O Ministério Pastoral e a Tarefa Apologética

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Pastorear não é uma tarefa simples. Estar num contexto em que várias pessoas estão inseridas com suas experiências de vida, variedade de formação educacional, intelectual, acadêmica é algo no mínimo complexo.


O trabalho do pastor, de fato, deve contemplar a exposição da Bíblia, ensino sólido da teologia, aconselhamento, instrução individual, disciplina eclesiástica e visitação aos membros da igreja. No entanto, o pastor além de ter que obrigatoriamente ser versado em teologia deve ler o mundo com as lentes do Sagrado Evangelho. Diante de tantas ideologias, que de forma subversiva seduz cristãos moldando sua cosmovisão a algo completamente oposto ao Evangelho de Cristo.

Uma declaração da cosmovisão reformada

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Apresento de modo sistemático uma declaração da cosmovisão reformada. Este é um resumo de como interpretamos o mundo a partir de uma perspectiva calvinista, os acontecimentos e como a vida está sob o governo e relacionada com o soberano Deus, e como todos os valores se organizam a partir dele.


1. Cremos que Deus é um Ser em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. O nosso Deus é infinito, eterno, perfeito, autossuficiente e imutável em seu Ser. Ele em tudo manifesta a sua bondade, conhecimento, sabedoria, poder, e a justiça segundo o seu soberano propósito eterno. Ele é o criador de tudo o que existe, pela Palavra do seu poder. Ele realiza, em tudo e todos, a sua sábia providência, de modo que, não existe acaso, nem fatalismo nos acontecimentos que vivenciamos, mas o absoluto controle em cada situação é a realização da sua perfeita vontade. Tudo o que ele realiza é reflexo daquilo que ele é. As nossas vidas e nossas famílias estão seguras em suas misericordiosas mãos.

2. Cremos que o nosso Deus é pessoal. Ele se revelou através de homens escolhidos, de eventos em diversos momentos e finalmente em seu Filho, e tudo o que é proveitoso para desvendar o seu Ser e a sua vontade, ele inspirou de modo escrito, para evitar a corrupção e o engano. Ele fez que se registrasse a sua Palavra progressivamente, para que se tornasse o livro de mediação e revelação das suas obras e do seu propósito conosco. Hoje, Deus fala verbalmente conosco somente na sua inspirada Palavra, pois, cessaram os agentes revelacionais [apóstolos e profetas], as modalidades revelacionais e a entrega de novas revelações. Por isso, submetemo-nos somente à autoridade da Escritura Sagrada como sendo a única fonte e regra de fé e prática. Somente ela é a inerrante, clara e suficiente Palavra de Deus. Em sua Palavra, Deus o padrão absoluto da verdade, bem como explica a origem do universo, da vida e das espécies, quem somos, qual o propósito da nossa vida, indicando a finalidade de toda a existência que é glorificá-lo e desfrutar dos benefícios da sua comunhão.

3. Cremos que o ser humano é criado à imagem de Deus. Deus criou a humanidade: homem e mulher, e ambos de igual modo refletem com dignidade espiritual os atributos que Deus lhes comunicou e, também representam o Senhor como administradores responsáveis de preservar e usufruir da criação. Tanto o homem como a mulher, são iguais em capacidade e responsabilidades; mas o homem deve exercer a sua autoridade como cabeça sobre a mulher, e esta liderança masculina deve ser sem opressão, nem omissão, pois, embora tendo diferentes papéis, exercem funções complementares. O casamento faz parte do projeto pactual de Deus conosco, por isso, a união entre Cristo e a Igreja é o paradigma do casamento. O casamento, entre um homem e uma mulher adultos, é um valor ético que devemos nutrir e defender contra toda ideologia de gênero e os intentos pós-modernos de reconfigurar a família.

4. Cremos que Deus fez uma aliança de vida com Adão. Como o nosso primeiro pai, ele foi o nosso representante nesta aliança. Todavia, sendo Adão tentado por Satanás, ele violou este pacto ao desobedecer um claro comando de Deus, perdendo a comunhão espiritual e todos os seus benefícios prometidos. Toda criação que era “muito boa” tornou-se corrompida em seu sistema ecológico. Sobre toda a humanidade foi creditada esta maldição, o pecado é a herança natural que todos recebem de Adão. Por causa deste mal moral todos perderam a santidade, a justiça e o conhecimento perfeito de Deus. O pecado produz inimizade, perda de significado, e por fim, a vergonhosa morte. Embora corrompidos, ainda somos portadores da imagem de Deus.

5. Cremos que Satanás e seus demônios, agentes do mal, conspiram contra tudo o que procede de Deus. Ele tentou os nossos primeiros pais, e os induziu a rebelião contra Deus, e nos confronta tentando seduzir-nos, despertando a nossa cobiça e aguçando o nosso orgulho. Ele é soberbo, assassino, acusador, e inimigo de Deus. Satanás não é co-igual a Deus, pelo contrário, ele é uma criatura submissa ao controle soberano do Senhor. O nosso acusador está condenado, e haverá de ser banido ao sofrimento eterno sob a justa ira no juízo de Deus.

6. Cremos que o mal é tão real quanto indesejável o sofrimento por ele produzido em toda a criação. Entretanto, o mal físico é parte da consequente maldição do pecado herdado dos nossos primeiros pais. O pecado gera desordem e destruição no indivíduo e sociedade. Todavia, não acreditamos que Deus seja mero espectador da presença do pecado na história da humanidade, mas de modo misterioso participante de tudo o que acontece, sem ser o culpado do pecado, e sem anular a responsabilidade do pecador. Cremos que todas as coisas, em especial aquelas que parecem escombros depois da destruição do pecado, são matéria-prima que Deus está usando para transformar a nossa vida, conforme à imagem de Cristo, em seu louvor e glória.

7. Cremos que o nascimento de Jesus Cristo teve o propósito de reconciliar pecadores escolhidos com o santo Deus. Sendo o Filho de Deus uma Pessoa que subsiste em duas naturezas, divina e humana, é o completo e final revelador entre Deus e os homens. O sofrimento, obediência, morte e ressurreição de Cristo obtiveram a justiça necessária para merecer-nos a aceitação de Deus, bem como a suficiente satisfação da sua ira, realizando a anulação da condenação pelos nossos pecados. Somos perdoados pela justiça e amor de Cristo Jesus, o nosso mediador. Ele eficazmente intercederá por nós até a Sua segunda vinda. A obra de Cristo é o fundamento para a renovação de toda a criação pela presença espiritual e transformadora do Seu reino, que foi inaugurado.

8. Cremos que o Espírito Santo inicia a obra da salvação em nós, regenerando e concedendo-nos entendimento espiritual para crermos em Cristo como o nosso salvador. Recebemos no poder do Espírito, e pela aplicação da Palavra de Deus em nós, o dom da fé salvadora e arrependimento necessário para a nossa conversão. Em Cristo a justificação é declarada e creditada a nós. Através da adoção somos feitos participantes da família de Deus. A santificação estimulada pelo Espírito e, exercida em nossos pensamentos, emoções e ações confirmam a nossa eleição e filiação divina. Somos preservados em graça, pelo poder de Deus, para sermos continuamente salvos até o fim. Deus tem uma graciosa Aliança da graça conosco e os nossos filhos, tendo o Senhor Jesus como o nosso único mediador.

9. Cremos que o Espírito Santo está presente em nós num relacionamento pactual conosco, habitados por ele, somos batizados no Corpo de Cristo. Ele continua a pairar acima do caos causado pelo pecado, todavia, sem estar alienado ao mal que há no mundo, mas convence-nos da justiça e do juízo, e concede forma à nova criação e fazendo-nos novas criaturas pela regeneração. O Espírito nos une como Igreja, capacitando-nos com dons para o serviço e edificação pela prática da comunhão mútua. Ele testemunha internamente, pela iluminação da Palavra de Deus, e somos continuamente santificados sob a sua poderosa influência. Toda a sua obra tem a finalidade de glorificar a Cristo.

10. Cremos que a Igreja é responsável de ser testemunha da verdade e do amor de Deus neste mundo afetado pelo pecado. Somos o povo escolhido para proclamarmos a mensagem de reconciliação e perdão, convidando pecadores ao arrependimento, para confiarem na suficiência de Cristo para a sua salvação. Temos o compromisso de ouvir, viver e ensinar a Palavra de Deus. A salvação não é somente da nossa alma, mas da nossa mente, cultura e sociedade, apresentando o evangelho integral para o homem em todas as suas necessidades. Cuidamos uns dos outros no amor de Deus, vivendo uma comunhão de reciprocidade e compromisso, proporcionando um ambiente de fraternidade e santidade. A Igreja visível é a comunhão daqueles que professam Cristo como o Senhor, reunidos para a celebração, a adoração, a comunhão, edificação e serviço. Buscamos intimidade com Deus através da Palavra, oração e dos sacramentos e, confirmamos a nova aliança com Deus simbolizada pelo do batismo e ceia do Senhor. A imagem de Deus é vivida na mutualidade dos relacionamentos.

11. Cremos que o objetivo histórico da obra de Cristo foi a inauguração do seu reino sobre a terra. Isto inclui a salvação de indivíduos, bem como uma nova ordem na sociedade. Todavia, cremos que somente com os valores do reino de Deus, num discipulado integral, em que os cristãos se envolvem produtivamente em todas as áreas da vida, podendo participar pelo processo de restauração, transformação e desenvolvimento, reconhecendo Cristo como o Senhor em todas as esferas da nossa existência.

12. Cremos que este mundo experimenta a deterioração dos valores que Deus estabeleceu para preservá-lo. A falta de sentido e propósito também produz a desesperança. A sociedade busca a sua redenção na tecnologia, cultura, política, economia e no sexo, todavia, estes meios são ineficazes de transformá-la construtivamente. Reconhecemos que várias formas de idolatria são fabricadas pela cultura pós-moderna. Mas, infelizmente, a sociedade inclina-se a não reconhecer a verdade como absoluta, ridicularizando a concepção e a ação de Deus no mundo. Estamos chegando ao fim da história humana não em direção ao desespero e caos, mas à consumação do propósito eterno de Deus. Cristo Jesus julgará toda a humanidade de todas as épocas e culturas, a uns dará a salvação segundo a sua misericórdia, e a outros segundo a sua justiça concederá a merecida condenação dos seus pecados.

13. Cremos que o nosso mundo pertence a Deus. Apesar de toda miséria e dor, todas as coisas estão sob o seu absoluto controle. A nossa esperança de uma nova terra não está presa ao que os homens podem fazer, porque cremos que após o dia do Juízo, todo desafio ao governo de Deus, e toda resistência a sua vontade será anulada, o seu reino, que é inaugurado entre nós, se manifestará em sua plenitude, e o nosso Senhor Jesus governará para sempre com o seu povo. Assim “Deus enxugará dos olhos toda lágrima”, Ele abolirá as nossas enfermidades, findará os nossos conflitos, e implantará a Sua perfeita justiça sobre a terra.

A cosmovisão cristã deve ser implantada pela influência da Igreja em todas as esferas da sociedade. O verdadeiro cristianismo propõe que crer e também pensar. Em tudo dependemos de Deus, para ele vivemos e a ele pertencemos, e isso só é possível se a nossa mente for dominada com a verdade (Rm 11:33). A mentira de que a fé não precisa da razão deve ser desprezada, e afirmado que a razão sem a fé se torna em loucura (Rm 1:22-23). James Orr acertadamente disse que “uma religião divorciada do pensamento rigoroso e elevado pode ser vista no curso inteiro da história da Igreja, e por isso, ela sempre tendeu a ser débil, árida e pouco saudável; bem como o intelecto privado de seus direitos dentro da religião, buscou a sua satisfação fora dela, e se transformou num racionalismo secular”. Este é um erro que não podemos repetir. Cada membro de nossa igreja precisa se convencer de que uma fé vigorosa somente glorifica a Deus se ela estiver comprometida com toda a verdade. A finalidade da nossa vida é glorificar a Deus, e a nossa mente não pode ser desprezada no desemprenho deste dever, porque como disse: crer é também pensar!

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Autor: Rev. Ewerton B. Tokashiki
Fonte: Estudantes de Teologia
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O início do fim da era cristã

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Efésios 2:1. Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados.

Antes de tudo, a depravação total da humanidade é uma doutrina bíblica. O pecado de Adão deformou intensivamente a natureza humana. Não só o homem foi degradado pelo pecado, mas toda a criação. A depravação é intensiva e completa, afeta a humanidade em todos os níveis. Ela reduz o homem à condição de quase animalidade ao deformar em nós a imagem e a semelhança de Deus. As multidões quase incontáveis que vagam pela vida, destituídas de dignidade e reduzidas à imbecilidade, proclamam essa verdade. A vida de bilhões se resume a comer, reproduzir e morrer. A miséria de suas vidas reflete depravação de suas almas. A vida é apenas biológica, estão e são absolutamente mortos espiritualmente, não passam de cadáveres que respiram!  

Os mais afortunados econômica e socialmente também não escapam da putrefação espiritual causada pelo pecado, no entanto, a diferença é que os envolve um verniz de sucesso material, que aparentemente os faz pensar que vivem. Corpos vivos e almas mortas, assim é o homem do pecado. A falsa impressão de vitalidade trazida pelo pecado é só um paliativo, uma mentira soprada por Satanás nos ouvidos humanos. Por isso muito se ri, muito se diverte e muito se festeja. Diante da tragédia da morte, o homem "vive", dá-se em casamento, se regozija diante da imundície com um orgulhoso senso de imortalidade.

O cristianismo compreendido como fundamento da civilização moderna está morto! Sua função de fundamento epistemológico foi mortalmente abalada pelo relativismo pós-moderno! A vastíssima contribuição do pensamento cristão a cultura e ao saber está sendo esquecida tanto na Europa quanto na América pós-cristã. O pentecostalismo e o neopentecostalismo são bizarrices teológicas que comprometem muito mais do que beneficiam o cristianismo, o que só ratifica a ideia do fim da era cristã.

O fim da modernidade, cuja preocupação com imperativos morais era visível, que bebia da racionalidade cartesiana, marca o início da pós-modernidade, cuja característica primeira é o absoluto relativismo (uma contradição). Durante a modernidade, no auge do capitalismo bem sucedido e da revolução industrial, o cristianismo cumpriu um papel fundamental como estruturador não só do conhecimento, mas de padrões éticos, morais e legislativos. As sociedades, mesmo que deformadas pelo pecado, erguiam-se sob leis e Estados que obedeciam a certo padrão bíblico de governo. Pensadores como Rosseau, Locke, Hobbes, Kant, Hegel e outros, buscavam no cristianismo [mesmo que indiretamente], a referência para construção de suas ideias e para as implicações práticas delas na constituição de seus modelos de Estado e sociedade.  

Na pós-modernidade isso acabou. A relativização absurda da razão matou a coerência e a verdade! A permissividade entendida equivocadamente como "verdade do outro" é responsável pelo recrudescimento da podridão ética e moral em nosso tempo. A depravação total do homem nunca foi tão palpável! O certo ao ser confundido com o que dá certo resulta numa sociedade sem qualquer traço de retidão. A felicidade como um fim em si mesma, e o prazer como motor dessa felicidade potencializa o pecado. Diante da corrupção causada pelo relativismo pós-moderno, tudo cai num estado de degradação quase absoluto, a cultura, as leis, a política, a economia e as ideias. 
   
Morte em vida! É o que resta a cadáveres insepultos. Tudo gira em torno de falsas premissas. Como nos dias do dilúvio, o homem vive despreocupado, alimentando seu vazio com festejos e prazeres descontrolados. A sensação de que tudo é possível trazida pelo avanço inócuo da tecnologia aumenta a sensação mentirosa e fugaz de eternidade. A vida cheia de promessas vãs e prazeres imediatos traz uma falsa sensação de independência diante do senhorio de Deus. A humanidade vive seu delírio, achando que tem controle sobre a vida. Pensando que tudo pode e que tem tudo. Mas, vive sem Jesus! Então, tudo lhe é subtraído, inclusive a vida!

O fim da era cristã, todavia, não significa o fim da Igreja de Cristo! O problema não está no evangelho, está no cristianismo debilitado pelas heresias, está no pecado que deprava a natureza humana. A Igreja de Cristo é invencível, nos prometeu o próprio Jesus. Os que Deus elegeu serão alcançados irrevogavelmente e suas naturezas regeneradas, para glória e louvor de seu nome. O antídoto para depravação e suas mazelas é a regeneração dos eleitos. A condição desumana de quase animalidade trazida pela depravação será desfeita pela regeneração. A nova criatura será reconduzida a imagem e semelhança do Criador.

A confusão de nossos dias não é confusão para Deus. Tudo foi preordenado para que seu nome fosse alçado acima de todos os nomes. O Senhor Jesus voltará em poder e glória e a criação será restaurada. A realidade desfeita e caótica são sinais de sua volta. O caos aparente é, na verdade, o perfeito acontecer de sua vontade!

SOLI DEO GLORIA!

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Autor: Davi Peixoto
Divulgação: Bereianos
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Aos pastores, presbíteros e diáconos que mentiram em sua ordenação

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Por Rev. Ewerton B. Tokashiki


A sua ordenação foi um ato de singular importância. No Conselho da Igreja local, ou numa Reunião do Presbitério, ou num culto público, você respondeu solenemente algumas perguntas, diante de Deus, das autoridades instituídas por Ele, tendo parte da Igreja de Cristo como testemunha. Após ter se comprometido com um claro e audível SIM, você se ajoelhou, num ato de submissão, e demonstrando verbalmente aceitação e compromisso confessional, foram impostas mãos sobre a sua cabeça para a ordenação como um oficial da IPB!

Alguns dias depois você começa em suas conversações a desdizer o que declarou publicamente. Os seus sermões, estudos, e simples conversas informais levantam discordância da identidade confessional da IPB. Apresenta-se mais "aberto", mais tolerante, e fala num tom mais inteligente e atraente do que os tradicionais, a quem se refere como obscurantistas e frios! Critica o crescimento da igreja local e da IPB, questiona a rigidez da teologia, bem como o desprezo gratuito pelo neopentecostalismo, e começa a afirmar que precisamos de sermos mais práticos, mais piedosos, mais fervorosos, entretanto, o seu discurso não é em direção da verdadeira piedade e sim para uma mudança de paradigma. A liderança adota nova linguagem: vivemos para relacionamentos e para uma nova visão! Assim, se investe em estrutura, marketing, slogans, expressões afetivas e menos conteúdo doutrinário, menos profundidade bíblica.

Em seguida, você fala abertamente de suas discordâncias doutrinárias. Por exemplo, afirma ser a favor da contemporaneidade dos dons revelacionais! Dá oportunidade para que os irmãos "manifestem" estes dons [línguas e profecias] caso os tenham ou queiram buscá-los! E que não tenham medo do presbitério, afinal, eles têm a chancela do pastor e dos presbíteros. Toda experiência espiritual é válida e deve ser buscada ...

O culto passa a ser mais musical, menos pregação, mais oportunidade aos irmãos, mais experiência e menos Escritura. O emocionalismo toma conta! O fervor emocional, sincero acima de tudo, domina o ambiente e faz com que as pessoas comecem a manifestar as suas experiências "com o Espírito". A partir daí algumas caem, outras choram, pulam, ou andam de um lado para o outro, e outros ficam assustados por não saberem discernir o que está acontecendo. Então o pastor declara, ratificando o momento, que tudo é obra do Espírito Santo. Duvidar é pecar contra Ele, é correr o risco de blasfemar! E, quem é que vai questionar?

A identidade confessional acabou. Acabou a ordem, acabou a centralidade da Escritura, findou a ordem e decência do culto, esgotou a vergonha de mentir, não existe mais qualquer compromisso com os juramentos feitos no dia da ordenação! A santidade divorciou-se da ética. Manter a palavra do juramento solene é algo completamente ignorado, senão intencionalmente desprezado. Nesta altura o "seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’" (Mateus 5:37) é esquecido. A desonestidade causa amnésia ética confessional. 

Tudo virou uma mentira. Você é um oficial presbiteriano, quer seja pastor, presbítero ou diácono, mas na realidade, intencionalmente ignora, despreza, ou ridiculariza a identidade confessional da IPB. Tudo o que você herdou é substituído por modelos do pentecostalismo. Todo seu treinamento teológico é cambiado por livretos, doutrinas e materiais que afrontam as decisões do Supremo Concílio da IPB, bem como os Padrões de Fé de Westminster.

Por isso, desejo apenas lembrar as perguntas que algum tempo foram questionadas em sua ordenação:

Perguntas constitucionais de ordenação

1º. Vocês confessam crer que as Escrituras do Velho e Novo Testamento são a Palavra de Deus, e que esta palavra é a única regra infalível de fé e prática?

2º. Vocês recebem e adotam a Confissão de Fé e os Catecismos desta Igreja como fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras?

3º. Vocês sustentam e aprovam o Governo e a Disciplina da Igreja Presbiteriana do Brasil?

4º. Vocês aceitam o ofício [presbíteros regentes e diáconos] desta Igreja, e prometem desempenhar fielmente todos os deveres deste cargo?

5º. Prometem, ainda, procurar manter e promover a paz, a unidade, a edificação e a pureza da Igreja?

A Escritura Sagrada adverte: "não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador." (Colossenses 3:9-10)

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Fonte: Estudantes de Teologia

Embora o artigo seja direcionado aos oficiais da IPB, cremos que também serve de exemplo para as demais igrejas.
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A insolvência da igreja tradicional: realidade ou circunstância?

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Por Rev. Ricardo Rios Melo


Há um crescimento exponencial de comunidades evangélicas no Brasil. Aliás, o advento das comunidades é uma febre em todas as áreas da sociedade: comunidades sociais de cunho físico ou virtual. A internet facilitou e promoveu a possibilidade de criação de comunidades virtuais por afinidade de sentimentos, características pessoais, patologias, estética e milhares de outras comunidades que pretendem, em última instância, dizer que você pertence a um grupo, você é comum. Ser comum normaliza o sujeito.

A palavra comunidade tem o sentido de agremiação, sociedade, comuna, grupo que se reúne geograficamente e, mais recentemente, grupo de fiéis que se reúnem em determinado espaço. É curioso notar que o sentido contemporâneo de comunidade não implica espaço material, físico. Você pode pertencer a uma comunidade virtual.

Comunidade, dentro de um dos sentidos filosóficos, é uma comunhão de espaço e ideias que, necessariamente, não se pode averiguar empiricamente. A sociologia tornou a expressão diretamente ligada a pessoas que se vinculam na sociedade por interesses e, principalmente, comportamentos comuns. (Cf. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 162).

Bauman entende que a comunidade é lugar de segurança do sujeito. É o lugar de pertencimento, aconchego, refúgio, abrigo:

(...) é um lugar ‘cálido’, um lugar confortável e aconchegante. É o teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada, como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado, lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita; temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção como quem falamos e a quem nos fala, estar em prontidão a cada minuto. Aqui, na comunidade podemos relaxar – estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza, dificilmente um ‘canto’ aqui é ‘escuro’). (BAUMAN. Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, Rio de Janeiro; Jorge Zahar, Ed. 2003, p. 7).

Esse “oásis” em pleno deserto pós-moderno tem levado a Igreja institucional, tradicional, confessional ou clássica, a repensar seus valores e propósitos. Um autor que enfatiza muito a necessidade de ressignificação, o que ele chama de propósitos, é Rick Warren em seu livro “Uma Igreja com Propósitos”.

Parece que a igreja, a qual será chamada nesse arrazoado de tradicional, passa por um processo de ressignificação. Ela tem sido atacada de todos os lados. A igreja emergente, comunidade, missão integral e outras designações trazem em seu discurso uma crítica aos moldes protestantes históricos. A própria existência desse “novo” grupo já é uma crítica contundente, pois demostra inquietação e, no entendimento de muitos deles, inabilidade da tradição reformada de responder às demandas modernas.

As palavras: relevância, significado, integral, mudança social têm sido palavras replicadas e decantadas nos discursos. Há um antinomismo claro nos discursos. Há o esvaziamento do púlpito, que em boa parte desses grupos não existe mais.

O pastor não é um pregador, mas um palestrante. Ele precisa vestir-se despojadamente e falar com liberdade e em uma linguagem moderna e sobre atualidades para que sua mensagem seja relevante e sua própria presença seja admitida pela comunidade. Não há lugar para estruturas físicas com formato de igreja. Em 1824, as igrejas protestantes receberam a permissão de celebrarem seus cultos com uma condição: não criarem templos com formatos de igreja.

Hoje, a proibição é epistêmica e pragmática. A ideia é que, para agradar e ser “relevante”, a igreja não pode ter formato interno e externo de igreja. Os templos poderão ser substituídos por locais aconchegantes e de preferência com cara de teatro. E o nome precisa ser modificado para não afastar as pessoas.

Quem estiver atento à ideia de signo, significado, significante, entenderá que estruturas externas pretendem demostrar sinais da mensagem interna que se quer passar. Portanto, um nome ou uma construção não é isenta de significado, existe uma estética filosófica. Uma mensagem direta e indireta. Não era sem motivos que as construções das igrejas medievais tinham aqueles formatos. Era imperativo para a igreja dominante da época passar uma mensagem.

Um exemplo contemporâneo é a construção de templos gigantescos das igrejas neopentecostais. Não se pode falar de prosperidade se a própria igreja é pequena, acanhada, não próspera. Há intencionalidade, método, estudo mercadológico, sociológico.

As igrejas emergentes, comunidades integrais ou não, pretendem realizar uma reforma ou reformissão[1]. Contudo, essa pseudo reforma não tem nenhuma conexão com a reforma do século XVI. Para Carson, existe uma diferença gritante entre as igrejas emergentes e os reformadores:

O que impulsionou a Reforma foi a convicção, que tomou conta de todos os seus líderes, de que a Igreja Católica Romana havia se distanciado das Escrituras e introduzido uma teologia e uma prática contrária à fé cristã genuína. Em outras palavras, eles queriam que as coisas mudassem, mas não porque perceberam que havia ocorrido mudanças na cultura, de modo que a igreja teria que se adaptar a esse novo perfil cultural; antes, eles queriam mudanças por terem percebido o surgimento na igreja de teologia e prática novas que contrariavam as Escrituras e que, portanto, havia uma necessidade de que tudo isso fosse reformado pela palavra de Deus. (...) Trocando em miúdos, no centro da reforma proposta pelo movimento emergente encontra-se a percepção de uma grande mudança na cultura. (CARSON. D. A. Igreja Emergente: o movimento e suas implicações, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 49,50).

A tentativa de decretar a falência da suposta insolvência da igreja tradicional nada mais é que um oportunismo mercadológico. Não há argumentos bíblicos e históricos para que esse processo se torne realidade. Dentro da criação e consumação divina, na perspectiva histórico-redentiva, não há fundamentos substanciais para se propor mudança dogmática.

Os apóstolos já passaram pela tentação de mudar sua mensagem para agradar o público. O apóstolo Paulo, quando escreveu aos Coríntios, no capítulo 1.21-25, não sucumbiu aos apelos extremados dos seus ouvintes e nem aderiu a qualquer perspectiva hegeliana de síntese:

Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria;  mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios;  mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.  Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.

O nosso Senhor Jesus passou pelo desafio de mudar sua mensagem em João 6, pois Ele sabia que muitos que o seguiam não estavam dispostos a seguir o Evangelho da cruz:

Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair. E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido. À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; ( JO 6.60-68)”.

Bom, alguns poderão dizer, por que você não avalia os pontos desses grupos pormenorizadamente dentro das Escrituras? A resposta é simples: como Carson disse, em outras palavras, as mudanças que ocorreram nesses grupos não vieram das Escrituras, mas da exigência sociocultural. “Como dizia Marx sobre a cultura orientada pelo mercado: ‘tudo o que é sólido desmancha no ar’. Deus também se torna uma mercadoria – um produto ou terapia que podemos comprar e usar para nosso bem-estar pessoal” (HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo, São Paulo; Cultura Cristã, 2010, p. 61,62).


O problema que emerge, desculpe o trocadilho, é que as comunidades e afins surgem de uma tentativa de liberdade das amarras institucionais. Entretanto, inevitavelmente, se tornarão instituições e, quando isso acontecer, estarão decretando sua falência:

Como ‘comunidade’ significa atendimento compartilhado do tipo ‘natural’ e ‘tácito’, ela não pode sobreviver ao momento em que o entendimento se torna autoconsciente, estridente e vociferante; quando, para usar mais uma vez a terminologia de Heidegger, o entendimento passa do estado de zuhanden para o de vorhanden e se torna objeto de contemplação e exame. A comunidade só pode estar dormente – ou morta. Quando começa a versar sobre o seu valor singular, a derrarmar-se lírica sobre sua beleza original e a afixar nos muros próximos loquazes manifestos conclamando seus membros a apreciarem suas virtudes e os outros a admirá-los ou calar-se – podemos estar certos de que a comunidade não existe mais (ou ainda, se for o caso). A comunidade ‘falada’ (mais exatamente: a comunidade que fala de si mesma) é uma contradição em termos” (BAUMAN. Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, Rio de Janeiro; Jorge Zahar, Ed. 2003, p. 17).

Queridos irmãos, é um fato que a pós-modernidade trouxe desafios de comunicação para a igreja tradicional, contudo, a resposta não virá de fora das Escrituras. Achar que a nossa sociedade é pior do que a sociedade em que viveram nossos pais apostólicos e reformadores é, no mínimo, pretensão.

Mudança de símbolo implica mudança da realidade. Alguns querem trocar as escamas sem trocar de corpo. É uma tentativa hercúlea de síntese pós-moderna onde uma libélula bateria suas asas, mas com a certeza que pode voltar para o casulo.

A igreja tradicional precisa se preparar para receber os filhos pródigos, pois, mudando o que deve ser mudado, eles sabem que é na casa do Pai (igreja) que são bem tratados!

para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade”. 1Tm 3:15


Deus nos abençoe!

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Fonte: Arrazoar
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O cristianismo pós-moderno - 2/2

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Por Gene Edward Veith, Jr.


A opção confessional 

O antropólogo britânico Ernest Gellner vem estudando a fragmentação da cultura contemporânea e o quanto ela precisa, como todas as culturas, de uma religião, uma visão de mundo abrangente para fornecer valores e significado. Conclui que agora só há três alternativas religiosas: o relativismo pós-moderno, o fundamentalismo racionalista e o fundamentalismo religioso.

Gellner mesmo aconselha o que chama de “fundamentalismo racionalista”, um retorno honrado aos ideais do iluminismo. Como o fundamentalismo religioso, esse racionalismo confessadamente dogmático acredita em verdades absolutas e transcendentes. Concorda com os relativistas, porém, ao rejeitar a revelação e a certeza intelectual.

O “relativismo pós-moderno”, entretanto, Gellner acha quase que desprezível. Depois de uma crítica contumaz dos pós-modernistas, ele os dispensa de vez:

Aos relativistas, só se pode dizer isto—vocês fornecem uma explicação excelente da maneira em que escolhemos nosso cardápio ou nosso papel de parede. Como explicação das realidades de nosso mundo e como guia à conduta, sua posição é risível.[129]

Gellner, embora secularista comprovado, respeita muito mais os fundamentalistas religiosos:

Os fundamentalistas merecem nosso respeito por dois motivos: eles, como nós, reconhecem que a verdade é única, evitando a auto-decepção fácil do relativismo universal; e eles são nossos antecessores intelectuais. Sem entregar-nos à idolatria exagerada dos ancestrais, nós lhes devemos uma medida de reverência. Sem um monoteísmo sério, para não dizer obcecado..., o naturalismo racional do Iluminismo poderia nunca ter vindo à luz do dia. Com toda certeza, a fixação em uma única Revelação foi a pré-condição histórica para a emergência bem sucedida de uma Natureza singular e simetricamente acessível.... Sem um impulso religioso forte em direção a um só mundo bem ordenado, e o consequente escape da incoerência oportunista e manipuladora, é provável que o milagre cognitivo não tivesse ocorrido.[130]

Gellner vê o fundamentalismo religioso não só como o venerável antepassado do modernismo, mas como opção legítima para o mundo de hoje.

Infelizmente, o tipo específico de fundamentalismo religioso que ele estuda e que vê como possuindo mais vigor é o fundamentalismo islâmico. O cristianismo (pelo menos a versão que lhe é conhecida na Inglaterra) deve lhe parecer tão corrompida, tão comprometida e obediente ao restante da cultura, que ele não a leva a sério. Os crentes realmente precisam estar acordados para o fato que o islã está se tornando seu maior competidor religioso através do mundo. A igreja na África já enfrenta luta intensa e perseguição vinda do islã. Não sendo mais somente uma religião do Oriente Médio, o islã se estende através da África e Ásia, é uma presença forte nos estados ex-comunistas, e está ganhando terreno na Europa Ocidental e Estados Unidos. Um islã militante e intransigente poderá emergir como a religião pós-modernista mais potente, contra a qual nem os racionalistas tímidos, nem os relativistas aguados, e nem os cristãos, querendo agradar a todos, poderão ter força suficiente.

A posição do próprio Gellner, que ele chama com franqueza louvável de “fundamentalismo racionalista”, dogmaticamente inclui a razão objetiva e o método científico. Gellner, como cada vez mais estudiosos e pensantes que estão se acordando para as consequências do pós-modernismo, tenta desesperadamente voltar aos valores do iluminismo e reinstituir o modernismo. Eu creio que o esforço é fútil. Gellner refuta facilmente o pós-modernismo pela análise racional, mas não é aí que está o problema. Aqueles que rejeitam completamente o racionalismo dificilmente serão movidos pela lógica de Gellner, por impecável que seja. A cultura está se acelerando numa direção bem diferente. O relativismo pós-modernista pode ser “risível”, mas não poderá ser tão facilmente descartado.

Para que o cristianismo seja uma alternativa viável ao modernismo (que agora está desacreditado), ao pós-modernismo (uma anarquia formalizada sob a qual poucas pessoas conseguem subsistir por muito tempo) e, para completar, ao fundamentalismo islâmico, ele precisa pôr a casa em ordem. O cristianismo não pode se entregar ao modernismo, como na teologia liberal, nem ao pós-modernismo, como na teologia da megamudança. Tanto o liberalismo como o evangelicalismo de megamudança se rendem à cultura. Vender-se à cultura dominante, ironicamente, não é fórmula para o sucesso e sim para o fracasso. As igrejas liberais procuraram apelar ao “homem moderno” aceitando de braços abertos o modernismo, mas ao fazer isso tornaram-se irrelevantes e morreram quando o clima mudou. Igrejas evangélicas que aceitam sem críticas o pós-modernismo estão em perigo de sofrer a mesma sorte. Capitulando ao espírito dos tempos, ambas as teologias sincréticas recusam ministrar às necessidades espirituais genuínas dos seres humanos que se acham perdidos ou no labirinto do modernismo, que lhes nega o sobrenatural, ou no pós-modernismo, que lhes nega a verdade.

“Não sabemos ainda o que o futuro proporcionará”, escreve Diogenes Allen, “mas está claro que é exigida uma reavaliação fundamental da fé cristã—libertada dos posicionamentos da mentalidade moderna que em geral se têm apresentado hostis a qualquer ótica religiosa”.[131] Allen salienta que a era pós-moderna já torna possível a recuperação da ortodoxia cristã, atacada desde o iluminismo: “Não mais pode o cristianismo ser colocado na defensiva, como ocorria durante os últimos trezentos anos mais ou menos, pela visão tacanha da razão e pela dependência da ciência clássica tão características da mentalidade moderna”.[132]

Thomas Oden crê que a ortodoxia cristã clássica irá mesmo reaparecer na era pós-moderna. Para Oden, o colapso do comunismo marca o colapso do modernismo, e ele acha um significado imenso na sobrevivência e vindicação da igreja ortodoxa russa, cujas tradições pouco têm mudado desde os primeiros séculos. Oden descreve como fútil o protestantismo liberal, com o qual esteve associado por certo tempo. Ele observa como os teólogos de todas as tradições estão se voltando à Bíblia, estudando a igreja primitiva, e recuperando a sabedoria e espiritualidade dos pais da igreja. “Os crentes pós-modernos”, escreve ele, “são aqueles que, tendo aceito de boa fé as disciplinas da modernidade, e tendo se desiludido com as ilusões da modernidade, estão de novo estudando a Palavra de Deus revelada na história”.[133]

Oden acredita que os pós-modernistas sejam na realidade hipermodernistas, forçando o ceticismo modernista aos seus últimos limites. Em lugar de oferecer uma alternativa genuína ao modernismo, como faz a ortodoxia cristã, os relativistas culturais representam nada mais que os estertores de morte do modernismo. Espero que ele tenha razão, mas creio que Oden, como Gellner, subestima os pós-modernistas, cujas idéias agora permeiam toda a sociedade. Também suspeito que ele esteja otimista demais quanto ao triunfo do cristianismo clássico, que certamente deve enfrentar grande oposição numa sociedade cada vez mais relativista. Entretanto, Oden lança um apelo comovente para que os cristãos aceitem a morte do modernismo e se engagem na nova época pela recuperação de sua herança doutrinária e espiritual.

Gellner vê algum tipo de “fundamentalismo”, quer racionalista ou religioso, como a opção preferível (na verdade a única opção) ao relativismo. O termo “fundamentalismo”, contudo, é um remanescente das disputas sobre o modernismo. O termo caiu em descrédito mesmo entre aqueles a quem Gellner pressupõe que seja aplicável. Além disso, no mundo pós-moderno a palavra tem as conotações associadas com o fundamentalismo islâmico, com seus mulás autoritários e sua austeridade de decepar mãos. Não é nem um pouco o que os cristãos, que têm um conceito muito diferente de lei, cultura e graça, desejariam transmitir.

As igrejas que resistiram ao regime de Adolfo Hitler, aquele primeiro estado pós-modernista, atribuíam a si o nome de igrejas “confessionais”. Confessavam sua fé contra uma igreja sincretista e contra o estado totalitário, assumindo posição sobre a Palavra de Deus e a doutrina cristã, conforme expressa em suas confissões de fé históricas.[134] Em honra delas e em reconhecimento de que muitas das questões serão exatamente as mesmas, poderíamos falar em cultivar um “cristianismo confessional”.

Os cristãos, se vão constituir uma alternativa ao relativismo pós-moderno, precisam confessar sua fé na palavra e na ação. Isso significa conhecer qual é essa fé. 

Os crentes de cada corpo eclesiástico poderiam começar pelo retorno à sua própria herança doutrinária. Luteranos, calvinistas e outras igrejas históricas têm confissões formais redigidas daquilo que crêem. Anglicanos, católicos e ortodoxos têm tradições teológicas ricas e rigorosas. Outras denominações têm posições teológicas menos estritamente definidas, mas mesmo assim têm suas confissões de fé e sua herança baseada na Bíblia, que devem reassumir. Fazendo isso, poderão recuperar sua vitalidade e testificar o cerne da verdade bíblica que se levantará como testemunho abrasador diante da cultura relativista. Igrejas bíblicas com integridade doutrinária terão testemunho mais forte do que congregações confusas, ansiosas por agradar a todos, que nada de especial representam.

O confessionalismo não deverá significar “ortodoxia morta”, insistência em algum tipo de pureza doutrinária às custas de uma fé aquecida, pessoal. O alvo deve ser “ortodoxia viva”, uma fé tanto experiencial quanto baseada na verdade, com espaço tanto para os sentimentos quanto o intelecto. Em certas épocas da história da igreja, a doutrina têm sido enfatizada até o exagero, mas é difícil ser esse um problema numa sociedade em que toda a tendência é negar a verdade inteiramente.

Enfatizar a doutrina ressaltará as diferenças doutrinárias entre as várias tradições cristãs, mas isso não precisa significar uma luta religiosa destrutiva. As várias tradições precisam ser recuperadas antes que possam ser apreciadas ou então desafiadas; e uma vez reestabelecidas, os debates sobre quais teologias estão mais de acordo com a Bíblia poderiam ser retomadas, porque a teologia mais uma vez seria levada a sério. O debate teológico vibrante poderia robustecer a igreja. O método ecumênico da unidade—extinguir todas as crenças características—fracassou, mas o confessionalismo rigoroso, combinado à percepção de quem são os inimigos verdadeiros da igreja, poderia não só ser edificante como também unificador. A unidade da igreja, afinal, como o Apóstolo Paulo declara explicitamente, compreende a diversidade, um Corpo consistindo de diversos órgãos (1 Coríntios 12). Essa síntese de unidade e pluralismo quase soa como pós-moderna. 

Apropriando-se do pós-modernismo

Tanto o apelo de Michael Horton por um retorno à teologia reformada quanto o projeto de Thomas Oden para que se recupere a teologia da igreja primitiva, acabam sendo um chamado a um novo confessionalismo cristão. O clima intelectual pós-moderno teoricamente deveria abrir espaço para isso. Um porta-voz do pósmodernismo o disse bem: “A idéia de que todos os grupos tenham direito de se pronunciar em seu próprio favor, com sua própria voz, e dessa voz ter aceitação como autêntica e legítima é essencial à posição pluralista do pós-modernismo”.[135] Certamente isso deveria incluir as comunidades cristãs, que partilham as mesmas crenças e a mesma linguagem teológica. Se o pós-modernismo busca trazer o marginal ao centro, fica evidente que o cristianismo vem sendo colocado às margens do pensamento nos dias atuais. Além disso, como Oden mostra, a igreja é uma das poucas instituições que é realmente global, multicultural e de múltiplas gerações.[136]

Os cristãos confessionais podem até tomar parte na demolição pós-moderna do modernismo, que ainda tem forte cidadela no estabelecimento teológico. Há a necessidade urgente, por exemplo, de desafiar a abordagem histórico-crítica das Escrituras, que vem corrompendo a autoridade da Bíblia em todas as denominações principais. A crítica pós-moderna poderá mostrar como essa erudição bíblica, supostamente científica e objetivamente histórica, com sua rejeição do sobrenatural e especulações naturalistas sobre o texto da Bíblia, positivamente não é nem objetiva nem científica. As ferramentas da erudição pós-moderna poderiam expor a maneira em que o método histórico-crítico, com toda sua pretensão à objetividade, meramente disfarça a visão de mundo modernista, e que é pura especulação passar além da linguagem do texto bíblico. Alguns estudiosos já iniciaram esse processo, mas há muito a fazer antes que seja plenamente desmontada a erudição bíblica liberal.

Os cristãos confessionais também poderão se apropriar das percepções da erudição pós-moderna levando a sério o pecado e dando ênfase às implicações epistemológicas da queda original. A razão humana é mesmo inadequada, como afirmam os pós-modernistas; mas os crentes baseiam suas crenças não na razão, e sim na revelação. Somos inteiramente dependentes da linguagem, como os pós-modernistas dizem; mas os cristãos baseiam sua fé na linguagem de Deus, isto é, na Bíblia como Palavra de Deus. Os pós-modernistas dizem que o sentido é algo que só se pode determinar dentro da “comunidade interpretativa”. Para os crentes, a igreja é sua comunidade interpretativa.[137]

Embora os cristãos possam fazer uso da erudição pós-moderma, de certo ponto em diante terão de desafiar essa erudição. Os crentes, embora questionem depender-se unicamente da razão, acreditam em verdades absolutas. Visto que Deus se revela em linguagem, a linguagem não é intrinsecamente enganadora; pelo contrário, a linguagem é reveladora e pode expressar verdade. Deus—e não a cultura—é origem do significado, da verdade, dos valores. Como autor da existência, Deus é autoritativo. Sendo assim, certas verdades absolutas e valores transcendente são universais no seu escopo e aplicação.

Os crentes estarão em situação de poder responder aos dilemas que os pós-modernistas, quando honestos, enfrentam. “De agora em diante, insistirão os teoristas modernos, não há bases de valor absoluto  que possam forçar uma concordância”, observa Steven Connor. “Mas em tal situação, as perguntas sobre valor e legitimidade não desaparecem; ao contrário ganham nova intensidade”.[138] O pós-modernismo não consegue responder a essas perguntas, por mais urgentes e intensas que sejam. David Harvey, diante da superficialidade e comercialismo da maneira de pensar pós-modernista, insiste em “um contra-ataque da narrativa contra a imagem, da ética contra a estética” e uma “busca da unidade dentro das diferenças”.[139] Mas fazer isso requer uma transcendência que o pós-modernismo não explica.

Num pronunciamento ao Congresso, Václav Havel, o teatrólogo que se levantou de uma prisão comunista para ser presidente da Checoslováquia livre, falou pelo Leste bem como pelo Oeste:

Ainda não sabemos como pôr a moralidade adiante da política, da ciência e da economia. Ainda somos incapazes de entender que a única coluna dorsal de nossas ações—se vão ser éticas—é a responsabilidade. Uma responsabilidade para com algo superior à minha família, meu país, minha firma, meu sucesso.[140]

Mas ao que—ou a Quem—somos responsáveis? O que?--ou Quem—é superior a tudo que podemos ver? Como diz Postman, não é suficiente estar libertado de uma teoria falha—precisamos de uma teoria melhor, mas a tecnopolia não nos dá resposta alguma.[141]

O cristianismo, ao contrário, poderá dar uma resposta. Os crentes pós-modernos não devem, contudo, esperar se dar bem às mãos dos pós-modernistas. Os crentes serão denunciados por “pensar que possuem a única verdade”. Serão condenados por sua intolerância, por “tentarem forçar suas crenças em todo mundo”. Os cristãos já podem esperar não ser incluídos quando os pós-modernistas clamam por tolerância e pluralismo. Com a cultura se tornando cada vez mais sem lei e brutal, os cristãos poderão até provar a perseguição. A igreja poderá crescer ou não em tal clima. Eu suspeito que ela vai se encolher até restar apenas um remanescente fiel. Mas a Igreja de Jesus Cristo não pode ser vencida pelas portas do Inferno, muito menos por uma cultura (Mateus 16:18). 

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Notas:
[129] Idem, 95-96.
[130] Diogenes Allen, Christian Belief in a Postmodern World (Louisville, KY: Westminster/John Knox Press, 1989), 2.
[131] Idem, 2.
[132] Thomas C. Oden, Two Worlds: Notes on the Death of Modernity in America and Russia (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1992), 53. Ver também seu livro After Modernity--What?: Agenda for Theology (Grand Rapids, MI: Academic Books, 1990).
[133] Conto a história deles que é inspiradora e instrutiva no meu livro Modern Fascism: Liquidating the Judeo-Christian Worldview (St. Louis: Concordia Publishing House, 1993).
[134] David Harvey, The Condition of Postmodernity (Cambridge, MA: Basil Blackwell, 1989), 48.
[135] Oden, Two Worlds, 54.
[136] James W. Voelz, "Multiple Signs, Levels of Meaning and Self as Text: Elements of Intertextuality"convenção da Society of Biblical Literature, San Francisco, novembro 1992.
[137] Steven Connor, Postmodernist Culture: An Introduction to Theories of the Contemporary (Oxford: Basil Blackwell, 1989), 8.
[138] Harvey, Condition of Postmodernity, 359.
[139] Citado em Neil Postman, Technopoly: The Surrender of Culture to Technology (New York: Vintage Books, 1993), 82.
[140] Idem.

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Fonte: Tempos pós-modernos, Uma avaliação cristã do pensamento e da cultura da nossa época. Gene Edward Veith, Jr. Ed. Cultura Cristã

• Leia também a primeira parte aqui!
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O cristianismo pós-moderno - 1/2

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Por Gene Edward Veith, Jr.


De muitas maneiras, a igreja não pode deixar de ser apanhada nas mudanças pós-modernas. Já vimos o quanto é altamente segmentada a sociedade pós-moderna, com diferentes grupos se fragmentando em suas próprias subculturas. O exemplo mais claro desse fenômeno pode estar na própria área dos conservadores. 

Os crentes hoje têm suas próprias escolas, suas próprias faculdades, suas próprias livrarias, sua própria indústria do entretenimento e sua própria mídia. Os pós-modernistas reivindicam que, como não pode haver um consenso universal, as pessoas que compartilham uma mesma linguagem e visão de mundo devem formar suas próprias comunidades auto-suficientes. E isso está realmente acontecendo no cristianismo contemporâneo. Os crentes que denunciam a subcultura cristã devem reconhecer que a alternativa poderá ser a extinção cultural. O cristianismo foi excomungado da cultura geral—sistematicamente excluído das escolas, do estabelecimento intelectual e da mídia. O estabelecimento de escolas, editoras, grupos de artes, radiodifusoras, empresas, etc. poderá ser uma das grandes realizações da igreja do século vinte e um. À medida que as pressões pós-modernistas se intensificam, ter instituições na direção oposta já colocadas poderá provar ser de valor incalculável para que os crentes possam apresentar uma resistência eficaz.


Os cristãos deverão aproveitar estas suas bases para incursões na cultura geral e para exercerem sua influência em todos os níveis. Certamente devem resistir à tentação de permanecer na segurança do “gueto cristão”. Contudo, poderão se ver aceitos só até certo ponto. Geralmente as pessoas não escolhem viver num gueto. Os guetos judeus e de negros eram meios de exclusão, e os crentes podem esperar ser excluídos de um mundo cada vez mais sem Deus. Os judeus do gueto de Varsóvia e os pretos de Harlem dos anos 20 foram barrados da corrente geral, mas isso não os impediu de ter uma vida cultural própria, vibrante e rica. Os crentes poderão aspirar o mesmo.


O problema não é os cristãos terem suas próprias instituições paralelas, mas que essas instituições costumam às vezes ser tão semelhantes às seculares. Surpreende a freqüência com que a mentalidade cultivada pela subcultura evangélica se assemelha à do pós-modernismo secular.


A rejeição pós-modernista da objetividade permeia a igreja evangélica. “Temos uma geração menos interessada em argumentos cerebrais, pensamento linear, sistemas teológicos”, observa Leith Anderson, “e mais interessada em encontros com o sobrenatural”.[116] Em consequência, as pessoas que vão à igreja funcionam num paradigma diferente de espiritualidade. “O velho paradigma ensinava que se você tivesse o ensino, a doutrina certa, você teria experiência de Deus. O novo paradigma diz que se você tiver a experiência de Deus, você terá a doutrina certa”.[117] Não só fica a doutrina objetiva minimizada em favor de uma experiência subjetiva; a experiência realmente se torna o critério para se avaliar a doutrina. 

Anderson, pastor de uma megaigreja e consultor de crescimento de igrejas, diz que os pastores precisarão de lidar cada vez mais com pessoas como o jovem que vimos antes que diz que crê na inerrância da Escritura, na teologia reformada, e na reencarnação. Dizer-lhe que crer na reencarnação é incoerente com crer na Bíblia poderá não lhe dizer quase nada. A nova geração (o pastor poderia ter dito a geração pós-modernista) simplesmente não raciocina em termos sistemáticos. O jovem gosta da Bíblia, de João Calvino, e de Shirley MacLaine. Cada um destes faz sentido para ele. Consegue conviver com as contradições.[118]

Essa tendência de deixar para o segundo plano a doutrina e o pensamento objetivo ajuda a explicar porque 53 por cento dos crentes evangélicos conseguem acreditar que não existem absolutos (comparado aos 66 por cento dos americanos em geral).[119] É claro que a tradição evangélica sempre cultivou as emoções e enfatizou uma religião experiencial, em oposição a mero “conhecimento mental”. Essa abertura a sentimentos pessoais e experiência constitui um ponto de contato com o pós-modernismo, que já foi adiante exagerando o papel da subjetividade até um ponto além de qualquer coisa que pudesse ser reconhecida por um “evangélico quente” do século dezenove.

De modo similar, os evangélicos vêm mostrando a tendência de enfatizar o papel da escolha na salvação. As pessoas são instigadas a fazer uma “decisão por Cristo”, um compromisso sempre descrito como função da vontade humana. Essa terminologia coaduna bem com a mentalidade pós-modernista, que entende religião e moralidade em termos de opção, não de verdade.

Quando os evangélicos se aprofundam em sua própria rica herança teológica, entretanto, encontram mais substância nessa “teologia da decisão” do que haviam percebido. Para Lutero, Calvino, Santo Agostinho e muitos outros teólogos bíblicos, a vontade humana está em servidão ao pecado, de maneira que nossas escolhas nos afastam de Deus. Na salvação nós não escolhemos Deus; ele nos escolhe. Não somos salvos por nossa vontade, mas pela graça de Deus que transforma nossa vontade pecaminosa pelo poder do Espírito Santo. Então, e somente então, é que se pode dizer que temos a liberdade da vontade e somos capacitados a “escolher Cristo”. Mesmo teólogos, tais como Armínio, Wesley e Aquinas, que criam que a vontade humana é livre e precisa cooperar no processo da salvação, não viam a salvação como pura opção autônoma.

O evangelicalismo, tendo talvez negligenciado sua teologia, parece atraente aos pós-modernistas, portanto, pelo seu emocionalismo quente e sua exaltação da escolha. Outras práticas que os evangélicos têm seguido durante anos (como estudos bíblicos e grupos de oração) de repente encontraram nova ressonância nos meios pós-modernistas (com seu gosto por grupos de apoio e o cultivo da identidade do grupo). Mas, embora as tradições do evangelicalismo possam ser boas maneiras de atrair os pós-modernistas para evangelizá-los, por vezes a conversão tem tomado a direção contrária.

Já vimos como o pós-modernismo é aberto à cultura popular e à franca comercialização. A arte, a política e as idéias—desligadas da realidade objetiva—são todas colocadas de modo a satisfazer o gosto do consumidor. A retórica e marketing em massa substituem a persuasão racional. O pós-modernismo incentiva a mentalidade de consumidor, sempre voltada para o que as pessoas apreciam e querem. Isso se extrapola à religião, como vimos. Quando a verdade deixa de ser fator, a pessoa escolhe sua religião como qualquer outro produto—eu gosto? Isso me dá o que quero?

Charles Colson conta o caso de uma igreja evangélica que decidiu que precisava crescer em número de membros. Primeiro o pastor encomendou uma pesquisa de mercado. Descobriu que muitas pessoas tinham uma restrição à palavra “Batista”. A igreja mudou de nome. A pesquisa mostrou que as pessoas queriam mais acesso, e por isso a igreja construiu outro prédio perto da rodovia. Essa tinha tetos com vigas aparentes, lareiras de pedra, e era sem cruzes ou outros símbolos religiosos que pudessem causar desconforto às pessoas. Então o pastor decidiu parar de usar linguagem teológica. “Se usarmos as palavras redimir ou converter vão pensar que estamos falando em títulos financeiros” Parou de pregar sobre inferno e maldição eterna e passou a tópicos mais positivos. E a igreja cresceu, cresceu muito. “Reina o espírito de colocar as pessoas acima da doutrina” falou efusivamente um membro. “A igreja aceita totalmente as pessoas como são, sem qualquer espécie de faça e não faça”.[120] Abandonando assim sua doutrina e sua autoridade moral, e ajustando seu ensino às exigências do mercado, a igreja embarcou numa peregrinação ao pós-modernismo. 

Em lugar da pregação que conduz à convicção do pecado e à salvação através da cruz de Jesus Cristo, as igrejas pregam a mensagem do “sinta-se bem” que visa consolar e alegrar as pessoas. Há quem descreva a cultura pós-modernista como uma “cultura terapeuta”, na qual o sentimento de bem-estar social, e não a verdade, é o valor controlador.[121] A igreja dos nossos dias também enfrenta a tentação de substituir pela teologia a terapia.

Visto como o pensamento pós-moderno se impacienta com as crenças espirituais transcendentes, o enfoque muda para o aqui e agora, para o que se sente e se toca. As pessoas têm pouco interesse no céu; querem a saúde e a prosperidade já. Como os pós-modernistas são orientados ao poder, serão atraídos a igrejas de poder que prometem milagres para resolver todos os problemas, força política, crescimento geométrico nos números, e um sucesso atrás do outro.[122] (Lutero estava pensando em algo semelhante quando contrastou a “teologia da glória” baseada no poder e orgulho, com a “teologia da cruz” baseada em nossa própria humilhação e o sofrimento de Jesus Cristo).[123]

Colson critica severamente as teologias da “religião do relax” e a capitulação à cultura popular do “McIgreja”. O consumismo na igreja, ele afirma, “dilui a mensagem, altera o caráter da igreja, perverte o evangelho, e desfaz a autoridade da igreja”.[124]

Ainda mais sério do que o consumismo da igreja (embora geralmente o acompanhe), a própria teologia evangélica em alguns lugares tem se rendido à ideologia pós-modernista. Essa nova teologia, conforme desenvolvida por teólogos acadêmicos e conforme evidenciada em inúmeras livrarias e púlpitos evangélicos, já foi descrita como uma megamudança que se desvia do protestantismo clássico para um entendimento completamente diferente (e essencialmente pós-modernista) do evangelho.[125]

A teologia da megamudança tenta amaciar as arestas duras da ortodoxia bíblica e acomodar os valores e mentalidade da sociedade contemporânea. Michael Horton explica a nova teologia através de uma série de contrastes:

Onde o cristianismo clássico frisa a transcendência de Deus e sua imutabilidde, onipotência e onisciência, o novo modelo frisa a imanência de Deus, que é dinâmico, é capaz de alteração, e está em parceria com sua criação. O cristianismo clássico vê toda a raça humana como implicada na Queda de Adão. Sendo assim, somos todos corrompidos e condenados. O pecado é uma condição. Mas o novo modelo nega a queda universal. Não somos culpados pelo pecado de Adão, exceto na medida em que seguimos o mau exemplo moral de Adão. O pecado é um ato.
O cristianismo clássico ensina que nosso problema é nossa condenação, que todos nos achamos debaixo da ira de Deus. O novo modelo ensina que nosso problema é essencialmente a ignorância—não sabemos o quanto Deus nos ama.
O cristianismo clássico nos ensina que não há salvação à parte da fé na obra expiatória de Jesus Cristo. O novo modelo ensina que muitos são salvos à parte da fé em Cristo, que o Espírito Santo pode trazer salvação mesmo a pessoas que não conhecem Cristo, o qual é apresentado menos como nosso sacrifício do que como nosso exemplo.
O cristianismo clássico ensina que nosso estado eterno é a imortalidade ou no céu ou no inferno. O novo modelo ensina que os maus são aniquilados, mas que a não ser isso, o céu estará aberto para todos.[126]

O novo modelo reflete diversos princípios pós-modernistas: pouca atenção a absolutos; falta de confiança em transcendência; preferência por “mudança dinâmica” sobre “verdade estática; o desejo de pluralismo religioso para que pessoas de outras culturas e religiões sejam salvas; atenção restrita à idéia da autoridade de Deus sobre nós; o espírito de tolerância, sentimentos calorosos, e a psicologia pop. Apesar de todos seus pensamentos bonitos, porém, a teologia da megamudança é uma facada que atinge a raiz de qualquer fé que se possa chamar de evangélica—a boa nova que Jesus Cristo morreu sobre a cruz para expiar a culpa de nossos pecados e oferecer-nos o dom gratuito da salvação. O próprio evangelho está em perigo.

Os teólogos dessa megamudança entendem a morte de Cristo na cruz como sendo a forma que Deus usou para nos mostrar o quanto nos ama. Por essa ótica, Cristo não expia nossos pecados, visto que nossos pecados nada mais são do que nossos atos individuais. Jesus não é nosso sacrifício; ao contrário, ele é nosso exemplo. Ele mostra como devemos amar uns aos outros. Sua morte na cruz nos faz ter pena dele, e quando reconhecemos o quanto ele sofreu, isso nos faz sentir o amor de Deus. Motiva-nos a mudar nossa vida e amar os outros.

O evangelismo, conforme esse modelo, não compreende proclamar o juízo de Deus contra os pecadores e sua oferta graciosa da salvação pela fé em Jesus Cristo. Pelo contrário, o evangelismo simplesmente instrui as pessoas sobre o quanto Deus as ama. Deus realmente não quer castigar ninguém; ele quer que todos se sintam bem sobre si mesmos, que vivam uma vida plena e sejam felizes. Aqueles que se afastam de Deus irão perder toda essa vida abundante, embora o Espírito Santo possa bem trazê-los ao Céu mesmo se nunca tiverem conhecido a Cristo.

Embora essa teologia transforme Deus num terapeuta caloroso e indistinto, é essencialmente um ensino de moralismo e desespero, enfocado em obras humanas. Seu otimismo facilitado não dá consolo a almas atormentadas e não inclui nenhuma provisão eficaz para o perdão do pecado. “Pois se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão!” insiste o livro de Gálatas (2:21), o qual avisa solenemente contra tentar agradar os homens criando algum outro evangelho (1:6-10).

Michael Horton, crítico penetrante dessa teologia pseudo-evangélica, elucidou bem essa inversão centrada no humano:

Antes, Deus existia para sua própria felicidade, mas o novo deus existe para a nossa. Em lugar de pecadores terem que ser justificados diante de um deus bom e santo, nós mesmos somos agora os bons que exigimos que Deus se justifique diante de nós. Por que deveríamos acreditar nele? Como crer nele me fará mais feliz e mais realizado do que crer em Karma ou no mais recente carro de trio elétrico ideológico?[127]

É simplesmente grotesca a arrogância e superficialidade daqueles que desejariam se chegar diante de Deus exigindo satisfação ao consumidor, tratando o Santo de Israel como se ele fosse uma mera escolha dentre muitas opções.

Horton olha de frente o fato de que a revelação de Deus poderá não ser aquilo que queremos ou gostamos:

Vejamos. Há muita coisa que encontramos na Bíblia de que não gostamos nem um pouquinho. Há muito na mensagem cristã que nos ofende. Deus deve existir para cuidar que eu receba o que quero; para que eu seja feliz. O papel da cruz é mostrar às pessoas o quanto Deus nos ama e quer que imitemos o amor e compaixão de Cristo. Está lá para levantar nossa estima própria e mostrar o quanto nós valemos. Mas como o inferno pode fazer as pessoas felizes? Como pode reformar as pessoas? É que justamente nesses nossos dias, parece que não estamos fazendo as perguntas que a Bíblia responde.
Segundo a Escritura a pergunta universal não é “Como posso eu ser feliz?” e sim “Como posso eu ser salvo?[128]

 [Continua nos próximos dias...]

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Notas:
[112] George Gallup, Jr., and Robert Bezilla, "U.S. Religious Composition Changes; Fervor Constant", Princeton Religion Research Center (1993), Religious News Service, em Reporter: News for Church Leaders, agosto 1993, 16. As estatísticas sobre americanos que afirmam ser cristãos são extraídas de uma pesquisa da Gallup citada por Charles Colson, The Body (Dallas: Word Publishing, 1992), 46.
[113] George Barna, The Barna Report: What Americans Believe (Ventura CA: Regal, 1991), 292-294. 3. Bill Hall, "Is the Church Growth Movement ReallyWorking?" em Power Religion: The Selling Out of the Evangelical Church, ed. Michael Horton (Chicago: Moody Press, 1992), 142-143.
[114] Ver a discussão de Colson sobre esse ponto, The Body, 31.
[115] Leith Anderson, A Church for the Twenty-First Century (Minneapolis: Bethany House, 1992), 20.
[116] Idem, 21.
[117] Leith Anderson deu esse exemplo numa oficina, "Facing the Future", na convenção da Evangelical Press Association, 12 maio 1993, St. Paul, MN.
[118] Barna, Barna Report, 83-85, 292-294.
[119] Colson, The Body, 43-44.
[120] Ver Roger Lundin, The Culture of Interpretation: Christian Faith and the Postmodern World (Grand Rapids,MI: Eerdmans, 1993), 5-6.
[121] Sobre as várias manifestações da mentalidade de poder na igreja, ver Michael Horton, ed., Power Religion: The Selling Out of the Evangelical Church (Chicago: Moody Press, 1992).
[122] Ver, por exemplo, Alister E. McGrath, Luther's Theology of the Cross (Oxford: Basil Blackwell, 1985).
[123] Colson, The Body, 44-47. O termo "hot-tub religion" vem de J. I. Packer.
[124] Ver Robert Brow, "The Evangelical Megashift", Christianity Today, 19 fevereiro 1990, 12-14.
[125] "Theology at a Glance", Modern Reformation, janeiro/fevereiro 1993, 33.
[126] Michael S. Horton, "How Wide Is God's Mercy" Modern Reformation, janeiro/fevereiro 1993, 8.
[127] Michael S. Horton, "What is theMegashift?" Modern Reformation, janeiro/fevereiro 1993, 1.
[128] Ernest Gellner, Postmodernism, Reason and Religion (London: Routledge, 1992), 96.

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