O Ponto Fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus

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A Assembleia de Deus é uma das denominações mais conhecidas das igrejas evangélicas no Brasil. De acordo com o censo de 2010, do IBGE, ela é o maior segmento evangélico, com 12 milhões de fiéis, e o segundo maior do Brasil, atrás da Igreja Católica. Além de ser influente no Brasil, vale ressaltar que a Assembleia é uma denominação popular em vários países do mundo, sendo reconhecida internacionalmente.

As Assembleias originaram-se do ressurgimento pentecostal do início do século XX. Esse avivamento levou à fundação das Assembleias de Deus nos Estados Unidos em 1914. Através da obra missionária estrangeira e estabelecendo relações com outras igrejas, as Assembleias de Deus se expandiram para um movimento mundial. E, como toda comunhão pentecostal, as Assembleias de Deus acreditam no distintivo pentecostal do batismo no Espírito Santo, com a evidência de falar em línguas.

O presente artigo é baseado na Declaração de Fé da Assembleia de Deus, e tem como finalidade contrariar algumas doutrinas citadas na obra. Para isso, serão apresentados os equívocos teológicos presentes nesse credo e, posteriormente, diagnosticaremos a razão de sua existência – o ponto fraco – tomando como referência as doutrinas reformadas, as quais, julga o autor, têm apoio escriturístico mais coerente.

A Apresentação da Declaração de Fé da Assembleia diz que

1. A DF¹ não oferece nenhuma oportunidade para vicissitudes.
2. A DF tem íntima e inseparável comunhão com as doutrinas bíblicas.
3. A DF possui um grande rigor na observação doutrinária.
4. A DF serve como um guia contra falsas doutrinas.

Dessa forma, a missão deste artigo é

1. Mostrar que algumas doutrinas da DF possuem falhas interpretativas, contradições e instabilidades.
2. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm fundamento lógico e/ou coerência.
3. Mostrar que algumas doutrinas da DF não têm apoio bíblico ou se apoiam em um texto bíblico interpretado de maneira forçada.
4. Finalmente, mostrar que, apesar da DF ter o objetivo de proteger seus fiéis contra heresias, ela mesma é uma fonte de onde podem surgir heresias, por causa de seus próprios equívocos perigosos. 


1. SOBRE A SALVAÇÃO

1.1. ARMINIANISMO (FACTS)

A Assembleia demonstra, em sua DF, seguir a corrente soteriológica arminiana, que apresenta cinco pontos.

F: Livre pela Graça (Freed by Grace)
A: Expiação Ilimitada (Atonement for All)
C: Eleição Condicional (Conditional Election)
T: Depravação Total (Total Depravity)
S: Segurança em Cristo (Security in Christ)

Segundo os ensinos de Armínio, cada pessoa tem livre arbítrio (Livre pela Graça) para escolher seguir a Deus ou não. Sendo assim, para ser salvo, é o homem que deve se movimentar em direção a Cristo. Para o arminianismo, Deus elegeu para a salvação aqueles que Ele sabia que aceitariam a salvação (Eleição Condicional). Sendo assim, trata-se de uma eleição condicionada à ação do homem, que somente precisa ter fé para ser salvo. Quanto à expiação, acredita-se que foi ilimitada (Expiação Ilimitada), ou seja, Cristo morreu por todos e pagou pelos pecados de todos. Porém, o ser humano pode resistir à ação do Espírito Santo em sua vida (Graça Resistível) e escolher não ser atraído por ela para a salvação em Cristo. E em relação a durabilidade da salvação, um homem pode deixar de ser salvo caso peque e não se arrependa e não persista nas boas obras (Segurança em Cristo).

1.2. CALVINISMO (TULIP)

No século XX, ocorreu o Sínodo de Dort na Holanda. A razão para este concílio foi discutir o crescimento de uma doutrina nova e diferente na Igreja Reformada Holandesa: o arminianismo. A agenda da discussão incluiu cinco temas fundamentais sobre a salvação, os quais foram interpretados por João Calvino: a depravação total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a perseverança dos santos. No final do Sínodo, Jacó Arminio e seus ensinos haviam sido oficialmente rejeitados pela Igreja por estarem em discordância com tais temas. Assim, TULIP é o acróstico que abrange os 5 pontos da soteriologia reformada de uma forma simples e concreta.

T: Depravação Total (Total Depravity) 
U: Eleição Incondicional (Unconditional Election)
L: Expiação Limitada (Limited Atonement) 
I: Graça Irresistível (Irresistible Grace) 
P: Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints) 

A Depravação Total diz que toda a humanidade foi afetada, danificada e distorcida pela entrada do pecado no mundo, de modo que estamos mortos em nossas transgressões e pecados (Ef 2.5), e nós mesmos não podemos mudar a nossa situação sem a graça do Espírito Santo (Cl 2.13), pois somos inclinados, por natureza, ao mal. As doutrinas do pecado e a depravação total do homem são mais do que bem representadas em ambos os testamentos (cf. Is 53.6; 2 Cr 6.36; Rm 3.9-12; 1 Jo 1.8,10; Mc 10.18; Mq 7.2-4; Jr 17.9; Mt 15.19; Gn 6.5, 8.21). 

A Eleição Incondicional afirma que Deus escolhe a quem Ele quer escolher. Uma vez que estamos mortos, a única saída da nossa morte espiritual é que Deus nos tire dela (2 Tm 1.9). Se realmente cremos que somos maus, não temos o direito de reclamar que Deus exerça Sua graça soberanamente (Rm 9.11-16). A eleição incondicional significa simplesmente que Deus escolhe dar a vida eterna sem ter visto nada de bom nos eleitos. Assim, alguns homens são predestinados à vida eterna; e outros são predestinados à morte eterna. E isso fica claro em João 15.16 e é comum na teologia paulina (cf. Ef 1.4-5; 1 Ts 1.4-5; 2 Ts 2.13; 1Co 1.27-29). 

A Expiação Limitada explica que a morte de Cristo paga por todos os pecados daqueles que foram eleitos. O perdão dos pecados está disponível para todos os pecadores e a expiação de Cristo é suficiente para que toda a humanidade seja salva (independentemente de crerem ou não), mas é eficiente somente para aqueles que creem, isto é, aqueles a quem o Pai predestinou desde a fundação do mundo. Isso pode ser visto em vários textos (cf. Ef 1.4; Is 53.11; 2 Co 5.21; Jo 10.11-29). 

A Graça Irresistível diz que ninguém pode negar ou resistir à graça salvadora de Deus. Quando a graça vem, nunca pode ser rejeitada: sua eficácia é perfeita. Isto significa que se Deus escolheu alguém, não há como essa pessoa não ser salva. Todos a quem Deus elegeu para a salvação serão inevitavelmente salvos a seu tempo determinado por Deus. Quem somos nós para dizer ‘não’ ao Senhor (Rm 9.19-20)? Assim, vemos o poder da graça em toda a Escritura (cf. Jo 6.37,44,65; 2 Ts 2.13-14; 1 Co 1.9). 

A Perseverança dos Santos conclui que os escolhidos perseverarão até o fim. Filipenses 1:6 nos diz: “Estou convencido precisamente disto: que aquele que começou a boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Isto não se refere ao chamado “uma vez salvo, sempre salvo”, que uma vez que somos escolhidos por Deus, podemos viver como quisermos. Pelo contrário, diz-nos que, na soberania de Deus, aqueles que Ele escolheu para a salvação sustentarão aquela confissão de conversão até à sua morte, perseverando na vida de santidade. Esta verdade é citada várias vezes na Bíblia (cf. Rm 8.35-39; 2 Pe 1.10; Jo 10.28,29; 1 Jo 3.9; 1 Pe 1.5,9). 

“Quem Deus aceitou em seu Amado, e que foi efetivamente chamado e santificado pelo seu Espírito, não pode cair completa ou definitivamente do estado de graça, mas deve seguramente perseverar nele até o fim, e serão salvos eternamente (...) Esta perseverança dos santos não depende do seu livre arbítrio, mas da imutabilidade do decreto de eleição, que brota do amor livre e imutável de Deus Pai” (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 17, I, II)

1.3. REFUTAÇÃO AO ARMINIANISMO

1.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que não há eleição para a condenação e que Deus deseja a salvação de todos, pagando, assim, pelos pecados de todos (p. 110, l. 12-15). Ora, se há um grupo de pessoas selecionadas por Deus para serem salvas, consequentemente, há um outro grupo selecionado por Deus para a condenação (Rm 9.21). E isso não torna Deus injusto ou mal, pois a verdade é que a salvação não é algo que merecemos (Ef 2.8-9). Deus não “deveria” nos salvar, Ele não possui uma dívida para conosco. Além do mais, a eleição não foi feita com base em preferencialismos (Ef 1.4). Ele não escolheu os mais ricos, os mais nobres, os mais piedosos, os mais santos, até porque não somos nada disso e, se comparados a soberania de Deus, que somos (1 Pe 1.24)? Por fim, dizer que o sacrifício de Cristo expiou os pecados de todos é o mesmo que dizer que aqueles que não aceitaram a Cristo tornaram a morte dEle um fracasso, já que não serviu para a salvação dos que não a desejam.

1.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que a graça é resistível por causa do livre arbítrio (p. 110, l. 17). Se pararmos para pensar, essa afirmação enaltece o homem e diminui a soberania de Deus. De acordo com a depravação total, o ser humano é corrupto por natureza, logo, não pode, pelo seu livre arbítrio corrompido pelo pecado, escolher a Deus. Porém, quando o Espírito Santo chama um eleito, a seu tempo determinado por Deus, ele não pode resistir, pois quem pode resistir aos planos do Altíssimo (Jó 42.2)? Obviamente, por vezes, podemos ser desobedientes e obstinados. Não somos perfeitos. Mas isso não impede a Deus de fazer o que quer. Deus não depende das nossas escolhas, como se submetesse ou se adaptasse às nossas decisões. Antes, Ele já sabe o que vamos fazer (Sl 139). 

1.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação da perda da salvação (cap. X, ponto 6). Acerca disso, vejamos alguns pontos.

1. Ter tal crença significa subestimar o poder do sacrifício de Cristo. Porém, o Senhor Jesus Cristo morreu pelos pecados de toda humanidade, e, além disso, esse sacrifício foi perfeito e resolveu para sempre o problema do pecador (Hb 10.12). 

2. Sim, o cristão deve vigiar sempre (Mt 26.41, 1 Co 10.12, 1 Ts 5.17) e é claro que pecar e se desviar traz consequências danosas para nossa saúde espiritual e para a nossa vida pessoal (Ez 18.24). Porém, isso não quer dizer que pagaremos pelos nossos pecados com a perda da salvação, porque Cristo perdoa nossos pecados (1 Jo 1.9) e já pagou por eles na cruz. Quem nos separará do amor de Cristo (Rm 8.33-35,37-39)?

3. O verdadeiro salvo, quando peca, sempre pede perdão a Deus e volta às veredas da justiça (Lc 15.32, Sl 51). Porém, aquele que se diz salvo, porém ama pecar, nunca foi salvo (1 Jo 2.18,19; Jo 8.32), pois a santificação, processo de consagração constante a Deus, é o que nos dá certeza da Salvação, evidenciando-a (1 Jo 2.3-6). Deus é fiel para cumprir a obra da salvação na vida dos seus filhos e os preserva ao longo de toda vida com sua graça (Fp 1.6, Hb 10.23, 1 Co 1.8,9). Portanto, a salvação não é certificada no começo, isto é, na regeneração, mas no fim (Mt 24.13).
2. SOBRE OS DONS ESPIRITUAIS

2.1. CONTINUACIONISMO

A DF professa e ensina que “os dons do Espírito Santo são atuais e presentes na vida da Igreja (...) São recursos sobrenaturais do Espírito Santo operados por meio dos seres humanos, os crentes em Jesus, enquanto a Igreja estiver na terra” (página 171). Assim, a Assembleia demonstra seguir a corrente continuacionista acerca da atualidade dos dons espirituais, entre eles, o dom de curar (cap. XX, ponto 4), o dom de falar em línguas e o dom de profetizar (cap. XX, ponto 5). O continuacionismo é a crença de que todos os dons espirituais, incluindo curas, línguas e milagres, ainda estão em operação hoje, exatamente como estavam nos dias da igreja primitiva.

2.2. OS DONS AO LONGO DA HISTÓRIA

Em contrapartida, façamos uma cronologia histórica dos dons espirituais com base nas afirmações de homens de Deus que marcaram a vida da Igreja.

1. Agostinho (354-430)

“Nos tempos antigos, o Espírito Santo veio sobre os crentes e eles falaram em línguas que não haviam aprendido, conforme o Espírito concediam que falassem. Aquilo foi o sinal do Espírito Santo em todos os idiomas para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser espalhado a todas as línguas sobre a terra. Isto foi feito por um sinal, e o sinal findou.” (Fonte: Agostinho. Homilias sobre a Primeira Epístola de João, 6.10. Cf. Schaff, NPNF, First Series, 7:497-98)

2. Martinho Lutero (1483-1546)

“Na Igreja primitiva, o Espírito Santo foi enviado de forma visível. Ele desceu sobre Cristo na forma de uma pomba, e à semelhança de fogo sobre os apóstolos e outros crentes. Esse derramamento visível do Espírito Santo foi necessário para o estabelecimento da Igreja primitiva, como também foram necessários os milagres que acompanharam o dom do Espírito Santo. Paulo explicou o propósito destes dons miraculosos do Espírito em 1 Coríntios 14:22, “as línguas são um sinal, não para os que creem, mas para os que não creem”.  Uma vez que a Igreja tinha sido estabelecida e devidamente anunciada por estes milagres, a aparência visível do Espírito Santo cessou.” (Fonte: Martinho Lutero, traduzido por Theodore Graebner [Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949], p. 150-172. A respeito do comentário de Lutero sobre Gálatas 4.6)

3. João Calvino (1509-1564)

“Embora Cristo não declare expressamente se Ele pretende que esse dom [de milagres] seja temporário ou permaneça perpetuamente na Igreja, é mais provável que os milagres tenham sido prometidos apenas por um tempo, para dar brilho ao evangelho enquanto ele era novo ou em estado de obscuridade.” (Fonte: João Calvino, Comentário sobre os Evangelhos Sinóticos, III: 389.)

4. Mattew Henry (1662-1714)

“O dom de línguas foi um novo produto do espírito de profecia e dado por uma razão particular: mostrar [aos judeus] que todas as nações podem ser conduzidas à igreja. Estes e outros sinais da profecia, começaram como sinais, e há muito cessaram e foram deixados para trás, e nós não temos nenhum incentivo para esperar um avivamento deles; mas, pelo contrário, somos direcionados para o chamado das Escrituras, a mais certa palavra de profecia, mais certa que vozes dos céus, a qual nos orienta a tomar cuidado, a buscá-la e firmarmo-nos nela.” (Fonte: Mattew Henry, Prefácio ao Vol IV de sua Exposição do At e NT, vii.).

5. Jonathan Edwards (1703-1758)

“Nos dias de sua [Jesus] encarnação, os seus discípulos tinham uma medida dos dons miraculosos do Espírito, sendo habilitados desta forma para ensinar e fazer milagres. Mas, depois da ressurreição e ascensão, ocorreu o mais completo e notável derramamento do Espírito em seus dons milagrosos que já existiu, começando com o dia de Pentecostes, depois da ressureição Cristo e Sua ascensão ao céu. E, em consequência disto, não somente aqui e ali uma pessoa extraordinária era dotada de dons extraordinários, mas eles eram comuns na igreja, e assim continuou durante a vida dos apóstolos, ou até a morte do último deles, mesmo o apóstolo João, que viveu por cerca de cem anos desde nascimento de Cristo, de modo que os primeiros cem anos da era cristã, ou o primeiro século, foi a era dos milagres. Mas, logo após a finalização do cânon da Escritura quando o apóstolo João escreveu o livro do Apocalipse, não muito antes de sua morte, os dons miraculosos tiveram seu fim na igreja. Pois, agora, a revelação escrita da mente e da vontade de Deus estava completa e estabelecida. Revelação na qual Deus havia perfeitamente gravado uma regra permanente e totalmente suficiente para Sua igreja em todas as eras. Com a igreja e a nação judaica derrotadas, e a igreja cristã e a última dispensação da igreja de Deus estabelecidas, os dons miraculosos do Espírito já não eram mais necessários e, portanto, eles cessaram; pois embora eles tenham continuado na igreja por tantas eras, eles se extinguiram, e Deus fez com que fossem extintos porque já não havia ocasião favorável a eles. E assim foi cumprido o que está dito no texto: “Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”.  E agora parece ser o fim para todos os frutos do Espírito tais como estes, e não temos mais razão de esperar que voltem.” (Fonte: Jonathan Edwards, sermão intitulado “O Espírito Santo deve ser comunicado ao Santos para sempre, In na graça da caridade, ou amor divino”, em 1 Coríntios 13:8). 

2.3. CESSACIONISMO

Nesse sentido, concluímos que os relatos de tais homens seguem a visão do Cessacionismo, na qual formula-se que parte dos chamados dons do Espírito Santo, tais como profecias, línguas e curas, apesar de terem sido de fundamental utilidade e importância nos primórdios da igreja cristã, cessaram de existir ainda no período da Igreja Primitiva. Entendem os cessacionistas que tais e restritos dons serviram a um propósito, isto é, a fundação da Igreja Primitiva, momento que os apóstolos teriam que cumprir o ide sem possuírem qualificação de doutores ou mestres. Assim, o encerramento do livro teria tornado dispensável a existência dos dons milagrosos e de profecias.

2.4. REFUTAÇÃO AO CONTINUISMO

2.4.1. 1ª AFIRMAÇÃO

A DF diz que os “dons de curas são manifestações do poder do Espírito Santo que operam de maneira multiforme para cura de doenças e enfermidades do corpo, da alma ou psicossomáticas, sempre concedidas pelo Espírito Santo à pessoa que irá ministrá-la” (cap. XX, ponto 4). E, por crerem na atualidade dos dons, as curas podem ser ministradas até hoje.

Porém, é importante destacar que os dons de cura tinham um propósito. Vemos nas Escrituras que a cura era associada com o ministério de Jesus e dos apóstolos (Lc 9.1-2). E vemos que à medida em que a era dos apóstolos chegou a um fim, a cura tornou-se menos frequente. Isto porque o dom de cura e de realização de milagres teve o propósito de autenticar o apostolado. E, ao final da era apostólica, a ministração de sinais e prodígios adicionais tornaram-se progressivamente desnecessários.

Vale ressaltar que os cessacionistas creem plenamente em milagres, curas e todo o tipo de maravilhas e sinais nos dias de hoje, desde que operados diretamente por Deus, e não por intermédio de outrém, como um dom.

2.4.2. 2ª AFIRMAÇÃO

A DF, inicialmente, afirma que “não necessitamos de uma nova revelação extraordinária (...) para nosso crescimento espiritual (...) O livro de Provérbios reafirma a inteireza e a pureza da Bíblia Sagrada: ‘Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso’ (Pv 30.6)” (cap. I, ponto 6) e com isso parece defender a Sola Scriptura, que diz:

“Reafirmamos a Escritura inerrante, como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. 

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.” (Declaração de Cambridge, Tese 1: Sola Scriptura)

Entretanto, posteriormente, a DF passa a afirmar que “Deus fala conosco por meio de sua palavra (pregação e ensino) e das manifestações dos dons espirituais” (cap. XV, ponto 1), tornando incoerente sua defesa inicial da Sola Scriptura e deixando clara a crença de que, ainda hoje, Deus pode falar através de experiências interpessoais de revelação profética. 

Porém, o cessacionismo defende que, com o cânon bíblico fechado, o termo “profecia”, que é a mensagem de Deus para o seu povo, passa a se referir, agora, às Escrituras Sagradas e profeta é o pregador que, através da Palavra, edifica, exorta e consola (1 Co 14.3). “O dom de profecia”, diz o Rev. Augustus Nicodemus, importante defensor do Cessacionismo no Brasil, “continua hoje, conforme entendo, mas somente enquanto exortação, consolo, confrontação pela Palavra. Já o aspecto revelatório da profecia que vemos, por exemplo, em João ao escrever Apocalipse, ou em Paulo e Pedro ao prever como será o futuro, a vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos etc., isso certamente não faz parte da profecia de hoje. Já cessou”.

2.4.3. 3ª AFIRMAÇÃO

A Assembleia de Deus também acredita na atualidade do dom de línguas e no seu papel como evidência inicial do batismo no Espírito Santo (p. 165) e, por esse motivo, a busca por esse dom é bastante incentivada pela Igreja. Além disso, creem que a natureza dessas línguas pode ser humana ou celestial (p. 168). Acerca disso, elencam-se os esclarecimentos.

1. O dom de línguas teve um propósito temporário e nasceu como um sinal para a descrente Israel de que a salvação de Deus estava agora disponível para outras nações (1 Co 14.21-22; Is 28.11-12). A observação atual confirma que o milagre de línguas cessou. Se esse dom, em sua forma pura, ainda estivesse disponível hoje, não haveria necessidade de missionários frequentarem uma escola de línguas. Os missionários seriam capazes de viajar para qualquer país e falar qualquer língua fluentemente, assim como os apóstolos foram capazes de fazer em Atos 2. 

2. O dom de línguas possibilitava a pregação da Palavra de Deus em línguas estrangeiras, isto é, idiomas (At 2.6-11), para mostrar que Deus pode capacitar uma pessoa a pregar sua Palavra numa língua estrangeira, a qual ele nunca estudou. Nesse sentido, vale ressaltar que a língua dos anjos citada em 1 Coríntios 13.1 é uma figura de linguagem denominada hipérbole, utilizada na passagem para explicar a supremacia do amor em relação aos dons espirituais.

2.5. A PROFECIA DO PENTECOSTES

A Assembleia de Deus acredita na continuidade e na atualidade dos dons com base na profecia de Joel 2.28-32 e Atos 2.16-21, 39. Porém, alguns pontos têm sido interpretados de maneira errada. Assim, segue-se a interpretação adequada.

28. E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.  29. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito.  30. E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça.  31. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. 32. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar. (Joel 2:28-32)

v.28,29. “Depois”, expressão também conhecida por “últimos dias” (At 2.17), se refere aos tempos de Pedro, isto é, a Igreja Primitiva. E isso se deduz a partir do momento em que ele usa essa profecia para explicar o que estava acontecendo em seus dias. “Toda a carne” prenuncia a inclusão de judeus e gentios em um só corpo, o Corpo de Cristo (Ef 2.11-3.6). “Vossos filhos e vossas filhas (...)” dizem respeito a uma era em que o derramamento do Espírito manifestaria o poder de Deus em todos, sem distinção de gênero, idade ou classe social. 

v.30,31. Os prodígios celestes descritos nesse trecho acontecerão antes do grande e terrível dia do Senhor, o que é uma referência ao fim dos tempos.

v.32. Aquele que invoca o nome do Senhor, ou seja, que se arrepende e crê, será salvo no Dia do Senhor. Ao mesmo tempo, essas palavras também se aplicam à libertação espiritual de povos arrependidos em qualquer período da história humana.

2.6. SOBRE O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO

2.6.1. 1ª REFUTAÇÃO

O capítulo XX da DF afirma que “o batismo no Espírito Santo é um dom”. Já o capítulo XIX diz que o batismo no Espírito Santo “trata-se de uma experiência espiritual que ocorre após ou junto à regeneração” e “é algo distinto do novo nascimento”. Acerca disso, a teologia reformada diz que o batismo com o Espírito Santo é o ato único e restritivo aos que nasceram de novo, ou seja, aos que foram levados pelo Espírito a Cristo para a salvação. Diante disso, podemos dizer que uma das finalidades do batismo com o Espírito Santo é a inclusão do cristão no corpo de Cristo, que é composta de todos os salvos. A carta paulina aos Efésios deixa claro que o batismo com o Espírito Santo é o penhor da nossa herança e o selo desta promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.13,14).

2.6.2. 2ª REFUTAÇÃO

A DF também afirma que “o falar em línguas é a evidência inicial desse batismo” (p. 165, l. 12). Porém, não há nenhum sinal externo específico para aquele que foi batizado com o Espírito Santo. Quando se fala que não há nenhum sinal externo, é bom que fique claro que se refere a manifestações sobrenaturais como evidência de ter se recebido tal batismo. Agora, é claro que aquele que foi batizado pelo Espírito Santo no ato de sua conversão, começa a evidenciar mudanças profundas em seu caráter e modo de vida. O que se pode dizer com certeza é que os sinais que atestam esta experiência são os mesmos da conversão, isto é, o fruto do Espírito (Gl 5.22)

2.6.3. 3ª REFUTAÇÃO

A Assembleia de Deus trata o batismo com o Espírito Santo com tanta seriedade a ponto de apresentar isso como critério para a ordenação de obreiros (p. 137, l. 1-3), sob a referência de que os obreiros devem “ser cheios do Espírito” (At 6.3) e que a principal função do batismo com o Espírito Santo é habilitar o Cristão a realizar o ide (p. 166, l. 13-14). Quanto a isso, temos que não é necessário falar em línguas para anunciar o evangelho. Ser salvo, isto é, ter o Espírito Santo, já nos dá o dever de anunciar a Cristo (Mc 5.18-20; Jo 4.28-29). Além disso, não falar em línguas não deveria impedir alguém de fazer a obra de Deus, uma vez que em 1 Tm 3.1-13, que apresenta critérios para cargos relevantes como o episcopado, o diaconado e o pastoreado, não tem como critério falar em línguas, mas sim uma vida irrepreensível, que é o que realmente caracteriza alguém como cheio do Espírito Santo.
3. SOBRE O FIM DOS TEMPOS

3.1. PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA

A DF apresenta, em seus capítulos XXII e XXIII, um enredo sobre o fim dos tempos semelhante à corrente escatológica pré-milenista dispensacionalista.

De acordo com essa corrente escatológica, Cristo voltará duas vezes. A primeira volta será uma vinda somente para a igreja, antes da Grande Tribulação, resultando no arrebatamento dos santos. Este rapto será secreto (o mundo não verá) e iminente (pode ocorrer a qualquer momento). A primeira vinda resultará também na primeira ressurreição, que envolve apenas os que morreram em Cristo. Logo em seguida ao arrebatamento, ocorrerá no céu o primeiro julgamento, chamado de Tribunal de Cristo. Este terá como objetivo a distribuição de galardões para os crentes arrebatados.

Posteriormente, enquanto os salvos estiverem festejando no céu as Bodas do cordeiro, o Anticristo (a besta) surgirá com o Falso profeta e fará um concerto (na verdade, um governo mundial) de sete anos com Israel. Entretanto, na metade desse período, o concerto será rompido e Jerusalém, após ter sido enganada, será tomada e a grande apostasia será deflagrada, dando início à Grande Tribulação em toda terra. Vale ressaltar que nesse momento, a salvação passa a ser um prêmio pelo martírio daqueles que rejeitarem o governo do anticristo. No fim desta Tribulação, acontecerá a Segunda Volta de Cristo com todos os seus santos.

Nesta Segunda volta se dará a Batalha do Armagedom, onde Jesus destruirá a besta e o falso profeta. Após isso, instaurará o Tribunal das Nações (segundo julgamento), trazendo ira e vingança contra as nações que se colocaram contra Jerusalém e ainda promoverá a ressurreição dos santos (segunda ressurreição) que morreram durante a tribulação e aprisionará Satanás por mil anos. A partir deste momento, terá início o reino milenar de Cristo. Jerusalém será a sede deste reino e todos os vivos da terra serão seus cidadãos. E então, não haverá mais pecado, nem morte, mas sim prosperidade e longevidade. 

Com o fim do milênio, Satanás será solto, mas rapidamente lançado no lago de fogo, onde já se encontram a besta e o falso profeta. Depois, os ímpios ressuscitarão (terceira ressurreição) para serem julgados (terceiro julgamento), condenados e destinados ao inferno. E, finalmente, os salvos terão seu destino, o novo céu e a nova terra.

3.2. AMILENISMO

De acordo com o amilenismo, o primeiro evento a acontecer é a grande tribulação (com a igreja na terra) e o surgimento do anticristo, ocasionando a apostasia de muitos cristãos e grande angústia na terra. Depois, Cristo volta, em um evento único e visível a todos, e nessa vinda, acontece o arrebatamento. Em seguida, acontece a ressurreição geral de salvos e ímpios para serem julgados no Tribunal de Cristo. Assim, os salvos recebem a vida eterna para reinarem com Deus no novo céu e na nova terra e os ímpios a recebem a condenação eterna e são lançados no inferno com Satanás e seus aliados derrotados.

Para os amilenistas, a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus, pois Deus tem apenas um povo. O milênio não é um reino literal de mil anos, mas sim um reino espiritual que começou na primeira vinda de Cristo, isto é, desde a ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, e terminará na segunda vinda de Cristo. E a prisão de Satanás significa, simplesmente, que ele não pode conter o avanço do evangelho de Cristo.

3.3. REFUTAÇÃO AO DISPENSACIONALISMO

3.3.1. 1ª AFIRMAÇÃO

Primeiro, temos a afirmação de que a vinda de Cristo terá duas fases e será invisível ao mundo. Porém, a Palavra de Cristo mostra que Sua Segunda Vinda será um evento único, visível e tangente à toda humanidade. Ap 1.7 diz claramente: “Eis que vem com a nuvens e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” 

3.3.2. 2ª AFIRMAÇÃO

Segundo, temos a afirmação de que na segunda volta de Cristo, os mártires da grande tribulação serão salvos, como um remanescente que se vale de uma segunda chance. Porém, em 2 Tessalonicenses 1.3-12, Paulo nos mostra que quando Jesus voltar, todos os que, até este momento, não se decidiram por Jesus, serão lançados no fogo do inferno. Não haverá segunda chance, nem oportunidade de arrependimento, pois o Senhor vem trazendo vingança contra “aqueles que não obedecem ao evangelho de Cristo”.

3.3.3. 3ª AFIRMAÇÃO

Terceiro, temos a afirmação de que haverá mais de uma ressurreição e que a ressurreição dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, em João 5.27-29, lemos que tanto os justos quanto os ímpios ressuscitarão no mesmo dia, sendo que, os justos para a vida e os ímpios para a morte. Da mesma forma, Em Daniel 12.2, nos é dito que tanto salvos quanto condenados ressuscitarão no mesmo momento. 

3.3.4. 4ª AFIRMAÇÃO

Quarto, temos a afirmação de que haverá mais de um julgamento, isto é, o julgamento dos ímpios e dos justos ocorrerão em momentos diferentes. Porém, todos os textos que fazem referência ao Juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre a humanidade no último dia. Em Mateus 25.31-43, toda humanidade, dividida em dois grupos – os salvos e perdidos – será citada e tomará lugar diante do Tribunal de Cristo. Em 1 Coríntios 4.5, tanto os filhos das trevas, quanto os salvos serão manifestos diante do Tribunal de Cristo para receber de Deus o galardão ou a reprimenda.

3.3.5. 5ª AFIRMAÇÃO

Por fim, temos a afirmação de que a igreja será poupada da Grande Tribulação. Porém, segundo o sermão profético dado por Jesus, a igreja passará grande tribulação, a qual será interrompida pela sua volta (Mt 24.21-29). Da mesma forma, o apóstolo Paulo fala da Grande Tribulação que irá acometer a igreja nos dias que antecedem a volta de Cristo. Em 2 Ts 2.3, ele declara: “Ninguém de modo nenhum vos engane, porque isto (a volta de Cristo) não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição”. E, finalmente, em Ap 7.13-14 nos é dito que os crentes no céu saíram da Grande Tribulação. 
4. O PONTO FRACO

Todo o problema que envolve essas doutrinas da DF tem resposta em sua deficiência hermenêutica, a qual pode ser classificada como um misto de hermenêutica alegórica e hermenêutica literalista.

A corrente alegórica trata-se de um dos mais antigos métodos de interpretação de que se tem conhecimento, e surgiu nos séculos que sucederam à era apostólica. Os defensores deste método diziam que o verdadeiro sentido jazia sob o significado literal da Escritura, isto é, era oculto. 

Orígenis (185-254), grande representante desta corrente, cria ser as Escrituras uma vasta alegoria, na qual cada detalhe é simbólico, e dava bastante importância à 1 Coríntios 2.6-7 (“falamos a sabedoria de Deus em mistério”), cometendo assim, um erro muito comum entre alguns exegetas, que é dar importância demais a alguns textos bíblicos de forma isolada.

Porém, a corrente reformada, na qual foram baseadas todas as antíteses do presente texto, se apoia nos seguintes princípios:

1) A única regra de fé infalível de interpretação é a própria Escritura. Ou seja, quando houver dúvida sobre o sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto deve ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente;

2) O texto não pode ser estudado isoladamente, mas dentro do seu contexto bíblico geral;

3) Se o texto for obscuro, não deve ser usado como matéria de fé, isto é, respaldo para doutrinas;

4) Toda alegorização deve ser rejeitada como método de interpretação das Escrituras, exceto em caso que o próprio autor afirma se tratar de uma alegoria (Gl 4:24-26);

5) Toda interpretação deve ser dada levando-se em consideração o contexto histórico (a situação para a qual o autor está falando); a análise literária (a natureza, a redação e a estrutura do texto); a análise canônica (citações interbíblicas e comparação canônica) e o propósito do autor no contexto da obra;

6) Toda abordagem literal (literalismo) que não se justificar pelo contexto deve ser rejeitada;

7) Nenhuma interpretação deve ser tida como legítima se coloca a Escritura em contradição com a própria Escritura.

O ponto fraco da Declaração de Fé da Assembleia de Deus consiste, portanto, na sua hermenêutica que, obviamente, não segue os princípios reformados.
5. CONCLUSÃO

Este trabalho não tem a intenção de denunciar, alterar ou criticar a Declaração de Fé da Assembleia de Deus; não tem a pretensão de ser tomado como palavra última em nenhuma matéria teológica, nem impor uma ditadura teológica; e não pretende apontar nenhuma doutrina aqui citada como falsa ou herética. 

Esse trabalho trouxe à luz, apenas, algumas discrepâncias existentes entre a interpretação assembleiana e a interpretação reformada de algumas doutrinas, na intenção de provocar uma reflexão sobre convicções teológicas, trazendo visões diferentes de algumas teses bíblicas e, acima de tudo, visando o conhecimento da Palavra de Deus.

Em suma, portanto, Soli Deo Gloria!

Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmos 119.105)

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Notas:
1 -   Com o intuito de tornar a leitura menos maçante, usaremos, por vezes, “DF” ao invés de “Declaração de Fé da Assembleia de Deus”

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Autora: Gisllayne Silva
Contato: gis.alt.org@gmail.com
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Regeneração vs. Oração do Pecador

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Se você já se deparou com alguém “evangelizando” pelas ruas e pedindo para que tão somente as pessoas recitem uma oração já preparada em seu panfleto e assim garantam sua salvação, então você já teve contato com a falsa doutrina da “Graça Livre. Nos últimos anos essa posição se tornou bem conhecida devido à influência de gente como John R. Rice, Jack Hyles, Charles Stanley e Zane Hodges. Essas pessoas tentam passar a aparência de que promovem uma espécie de posição de “Sola Gratia. Apesar do nome, a questão é que elas não poderiam estar mais distantes disso. Após um exame minucioso, é fácil descobrir que o grupo troca livremente a palavra graça” por “fé” como se estivessem falando exatamente da mesma coisa. Deixe-me explicar… apesar de a posição da “Graça Livre” parecer tentar admiravelmente proteger a doutrina da “justificação somente por meio  da fé”, no processo ela acaba deixando de lado a doutrina bíblica da “salvação somente pela graça”. Para surpresa de absolutamente ninguém, essas pessoas se posicionam firmemente contra o conceito de regeneração monergista. E isso está intimamente relacionado ao tópico em questão. Elas rejeitam todas as evidências bíblicas que sugerem que a regeneração precede a fé. Em vez disso, eles vêem a fé como algo que deve contribuir para o preço de sua salvação. Então, embora pareçam estar promovendo uma posição de “Graça Livre”, o fato é que eles não acreditam que a fé surge como um dom de Deus. Se esse é o caso, a salvação não é somente por graça e somente por meio da fé, mas por “graça + fé”. Então, ao final das contas, essa teologia acaba sendo autodestrutiva. Charles Spurgeon certa vez disse:

Lembrem-se disso ou poderão cair no erro de fixar tanto a vossa mente na fé, que é o canal da salvação, ao ponto de esquecer que a graça é fonte até da própria fé. A fé é a obra da graça de Deus em nós. “Ninguém pode vir a mim, diz Jesus, a menos que o Pai, o qual me enviou, o atrair. A Graça é a primeira e última causa da salvação; e a fé, essencial como seja, é apenas uma parte importante do mecanismo que a graça emprega. Somos salvos “por meio da fé”, mas a salvação é “pela graça”.

Acreditem essas pessoas ou não, é a posição reformada que na verdade abraça uma real Graça Livre (e sem aspas). Isto é porque Deus tanto inicia quando nos dá uma nova vida PARA QUE NÓS POSSAMOS acreditar. Essa nova disposição é o que nos leva ao arrependimento. O arrependimento é necessário para nossa salvação… o próprio evangelho claramente e sem ambiguidade diz isso… isso não é um acréscimo. Mas, é preciso dizer, esse arrependimento certamente não vem da nossa própria habilidade intrínseca natural. A graça de Deus é o que nos permite fazer isso. Se olharmos para 2 Timóteo 2:25, fala de como os crentes devem responder às pessoas que se opõem ao evangelho e o que Deus pode fazer por eles: “Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura DEUS LHE DARÁ ARREPENDIMENTO para conhecerem a verdade”.

Em outras palavras, o arrependimento é algo que é concedido por Deus – o resultado que naturalmente procede do fato de Deus ter aberto os nossos olhos e nos mostrado a nossa necessidade de Cristo à luz de Sua santidade, beleza e excelência. Um homem não regenerado não pode apreender tais verdades espirituais (1 Coríntios 2:14). Quando 2 Timóteo 2:25 diz que a ação da graça de Deus os leva a “um conhecimento da verdade”, isso está se referindo claramente à salvação. Não é algo que surge a partir de nós mesmos em nossas naturezas não-regeneradas. E no que consiste esse arrependimento? Primeiro, é um arrependimento de toda confiança que colocamos em nossa própria capacidade de nos salvar. Isto é, um arrependimento completo da confiança que colocávamos em nossas “boas” obras. É um completo e humilde reconhecimento que parte do Espírito Santo de que somos espiritualmente impotentes. Em seguida, devido ao fato de a regeneração ter iluminado nossa compreensão espiritual, circuncidado o nosso coração, curado nossos ouvidos surdos, aberto nossos olhos espirituais e implantado novas afeições, portanto, agora amamos a Deus mais do que amávamos ao pecado antes. Deus opera o arrependimento em nós, pois o objeto de nossas afeições foi mudado. Ninguém diz que Jesus é o Senhor senão pelo Espírito Santo. Então isso significa que não queremos mais viver um estilo de vida de pecado ininterrupto. O poder do pecado foi quebrado. Aqueles que continuam em um estilo de vida de pecado podem realmente não ter garantia alguma de sua salvação. As pessoas que negam a precedência da regeneração em relação a fé estão promovendo a perigosa teologia antinomiana que parece sustentar uma versão corrompida da doutrina da Eterna Segurança. Esse grupo abraça o conceito de que qualquer pessoa que já tenha repetido a oração do pecador numa tarde de evangelismo provavelmente foi salva e ainda que mais tarde ela venha se revelar ateia ou budista, isso não importa, afinal de contas ela já está dentro do grupo dos salvos.

A visão da maioria dos cristãos através da história da igreja é que as Sagradas Escrituras nunca afirmam tal coisa. Há avisos claros contra aqueles que fazem profissões (falsas) e vivem em pecado ininterrupto. 1 João 2:19 ensina que aqueles que deixam a fé nunca fizeram parte dela para começar. E Jesus também diz:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. (Mateus 7:21-23)

Observe que o texto diz que Ele nunca os conheceu. Não diz aos falsos professos que Ele os conheceu e deixou de conhecê-los mais tarde. Não, diz “eu nunca te conheci”. Isso significa que existem pessoas que acreditam em Cristo mas de maneira imprópria e não-salvífica. Isso deve ser decepcionante, mas se nos apegarmos às promessas de Deus, obteremos grande consolo, porque a nossa regeneração muda a disposição de nossos corações, da hostilidade ao afeto por Cristo, e nos implanta um princípio de perseverança. O cristão, apesar de poder cometer graves pecados, não pode viver continuamente neles. Pelo contrário, tanto a fé como o desejo de obedecer possuem uma natureza contínua. Deus encoraja e disciplina aos que Ele ama, para que eles continuem em sua fé. Em 1 Coríntios 11:31,32, Paulo diz: “Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo”. Uma pessoa que se recusa a se arrepender do pecado, como uma professa cristã, pode eventualmente vir a ser excomungada, com na esperança de que ela seja reconciliada/restaurada à comunhão por meio do arrependimento. Não podemos dizer a alguém que vive em pecado que eles podem ter segurança da salvação. Fazer isso não faz nenhum bem à pessoa em questão. É totalmente prejudicial.

Geralmente essas pessoas definem os que acreditam no Senhorio de Cristo como indivíduos que acreditam na necessidade da disposição de abandonar os pecados ou de entregar a vida a Cristo para ser salvo. Ao criticá-los, os antinomianos vêem essas coisas como desnecessárias para a salvação, como um acréscimo ao evangelho. Em outras palavras, podemos nos apegar aos pecados e não ter desejo algum de entregar nossas vidas a Cristo, desde que tenhamos feito algum tipo de profissão de fé. Tal crença é horrível e antitética a tudo o que a Bíblia ensina e precisa ser censurada de todas as maneiras. O arrependimento nunca é visto como opcional. Uma pessoa verdadeiramente regenerada desejará acreditar e obedecer. Freqüentemente falharemos miseravelmente, mas o Espírito que habita em nós nos pressiona para a santificação. Um estilo de vida de pecado sem desejo de obedecer a Cristo é um sinal bem óbvio de que a pessoa não é regenerada e se encontra em grande perigo. Mas seja o que for que a nossa consciência nos acuse, podemos nos voltar em fé até Cristo e Ele nos perdoará.

Os antinomianos também acusam os reformados de acreditarem que as promessas da Palavra de Deus, embora necessárias para a segurança, não são suficientes. Ou seja, que é preciso também olhar para as suas obras e que nenhum crente pode ter 100% de garantia de salvação ao apenas olhar para as promessas na Palavra de Deus para o crente. Sério mesmo? Pelo contrário, a posição Reformada é a única que confia na suficiência das promessas de Deus. Aqueles que fazem tais acusações esquecem que a santificação também é uma promessa de Deus ao crente. Veja João 15:16: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.

Cristo antes nos adverte contra não permanecer na videira e diz que aqueles que não o fizerem serão queimados, mas então no versículo 16 Ele afirma que Ele mesmo nos escolheu e nos designou para dar frutos… logo, o verdadeiramente regenerado não acabará no mesmo lugar daqueles que caíram. Cristo garante isso. Cristo não pode perder um crente sequer. Ele intercede por nós (Romanos 8:34) para que não fracassemos. Será que a oração de Cristo pelos seus eleitos pode falhar? Hebreus 7:25 também confirma a oração de Cristo por nós: “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” Esta é a palavra de Deus e, portanto, quando notamos que nossas obras evidenciam a verdadeira crença, a glória delas vai somente para Deus porque foi Ele quem estabeleceu que daríamos frutos. Esses frutos não nascem de nossa natureza caída. O apóstolo Paulo disse em Efésios 2:10: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” O texto apresenta continuamente esta mensagem: que é necessário perseverar e que Deus nos concede a capacidade de fazê-lo. Aqueles que não perseveram não podem viver em segurança.

Então, ao invés do famoso bordão “uma vez salvo, salvo para sempre”, acreditamos que Cristo nunca perderá um cristão. Acreditamos que Ele nos capacitará a perseverar e nos salvará por completo. “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Deus concede o desejo de continuar até o fim, sempre lembrando que somos pecadores e que podemos confiar somente em Cristo. Nosso desejo por fé, arrependimento e obediência é um presente da pura graça de Deus, não algo que devemos inventar em nossa carne. A posição antinomiana pensa que se o arrependimento é exigido, então de alguma forma estamos pedindo confiança nas obras. Desculpe-me, mas uma fé verdadeira produz obras porque a regeneração e a santificação são uma obra de Deus. Não é você que decide quando nascer de novo. Não é você quem estabelece o significado de ter um espírito vivificado. Tudo isso é obra de Deus. Aqueles que confiam em sua própria capacidade de ter fé são os que, em última análise, confiam em si mesmos, uma vez que tal fé é produzida à parte do trabalho regenerativo de Deus. Novamente, na posição antinomiana, a fé é um produto da natureza humana não-regenerada. Mas se não é a graça de Deus que te faz nascer de novo (e sim uma cooperação entre o homem e Deus), será que essa graça é realmente livre?

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.(João 1:12,13)

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Autor: John Hendrix
Fonte: Monergism
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
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De Dentro para Fora

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O quão difícil e comum pode ser a vida do cristão? Você provavelmente já ouviu sobre as promessas que Deus tem para sua vida, sobre a vitória que está a caminho diante da tribulação que você está enfrentando, entre outras ilusões disfarçadas de mensagens de ânimo e esperança. Mas aí o tempo passa e as coisas não caminham do jeito que se esperava. A cura não vem, aquela porta não se abre, o problema e o sofrimento persistem. Quem já não se viu nessa situação? Quem tem apenas vitórias humanas para contar? Quem nunca sofreu ou viu-se mergulhado em um problema a ponto de ter de se adaptar por longos períodos a uma realidade que não era a esperada?

Infelizmente, para muitos cristãos o Evangelho se tornou um meio para melhorar a qualidade de vida, e isso em grande parte por culpa de pregadores que propagam uma boa-nova distorcida, com muitas promessas que comumente não se realizam. Contudo, muitos ouvintes destes pregadores continuam a segui-los na expectativa de que as coisas vão mudar, de que a vitória está chegando. E é puramente na expetativa de que as tais promessas de solução dos problemas e fim do sofrimento chegarão que esses cristãos continuam vivendo um evangelho diferente daquele encontrado nas páginas bíblicas.

Não que seja inapropriado desejar uma vida melhor e buscar mais qualidade de vida. Essa busca é instintiva e natural, e eu sou o primeiro nessa fila. Mas não posso deixar de alertá-lo sobre os riscos dessa corrida se tornar vã, como quem corre atrás do vento. Não há, absolutamente, nenhuma garantia nas páginas da Bíblia de que você obterá algum tipo de bênção especial além da vida vindoura, no Reino do Deus nos céus. Você achará, sim, exemplos de servos de Deus que prosperaram (Abraão, Davi...) e de outros que viveram uma vida conturbada, árdua e até miserável sob a ótica humana (Jeremias, Paulo, Jesus...).

As vidas vividas pelos servos de Deus nas páginas bíblicas são uma fiel representação da realidade. Há cristãos afortunados e cristãos pobres, uns são sadios e outros doentes, uns terão vidas pacíficas e felizes e outros viverão vidas conturbadas, entremeadas de dores e conflitos. Provavelmente, se fizéssemos uma pesquisa nós não encontraríamos provas definitivas de que ser cristão traga algum tipo de vantagem neste mundo, exceto nos relacionamentos, e, ainda assim, com muitas ressalvas, que aqui não precisam ser relacionadas se você já teve um mínimo de convívio com outros cristãos por um tempo razoável.

Se isso é verdadeiro, então que vantagem há em ser cristão? O que o Evangelho tem de diferente de qualquer outra mensagem? Para responder a essa pergunta, antes é preciso entender o que é o Evangelho. A resposta é simples, porém mal compreendida ou explorada. O Evangelho é, resumidamente, a boa notícia sobre a salvação em Cristo (Rm 1:16). Esta salvação, é claro, refere-se à solução que Deus nos proporcionou para que não fôssemos para o Inferno, mas para perto dele, no Paraíso. Logo, no próprio entendimento do que é o Evangelho está a resposta à primeira pergunta. E se entendemos que o Evangelho é sobre o porvir, sobre a vida eterna com Cristo e não a vida terrena e passageira deste mundo, também compreenderemos que nenhuma outra mensagem de ânimo ou consolo, ainda que bíblica, se compara ao Evangelho. O Evangelho, de maneira mais específica, é sobre a cruz de Cristo. A cruz é sobre libertação do poder do pecado, sobre o pagamento da dívida que tínhamos com Deus (Cl 2:13-14). Repare que tudo isso diz respeito a uma esfera espiritual, e não material.

Enfim, a promessa do Evangelho refere-se ao futuro (Rm 6:8, Hb 10:35-37), não ao presente, e diz respeito à dimensão espiritual, não à material. Sim, tudo isso é abstrato, e é justamente por isso que a Palavra nos diz que o justo viverá pela fé (Hb 10:38). Nunca fomos convidados por Jesus a crer na mensagem do Evangelho por conta das recompensas presentes e materiais. Sua pregação era justamente o oposto disso. Jesus convidava ao arrependimento e anunciava a proximidade do Reino de Deus (Mt 4:17), que não é deste mundo. Contudo, não faltam pregadores de um evangelho terrestre, de recompensas materiais para esta vida, e muito menos faltam crentes neste evangelho apequenado, destituído de seu cerne, reduzido a uma mensagem limitada aos anseios carnais carregados de egoísmo e vaidade, na infinita busca da satisfação humana.

A essa altura, você pode estar questionando se estou argumentando que o Evangelho não traz nenhuma mudança positiva para nossas vidas, e talvez discordando por conhecer alguns bons exemplos, talvez em sua própria vida, de mudanças positivas trazidas por ele, como casamentos e famílias restauradas, libertação de vícios, entre outros tantos exemplos. E este é, sem dúvida, o ponto-chave para entender o tipo de mudança que o verdadeiro Evangelho opera. A mensagem Bíblica e a realidade do dia a dia nos mostram que a mudança operada pelo Evangelho não ocorre diretamente no entorno do converso, mas dentro dele. Não é de fora para dentro, mas de dentro para fora. Em geral, a vida do convertido melhora porque ele melhora, tornando-se uma filha mais obediente, uma esposa mais paciente, um marido mais amoroso, um estudante mais dedicado, enfim, uma pessoa melhor, que apresenta em sua vida o fruto do Espírito.

Não são raros os exemplos de cristãos que enfrentam perseguição, cujas vidas eram mais confortáveis antes de crerem em Cristo. Se fosse tão vantajoso ser cristão aos olhos humanos, Jesus não precisaria ter dito aquelas palavras de consolo e esperança que introduzem o Sermão do Monte, em Mateus 5:3-12. Então, se a sua vida cristã não é um exemplo de prosperidade, paz e felicidade permanentes, não quer dizer que você esteja necessariamente colhendo algo que plantou, muito menos quer dizer que você é mais pecador que aqueles que parecem mais abençoados. Por vezes, os frutos do Evangelho se manifestam através do sofrimento, da perda, da frustração e da aparente falta de sorte, assim como podem ser vistos em uma vida pacífica, próspera e feliz. Talvez você só precise atualizar suas definições de bênção, ou compreender, e crer, que o Evangelho, conquanto faça diferença em nossas vidas nesta terra, não é um manual de como obter recompensas, mas uma mensagem sobre fé em Cristo, apesar das recompensas.

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Autor: Renato César
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Comunicado Importante!

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Informamos que Denis Monteiro não faz parte deste blog como coeditor há alguns anos, não possuindo mais qualquer vínculo conosco. 

O Blog Bereianos segue temporariamente paralisado nas atualizações desde 2020, com possibilidade de retornar em breve com novos artigos e outras novidades.

SDG!

16 maneiras de como encontrar uma esposa de acordo com a Bíblia

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Como pastor, com o passar dos anos eu tive a minha cota de pessoas me abordando para saber se éramos uma igreja de “cortejo” ou de “namoro”. As pessoas invariavelmente me contavam que esse ou aquele modo era o “jeito bíblico”.

Com o passar do tempo, passei a desconfiar que a Bíblia não fala muito sobre como encontrar uma esposa, ou fala? Talvez você tenha visto essa lista circulando por aí na Internet, mas é válido revê-la porque ela defende um ponto muito importante. Então aqui está: as 16 maneiras de como encontrar uma esposa de acordo com a Bíblia:

1) Encontre uma prisioneira de guerra e atraente, traga-a para casa, raspe sua cabeça, corte suas unhas, e dê a ela novas roupas. Então ela será sua. (Deut. 21:11-13)

2) “Ache” uma virgem que não está desposada a outro homem, e “conheça-a”, mas depois disso, pague ao pai dela uma quantia em dinheiro. Então ela será sua. (Deut. 22:28-29)

3) Encontre uma prostituta e case com ela. (Oseias 1:1-3)

4) Encontre um homem com sete filhas, e o impressione dando de beber ao seu rebanho. (Ex. 2:16-21)

5) Compre um pedaço de terra, e ganhe uma mulher como parte do acordo.- Boaz (Rute 4:5-10)

6) Vá a uma festa e se esconda. Quando as mulheres saírem para dançar, agarre uma e a leve para ser sua mulher. - Benjamitas (Juízes 21:19-25)

7) Deus cria uma esposa para você enquanto você dorme. Nota: isso lhe custará uma costela. - Adão (Gen. 2:19-24)

8) Concorde em trabalhar por sete anos em troca da mão de uma mulher. Seja enganado casando com a mulher errada. Então trabalhe outros sete anos pela mulher que você desejava casar em primeiro lugar. Isso mesmo! Quatorze anos de trabalho duro por uma esposa. - Jacó (Gen. 29:15-30)

9) Corte 200 prepúcios dos inimigos do seu futuro sogro e receba a filha dele por esposa. - Davi (1 Sam. 18:27)

10) Mesmo que não exista mais ninguém no mundo. Ande sem rumo por aí e você com certeza encontrará alguém. - Caim (Gen. 4:16-17)

11) Torne-se o imperador de uma grande nação e realize um concurso de beleza. Xerxes ou Assuero (Ester 2:3-4)

12) Quando você ver alguém que goste, vá para casa e conte aos seus pais, “Eu vi uma mulher; agora vai e pegue ela para mim.” Se seus pais questionarem sua decisão, simplesmente diga, “Pegue-a para mim. Ela é a única certa para mim.” - Sansão (Juízes 14:1-3)

13) Mate um homem casado e tome a esposa dele para si. (Prepare-se para perder quatro filhos por conta disso.) - Davi (2 Sam. 11)

14) Espere que seu irmão morra. Tome a viúva dele. (Não é só uma boa ideia, é a lei!) - Onã e Boaz (Deut. ou Lev., exemplo em Rute)

15) Não seja frescurento. Busque qualidade com quantidade. - Salomão (1 Reis 11:1-3)

16) Uma esposa? - Paulo (1 Coríntios 7)

Obviamente, essa lista foi escrita com humor em mente, e algumas dessas “maneiras” não são prescritivas, mas descrições de maneiras pecaminosas que o povo de Deus conduziu a si mesmo no passado - Eles não são bons exemplos. Mas ela foi escrita para demonstrar um ponto importante - as pessoas frequentemente querem que a Bíblia diga certas coisas, por exemplo: como encontrar um cônjuge e casar, todavia ignoram porções da Escritura que não se encaixam ao seu paradigma de busca. A Bíblia tem muito mais a dizer sobre casamento arranjado do que, por exemplo, tem a dizer sobre “cortejo” ou namoro. Então, como devemos proceder?

Nós temos que perceber que a Bíblia não fala de todos os assuntos que enfrentaremos na vida. Pergunte a Salomão, ele teve que usar de sabedoria quando duas prostitutas vieram a seu encontro alegando serem a mãe de uma criança. Nós devemos seguir as coisas que Deus nos deu. Em todos os relacionamentos, nós temos a obrigação de exercitar os frutos do Espírito e não maltratar alguém, isso é verdade para cônjuges em potencial. Temos também o claro mandamento bíblico que cristãos são livres para casar com qualquer pessoas que ele ou ela escolham, desde de que esses pretendentes “estejam no Senhor” (1 Co 7.39). No final, escolher uma cônjuge requer sabedoria.

A Bíblia não nos dá modos específicos de como encontrar um parceiro. Alguns são apresentados por meio da família ou amigos. Outros podem cultivar uma relação por meio de cartas (ou, como estamos mais familiarizados, por e-mails ou outras mídias sociais). Em algumas culturas, a ideia de namoro é algo mal visto. Uma vez me deparei com um colega de faculdade; ele estava se preparando para o ministério no Japão. Ele lia compenetradamente um arquivo; parecia uma ficha profissional. Por curiosidade, perguntei a ele o que ele lia. Ele me respondeu que era um arquivo de uma moça que o pai dele tinha enviado. Sua família, às cegas (com exceção de algumas fotos que acompanhavam o arquivo) estavam arranjando seu casamento. Eu estava chocado, nunca tinha passado por minha mente que cristãos piedosos não fazem tudo da mesma maneira. (Só porque Americanos e crentes agem de uma forma, não significa que é bíblica ou é a única que funciona.)

O maior ponto doutrinário aqui é que na busca por um cônjuge, devemos ter em mente duas coisas: (1) A vontade revelada de Deus em sua lei moral não deve ser infringida por palavras, pensamentos e atos nossos e (2) A liberdade cristã - onde Deus falou, somos limitados a isso, mas onde ele não falou, temos liberdade. Não somos limitados por ordenanças humanas. Isso significa que cristãos piedosos podem divergir em como vivem, mas isso não faz com que esse ou aquele seja mais santo que outro porque ela namora e não “faz corte”.

Nós também devemos notar que em sua história, a igreja nunca lidou com o assunto em seus credos ou confissões sobre como encontrar uma esposa(o). Isso nos mostra que é um assunto em que temos liberdade e ,no final, devemos confiar na graça de Deus, sua sabedoria, orarmos e receber conselhos piedosos no lugar de fazer reivindicações que a Palavra de Deus nunca fez.

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Sobre o autor: Dr. Fesko é um decano acadêmico e professor do Systematic and Historical Theology at Westminster Seminary California. Também é um ministro ordenado pela Orthodox Presbyterian Church.
Fonte: Westminster Seminary California
Tradução: Vitor Barbosa Fróes Souza
Divulgação: Bereianos
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Ética cristã e sua importância

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Falar sobre ética, inicialmente, nos parece uma tarefa difícil, por conta de sua grande abrangência e aparente complexidade. Apesar da enorme importância que a mesma exerce (ou pelo menos deveria exercer) na vida individual e comunitária, pouco ou quase nada se têm pensado ou discutido sobre o tema, seja por negligência ou ainda por medo de ofender alguém que, a princípio, já tenha uma opinião formada sobre como as coisas deveriam ser.

No meio evangélico não é diferente. É comum pensarmos que basta sabermos os dez mandamentos (Ex 20.1-17), e que eles de per si serão suficientes para termos uma perspectiva capaz de dar-nos condições de dirimir as mais diversas situações-problemas que se levantam na nossa caminhada cristã. É também verdade que eles são ordenanças dadas à nós pelo Deus Trino, mas não são as únicas, como constatamos, v.g., no Sl 15, Lv 19.18, Sl 24.4, Is 33.15, Mt 5-7, dentre outros.

Somos salvos pela fé, e não pelas obras (que podem ser pensamentos, palavras, sentimentos, ações e omissões), mas são as boas obras que testificam a veracidade, qualidade e o tamanho da minha fé (Tg 2.18), e não sendo qualquer tipo de obras, que podem nascer das mais diferentes crenças que um indivíduo pode ter e carregar, como fruto de seu desenvolvimento sócio-educativo e cultural (inclusive as decorrentes de tradições enviesadas, legalistas ou antinomistas, transmitidas por algumas igrejas, muitas das vezes por conta de uma péssima interpretação bíblica, sendo outras já pelo mau-caratismo de seus líderes), mas sim aquelas que estão prescritas na Bíblia e deixadas ao povo da aliança a fim de que, por meio da práxis delas, Deus seja glorificado da maneira que O agrada, e não da maneira que “gostamos” e/ou entendemos ser o correto e que está à parte das escrituras.

Para praticar estas obras é necessário estarmos aptos a tomarmos decisões que estejam conforme a “mente de Cristo “ (1Co 2.16), sendo imprescindível a ajuda da ética cristã, que busca o quê é moralmente certo ou errado para o cristão, ainda mais tendo em vista a complexidade do mundo contemporâneo globalizado e altamente tecnológico, que nos impõe inéditos e complicados desafios quanto a forma de procedermos por decorrência dos novos problemas apresentados, e que levantam questões sobre “o quê é ser bom?” e quais coisas boas são moralmente desejáveis.

A Ética é importante por que enfrentamos problemas morais todos os dias, muitos dos quais estão no centro das questões mais importantes da vida (ex.: política), sem contar a grande diversidade dessas questões. Cito alguns exemplos: aborto; divórcio; adultério; pena de morte; ética sexual; jogos de azar e ganância; guerra e paz; alcoolismo e drogas; meio ambiente; desobediência civil; meios de comunicação, entretenimento e pornografia; na legislação da moralidade;  no cuidado dos pobres, oprimidos e órfãos; direitos dos animais e fazendas industriais; riquezas, posses e economia; tecnologias genéticas e clonagem humana; suicídio medicamente assistido e eutanásia; coabitação e fornicação; homossexualidade; racismo e direitos humanos; tecnologias reprodutivas; etc.

Lembremos que há ainda uma diferença entre ética e moral. Sumariamente, a moralidade nos diz o quê é certo e errado e a ética nos dá o processo de como podemos chegar a esta conclusão. A última, na prática, é tão ou mais importante que a primeira.

Vale citar Scott B. Rae (p. 15):

“...A maioria das pessoas tem alguma noção de que tipos de coisas são certas ou erradas. Contudo, explicar por que você pensa que algo é certo ou errado ou se determinada pessoa é boa ou má é uma questão completamente diferente. A base sobre a qual você faz escolhas morais é geralmente tão importante quanto as próprias escolhas em si...”

Os humanistas dirão que a ética e a moral são construtos humanos, contudo, não cremos assim. O cristão crê que há uma fonte transcendente, um legislador moral, que se revelou a um povo escolhido e determinou-lhes como deveriam andar na sua presença.

É verdade que muitas pessoas nunca professaram serem cristãs, e ainda assim possuem uma vida moral invejável. Contudo, isso se dá por conta do quê chamamos na teologia de “graça comum”, em que Deus, por sua infinita misericórdia, concede à todas as pessoas uma porção de seus atributos comunicáveis, como a bondade, a verdade e a misericórdia, mesmo se essas pessoas deliberadamente O rejeitam nesta vida.

Como cristãos, devemos estar preparados para aconselhar os incrédulos, uma vez que se observa um aumento crescente do interesse das pessoas pela ética, por conta da preocupação em relação ao deterioramento moral na sociedade, do surgimento de questões tecnológicas complexas (ex.: utilização de tecidos de fetos humanos para o tratamento de certas doenças) e pelo aparecimento de uma grande quantidade de escândalos. 

Se realmente amamos a Deus de todo nosso coração e ao próximo como a nós mesmos (Mt 22.34-40), e se realmente somos o “sal da terra” e a “luz do mundo” (Mt 5.13-14), temos que estar aptos não apenas a tomar decisões éticas cristãs, mas também de obedecermos a ordenança de responder as indagações sobre a razão da nossa fé (1Pe 3.15), que talvez possa vir de um cristão neófito na mesma, ou até mesmo de um irmão que, apesar de já professar a fé verdadeira há muitos anos, ser ainda fraco nesta por não desejar o genuíno leite espiritual (1Pe 2.2), sem falar no descrente (ateu ou que professa uma falsa religião). Por fim, a exigência dessa tarefa é ainda maior aos pastores, pais (ou responsáveis) e mestres da igreja, que terão que prestar contas no dia do juízo sobre o tipo de cuidado que tiveram em relação àqueles a quem o Senhor da Igreja os confiou.

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Autor: Cláudio da Costa Leão
Divulgação: Bereianos
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Confessionalidade madura também se expressa através de submissão e coerência

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Recentemente vi um vídeo do trecho de uma palestra a respeito de como viver uma confessionalidade madura. Esse tipo de discussão é deveras importante, uma vez que há alguns anos o assunto da confessionalidade era quase que completamente ignorado em nosso meio. Aliado a isso está o fato de que há muitos jovens que, nas redes sociais, discorrem sobre o assunto de modo beligerante e sem qualquer caridade pelas pessoas que pensam de modo distinto.

A minha questão aqui gira em torno de algumas afirmações feitas na palestra, que, possivelmente até de modo inadvertido, esvaziem a autoridade das confissões reformadas de modo geral e, especificamente, dos Padrões de Westminster, símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, aos quais nós, ministros presbiterianos, juramos submissão.

Coringa e “A Faca Entrou”: a perigosa atenuação da culpa

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A obra mais falada do cinema nos últimos dias é “Coringa” (Joker). O filme, aguardado com muita expectativa, traz um Joaquin Phoenix candidato ao posto de melhor ator do ano, tenha ou não o reconhecimento da Academia (entenda aqui ganhar o Oscar). E na minha humilde opinião, se o que ele ou outro ator tivesse entregado na atuação, ficasse abaixo do que vemos na tela, talvez o filme nem fosse tão aclamado como vem sendo.

O trabalho do diretor não é ruim. O roteiro é que deixou algumas coisas a desejar. Apesar de dois excelentes plot twists (uma mudança radical e surpreendente da narrativa), o fato do Coringa ter sido planificado como personagem me desagradou. Explico: Personagens planas e esféricas são uma denominação cunhada por E.M. Forster, retiradas da obra Aspectos do Romance. Ao meu ver, o Coringa da mais recente versão cinematográfica é uma personagem plana, unilateral. Arthur Fleck, a pessoa que se torna o arqui-inimigo do Batman, é alguém que apresenta uma inocência e uma fragilidade que nos faz ter muita simpatia por ele. Em boa parte da película vemos o homem com problemas mentais querendo encontrar o seu lugar no mundo. Querendo ser notado. Querendo ser amado. Mas a notabilidade e o amor não vem. O que Arthur Fleck acumula é fracasso, desdém, sofrimento, abandono, traição. Pobre Arthur…

O Coringa interpretado por Phoenix é mais vítima do que vilão. Isso me incomodou. Basicamente o que vemos em cena é que a resposta de Arthur Fleck para todo o mal que sofreu e absorveu é a violência. Justificada por uma vida de constantes abusos, a aparição do Coringa deixa a personagem sem sua vilania clássica. Ora, o Coringa é um psicopata, alguém mal que no universo dos quadrinhos cometeu inúmeras atrocidades. Faltou a este Coringa do cinema ser mais esférico (ainda usando E.M. Forster). Ele até poderia sofrer, ele até poderia ter seus traumas. Mas faltou um indicativo de pura maldade. Alguma coisa que mostrasse que mesmo com os fatores externos, havia algo de perverso em Arthur manifesto desde muito cedo. Nem que fosse arrancar a cabeça de uns bonecos.

Algumas pessoas vão me dizer que todo o enredo está sendo contado na ótica do próprio Coringa. Portanto, nem toda aquela narrativa significa ser verdadeira. Contraponho argumentando que esta é uma interpretação alternativa. O roteiro do filme não traz uma narrativa em primeira pessoa. Ele apresenta a estória. Ele apresenta a origem do vilão. Há, no mínimo, uma dubiedade de intenção ou de interpretação. Só que o que é apresentado na tela é o que o público médio vai entender: Coringa foi uma resposta da vilania social. Gothan, aqui funcionando mais como uma personagem do que como cenário, forjou Arthur.

Vi e ouvi inúmeras pessoas comentando exatamente o que coloquei acima. As pessoas saíram do cinema colocando a responsabilidade do Arthur ter virado o Coringa em tudo e em todos: na sociedade, na mãe, no Thomas Wayne, no apresentador do Talk Show (De Niro está ótimo aqui, por sinal), menos responsabilizando o próprio protagonista pelas suas ações. E aqui eu gostaria de usar a contribuição do Theodore Dalrymple para destacar o como que isto é problemático.

Dalrymple é o pseudônimo de Anthony Daniels. Hoje um aclamado e respeitado ensaísta britânico, mas que é médico psiquiatra de formação e a exerceu por muitos anos. Um dos seus livros mais recentes lançados em português é “A Faca Entrou” (É Realizações, 2018), recheado de histórias reais de assassinos conhecidos por Dalrymple quando ele atuava como clínico geral e psiquiatra numa penitenciária. O título da obra é explicado da seguinte maneira pelo seu autor:

No entanto observei um fenômeno peculiar na penitenciária onde comecei a trabalhar vinte anos atrás — o uso da voz passiva pelos prisioneiros como forma de se distanciar das próprias decisões e persuadir os outros da falta de responsabilidade por suas ações. A princípio, notei o fenômeno ao falar com assassinos que tinham esfaqueado alguém até a morte e, invariavelmente diziam “a faca entrou”, como se a faca tivesse guiado a mão em vez da mão guiar a faca. Um assassino desses pode ter cruzado a cidade levando a faca consigo para confrontar a exata pessoa de quem guardava um sério rancor. Ainda assim, foi a faca que entrou.

O livro do Darlrymple expõe a negação da culpa e a transferência de responsabilidade para fatores externos. Isso tem sido uma mudança de paradigma que vem levando a sociedade a acomodação da violência e contribuído para uma disfuncionalidade que espanta aqueles que dela se apercebem. Uma vida sofrida ou regada por humilhações não dão um aval para crimes serem cometidos. Falando sobre os prisioneiros com quem trabalhou, Darlrymple assume que, em sua maioria, eles “tiveram infâncias terríveis, cheias de crueldade e negligencia”. Só que não existe uma conexão simples ou inescapável que nos faça afirmar categoricamente que uma coisa está ligada a outra. “Em outras palavras, eles decidiram fazer o que fizeram”.

Tornar o sofrimento, os abusos ou as negligências como causas que servem de gatilhos para atos criminosos e/ou violentos é coisa de quem enxerga “lógica no assalto” (Não pegou a referência? Clica aqui). É sandice! Não queria entrar no mérito de jogar o roteiro do filme para ideologia A ou B, pois, de fato, não acredito que o filme tenha abraçado uma ideologia. Mas não dá para negar que há uma enorme fatia no pensamento progressista que gosta de usar desse tipo de atenuante para respaldar atos que para muitos são injustificáveis. Coringa se torna celebrado em Gothan. As pessoas o exaltam. Alguém que era para ser visto como vilão é visto por uns como uma espécie de herói dos desvalidos. Insano? Muito. Só que o que potencializa a insanidade é quando admitimos que ela é real. Quem não viu uma parcela da sociedade celebrar o ato e a pessoa do Adélio Bispo, o homem que tentou matar, o então candidato à Presidência, Jair Bolsonaro? O mesmo foi de herói de um grupo a alguém que não poderia responder por seus atos, tido posteriormente como mentalmente incapaz (Biruta, no polular).

Coringa, ou melhor, Arthur Fleck, tinha problemas mentais, como dito. No filme não fica muito claro qual ou quais, mas sabe-se que ele possuía. Seria o transtorno mental um atenuador para os futuros crimes cometidos? Ao responder ao advogado de defesa de uma mulher acusada de assassinato, e que fora diagnosticada com um certo distúrbio de personalidade, se aquele distúrbio não deveria atenuar a culpa da acusada, Darlrymple nos conta que deu a seguinte resposta: “O senhor está cometendo um erro de lógica. Um homem com câncer no pulmão tem a doença porque fuma; um homem que fuma não tem necessariamente câncer no pulmão”.

Na Sagrada Escritura, aprendemos que o homem é um ser caído. O pecado é uma realidade que afeta a totalidade do ser humano. Jesus nos diz que é do coração que “procedem os maus intentos, homicídios, adultérios, imoralidades, roubos, falsos testemunhos, calúnias, blasfêmias” (Mateus 5.19). Só que a própria Escritura também nos diz que o homem é responsabilizado por seus atos. A narrativa do primeiro homicídio é conhecida, Caim mata seu irmão Abel por inveja. Todavia, antes de cometer tal brutalidade, ele havia sido exortado: “Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? E por que está descaído o teu semblante? Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? E se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar”. (Gênesis 4.6 e 7).

Caim está para Coringa assim como José está para Bruce Wayne. A história de José narra um dos dramas familiares mais conhecidos do conteúdo bíblico (Começa em Gênesis 37). Sofreu bastante e foi capaz de responder de maneira diferente ao que muitos justificariam como sendo uma vingança compreensível. Já o Bruce Wayne, o Batman, sofreu ao ver seus pais morrendo diante de seus olhos — assassinados à sangue frio. Cercado de dinheiro, estava sem sua família. Uma criança sozinha no mundo. O Batman não sucumbiu a vilania “justificável”. Não é mesmo?

Sei que o Batman junto com José do Egito e o Theodore Darlrymple formaram um grupo bem mais estranho do que os componentes da Liga da Justiça e similares. Mas espero que eles lhe ajudem a ver o que eu vi e tenham clareado o meu argumento. Se você ainda não assistiu ao Coringa, assista. O filme pode até não ser tudo isso que falam, no entanto, é um bom filme e lhe fará pensar em muitas coisas. Vale ressaltar que todo e qualquer disparate deste texto (da minha análise como “crítico de cinema de araque”) é de minha inteira responsabilidade.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Resposta a Magno Paganelli, sobre “de quem é a Terra Santa”?

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Um pastor evangélico chamado Magno Paganelli escreveu uma crítica à tréplica que escrevi a Colin Chapman, a propósito de seu livro “De quem é a terra santa”.

O autor gasta dois parágrafos para se apresentar e parece muito preocupado em se mostrar como um especialista na área, falando de suas credenciais acadêmicas. Mas, em praticamente todos parágrafos de seu texto, há meias-verdades, erros, distorções, invencionices e imposturas.

Sobre a existência de um país chamado “Palestina”, Paganelli na verdade não respondeu a nenhuma das perguntas que fiz em minha tréplica. Para simplificar: ele poderia informar quando e onde existiu um país árabe chamado Palestina, e quais eram suas fronteiras e sua bandeira antes de 1948? E por que a Jordânia dominou a Cisjordânia e metade de Jerusalém durante 19 anos (1948-1967) e não fundou na época um estado palestino?

E para aqueles que, como Paganelli, estão prontos a descartar rapidamente acusações de judeofobia e antissemitismo por parte dos árabes é bom lembrar a declaração de Ismail Haniyeh, o “primeiro ministro” do Hamas, em comício em Gaza, na presença de 250 mil pessoas, em 2007: “Nós nunca reconheceremos Israel”. O líder do Hamas, Khalid Mashal, acrescentou: “Nós nunca vamos desistir de uma polegada da Palestina”.

Paganelli afirma que o Corpo de Mulas de Sião era um grupo terrorista. Tal afirmação é falsa. Este corpo foi criado em 1915 (e não em 1920, como ele erroneamente afirma), e seu comandante foi o tenente-coronel John Henry Patterson. É considerada a primeira unidade militar israelense, precursora da Legião Judaica, e foi parte da Força Expedicionária Mediterrânea, combatendo na campanha de Galípoli, contra o Império Otomano, de abril de 1915 a janeiro de 1916. A Legião Judaica, criada em 1917 como parte da Força Expedicionária Egípcia, lutou nas batalhas do Vale do Jordão e do Megido, em junho e setembro de 1918, ajudando os ingleses a derrotar os otomanos e alemães. A Legião Judaica foi desmobilizada em 1921.

Paganelli também afirma, erroneamente, que a Haganah (criada em 1920) teria suas origens no Corpo de Mulas de Sião, e seria uma organização terrorista – logo, as Forças de Defesa de Israel (criadas em 1948) teriam sua origem num suposto grupo terrorista. Na verdade, diferente do que ele afirma, a Haganah teve como precursora a Hashomer (fundada em 1909), cuja antecessora havia sido outro grupo de autodefesa, a Bar Giora (fundada em 1907). E Paganelli parece desconhecer que os grupos paramilitares Irgun (criado em 1931) e Lehi (criado em 1940) foram dissidências da Haganah (a título de comparação, a Haganah tinha 20 a 30 mil membros; o Lehi cerca de 300 a 500 membros).

Sobre a horrível explosão do quartel-general do Mandato Britânico da Palestina/Comando da Palestina, no Hotel King David, em 22 de julho de 1946, ele ignora que o Irgun fez várias ligações avisando do ataque, mas os britânicos não as levaram a sério. 91 pessoas foram mortas no ataque, inclusive 17 judeus. A Agência Judaica condenou o que chamou de “crime covarde” perpetrado por um “grupo criminoso”. Após o ocorrido, o Irgun e o Lehi romperam um acordo de cooperação com a Haganah e passaram a atuar separadamente.

Paganelli afirma que Vladimir Jabotinsky, um judeu russo, foi “um ex-terrorista soviético”, mais uma afirmação que não corresponde aos fatos. Jabotinsky, veterano do Corpo de Mulas de Sião e da Legião Judaica, era um firme anti-comunista, e chegou a escrever sobre o comunismo da União Soviética: “Um regime totalitário [que] deve ser mais insuportável para os judeus do que para qualquer outro povo, pois nenhuma outra raça disputou até agora o título dos judeus de primazia em matéria de individualidade e rebeldia”.

Como parece que Paganelli leu meu texto com óbvia má vontade, ele desconhece que Chapman – cujo livro ele não leu – acusa genérica e coletivamente os judeus pelos ataques a Balad al-Shaykh e Deir Yassin. O que fiz foi destacar que estes ataques não foram ataques realizados por todos os judeus, mas por dois grupos paramilitares judaicos, no contexto da luta de Israel por sua independência, em 1948.

Paganelli escreve que afirmar que Israel é uma democracia é “velho mito”, “propaganda enganosa” e “falácia”. Mas no Democracy Index 2018, do The Economist, o Estado de Israel é listado em 30º lugar. Já o Líbano, que ele supõe ser uma democracia exemplar, se encontra em 106º lugar. A Palestina está em 109º e o Egito, elogiado por ele, encontra-se em 127º lugar.

Paganelli ignora que os cristãos egípcios sofrem discriminação e violência que não ocorre em lugar algum em Israel. Desde 2011, centenas de coptas foram assassinados e várias igrejas foram destruídas por muçulmanos. Enquanto isso, em Israel, no vilarejo de Jish, os cristãos arameus estão revivendo a língua aramaica com o apoio da suprema corte de Israel.

E quanto aos cristãos palestinos, que são apenas 2,5% da população palestina (em 1922 eram 9,5%), a causa de seu êxodo não seria apenas o conflito entre Israel e os árabes, mas também a perseguição do Hamas e da Autoridade Palestina. Enquanto isso, os cristãos árabes que vivem em Israel estão entre as pessoas mais cultas no país.

Paganelli afirma que “há estatísticas que dão conta de que mais de 95% do partido comunista soviético chegou a ser formado por judeus”, simplesmente repetindo as mentiras e fantasias propagadas no infame texto antissemita “Os Protocolos dos Sábios de Sião”.

Por fim, num trecho surpreendente, vindo de alguém que se apresenta como especialista na área, Paganelli afirma que “antes de ser aliado dos Estados Unidos (na Guerra de 1967, p. ex.), Israel era aliado da União Soviética e de lá comprava armas, assim como o Egito de Nasser”. 
Imagem: print do blog de Magno Paganelli

Eu gostaria de saber do autor em que fábricas na União Soviética foram construídas as aeronaves Avia S-199 Mezek, Supermarine Spitfire, De Havilland Mosquito, Gloster Meteor, Boeing B-17 Flying Fortress, North American AT-6 Texan, North American P-51 Mustang, Dassault Ouragan e Dassault Mystére?


E em que fábricas da União Soviética foram construídos os carros de combate M-3, M-1, M-50 e M-51 (conhecidas por norte-americanos e britânicos como tanques Sherman), Hotchkiss H39 e AMX-13, os veículos blindados Bren Carrier e M3 Half-track e o automóvel Jeep Willys?

Para aqueles não familiarizados com história militar, entre a Guerra de Independência, em 1948, e a Crise de Suez, em 1956, as forças armadas de Israel receberam equipamento tcheco, inglês, americano e francês, contrabandeado por meio da Tchecoslováquia e, depois, comprado nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália e Suécia. E, na Crise de Suez, Estados Unidos e União Soviética ficaram ao lado do Egito, contra Israel, França e Inglaterra.

De onde Paganelli tirou a informação de que nessa época “Israel era aliado da União Soviética e de lá comprava armas, assim como o Egito”?

Se tal opinião inédita é verdadeira, é o furo historiográfico do século! 

Livros serão reescritos!

Fábricas como a Boeing, a North American, a De Havilland e a Dassault eram da União Soviética!

Que revelação espantosa!

As Forças de Defesa de Israel não sabiam que usavam equipamento da União Soviética!

Uma miragem no deserto!

É bom lembrar que 3.500 voluntários judeus e cristãos de 43 países lutaram ao lado de Israel na Guerra de Independência, em 1948. Destes, 1.000 vieram dos Estados Unidos, 1.000 do Reino Unido, 500 da África do Sul, 500 do Canadá e 30 da Finlândia. Estes foram chamados de Mahal, um acrônimo de “voluntários do exterior”. 123 Mahalniks foram mortos em combate.

Pelo menos, em seu texto Paganelli deixou bem clara sua posição. Só faltou ele afirmar (como ironizou meu amigo, o rabi Yehuda Hochman) “que o Rabino chefe das Forças de Defesa de Israel prepara os pães ázimos da Páscoa com sangue de crianças palestinas”.

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BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
Anita Shapira, Israel: uma história (Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2018).
Benny Morris, Um Estado, dois Estados: soluções para o conflito Israel-Palestina (São Paulo: Sêfer, 2014).
Shlomo Aloni, Arab-Israeli Air Wars 1947-1982 (Botley: Osprey, 2001).
John Laffin, The Israeli Army in The Middle East Wars 1948-73 (London: Osprey, 1982).
Samuel Katz, Israeli Elite Units Since 1948 (London: Osprey, 1988).

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Autor: Pr. Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos
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