Casamento, divórcio e novo casamento - 1/3

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Texto base: 1 Coríntios 7.1-16

INTRODUÇÃO

Nos capítulos 5 e 6, Paulo abordou a questão do incesto, dos litígios e da fornicação. Indignado, ele censura a omissão e a tibieza dos coríntios em sanar os problemas morais existentes na igreja e, ao mesmo tempo, encoraja-os a viverem de forma piedosa, a fim de glorificar a Deus. Não obstante, Paulo ainda não havia descrito nenhuma orientação acerca do celibato, sexualidade, casamento, divórcio e novo casamento. Agora, no capítulo 7, ele responde algumas perguntas sobre estas questões através de uma carta que a igreja de Corinto havia lhe enviado. Os muitos problemas e as dúvidas que a igreja enfrentava haviam chegado ao conhecimento de Paulo por intermédio de relatos orais.

Provavelmente, os capítulos 1.11, 5.1 e 6.1, remontam a notícias pessoais que o apóstolo havia recebido de três homens enviados pelos coríntios – Estéfanas, Fortunato e Acaico, os quais supriram algumas necessidades materiais de Paulo, quando estava em Éfeso (1Co 16.17). Estes homens também levaram uma carta que os coríntios escreveram para o apóstolo, que incluía determinadas perguntas e relatava os problemas que estavam ocorrendo na igreja. Algumas destas perguntas eram sobre problemas matrimoniais (vs.1a).
    
No capítulo 7, especificamente na perícope que iremos analisar, Paulo responde as perguntas dos coríntios apresentando diretrizes básicas para o celibatário, para os casados, os que desejam se casar, os que no passado foram casados, para aqueles que querem permanecer solteiros e a privação sexual. 
   
Todavia, Paulo abordou algumas questões que Jesus não ressaltou em seus ensinamentos nos evangelhos. Quando um assunto suscitado pelos coríntios já havia sido discorrido por Cristo, Paulo se dirigia às Suas palavras (vs.10-11). Entretanto, se uma pergunta dos coríntios promovia um tema que Jesus não havia abordado, Paulo respondia fazendo uso da sua autoridade apostólica. Quando Paulo escreve não recorrendo ao que o Senhor Jesus disse sobre determinado assunto, é porque ele mesmo irá tratar disso (vs.12-16, 25-40). Jesus tratou sobre casamento e divórcio em Mateus 5.31,32, 19.1-12; Marcos 10.1-12 e Lucas 16.18.     

Os destinatários das orientações de Paulo sobre o casamento, divórcio e novo casamento são:

1) Cristãos casados com cristãos (7.1-11)
2) Cristãos casados com não cristãos (7.12-24)


EXPLANAÇÃO


1) Cristãos casados com cristãos (7.1-11)

No mundo antigo, muitos admiravam hábitos ascéticos, como o celibato. De certa forma, alguns crentes da igreja de Corinto dimidiavam dessa admiração. Tendo em vista que “o sexo era pecado” [segundo alguns radicais imaginavam], e os inúmeros problemas que há no casamento, seria melhor ficar solteiro ou aderir ao celibato, que era uma “condição mais espiritual” do que ser casado.

Esta ideia equivocada e herética poderia levar alguns falsos religiosos e falsos mestres a defender o divórcio para que a pessoa voltasse a ser solteira, a fim de obter uma condição espiritual superior. Com efeito, este trecho eleva a condição de solteiro desde que a pessoa seja celibatária, e também demonstra que o casamento não é algo inferior e menos espiritual do que o celibato.

a) Os benefícios do casamento (7.1-9)

Paulo já havia escrito uma carta à igreja de Corinto, exortando-os a não se associarem com cristãos que praticassem imoralidades (5.9-11). É bem provável que esta carta tenha se perdido e não exista mais. O apóstolo, por sua vez, também recebeu uma carta vinda dos coríntios solicitando conselhos acerca de várias questões (vs.1a). Sendo assim, a maior parte da carta que Paulo enviou aos coríntios são respostas às perguntas que eles lhe fizeram (7 – 16.12). Todavia, em um mundo que reina a lubricidade, isto é, a impureza sexual, a maior vantagem que o celibato e o casamento proporcionam é justamente a pureza sexual, a qual é formada por cinco pilares. Senão vejamos:   

i. O celibatário compelido é reprovado pela Escritura (vs.1) 

A primeira pergunta que os coríntios fizeram a Paulo deve ter sido se “o celibatário é mais espiritual do que o casado”. A expressão não é bom que o homem toque em mulher é um eufemismo, ou seja, é uma figura de linguagem que camufla uma ideia “desagradável” através de uma expressão mais “lene” ("ir para o céu" é um eufemismo para "morrer").

Esta expressão é um sinônimo de casar-se, e abarca todas as relações sexuais, quer dentro ou fora do casamento. Portanto, “o não tocar em mulher” aqui não se refere ao celibato, mas ao ato sexual (veja Gn 20.6; Pv 6.29). Talvez os coríntios inclinados ao ascetismo tenham recorrido à condição de Paulo para confirmarem suas posições sobre o celibato; todavia, este não era o seu entendimento acerca das relações sexuais (vs.2-5; 1Tm 2.15).

Paulo, então, escreve que o celibato é bom e permitido, mas não é obrigatório, visto que nem todos têm o dom do celibato (vs.7-9). Com esta afirmação, Paulo está dizendo que o celibato é preferível ao casamento, como alguns crentes de Corinto pensavam? Não! Paulo reconhece que há benefícios em se permanecer solteiro (vs.7-8, 26). Ele fornece algumas vantagens para que o cristão, dotado desta capacidade, possa escolher esta condição de vida. 

Por outro lado, Calvino disse que Deus ordenou no princípio que o homem sem esposa era meio homem, por assim dizer, e sentia a falta de auxílio de que ele especificamente precisava; e a esposa era, por assim dizer, o complemento do homem. O pecado atingiu e poluiu a instituição divina [o casamento], pois em lugar de benção se transformou numa fonte de muitos problemas. Portanto, qualquer mal ou dificuldade que exista no casamento surge da corrupção da instituição de Deus.[1] 

Com as diretrizes para o casamento (vs.2-5), que demonstra experiência e a possibilidade de ter sido casado, Paulo acentua a importância do mesmo. Em Efésios 5.22-33 e 1 Timóteo 3.2, o apóstolo descreve o casamento como algo positivo. O casamento, o sexo e a procriação fazem parte do plano de Deus (Gn 1.28-29; 2.18). Não obstante, os falsos mestres do passado proibiam o casamento, tendo-o como algo depreciável (1Tm 4.3). A intenção de Paulo, aqui, é corrigir a ideia equivocada e herética daqueles que cominavam o celibato.   
        
ii. O celibato e o casamento impedem a fornicação (vs.2)

A imoralidade sexual imperava em Corinto. A cidade era famosa por sua promiscuidade. Por conta disso, ao escrever o capítulo 7, Paulo deveria ter em mente a questão dos cristãos que se relacionavam sexualmente com as prostitutas da cidade, um assunto que ele tratou no capítulo 6.15-20. Com a expressão mas por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido, Paulo descreve a incapacidade que algumas pessoas tinham em dominar-se sexualmente, o que as impeliam ao pecado. A fim de evitar que os crentes que não possuem o dom de celibato pratiquem o hábito pecaminoso da fornicação, Paulo recomenda que eles se casem.

Calvino observa apropriadamente a seguinte questão:   

Mas alguém perguntará: “A cura para a incontinência é a única razão para se contrair o matrimônio? Minha resposta é que isso não é o que Paulo pretende dizer. Aos que desfrutam do dom da capacidade de suprimir o matrimônio, ele dá a liberdade de se casarem ou não. Ordena, porém, aos demais que queiram casar-se, que atentem bem para suas fraquezas. O que importa é o seguinte: o que está em jogo aqui não são as razões pelas quais o matrimônio foi instituído, e, sim, as pessoas para quem ele é indispensável. Porque, se atentarmos para o primeiro matrimônio [Adão e Eva], percebemos que ele não podia ser um remédio para uma doença a qual ainda não existia [o pecado]”.[2]

Simon Kistemaker esboça que Paulo, nessa declaração, exclui também qualquer tipo de poligamia. O apóstolo enfatiza que deve haver igualdade entre o homem e a mulher no estado de matrimônio. Cada parceiro deve ter seu próprio cônjuge, pois foi assim que Deus ordenou desde o princípio (veja Mt 19.8b).[3] 


Por outro lado, é bem provável, ainda, que alguns cônjuges estivessem recusando ter relações sexuais com seus parceiros, o que levava estes últimos, a maioria homens, a buscar satisfação sexual com prostitutas. Paulo deixa implícito que o relacionamento sexual está limitado ao âmbito matrimonial; ele aconselha os crentes a se relacionarem sexualmente apenas no casamento, que, pautado nas Escrituras, restringe a imoralidade (vs.9).   
    
iii. O casamento é heterossexual, e não homossexual (vs.2) 

Quando Paulo diz que cada homem tenha a sua esposa, e cada mulher tenha o seu marido, fica evidente a ideia de um relacionamento heterossexual. Na época de Paulo, a união homossexual era algo comum. Ele define esse comportamento em Romanos 1.18-32 como algo vil, uma disposição condenável, uma abominação para Deus (veja Lv 18.22). 

Hernandes Dias Lopes observa que a relação homossexual pode chegar a ser aprovada pelas leis dos homens, por causa da corrupção dos costumes, mas jamais será chancelada pelas leis de Deus. Uma decisão não é ética apenas por ser legal. Ainda que a relação homossexual se torne legal pelas leis dos homens, jamais será aprovada por Deus, pois fere frontalmente a Sua Lei.[4]

iiii. A importância das relações sexuais no casamento (vs.3-4)

Para solucionar o problema da imoralidade sexual no casamento, isto é, evitar o adultério e outros meios pecaminosos de satisfação sexual, como a pornografia, o meio de satisfação sexual mais comum hoje, Paulo orienta que o casal, unido pelo matrimônio, mantenha uma vida sexual ativa. Esta é a forma bíblica de refrear a motivação para recorrer aos meios perniciosos de satisfação sexual.

Com um profundo entendimento do relacionamento conjugal, Paulo ensina que tanto o marido quanto a esposa devem observar seus deveres matrimoniais recíprocos. Numa época em que o machismo imperava na sociedade, Paulo enfatiza a igualdade de ambos no relacionamento conjugal. Em outras palavras, Paulo destaca a mutualidade dos direitos conjugais. Senão vejamos:

1 - A obrigação do marido e da esposa (vs.3-4)

O termo conceda é um imperativo. Indica um “dever habitual”. Aqui, Paulo está se referindo ao relacionamento sexual. A Escritura condena como pecado o sexo antes do casamento, caracterizado pela fornicação, o sexo fora do casamento, caracterizado pelo adultério, e a ausência do sexo no casamento, que também é pecado. O marido deve cumprir a sua responsabilidade conjugal para com a sua esposa e, de modo semelhante, a esposa para com o marido. Por que a importância das relações sexuais no casamento?

Werner de Boor diz que em Corinto havia um perigo bem diferente: o “casamento de aparência”. As pessoas permaneciam casadas, mas rejeitavam qualquer vínculo físico mútuo, às vezes por decisão conjunta, às vezes por iniciativa de apenas uma das partes.[5] Marido e mulher possuem direitos assegurados por Deus de desfrutarem da satisfação sexual no casamento.

Adiante, Paulo dirige-se contra qualquer tipo de arbitrariedade por parte de um dos cônjuges em reivindicar como seu direito pessoal dispor do próprio corpo (vs.4). O marido ou a esposa que se recusa a entregar o seu corpo para a satisfação sexual por chantagem, egoísmo, obstinação ou por qualquer outro motivo, defrauda o outro.

Warren Wiersbe afirma que marido e mulher não devem abusar do privilégio do amor sexual que constitui parte normal do casamento. O corpo da esposa pertence ao marido, e o corpo do marido pertence à esposa, sendo que ambos devem ter consideração um para com o outro. O amor sexual é um instrumento maravilhoso de edificação, não uma arma de destruição.[6]   

2 - A abstenção das relações sexuais só é permitida se houver consenso entre o casal (vs.5a)

O casamento sem sexo não é somente antinatural como é também expressamente proibido. Ele não proclama nenhuma ordem sobre ascetismo dentro dos laços do casamento. Paulo dissuade os cristãos coríntios bem-intencionados, porém mal orientados, cuja opinião era que os casados deveriam se abster de relações sexuais.[7] Paulo enuncia na parte a desse versículo que alguns casais da igreja de Corinto estavam privando um ao outro dos seus direitos conjugais. O verbo privar στερεί (stereí), traz a ideia de “subtração”. Denota “roubar algo que pertence à outra pessoa” (6.7-8). Aqui, indica “roubar os direitos de casado” (vs.3; Êx 21.10).  
   
Paulo admoesta os casados a não usurparem o que lhes pertence por direito. Ele ensina aos coríntios que o “slogan” deles de “não tocarem em uma mulher para relação sexual” (vs.1b) não se aplica aos casados. O sexo no casamento é uma ordem apostólica. Faz parte de um casamento normal. A ausência do sexo no casamento é um pecado. O sexo é um direito sagrado do cônjuge. A abstinência sexual só é permitida se houver concordância entre o marido e a esposa e àqueles a quem isso beneficiar. A abstinência sexual não é uma prática ocasional para todos os casais. 
  
3 - A duração da abstenção (vs.5b)

A abstinência das relações sexuais, que é algo necessário para o casamento, não deve ser unilateral, mas se o marido e a esposa concordarem que é por um tempo limitado. Hernandes Dias Lopes escreve:

Quando que um casal pode se abster do sexo? Quando ambos estão em total harmonia e sintonia a respeito da decisão. O homem não pode chegar para a esposa e dizer-lhe: “Esta semana ou este mês eu não estou disponível para a relação sexual”. Nem a mulher pode comunicar ao seu marido que ela está indisponível para ele. Se quiserem tomar essa decisão, os dois precisam estar em absoluto acordo. Às vezes, muitos casais cometem erros gravíssimos quando começam a dar desculpas infundadas para fugir da relação sexual, alegando cansaço, dor de cabeça e outras desculpas sem propósito. A Bíblia diz que essa atitude de boicote sexual no casamento é um pecado e uma desobediência a um mandamento bíblico. A abstinência sexual entre o casal não deve ser por um longo tempo. Paulo esclarece: Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo... (7.5a).[8]

Um longo período de abstinência sexual pode arruinar um casamento, podendo culminar em divórcio.     


4 - A abstenção só é permitida para dedicação à oração e se houver o compromisso do retorno às relações sexuais (vs.5c,d) 
    
Finalmente, a abstinência sexual (algo semelhante ao jejum) só é permitida se o casal usar o tempo da privação para a se dedicar a oração e, por conseguinte, retornar a prática. Simon Kistemaker elenca:

A oração diária é a marca de todo cristão sincero. Por vezes, na vida conjugal, marido e mulher enfrentam crises que pedem oração especial. Quando problemas financeiros, sociais, espirituais ou físicos aparecem para esmagá-los, eles fogem para Deus em oração. Nessas ocasiões, eles poderão voluntária e temporariamente abster-se de intimidades maritais.[9] 

O cônjuge que priva o outro da relação sexual “rouba” aquilo que lhe pertence por direito. A abstenção sexual prolongada abre a “porta do casamento” para Satanás entrar e tentar o cônjuge defraudado a buscar satisfação sexual através de meios pecaminosos (vs.5d). 

Hernandes Dias Lopes observa:

Quando um casal brinca com essa arma do sexo no casamento e chantageia o cônjuge, privando-o da satisfação a que tem direito, Satanás entra nessa história para colocar uma terceira pessoa na jogada e arrebentar com o casamento. Cabe aqui alertar sobre uma grande ameaça à vida sexual dos casais: a pornografia! A Palavra de Deus determina que o leito conjugal deve ser sem mácula (Hb 13.4). Há muitos homens, mesmo cristãos, que estão se tornando viciados em pornografia. São prisioneiros de um vício avassalador. Alimentam suas mentes com o lixo nauseabundo que sai dos esgotos pútridos dessa indústria pornográfica que destrói vidas e arrebenta famílias. Há muitos homens que, adoecidos por esse vício degradante, ainda aviltam sua mulher querendo importar para o leito conjugal essas práticas aviltantes.[10]    

Continua nos próximos dias...


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NOTAS:
1. Calvino. 1 Coríntios, pág 199.
2. Ibid, pág 200.  
3. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 299.  
4. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 129.
5. Werner de Boor. 1 Coríntios, pág 60.
6. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, volume 5, pág 772.
7. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 300-301.
8. Ibid, pág 302.   
9. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 131.
10. Ibid, pág 132.  

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos

Leia também:
Casamento, divórcio e novo casamento - 2/3
Casamento, divórcio e novo casamento - 3/3
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1ª Semana Teológica de 2015 - JMC

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Aconteceu nos dias 18 a 22 de maio, na Igreja Presbiteriana Ebenézer em São Paulo, a 1ª Semana Teológica de 2015 do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, com o tema "O Evangelho e a Transformação Integral". Confira todas as palestras ministradas:


Palestra 1: A Justiça Social à luz da Escritura Sagrada - Rev. Gildásio Reis.



Palestra 2: Introdução à Ética Social de João Calvino - Rev. Hermisten M.P. Costa.



Palestra 3: Calvino e a Responsabilidade Transformadora do Cristão e dos Governantes na Esfera da Política. - Pb. Solano Portela.



Palestra 4: Abraham Kuyper e a Transformação Social - Rev. Heber Campos Jr.




Palestra 5: A Teologia da Missão Integral: Uma Reflexão Crítica à Luz da Teologia Reformada - Rev. Filipe Fontes.


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Fonte: Seminário JMC
Divulgação: Bereianos
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Vivificados para a morte

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Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria.” - Colossenses 3.5

O que é central na mensagem cristã das boas-novas, o Evangelho para o mundo? Uma coisa somente, a morte redentora do Senhor Jesus Cristo”. - Francis Schaeffer

Ao lidarmos com a morte estamos tratando de algum tipo de separação, algum tipo de distanciamento necessário por algum motivo - seja ele evidente ou não. A morte física é a separação da nossa parte imaterial da nossa parte material; a morte espiritual é a separação de nosso ser interior, nossa alma, de Deus. Esse distanciamento de Deus nos destituiu da sua glória. Na sua glória existe vida e morte, a majestade e julgamento, o poder e a graça, santidade e luz. Mas as Escrituras não tratam apenas dos tipos de morte citadas acima, tratam também da morte do cristão, da mortificação de nossa natureza caída. E não é só isso, mas, como dizia Francis Schaeffer, trata da centralidade da morte.
           
No limiar do pensamento moderno, a vontade do homem é colocada em evidência e entronizada como senhora da vida e da morte. As Sagradas Escrituras não ensinam assim. As Escrituras nos mostram que somente Deus pode vivificar o homem caído, vide o texto de Ezequiel 37.13,14:

E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos sepulcros, e vos fizer subir das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR.
        
O Texto aqui nos mostra que o Senhor é o Deus da vida, ele vivifica seu povo. No conhecido livro A morte da morte na morte de Cristo vemos que a morte também tem um papel central no pensamento do teólogo puritano John Owen, tratando sobre o triunfo de Cristo por sua morte e ressurreição. A morte que foi imputada ao homem como juízo de Deus ao pecado na queda. Sobre as consequências da queda de Adão e os efeitos de sua morte nos diz o Bavinck:

Portanto o pecado que Adão cometeu não ficou restrito somente à sua pessoa. Ele continuou a operar em e através de toda a raça humana. Nós não lemos que por um homem entrou o pecado em uma pessoa, mas no mundo (Rm 5.12), e também a morte sobreveio a todos os homens por causa do pecado desse homem.[i]

Na queda a morte entrou no mundo de Deus, esse fato é de suma importância para teologia cristã, visto que não somente a morte de Adão vai ocupar um lugar importante, mas toda teologia do Antigo Testamento parte de uma questão ou questões relacionadas à morte e a redenção. Em Adão a morte entrou no mundo, mas, pela morte a vida e reconciliação com Deus foram concedidas por Cristo, o segundo Adão, como Romanos 5.8 nos diz: 
Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” Também em Romanos 4.25 lemos: O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação. 

Isso não é de somenos importância na teologia cristã, a morte do primeiro Adão trouxe juízo e destituiu o homem da glória de Deus, a morte do segundo Adão (Cristo) trouxe reconciliação ao que estava separado pela morte e o restaurou a glória de Deus, “Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória” (Colossenses 1.27). Diz Calvino:

[Paulo] denomina Cristo a esperança da glória, para que soubessem que nada lhes está faltando para a completa bem-aventurança, quando já possuem a Cristo. Não obstante, esta é uma maravilhosa obra de Deus, que em vasos de barro e frágeis (2Co 4.7) rende a esperança da glória celestial.[ii]       

Ao compreendermos então a centralidade da morte expiatória de Cristo e seus gloriosos efeitos redentores sobre os homens, a Bíblia nos continua a mostrar que essa morte tem significado para a vida cristã, não somente no ato salvador de Cristo, mas em nossa união com ele também, Cristo morreu pelo seu povo (Mt 1.21) para que seu povo fosse salvo e santificado, para que os seus continuassem morrendo para o pecado, isso fala de nossa luta contra nossa natureza carnal, pecadora. Nos diz a Escritura em Colossenses 3.5:


Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria.

Diante da importância do tema estamos perante um espectro maravilhoso da Escritura, o sacrifício de Cristo gera em nós na regeneração do Espírito Santo uma vida de santidade e santificação, ato posicional e contínuo. Essa mortificação se dá pela gloriosa operação do Espírito em nós que nos capacita por seu poder a resistirmos e lutarmos contra o pecado, e agora com os olhos do entendimento abertos para o conhecimento da glória, vivermos como mortos para o pecado. Gosto do que Schaeffer diz sobre essa questão:

[...] a Bíblia nos dá uma negativa, de fato, muito definida – uma que não pode se tornar uma abstração, mas que marca as coisas difíceis da vida normal. Já vimos que a Palavra de Deus é clara ao dizer que em todas as coisas, inclusive naquelas que são difíceis, devemos estar contentes e dizer “muito obrigado” a Deus. É uma verdadeira  negativa, a negativa de dizer “não” a qualquer domínio das coisas e do eu.[iii]       

A Bíblia nos mostra que a vida cristã prova essa negativa que Schaeffer nos diz. E essa negativa nos eleva a uma “positividade”, ou seja, uma vida satisfeita em Deus, uma vida que se contenta e se deleita na vontade de Deus que é melhor que a nossa (Rm 12.1,2). Essa negativa só pode ser vivida quando se tem uma correta perspectiva da verdade e da vida, uma vida não vivida pela morte não pode ser mortificada pela vida. Essa mortificação só pode acontecer quando conhecemos a Deus, e como diz o primeiro capítulo das Institutas de Calvino, o homem só conhece a si mesmo se conhecer a Deus, o conhecimento de Deus é a porta para o entendimento da realidade, fora desse conhecimento real não é possível um conhecimento do que é, sem essa morte posicional e contínua não se conhece de fato o real, mas, o que temos é um efeito noético do pecado dominando a mente do homem. Ainda que pela graça comum algum bem possa ser desfrutado, mesmo manchado pelo pecado, é impossível um conhecimento verdadeiro e real sobre o homem interior e sua verdadeira posição e condição no mundo. Somente pela morte de Cristo e por nossa união com ele podemos conhecer de fato. Continua Schaeffer:

É uma perspectiva diferente. É uma perspectiva que é a antítese daquela que o mundo tem, aquela que normalmente nos rodeia. Quando começamos a contemplar essas palavras nesse cenário – a perspectiva é totalmente outra – a perspectiva do Reino de Deus em vez da do mundo caído e de nossa própria natureza caída – é bem diferente. Somos pressionados por um mundo que não quer dizer não ao eu – não só por uma razão menor, mas por falta de princípio, porque os homens estão decididos a ser o centro do universo. Quando nós saímos um pouco dessa perspectiva muito sombria deles e entramos na perspectiva do Reino de Deus, então essas negativas que são colocadas sobre nós assumem um aspecto inteiramente diferente.[iv]

Logo, segundo a linguagem de Schaeffer a perspectiva do reino pode nos dar a dimensão correta da realidade, da verdade. Ainda sobre Colossenses 3.5, Calvino diz:


Até aqui ele esteve falando do desprezo do mundo. Agora avança mais e aborda uma filosofia mais elevada, a saber, a mortificação da carne. Para que isso seja mais bem compreendido, notemos bem que há uma dupla mortificação. A primeira se relaciona com as coisas que nos cercam. Ele tratou desta até aqui. A outra é a interior – a do entendimento e da vontade, bem como de toda nossa natureza corrupta. Ele faz menção de certos vícios a que chama, não com estrita exatidão, mas, ao mesmo tempo, elegantemente: membros. Pois ele concebe nossa natureza como sendo, por assim dizer, uma massa formada de diferentes vícios. Portanto, estes são nossos membros, visto que, de certa maneira, estão fundidos em nós. Ele os chama também de terrenos, aludindo ao que dissera: “Não nas coisas que não da terra” [v.2], mas num sentido diferente. “Tenho-vos admoestado para que as coisas terrenas sejam desconsideradas; no entanto, deveis tomar como vosso alvo a mortificação desses vícios que vos detêm na terra.” Entretanto, ele notifica que somos terrenos na medida em que os vícios de nossa carne são vigorosos em nós, e que se tornam celestiais pela renovação do Espírito.[v]

Fica claro que é legada a nós uma vida santa pela renovação do Espírito e isso promove uma transformação espiritual, social e cultural no homem, a mortificação em nossa vida é fruto da nossa união com Cristo, é fruto do nosso compromisso com o evangelho, é a vida vivida na morte.

          
Não poderia deixar de mencionar o clássico livro do pastor congregacional John Owen, considerado o príncipe dos puritanos, A Mortificação do Pecado:

Cada pecado não mortificado produzirá duas coisas:
a) Enfraquecerá a alma e a privará da sua força. Quando Davi permitiu que um desejo pecaminoso não mortificado se alojasse no seu coração ele ficou sem vigor espiritual [...] Qualquer desejo pecaminoso que não seja mortificado fará murchar o espírito  e todo o vigor da alma de desse modo enfraquecerá para o cumprimento de todos os seus deveres.
b) Assim como o pecado enfraquece, ele também obscurece a alma e a priva do seu conforto e da sua paz. O pecado é como uma nuvem espessa que se espalha sobre a face da terra e a separa dos raios do amor e do favor de Deus. Rouba a pessoa da sua percepção e do gozo dos privilégios da sua adoção. A mortificação é o único remédio contra esses dois efeitos malignos do pecado na alma.[vi]

No entanto meu objetivo não é concluir de forma negativa sobre a negativização do pecado, ou a mortificação. Ainda tomando as palavras de Owen, vejamos:


A Mortificação também tem um efeito muito benéfico sobre o crescimento da graça de Deus no coração humano.Se compararmos o coração humano a um jardim então a mortificação pode ser assemelhada ao trabalho de se remover as ervas daninhas que impediriam o crescimento das plantas da graça de Deus. Pense num jardim onde uma planta preciosa tenha sido plantada. Se o jardim for regularmente cuidado a planta florescerá. Se, porém, ervas daninhas forem deixadas, a planta será fraca, murcha e sem utilidade. Onde a mortificação não consegue destruir as ervas daninhas do pecado, as plantas da graça de Deus estão prestes a morrer (Ap. 3.2). Estão murchando e morrendo. Tal coração é como o campo do preguiçoso – tomado tanto por ervas daninhas que mal podem ver o trigo. Quando você olha para esse coração, as graças da fé, do amor e do zelo lá estão; todavia são tão fracas, tão entrelaçadas de ervas daninhas do pecado, que não tem utilidade. Que esse coração seja liberto do pecado pela mortificação; e então, estas plantas da fé, do amor e do zelo começarão a florescer e estarão em condições de ser utilizadas para todo bom propósito.[vii]

Nosso jardim irá desfrutar mais vida e beleza, ao retirarmos as ervas daninhas, isso só será feito pela morte, só será possível quando nosso desejo e satisfação por Deus for maior que nossa inclinação ao pecado.


Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. - Gálatas 2.20

Deus é mais glorificado em nós quando somos mais satisfeitos nele.” - John Piper

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Notas:
[i] - Teologia Sistemática, Herman Bavinck, p.197 – Sinodal. (Arquivo em PDF)
[ii] - Comentário de Colossenses, João Calvino, p.526,528 – Ed. FIEL
[iii] - A Verdadeira Espiritualidade, Francis Schaeffer, p. 36 – Ed. Cultura Cristã
[iv] - Ibd, p. 40
[v] - Comentário de Colossenses, João Calvino p.566 – Ed. FIEL
[vi] - A Mortificação do Pecado, John Owen, p. 108,109 – Ed. PES
[vii] - Ibd, p.110.

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Autor: Thomas Magnum de Almeida
Fonte: Electus
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Resposta ao Pr. Silas Daniel - Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão

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Por Franklin Ferreira


Silas Daniel respondeu à minha avaliação de seu texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68) em três longos textos, publicados no site da CPAD. Tratarei de todos eles nesta postagem.

INTRODUÇÃO

Palavras têm significado. Portanto, há que se fazer uma diferença entre semipelagianismo e semiagostinianismo: o primeiro ensina que a graça de Deus e a vontade do homem trabalham juntas na salvação, e o homem deve tomar a iniciativa; a fé e o arrependimento são obras humanas, sendo consideradas pré-requisitos para se receber o Espírito. O segundo ensina que a graça de Deus se estende a todos, capacitando uma pessoa a escolher e a fazer o necessário para a salvação; a fé e o arrependimento são dons do Espírito. Esta diferença não pode ser subestimada. Ainda que o termo “semipelagianismo” tenha sido cunhado pelos luteranos no século XVI, e usado na Epítome da Fórmula de Concórdia, para, retrospectivamente, rotular a teologia associada à João Cassiano (conhecida como massilianismo, mas que também tem sido chamada pelos católicos de semipelagiana). 

Já “molinismo” é a noção ensinada pelo jesuíta Luis de Molina, no século XVI. Esta posição foi uma ruptura não só com os ensinos de Agostinho e Aquino sobre a predestinação, mas também com os de Armínio (na medida em que o molinismo defende que Deus sabe que, se certa pessoa for colocada em uma situação particular, ela não irá resistir à graça). O autor busca respaldo no molinista, ainda que se identifique como arminiano. Para tentar responder à questão “quem criou o que Deus previu?”, ele apela à ideia do “conhecimento divino do futuro contingente condicional” (a scientia media, ideia elaborada por de Molina), que supostamente teria respaldo bíblico (ele cita apenas um texto-prova em apoio a esta ideia). O molinismo tem sido popularizado atualmente por William Lane Craig e Alvin Plantinga. No site Bereianos há farto material refutando o molinismo (escritos por Joseph Nally, James Anderson, John Frame, Herman Bavinck, Matthew McMahon, Paul Helm e François Turretini). E na Teologia Sistemática que escrevi com Alan Myatt há seções tratando criticamente esta posição.

De toda forma, a teologia católica tem rejeitado o ensino associado com o semipelaginismo (ou massilianismo) como herético, desde o Sínodo de Orange, de 529 (Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, 374):

“Cân. 4. Se alguém professa que, para sermos purificados do pecado, Deus aguardou a nossa vontade, não porém que também o querer ser purificados se dá em nós mediante a inspiração e a obra do Espírito Santo, este tal se opõe ao mesmo Espírito Santo, que diz por meio de Salomão: ‘A vontade é preparada pelo Senhor [Pv 8.35 septg.], e ao Apóstolo, que salutarmente anuncia: ‘É Deus que opera em vós tanto o querer como o realizar segundo seu beneplácito’ [cf. Fp 2.13]”.

Silas reconhece que errou em seu estudo da soteriologia dos teólogos medievais. Ele havia, confiantemente, escrito em seu artigo publicado na revista Obreiro Aprovado que “o que prevaleceu na Igreja, desde o século 6 em diante, foi uma soteriologia que aceitava a Depravação Total, mas negava o conceito de predestinação”. Agora, nas postagens mais recentes, escreve, corrigindo-se, que “houve um excesso (...) [de sua] parte ao desprezar 100% de todo e qualquer vestígio da compreensão agostiniana em relação à mecânica da Salvação durante a Idade Média”. Tratarei do uso da história por parte de Silas neste texto, mas me causa desconforto o uso recorrente da expressão “mecânica da salvação”, o que, me parece, remete o debate à posição católica popular (como conectada ao recebimento mecânico da graça pelos sacramentos, numa distorção daquilo que o catolicismo denomina de ex opere operato) ou evangélica popular (como relacionada à “aceitação” de Cristo diante do apelo, que assegura aquele que “se decidiu” a salvação, conforme sistema popularizado pelo pelagiano Charles Finney), o que empobrece a linguagem do debate. 

1. SOTERIOLOGIA AGOSTINIANA NA IDADE MÉDIA

Parece óbvio escrever isso, mas nenhum especialista em história do pensamento cristão afirmou que há plena concordância entre os teólogos medievais que citei e as formulações de Agostinho, o “Doutor da Graça”, como parece ter entendido o autor. Mas não há como notar que há sim algum tipo de continuidade entre as formulações de Agostinho e dos teólogos medievais que citei anteriormente: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino, além de Jan Hus e John Wycliffe. Mesmo quanto ao conceito do livre-arbítrio há diferenças de definição entre estes autores (e não só entre eles, mas entre Martinho Lutero, João Calvino e Jonathan Edwards. cf. R. C. Sproul, Sola Gratia). No afã de provar que os autores antigos não eram “calvinistas” (ou, pelo menos, eram mais próximos do “arminianismo”), o autor perdeu de vista o que afirmei em meu primeiro texto, quando lembrei que há diferenças significativas entre os teólogos cristãos, uma constatação que deveria ser óbvia para qualquer um familiarizado com fontes primárias. “Um bom ponto de partida para tratar de temas teológicos controversos é começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições professadas, e não com as posições de teólogos, por mais importantes que estes sejam”. Em outras palavras, o que determina o que tal tradição crê (no caso, a tradição católica, reformada, luterana, batista, etc.) são seus documentos confessionais, não a posição de seus teólogos, mesmo dos mais representativos – pois este recurso, via de regra, se vale da falácia do argumento da autoridade (ad verecundiam) e também suscita a pergunta: por que recorrer a teólogo tal, quando se pode citar outro teólogo?

Usando a data da queda do Império Romano do Ocidente, que a historiografia tradicional emprega para marcar o fim da Antiguidade clássica, o autor rejeita Próspero de Aquitânia como um escritor medieval, desconsiderando o fato de que, intelectualmente, pode-se citar as origens do pensamento medieval cristão em Agostinho de Hipona, o “mestre do ocidente” (Philotheus Boehner e Etienne Gilson, História da filosofia cristã) – por exemplo, Jacques LeGoff situa Agostinho num primeiro período do medievo, que “balança da Antiguidade Tardia e a alta Idade Média” (cf. Homens e mulheres da Idade Média; cf. também A. S. McGrade (org.), Filosofia medieval; Josep-Ignasi Saranyana, La filosofía medieval: desde sus orígenes patrísticos hasta la escolástica barroca; Etienne Gilson, A filosofia na Idade Média; D. W. Hamlyn, História da filosofia ocidental, etc.). Ao tratar da rejeição da heresia pelagiana no Sínodo de Cartago, em 418, M. Pohlenz afirmou: “O fato de a Igreja ter-se pronunciado por tal doutrina [da necessidade da graça] assinalou o fim da ética pagã e de toda a filosofia helênica – e assim começou a Idade Média” (cf. Giovanni Reale & Dario Antiseri, História da filosofia. v. 2). 

De qualquer forma, há algumas afirmações questionáveis por parte do autor sobre os teólogos citados. Sobre Próspero, supondo haver ocorrido uma mudança em sua posição (várias citações deste autor podem ser encontradas em Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 1) – Próspero, após abandonar a Gália, onde contendia com os discípulos de Cassiano, se tornou secretário de Leão I, sendo influente na composição do Tomo a Flaviano, fundamental na preparação da Definição de Calcedônia (cf. Philip Jenkins, Guerras santas). E os cânones do Sínodo de Orange foram baseados em uma coletânea de textos de Agostinho (chamadas Sententiae) “recolhidas em Roma pela metade do século V por Próspero de Aquitânia” (cf. Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, p. 139). Pode-se citar neste contexto, outro importante agostiniano, Isidoro de Sevilha, considerado o último grande Pai latino, que defendeu as posições agostinianas sobre predestinação e graça em sua obra Etymologie (livro VII) – e foi ele, mais do que Agostinho (que tratou mais da predestinação para a vida eterna, do que à condenação eterna), que formulou a doutrina da predestinação dupla (Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 3).

Sobre Anselmo e Bernardo, o autor reconhece que ambos seguiram a Agostinho, ainda que “foram menos consistentes que Gottschalk em sua fidelidade à visão agostiniana”, como ele mesmo escreve. Mas este não é o ponto em questão. O fato é que ambos eram monergistas, como aqueles que forem às suas obras poderão comprovar. Sobre Bradwardine, o autor afirma, categoricamente, sem apresentar fontes, que ele “não cria na depravação total, dizendo que o pecado original não teria causado consequências mais graves sobre a natureza humana”. Na verdade, este teólogo medieval não enfatizou tal doutrina por uma razão metodológica: “Bradwardine apoia sua teologia anti-pelagiana com uma doutrina metafísica da onipotência divina consideravelmente distinta das ideias de Agostinho, resultando em que a dependência soteriológica total da humanidade em Deus é considerada uma consequência do caráter do ser humano como criatura e não de sua pecaminosidade. A Queda não é, portanto, tida como um divisor de águas na economia da salvação”. Outro teólogo medieval pode ser citado como um firme agostiniano, Gregório de Rimini: “Enquanto o predestinarismo de Bradwardine é resultante de sua doutrina metafísica da onipotência divina, o de Gregório surge de seu conceito cristologicamente centrado na história da salvação” (cf. Alister McGrath, Origens intelectuais da Reforma). De qualquer forma, recomendo a obra de McGrath, que oferece uma boa discussão do impacto de Bradwardine e de Rimini na teologia posterior, e as diferenças entre as escolas filosóficas de ambos.

Acerca de Tomás de Kémpis, há uma carta que Susanna Wesley escreveu ao seu filho John, reclamando por aquele crer na predestinação (datada de 8 de junho de 1725; cf. Susanna Wesley: The Complete Writings). E a respeito de Tomás de Aquino, ele também reconhece que ele “cria na predestinação agostiniana só para os eleitos”. Portanto, a afirmação de seu primeiro artigo, de que não havia ninguém que ensinasse a doutrina da predestinação entre Agostinho e a Reforma Protestante, é falaciosa – ainda que ele reconheça, corretamente, em seu primeiro artigo, que, “do século 16 ao 18 a principal corrente no meio protestante mundial era o que se convencionou chamar de calvinismo”. Portanto, para deixar claro, o que era comum a todos os teólogos medievais citados acima era a crença na predestinação dos eleitos, ou aqueles que são salvos; mas eles (com a possível exceção de Isidoro e Gottschalk) negavam que Deus predestinaria ativamente pecadores ao inferno, desde a eternidade, sem levar em conta suas próprias escolhas. Tal posição está em harmonia com o que havia sido definido no Sínodo de Quierzy, em 850 (cf. Denzinger-Hünermann [ed.], Compêndio, 621-621):

“Cap. 1. Deus onipotente criou o homem sem pecado, reto e com livre-arbítrio e, querendo que permanecesse na santidade da justiça, colocou-o no paraíso. O homem, porém, usando mal o livre-arbítrio, pecou e caiu, e se tornou a ‘massa da perdição’ de todo o gênero humano. Deus bom e justo escolheu, porém, dessa massa de perdição, segundo sua presciência, os que por graça predestinou [Rm 8.29s; Ef 1.11] à vida, e predestinou-lhes a vida eterna; dos outros, porém, que segundo o juízo da justiça deixou na massa da perdição, ele sabia com antecedência que se perderiam, não porque os tivesse predestinado a se perderem, mas porque, sendo justo, lhes predestinou uma pena eterna. E por isso falamos, simplesmente, de uma só predestinação de Deus, que se refere quer ao dom da graça, quer à retribuição da justiça. 
Cap. 2. No primeiro homem perdemos o livre-arbítrio, e o recebemos mediante Cristo nosso Senhor; de uma parte, temos o livre-arbítrio para o bem, prevenido e ajudado pela graça, de outra temos o livre-arbítrio para o mal, abandonado pela graça. Temos, pois, o livre-arbítrio, porque foi libertado pela graça e pela graça foi sanado do arbítrio corrompido.”

2. A RESSURGÊNCIA DA SOTERIOLOGIA AGOSTINIANA

Silas se equivoca ao supor que dei “a entender que a posição agostiniana referente à (...) Salvação era, se não majoritária, pelo menos de grande influência na Idade Média, quando, na verdade, ela não foi nem majoritária, nem de grande influência na época de nenhum desses nomes, mas muito ao contrário”. Nenhum especialista em história do pensamento cristão fez tal afirmação. Também é evidente para qualquer estudioso do período medieval que o pelagianismo e o massilianismo (ou “semipelagianismo”) eram a posição dominante no catolicismo popular medieval, ainda que os principais teólogos do período seguissem em maior ou menor grau a soteriologia de Agostinho. E é justamente a prevalência do “semipelagianismo” na igreja medieval que fornece o contexto para que a Reforma Protestante seja chamada de “renascença agostiniana” (cf. Timothy George, Teologia dos reformadores) e o movimento puritano inglês e escocês dos séculos XVI e XVII seja chamado de “agostinianismo reformado” (cf. J. I. Packer, “Os puritanos”, Robin Keeley (org.), Fundamentos da teologia cristã).

Assim sendo, é necessário dizer que ainda que quase todos os teólogos reformados e luteranos no continente, assim como os teólogos puritanos na Inglaterra, fossem firmemente monergistas, há diferenças de método e ênfase entre eles, como qualquer leitor dos mesmos sabe (pode-se citar, somente a título de ilustração, Martinho Lutero, Martin Bucer, Ulrich Zwinglio, João Calvino, Teodoro de Beza, William Perkins e William Ames). Aliás, não deixa de ser irônica a tentativa do autor de usar o pensamento de João Calvino como uma espécie de gabarito para analisar os autores mais antigos – quando a obra de Ames, The Marrow of Theology foi imensamente mais influente no calvinismo na Inglaterra e nas treze colônias na América (que se tornariam os Estados Unidos) nos séculos XVII e XVIII que as Institutas da Religião Cristã

Portanto, mais uma vez: o que define uma tradição não são os escritos dos teólogos que pertencem à certa tradição, mas sim as confissões de fé que resumem esta tradição. Se o leitor, portanto, quer saber o que a tradição reformada ensina sobre predestinação, deve ir diretamente à Confissão de Fé de Westminster (III.1-8), à Confissão Belga (Artigo 16), à Segunda Confissão Helvética (X.1-9) e aos Cânones de Dort (I.6-18, II.8-9, e rejeições de erros).

3. A PROGRESSÃO DO DOGMA

Em nenhum de meus escritos afirmo algo como uma “forte linhagem histórica calvinista”, como o autor sugere. Nem mesmo fiz isso em minha avaliação do artigo dele. Na verdade, a meu ver, o maior erro presente na análise histórica de Silas Daniel é o anacronismo, que “consiste em utilizar os conceitos e ideias de uma época para analisar os fatos de outro tempo” – segundo Lucien Febvre, o pecado mortal do historiador. Com isso, as nuances e diferenças na soteriologia dos pais latinos e gregos que viveram antes de Agostinho, assim como dos teólogos medievais, são perdidas, justamente por, no caso, o autor não permitir aos Pais da Igreja e Medievais falarem, mas tentar impor a estes autores categorias interpretativas estranhas ao pensamento deles, tais como “cinco pontos do calvinismo” ou do “arminianismo”. Ele constantemente usa estas categorias de avaliação (ou lentes interpretativas), tentando achar “textos-prova”, a favor ou contra estes, nos diversos escritores citados. Portanto, o uso destes eixos interpretativos, de forma anacrônica, torna sua pesquisa histórica comprometida.

Os eixos interpretativos devem ser: monergismo e sinergismo, ou agostinianismo e pelagianismo (e suas gradações, semiagostinianismo e “semipelagianismo”). Neste sentido, todos os autores que citei afirmaram uma soteriologia monergística (ainda que com diferenças entre si e inconsistências), e todos os que citei, em maior ou menor grau, seguiram as formulações de Agostinho sobre a predestinação (cf. a tabela em Reginald Garrigou-Lagrange, Grace: Commentary on the Summa Theologica of St. Thomas, ch. 1). Deve-se ter em mente que o autor-chave que mitigou e reinterpretou os ensinos de Agostinho sobre a graça foi Gregório I, o Grande – e que, junto com Agostinho, é considerado um dos “fundadores da Idade Média” latina (cf. J. LeGoff, Homens e mulheres da Idade Média).

O autor cita Jack Cottrell em seu apoio, para afirmar o que deveria ser claro: que nenhum Pai da Igreja antes de Agostinho cria na predestinação graciosa e soberana, ainda que usem tal fraseologia ocasionalmente (cf. 1 Clemente, 1.1; 6.1; 29.1; 46.4; 50.6-7). Mas, ao mesmo tempo em que critica Michael Horton, Cottrell (e, parece, Silas) cai no mesmo erro que ele visa corrigir; ele, aparentemente, não faz o serviço completo, ou seja, demonstrar qual seja a doutrina da salvação dos Pais da Igreja antes de Agostinho.

Por exemplo, a noção de livre-arbítrio em vários dos Pais (Justino, Irene e Tertuliano) estava, na maioria das vezes, conectada à teodicéia, não à soteriologia. E isso se deu porque a apologética destes Pais era dirigida contra o determinismo cego presente na cultura greco-romana. Sobre a salvação, em linhas gerais, os Pais diziam que a antiga lei tinha sido abolida, e o evangelho seria a nova lei. Deste modo, os Pais ressaltaram a obediência à esta nova lei, bem como a imitação de Cristo, como sendo o caminho da salvação, e o conteúdo essencial da vida cristã. Mesmo em Agostinho não havia uma noção da imputação da justiça de Cristo aos pecadores, recebida pela fé somente (um tema-chave da Reforma protestante do século XVI). Também se enfatizava que o Espírito Santo era recebido por meio do sacramento do batismo. Em outras ocasiões, a salvação era apresentada em termos de imortalidade e indestrutibilidade, em vez de perdão dos pecados. E vários dos Pais orientais, inclusive João Cassiano, no ocidente, afirmaram a doutrina sinergística da theosis, ensinando que a salvação seria adquirida por meio da divinização do homem. Em linhas gerais, estas várias formulações confundiram os ensinos bíblicos sobre a justificação e a santificação. Por outro lado, a noção da eleição por meio da presciência divina estava conectada, muitas vezes, com a previsão de algum tipo de mérito. Justino, por exemplo, afirmou que Deus “prevê que alguns se salvarão pela penitência” (cf. 1 Apologia, 28.2). Ainda assim, a morte e a ressurreição de Cristo eram enfatizadas como constituindo o fundamento da salvação dos homens – mas Cottrell e Silas parecem ignorar estas nuanças, que tornam a teologia dos Pais bem diferente da posição arminiana clássica (para a soteriologia dos Pais da Igreja, cf. J. N. D. Kelly, Patrística, caps. 13-14; Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 1, cap. 6).

De qualquer forma, duvido que um arminiano genuíno endosse tais posições – e Silas cai na própria armadilha que visa refutar. Por causa da interpretação anacrônica que arminianos contemporâneos (e mesmo calvinistas, como Steven J. Lawson, no irregular Pilares da graça, v. 2) fazem dos escritores cristãos da Antiguidade e do Medievo, variações e diferenças entre os escritores antigos na soteriologia são ignoradas, justamente por não permitir que estes escritores falem, mas tentar impor categorias interpretativas estranhas ao pensamento deles. Mesmo a interpretação que Silas oferece de aspectos da soteriologia de Agostinho incorre no anacronismo, pois ele tenta interpretá-la pela lente dos “cinco pontos” do calvinismo. Uma interpretação da posição de Agostinho, sucinta, sóbria e muito mais perto da verdade, é sugerida por Colin Brown (cf. Filosofia e fé cristã):

“Frequentemente tem sido dito que tanto o catolicismo quanto o protestantismo têm sua origem em Agostinho. O primeiro obtém dele (mas não exclusivamente dele) seu alto conceito da igreja e dos sacramentos. O último segue Agostinho na sua visão da soberania de Deus, da perdição do homem no pecado e da graça de Deus que é o meio exclusivo para trazer a salvação ao homem. Assim como ocorre a todos os ditados fáceis, esta declaração acerca de Agostinho simplifica demais. Há, certamente, católicos hoje que compartilham do ponto de vista de Agostinho acerca da salvação e protestantes que não compartilham dele. Seja como for, porém, foi de Agostinho mais do que qualquer outro teólogo individualmente que o pensamento medieval recebeu seu arcabouço teológico de ideias. Mesmo quando pensadores posteriores alteraram a pintura dentro do quadro, o arcabouço com que começaram foi a teologia da igreja primitiva em geral e a de Agostinho em particular”.

O que é preciso ter em mente é que os escritos dos Pais da Igreja, especialmente no que se refere ao ensino da graça antes da controvérsia pelagiana, não pretendiam ser apresentações doutrinárias sobre salvação no sentido estrito do termo. Como resultado, não podemos esperar deles um quadro completo destes artigos de fé. Até porque a soteriologia não foi um problema com o qual eles precisaram se defrontar, já que os principais debates estavam relacionados com a Trindade e a divindade de Cristo – e resulta daí as tensões e mesmo contradições presentes em seus escritos, quando tratam da soteriologia.

Também é importante destacar que o Sínodo de Orange rejeitou o pelagianismo e o “semipelagianismo” (massilianismo), e a noção de que Deus predestinaria pecadores à perdição. Mas não rejeitou a predestinação para a vida eterna, e afirmou que a fé seria resultado da ação prévia do Espírito Santo (Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, 397):

“[Conclusão redigida pelo bispo Cesário de Arles] Segundo a fé católica cremos também que, depois de ter recebido a graça pelo batismo, todos os batizados, com o auxílio e a cooperação de Cristo, podem e devem cumprir quanto diz respeito à salvação da alma, se quiserem empenhar-se fielmente. Ao contrário, não só não acreditamos que pelo divino poder alguns tenham sido predestinados ao mal, mas, se há alguns que querem crer em tamanho mal, com toda a reprovação lhes dizemos: anátema!
Professamos e cremos também, para nossa salvação, que cada boa obra não somos nós a iniciar, sendo depois ajudados pela misericórdia de Deus, mas que ele, sem que preceda algum mérito bom, nos inspira antes de tudo a fé e o amor a ele, para que, de uma parte, procuremos com fé o sacramento do batismo e, de outra, depois do batismo, com seu auxílio possamos cumprir o que lhe agrada. Por isso, evidentissimamente, é preciso crer que tão admirável fé – seja a do ladrão que o Senhor chamou para a pátria do paraíso [Lc 23.43], seja a do centurião Cornélio [At 10.3], seja a de Zaqueu, que mereceu acolher o próprio Senhor [Lc 19.6] – não vem da natureza, mas foi doada pela generosidade da graça divina”.

O que se rejeitou no Sínodo de Orange, portanto, foi a ideia de que predestinação e reprovação seriam noções simétricas. A posição estabelecida neste sínodo foi reafirmada no Sínodo de Quierzy, em 853, que rejeitou o ensino da predestinação à perdição (atribuído a Gottschalk), reafirmando que Deus predestina pela graça e salva pela misericórdia, e a reprovação é um ato de perfeita justiça, que pronuncia a pena unicamente para punir a falta, e após a previsão dessa: “Cap. 3. (...) Que alguns sejam salvos é dom daquele que salva; que alguns ao contrário se percam é culpa dos que se perdem” (Denzinger-Hünermann [eds.], Compêndio, 623). O Sínodo de Valença, realizado em 855, afirmou: “Cân. 3. (...) Assim professamos com fé a predestinação dos eleitos à vida e a predestinação dos ímpios à morte; na eleição dos que devem ser salvos, a misericórdia de Deus precede o mérito, mas na condenação dos que perecerão, o desmérito precede o juízo de Deus” (Denzinger-Hünermann [eds.], Compêndio, 628).

CONCLUSÕES

Três observações finais: parece que Silas ficou espantado com a repercussão de seu texto, mesmo em círculos fora das Assembleias de Deus. Isso se deu, me parece, por ser um texto bem escrito e por, finalmente, haver uma boa defesa do arminianismo – não do velho pelaginismo, ainda tão presente em nosso meio, mesmo em denominações históricas. E deve-se ter em mente que o debate soteriológico não está circunscrito a uma denominação. Ao escrever sua defesa do arminianismo, o autor está dialogando com toda a igreja evangélica.

Não indiquei ao Silas comentários bíblicos para suplementar a falta de exegese em seu texto. Isso seria indelicadeza de minha parte. Os indiquei aos leitores de meu texto, como qualquer um pode conferir, indo à primeira postagem. De qualquer forma, o desafio feito ao fim daquele texto permanece – por mais valioso que seja o diálogo com a tradição cristã, no fim, o que decidirá todo debate entre irmãos será a “exegese, exegese e mais exegese”. Pois, como diz a Confissão Belga (Artigo 2), “Deus se fez conhecer, ainda mais clara e plenamente, por sua sagrada e divina Palavra, isto é, tanto quanto nos é necessário nesta vida, para sua glória e para a salvação dos que lhe pertencem”.

Por fim, muitos leitores elogiaram o tom cordial de parte a parte. Isso se dá porque Silas, diferente de escritores pelagianos, não trata o calvinismo como uma heresia. E, é necessário deixar claro, mesmo calvinistas não tratam o arminianismo como herético. Ou, pelo menos, não deveriam. Por exemplo: Agostinho, refutou os erros dos massilianos (“semipelagianos”) em duas obras (A predestinação dos santos e O dom da esperança), mas tratou-os como irmãos ou amigos errados, não como hereges. William Ames (que foi conselheiro do presidente do Sínodo de Dort, Johannes Bogerman), escreveu que o arminianismo “não é corretamente uma heresia, mas um erro perigoso na fé”.

John Wesley reconheceu, em 1745, que sua teologia estava “a um fio de cabelo” do pensamento de João Calvino: “Ao atribuir todo o bem à livre graça de Deus. Ao negar o livre-arbítrio natural e o poder antecedente à graça. E, ao excluir o mérito humano; mesmo para o que ele realizou ou pratica pela graça de Deus”. Isso é exemplificado numa conversa que Charles Simeon teve com Wesley, em 1784:

“Senhor, sei que o chamam de arminiano; e algumas vezes sou chamado de calvinista; portanto, deveríamos desembainhar as espadas. Porém, antes de consentir em iniciar o combate, permita-me fazer-lhe algumas perguntas (...). Diga-me: o senhor se sente uma criatura depravada, tão depravada que nunca teria pensado em voltar-se para Deus, se ele não tivesse colocado isso em seu coração?
Sim [replicou o veterano], sinto-o realmente.  
E não tem esperança alguma de tornar-se aceitável perante Deus por qualquer coisa que possa fazer por si; e espera na salvação exclusivamente através do sangue e da justiça de Cristo?  
Sim, unicamente por meio de Cristo. 
Mas, senhor, supondo-se que foi inicialmente salvo por Cristo, não poderia de alguma outra forma salvar-se depois, através de suas próprias obras? 
Não, mas terei de ser salvo por Cristo do princípio ao fim. 
Admitindo, portanto, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, o senhor, de um modo ou de outro não tem que se manter por suas próprias forças? 
Não. 
Nesse caso, então, o senhor tem que ser mantido, cada hora e momento, por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe? 
Sim, inteiramente. 
E toda sua esperança está firmada na graça e misericórdia de Deus, para ser preservado até o seu reino celeste?
Sim, não tenho esperanças senão nele. 
Então, senhor, com sua permissão embainharei novamente a minha espada; pois este é todo o meu calvinismo; esta é a minha eleição, minha justificação pela fé, minha perseverança final; em suma, é tudo quanto sustento, e como o sustento; portanto, se lhe parecer bem, em lugar de buscarmos termos e frases que serviriam de base para luta entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas sobre as quais concordamos.”

O grande desejo de John Wesley, ao qual ele devotou sua vida, foi pregar “as três grandes doutrinas bíblicas: o pecado original, a justificação pela fé e a consequente santidade”. Que Deus nos dê de seu Espírito Santo para não apenas confessar tais doutrinas, mas pregá-las com zelo e paixão nesta época em que a igreja cristã é desafiada e confrontada com um ambiente cultural e político cada vez mais hostil à fé evangélica.

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Divulgação: Bereianos
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