Coringa e “A Faca Entrou”: a perigosa atenuação da culpa

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A obra mais falada do cinema nos últimos dias é “Coringa” (Joker). O filme, aguardado com muita expectativa, traz um Joaquin Phoenix candidato ao posto de melhor ator do ano, tenha ou não o reconhecimento da Academia (entenda aqui ganhar o Oscar). E na minha humilde opinião, se o que ele ou outro ator tivesse entregado na atuação, ficasse abaixo do que vemos na tela, talvez o filme nem fosse tão aclamado como vem sendo.

O trabalho do diretor não é ruim. O roteiro é que deixou algumas coisas a desejar. Apesar de dois excelentes plot twists (uma mudança radical e surpreendente da narrativa), o fato do Coringa ter sido planificado como personagem me desagradou. Explico: Personagens planas e esféricas são uma denominação cunhada por E.M. Forster, retiradas da obra Aspectos do Romance. Ao meu ver, o Coringa da mais recente versão cinematográfica é uma personagem plana, unilateral. Arthur Fleck, a pessoa que se torna o arqui-inimigo do Batman, é alguém que apresenta uma inocência e uma fragilidade que nos faz ter muita simpatia por ele. Em boa parte da película vemos o homem com problemas mentais querendo encontrar o seu lugar no mundo. Querendo ser notado. Querendo ser amado. Mas a notabilidade e o amor não vem. O que Arthur Fleck acumula é fracasso, desdém, sofrimento, abandono, traição. Pobre Arthur…

O Coringa interpretado por Phoenix é mais vítima do que vilão. Isso me incomodou. Basicamente o que vemos em cena é que a resposta de Arthur Fleck para todo o mal que sofreu e absorveu é a violência. Justificada por uma vida de constantes abusos, a aparição do Coringa deixa a personagem sem sua vilania clássica. Ora, o Coringa é um psicopata, alguém mal que no universo dos quadrinhos cometeu inúmeras atrocidades. Faltou a este Coringa do cinema ser mais esférico (ainda usando E.M. Forster). Ele até poderia sofrer, ele até poderia ter seus traumas. Mas faltou um indicativo de pura maldade. Alguma coisa que mostrasse que mesmo com os fatores externos, havia algo de perverso em Arthur manifesto desde muito cedo. Nem que fosse arrancar a cabeça de uns bonecos.

Algumas pessoas vão me dizer que todo o enredo está sendo contado na ótica do próprio Coringa. Portanto, nem toda aquela narrativa significa ser verdadeira. Contraponho argumentando que esta é uma interpretação alternativa. O roteiro do filme não traz uma narrativa em primeira pessoa. Ele apresenta a estória. Ele apresenta a origem do vilão. Há, no mínimo, uma dubiedade de intenção ou de interpretação. Só que o que é apresentado na tela é o que o público médio vai entender: Coringa foi uma resposta da vilania social. Gothan, aqui funcionando mais como uma personagem do que como cenário, forjou Arthur.

Vi e ouvi inúmeras pessoas comentando exatamente o que coloquei acima. As pessoas saíram do cinema colocando a responsabilidade do Arthur ter virado o Coringa em tudo e em todos: na sociedade, na mãe, no Thomas Wayne, no apresentador do Talk Show (De Niro está ótimo aqui, por sinal), menos responsabilizando o próprio protagonista pelas suas ações. E aqui eu gostaria de usar a contribuição do Theodore Dalrymple para destacar o como que isto é problemático.

Dalrymple é o pseudônimo de Anthony Daniels. Hoje um aclamado e respeitado ensaísta britânico, mas que é médico psiquiatra de formação e a exerceu por muitos anos. Um dos seus livros mais recentes lançados em português é “A Faca Entrou” (É Realizações, 2018), recheado de histórias reais de assassinos conhecidos por Dalrymple quando ele atuava como clínico geral e psiquiatra numa penitenciária. O título da obra é explicado da seguinte maneira pelo seu autor:

No entanto observei um fenômeno peculiar na penitenciária onde comecei a trabalhar vinte anos atrás — o uso da voz passiva pelos prisioneiros como forma de se distanciar das próprias decisões e persuadir os outros da falta de responsabilidade por suas ações. A princípio, notei o fenômeno ao falar com assassinos que tinham esfaqueado alguém até a morte e, invariavelmente diziam “a faca entrou”, como se a faca tivesse guiado a mão em vez da mão guiar a faca. Um assassino desses pode ter cruzado a cidade levando a faca consigo para confrontar a exata pessoa de quem guardava um sério rancor. Ainda assim, foi a faca que entrou.

O livro do Darlrymple expõe a negação da culpa e a transferência de responsabilidade para fatores externos. Isso tem sido uma mudança de paradigma que vem levando a sociedade a acomodação da violência e contribuído para uma disfuncionalidade que espanta aqueles que dela se apercebem. Uma vida sofrida ou regada por humilhações não dão um aval para crimes serem cometidos. Falando sobre os prisioneiros com quem trabalhou, Darlrymple assume que, em sua maioria, eles “tiveram infâncias terríveis, cheias de crueldade e negligencia”. Só que não existe uma conexão simples ou inescapável que nos faça afirmar categoricamente que uma coisa está ligada a outra. “Em outras palavras, eles decidiram fazer o que fizeram”.

Tornar o sofrimento, os abusos ou as negligências como causas que servem de gatilhos para atos criminosos e/ou violentos é coisa de quem enxerga “lógica no assalto” (Não pegou a referência? Clica aqui). É sandice! Não queria entrar no mérito de jogar o roteiro do filme para ideologia A ou B, pois, de fato, não acredito que o filme tenha abraçado uma ideologia. Mas não dá para negar que há uma enorme fatia no pensamento progressista que gosta de usar desse tipo de atenuante para respaldar atos que para muitos são injustificáveis. Coringa se torna celebrado em Gothan. As pessoas o exaltam. Alguém que era para ser visto como vilão é visto por uns como uma espécie de herói dos desvalidos. Insano? Muito. Só que o que potencializa a insanidade é quando admitimos que ela é real. Quem não viu uma parcela da sociedade celebrar o ato e a pessoa do Adélio Bispo, o homem que tentou matar, o então candidato à Presidência, Jair Bolsonaro? O mesmo foi de herói de um grupo a alguém que não poderia responder por seus atos, tido posteriormente como mentalmente incapaz (Biruta, no polular).

Coringa, ou melhor, Arthur Fleck, tinha problemas mentais, como dito. No filme não fica muito claro qual ou quais, mas sabe-se que ele possuía. Seria o transtorno mental um atenuador para os futuros crimes cometidos? Ao responder ao advogado de defesa de uma mulher acusada de assassinato, e que fora diagnosticada com um certo distúrbio de personalidade, se aquele distúrbio não deveria atenuar a culpa da acusada, Darlrymple nos conta que deu a seguinte resposta: “O senhor está cometendo um erro de lógica. Um homem com câncer no pulmão tem a doença porque fuma; um homem que fuma não tem necessariamente câncer no pulmão”.

Na Sagrada Escritura, aprendemos que o homem é um ser caído. O pecado é uma realidade que afeta a totalidade do ser humano. Jesus nos diz que é do coração que “procedem os maus intentos, homicídios, adultérios, imoralidades, roubos, falsos testemunhos, calúnias, blasfêmias” (Mateus 5.19). Só que a própria Escritura também nos diz que o homem é responsabilizado por seus atos. A narrativa do primeiro homicídio é conhecida, Caim mata seu irmão Abel por inveja. Todavia, antes de cometer tal brutalidade, ele havia sido exortado: “Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? E por que está descaído o teu semblante? Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? E se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar”. (Gênesis 4.6 e 7).

Caim está para Coringa assim como José está para Bruce Wayne. A história de José narra um dos dramas familiares mais conhecidos do conteúdo bíblico (Começa em Gênesis 37). Sofreu bastante e foi capaz de responder de maneira diferente ao que muitos justificariam como sendo uma vingança compreensível. Já o Bruce Wayne, o Batman, sofreu ao ver seus pais morrendo diante de seus olhos — assassinados à sangue frio. Cercado de dinheiro, estava sem sua família. Uma criança sozinha no mundo. O Batman não sucumbiu a vilania “justificável”. Não é mesmo?

Sei que o Batman junto com José do Egito e o Theodore Darlrymple formaram um grupo bem mais estranho do que os componentes da Liga da Justiça e similares. Mas espero que eles lhe ajudem a ver o que eu vi e tenham clareado o meu argumento. Se você ainda não assistiu ao Coringa, assista. O filme pode até não ser tudo isso que falam, no entanto, é um bom filme e lhe fará pensar em muitas coisas. Vale ressaltar que todo e qualquer disparate deste texto (da minha análise como “crítico de cinema de araque”) é de minha inteira responsabilidade.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Review | A Alma do Mundo  - A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos, de Roger Scruton

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A Alma do Mundo — A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos. Autor: Roger Scruton. Rio de Janeiro. Ed. Record, 2017.

Confesso que essa foi a publicação que mais aguardei neste ano. Roger Scruton é um dos meus filósofos contemporâneos favoritos. Meu contato com os textos do filósofo se deram ainda na faculdade, quando comecei a ler sobre conservadorismo. Desde então tenho acompanhado suas publicações.

Review | Pilares da Fé - Franklin Ferreira

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PILARES DA FÉ | A atualidade da mensagem da Reforma. Edições Vida Nova 2017. Autor: Franklin Ferreira.

Neste ano comemora-se os 500 da Reforma Protestante. Dada essa importante e singular data, muitas obras tem sido publicadas no Brasil sobre o tema. Em especial destaco as publicações de Edições Vida Nova, empreendendo uma série de publicações sobre a História, Documentos e Teologia da Reforma.

Dentre as boas publicações, está o livro do pastor e professor Franklin Ferreira. Já é sabido, mas, vale notificar que Franklin é um dos mais expressivos teólogos do nosso país em nossa geração. Suas obras envolvem Teologia Sistemática, História da Igreja, Espiritualidade e Teologia Política. Além de escritor o pastor na Igreja da Trindade, Franklin está a frente do importante Seminário Martin Bucer que tem dado grande contribuição a Teologia Reformada no Brasil. Também exercendo importante trabalho junto as editoras Vida Nova e Fiel.

Chegando ao livro, então, gostaria de dizer algumas palavras sobre a obra do professor Franklin. O livro é fruto de uma série de palestras proferidas em 2015, entre 20 e 22 de novembro, na Igreja Batista Reformada do Ipiranga em São Paulo (p.11). De fato nada incomum, muitas grandes e expressivas obras foram frutos de palestras como por exemplo, o clássico livro de Abraham Kuyper - Calvinismo - ou o Rosto de Deus do filósofo Roger Scruton, bem como outra obra de Franklin sobre o Credo Apostólico, publicado pela editora Fiel.

Os Pilares da Fé, trada dos Cinco Solas da Reforma: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria. Com um prefácio do escritor e teólogo Solano Portela e uma apresentação feita pelo deputado estadual do Rio Grande do Sul, cristão luterano, Marcel Van Hattem. Iniciando, então, a obra mostrando a importância do livro nas esferas teológica e política em nosso país.

Alguns podem pensar: mas já não temos livros publicados sobre essa temática? Posso dizer que gosto bastante de outras publicações sobre o assunto, mas considero o livro de Franklin Ferreira importante por dialogar com nosso contexto no Brasil, aplicando de forma muito pastoral aos problemas correntes na teologia das igrejas no país e a realidade cultural e política do país.

Ao tratar do do primeiro sola, gostei muito quando Franklin trabalhou sobre a questão do Sola Scriptura e a Confessionalidade, tratando dos conceitos de Norma Normans e Norma Normata. Também a questão surgida posteriormente do Nuda Scriptura que rompe com a tradição confessional, asseverando que esta não valida o Sola Scriptura. Algo interessante dito pelo autor é que a Escritura é Deus falando conosco, os documentos confessionais somos nós confessando o que cremos, a Deus aos homens (paráfrase minha).

Ao tratar sobre o Solus Christus, Franklin trabalha de forma magistral a teologia da cruz em Lutero. O capítulo é profundamente evangélico e teologicamente reformado.

Os capítulos seguintes sobre o Sola Gratia e Sola Fide tratam sobre a Justificação Pela Fé Somente. Riquíssimos, posso dizer que este é um tipo de livro que todo cristão deveria ler. Com um sólido trabalho em Teologia Sistemática e Teologia Histórica, Franklin dialoga com grandes autores e nos trás valiosos ensinamentos e aplicações sobre a doutrina da justificação. Uma questão que me chamou atenção foi o diálogo do autor com a Declaração de Cambridge.

Ao final de cada capítulo se encontra uma tese dessa declaração importante feita pela Aliança de Evangélicos Confessionais em 1996. O livro inclui um apêndice com a declaração transcrita. O livro de Franklin é notavelmente pedagógico, podendo ser usado em seminários ou grupos de estudos bíblicos e Escolas Bíblicas Dominicais.

Franklin termina o livro falando do quinto sola: Soli Deo Gloria. Um capítulo jubiloso, doxológico, aplicando a cada esfera da vida e da atuação da igreja a glorificação do nome de Deus. Franklin inicia o capítulo com uma frase marcante: Por que Deus existe? Para sua própria glória! E essa é a paixão última de Deus. Todo propósito da história - e mesmo todo propósito da nossa existência - é a glória de Deus, p. 176.

Termino dizendo que é um livro importante, necessário e urgente.

Soli Deo Gloria

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Autor: Rev. Thomas Magnum
Divulgação: Bereianos

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Refutação ao livro “A Cabana”

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Introdução 

Um dos livros que mais tem sido lido e vendido nestes últimos meses é “A Cabana” de William P. Young.[1] Um livro que se propõe a ajudar a entender a trindade e o sofrimento tem sido amplamente aceito no meio evangélico. Uma rápida pesquisa na internet é possível encontrar pessoas testemunhando como o livro ajudou a suportar o sofrimento e a entender quem é Deus. Alguns chegam até a afirmar que tiveram um encontro real com Deus somente depois de ter lido o livro.

A questão a ser tratada neste trabalho é se a visão apresentada neste livro de fato é bíblica. Será apresentado os principais pontos explorados pelo autor e analisado à partir de textos bíblicos. Este trabalho tem o objetivo de mostrar que tipo de influência os leitores tem recebido deste livro. 

Uma Avaliação Crítica de “Sob os Céus da Escócia”, de Renato Cunha - Parte 1

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SERIA A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER
UM DOCUMENTO CONTINUÍSTA?

Introdução

No ano de 2006 o autor Brian D. McLaren publicou uma das suas obras mais conhecidas, intitulada The Secret Message of Jesus. A tese de McLaren neste livro é a de que ao longo de quase dois mil anos de história os cristãos ou compreenderam de maneira equivocada a mensagem de Jesus Cristo, ou então flagrante e intencionalmente a distorceram. Ao longo de milênios a cristandade estaria vivendo no engano por não ter atentado para a verdadeira mensagem propalada pelo Filho de Deus. Talvez o trecho mais inquietante da obra apareça quando McLaren sugere, ao fazer uma citação do filósofo Sören Kierkegaard, que a erudição cristã deliberadamente distorceu a mensagem do evangelho:

A Bíblia é muito simples de se entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de caloteiros intrigantes. Fingimos ser capazes de compreendê-la porque sabemos muito bem que, no instante que a compreendermos, estaremos obrigados a agir de acordo com ela [...] Eis, portanto, o verdadeiro propósito da erudição cristã. A erudição cristã é a invenção mais prodigiosa para se defender da Bíblia, a fim de garantir que podemos continuar sendo bons cristãos sem que a Bíblia se aproxime demais de nós.[1]

Uma avaliação do artigo “Em defesa do arminianismo”

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Por Franklin Ferreira


Em linhas gerais, o texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68) é bom. O autor, o pastor assembleiano Silas Daniel, acerta ao distinguir entre o calvinismo (denominado no texto de “compatibilista”) e o hipercalvinismo (que, suponho, seja o que o autor chama de “calvinismo fatalista”). E ele também acerta ao tratar o primeiro como uma interpretação cristã legítima, e o segundo como um erro sério que precisa ser rejeitado. E sugere algumas boas razões para o ressurgimento da fé reformada no Brasil (prevalência do pelagianismo em muitos púlpitos, críticas caricaturais ao calvinismo e a superficialidade neopentecostal). Ao fim do artigo, o autor fala em tons fortes e vigorosos da graça salvífica oferecida pela fé em Cristo, de forma bíblica. Então, o tom irênico do autor é bom e saudável. 

Na tradição batista onde fui criado (fundamentalista e pietista, com alguma abertura à teologia liberal), o calvinismo ainda é tolamente tratado por alguns como uma “heresia perniciosa” (para usar as palavras do autor), muitas vezes assim rotulado ao lado de G12, “guerra espiritual” e outras esquisitices presentes no cenário evangélico brasileiro. Então, o tom adotado pelo pastor Silas em seu ensaio é um avanço importante no debate. E deve-se afirmar claramente, junto com o autor: o arminianismo não é pelagianismo, apesar desta posição ter prevalecido e ainda ser a visão religiosa de muitos pregadores e mestres evangélicos no Brasil, que têm como modelo Charles Finney; mas, dependendo de que autor se lê (já que uma das poucas confissões de fé arminianas representativas são os “Artigos da religião”, revisados por John Wesley), esta tradição pode ser considerada semipelagiana ou semiagostiniana (mencionados, mas não definidos no texto). 

Posto isso, o texto tem vários e sérios problemas, no campo da teologia e da história do pensamento cristão. Sobre o uso da Escritura, os versículos bíblicos são tratados como textos-prova. Não há sugestão de exegese ou de estudo léxico das palavras-chave, ou mesmo referências ao lugar das passagens na teologia bíblica. Isso fica evidente, por exemplo, na interpretação do autor da expressão “aos que dantes conheceu” (Rm 8.29), reduzida a mera previsão geral divina (ao interpretar 1Pe 1.2). Também não são indicados comentários bíblicos para suplementar as pressuposições do autor. Simplesmente presume-se que os ensinos arminianos são auto-evidentes nos versículos bíblicos citados. Há muito tempo atrás fui arminiano, e usei muitos daqueles versículos que o autor citou para “provar” o arminianismo e atacar o calvinismo. Mas, para cada texto bíblico citado há uma interpretação, por assim dizer, “calvinista”, que é muito mais coerente e consistente com o texto bíblico em si, o livro onde este está inserido e o contexto global da Escritura – e o leitor pode ir aos comentários de Agostinho, Martinho Lutero e João Calvino, ou aos de D. A. Carson, Douglas Moo, Donald Guthrie, F. F. Bruce e John Murray, para conferir a exegese das passagens-chave desta controvérsia. 

Pelo menos, o autor reconhece as várias tensões (e, por que não, as contradições) presentes na teologia arminiana, como ao tratar da presciência divina e do alcance da expiação: em outras palavras, o problema posto é: se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos? Ou quando trata do significado da palavra “mundo”, sem levar em conta o significado da propiciação realizada por Cristo (ao citar 1Jo 2.2 como texto-prova da expiação geral). E quando admite algum tipo de predestinação (“sim, ele predetermina muitas coisas, mas não tudo”) ao mesmo tempo que, ao pressupor que Deus previu antes de predestinar, não trata de uma pergunta crucial, isto é, quem criou o que Deus previu? 

Também há vários problemas no campo da teologia histórica. Trato apenas dos principais. Diferente do que o autor afirma, quase todos os grandes teólogos medievais criam na predestinação, seguindo em maior ou menor grau o que Agostinho ensinou no século V: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino (cf. S. Th: I, q. 23, a. 1, a. 2, a. 4, a. 7, a. 8; I-IIae, q. 117, a. 5; II-IIae, q. 174; III, q. 24, a. 1, a. 3). Os pré-reformadores Jan Hus e John Wycliffe também afirmaram o ensino da predestinação em moldes agostinianos. Um detalhe que chama a atenção é que ainda que Agostinho seja citado, sua compreensão sobre a predestinação e a graça não é oferecida no texto. 

O mais surpreendente é quando o autor afirma que Lutero abrandou a posição afirmada em seu tratado “Da vontade cativa”, e que passou a crer na possibilidade de se cair da graça (lendo erroneamente os Artigos de Esmacalde III.42-45, que, na verdade, refutava distorções anabatistas). Ao tratar de uma mudança de ênfase na teologia de Lutero, ele cita Herman Bavinck como fonte, mas não mencionou que este autor também afirmou que Lutero “nunca reverteu sua posição sobre predestinação”, e que os “verdadeiros luteranos” rejeitaram o sinergismo de Filipe Melanchthon (“Teologia Sistemática”, v. 2, p. 364).

Obviamente, há diferenças significativas entre os teólogos cristãos, e mesmo entre teólogos da tradição reformada. Por isso, um bom ponto de partida para tratar de temas teológicos controversos é começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições professadas, e não com as posições de teólogos, por mais importantes que estes sejam (por exemplo, nem todos os teólogos reformados ficam satisfeitos com a afirmação da CFW VI.1, de que Deus determinou permitir o primeiro pecado, mas esta confissão, e não a opinião dos teólogos, representa a posição reformada/puritana). 

Sobre a participação dos arminianos no Sínodo de Dort – que talvez seja o mais importante concílio protestante já ocorrido – é necessário deixar claro que estes não foram vítimas inocentes do poder do Estado ou dos calvinistas, como o autor parece opinar. Como John de Witt afirmou: “Os arminianos (...) utilizaram de toda engenhosidade para evitarem qualquer declaração [clara de seus ensinamentos] (...), exigiram que fosse seguida sua própria pauta de assuntos em lugar da do Sínodo, praticaram evasivas táticas de retardamento e obstruções (...) e rejeitaram a autoridade do Sínodo em julgá-los; isto a despeito do fato de ser legalmente um Sínodo da Igreja em que ocupavam cargos, à qual confessavam pertencer, e a cuja disciplina estavam obrigados a se submeter em virtude de suas ordenanças e votos!” (cf. O Sínodo de Dort, em Jornal Os Puritanos [Ano 3 nº 2, Março/Abril 1995], p. 27-30) E, como o pastor Silas reconhece, “os seguidores de Arminius na Holanda acabaram, com o passar do tempo, se afastando progressivamente do pensamento original de seu mentor”, rejeitando doutrinas como o pecado original, a expiação substitutiva e penal e até mesmo a divindade de Cristo, tornando-se, como nota o autor corretamente, “liberais em teologia”. 

Quando trata da controvérsia arminiana do século XVIII, o autor (apoiando-se em uma única fonte secundária) poderia ter colocado toda a polêmica em contexto, o que seria muito instrutivo para nós, hoje. Em meados de 1740, houve um confronto entre Wesley e George Whitefield; o primeiro supunha, erroneamente, que a doutrina da predestinação poderia conduzir ao antinominianismo. Mas a leitura dos escritos puritanos, por parte de Wesley, conduziu-o a uma reavaliação desta posição e, com isso, alcançou-se um acordo entre ambos os lados, o que permitiu uma cooperação na pregação do evangelho, já que nos temas centrais (pecado original, justificação pela fé e santificação) havia acordo. Mas a contenda reiniciou-se em meados de 1770, por causa não da doutrina da predestinação, mas do ensino da justificação – o suíço John Fletcher (Jean de la Fléchère), colega de John Wesley, começou a negar a doutrina da imputação da justiça de Cristo ao fiel. Em síntese, ele afirmou que a justificação requereria santificação pessoal e não a fé somente (cf. “Fourth Check to Antinomianism”). Nesta altura, Wesley vacilou na defesa desta doutrina importantíssima para a fé evangélica. O contundente texto de Augustus Toplady, “Arminianismo: o caminho para Roma”, foi escrito nesta época – e em resposta a uma distorção da doutrina bíblica da justificação pela graça, recebida mediante a fé somente, com todas as implicações doutrinais e devocionais daí decorrentes. Richard Watson, talvez o mais habilidoso teólogo metodista, escreveu no século XIX, sobre Fletcher: “Embora muito admirado entre os wesleyanos, suas doutrinas não são admitidas como norma” (cf. Iain H. Murray, “Wesley and Men Who Followed”). E, diferente da perspectiva do autor, de que “o arminianismo ergueu-se vitorioso” da controvérsia, os metodistas arminianos saíram da igreja episcopal, que, na época, ainda era majoritariamente calvinista, para fundar um dos ramos do metodismo, e do qual se originou os movimentos de santidade (o outro ramo, seguidor do calvinismo, era o metodismo galês, e se tornou presbiteriano, e não congregacional, como afirmou o autor). 

O estudo da história do pensamento cristão é muito importante. Mas, no fim, o que irá decidir toda discussão no âmbito da fé é a Escritura, que é “o juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o juiz supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura” (CFW I.10). Portanto, o que conta é o que a Escritura ensina. Que ela seja estudada por meio de “exegese, exegese e mais exegese”, sempre em dependência do Espírito Santo. Pois devemos nos apegar somente e fielmente à Palavra de Deus, revelada nas Escrituras somente.

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Fonte: Perfil do autor no Facebook
- Publicado no blog Bereianos com permissão do autor.
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Por que não canto Raridade do Anderson Freire

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Não coincidentemente, a música mais tocada dos últimos dias é ela, “Raridade”, campeã de solicitações nas rádios e de quantidade de vezes que é cantada nas igrejas. Feita por Anderson Freire, essa música conseguiu atingir a todo o Brasil, “impactando” os corações até de quem não professa a fé cristã. Eis aqui os motivos, frase por frase, pelos quais EU não canto essa música.

"Não consigo ir além do teu olhar, tudo que eu consigo é imaginar a riqueza que existe dentro de você."

A música começa com uma daquelas frases poéticas que você não entende o porquê dela estar ali, mas ela dá um efeito bonito – e até romântico – na música. Não me surpreendo com isso vindo de uma música feita para vender. Além disso, notamos a presença da velha e boa sacada de músicas de rádio: exaltação do homem. Sim, caro leitor, a primeira frase já começa com uma boa massagem no ego de qualquer um que a escute. E quem não gosta disso, não é verdade? E a Bíblia? O que ela diz sobre o que há dentro de nós? A Bíblia diz que o homem natural é inútil, impossibilitado de fazer o bem, pecador, e não tem temor a Deus (Is 64:6; Jo 6:44, 65; Rm 1:21-32; Rm 3:10-18, 23) Porém, você pode dizer: “Essa música foi feita para o cristão. O que há dentro dele é Jesus.” Primeiro que se fosse mesmo Jesus nesta frase, o autor não diria “tudo que eu consigo é imaginar”, a não ser que ele não saiba que Jesus pode ser conhecido na Bíblia que nos foi revelada. Segundo que o fato de Jesus habitar em mim nunca deve ser motivo para que eu me ache raro. O evangelho é tesouro em VASOS DE BARRO, para que a excelência do poder seja de Deus e NÃO DE NÓS (2 Co 4:8).

"O ouro eu consigo só admirar, mas te olhando eu posso a Deus adorar, sua alma é um bem que nunca envelhecerá."

Como se já não bastasse o fato dessa música ser totalmente antropocêntrica, muitos ainda fazem questão de colocá-la no culto congregacional (é até engraçado como alguns esquecem que o culto é PARA DEUS e não para o homem). O ouro realmente é algo raro, algo valioso. O ouro é raro justamente por ser ouro. O metal não é como o ouro. O cobre não é como o ouro. O bronze não é ouro. Ouro é raro porque é ouro. O ser humano, em si, é valioso. É a única criatura que possui a imagem e a semelhança de Deus. Nenhuma outra ganhou esse privilégio. Nem os anjos!

Mas pense comigo: se o ouro começa a deixar de ser ouro puro, ele vai perder o valor, não é? A grande questão é que o ser humano, por causa do pecado, contaminou completamente a imagem e semelhança que ele tinha de Deus. Se a ideia dessa frase é mostrar o valor que o ser humano tem por ser humano, conseguiu. Mas ela tem um probleminha crucial: Ela se refere a mim e a você: PECADORES. Ainda que regenerados, mas ainda assim pecadores. E por isso não podemos, de maneira alguma, ser intermediadores de ligação alguma do homem para com Deus. O grande e único intermediador, o único ser humano que foi PERFEITAMENTE humano, o humano que deveríamos ser foi Jesus Cristo. Nós falhamos todos os dias em sermos humanos, mas alguém venceu. É por essa vitória que podemos olhar para Ele e adorarmos a Deus. Ele sim é uma raridade. JESUS é o grande centro do Evangelho.

A nossa alma nunca envelhecerá, mas ela poderá ter dois eternos caminhos. O de morte ou o de vida. Minha alma "rara porque nunca envelhecerá", por merecimento, deveria "não envelhecer" no inferno. Somente por causa de vida de Cristo, do que Ele fez por nós, é que podemos ter vida e vida em abundância. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. (1 Coríntios 15:57)

"O pecado não consegue esconder a marca de Jesus que existe em você. O que você fez o deixou de fazer não mudou o inicio, Deus escolheu você."

Como disse o Rev. Francisco Macena: “Em boa parte das músicas evangélicas dos nossos dias canta-se demasiadamente sobre a centralidade do homem. Em nome da necessidade de levantar a autoestima, conceitos teológicos são invertidos e adaptados para fins psicológicos. Um exemplo dessa inversão pode ser visto na canção “Raridade” interpretada por Anderson Freire.”

Existe um problema e não podemos deixar que ele ganhe espaços quando falamos de música cristã. Achamos que falar verdades já é o suficiente. Quando na verdade, deveríamos analisar uma música como um todo e que mensagem realmente ela quer passar – mesmo que contenha algumas verdades. Dito isso, eu diria que a única parte que eu cantaria em toda a música seria essa. Mas, meu convite é que façamos os que os profetas faziam: Ainda diante de boas ações, eles analisavam as MOTIVAÇÕES! Por exemplo, é verdade que o pecado não consegue esconder a marca de Jesus em nós. Uma vez justificados, nenhuma condenação pode cair sobre nós. É Deus quem nos justifica (Rm 8:1; 33-34). Mas é isso mesmo que a música quer passar?

Li um artigo do pastor Aaron Menikoff sobre letras de músicas e logo após o primeiro questionamento “A letra é verdadeira?” surge este: "A letra é verdadeira, porém, enganosa?" Diante de uma música antropocêntrica, onde a raridade do homem é exaltada, demonstrando merecimento na graça de Deus, será mesmo que essa frase corresponde à verdade bíblica de que “onde abundou o pecado superabundou a graça”? A frase da música não seria um conforto para se viver no pecado? Isoladamente, tal frase seria até boa para pregarmos o evangelho a um não crente (ainda que seja bem perigoso afirmar a eleição de um ainda não convertido). Mas diante de uma música sem identidade, sem público definido, feita para vender, tão subjetiva, acho muito estranho afirmar coerência teológica nessa frase sobre a eleição em uma música que carrega o título “Raridade” direcionada ao HOMEM. É simples: troque “Deus escolheu você” por “Deus predestinou você” e o número de pessoas a cantar tal música diminuirá significativamente. As pessoas querem ser escolhidas, mas não predestinadas. Elas querem ser escolhidas por ALGO. Ainda que a letra afirme que o que eu fiz ou deixei de fazer não mudou o inicio (que é uma verdade), ela afirma que o que eu sou me fez ser escolhido. E a Bíblia rejeita isso. Deus rejeita isso. Logo, pois, [Deus] compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:18). Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de DEUS.” (Efésios 2:8)

"Sua raridade não está naquilo que você possui ou que sabe fazer. Isso é mistério de Deus com você."

Novamente, aparece mais uma daquelas frases poéticas que são difíceis de entender e explicar. Sabemos que existem coisas sobre Deus que realmente não estão disponíveis para o homem, por pertencerem somente ao Senhor (Dt 29:29). Geralmente, chamamos isso de mistério, pois não nos foi revelado nas Escrituras Sagradas. Mas alguns vêm utilizando este termo quando não encontram base bíblica para sustentar posicionamentos de assuntos que, muitas vezes, estão claros na Bíblia. Talvez seja isso o que está acontecendo nesta parte da letra. A Bíblia é clara que é pela misericórdia de Deus que fomos salvos, não dependendo de alguma coisa eu faço (Rm 9:11), mas NÃO porque somos raros. Portanto, numa tentativa de mostrar que nossa raridade não é meritória, é dito que é um mistério de Deus. Oh, se fosse trocada a palavra "raridade" por "eleição" Desta forma, sim, seria bíblico. E pra piorar, dentro do que estamos vendo durante toda a letra, o autor talvez pense desta forma: "sua raridade não está naquilo que você possui ou que sabe fazer, mas sim no que você é." E como não enxergar méritos nisso?" Não sei e nem me pergunte, "isso é mistério de Deus com você".

"Você é um espelho que reflete a imagem do Senhor. Não chore se o mundo ainda não notou. Já é o bastante Deus reconhecer o seu valor."

Continuando o antropocentrismo e a exaltação humana, o refrão nos chama de espelho que reflete a imagem do Senhor. Sim, somos à imagem e semelhança de Deus, mas depois da queda, NÃO somos a perfeita imagem de Deus. Se somos um tipo de espelho, somos do tipo QUEBRADO. É evidente que devemos refletir à glória de Deus. Mas nem tudo que fazemos reflete, pois pecamos. Devemos, em tudo que fizermos, procurarmos refletir Sua imagem, enquanto somos moldados à imagem de Cristo, mas, infelizmente, não é isso que a música diz. E aí vem a pergunta: Pra quê devemos refletir a imagem do Senhor? A Bíblia nos responde: Assim resplandeça a vossa luz diante dos HOMENS, para que VEJAM as vossas boas obras e GLORIFIQUEM a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16). É o mundo que devemos iluminar. Se o mundo não notou que somos diferentes, que não somos como ele, se as pessoas sem Cristo acham que somos como eles, se elas não percebem, e nem se incomodam com a santidade que estamos buscando, devemos sim chorar.

Quando a Bíblia diz que devemos falar não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações (1 Ts 2:4), não é sobre os homens não notarem, é sobre NÃO AGRADÁ-LOS, pois ao homem natural, a palavra do Evangelho sempre será dura e confrontadora, como se fosse loucura. O ser humano tem um grande valor pra Deus, e sua Igreja Gloriosa ainda mais. Mas você? Suas obras? Sua raridade? Deixe Deus medir o valor de suas obras, o valor sua vida longe do sacrifício de Cristo, sem a santidade que Ele, por graça dá, e veja o quão certa será sua CONDENAÇÃO (Is 64:6)!

"Você é precioso, mais raro que o ouro puro de ofir. Se você desistiu, Deus não vai desistir. Ele está aqui pra te levantar se o mundo te fizer cair."

Propositalmente, vou deixar a primeira parte da frase para o final. Como toda música "gospel", a letra termina com um daqueles jargões que quase todo artista "gospel" diz para soar espiritual e comovedor: "Se você desistiu, Deus não vai desistir." E então eu me lembro de uma célebre frase do Paul Washer: "Deus nunca desistiu de você porque ele não pôs esperança em você." O problema é que dentro do contexto da música, podemos inferir que "se você está cansado de buscar a santidade, se você está cansado de lutar, não tem problema... Se você desistiu, Deus não vai desistir".

Lembro-me de uma pregação do John Piper na qual ele fazia uma pergunta: "Você treme diante do fato de que Deus está agindo em sua vida?" Porque a grande verdade, meu amigo, é que se não há fome por santidade em você, não há ação de Deus em sua vida. E isso é um perigo, pois a justiça dEle (e não Sua misericórdia) está sobre sua vida. Se você não quer mais lutar, se você está desistindo da vida cristã, por que você diria Não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim (Gl 2:20)? Cuidado! Essa frase pode gerar uma grande margem para uma vida em pecado com o pensamento de que "Deus não vai desistir". Deus não nos predestina para viver em pecado, Deus nos escolheu nele antes da Criação do Mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença (Ef 1:4). Quando caímos, Deus nos levanta. Sim, Ele nos preserva! Até o fim. Mas não é por isso que devemos viver caindo ou e nem nos conformarmos com nossas falhas. Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? (Rm 6:1-2). Ele não está só para nos levantar. Ele está aqui para ser devidamente glorificado!

E para terminar essa análise, deixo-vos esta passagem:

Clamai, pois, o dia do Senhor está perto; vem do Todo-Poderoso como assolação. Portanto, todas as mãos se debilitarão, e o coração de todos os homens se desanimará. E assombrar-se-ão, e apoderar-se-ão deles dores e ais, e se angustiarão, como a mulher com dores de parto; cada um se espantará do seu próximo; os seus rostos serão rostos flamejantes. Eis que vem o dia do Senhor, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação, e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas dos céus e as suas constelações não darão a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz. E visitarei sobre o mundo a maldade, e sobre os ímpios a sua iniqüidade; e farei cessar a arrogância dos atrevidos, e abaterei a soberba dos tiranos. Farei que o homem seja mais precioso do que o ouro puro, e mais raro do que o ouro fino de Ofir. - Isaías 13:6-12

Graça e Paz.

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Autor: Richardson Gomes
Divulgação: Bereianos
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O João Calvino dos calvinistas (parte 1)

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Por Rev. Misael Nascimento


Caminhamos para finalizar nossa análise do primeiro capítulo do livro Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez. Eu já mencionei que a obra apresenta dificuldades metodológicas para conceituar o Calvinismo. Além disso, critiquei pormenores do retrato “sombrio” de João Calvino apresentado no livro. Alister McGrath sugere que “os grandes estereótipos do passado, retratando Calvino como um ditador sanguinário e o Calvinismo como um rigorismo moral sem sentido, ficaram — apesar de serem ocasionalmente ressuscitados em escritos polêmicos — para trás”.[1] Calvinismo Recalcitrante ressuscita estes estereótipos e os assume como história ou fato.

Pretendo apresentar João Calvino como este é normalmente compreendido e acolhido pelos calvinistas. A ideia inicial era fazer isso em um único post, mas não consegui finalizar nesta semana a última seção, Um João Calvino Que Nem Todos Conhecem. Se Deus permitir, farei isso na semana que vem. Ademais, nos próximos dias eu provavelmente atualizarei o presente post, especialmente enriquecendo as referências bibliográficas. Um mal-estar físico prejudicou meu ritmo de leituras e estudos.

O perigo da calvinolatria

Escrevo como cristão bíblico, repudiando toda idolatria em torno da pessoa ou obra de João Calvino. Dito de outro modo, eu não sou calvinólatra. Calvino era cheio de falhas; ele não foi um “super-herói”, mas um pecador salvo pela graça. Louvo a Deus por sua vida, ao mesmo tempo em que enxergo o perigo da calvinolatria, ou da arminiolatria ou de qualquer outra “latria” que porventura ameace a sã doutrina, culto e serviço cristãos. Quando consideramos homens ou instituições infalíveis, o ajuntamento de “crentes” deixa de ser igreja de Cristo.

Digo isso para que se saiba que o presente post é escrito com honestidade e respeito. A imparcialidade é impossível porque escrevo discordando do retrato de João Calvino fornecido por Calvinismo Recalcitrante. O texto é honesto e respeitoso porque não há, de minha parte, qualquer falsidade ou espírito beligerante. Meu intuito não é brigar, mas discordar honesta e humildemente de Martinez, sempre disposto a mudar de posição caso sejam fornecidas fontes bibliográficas confiáveis (explicarei isso na próxima seção).

Opiniões e fontes divididas

A celeuma em torno de Calvino não é recente; o organizador da Reforma em Genebra sempre foi um divisor de opiniões. Como afirma Van Halsema, desde os tempos em que ele era ainda vivo, “as pessoas ou seguiam a sua liderança com entusiasmo ou o odiavam amargamente”.[2] Só pra termos ideia do grau desta resistência:

Na sua cidade Natal de Noyon, os cônegos da catedral organizaram uma procissão pública para celebrar sua morte, quando dela ouviram um rumor falso em 1551. Mais tarde, a residência da família Calvino na praça do mercado foi incendiada pela raiva de seus inimigos. [...] Na cidade francesa de Lyons, a notícia da morte de Calvino foi dada “mais de dez vezes”, tão ansiosos estavam os seus opositores de que fosse eliminado. A Igreja de Roma o considerava como seu maior inimigo.[3]

Alguns contemporâneos de Calvino que o odiavam escreveram sobre ele. Sebastião Castellio publicou “um livro denunciando a queima de Servetus”.[4] Foi Calvino quem nomeou o jovem Castellio como diretor do ginásio de Genebra.[5] Tudo ia bem até o momento em que este último escreveu uma tradução popular do Novo Testamento e pediu a Calvino que a recomendasse. Considerando a tradução “tosca e, em alguns pontos, inexata”[6] e sem tempo para discutir com Castellio cada ponto, Calvino recusou recomendá-la. Castellio irritou-se sobremaneira.

Para Gonzalez, Calvino fez Castellio ser expulso de Genebra porque este último interpretou o Cântico dos Cânticos “como um poema de amor”.[7] O problema foi muito mais sério. Castellio assumia uma concepção heterodoxa das Escrituras, afirmando que o Cântico dos Cânticos era apenas um escrito romântico, ou seja, “não era um livro inspirado da Bíblia”.[8] Ademais, Calvino não fez Castellio ser expulso de Genebra, como sugere Gonzalez. A expulsão de Castellio foi iniciativa do Pequeno Conselho.[9]

Além da concepção errada sobre a inspiração de Cântico dos Cânticos, havia outras discordâncias doutrinárias entre Castellio e não apenas Calvino, mas a ortodoxia abraçada por Genebra (como pastor fiel, Calvino era guardião da sã doutrina nas igrejas e cidade sob sua jurisdição). Castellio repudiava parte do Credo dos Apóstolos (“desceu ao Hades”), bem como a doutrina da eleição. Calvino tolerou tais desacordos até o momento em que Castellio pediu ao Pequeno Conselho para ser ordenado ao Sagrado Ministério, alegando “que o salário de diretor era baixo demais”.[10] O Pequeno Conselho aprovou, mas o conselho da igreja, liderado por Calvino, vetou a ordenação, ao mesmo tempo em que solicitou “aos conselhos da cidade que aumentassem o salário do diretor”.[11]

Com raiva pela recusa de sua admissão ao ministério, Castellio demitiu-se da direção do ginásio. Calvino ofereceu-lhe cartas de recomendação a Viret em Lausanne. “Estou verdadeiramente preocupado com ele”, escreveu Calvino. “Ajude-o no que for possível”.[12]

Não obtendo trabalho em Lausanne ou outra cidade, Castellio voltou a Genebra.

Numa tarde de 1544, apareceu numa reunião semanal de ministros e leigos [...]. [...] levantou-se de repente e interrompeu a palestra. Os ministros de Genebra não são como Paulo, disse sarcasticamente. [...] Calvino nada respondeu. Controlando-se, fechou a Bíblia e saiu da sala.[13]

Isso provocou uma reação no Pequeno Conselho, que decidiu expulsar Castellio de Genebra. “Saiu com cartas de recomendação de Calvino e dos ministros, os quais estavam prontos a recomendá-lo como professor embora não aprovassem sua admissão ao ministério”.[14] Tempos depois Castellio escreveu condenando Calvino pela queima de Servetus.

Uma busca rápida no Google revela que Castellio é tido atualmente como “reformado liberal”, “humanista” e “erudito”. Na obra A Ficção Cética, Gustavo Bernardo menciona elogiosamente seu legado, como segue:

A intolerância da Reforma se confirma quando Calvino, o sucessor de Lutero [isso não é historicamente exato; o sucessor de Lutero é Felipe Melanchton], ajuda a condenar o trinitário Miguel Servetus à morte na fogueira como herege [Servetus não era trinitário, pelo contrário, ele era antitrinitário]. O único defensor de Servetus entre os protestantes, o erudito Sebastião Castellio de Basileia, argumentou contra a condenação atacando a pretensão à certeza dos calvinistas. Em seu De Haereticis, escrito em 1554, Castellio mantinha, com base na obscuridade das Escrituras e no constante desacordo em torno delas, que ninguém pode estar tão certo da verdade em questões religiosas de modo que se justifique queimar alguém por isso.[15]

Eis Castellio, um ferrenho opositor contemporâneo de Calvino. Qualquer historiador que consultar suas obras obterá um retrato muito negativo do reformador de Genebra.

Um segundo opositor foi Jerome Bolsec, mencionado na longa citação de Dave Hunt, em Calvinismo Recalcitrante.[16] Hunt nos informa que Bolsec “ousou discordar [da] doutrina da predestinação de João Calvino. Ele [...] foi preso e banido de Genebra com a advertência [de] que se ele retornasse seria açoitado”.[17] Hunt é mais exato do que Suffert, que sugere o seguinte dado falso: “Bolsec, um ex-carmelita que recusa a doutrina de Calvino sobre a predestinação, é queimado em 1553”.[18]

O ataque da Bolsec à doutrina da predestinação é destituído de qualquer originalidade.

Transformais Deus num tirano. E se Deus decidiu tudo desde o princípio, ele mesmo é responsável pelo pecado. Esse Calvino, que vos ensinais tais coisas, é um impostor. Sois loucos se seguis sua liderança.[19]

Calvino refutou Bolsec e o Pequeno Conselho decidiu expulsá-lo de Genebra. Bolsec assumiu seu lugar na fila dos inimigos mortais de Calvino. Como nos informa Van Halsema:

Na sua velhice, e com o seu ligeiro contato com Calvino, Bolsec produziu um livro sobre a vida do reformador de Genebra. De todos os livros escritos pelos inimigos de Calvino, este é provavelmente o que está mais cheio de mentiras maliciosas, acusações e invencionices.[20]

De acordo com McGrath:

Calvino, de acordo com Bolsec, era irremediavelmente aborrecido, malicioso, violento e frustrado. Ele considerava suas próprias palavras como se fosse palavra de Deus e se permitia ser adorado como Deus. Além de, frequentemente, ser vítima de suas tendências homossexuais, ele tinha o hábito de flertar com qualquer mulher que se aproximasse dele. De acordo com Bolsec, Calvino abriu mão de seus benefícios, em Noyon, em razão de terem vindo a público suas atividades homossexuais. A biografia de Bolsec é uma leitura muito mais interessante do que as de Teodoro de Beza ou de Nicolas Colladon; no entanto, sua obra se baseia, predominantemente, em relatos orais, anônimos e inconsistentes, provenientes de “pessoas dignas de confiança” (personnes digne de foy), que pesquisas mais recentes consideraram de valor questionável. A despeito desse fato, a reconstituição de Calvino, traçada por Bolsec, tem influenciado muitas outras descrições, bastante desfavoráveis, a respeito da vida e das ações do Reformador, que apresentam uma linha divisória, cada vez mais nebulosa, entre fatos e ficção.[21]

McGrath menciona também Stephan Zweig, o escritor austríaco que morreu no Brasil, em 1942, e que descreveu Calvino — provavelmente em Castellio ou Contra Calvino: Uma Consciência Contra a Violência (1936) — como “o grande ditador de Genebra, [...] governando aquela cidade desafortunadamente com mãos de ferro”.[22] McGrath entende que a obra de Zweig:

[...] deve ser julgada pela ampla falta de qualquer fundamento histórico substancial como sendo, de modo geral, inconsistente com fortes evidências históricas e baseada em um entendimento inadequado a respeito das estruturas de poder e dos procedimentos de tomada de decisão operantes em Genebra.[23]

Deve ser ressaltado que exatamente Stephan Zweig, desconstruído por McGrath, é usado como fonte de pelo menos parte da citação de Dave Hunt, em Calvinismo Recalcitrante.[24]

Outro livro recente explica a Reforma em Genebra em uma seção intitulada A Reforma Pela Marreta,[25] ou seja, não faltam detratores da pessoa e obra de João Calvino em Genebra. Uma pesquisa nos escritos acerca de Calvino, do 16º século até agora, revelará opiniões e fontes divididas.

Isso significa que o leitor ou pesquisador tem de decidir: Qual fonte é confiável? Qual conjunto de dados ou informações — e qual leitura ou interpretação destes dados — corresponde aos fatos? Os favoráveis a Calvino sublinham que os escritos contrários (contemporâneos de Calvino) foram produzidos por pessoas que discordavam do seu ensino ou gestão em Genebra, especialmente que sentiram-se diminuídas, limitadas ou prejudicadas por ele. De modo geral, os calvinistas assumem como confiáveis os escritos doutrinários, os comentários bíblicos, os registros das atas dos conselhos de Genebra e as correspondências de Calvino. Também é tida como acreditável a biografia de Beza, sucessor de Calvino na liderança da igreja genebrina.

Não gostarão de Calvino aqueles que lerem sobre ele com os óculos do presente século. Especialmente no Brasil dominado pela cultura inclusiva, esquerdista-materialista e afetada pelo conceito “politicamente correto”. As ideias ou possibilidades de exclusão, de aplicação de disciplina social com base em convicções religiosas sobre uma minoria (rotulada pelos “detentores da autoridade religiosa” como “hereges”) são inconcebíveis no ideário compartilhado ocidental deste século. Basta folhear os escritos atuais para constatar que teólogos irenistas, tais como Erasmus de Roterdã — que abraçou o protestantismo, depois retornou à Igreja de Roma e era absolutamente contra qualquer uso de violência — são elogiados e academicamente recomendados.

Também não gostarão de Calvino os articuladores da supremacia da vontade humana, e aqui eu não me refiro estrita e necessariamente aos arminianos, pois conheço arminianos que ressaltam a soberania divina e respeitam João Calvino, considerando-o um homem de Deus, apesar de discordar dele em alguns pontos de doutrina. É o caso de Roger Olson, que apesar de refutar o Calvinismo[26] oferece também uma reconstituição séria e confiável da vida e ideias do reformador de Genebra.[27]

A estrutura de poder em Genebra

Calvino detinha poder absoluto sobre Genebra? Cabe a ele a designação de “déspota” ou “ditador” tanto da igreja quanto da cidade? McGrath nos informa com acerto:

A frase “A Genebra de Calvino” é carregada de implicações potencialmente enganosas, resultando, talvez, em interpretações incorretas acerca do status e do âmbito de liberdade de ação de que Calvino gozava em Genebra”.[28]

A “Genebra de Calvino” era regida por três conselhos. O primeiro, o Pequeno Conselho, era composto por vinte e cinco homens, dentre eles, “quatro síndicos, os mais importantes oficiais da cidade, porquanto eleitos pelo povo”[29] (tabela 01).

Tabela 01. O Pequeno Conselho

          • Principal instância de governo | 25 integrantes
          • 4 integrantes eleitos pelo povo — os síndicos, o tesoureiro da cidade
          • 20 integrantes eleitos pelo Conselho dos Duzentos

O segundo conselho era o Conselho dos Duzentos, eleito pelo Pequeno Conselho (tabela 02).[30]

Tabela 02. O Conselho dos Duzentos

          • Segunda instância de governo
          • Homens eleitos pelo Pequeno Conselho

O terceiro conselho “era o Conselho Geral, ao qual pertenciam todos os homens de Genebra. Este era convocado somente para assuntos de suma importância”[31] (tabela 03).

Tabela 03. O Conselho Geral

          • Terceira instância de governo
          • Todos os homens (cidadãos) de Genebra


Hunt, citado por Martinez, menciona Zweig, sugerindo que quase todo dia, antes de tomar uma decisão, o “Conselho da Cidade” consultava Calvino.[32] Isso é admissível se considerarmos a época de 1556 a 1564, mas em suas primeiras quase duas décadas em Genebra, Calvino sofreu contestação e até humilhação por parte dos Conselhos, nos quais constavam seus grandes opositores, denominados Libertinos.[33] Quando John Knox chegou a Genebra a fase mais difícil havia passado. Sua declaração, de que “existe aqui a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”,[34] só pode ser entendida no contexto de uma Genebra pacificada e reformada.

Mesmo depois de consolidada a Reforma, e por conseguinte, a influência de Calvino, este não agia como um “ditador”. Suas ideias tinham de ser aprovadas primeiramente pelo Conselho de Ministros, depois, pelos outros Conselhos genebrinos. Só pra exemplificar, a Academia de Genebra, “o sonho de Calvino”, só foi estabelecida em junho de 1550, dezoito anos depois do início da segunda fase de seu ministério.[35] O livro de cânticos da igreja, o Saltério de Genebra, só foi publicado em 1562, depois de vinte e um anos de ministério![36] Algumas propostas de Calvino eram acolhidas e acatadas. Outras não. Trocando em miúdos, ele trabalhou sob a autoridade de outros pastores e membros dos Conselhos de Genebra. Destarte, algumas coisas que são atribuídas a Calvino não ocorrem apenas por causa dele, de fato, em determinadas situações, ocorreram a despeito dele.

Outro detalhe a considerar é o ethos que conduz as cidades e reinos a aplicar a pena de morte no 16º século. Suffert explica que “em Genebra, condena-se à morte por motivo religioso”[37] — uma declaração anacrônica por desconsiderar o contexto histórico e cultural de Calvino. A pena de morte por questão religiosa era prática comum não apenas em Genebra, mas virtualmente em todas as culturas desde a antiguidade até a aurora renascentista. Politicamente, não havia nítida distinção entre Religião e Estado. A Europa Cristã (incluindo Genebra) abraçava e submetia-se ao “Codex de Justiniano, o livro legal padrão ainda seguido no Santo Império Romano”.[38] Apenas pra exemplificar, de acordo com o Codex, “pelo crime de negar a Trindade [...] a penalidade é a morte”.[39]

Quem não reconhece tais coisas extrapola os limites de poder de Calvino em Genebra e atribui a ele uma vileza injustificada. A compreensão adequada do ethos daquela época nos ajuda a compreender melhor muitas coisas, inclusive a execução de Servetus.

O episódio de Miguel Servetus

Olhemos mais de perto para a execução de Miguel Servetus, explicada laconicamente por Suffert, como segue:

Era um médico espanhol que residia em Lyon e negava a Trindade e a divindade de Cristo. Ele é denunciado, por intermédio de Calvino, à Inquisição católica de Lyon. Tratava-se de um sábio — sem dúvida, foi ele quem descobriu a circulação do sangue. Servet — que se correspondia há muitos anos com Calvino — fugiu de Lyon para Genebra. Reconhecido, ele é preso enquanto assiste a um sermão de Calvino. Este organiza o processo de seu amigo, manda condená-lo e queimá-lo em 1553.[40]

Servetus foi queimado na colina Champel com quarenta e dois anos de idade, em 27 de outubro de 1553, acorrentado a uma estaca e com um livro amarrado debaixo do braço.[41] Os calvinistas não celebram sua morte. Como registra Van Halsema:

Hoje existe uma pedra no lugar onde Servetus morreu. [...] Há uma inscrição francesa na pedra: “Como filhos reverentes e agradecidos de Calvino, nosso grande Reformador, repudiando seu erro, que foi o erro da sua época, e, de acordo com os verdadeiros princípios da Reforma e do Evangelho, apegando-nos à liberdade de consciência, erigimos este monumento de reconciliação neste 27º dia de outubro de 1903”. 
Olhando para trás, [...] lamenta-se que Calvino, na maneira de tratar Servetus, tenha agido como outros homens de seu tempo. Lamenta-se, especialmente, porquanto nos seus escritos e nos seus atos Calvino estava muito além da sua época, apontando o caminho para a tolerância e a liberdade, a separação entre a igreja e o estado, ao direito de cada homem crer em Deus conforme a sua consciência.
O milagre consiste em que Deus tenha usado um servo pecador como João Calvino de maneira tão poderosa para edificar sua igreja e influenciar seu mundo.[42]

E como Calvino agiu? Tentarei responder retornando à citação de Suffert que sugere um Calvino maligno, um “amigo” que se corresponde por muitos anos com Servetus e, no fim das contas, o trai e mata.[43]

Não é bem assim.

Desde os dezoito anos de idade, Miguel Servetus declara sua descrença na doutrina da Trindade. Para ele Jesus não é divino e o Espírito Santo não é um ser distinto. Seu primeiro livro com tais ideias é publicado quando ele tem apenas vinte anos de idade e é rejeitado tanto pelos líderes protestantes (os conselhos de Estrasburgo e Basel, bem como Lutero, Melanchton, Bucer, Bullinger e Zwinglio) quanto pelo Supremo Conselho da Inquisição Espanhola.[44]

Servetus altera seu nome para Michel de Villeneuve e dedica-se a muitas coisas. Aos vinte e dois anos de idade, marca um encontro com João Calvino em Paris, mas não comparece.[45] Naquela cidade ele edita “uma geografia do mundo”, estuda medicina (descobrindo como “o sangue circula nos pulmões”) e dá palestras “sobre geografia e astrologia”, aventurando-se “a prognosticar pelas estrelas” o que acontecerá “a homens e nações”. É julgado pelo parlamento francês por insolência a um professor. Consegue escapar e muda-se para Vienne, onde vive doze anos pacíficos, editando livros, praticando medicina, conquistando a amizade do arcebispo e fazendo-se de católico fiel a Roma.[46] Ali ele se dedica a outro livro que intitula As Restitutas, que considera uma “restauração” ou “resgate” do Cristianismo primitivo e puro.[47]

Assim que completa trinta e cinco anos (em 1546 e 1547) Servetus escreve a Calvino, que lhe responde com cortesia e envia-lhe “uma cópia de suas Institutas”. Servetus devolve a cópia “com anotações insultantes” e prossegue remetendo mais cartas longas, tratando Calvino com “condescendência e aspereza”. Considerando perda de tempo debater com ele, Calvino deixa de responder-lhe. Observe-se que Calvino, “apesar de saber a identidade real de Servetus, não tomou nenhuma providência para revelá-la às autoridades católico-romanas em Vienne”.[48]

Seis anos depois, as Restitutas são publicadas. “No lugar de seu nome Servetus usou somente as iniciais M. S. V. (Miguel Servetus Villeneuve) na página titular. Mas incluiu as trinta cartas a Calvino no apêndice do livro”.[49]

Na cidade vizinha, Lyon, cinco pastores protestantes são presos. Depois de um ano, em maio de 1553, eles são “acorrentados em grupo e queimados vivos”.[50] A situação provoca indignação nos protestantes. Entre a prisão e execução destes pastores, um morador de Genebra escreve a um primo que mora em Lyon, criticando-lhes porque estão maltratando verdadeiros servos de Deus, ao mesmo tempo em que suportam, próximo a eles, um “herege [...] que blasfema contra a Trindade e que acaba de escrever um novo livro cheio de heresias. [...] O herege de quem falo é Servetus, o espanhol, conhecido em Vienne como Miguel de Villeneuve”. Para comprovar, o protestante envia ao primo católico “as quatro primeiras páginas” do livro de Servetus.[51]

O primo católico-romano de Lyon foi logo às autoridades eclesiásticas com a notícia. Convocaram Servetus, o qual jurou por tudo que era somente Miguel de Villeneuve, um fidelíssimo seguidor de Roma. As autoridades precisavam de mais provas. Pediram ao primo católico-romano que escrevesse a Genebra solicitando-as.[52]

Este primo protestante é amigo de Calvino e pede que este lhe forneça algumas cartas de Servetus. Estas são enviadas ao primo católico-romano com uma observação: “Mas preciso dizer-lhe que não foi pouca a dificuldade em receber de Calvino o que lhe estou remetendo”.[53] Como prossegue Van Halsema:

Será que Calvino sabia que as cartas originais de Servetus seriam entregues às autoridades para serem usadas para Servetus? O próprio Calvino negou mais tarde que tivesse participado na entrega de Servetus à Igreja de Roma, e não temos motivo para duvidar da sua palavra. Mas as cartas, afinal de contas, tornaram-se as provas finais contundentes contra Servetus, não importando os motivos por que foram remetidas. Não adiantaram os esforços de Servetus para eximir-se da culpa. As provas estavam ali. Foi colocado na prisão em abril de 1553 para aguardar sentença.[54]

A prisão de Vienne não o segura. Servetus foge. As autoridades, indignadas, queimam solenemente uma efígie cheia de palha, representando-o.[55] Quatro meses depois, ei-lo em Genebra, hospedando-se na Estalagem da Rosa Dourada e encomendando “um barco para atravessar o lago em direção a Zurique”.[56]

No domingo seguinte, 13 de agosto, ele comparece a um culto. Alguém o reconhece e comunica Calvino, que pede aos conselhos que o prendam. Eis o que consta nas atas:

Miguel Servetus foi reconhecido por alguns irmãos, e parecia conveniente fazer dele um prisioneiro para que o mundo não mais fosse infectado pelas suas heresias e blasfêmias, porquanto é conhecido como incorrigível.[57]

Inicia-se um julgamento de dois meses e meio. Calvino escreve um documento com trinta e nove acusações e confronta Servetus face a face. É então que os Libertinos dos Conselhos — incluindo Ami Perrin, presidente do Pequeno Conselho — demonstram apoio a Servetus. Este percebe a oposição crescente a Calvino e o trata com insolência e desprezo,[58] chamando-o de “criminoso, assassino, desgraçado, mentiroso, anão ridículo, [...] acha que tem a capacidade de ensurdecer os ouvidos dos juízes com o seu latido de cão?”[59]

Calvino prossegue com sua argumentação — muitas vezes raivosa e áspera — consolidando doutrinariamente suas trinta e nove acusações e finalizando com a exigência de punição de Servetus, nos termos do Codex de Justiniano.[60]

A partir de então, a sentença tem de ser proferida pelo Pequeno Conselho que, como dissemos é presidido por um opositor de Calvino favorável a Servetus. Como afirma Van Halsema, “nunca foi tão pouca a influência de Calvino sobre o Conselho como nos meses em que Servetus esteve na prisão”.[61] De fato, paralelamente ao problema de Servetus ocorre uma celeuma em torno da excomunhão de Berthelier, o líder Libertino. O Pequeno Conselho assume o poder da igreja e, à revelia do Conselho de Ministros e desafio a Calvino, restaura Berthelier e o autoriza a participar da Santa Ceia.[62] O protesto de Calvino é veemente, mas rejeitado pelo presidente do Pequeno Conselho. No sábado anterior à Ceia ele diz aos vinte e cinco homens: “Assevero que prefiro morrer do que ver desonrada a Ceia do Senhor [...]. Preferia estar morto cem vezes do que cometer tão terrível escárnio contra Cristo”. No domingo seguinte, orientado pelo Pequeno Conselho, Berthelier não comparece ao culto de Ceia.[63]

Tudo disso deixa Servetus altivo e bem-humorado.

A sua ousadia chegara ao ponto de escrever ao Pequeno Conselho: “Portanto, meus senhores, exijo que o meu falso acusador seja punido, [...] que sua propriedade me seja outorgada em recompensa pela minha [...] e que seja ele conservado prisioneiro assim como eu até que o julgamento seja decidido pela sua morte ou por qualquer outra punição”. É interessante que mesmo Servetus esperava que o veredito do julgamento fosse a morte, mas não esperava que seria ele quem iria morrer.[64]

Ocorre um fato novo que muda tudo. Ao invés de proferir imediatamente sua sentença, o Pequeno Conselho decide consultar “igrejas e conselhos de representantes de quatro cidades suíças. [...] Apoiados por uma provável repetição de respostas moderadas, o Pequeno Conselho poderia então libertar Servetus”.[65]

[...] as respostas de Zurich, Bern, Basel e Schaffhausen foram surpreendentes — um abalo, mesmo, para o Libertinos. [...] Cada conselho e cada igreja denunciou Servetus, afirmando que as suas blasfêmias precisavam ser cortadas antes que pudessem prejudicar ainda mais a igreja de Cristo. Em nossa cidade, disse Bern, a penalidade seria a morte pelo fogo.[66]

Ami Perrin tergiversou, protelou a decisão e tentou passá-la ao Conselho dos Duzentos, onde haviam mais opositores de Calvino, mas o Pequeno Conselho entendeu que deveria proferir a sentença, condenando Servetus à morte pela fogueira.

Foi um veredito unânime porquanto até os Libertinos perceberam que não poderiam ignorar as opiniões de quatro influentes cidades. Calvino ouviu a sentença e imediatamente pediu ao Conselho que substituísse a estaca pela espada, porquanto a decapitação era mais misericordiosa do que a queima na estaca. Mas o Pequeno Conselho, rápido para recusá-lo, recusou-lhe esse pedido também.[67]

É interessante um registro deste incidente por Van Halsema:

Calvino foi visitá-lo. Servetus pediu-lhe perdão. Calvino respondeu [...]: “Creia-me, jamais tive a intenção de processá-lo por causa de alguma ofensa pessoal contra mim. Há dezenove anos, colocando em perigo a minha vida, quis encontrar-me com você em Paris para ganhá-lo para o nosso Senhor. E depois, quando você vivia como um fugitivo, quis novamente mostrar-lhe o caminho certo pelas minhas cartas até que você começou a odiar-me por causa de minha firmeza [...] Mas [...] peça perdão ao Deus perene que você blasfemou [...]. Seja reconciliado ao Filho de Deus [...] ao Salvador”.[68]

Farel também foi a Genebra e visitou Servetus, mas este permaneceu irredutível — apegado às suas crenças até o fim.[69]

Calvino foi responsável pela morte de Servetus? Do ponto de vista jurídico, a execução decorreu de uma deliberação do Pequeno Conselho influenciado pelos conselhos da regiões protestantes da Suíça. Na ocasião, o Pequeno Conselho não estava sob a influência de Calvino, pelo contrário, era-lhe oposto. No entanto, como afirma Van Halsema:

Calvino havia participado da morte de Servetus. Tinha pedido aos Conselhos que prendessem o espanhol. Tinha feito acusações contra ele. Tinha debatido perante o Pequeno Conselho para provar que as heresias deste homem estavam ameaçando a igreja de Cristo. E apesar de Calvino não ter participado na sentença, ele a aprovou, embora não pelo fogo.[70]

A fim de não incorrermos em anacronismo, entendamos que:

Outros líderes protestantes estavam a favor da pena de morte. O brando Melanchton, sempre inclinado à paz e à transigência, escreveu a Calvino: “A igreja de Cristo ficar-lhe-á grata. [...] O seu governo, de acordo com todas as leis, providenciou a morte desse blasfemo”. A época era de estacas, [...] quando os homens ainda acreditavam ser do seu dever julgar as crenças que outros tinham de Deus.[71]

Isso não confere a Calvino inocência, mas nos ajuda a compreendê-lo em seu contexto. O triste fato é que “a partir de então esse incidente se tornou o símbolo do dogmatismo rígido que reinava na Genebra de Calvino. E não há dúvida de que há muito de verdade nisso”.[72] Gonzalez prossegue afirmando que:

Em todo caso, depois da execução de Servetus, a autoridade de Calvino em Genebra não teve rival, sobretudo porque os teólogos de todas as demais regiões da Suíça protestante lhe tinham dado apoio, ao mesmo tempo em que seus opositores se colocaram na difícil situação de defender um herege condenado tanto pelos católicos como pelos protestantes da Suíça.[73]

O que se enxerga no episódio de Servetus? Os detratores de Calvino encontram um monstro. Os calvinistas encontram um homem que, como Moisés ou Davi, a despeito de seus pecados, não deixa de ser homem de Deus.

Notas biográficas e legado de João Calvino

Não pretendo alongar sobremaneira esta postagem. Eu imagino que somente uma minoria conspícua se dispõe a ler meus posts do início ao fim. Sendo assim, não é meu propósito (muito menos tenho capacidade para) fornecer uma biografia de João Calvino. Martinez já nos brinda com um resumo útil ao citar o texto sobre o reformador publicado no web site do Instituto Presbiteriano Mackenzie.[74] Ademais, os leitores interessados em mais informações serão beneficiados compulsando os livros e links mencionados nas notas deste post.

Cinco fases da vida de Calvino

Basicamente, a vida de Calvino pode ser dividida em cinco fases (tabela 04), sendo a primeira, sua infância e pré-adolescência, de 1509 a 1523, quando obteve status de menino clérigo de Noyon e destacou-se pela inteligência privilegiada, obediência aos pais, hábitos disciplinados e ares de aristocrata (devido ao convívio com amigos nobres).[75]

A fase seguinte é a de João Calvino antes de Genebra, de 1523 a 1536, abarcando sua mudança para Paris, sua iniciativa como escritor humanista, sua conversão, sua fuga de Paris, viagens sob perseguição, publicação da primeira edição das Institutas e primeiras experiências de pregação, ensino e serviço aos cristãos protestantes de fala francesa.[76]

A terceira fase remete ao primeiro tempo de Calvino em Genebra, de 1536 a 1538. Esta fase começa como uma tempestade (com o apelo dramático de Farel para que Calvino permaneça em Genebra) carregada de promessas e termina como um terremoto (a trágica expulsão de Calvino e seus amigos). Calvino é recebido festivamente e a cidade assume compromissos de Reforma, mas não deseja, de fato, implementá-las. No fim, Calvino, Farel e o cego Corault são escoltados para fora de Genebra, em 25 de abril de 1538.[77]

Segue-se a quarta fase da vida de Calvino, seu abençoado exílio em Estrasburgo, de 1538 a 1541. Ali ele amadurece teologicamente e na prática pastoral e se casa com Idelette de Bure. Ele não tem planos de sair da cidade, até ser novamente convocado a Genebra.[78] É quando inicia a quinta e última fase, que corresponde ao seu estabelecimento definitivo em Genebra, de 1541 até sua morte, em 1564. Esta fase pode ser subdividida em duas, um difícil período de consolidação (os primeiros quinze anos, de 1541 a 1556) e o ponto alto da reforma em Genebra, de 1556 a 1564.[79]

Tabela 04. Cinco fases da vida de João Calvino


Prosseguiremos no próximo post, quando aprenderemos sobre Um João Calvino Que Nem Todos Conhecem. Até lá. Fiquem na paz do Senhor.
_______
Notas:
[1] MCGRATH, Alister. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 13.
[2] VAN HALSEMA, Thea B. João Calvino Era Assim. São Paulo: Editora Vida Evangélica, 1968, p. 148. Enquanto eu preparava este post, descobri com alegria que há uma nova edição em português. Os dados atualizados são VAN HALSEMA, Thea B. João Calvino Era Assim. São Paulo: Editora Os Puritanos, [201-?]. Disponível em:<http://loja.livrariareformada.com.br/puritanos/joao-calvino-era-assim.html> Acesso em: 25 Set. 2014. As citações deste post correspondem à edição de 1968.
[3] VAN HALSEMA, op. cit., loc. cit. Grifo nosso.
[4] Ibid., p. 165.
[5] Ibid., p. 163.
[6] Ibid., p. 164.
[7] GONZALEZ, Justo L. E Até Os Confins da Terra: Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 116. v. 6.
[8] VAN HALSEMA, op. cit., loc. cit.
[9] Ibid., p. 165.
[10] Ibid., p. 164. Grifo nosso.
[11] Ibid., loc. cit.
[12] Ibid., loc. cit.
[13] Ibid., p. 164-165.
[14] Ibid., p. 165.
[15] GUSTAVO, Bernardo. A Ficção Cética. São Paulo: Editora Annablume, 2004, p. 146. Grifos nossos.
[16] HUNT, Dave. O Lado B do Calvinismo em Genebra. In: Instituto Teológico Gamaliel: Onde Cada Aluno é um Discípulo e Cada Discípulo é um Irmão. Disponível em:
<http://www.institutogamaliel.com/portaldateologia/o-lado-b-do-calvinismo-em-genebra/teologiaAcesso em: 18 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 23-28. Endereçamento de fonte corrigido.
[17] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 26.
[18] SUFFERT, Georges. Tu És Pedro: Santos, Papas, Profetas, Mártires, Guerreiros, Bandidos: A História dos Primeiros 20 Séculos da Igreja Fundada Por Jesus Cristo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 268.
[19] VAN HALSEMA, op. cit., p. 173.
[20] Ibid., p. 174. O título do livro é Histoire de La Vie, des Moeurs … De Jean Calvin, publicado em Lyon e Paris em 1577. A obra teve edições em Latim (1580) e alemão (1581).
[21] MCGRATH, op. cit., p. 33-34.
[22] Ibid., p. 13.
[23] Ibid., p. 13-14. Grifos nossos.
[24] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 25.
[25] FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe; WILSON, Derek. Reforma: O Cristianismo e o Mundo 1500-2000. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 144-147.
[26] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2013; OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
[27] OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas. São Paulo: Vida, 2001, p. 407-423.
[28] MCGRATH, op. cit., p. 13.
[29] VAN HALSEMA, op. cit., p. 79.
[30] Ibid., loc. cit.
[31] Ibid., loc. cit.
[32] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 25.
[33] VAN HALSEMA, op. cit., p. 163-190.
[34] Ibid., p. 191.
[35] Ibid., p. 193-197.
[36] Ibid., p. 193.
[37] SUFFERT, op. cit., loc. cit.
[38] VAN HALSEMA, op. cit., p. 183.
[39] Ibid., loc. cit.
[40] SUFFERT, op. cit., loc. cit.
[41] VAN HALSEMA, op. cit., p. 188.
[42] Ibid., p. 189.
[43] SUFFERT, op. cit., loc. cit.
[44] VAN HALSEMA, op. cit., p. 176-177.
[45] Ibid., p. 177.
[46] Ibid., loc. cit.
[47] Ibid., p. 177-178.
[48] Ibid., p. 178.
[49] Ibid., loc. cit.
[50] Ibid., p. 178-179.
[51] Ibid., p. 179.
[52] Ibid., loc. cit.
[53] Ibid., p. 180.
[54] Ibid., loc. cit.
[55] Ibid., p. 180-181.
[56] Ibid., p. 181.
[57] Ibid., loc. cit.
[58] Ibid., p. 182.
[59] Ibid., p. 183.
[60] Ibid., loc. cit.
[61] Ibidem.
[62] Ibidem.
[63] Ibid., p. 185.
[64] Ibid., p. 186.
[65] Ibid., p. 187.
[66] Ibid., loc. cit.
[67] Ibidem. Os mesmos fatos são mencionados, com menos detalhes, por GONZALEZ, op. cit., p. 116.
[68] Ibid., p. 188.
[69] Ibid., loc. cit.
[70] Ibidem.
[71] Ibid., p. 189.
[72] GONZALEZ, op. cit., loc. cit.
[73] Ibid., p. 117.
[74] MATOS, Alderi Souza de. João Calvino: Síntese Biográfica. Disponível em:<http://www.mackenzie.com.br/7034.html>. Acesso em: 25 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 20. Endereçamento de fonte corrigido.
[75] Os detalhes desta fase podem ser obtidos em VAN HASELMA, op. cit., p. 10-14.
[76] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 14-70: Formação em Paris, Orleans (conversão?) e Bourges. Novas amizades. Publicação de comentário sobre Sêneca. Fuga de Paris. Noyon, Angoulême e Nérac. Retorno a Noyon; em 21 de maio de 1534, abriu mão de seu benefício clerical. Reuniões secretas em Paris, visita à região dos urzais, próxima a Poitiers. Fuga para Angoulême e Orleans, viagem sob perseguição até a fronteira germânica. Desejo de ir até Estrasburgo. Estabelecimento em Basel. Primeira edição das Institutas com carta a Francisco I e viagem frustrante à Itália. Retorno a Paris nos seis meses de isenção aos protestantes, em 1536. Decisão para ir a Estrasburgo. Retorno passando por Genebra.
[77] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 70-93: Apelo de Farel. Aulas em Saint Pierre. Versão francesa das Institutas. Debate em Lausanne. Confissão de Fé. Pedido de quatro reformas ao Pequeno Conselho: (a) Celebração contínua da Ceia do Senhor e liberdade para a igreja aplicar a excomunhão (não é bem recebida pelo Conselho); (b) Estudo e atualização das leis matrimoniais de acordo com a Palavra de Deus; (c) Instrução das crianças utilizando-se um catecismo; (d) Que os Salmos sejam cantados na igreja. Debate com os anabatistas (Caroli). Imposição dos ritos de Bern, eliminados antes por Farel. O Pequeno Conselho e a população fazem oposição a Calvino, Farel e ao cego Corault. Estes se recusam a celebrar a Ceia do Senhor no culto de Páscoa. Na Igreja de Rive, homens desembainham espadas durante a pregação de Calvino. Os síndicos reúnem-se após o culto da noite e o Conselho dos Duzentos na manhã de segunda-feira. Decisão: Calvino, Farel e Corault devem ser imediatamente expulsos de Genebra.
[78] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 94-125: Calvino, Farel e Corault são ouvidos no sínodo em Zurich. Aceitam os ritos de Bern, mas sugerem uma separação da igreja (questões litúrgicas e poder de excomunhão pertencem à primeira e não ao segundo). Genebra insiste em não recebê-los de volta. Viagem até Basel. Farel vai pastorear em Neuchâtel. Calvino segue até Estrasburgo, retorna para Basel e daí, novamente para Estrasburgo. Em 8 de setembro de 1538, prega como pastor dos refugiados franceses. Torna-se amigo e é mentoreado por Martin Bucer. Amadurece teologicamente e na prática pastoral. Casa-se com Idelette de Bure. Firma amizade com Melanchton e escreve a Lutero. Publica o Pequeno Tratado Sobre a Santa Ceia do Nosso Senhor. Participa das dietas de Worms e, ali, recebe carta dos síndicos e conselhos de Genebra, convidando-o a retornar. Toma conhecimento de que Estrasburgo é tomada pela peste. Reluta em aceitar o pedido de Genebra. Viaja a Ratisbon, para nova dieta, que abandona ao perceber que não produzirá resultados. Mais uma vez admoestado por Farel, aceita o convite de Genebra, chegando à cidade em 13 de setembro de 1541.
[79] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 127-206: Período de consolidação; os primeiros quinze anos, de 1541 a 1556. Bem-recebido em Genebra. Presenteado com um toga de veludo preto. Instalado na casa na Rua do Canhão, perto da Catedral. Novo púlpito em Saint Pierre. Uma carruagem vai buscar Madame Calvino em Estrasburgo. Registra-se na ata do Pequeno Conselho: “Resolve-se conservar Calvino aqui para sempre”. Proposta de planos. Auxiliado por Viret. Escrita, aprovação e execução das Ordens Eclesiásticas da Igreja de Genebra — estabelecimento de quatro funções na igreja (ministro, professor, presbítero e diácono) e organização das atividades eclesiásticas (cultos, sermões, batismos, casamentos, Ceia do Senhor e visitações). As Ordens foram aprovadas em dois meses e demorou catorze difíceis anos para colocá-las em prática. Compilação das leis da cidade. Em 1542, o primeiro filho de Calvino, Jacques, morre duas semanas após o nascimento. Três anos depois nasce e falece uma filha. Dois anos adiante, espera-se uma terceira criança que morre ao nascer. Idellete adoece e morre em 29 de março de 1549. Embates com os Conselhos de Genebra, além de Sebastião Castellio, Pierre Ameaux, a família Favré, Philibert Berthelier, Pierre Vandel, Jacques Guet (Gruet), Bolsec, Zeraphin Trolliet e Miguel Servetus. Última tentativa de oposição dos Libertinos em 1555.

***
Fonte: Somente pela Graça

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