A séria alegria da oração cristã

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Por Richard T. Zuelch


De acordo com o falecido Herbert Lockyer, Sr. (1886-1984), em seu livro de 1959 Todas as Orações na Bíblia, há, excluindo os Salmos, 650 claras orações na Bíblia, 450 das quais têm claras respostas registradas a elas. Incluindo os Salmos (que são todas realmente orações) há um total de 800 orações nas Escrituras.

A Bíblia, portanto, está saturada de oração. As muitas pessoas piedosas que são achadas nas páginas dos Escritos Sagrados instintivamente olham para Deus a fim de suprir suas necessidades diárias, acalmar seus temores, vingá-los de seus inimigos e providenciar salvação do pecado. Isto acontece apenas pela graça de Deus o Pai, através do Senhor Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo.

Como crentes, nós também deveríamos viver vidas impregnadas de oração. Contudo, nós, às vezes, oramos baseados em condições. Isto é algo que nosso Senhor, durante sua vida terrena, nunca fez. Nós freqüentemente esquecemos como é precioso o dom que Deus nos deu ao prometer aos seus filhos ouvir nossas orações. A fé deveria nos levar ao trono da graça em oração. Como Calvino escreveu uma vez, “a fé não é verdadeira, a menos que assevere e traga à mente o mais doce nome do Pai – e mais, a menos que abra nossa boca para livremente clamar: “Abba, Pai” (Gl 4:6; Rm 8:15) (Institutas 3:13:15).

Há vários princípios vitais que a Bíblia nos ensina a lembrar acerca da oração. Será produtivo que os lembremos.

Oração é algo ordenado por Deus para o crente

Oração não é uma atividade opcional na vida cristã. Ela é, juntamente com a própria Escritura, nosso elo com Deus. Assim como Deus nos fala através das páginas da Bíblia, ao lermos e estudarmos, assim Ele nos ordena a falar a Ele em oração. No Sermão do Monte (Mt 5:3-7:27) nosso Senhor presumiu que a oração deveria ser parte da vida do crente: “E quando orardes ...” (Mt 6:5-7, 9). O apóstolo Paulo nos diz que a oração constante é a ‘vontade’ de Deus para nós (1 Tss 5:17-18). O escritor aos hebreus pediu a seus leitores que orassem por ele (Hb 13: 18). Tiago nos informa que “a oração do justo” tem muita utilidade aos olhos de Deus (Tg 5:13, 16).

O cristão não pode viver sem oração mais do que pode viver ser respirar ou comer. Muitas vezes, nosso Senhor esteve acordado a noite inteira em oração diante do Pai. Se Ele mesmo achou que oração era uma necessidade vital em Sua vida, quão mais deveria um crente inclinar-se no peito de seu Pai celeste em oração? Deus nos convida a ter comunhão com Ele, a fim de que possa nos abençoar.

Nós dedicamos a oração a um Deus Santo

As Escrituras nos lembram que Deus é, acima de tudo, santo (Lv 11:45). Ele é inexplicavelmente santo em todos os Seus atributos e em todas as Suas ações. Do início da criação à consumação de todas as coisas, tudo que Deus é e faz demonstra a pureza de Sua absoluta santidade. “Profira a minha boca louvores ao Senhor, e toda carne louve o seu Santo nome para todo o sempre.” (Sl 145:21)

Conseqüentemente, as orações que Lhe dedicamos não devem ser expressas ligeiramente. O tempo que uma pessoa se prostra diante do trono da graça não é uma ocasião para leviandade. Nós devemos entrar na presença de Deus sabedores de que, conquanto Ele seja nosso Pai celeste que ama seus filhos encarecidamente, Ele também é o Todo-Poderoso Senhor do Universo, o qual exige ser tratado com o máximo respeito e dignidade. Isto não quer dizer que nós devamos nos aproximar dEle com temor acovardado, pois “o perfeito amor lança fora o medo” (1 Jo 4:18).

Entretanto, devemos nos lembrar que a oração é um rico privilégio dado a nós pela graça do Salvador que sofreu a morte por nós. Não podemos de forma alguma abusar dela ou ser frívolos com ela. O Deus santo espera que nos aproximemos com uma atitude de séria alegria em nossas orações.

A oração é, essencialmente, trinitariana

O cristão ora no poder habilitador de Deus o Santo Espírito, que torna apropriado, como é Seu privilégio, a obra expiatória de Deus o Filho, o qual, sozinho, lhe dá acesso ao trono de Deus o Pai.

A aproximação de Deus o Pai pode ser feita unicamente através de Deus o Filho, o Senhor Jesus Cristo (Jo 14:16). No mesmo capítulo do evangelho de João, Jesus enfatiza Sua unidade essencial com o Pai (7, 11). Logo depois, nós aprendemos que o Espírito Santo é dado aos crentes pelo Pai a pedido do Filho (16-17). Então, todas as três Pessoas da Trindade estão envolvidas na obra da oração.

Embora não haja nada nas Escrituras contra orar de forma particular a qualquer das Pessoas da Trindade, é geralmente conhecido que a oração é normalmente dirigida a Deus o Pai. Como autor do plano da salvação, é ao Seu trono que devemos nos aproximar em reverência e santo temor (Is 6). Por causa da expiação vicária efetuada por Seu Filho, Ele está sempre disposto a ouvir as orações fervorosas dos crentes aos aproximarem-se dEle em doce comunhão.

Nós podemos nos dirigir ao Pai através dos méritos de Seu Filho, e unicamente por Ele (Jo 14:6). Charles Haddon Spurgeon, em um sermão em Lucas 11:9-10 disse: “Nunca houve uma verdadeira oração dedicada a Ele que não foi ouvida. As orações mais aceitáveis em seu nível mais elevado chegam a Ele pelo caminho dos ferimentos de Cristo.”

Como a Pessoa que aplica a grande salvação de Deus aos eleitos em regeneração e conversão, o Espírito Santo energiza as orações a serem dedicadas. Em Sua onisciência, Ele é perfeitamente familiar com a profundidade de nossos espíritos e com a santa vontade de nosso Pai (Rm 8:26-27). Quando nos faltam palavras, Ele sabe imediatamente como orar por nós. Ele sabe como compor orações de modo que sejam aceitáveis ao Pai das luzes. Nós podemos descansar no conhecimento de que a oração sincera do coração do crente não será desprezada pelo Pai, que nos convida a que Lhe falemos.

Adoração é um elemento integral da oração

“Louva, ó minha alma, ao Senhor. Louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver” (Sl 146:1-2). “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lucas 1:46-47).

Muitos cristãos, seja por ignorância da natureza da oração ou por egoísmo, presumem que o propósito da oração é “conseguir coisas de Deus”. Na verdade, encontramos um livro sobre oração , escrito por um americano, John Richard Rice [1895-1980], no qual ele proclama que oração é somente pedir coisas a Deus. Louvor, ações de graças, ou adoração, para ele, aparentemente não constituem a oração. Pedir nunca deve ser o foco único da oração. Adorar é um grande privilégio. O crente passará a eternidade empenhado na adoração a Deus. É necessário, portanto, que devotemos muito de nossa atenção na oração, seja individual ou corporativa, pensando na adoração e louvor devidos a Deus.

Nenhuma outra atividade engajada pelo cristão pode trazer tal bênção para nossas almas como a adoração. Nenhum outro exercício que o cristão possa experimentar tem igual efeito sobre seu entendimento do ser e natureza de Deus. É santificador estar na presença de Deus e glorificar Seu nome. Nada mais que o cristão possa fazer edifica sua mente e coração como curvar os joelhos diante de Deus e conhecer sua presença soberana. Quando a adoração a Deus é feita de forma reverente e espiritual, o crente conhece a comunhão com Deus de uma forma maravilhosa.

Nós com freqüência não sabemos sobre o que devemos orar e, mesmo quando sabemos, nós oramos com motivos mistos.

Um de nossos textos guias aqui é Deuteronômio 29:29: “As cousas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus; porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.” Se nós não entendemos as “coisas secretas” que são conhecidas apenas pelo Todo-Poderoso Deus, quão menos entendemos o próprio Deus? O Espírito Santo reside dentro dos crentes para nos ajudar a orar (Rm 8:26-27).

Nós precisamos da ajuda do Espírito para superar nossas tendências pecaminosas. Nós não oramos como deveríamos, em parte, por causa de nossos motivos mistos. Muito de nossas orações é egoísta e egocentricamente orientado, devido ao fato de nosso pecado ser constantemente insistente, mesmo quando fazemos nosso maior esforço para nos concentrarmos apenas em Deus durante nosso tempo de oração. Estamos sendo constantemente arrastados pelo pecado dentro de nós. O Espírito Santo nos ajuda aqui também.

Deus prometeu suprir todas as nossas necessidades, mas não necessariamente todos os nossos desejos. “Escuta, ó Deus, a minha oração, dá ouvidos às palavras da minha boca. ... Eis que Deus é o meu ajudador, o Senhor é quem me sustenta a vida” (Sl 54:2,4). “Confia os teus cuidados ao Senhor, e ele te susterá: jamais permitirá que o justo seja abalado” (Sl 55:22).

Estas Escrituras testificam o fato de que Deus graciosamente sustenta seus necessitados filhos ao ser procurado por eles em oração. Entretanto, isto acontece quando procuramos as prioridades de Deus e não as nossas próprias. Nós temos que discordar daqueles que pertencem ao movimento da “confissão positiva”. Estes insistem que Deus é obrigado a dar aos cristãos qualquer coisa que Lhes peçam!

É ao nos humilharmos perante Ele que Ele prometeu suprir nossas necessidades. E, embora nossas necessidades, legítimas como criaturas, sejam graciosamente abastecidas por Deus, Ele está, em última instância, muito mais interessado em nossas necessidades e bem-estar espirituais. Pois nós precisamos principalmente de salvação e santificação. Nós precisamos aprender os caminhos de Deus e como segui-los. Nós precisamos nos preparar para a eternidade. Nós precisamos experimentar o perdão de Deus (João 13:10) e aquele íntimo relacionamento com Ele que a obediência à Sua Palavra fornecerá.

Muitos crentes têm testificado, ao olharem para trás em suas vidas desde a conversão, de que têm razão em agradecer a Deus por não ter Ele respondido muitas de suas orações egoístas. Eles têm visto, em retrospectiva, a sabedoria dos caminhos de Deus e têm aprendido como orar mais biblicamente de modo a glorificar a Deus e edificar os santos.

Vamos seguir seus exemplos, pedindo que nos seja dado mais do Espírito de Deus para nos dirigir, de modo a vermos nossas verdadeiras necessidades.

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Fonte: Os Puritanos

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Deus e o Gênero: Macho e Fêmea

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Por John Frame


Atualmente algumas teologias têm focalizado sobre a conveniência de se usar uma linguagem feminina para Deus. O recente teólogo evangélico Paul K. Jewett fez esta central questão em seu God, Creation, and Revelation.[1] 

Apesar de negar em seu prefácio que “tenha algum pensamento de acomodação da exposição da fé cristã ao cânons da modernidade,”[2] às vezes, usa “ela” para Deus [3] e concede muito espaço para a defesa de argumentos feministas. O livro She Who Is [4] de Elizabeth Johnson é um amplo tratado acerca da doutrina de Deus, tem como sua tese principal a necessidade de se usar uma linguagem feminina (mais ou menos exclusivamente)[5] com referência a Deus. Estes títulos são característicos de muitos.

Esta questão certamente não é a maior no que diz a respeito à própria Escritura, nem é a mais alta prioridade do presente volume. Mas, desde que a teologia é aplicação, e ela se torna importante para aplicarmos os princípios bíblicos aos interesses emitidos das pessoas contemporâneas. Certamente, há princípios bíblicos que são relevantes para esta questão.

Como Deus poderia ser Fêmea?

Podemos primeiramente esclarecer que esta questão envolve o uso da linguagem figurada. Ninguém argumentaria que Deus é literalmente macho ou fêmea, assim os cristãos em geral concordam que Deus é incorpóreo (como a Bíblia ensina).[6] Elizabeth Johnson crê que Deus é físico num sentido panenteístico: o corpo de Deus é o mundo.[7] Mas ela não baseia o seu argumento da feminilidade de Deus sobre as características físicas.

Apesar da Escritura, às vezes, representar Deus antropomorficamente pelo uso de figuras de partes do corpo humano, estas partes não incluem os órgãos sexuais.[8] Deste modo, a sexualidade não é parte das figuras visuais da Escritura. As afirmações que consideram as figuras femininas de Deus, portanto, são sutis. Elas fazem analogias entre a posição, o caráter, a personalidade e as ações de Deus, e que associamos com a mulher.

A real natureza desta questão levanta problemas para o feminismo. Existem traços do caráter ou da personalidade que são característicos na mulher em algum grau? Às vezes, feministas dizem que não. Em sua concepção, toda característica humana e traços de personalidade são comuns tanto a homens como a mulheres, e pensar de outro modo é comprometer-se com estereótipos. Em outras circunstâncias, elas têm reconhecido que há diferenças (em menor grau), mas têm preferido dar maior honra àqueles traços associados com a mulher.

Johnson e algumas outras feministas procuram ter ambos os conceitos. Ela insiste que nossa noção do feminino (logo, o Deus feminino) poderia incluir “intelectual, artístico,” e “liderança pública”, e igualmente “orgulho e ira”.[9] Ela elogia a religião de Ishtar (no Antigo Testamento, Astarte ou Astoreth, a esposa de Baal, Jz 2:13; 10:6; 1 Sm 7:3-4; 12:10) ao encontrar em sua deusa “a fonte do poder e soberania divina personificada na forma feminina,” que promove guerra e exerce julgamentos.[10] Sobre esta base, traços de masculinidade e feminilidade são essencialmente os mesmos. O que a sociedade necessita entender é que eles podem ser encontrados tanto nas mulheres como nos homens.[11]

Entretanto, esta ênfase conflita com o desagrado de Johnson pela noção de “ter o poder sobre”, o governo e submissão. Ela vê estas concepções como sendo tipicamente características masculinas que a teologia feminista poderia evitar descrever Deus. Porventura, o “ter o poder sobre” é um traço masculino que a teologia feminista poderia substituir em favor dos traços femininos? Ou ela é um traço que as feministas poderia admitir como sendo uma propriedade feminina e encontrar numa deidade feminina?

Portanto, não está claro, que espécie de deus uma deidade feminina poderia ser. Poderia ela ser mais nutridora, bondosa, receptiva e afetuosa do que a deidade masculina da teologia patriarcal? Ou, ela seria tão poderosa, dominante e agressiva como qualquer homem, não obstante, de algum modo ainda ser feminina? Johnson usualmente parece favorecer a última alternativa, com alguma inconsistência, como temos visto. Mas, qual é a característica feminina acerca desta deidade? Se a sua feminilidade não é física, podemos julgar sua natureza somente pelos traços do caráter e personalidade. Mas acerca da descrição de Johnson, os traços da deusa são comuns a machos e fêmeas. Assim, é difícil discernir o que Johnson realmente entende ao afirmar quando diz que Deus é feminino.

Figuras Femininas de Deus na Escritura

Não poderíamos continuar sem antes verificar os dados bíblicos. Poderia ser acrescentado que, apesar de Deus ser o Criador, e por isso o modelo tanto para as virtudes “masculinas” e “femininas” (mas que estas sejam bem definidas), as figuras bíblicas de Deus como gênero, lhes é relevante, e que são predominantemente masculinas. Os pronomes e verbos que se referem a Deus são sempre masculinas na Escritura, e as figuras que usa para si (Senhor, Rei, Juiz, Pai, marido) são tipicamente masculinas.[12] 

Todavia, há algumas figuras femininas de Deus na Bíblia. Em Deuteronômio 32:18, Deus, através de Moisés, repreende Israel, dizendo:

               Abandonaste a Rocha que te gerou;
               E te esqueceste do Deus que te deu o nascimento.

Nesta figura, Deus usa tanto funções masculinas como femininas na origem de Israel. Em Números 11:12, Moisés frustrado com a murmuração dos israelitas, nega que não foi ele, mas Deus, quem havia concebido aquele povo e conduzido-os. Assim ele pergunta: “porque, Tu ordenas-me para conduzi-los em meus braços, como uma ama conduz uma criança?” Talvez o pensamento expresso em Deuteronômio 32:18 descansa nas palavras de Moisés: Deus concebeu Israel e lhe deu o nascimento, e assim Deus deveria ser sua ama. Estas duas passagens são mencionadas muitas vezes na literatura feminista, mas a figura feminina não é enfatizada. No contexto, nada mais é feito pelo fato de que Deus concede o nascimento ou pode ser uma ama. A figura aqui é menos impressionante do que de Gálatas 4:19, onde o apóstolo Paulo descreve a si mesmo como em dores de parto pela igreja, e em 1 Tessalonicenses 2:7, onde diz que ele e seus cooperadores foram “carinhosos entre vocês, como uma mãe acaricia aos seus pequeninos bebês.” Ninguém sugeriria com base nestas passagens que podemos concluir que Paulo era uma mulher. Nem que Números 11:12 e Deuteronômio 32:18 nos exigem repensar o gênero de Deus.[13] 

Em Isaías 42:14, Deus declara um ameaçador julgamento:

               Por muito tempo me calei
               Estive em silêncio e me contive;
               Mas agora darei gritos como a parturiente,
               E ao mesmo tempo ofegarei,
               E estarei esbaforido.

Escritoras feministas mencionam diversas vezes esta passagem apresentando-a como uma figura de Deus. A figura aqui certamente é feminina. Uma mãe ansiosa pode passar muitos meses em modesto silêncio, mas quando chega o seu tempo de dar a luz, ela gritará! Semelhantemente, Deus demora o seu julgamento, mas quando o tempo certo vem, ele certamente fará a sua presença conhecida. De fato, a Escritura menciona muitas vezes, o sofrimento do nascimento como uma figura da maldição de Deus (Gn 3:16) e, proverbialmente, o pior sofrimento imaginável. Assim, como uma metáfora, ela se aplica natural e freqüentemente tanto a homens como a mulheres. Salmo 48:4-6 diz:

               Por isso, eis que os reis se coligaram
               E juntos sumiram-se;
               Bastou-lhes vê-los, e se espantaram,
               Tomaram-se de assombro
               E fugiram apressados.
               O terror ali os venceu,
               E sentiram dores como de parturiente.

Os reis são homens, mas eles tremeram como uma mulher em momento de parto (cf. Is 13:8; 21:3; 26:17; Jr 4:31; 6:24; Mq 4:9). Enquanto a Escritura usa esta metáfora feminina para Deus, ela não nos dá mais coragem para pensar de Deus como fêmea, do que nos dá a pensar daqueles reis como mulheres. A figura feminina usada para Deus em Is 42:14-15 é comum na Escritura, e muitas vezes é usada para personagens masculinos.

Em Lucas 15:8-10, Jesus nos conta uma parábola acerca de uma mulher que acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente para encontrar uma moeda perdida. Quando ela a encontra, chama as suas amigas para junto regozijarem. Alguns crêem que a mulher representa Deus, talvez, especificamente Jesus, como faz o pastor e o pai nas outras duas parábolas em Lucas 15. Todavia, a parábola enfoca mais sobre a alegria dos amigos (i.e., os anjos, vs. 10) do que sobre o esforço doméstico. Em Mateus 23:37, Jesus compara a si mesmo a uma galinha que deseja ajuntar os seus pintinhos debaixo de suas asas. Esta é certamente uma metáfora feminina, mas certamente não é algo que leva em questão o gênero de Jesus.

Além destas passagens específicas, há algumas idéias bíblicas mais latas em que alguns pressupõem um elemento feminino de alguma espécie em Deus. Uma é o uso de raham e splanchnizomai para compaixão divina, um uso que discuto brevemente numa nota de roda-pé anterior. Veja o capítulo 20 para maiores discussões.

Outro é o uso da palavra Espírito (heb. Ruah, gr. Pneuma). Ruah é um substantivo feminino, e Gn 1:2 ilustra o Espírito “chocando” como uma ave mãe. A Escritura também representa o Espírito como o doador da vida (Sl 104:30), particularmente do novo nascimento (Jo 3:5-6).

Não se pode, entretanto, deduzir muita coisa deste ponto gramatical. Substantivos femininos, necessariamente, não denotam personagens femininos,[14] e o termo grego correspondente pneuma é neutro. Além do mais, “pairar” é também uma interpretação possível da palavra rahaf em Gênesis 1:2. E em João 3, a palavra traduzida “nascido” (gennao) pode significar “gerado” bem como “conduzido”, podendo se referir a função masculina de procriar. Todavia, a interpretação “conduzido” é preferível em João 3:5 por causa da resposta de Nicodemos no verso 4. Poderia concluir que é possível ser um conjunto de figuras femininas do Espírito na Escritura, mas que dificilmente sugeriria que o Espírito é um personagem feminino da Trindade.[15] Se o grupo de figuras, como discutimos anteriormente, é insuficiente para justificar em falar-se da divina feminilidade, certamente que duas figuras não são suficientes para provar a feminilidade do Espírito.

Outro conceito sob discussão é acerca da sabedoria (heb. Hokmah, gr. Sophia). Os termos, tanto no grego como no hebraico, são substantivos femininos, e em Provérbios, a sabedoria é personificada como uma mulher (7:4; 8:1-9:18). Sabedoria é uma figura divina em Provérbios 8:22-31, e o Novo Testamento identifica-a com Cristo (1 Co 1:24, 30; Cl 2:3; cf. Is 11:2; Jr 23:5), ela também é usada em relação ao termo Palavra (João 1:1-18). Igualmente, têm-se concluído que a segunda pessoa da Trindade é feminina.[16] 

Contudo, este argumento é muito fraco. A primeira coisa a ser notada é que, Jesus é inquestionavelmente homem. Entretanto, a sugestão de que sabedoria requer uma personificação feminina é simplesmente errada. Pois a personificação da sabedoria em Provérbios possui perfeitamente uma óbvia razão para isto, que nada tem haver com um elemento de feminilidade na Divindade. Provérbios 1-9 apresenta ao leitor a figura de duas mulheres chamadas de “Senhora Sabedoria” e a “Senhora Loucura”. A Senhora Loucura é a prostituta que seduz um jovem para a imoralidade. A Senhora Sabedoria também chama aos homens da cidade (8:1-4), persuadindo-os a levar uma vida piedosa. A Sabedoria é uma senhora, não porque o escritor procurou afirmar um elemento de feminilidade na Divindade, mas simplesmente como um recurso literário apresentando como uma alternativa positiva para a prostituta.

Minha conclusão destas referências bíblicas é que existem poucas figuras femininas de Deus nas Escrituras, mas elas não sugerem nenhuma ambivalência sexual na natureza divina. Elas não justificam, nenhuma necessidade, do uso de “Mãe” ou pronomes femininos para Deus. Nem justifica a tentativa de reprimir o uso majoritário de figuras e pronomes masculinos em referência a Deus.

A Importância Teológica da Figura Masculina

Mas a feminista poderia replicar aqui que desde que Deus não é literalmente macho, e a Escritura contêm algumas figuras femininas assim como figuras masculinas, seria aceitável falar livremente de Deus tanto em termos masculinos como femininos. Johnson pergunta “se não significa que Deus é macho quando uma figura masculina é usada, o por que da objeção, quando figuras femininas são apresentadas?” [17] 

Esta réplica poderia ser irrefutável se a predominância de figuras masculinas na Bíblia fossem teologicamente insignificantes. As feministas argumentam enfaticamente que a Escritura coloca pouca importância sobre a masculinidade de Jesus, ou sobre a importância de falar de Deus em termos masculinos. A figura masculina, elas argumentam, é aceitável na concepção patriarcal da cultura antiga, mas ela não faz diferença na mensagem essencial da Escritura.

Todavia, existe um número de razões para pensarmos que a predominância de usos de figuras masculinas tem alguma importância teológica:

1. Como temos visto, os nomes de Deus são de grande importância teológica. Eles revelam-no. Não existe razão para assumir que as proporções das figuras masculinas e femininas não são parte desta revelação da sua natureza. Embora Johnson e outras insistem, entendo que uma mudança na balança da figura sexual não é teologicamente neutra; isto mudaria o nosso conceito de Deus.[18] Por acaso temos o direito de mudar nosso conceito bíblico de Deus?

2. Para ressaltar o último ponto, é também importante reconhecer que na Escritura, Deus nomeia a si mesmo. Seus nomes, atributos e figuras não são o resultado da especulação ou imaginação humana, mas da revelação.[19] Ele não nos autorizou de nenhuma mudança de equilíbrio das figuras de macho e fêmea, e não podemos tencionar fazer tais mudanças baseados em nossa própria autoridade.[20] 

3. Deidades femininas eram bem conhecidas pelos escritores bíblicos. Ashtoreth (Jz 10:6; 1 Sm 7:4; 12:10) foi adorada pelos cananitas como esposa de Baal. A junção de deidades masculinas e femininas foi um aspecto importante da adoração de fertilidade pagã. Assim, ao escrever sobre Yahweh, os escritores do Antigo Testamento não escolheram uma linguagem masculina irrefletidamente, inconscientes de outra alternativa. Eles não foram influenciados por um unânime consenso cultural. Antes, eles claramente rejeitaram qualquer adoração de uma deusa ou de uma junção divina.

4. Como dissemos no capítulo 15, a criação é um ato divino que produz uma realidade externa do próprio Deus, uma “outra criatura”. O mundo não é divino, nem uma emanação de sua essência. Deus não criou “formando ‘consigo’ para o não-divino.” [21] Como uma metáfora para esta concepção bíblica da criação, a função masculina na procriação é mais adequado do que o feminino.

5. Na Escritura o principal nome de Deus é Senhor, que indica sua liderança nas alianças, entre si e as suas criaturas. Na Escritura, a relação na comunidade da aliança é tipicamente uma prerrogativa masculina. Reis, sacerdotes e profetas são sempre homens. Autoridade na igreja concedida aos anciãos (1 Co 14:35; 1 Tm 2:11-15).[22] O marido é a cabeça da aliança formada pelo casamento.[23] Um desvio para a figura feminina de Deus poderia certamente diluir a sólida ênfase sobre a autoridade pactual que é centralizada na doutrina de Deus. Esta não seria a única razão, pois, como tenho indicado no capítulo 2, algumas teólogas feministas, incluindo Johnson, atualmente se opõe a idéia do senhorio de Deus.

6. Como tenho falado neste capítulo, Deus se relaciona com o seu povo, como um marido com a sua esposa. Certamente esta profunda figura pode ser obscurecida, se considerarmos Deus como feminina. Isto é importante, não apenas para a doutrina de Deus, mas também para a doutrina do homem (antropologia teológica). Ela é importante, tanto para homens como mulheres cristãs, saber e meditar profundamente sobre este fato, que na relação com Deus como sendo fêmea – esposas são chamadas para submeter-se em amor aos seus graciosos maridos. É a igreja, e não Deus, que é feminina em sua natureza espiritual.[24] 

7. Uma freqüente sugestão de compromisso é que eliminamos toda sexualidade na distinção lingüística, entre macho e fêmea, ao nos referirmos a Deus. Em vez de chamar Deus de nosso Pai, poderíamos falar de nosso Parente ou Criador.[25] Uma linguagem unissex, todavia, sugere inevitavelmente que Deus é impessoal, o que é completamente inaceitável de um ponto de vista bíblico.[26] Certamente ao eliminar Pai em favor de termos mais abstratos eliminaria algo muito precioso aos Cristãos.[27]  

8. O uso majoritário da figura masculina para Deus resulta numa opressão da mulher? [28] Existe uma precisa divisão entre feministas e não-feministas cristãs como aquelas que fazem parte da opressão. No Cristianismo tradicional, não é um rebaixamento para a mulher ser submissa ao seu marido e exclui-la dos ofícios de governo na igreja. Muitas vezes, na concepção de escritoras feministas, é um rebaixamento para alguém ser submisso a autoridade de outro, se são iguais diante de Deus. Mas, submissão à autoridade de outros é algo inevitável na vida humana, tanto para os homens quanto para as mulheres; esta é uma das mais difíceis lições que o ser humano caído tem que aprender. Muito mais pode ser declarado sobre este assunto. Certamente homens têm abusado das mulheres no decorrer da história. E certamente tanto homens, como mulheres têm, às vezes, justificado este abuso como sendo uma distorção da liderança masculina. Mas, dificilmente, argumentar que um melhor entendimento de Deus, ou que um benéfico relacionamento entre os sexos, poderia ser produzido por uma substituição da figura feminina ou impessoal de Deus. 

Minha conclusão é que podemos seguir o modelo bíblico e uso predominante da figura masculina para Deus, com uma ocasional figura feminina. Posso não desaprovar que um pregador ocasionalmente diga que Deus é a “mãe” da igreja. Como em Deuteronômio 32:18, podemos observar que apesar de nosso nascimento físico vir de duas fontes, nosso nascimento espiritual procede apenas de uma: Yahweh, que é tanto nossa mãe como nosso pai. Nem mesmo, é errado o uso do parto, a ama, uma ave fêmea, e outras figuras extra-bíblicas femininas como figuras de Deus e ilustrações para as suas ações. Como observamos, penso que muito mais poderia ser aproveitado da submissão das pessoas da Trindade de uma com a outra, como um modelo da piedosa submissão da esposa para com o seu marido. Mas não existe uma justificação bíblica para se usar predominantemente a figura feminina para Deus, ou representa-lo com pronomes femininos.

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Notas:
[1] Paul K. Jewett, God, Creation, and Revelation (Grand Rapids: Eerdmans, 1991).
[2] Ibid., xvi.
[3] Ibid., 336-347.
[4] Elizabeth Johnson, She Who Is (New York: Crossroad Publishing, 1996). Estarei interagindo com alguns de seus argumentos nesta seção.
[5] Ibid. 54.
[6] Veja minha discussão da incorporealidade no capítulo 25.
[7] Johnson, She Who Is, 230-233. Ela apresenta o seu panenteísmo próximo do fim do livro. Seu principal argumento não depende deste conceito.
[8] O verbo hebraico raham (“tenho compaixão) é derivado do substantivo rehem “útero”. Às vezes tem se pensado que trata-se de uma alusão ao “útero” de Deus em Sl 103:13 e Jr 31:20. Alguns argumentos foram desenvolvidos considerando o termo do Novo Testamento splanchnizomai. Todavia, este termo e suas formas correlatas nunca se referem claramente a um útero no Novo Testamento. Este argumento força a etimologia. 
[9] Johnson, She Who Is, 53. Cf. pp. 181-185, 256-259.
[10] Ibid., 55-56. Johnson freqüentemente recorre a religiões não-cristãs para comentar a sua teologia do gênero. Esta prática levanta legitimas dúvidas acerca da integridade bíblica de sua teologia.
[11] Observe a sua crítica dos estereótipos, ibid., 47-54.
[12] Há apenas uma juíza, Débora (Jz 4-5).
[13] Obviamente, não poderíamos tirar tal conclusão de Is 46:3. Passagens que mencionam a concepção e nascimento de Israel, não sugerem que Deus concebeu e formou a nação. De fato, ele o fez, num sentido, e a passagem pode fazer uma recordação de Dt 32:18. Todavia, Is 46:3 não contribui para fortalecer a tese teológica do Deus feminino. O mesmo poderia ser declarado de Is 49:15, que muitas vezes é mencionado na literatura feminista. Nesta passagem, Deus coloca o seu amor pelo seu povo acima e além do amor de uma mãe pelo seu bebê. Há uma semelhança entre Deus e a mãe, mas a ênfase de contraste é mais predominante. Deus reivindica, ser não a mãe, mas ser maior que qualquer mãe. E, em Is 66, é Sião quem está em trabalho de parto (vs. 8), e quem amamentará (vs. 11-12). A única função maternal de Deus nesta passagem é confortar (vs. 13). 
[14] Desde que exemplos podem, às vezes, ajudar a induzir-nos ao hábito de demasiada confiança na forma gramatical, eu poderia ilustrar que o termo latino uterus (útero, em português) é masculino.
[15] Veja Johnson, She Who Is, 50-54, para algumas referências. Johnson prefere não limitar a feminilidade de Deus a pessoa do Espírito, apesar de discutir extensivamente acerca do Espírito (pp. 124-149).
[16] Ibid., 150-169.
[17] Ibid., 34.
[18] Elas realmente não querem crer, ainda que às vezes reivindiquem, que a figura sexual a respeito de Deus é insignificante.
[19] A concepção de Johnson é diferente. Em seu entendimento, Deus é um grande mistério, e não há linguagem apropriada para descreve-lo (veja She Who Is, 6-7, 44-45, 104-112). Ele tem “muitos nomes” (117-120), de modo que, poderíamos livremente nomeá-lo com designações masculinas e femininas. Aqui percebo um conceito não-bíblico da transcendência  ao qual me opus nos capítulos 7 e 11. Deus revelou-se em linguagem que é apropriada à sua natureza.
[20] Não estou sugerindo que precisamos reproduzir a ênfase da Escritura com precisão matemática. Teologia e pregação sempre mudam a ênfase da Escritura, pois elas aplicam a verdade bíblica ao povo, antes do que simplesmente ler a Bíblia. Mas pode não ser boa a aplicação do discursar sobre Deus como sendo “ela”, ou levantar o nível de figuras femininas por assim dizer, 80 por cento de nossas referências a Deus. 
[21] Johnson, She Who Is, 234. Ela cita William Hill, The Three-Personal God (Whashington: Catholic University of America Press, 1982), 76, n.53. Este é um modelo panenteístico de Deus se relacionar com o mundo.
[22] Não posso, de fato, começar a entrar aqui na controvérsia envolvida neste ponto. Creio que há lugar para o debate, e em quais circunstâncias, uma mulher pode “falar na igreja”, ou se ela pode ser diaconisa. Mas isto parece-me óbvio daquelas passagens que as mulheres não são admitidas naqueles ofícios que fazem com que tenham decisões finais sobre os negócios da igreja. Veja Susan Foh, Women and the Word of God (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1979); James B. Hurley, Man and Woman in Biblical Perspective (Grand Rapids: Zondervan, 1981); “Report of the Committee on Women in Office”, in Minutes of the Fifty-fifth General Assembly (Philidelphia: Orthodox Presbyterian Church, 1988), 310-373; John Piper and Wayne Grudem, eds., Recovering Manhood and Womanhood (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 1991); Mil Am Yi, Women and the Church: A Biblical Perspective (Columbus, Ga.: Brentwood Christian Press, 1990), para idôneos debates destes assuntos.  
[23] Casamento é uma aliança na Escritura (Ez 16:8, 59; Ml 2:14), uma forte analogia com a aliança entre Deus e o homem. No casamento, o marido é a cabeça da esposa (1 Co 11:3; Ef 5:23). Feministas às vezes argumentam que “cabeça” significa “fonte” e não possui uma conotação de autoridade. Mas veja Wayne Grudem argumentando solidamente ao contrário “The Meaning of Kephale” in Recovering biblical Manhood and Womanhood, ed. Piper and Grudem, 425-468. Em muitos casos, a Escritura atribui a autoridade do marido sobre a esposa em várias passagens, mesmo onde a palavra cabeça não é usada. Veja Nm 30:6-16; Ef 5:22; Cl 3:18; 1 Tm 3:12-13; Tt 2:5.
[24] Agradeço a Jim Jordan (em correspondência) por esta observação.
[25] Alguns têm sugerido para nos referirmos as pessoas da Trindade como Criador, Redentor e Santificador, ou conforme a preferência. Mas esta proposta reduz a Trindade ontológica (as eternas pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito) para a Trindade econômica (as ações destas pessoas em, e pelo mundo). Também ignora o circumincessio, o envolvimento de cada pessoa em todo ato da outra.
[26] Mais óbvio é a impessoalidade que poderia resultar se substituíssemos o neutro no lugar de pronomes masculinos. Mas algo precisa ser feito com os pronomes se o nosso propósito é eliminar as distinções sexuais na linguagem usada para Deus. Ou podemos tentar a impossibilidade desajeitada de continuar a evitar todos os pronomes?
[27] Um autor (desculpe-me por não lembrar quem) comenta que não podemos, depois de tudo, discursar aos nossos próprios pais como sendo “Parentes”. De fato, as conotações de tal discurso poderiam ser totalmente inapropriadas para o relacionamento.
[28] Johnson disse “engenhosamente, ou não, ela mina a dignidade humana da mulher como igualmente criada a imagem de Deus” (She Who Is, 5). Observe os seus exemplos na pp. 23-28, 34-38. Ela procura argumentar que o uso da linguagem feminina para Deus, de fato, é mais exata do que a alternativa, pois ela conduz a verdade bíblica que as mulheres não devem ser oprimidas. De fato, esta verdade é importante, mas ela poderia ser apresentada por textos bíblicos que possuem maior relevância para este assunto, mas, não por uma interpretação distorcida da figura bíblica de Deus.

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Fonte: John M. Frame, The Doctrine of God (Phillipsburg, P&R Publishing, 2002), pp. 378-386.
Tradução: Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki
Divulgação: Bereianos
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João 1:9 e a doutrina da graça preveniente

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Por Francisco Alison Silva Aquino


Calvinistas e arminianos concordam que o ser humano é totalmente depravado. Talvez seja este um dos principais pontos de convergência entre TULIP[1] e FACTS[2], os sistemas soteriológicos calvinista e arminiano respectivamente. Isso significa que todas as faculdades do homem foram afetadas pelo pecado, inclusive a vontade, de modo que, à parte da graça de Deus ninguém pode ser salvo. Neste sentido, tanto calvinistas quanto arminianos são contra a ideia pelagiana de que o homem não foi afetado pela queda de Adão e que, por isso, ele pode se achegar a Deus por sua livre vontade.

O ponto de divergência entre calvinistas e arminianos é como o homem pode ser salvo uma vez que ele está morto em delitos e pecados (Ef 2.1). O calvinista dirá que é Deus quem opera eficazmente na vida do homem para que ele se converta, de modo que uma resposta contrária não é possível. Isto é, Deus age sozinho por intermédio do Espírito Santo para que o homem seja convencido do seu pecado e creia. Isso é o que chamamos de monergismo. No que diz respeito a operação da graça, dizemos que ela é irresistível. Para o arminiano, Deus concede uma graça que capacita o homem a crer. Se Deus não tomasse a iniciativa ninguém seria salvo. Contudo, essa graça não é eficaz no sentido de que ela não torna a resposta do homem certa. Ou seja, Deus concede sua graça a fim de tornar possível que o homem creia, mas não o faz crer, pois a fé é resultado da cooperação de Deus e do homem (sinergismo)[3]. É nesse sentido que arminianos afirmam que Deus não crê pelo homem. Deste modo, a graça é resistível (do ponto de vista arminiano).

Nas palavras do próprio Armínio:

“Um homem rico dá esmolas a um pobre e faminto mendigo, com as quais ele poderá ser capaz de manter a si mesmo e à sua família. Isso deixa de ser um presente puro porque o mendigo estendeu sua mão para recebê-la? Pode-se dizer com propriedade que a “esmola dependia parcialmente da liberdade do doador e parcialmente da liberdade do recebedor”, embora o último poderia não ter possuído a esmola a não ser que estendesse a sua mão? Pode se dizer corretamente que porque o mendigo está sempre preparado para receber, “ele pode receber ou não a esmola, como lhe agradar”? Se essas afirmações sobre o mendigo que recebe a esmola não puderem verdadeiramente ser feitas, muito menos podem ser feitas com relação ao dom da fé, cujo recebimento requer muito mais atos da graça divina”[4]

Eu não irei comentar sobre esta citação, pois a minha intenção foi apenas deixar claro que até para o arminianismo a fé é um dom de Deus. No entanto, nos voltemos agora para o ponto de divergência entre calvinismo e arminianismo: como o homem chega à fé?

Segundo o arminianismo, a fé só é possível porque Deus concede a sua graça preveniente. Como o próprio nome sugere, a graça preveniente é uma graça que “vem antes”, que antecede a conversão. Há duas visões dentro do sistema arminiano a respeito da extensão da graça preveniente. Para Armínio, a graça preveniente é concedida através da pregação do evangelho, nesse sentido, nem todas as pessoas se beneficiarão dela, pois algumas pessoas nunca ouviram o evangelho. Outra visão foi proposta por John Wesley. Ele afirmava que existe uma medida de graça preveniente disponível para todo homem que vem ao mundo. Wesley fez uma conexão da doutrina da graça preveniente à doutrina da providência de Deus. Nesse sentido, nenhum ser humano estaria alheio à alguma medida desta graça. Em outras palavras, a graça preveniente coloca o homem numa posição na qual ele pode escolher entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, aceitar a Cristo ou rejeitá-lo.

Seja como for, o arminianismo afirma a necessidade de uma “graça capacitadora” para que o homem possa crer, a saber, a graça preveniente. Na tentativa de sustentar este ensino, arminianos utilizam alguns textos (Jo 1.9; Jo 6.44; Jo 12.32). Dentre estes, talvez o principal versículo utilizado na tentativa de fundamentar esta ideia é Jo 1.9. É este verso que iremos analisar.

O texto diz: “Pois a verdadeira luz, que ilumina a todo homem, estava chegando ao mundo.” Arminianos veem aqui uma evidência para a doutrina da graça preveniente. Steve Witzki, por exemplo, afirma que Jo 1.9 “ensina que Cristo trouxe luz suficiente ao mundo para graciosamente iluminar cada pessoa. Esta iluminação não garante a salvação de ninguém, mas torna a salvação possível.” [5] Neste sentido, afirmar que Cristo “ilumina” a todos significa que eles recebem uma forma de “graça comum” que, de alguma forma, restaura o arbítrio perdido em Adão e os coloca em um estado no qual o homem pode agora aceitar ou rejeitar a Cristo.

O problema é que Jo 1.9 de forma alguma ensina isso. Não há nenhuma indicação de que “a luz” ou a graça que provém desta luz coloca o homem em um estado “neutro” no qual ele agora pode dizer sim ou não para Cristo. Alguns arminianos usam a seguinte ilustração: a ação da graça preveniente é como o ato de ligar uma lanterna num quarto escuro. A luz da lanterna não modifica nenhuma propriedade físico-química do quarto, apenas torna visível o que não era visível.

No entanto, esta ilustração não funciona. Na verdade, tal analogia destrói a ideia ensinada pelo arminianismo a respeito da graça preveniente. Se esta luz não traz nenhuma modificação ao ser lançada sobre alguém, mas apenas torna visível o que antes não era visível, a conclusão a qual chegamos soa bastante calvinista. Isto é, a ilustração demonstra que a luz, em vez de trazer alguma capacitação para o homem, revela aquilo que ele é. É neste sentido que a luz ilumina a todo homem.

A propósito, o contexto de João 1.9-13 sugere exatamente isso. A palavra phōtizei (ilumina) se refere não a uma iluminação interior que capacita (ou possibilita) alguém a fazer algo (crer, neste caso), mas a exposição que vem quando a luz é lançada sobre algo. Comentando o uso de phōtizei em Jo 1.9, D.A. Carson afirma: 

“A iluminação interior agora não está em vista (seja da revelação geral seja da luz especial que acompanha a salvação). Antes, o que está em jogo é a revelação objetiva, a ‘luz’, que vem ao mundo com a encarnação da Palavra, a invasão da ‘verdadeira luz’. Ela brilha sobre todo homem e divide a espécie: aqueles que odeiam a luz reagem como o mundo faz (1.10): eles fogem para que suas obras não sejam expostas por essa luz (3.19-21). Mas alguns recebem essa revelação (1.12,13), e assim fazendo testemunham que suas obras são feitas por meio de Deus (3.21). No Evangelho de João, repetidamente acontece que a luz brilha sobre todos e força uma distinção (e.g. 3.19-21; 8.12; 9.39-41). Essa luz “brilha sobre todo homem” (quer ele veja isso quer não) (Barrett, p. 161).”[6]

Assim sendo, a luz expõe e revela o estado moral e espiritual do coração humano. João 1.9 não está afirmando alguma graça que capacita o homem a crer, antes o objetivo da vinda de Cristo, a luz, está relacionada à separação daqueles que o odeiam daqueles que recebem de bom grado a revelação. Em resumo, a luz revela o estado em que as pessoas se encontram no seu relacionamento com Deus. 

Podemos afirmar que a doutrina da graça preveniente é uma doutrina muito atraente, pois ela consegue em alguma medida resolver o problema da depravação total do homem a qual o impede de se achegar a Deus. Por outro lado, esta doutrina carece de fundamento bíblico, o fator principal na construção de um sistema teológico. A conclusão que podemos tirar é que a doutrina da graça preveniente é fruto da tentativa de resolver determinados problemas teológicos os quais carecem de base bíblica.

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Notas:
[1] Acróstico do sistema soteriológico calvinista: Total depravity (Depravação total), Unconditional election (Eleição incondicional), Limited atonement (Expiação limitada), Irresistible Grace (Graça irresistível) e Perseverance of the saints (Perseverança dos santos).
[2] Acróstico do sistema soteriológico arminiano: Freed to believe by God’s grace (Libertos para crer pela graça de Deus), Atonement for all (Expiação para todos), Conditional election (Eleição condicional), Total depravity (Depravação total) e Security in Christ (Segurança em Cristo). Para uma melhor compreensão dos cinco pontos do arminianianismo veja:
[3] Perceba que eu não estou afirmando que no arminianismo a fé é algo que parte do homem, uma vez que este sistema nega isso. Arminianos concordam com calvinistas ao afirmar que a fé é um dom de Deus (2.8). No entanto, Deus não torna o resultado pretendido inevitável, pois o homem ainda precisa receber esse dom do alto. Além disso, como eu deixei bem claro, o arminianismo não afirma que a salvação em si é uma obra de Deus e do homem, mas a fé, o que não é exatamente a mesma coisa.
[4] The apology or defense of James Arminius, D.D., against Thirty-one Theological Articles, in Arminio, The works of James Arminius: The London edition, 2:52.
[5] http://www.fwponline.cc/v18n2/v18n2witzki.html
[6] D. A. Carson, comentário de João, p.124.

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Fonte: Pelo Calvinismo
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A verdade, ou verdades?

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Por Rev. Ewerton B. Tokashiki


A Escritura Sagrada exige que quando possível tenhamos paz com todos os homens, mas nunca em detrimento da verdade (Rm 12:18). No comum e corrente discurso de tolerância, inclusive no meio evangélico, repreender é sinônimo de desamor e arrogância. Não seja ingênuo, isto é resultado da mentalidade cultural predominante! É engraçado como todos reivindicam a verdade dos anunciantes, professores e políticos, e esta independentemente do seu grupo teórico,[1] exige-se que todos sejam correspondentes aos fatos. A inexatidão ou incoerência é um pecado imperdoável quando se afeta o bolso!

Mesmo entre relativistas teóricos, que querem fazer areia da verdade, existem momentos de contradições práticas. Imagine como exemplo o Cristianismo, se ele é verdadeiro, então, todas as demais religiões que o contradiz são necessariamente falsas, e neste caso não é possível existir um meio termo, pois isto seria sincretismo, e conseqüentemente, a negação da fé cristã. Se o relativismo for aplicado ao discernimento da verdade, aceitando a pacífica convivência de inverdades e contradições como sendo apenas meras interpretações diferentes da verdade, então, estaremos negando Àquele que é a fonte da verdade e lançando o fundamento do caos em nossas mentes! Dentro da mesma linha de pensamento, se por hora, deixarmos a epistemologia e, nos voltarmos para a ética, teremos um problema prático ainda maior, porque contradições não são apenas equívocos, ou confusão semântica, de fato são mentiras e dependendo do caso, é puro dolo. Olhe que alguém pode ter que indenizar, ou até ser preso! Por implicação, podemos concluir que, uma falsa idéia sobre a verdade oferece um conceito falso da vida. Por isso Gordon H. Clark reconhece que

não existe uma antítese entre verdade intelectual e moralidade como superficialmente algumas mentes imaginam. Uma mentira, que é a negação da verdade, é imoral. Ela é pecado por pensar incorretamente. (...) Não pode existir tal coisa como moralidade, a menos que existam verdadeiros princípios morais. Moralidade depende da verdade.[2]

Numa reação imprópria os pós-modernistas acusam de orgulho a convicção de uma verdade absoluta. Posturas firmes, inteligentemente bem articuladas, evidenciadas pela pesquisa e de polida argumentação, sofrem a acusação de que a segurança conceitual é mero pedantismo sectário. Que absurdo! O pluralismo acusa a convicção de soberba. É um erro usar a palavra arrogância para se referir à convicção, e a humildade significando dúvida. Perceba que está na moda ser humilde, isto é, ter incertezas até do óbvio. Repete-se o que G.K. Chesterton escreveu há um século. Ele declara que

o que sofremos hoje é de humildade no lugar errado. A modéstia se afastou do setor da ambição e se estabeleceu na área das convicções, o que nunca deveria ter acontecido. Um homem devia mostrar-se duvidoso a respeito de si mesmo, mas não acerca da verdade; isso foi completamente invertido. (...) Existe uma humildade característica de nossa época; acontece, porém, que ela é uma humildade mais venenosa do que as mais severas prostrações dos ascéticos... A velha humildade fazia que o homem duvidasse de seus esforços, e isto, por sua vez, o levaria a trabalhar com mais empenho. Mas a nova humildade torna o homem duvidoso a respeito de seus alvos; e isto o faz parar de trabalhar completamente... Estamos a caminho de produzir uma raça de homens tão mentalmente modestos que serão incapazes de acreditar na tabuada de multiplicação.[3]

É bom esclarecer que quando ataco o pós-modernismo não estou, em contrapartida, aceitando ingenuamente o ultrapassado modernismo. No desdobramento da história, o período anterior ao que vivemos, não foi melhor para o Cristianismo do que o presente. Numa leitura esclarecedora Os Guiness observa que “onde o modernismo era um manifesto de autoconfiança e auto-bajulação humana, o pós-modernismo é uma confissão de modéstia, se não de desespero. Não há verdade nenhuma; somente verdades. Não há nenhuma grande razão; somente razões.”[4] O conhecimento e o discernimento da verdade era considerado como possível no modernismo, e é este ponto de concordância que acentuo.

Numa conferência no Brasil, John MacArthur Jr. declarou que “a heresia vem montada nos lombos da tolerância”![5] De fato, os ventos frios do engano não vêm como tormentas, mas como suaves brisas entre as frestas da janela dos desatentos livres pensadores. O abandono da Escritura, como única fonte e regra de fé e prática, abre para as mais extravagantes possibilidades de desvios.[6] Para ilustrar esta afirmação basta apenas que recordemos do movimento teológico liberal no século XIX. Não esqueçamos que a preocupação destes teólogos era abandonar o Cristianismo clássico e substituí-lo, por um novo sistema de crenças, transformado e adaptado para uma nova realidade, relevante aos reclames de uma sociedade que não queria submeter-se ao senhorio de Cristo, mas, ansiava os benefícios da religião cristã e da filosofia naturalista. Entretanto, ao adulterar o evangelho, o liberalismo teológico perdeu a sua essência cristã, despojando-se dos seus fundamentos. Repudiando a teologia liberal, o neo-ortodoxo H. Richard Niebuhr descreveu a sua essência, afirmando que ela apregoa “um Deus sem ira que levou homens sem pecado a um reino sem julgamento pelo ministério de um Cristo sem cruz.”[7] O discurso liberal de tolerância acompanhava o esforço de adaptar a antiga fé cristã. Apesar de toda linguagem e terminologia da teologia clássica, tanto o liberalismo como a neo-ortodoxia, estão vazios da semântica divina, bem como dos seus resultados sobrenaturais.

O Senhor Jesus é o nosso exemplo de humildade e de vigorosa fidelidade à verdade (Jo 13:14-15). Antecipadamente o profeta Isaías declarou que em Cristo “dolo algum se achou em sua boca” (Is 53:9). O nosso redentor, que é o revelador da verdade, disse que: “se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8:31-32, NVI; veja também Mt 11:27; Hb 1:1-3). Em momento algum, o Filho de Deus foi tolerante com os falsos mestres de seus dias (Mt 23:1-36), nem os apóstolos adotaram esta postura com a mentira e o engano. Mas, infelizmente o evangelicalismo sofre duma crise de infidelidade. Como resultado da influência do pós-modernismo no meio das igrejas evangélicas James M. Boice e Philp G. Ryken constatam que

o que uma vez foi falado das igrejas liberais precisa ser dito das igrejas evangélicas: elas buscam a sabedoria do mundo, crêem na teologia do mundo, seguem a agenda do mundo, e adotam os métodos do mundo. De acordo com os padrões da sabedoria mundana, a Bíblia torna-se incapaz de alimentar as exigências da vida nestes tempos pós-modernos. Por si mesma, a Palavra de Deus seria insuficiente de alcançar pessoas para Cristo, promover crescimento espiritual, prover um guia prático, ou transformar a sociedade. Deste modo, igrejas acrescentam ao simples ensino da Escritura algum tipo de entretenimento, grupo de terapia, ativismo político, sinais e maravilhas - ou, qualquer promessa apelando aos consumidores religiosos. De acordo com a teologia do mundo, pecado é meramente uma disfunção, e salvação significa desfrutar de uma melhor auto-estima. Quando esta teologia adentra a igreja, ela coloca dificuldades em doutrinas essenciais como a propiciação da ira de Deus, substituindo-a com técnicas e práticas de auto-ajuda. A agenda do mundo é a felicidade pessoal, assim, o evangelho é apresentado como um plano para a realização pessoal, em vez de ser a caminhada de um comprometido discipulado. Para terminar, vemos que os métodos do mundo nesta agenda egocêntrica são necessariamente pragmáticos, sendo que as igrejas evangélicas estão se esforçando a todo custo em refletir o modo como elas operam. Este mundanismo tem produzido o ‘novo pragmatismo’ evangélico.[8]

Esta é uma briga que terá continuidade. Entretanto, apenas precisamos permanecer firmes na verdade, ou seja, persistentemente fiéis à Escritura Sagrada (Gl 1:6-9; 2 Ts 2:7-12).

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Notas:
[1] Sugiro a leitura de R.C. Sproul, Defendendo sua Fé (Rio de Janeiro, CPAD, 2007), pp. 31-35. Sem entrarmos em discussão, confesso que adoto a teoria da coerência. Assim, a lei da não-contradição, que é um elemento essencial para esta teoria, diz que não é possível coexistir duas afirmações contrárias no mesmo sentido, ao mesmo tempo, e ainda assim, serem igualmente verdadeiras.
[2] Gordon H. Clark, The Johannine Logos (Unicoi, The Trinity Foundation, 2004), p. 68.
[3] G.K. Chesterton, Orthodoxy (Garden City, Doubleday, 1957), pp. 31-32.
[4] Os Guinnes, Fit Bodies, Fat Minds (London, Hodder & Stoughton, 1994), p. 105.
[5] Peço perdão aos leitores quanto à fonte desta citação, pois ela se encontra numa palestra realizada por Dr. John MacArthur Jr. num dos congressos da Conferência Fiel, que pode ser encontrada no site da Editora Fiel.
[6] Este espírito retorna numa nova roupagem. John MacArthur Jr. observou que “aparentemente o maior medo que o movimento evangélico tem hoje em dia é de ser visto como posicionado em desarmonia com o mundo”, in: Princípios para uma cosmovisão (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), p. 8.
[7] H. Richard Niebuhr, Kingdom of God in America (New York, Harper and Row, 1937), p. 103.
[8] James M. Boice e Philp G. Ryken, The Doctrines of Grace (Wheton, Crossway Books, 2006), pp. 20-21.

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Fonte: E a Bíblia com isso?
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Erros de interpretação da Bíblia - liberdade no Espírito

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Neste vídeo, o Pastor Marcos Granconato mostra o erro de interpretação em 2 Coríntios 3:17, onde muitos interpretam como uma suposta liberdade concebida pelo Espírito para as mais diversas práticas místicas em um culto. Assista e tire suas conclusões:


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Fonte: Roberto de Carvalho Forte, via Youtube
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A glória de Cristo na Sua união com a Igreja

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Por John Owen (1616-1683)


A nossa união com Cristo é tão real que, na visão de Deus, é como se nós tivéssemos sofrido o que Cristo sofreu, sofrido para redimir a Igreja. Ele agiu gloriosamente quando levou "... em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" e "... padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus" (I Pedro 2:24; 3:18). O propósito do nosso santo e justo Deus foi o de salvar a Igreja, mas o pecado dos Seus remidos não podia ficar impune. Foi necessário, então, que a punição para aquele pecado fosse transferida daqueles que a mereciam, mas não podiam suportá-la para Aquele que não a merecia, porém poderia suportá-la. Este é o fundamento da fé cristã e toda a revelação divina contida nas Escrituras. Vamos examinar ainda mais um pouco essa verdade e considerar como ela está cheia da glória de Cristo.

1. Não é contrário à justiça divina que alguns sofram punição pelos pecados de outros. Confirmarei esta afirmação, por hora, apenas ao dizer que Deus, que não faz nada errado, sempre agiu assim. Quando Davi pecou, setenta mil homens foram destruídos por um anjo, e então Davi disse ao Senhor: "Eis que eu sou o que pequei, e eu o que iniquamente obrei; porém estas ovelhas o que fizeram? Sejam pois a tua mão contra mim e contra a casa de meu pai" (2 Samuel 24:17). Quando o povo de Judá foi levado cativo, Deus o puniu pelos pecados de seus antepassados, especialmente aqueles pecados cometidos nos dias de Manassés (2 Reis 23:26-27). E, finalmente, ao destruir a nação judaica, Deus a puniu pelo derramamento do sangue de todos os profetas desde o começo do mundo (Lucas 11:50-51).

2. Há sempre uma ligação especial entre aqueles que pecam e aqueles que são punidos. Por exemplo, há uma relação entre pais e filhos, entre reis e seus súditos. Há também a ideia de compartilhar a punição. Foi dito aos filhos de Israel: "E vossos filhos (como errantes) pastorearão neste deserto quarenta anos, e levarão sobre si as vossas infidelidades, até que os vossos cadáveres se consumam neste deserto" (Números 14:33). A punição devido aos seus pecados foi transferida para os filhos, mas parte da sua própria punição foi exatamente o conhecimento do que haveria de acontecer aos seus filhos.

3. Há uma união maior e um relacionamento mais íntimo entre Cristo e a Igreja do que existem em qualquer outro vínculo no mundo. Isso pode ser visto de três formas:

a. Há um elo natural de ligação entre Cristo e Sua Igreja. Deus fez todas as pessoas de um sangue (Atos 17:26). Cada um é irmão e vizinho do outro (Lucas 10:36). Essa mesma relação existe entre Cristo e a Igreja. "E visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo" (Hebreus 2:14). Há, entretanto, em dois aspectos, uma diferença entre a união de Cristo com a Igreja e a irmandade comum entre os homens. Primeiro, Ele tomou a nossa natureza sobre Si por um ato voluntário de Sua vontade, mas nós não tivemos escolha quanto ao nosso relacionamento um com o outro pelo nascimento. Segundo, Ele entrou nessa união por apenas um propósito, ou seja, que em nossa natureza Ele pudesse redimir a Igreja "... para que, pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão" (Hebreus 2:14- 15).

b. Há uma união moral e espiritual entre Cristo e a Igreja. Isto é como o relacionamento existente entre a cabeça e os membros do corpo, ou entre a vinha e seus ramos (Efésios 1:22-23; João 15:1-2). É também como o elo de ligação entre maridos e esposas. "Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela" (Efésios 5:25). Como Ele era o cabeça e marido da Igreja (que só poderia ser salva e tornada santa pelo Seu sangue e Seus sofrimentos), foi apropriado, então, que Ele assim sofresse, e era correto que os benefícios dos Seus sofrimentos fossem legados àqueles pelos quais Ele sofreu.

Uma objeção pode ser levantada em razão de que “... Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores", ou seja, não havia união entre Ele e a Igreja naquele tempo (Romanos 5:8). Diz-se que somos unidos a Cristo pela fé. Portanto, antes da nossa regeneração não estávamos unidos a Ele. Como, então, Ele poderia justamente sofrer a nosso favor? Respondo que era o propósito de Deus, antes dos sofrimentos de Cristo, que a Igreja (composta dos eleitos) pudesse ser a Sua esposa, para que Ele pudesse amá-la e sofrer por ela. Jacó amou a Raquel antes que ela se tornasse a sua esposa. Ele "... serviu por uma mulher, e por uma mulher guardou o gado" (Oséias 12:12). Raquel é chamada a esposa de Jacó por causa do seu amor para com ela e porque estava destinada a ser sua noiva antes que a tivesse desposado. Assim Deus, o Pai, deu todos os eleitos para Cristo, confiando-os a Ele, para serem salvos e santificados. Cristo mesmo diz ao Pai: "Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste: eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra. Eu rogo por eles: não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus" (João 17:6,9).

c. A terceira maneira pela qual Cristo está unido à Sua Igreja é mediante a nova aliança da qual Ele é a garantia e o penhor. "De tanto melhor concerto Jesus foi feito fiador" (Hebreus 7:22). Aqui está o âmago do mistério da forma sábia de Deus salvar a Igreja. A transferência dos pecados dos pecadores para Cristo, que é de toda maneira inocente, puro e reto em Si mesmo, é a vida e a alma de todo o ensinamento das Escrituras, O que Cristo fez por nós O torna glorioso para nós!

Vamos considerar a justiça de Deus ao perdoar os nossos pecados. Todos os eleitos de Deus são pecadores. Como pode Deus ser justo, então, se Ele os deixa sem punição, vendo que não poupou os anjos que pecaram, nem Adão quando ele pecou no princípio? A resposta está na união entre Cristo e a Igreja. Desde que Cristo representa a Igreja na presença de Deus, Deus justamente O pune por todos os pecados dela para que todos os seus membros estejam libertos e perdoados graciosamente. (Romanos 3:14-26). Na cruz, a santidade e justiça de Deus encontraram-se com a Sua graça e perdão. Esta é a glória que dá prazer aos corações e satisfaz as almas de todos os que creem. Quão maravilhoso é para eles verem Deus Se regozijando na Sua justiça e, ao mesmo tempo, manifestando misericórdia ao dar-lhes salvação eterna! No gozo desta gloriosa verdade, deixem-me viver, e nesta fé deixem-me morrer.

Cristo é glorioso, também, pela obediência à lei que Ele perfeitamente cumpriu. Era absolutamente necessário que a lei fosse cumprida e isto nunca poderia ser feito por nós. Através da união de Cristo com a Igreja, entretanto, a lei foi cumprida por nós. "Porquanto, o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito" (Romanos 8:3-4).

Um entendimento pela fé desta glória de Cristo dispersará todos os temores e removerá todas as dúvidas de nossas pobres almas tentadas. Tal conhecimento será uma âncora que os firmará bem seguros em todas as tempestades e provações da vida, como também na morte.

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Fonte: A Glória de Cristo, John Owen, Editora PES, pp.40-44
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