O cristianismo pós-moderno - 2/2

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Por Gene Edward Veith, Jr.


A opção confessional 

O antropólogo britânico Ernest Gellner vem estudando a fragmentação da cultura contemporânea e o quanto ela precisa, como todas as culturas, de uma religião, uma visão de mundo abrangente para fornecer valores e significado. Conclui que agora só há três alternativas religiosas: o relativismo pós-moderno, o fundamentalismo racionalista e o fundamentalismo religioso.

Gellner mesmo aconselha o que chama de “fundamentalismo racionalista”, um retorno honrado aos ideais do iluminismo. Como o fundamentalismo religioso, esse racionalismo confessadamente dogmático acredita em verdades absolutas e transcendentes. Concorda com os relativistas, porém, ao rejeitar a revelação e a certeza intelectual.

O “relativismo pós-moderno”, entretanto, Gellner acha quase que desprezível. Depois de uma crítica contumaz dos pós-modernistas, ele os dispensa de vez:

Aos relativistas, só se pode dizer isto—vocês fornecem uma explicação excelente da maneira em que escolhemos nosso cardápio ou nosso papel de parede. Como explicação das realidades de nosso mundo e como guia à conduta, sua posição é risível.[129]

Gellner, embora secularista comprovado, respeita muito mais os fundamentalistas religiosos:

Os fundamentalistas merecem nosso respeito por dois motivos: eles, como nós, reconhecem que a verdade é única, evitando a auto-decepção fácil do relativismo universal; e eles são nossos antecessores intelectuais. Sem entregar-nos à idolatria exagerada dos ancestrais, nós lhes devemos uma medida de reverência. Sem um monoteísmo sério, para não dizer obcecado..., o naturalismo racional do Iluminismo poderia nunca ter vindo à luz do dia. Com toda certeza, a fixação em uma única Revelação foi a pré-condição histórica para a emergência bem sucedida de uma Natureza singular e simetricamente acessível.... Sem um impulso religioso forte em direção a um só mundo bem ordenado, e o consequente escape da incoerência oportunista e manipuladora, é provável que o milagre cognitivo não tivesse ocorrido.[130]

Gellner vê o fundamentalismo religioso não só como o venerável antepassado do modernismo, mas como opção legítima para o mundo de hoje.

Infelizmente, o tipo específico de fundamentalismo religioso que ele estuda e que vê como possuindo mais vigor é o fundamentalismo islâmico. O cristianismo (pelo menos a versão que lhe é conhecida na Inglaterra) deve lhe parecer tão corrompida, tão comprometida e obediente ao restante da cultura, que ele não a leva a sério. Os crentes realmente precisam estar acordados para o fato que o islã está se tornando seu maior competidor religioso através do mundo. A igreja na África já enfrenta luta intensa e perseguição vinda do islã. Não sendo mais somente uma religião do Oriente Médio, o islã se estende através da África e Ásia, é uma presença forte nos estados ex-comunistas, e está ganhando terreno na Europa Ocidental e Estados Unidos. Um islã militante e intransigente poderá emergir como a religião pós-modernista mais potente, contra a qual nem os racionalistas tímidos, nem os relativistas aguados, e nem os cristãos, querendo agradar a todos, poderão ter força suficiente.

A posição do próprio Gellner, que ele chama com franqueza louvável de “fundamentalismo racionalista”, dogmaticamente inclui a razão objetiva e o método científico. Gellner, como cada vez mais estudiosos e pensantes que estão se acordando para as consequências do pós-modernismo, tenta desesperadamente voltar aos valores do iluminismo e reinstituir o modernismo. Eu creio que o esforço é fútil. Gellner refuta facilmente o pós-modernismo pela análise racional, mas não é aí que está o problema. Aqueles que rejeitam completamente o racionalismo dificilmente serão movidos pela lógica de Gellner, por impecável que seja. A cultura está se acelerando numa direção bem diferente. O relativismo pós-modernista pode ser “risível”, mas não poderá ser tão facilmente descartado.

Para que o cristianismo seja uma alternativa viável ao modernismo (que agora está desacreditado), ao pós-modernismo (uma anarquia formalizada sob a qual poucas pessoas conseguem subsistir por muito tempo) e, para completar, ao fundamentalismo islâmico, ele precisa pôr a casa em ordem. O cristianismo não pode se entregar ao modernismo, como na teologia liberal, nem ao pós-modernismo, como na teologia da megamudança. Tanto o liberalismo como o evangelicalismo de megamudança se rendem à cultura. Vender-se à cultura dominante, ironicamente, não é fórmula para o sucesso e sim para o fracasso. As igrejas liberais procuraram apelar ao “homem moderno” aceitando de braços abertos o modernismo, mas ao fazer isso tornaram-se irrelevantes e morreram quando o clima mudou. Igrejas evangélicas que aceitam sem críticas o pós-modernismo estão em perigo de sofrer a mesma sorte. Capitulando ao espírito dos tempos, ambas as teologias sincréticas recusam ministrar às necessidades espirituais genuínas dos seres humanos que se acham perdidos ou no labirinto do modernismo, que lhes nega o sobrenatural, ou no pós-modernismo, que lhes nega a verdade.

“Não sabemos ainda o que o futuro proporcionará”, escreve Diogenes Allen, “mas está claro que é exigida uma reavaliação fundamental da fé cristã—libertada dos posicionamentos da mentalidade moderna que em geral se têm apresentado hostis a qualquer ótica religiosa”.[131] Allen salienta que a era pós-moderna já torna possível a recuperação da ortodoxia cristã, atacada desde o iluminismo: “Não mais pode o cristianismo ser colocado na defensiva, como ocorria durante os últimos trezentos anos mais ou menos, pela visão tacanha da razão e pela dependência da ciência clássica tão características da mentalidade moderna”.[132]

Thomas Oden crê que a ortodoxia cristã clássica irá mesmo reaparecer na era pós-moderna. Para Oden, o colapso do comunismo marca o colapso do modernismo, e ele acha um significado imenso na sobrevivência e vindicação da igreja ortodoxa russa, cujas tradições pouco têm mudado desde os primeiros séculos. Oden descreve como fútil o protestantismo liberal, com o qual esteve associado por certo tempo. Ele observa como os teólogos de todas as tradições estão se voltando à Bíblia, estudando a igreja primitiva, e recuperando a sabedoria e espiritualidade dos pais da igreja. “Os crentes pós-modernos”, escreve ele, “são aqueles que, tendo aceito de boa fé as disciplinas da modernidade, e tendo se desiludido com as ilusões da modernidade, estão de novo estudando a Palavra de Deus revelada na história”.[133]

Oden acredita que os pós-modernistas sejam na realidade hipermodernistas, forçando o ceticismo modernista aos seus últimos limites. Em lugar de oferecer uma alternativa genuína ao modernismo, como faz a ortodoxia cristã, os relativistas culturais representam nada mais que os estertores de morte do modernismo. Espero que ele tenha razão, mas creio que Oden, como Gellner, subestima os pós-modernistas, cujas idéias agora permeiam toda a sociedade. Também suspeito que ele esteja otimista demais quanto ao triunfo do cristianismo clássico, que certamente deve enfrentar grande oposição numa sociedade cada vez mais relativista. Entretanto, Oden lança um apelo comovente para que os cristãos aceitem a morte do modernismo e se engagem na nova época pela recuperação de sua herança doutrinária e espiritual.

Gellner vê algum tipo de “fundamentalismo”, quer racionalista ou religioso, como a opção preferível (na verdade a única opção) ao relativismo. O termo “fundamentalismo”, contudo, é um remanescente das disputas sobre o modernismo. O termo caiu em descrédito mesmo entre aqueles a quem Gellner pressupõe que seja aplicável. Além disso, no mundo pós-moderno a palavra tem as conotações associadas com o fundamentalismo islâmico, com seus mulás autoritários e sua austeridade de decepar mãos. Não é nem um pouco o que os cristãos, que têm um conceito muito diferente de lei, cultura e graça, desejariam transmitir.

As igrejas que resistiram ao regime de Adolfo Hitler, aquele primeiro estado pós-modernista, atribuíam a si o nome de igrejas “confessionais”. Confessavam sua fé contra uma igreja sincretista e contra o estado totalitário, assumindo posição sobre a Palavra de Deus e a doutrina cristã, conforme expressa em suas confissões de fé históricas.[134] Em honra delas e em reconhecimento de que muitas das questões serão exatamente as mesmas, poderíamos falar em cultivar um “cristianismo confessional”.

Os cristãos, se vão constituir uma alternativa ao relativismo pós-moderno, precisam confessar sua fé na palavra e na ação. Isso significa conhecer qual é essa fé. 

Os crentes de cada corpo eclesiástico poderiam começar pelo retorno à sua própria herança doutrinária. Luteranos, calvinistas e outras igrejas históricas têm confissões formais redigidas daquilo que crêem. Anglicanos, católicos e ortodoxos têm tradições teológicas ricas e rigorosas. Outras denominações têm posições teológicas menos estritamente definidas, mas mesmo assim têm suas confissões de fé e sua herança baseada na Bíblia, que devem reassumir. Fazendo isso, poderão recuperar sua vitalidade e testificar o cerne da verdade bíblica que se levantará como testemunho abrasador diante da cultura relativista. Igrejas bíblicas com integridade doutrinária terão testemunho mais forte do que congregações confusas, ansiosas por agradar a todos, que nada de especial representam.

O confessionalismo não deverá significar “ortodoxia morta”, insistência em algum tipo de pureza doutrinária às custas de uma fé aquecida, pessoal. O alvo deve ser “ortodoxia viva”, uma fé tanto experiencial quanto baseada na verdade, com espaço tanto para os sentimentos quanto o intelecto. Em certas épocas da história da igreja, a doutrina têm sido enfatizada até o exagero, mas é difícil ser esse um problema numa sociedade em que toda a tendência é negar a verdade inteiramente.

Enfatizar a doutrina ressaltará as diferenças doutrinárias entre as várias tradições cristãs, mas isso não precisa significar uma luta religiosa destrutiva. As várias tradições precisam ser recuperadas antes que possam ser apreciadas ou então desafiadas; e uma vez reestabelecidas, os debates sobre quais teologias estão mais de acordo com a Bíblia poderiam ser retomadas, porque a teologia mais uma vez seria levada a sério. O debate teológico vibrante poderia robustecer a igreja. O método ecumênico da unidade—extinguir todas as crenças características—fracassou, mas o confessionalismo rigoroso, combinado à percepção de quem são os inimigos verdadeiros da igreja, poderia não só ser edificante como também unificador. A unidade da igreja, afinal, como o Apóstolo Paulo declara explicitamente, compreende a diversidade, um Corpo consistindo de diversos órgãos (1 Coríntios 12). Essa síntese de unidade e pluralismo quase soa como pós-moderna. 

Apropriando-se do pós-modernismo

Tanto o apelo de Michael Horton por um retorno à teologia reformada quanto o projeto de Thomas Oden para que se recupere a teologia da igreja primitiva, acabam sendo um chamado a um novo confessionalismo cristão. O clima intelectual pós-moderno teoricamente deveria abrir espaço para isso. Um porta-voz do pósmodernismo o disse bem: “A idéia de que todos os grupos tenham direito de se pronunciar em seu próprio favor, com sua própria voz, e dessa voz ter aceitação como autêntica e legítima é essencial à posição pluralista do pós-modernismo”.[135] Certamente isso deveria incluir as comunidades cristãs, que partilham as mesmas crenças e a mesma linguagem teológica. Se o pós-modernismo busca trazer o marginal ao centro, fica evidente que o cristianismo vem sendo colocado às margens do pensamento nos dias atuais. Além disso, como Oden mostra, a igreja é uma das poucas instituições que é realmente global, multicultural e de múltiplas gerações.[136]

Os cristãos confessionais podem até tomar parte na demolição pós-moderna do modernismo, que ainda tem forte cidadela no estabelecimento teológico. Há a necessidade urgente, por exemplo, de desafiar a abordagem histórico-crítica das Escrituras, que vem corrompendo a autoridade da Bíblia em todas as denominações principais. A crítica pós-moderna poderá mostrar como essa erudição bíblica, supostamente científica e objetivamente histórica, com sua rejeição do sobrenatural e especulações naturalistas sobre o texto da Bíblia, positivamente não é nem objetiva nem científica. As ferramentas da erudição pós-moderna poderiam expor a maneira em que o método histórico-crítico, com toda sua pretensão à objetividade, meramente disfarça a visão de mundo modernista, e que é pura especulação passar além da linguagem do texto bíblico. Alguns estudiosos já iniciaram esse processo, mas há muito a fazer antes que seja plenamente desmontada a erudição bíblica liberal.

Os cristãos confessionais também poderão se apropriar das percepções da erudição pós-moderna levando a sério o pecado e dando ênfase às implicações epistemológicas da queda original. A razão humana é mesmo inadequada, como afirmam os pós-modernistas; mas os crentes baseiam suas crenças não na razão, e sim na revelação. Somos inteiramente dependentes da linguagem, como os pós-modernistas dizem; mas os cristãos baseiam sua fé na linguagem de Deus, isto é, na Bíblia como Palavra de Deus. Os pós-modernistas dizem que o sentido é algo que só se pode determinar dentro da “comunidade interpretativa”. Para os crentes, a igreja é sua comunidade interpretativa.[137]

Embora os cristãos possam fazer uso da erudição pós-moderma, de certo ponto em diante terão de desafiar essa erudição. Os crentes, embora questionem depender-se unicamente da razão, acreditam em verdades absolutas. Visto que Deus se revela em linguagem, a linguagem não é intrinsecamente enganadora; pelo contrário, a linguagem é reveladora e pode expressar verdade. Deus—e não a cultura—é origem do significado, da verdade, dos valores. Como autor da existência, Deus é autoritativo. Sendo assim, certas verdades absolutas e valores transcendente são universais no seu escopo e aplicação.

Os crentes estarão em situação de poder responder aos dilemas que os pós-modernistas, quando honestos, enfrentam. “De agora em diante, insistirão os teoristas modernos, não há bases de valor absoluto  que possam forçar uma concordância”, observa Steven Connor. “Mas em tal situação, as perguntas sobre valor e legitimidade não desaparecem; ao contrário ganham nova intensidade”.[138] O pós-modernismo não consegue responder a essas perguntas, por mais urgentes e intensas que sejam. David Harvey, diante da superficialidade e comercialismo da maneira de pensar pós-modernista, insiste em “um contra-ataque da narrativa contra a imagem, da ética contra a estética” e uma “busca da unidade dentro das diferenças”.[139] Mas fazer isso requer uma transcendência que o pós-modernismo não explica.

Num pronunciamento ao Congresso, Václav Havel, o teatrólogo que se levantou de uma prisão comunista para ser presidente da Checoslováquia livre, falou pelo Leste bem como pelo Oeste:

Ainda não sabemos como pôr a moralidade adiante da política, da ciência e da economia. Ainda somos incapazes de entender que a única coluna dorsal de nossas ações—se vão ser éticas—é a responsabilidade. Uma responsabilidade para com algo superior à minha família, meu país, minha firma, meu sucesso.[140]

Mas ao que—ou a Quem—somos responsáveis? O que?--ou Quem—é superior a tudo que podemos ver? Como diz Postman, não é suficiente estar libertado de uma teoria falha—precisamos de uma teoria melhor, mas a tecnopolia não nos dá resposta alguma.[141]

O cristianismo, ao contrário, poderá dar uma resposta. Os crentes pós-modernos não devem, contudo, esperar se dar bem às mãos dos pós-modernistas. Os crentes serão denunciados por “pensar que possuem a única verdade”. Serão condenados por sua intolerância, por “tentarem forçar suas crenças em todo mundo”. Os cristãos já podem esperar não ser incluídos quando os pós-modernistas clamam por tolerância e pluralismo. Com a cultura se tornando cada vez mais sem lei e brutal, os cristãos poderão até provar a perseguição. A igreja poderá crescer ou não em tal clima. Eu suspeito que ela vai se encolher até restar apenas um remanescente fiel. Mas a Igreja de Jesus Cristo não pode ser vencida pelas portas do Inferno, muito menos por uma cultura (Mateus 16:18). 

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Notas:
[129] Idem, 95-96.
[130] Diogenes Allen, Christian Belief in a Postmodern World (Louisville, KY: Westminster/John Knox Press, 1989), 2.
[131] Idem, 2.
[132] Thomas C. Oden, Two Worlds: Notes on the Death of Modernity in America and Russia (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1992), 53. Ver também seu livro After Modernity--What?: Agenda for Theology (Grand Rapids, MI: Academic Books, 1990).
[133] Conto a história deles que é inspiradora e instrutiva no meu livro Modern Fascism: Liquidating the Judeo-Christian Worldview (St. Louis: Concordia Publishing House, 1993).
[134] David Harvey, The Condition of Postmodernity (Cambridge, MA: Basil Blackwell, 1989), 48.
[135] Oden, Two Worlds, 54.
[136] James W. Voelz, "Multiple Signs, Levels of Meaning and Self as Text: Elements of Intertextuality"convenção da Society of Biblical Literature, San Francisco, novembro 1992.
[137] Steven Connor, Postmodernist Culture: An Introduction to Theories of the Contemporary (Oxford: Basil Blackwell, 1989), 8.
[138] Harvey, Condition of Postmodernity, 359.
[139] Citado em Neil Postman, Technopoly: The Surrender of Culture to Technology (New York: Vintage Books, 1993), 82.
[140] Idem.

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Fonte: Tempos pós-modernos, Uma avaliação cristã do pensamento e da cultura da nossa época. Gene Edward Veith, Jr. Ed. Cultura Cristã

• Leia também a primeira parte aqui!
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O cristianismo pós-moderno - 1/2

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Por Gene Edward Veith, Jr.


De muitas maneiras, a igreja não pode deixar de ser apanhada nas mudanças pós-modernas. Já vimos o quanto é altamente segmentada a sociedade pós-moderna, com diferentes grupos se fragmentando em suas próprias subculturas. O exemplo mais claro desse fenômeno pode estar na própria área dos conservadores. 

Os crentes hoje têm suas próprias escolas, suas próprias faculdades, suas próprias livrarias, sua própria indústria do entretenimento e sua própria mídia. Os pós-modernistas reivindicam que, como não pode haver um consenso universal, as pessoas que compartilham uma mesma linguagem e visão de mundo devem formar suas próprias comunidades auto-suficientes. E isso está realmente acontecendo no cristianismo contemporâneo. Os crentes que denunciam a subcultura cristã devem reconhecer que a alternativa poderá ser a extinção cultural. O cristianismo foi excomungado da cultura geral—sistematicamente excluído das escolas, do estabelecimento intelectual e da mídia. O estabelecimento de escolas, editoras, grupos de artes, radiodifusoras, empresas, etc. poderá ser uma das grandes realizações da igreja do século vinte e um. À medida que as pressões pós-modernistas se intensificam, ter instituições na direção oposta já colocadas poderá provar ser de valor incalculável para que os crentes possam apresentar uma resistência eficaz.


Os cristãos deverão aproveitar estas suas bases para incursões na cultura geral e para exercerem sua influência em todos os níveis. Certamente devem resistir à tentação de permanecer na segurança do “gueto cristão”. Contudo, poderão se ver aceitos só até certo ponto. Geralmente as pessoas não escolhem viver num gueto. Os guetos judeus e de negros eram meios de exclusão, e os crentes podem esperar ser excluídos de um mundo cada vez mais sem Deus. Os judeus do gueto de Varsóvia e os pretos de Harlem dos anos 20 foram barrados da corrente geral, mas isso não os impediu de ter uma vida cultural própria, vibrante e rica. Os crentes poderão aspirar o mesmo.


O problema não é os cristãos terem suas próprias instituições paralelas, mas que essas instituições costumam às vezes ser tão semelhantes às seculares. Surpreende a freqüência com que a mentalidade cultivada pela subcultura evangélica se assemelha à do pós-modernismo secular.


A rejeição pós-modernista da objetividade permeia a igreja evangélica. “Temos uma geração menos interessada em argumentos cerebrais, pensamento linear, sistemas teológicos”, observa Leith Anderson, “e mais interessada em encontros com o sobrenatural”.[116] Em consequência, as pessoas que vão à igreja funcionam num paradigma diferente de espiritualidade. “O velho paradigma ensinava que se você tivesse o ensino, a doutrina certa, você teria experiência de Deus. O novo paradigma diz que se você tiver a experiência de Deus, você terá a doutrina certa”.[117] Não só fica a doutrina objetiva minimizada em favor de uma experiência subjetiva; a experiência realmente se torna o critério para se avaliar a doutrina. 

Anderson, pastor de uma megaigreja e consultor de crescimento de igrejas, diz que os pastores precisarão de lidar cada vez mais com pessoas como o jovem que vimos antes que diz que crê na inerrância da Escritura, na teologia reformada, e na reencarnação. Dizer-lhe que crer na reencarnação é incoerente com crer na Bíblia poderá não lhe dizer quase nada. A nova geração (o pastor poderia ter dito a geração pós-modernista) simplesmente não raciocina em termos sistemáticos. O jovem gosta da Bíblia, de João Calvino, e de Shirley MacLaine. Cada um destes faz sentido para ele. Consegue conviver com as contradições.[118]

Essa tendência de deixar para o segundo plano a doutrina e o pensamento objetivo ajuda a explicar porque 53 por cento dos crentes evangélicos conseguem acreditar que não existem absolutos (comparado aos 66 por cento dos americanos em geral).[119] É claro que a tradição evangélica sempre cultivou as emoções e enfatizou uma religião experiencial, em oposição a mero “conhecimento mental”. Essa abertura a sentimentos pessoais e experiência constitui um ponto de contato com o pós-modernismo, que já foi adiante exagerando o papel da subjetividade até um ponto além de qualquer coisa que pudesse ser reconhecida por um “evangélico quente” do século dezenove.

De modo similar, os evangélicos vêm mostrando a tendência de enfatizar o papel da escolha na salvação. As pessoas são instigadas a fazer uma “decisão por Cristo”, um compromisso sempre descrito como função da vontade humana. Essa terminologia coaduna bem com a mentalidade pós-modernista, que entende religião e moralidade em termos de opção, não de verdade.

Quando os evangélicos se aprofundam em sua própria rica herança teológica, entretanto, encontram mais substância nessa “teologia da decisão” do que haviam percebido. Para Lutero, Calvino, Santo Agostinho e muitos outros teólogos bíblicos, a vontade humana está em servidão ao pecado, de maneira que nossas escolhas nos afastam de Deus. Na salvação nós não escolhemos Deus; ele nos escolhe. Não somos salvos por nossa vontade, mas pela graça de Deus que transforma nossa vontade pecaminosa pelo poder do Espírito Santo. Então, e somente então, é que se pode dizer que temos a liberdade da vontade e somos capacitados a “escolher Cristo”. Mesmo teólogos, tais como Armínio, Wesley e Aquinas, que criam que a vontade humana é livre e precisa cooperar no processo da salvação, não viam a salvação como pura opção autônoma.

O evangelicalismo, tendo talvez negligenciado sua teologia, parece atraente aos pós-modernistas, portanto, pelo seu emocionalismo quente e sua exaltação da escolha. Outras práticas que os evangélicos têm seguido durante anos (como estudos bíblicos e grupos de oração) de repente encontraram nova ressonância nos meios pós-modernistas (com seu gosto por grupos de apoio e o cultivo da identidade do grupo). Mas, embora as tradições do evangelicalismo possam ser boas maneiras de atrair os pós-modernistas para evangelizá-los, por vezes a conversão tem tomado a direção contrária.

Já vimos como o pós-modernismo é aberto à cultura popular e à franca comercialização. A arte, a política e as idéias—desligadas da realidade objetiva—são todas colocadas de modo a satisfazer o gosto do consumidor. A retórica e marketing em massa substituem a persuasão racional. O pós-modernismo incentiva a mentalidade de consumidor, sempre voltada para o que as pessoas apreciam e querem. Isso se extrapola à religião, como vimos. Quando a verdade deixa de ser fator, a pessoa escolhe sua religião como qualquer outro produto—eu gosto? Isso me dá o que quero?

Charles Colson conta o caso de uma igreja evangélica que decidiu que precisava crescer em número de membros. Primeiro o pastor encomendou uma pesquisa de mercado. Descobriu que muitas pessoas tinham uma restrição à palavra “Batista”. A igreja mudou de nome. A pesquisa mostrou que as pessoas queriam mais acesso, e por isso a igreja construiu outro prédio perto da rodovia. Essa tinha tetos com vigas aparentes, lareiras de pedra, e era sem cruzes ou outros símbolos religiosos que pudessem causar desconforto às pessoas. Então o pastor decidiu parar de usar linguagem teológica. “Se usarmos as palavras redimir ou converter vão pensar que estamos falando em títulos financeiros” Parou de pregar sobre inferno e maldição eterna e passou a tópicos mais positivos. E a igreja cresceu, cresceu muito. “Reina o espírito de colocar as pessoas acima da doutrina” falou efusivamente um membro. “A igreja aceita totalmente as pessoas como são, sem qualquer espécie de faça e não faça”.[120] Abandonando assim sua doutrina e sua autoridade moral, e ajustando seu ensino às exigências do mercado, a igreja embarcou numa peregrinação ao pós-modernismo. 

Em lugar da pregação que conduz à convicção do pecado e à salvação através da cruz de Jesus Cristo, as igrejas pregam a mensagem do “sinta-se bem” que visa consolar e alegrar as pessoas. Há quem descreva a cultura pós-modernista como uma “cultura terapeuta”, na qual o sentimento de bem-estar social, e não a verdade, é o valor controlador.[121] A igreja dos nossos dias também enfrenta a tentação de substituir pela teologia a terapia.

Visto como o pensamento pós-moderno se impacienta com as crenças espirituais transcendentes, o enfoque muda para o aqui e agora, para o que se sente e se toca. As pessoas têm pouco interesse no céu; querem a saúde e a prosperidade já. Como os pós-modernistas são orientados ao poder, serão atraídos a igrejas de poder que prometem milagres para resolver todos os problemas, força política, crescimento geométrico nos números, e um sucesso atrás do outro.[122] (Lutero estava pensando em algo semelhante quando contrastou a “teologia da glória” baseada no poder e orgulho, com a “teologia da cruz” baseada em nossa própria humilhação e o sofrimento de Jesus Cristo).[123]

Colson critica severamente as teologias da “religião do relax” e a capitulação à cultura popular do “McIgreja”. O consumismo na igreja, ele afirma, “dilui a mensagem, altera o caráter da igreja, perverte o evangelho, e desfaz a autoridade da igreja”.[124]

Ainda mais sério do que o consumismo da igreja (embora geralmente o acompanhe), a própria teologia evangélica em alguns lugares tem se rendido à ideologia pós-modernista. Essa nova teologia, conforme desenvolvida por teólogos acadêmicos e conforme evidenciada em inúmeras livrarias e púlpitos evangélicos, já foi descrita como uma megamudança que se desvia do protestantismo clássico para um entendimento completamente diferente (e essencialmente pós-modernista) do evangelho.[125]

A teologia da megamudança tenta amaciar as arestas duras da ortodoxia bíblica e acomodar os valores e mentalidade da sociedade contemporânea. Michael Horton explica a nova teologia através de uma série de contrastes:

Onde o cristianismo clássico frisa a transcendência de Deus e sua imutabilidde, onipotência e onisciência, o novo modelo frisa a imanência de Deus, que é dinâmico, é capaz de alteração, e está em parceria com sua criação. O cristianismo clássico vê toda a raça humana como implicada na Queda de Adão. Sendo assim, somos todos corrompidos e condenados. O pecado é uma condição. Mas o novo modelo nega a queda universal. Não somos culpados pelo pecado de Adão, exceto na medida em que seguimos o mau exemplo moral de Adão. O pecado é um ato.
O cristianismo clássico ensina que nosso problema é nossa condenação, que todos nos achamos debaixo da ira de Deus. O novo modelo ensina que nosso problema é essencialmente a ignorância—não sabemos o quanto Deus nos ama.
O cristianismo clássico nos ensina que não há salvação à parte da fé na obra expiatória de Jesus Cristo. O novo modelo ensina que muitos são salvos à parte da fé em Cristo, que o Espírito Santo pode trazer salvação mesmo a pessoas que não conhecem Cristo, o qual é apresentado menos como nosso sacrifício do que como nosso exemplo.
O cristianismo clássico ensina que nosso estado eterno é a imortalidade ou no céu ou no inferno. O novo modelo ensina que os maus são aniquilados, mas que a não ser isso, o céu estará aberto para todos.[126]

O novo modelo reflete diversos princípios pós-modernistas: pouca atenção a absolutos; falta de confiança em transcendência; preferência por “mudança dinâmica” sobre “verdade estática; o desejo de pluralismo religioso para que pessoas de outras culturas e religiões sejam salvas; atenção restrita à idéia da autoridade de Deus sobre nós; o espírito de tolerância, sentimentos calorosos, e a psicologia pop. Apesar de todos seus pensamentos bonitos, porém, a teologia da megamudança é uma facada que atinge a raiz de qualquer fé que se possa chamar de evangélica—a boa nova que Jesus Cristo morreu sobre a cruz para expiar a culpa de nossos pecados e oferecer-nos o dom gratuito da salvação. O próprio evangelho está em perigo.

Os teólogos dessa megamudança entendem a morte de Cristo na cruz como sendo a forma que Deus usou para nos mostrar o quanto nos ama. Por essa ótica, Cristo não expia nossos pecados, visto que nossos pecados nada mais são do que nossos atos individuais. Jesus não é nosso sacrifício; ao contrário, ele é nosso exemplo. Ele mostra como devemos amar uns aos outros. Sua morte na cruz nos faz ter pena dele, e quando reconhecemos o quanto ele sofreu, isso nos faz sentir o amor de Deus. Motiva-nos a mudar nossa vida e amar os outros.

O evangelismo, conforme esse modelo, não compreende proclamar o juízo de Deus contra os pecadores e sua oferta graciosa da salvação pela fé em Jesus Cristo. Pelo contrário, o evangelismo simplesmente instrui as pessoas sobre o quanto Deus as ama. Deus realmente não quer castigar ninguém; ele quer que todos se sintam bem sobre si mesmos, que vivam uma vida plena e sejam felizes. Aqueles que se afastam de Deus irão perder toda essa vida abundante, embora o Espírito Santo possa bem trazê-los ao Céu mesmo se nunca tiverem conhecido a Cristo.

Embora essa teologia transforme Deus num terapeuta caloroso e indistinto, é essencialmente um ensino de moralismo e desespero, enfocado em obras humanas. Seu otimismo facilitado não dá consolo a almas atormentadas e não inclui nenhuma provisão eficaz para o perdão do pecado. “Pois se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão!” insiste o livro de Gálatas (2:21), o qual avisa solenemente contra tentar agradar os homens criando algum outro evangelho (1:6-10).

Michael Horton, crítico penetrante dessa teologia pseudo-evangélica, elucidou bem essa inversão centrada no humano:

Antes, Deus existia para sua própria felicidade, mas o novo deus existe para a nossa. Em lugar de pecadores terem que ser justificados diante de um deus bom e santo, nós mesmos somos agora os bons que exigimos que Deus se justifique diante de nós. Por que deveríamos acreditar nele? Como crer nele me fará mais feliz e mais realizado do que crer em Karma ou no mais recente carro de trio elétrico ideológico?[127]

É simplesmente grotesca a arrogância e superficialidade daqueles que desejariam se chegar diante de Deus exigindo satisfação ao consumidor, tratando o Santo de Israel como se ele fosse uma mera escolha dentre muitas opções.

Horton olha de frente o fato de que a revelação de Deus poderá não ser aquilo que queremos ou gostamos:

Vejamos. Há muita coisa que encontramos na Bíblia de que não gostamos nem um pouquinho. Há muito na mensagem cristã que nos ofende. Deus deve existir para cuidar que eu receba o que quero; para que eu seja feliz. O papel da cruz é mostrar às pessoas o quanto Deus nos ama e quer que imitemos o amor e compaixão de Cristo. Está lá para levantar nossa estima própria e mostrar o quanto nós valemos. Mas como o inferno pode fazer as pessoas felizes? Como pode reformar as pessoas? É que justamente nesses nossos dias, parece que não estamos fazendo as perguntas que a Bíblia responde.
Segundo a Escritura a pergunta universal não é “Como posso eu ser feliz?” e sim “Como posso eu ser salvo?[128]

 [Continua nos próximos dias...]

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Notas:
[112] George Gallup, Jr., and Robert Bezilla, "U.S. Religious Composition Changes; Fervor Constant", Princeton Religion Research Center (1993), Religious News Service, em Reporter: News for Church Leaders, agosto 1993, 16. As estatísticas sobre americanos que afirmam ser cristãos são extraídas de uma pesquisa da Gallup citada por Charles Colson, The Body (Dallas: Word Publishing, 1992), 46.
[113] George Barna, The Barna Report: What Americans Believe (Ventura CA: Regal, 1991), 292-294. 3. Bill Hall, "Is the Church Growth Movement ReallyWorking?" em Power Religion: The Selling Out of the Evangelical Church, ed. Michael Horton (Chicago: Moody Press, 1992), 142-143.
[114] Ver a discussão de Colson sobre esse ponto, The Body, 31.
[115] Leith Anderson, A Church for the Twenty-First Century (Minneapolis: Bethany House, 1992), 20.
[116] Idem, 21.
[117] Leith Anderson deu esse exemplo numa oficina, "Facing the Future", na convenção da Evangelical Press Association, 12 maio 1993, St. Paul, MN.
[118] Barna, Barna Report, 83-85, 292-294.
[119] Colson, The Body, 43-44.
[120] Ver Roger Lundin, The Culture of Interpretation: Christian Faith and the Postmodern World (Grand Rapids,MI: Eerdmans, 1993), 5-6.
[121] Sobre as várias manifestações da mentalidade de poder na igreja, ver Michael Horton, ed., Power Religion: The Selling Out of the Evangelical Church (Chicago: Moody Press, 1992).
[122] Ver, por exemplo, Alister E. McGrath, Luther's Theology of the Cross (Oxford: Basil Blackwell, 1985).
[123] Colson, The Body, 44-47. O termo "hot-tub religion" vem de J. I. Packer.
[124] Ver Robert Brow, "The Evangelical Megashift", Christianity Today, 19 fevereiro 1990, 12-14.
[125] "Theology at a Glance", Modern Reformation, janeiro/fevereiro 1993, 33.
[126] Michael S. Horton, "How Wide Is God's Mercy" Modern Reformation, janeiro/fevereiro 1993, 8.
[127] Michael S. Horton, "What is theMegashift?" Modern Reformation, janeiro/fevereiro 1993, 1.
[128] Ernest Gellner, Postmodernism, Reason and Religion (London: Routledge, 1992), 96.

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A direita e a esquerda



Por Gene Edward Veith Jr.


Parte da dificuldade em reconhecer o fascismo é o pressuposto de que ele é conservador. Sternhell observou como o estudo da ideologia foi obscurecido pela "interpretação oficial marxista do fascismo". O marxismo define o fascismo como seu extremo oposto. Se o marxismo é progressivo, o fascismo é conservador. Se o marxismo é de esquerda, então o fascismo é de direita. Se o marxismo defende o proletariado, o fascismo defende a burguesia. Se o marxismo é socialista, o fascismo é capitalista.

A influencia da escola marxista distorceu seriamente nossa compreensão sobre essa questão. O comunismo e o fascismo foram marcas rivais do socialismo. Enquanto o socialismo marxista pregava a luta de classes internacional, o nacional-socialismo fascista promoveu um socialismo centrado na unidade nacional. Tanto comunistas como fascistas se opunham à burguesia. Ambos atacavam os conservadores. Ambos foram movimentos de massa, que tinham uma simpatia especial pela intelligenstia, pelos estudantes e pelos artistas, assim como pelos trabalhadores. Ambos eram favoráveis a governos fortemente centralizadores e rejeitavam a livre economia e os ideais da liberdade individual. Os fascistas não se viam como de direita nem como de esquerda. Eles acreditavam que constituíam uma terceira força, que sintetizava o melhor dos dois extremos. Há importantes diferenças e amargos antagonismos ideológicos entre o marxismo e o fascismo; mas sua oposição mútua não deveria disfarçar seu parentesco como ideologias socialistas revolucionárias.

Tampouco as figuras de linguagem como direita e esquerda ou construções artificiais como reacionários e radical deveriam obscurecer o modo de pensar que permeia um largo espectro de posições políticas e sociais. A metáfora de esquerda e direita que retrata as duas ideologias revolucionárias como opostos extremos é profundamente enganadora. Jaroslav Krejci mostrou a inadequação da "imagem unilinear" de esquerda vs. direita. Ele indica que a metáfora vem da arrumação dos bancos no parlamento francês depois da Revolução. Politicamente, os que ficavam sentados à direita eram favoráveis a um monarca absoluto. Economicamente, eles eram favoráveis aos monopólios do governo e a uma economia controlada. Os que se sentavam à esquerda eram favoráveis à democracia, à economia de livre mercado, e à liberdade individual.

Tal metáfora espacial correspondia bem à geometria cartesiana do Iluminismo e às opções políticas do século 18, mas não funciona como um modelo da política do século 20. Em termos do modelo original, os conservadores norte-americanos que almejavam menos governo e confiavam no livre mercado seriam de esquerda. Os liberais que pretendiam uma economia mais direcionada pelo governo seriam de direita. Liberal e conservador são em si mesos termos relativos - dependentes do que cada um tem de manter. Os liberais do século 19, com sua economia de livre mercado e resistência aos controles governamentais, são os conservadores do século 20.

Quando pensamos em alternativas socialistas, como Krejci nos mostra, os limites de esquerda e direita se tornam sem sentido. Os marxistas declaram a prática da economia controlada e têm um governo geral forte e autoritário com controles rígidos sobre suas populações. Eles deveriam se sentar na ala direitista do parlamento francês. Por outro lado, os marxistas são revolucionários e assim são certamente anti-conservadores. O socialismo fascista, apesar de suas diferenças com o marxismo, é semelhante a este quanto a uma economia controlada, um forte governo central e um controle rígido sobre o populacho e, ao mesmo tempo, cultural e intelectualmente radical. Entretanto, como Krejci, diz "apesar das muitas afinidades entre eles, os comunistas continuam a ser visto como de extrema esquerda e os nazistas como de extrema direita". Como resultados, aqueles que acham que estão sendo esquerdistas "politicamente corretos" acusam os conservadores de "direita" de estar sendo fascistas, mas não se lembram das tendências fascistas que eles mesmos têm.

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Fonte: VEITH Jr, Gene Edward. O fascismo moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. págs.: 24,25
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