

Em terceiro lugar, o Mandato Cultural não leva ao mundanismo, ao contrário, leva a “desmundanização” do mundo, perdoem-me o neologismo. Este mandato não tem como objetivo transformar o mundo para acelerar a volta de Cristo, como asseveram alguns, já que este foi proferido bem antes do primeiro advento. O fulcro do Mandato Cultural é a reconciliação de todas as esferas da vida, possibilitada pela obra vicária de Cristo, com a vontade original de Deus para a sua criação. Logo, a busca do cumprimento deste mandato não leva a um ativismo mundano da igreja, mas sim a verdadeira missão da fé cristã, que é a glória de Deus! Esta missão envolve todas as esferas da vida humana, inclusive o evangelismo. Devemos salientar que a busca por transformação não nos leva a crença de conseguirmos um mundo perfeito aqui e agora, já que esta perfeição só será alcançada na segunda vinda de Cristo. Entretanto, sabemos que o Reino de Deus já é chegado e nós cristãos somos seus cidadãos e embaixadores, logo não podemos nos conformar com as injustiças deste mundo, mas atuarmos, como base em Cristo, para que todas as coisas glorifiquem a Deus. Não podemos fechar os olhos para todo o mal existente e apenas esperarmos o segundo advento. Isto é uma crueldade, já que as necessidades e os problemas são prementes.

Logo, estas doutrinas, ao contrário do que seus críticos afirmam, não levam ao mundanismo, mas o evita, já que temos uma compreensão de mundo integral, fundada no logos que é Jesus Cristo.

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Calvino e a semente da religião

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Por Thiago Oliveira

Introdução

João Calvino, foi o mais proeminente teólogo do século XVI. Lutero, embora muito respeitado pelo reformador de Genebra, e também sendo um exímio doutor no campo da teologia, não foi capaz de superá-lo em produção e em profundidade. Se Lutero foi um instrumento de Deus para levantar a sua voz contra os abusos da Sé Romana, Calvino foi o grande sistematizador da teologia reformada. Foi um exímio compilador e sistematizador das doutrinas defendidas pelo protestantismo, fortemente influenciado pelo monergismo agostiniano. 

Com apenas 26 anos de idade, Calvino publicou a sua obra mais importante, As Institutas da Religião Cristã, ou simplesmente, As Institutas. A importância deste livro para a Cristandade é imensurável, pois se trata de um apuradíssimo tratado teológico e sistemático (aqui sistemático não se refere ao sentido moderno do termo). Todavia, a literatura calvinista não se resume as Institutas. Ele produziu catecismos, uma breve confissão de fé e diversos comentários bíblicos.

O primeiro capítulo das Institutas fala sobre o conhecimento de Deus e a forma com que os homens chegam a este conhecimento. Obviamente, Calvino parte da premissa revelacional para afirmar que os homens só podem achegar-se a Deus a medida que Ele se revela aos homens. Para a Teologia, existem dois tipos de revelação: A Específica e a Geral.

A Revelação Específica é aquela que tem por base a revelação por meio da Escritura, que é a Sua Palavra e de Cristo, que é a própria Palavra. Já a Revelação Geral é aquela que está manifesta nas obras da criação, da Providência e no coração dos próprios homens. 

O objetivo deste texto é explorar o entendimento calvinista acerca deste segundo tipo de revelação, que é a geral. Calvino dá um nome específico para ela, chamando-a de “semente da religião” ou o “sentido da divindade”.

A semente da religião

Quando inicia as Institutas com a temática do conhecimento de Deus, João Calvino nos dá uma mostra de que a centralidade da relevação domina o seu pensamento. E a primeira frase deste primeiro capítulo é a seguinte: “A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos.” (CALVINO, 2006 p. 55).

A pergunta que muitas vezes pode surgir é a de qual conhecimento ocorre primeiro, se o acerca Deus ou o acerca de nós mesmos. Todavia, o que Calvino enfatiza é que ambos são verdadeiros. Não há como conhecer a Deus sem o autoconhecimento. Mas também ninguém poderá se conhecer sem considerar a face de Deus. Não são dois níveis de conhecimento, onde primeiro eu conheço um e depois alço o degrau para o próximo. Os dois são duplamente desassociados, por isso são chamados de conhecimento duplo de Deus (duplex cognitio dei). 

Este conhecimento duplo está presente em cada ser humano. Nenhum homem está isento de fazer “negócios com Deus” (negotium cum Deo). Calvino acreditava e ensinava que dentro de cada indivíduo Deus plantou uma percepção dEle. Esta “semente” não estava limitada ao coração humano, ela também foi “plantada” nas obras da criação. Deus é visto como sendo um trabalhador (Opifex) que fixou diversas evidências de Sua Glória em todo o Universo por Ele criado e regido.

A natureza que revela a divindade exige do homem uma resposta dentre duas possíveis: piedade e idolatria. Daí o homem não fica neutro, ou ele adora ao Deus verdadeiro, em amor e reverência, ou forja ídolos e se curva a deuses criados. Daqui concluímos que Calvino expõe uma teologia puramente natural, mas ela só serve para tornar os homens indesculpáveis diante do quadro da idolatria.

Porém, nada é mais evidente dessa “semente da religião” do que a própria idolatria. O sentido religioso existente na humanidade seria uma prova cabal de que existe em nós um senso de divindade. Tal percepção foi dotada aos homens afim de refutar a alegação daqueles que se disserem ignorantes e por isso não glorificaram ao Senhor da Criação, Deus único e verdadeiro.

Calvino (2006, p. 58) escreve o seguinte: “Portanto, visto que desde o princípio do mundo não há região, nem cidade, nem mesmo casa alguma que não tenha nada de religião, nesse fato nós temos uma confissão tácita de que há um senso de Divindade gravado no coração de todos os seres humanos”.

Aqueles que negam o Divino, na verdade O negam por temor. Os homens até tentam se esconder de Deus, tentam apaga-lo de suas mentes, mas na percepção calvinista, o próprio Deus, com zelo pela Sua Glória, os aflige a medida em que tais homem tentam negá-lo.

Conclusão

Todo o segmento reformado irá concordar com a ideia da “semente da religião”. Mas visto que ela não é capaz de gerar nada além de condenação para os idólatras, faz-se necessária a revelação presente na pessoa de Cristo. Jesus Cristo é aquele que revela o Deus-Redentor, e não apenas o Deus-Criador. Ele nos apresenta a salvação, daí a necessidade de nos conhecermos e vermos o quão carentes somos dessa salvação que nos é ofertada graciosamente.

Os escritos de Calvino não têm a intenção de nos deixar em completo desespero. Ele aponta para a nossa miserabilidade para depois anunciar a redenção em Cristo. Assim prepara a mensagem da salvação, pois para receber as bênçãos do Senhor, faz-se necessário ter a noção de nossa incapacidade e pobreza espiritual. Por isso há a associação entre o autoconhecimento e conhecimento sobre Deus. Porque o desejo do Senhor é que os que são seus sejam salvos e livres do pecado, para assim poder estar em Sua presença e gozá-lO para sempre.

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Referências:
- CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.
- GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.

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Divulgação: Bereianos

Dica: Para um estudo complementar, sugerimos um ótimo artigo acadêmico sobre o tema, publicado na revista Fides Reformata em 2009: Apontamentos Introdutórios sobre a Epistemologia Religiosa de joão Calvino nas Institutas.
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