A Doutrina da Geração Eterna do Filho

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Muitos cristãos têm descartado ou a ignorado a crença trinitária clássica na geração eterna do Filho de Deus. Esta doutrina é ratificada pelas confissões reformadas e pelos quatro primeiros concílios ecumênicos da Igreja reconhecidos pelos protestantes. Este artigo busca retomar essa verdade como importante para uma cosmovisão trinitária e até mesmo para a práxis cristã.

TRINDADE ONTOLÓGICA, IMANENTE E ECONÔMICA

Willian Lane Craig, negando a doutrina da geração eterna do Filho, afirma que acha que seria:

“útil distinguir entre a Trindade ontológica e a Trindade econômica. A Trindade ontológica é a Trindade conforme existe por si mesma à parte da relação de Deus com o mundo. A Trindade econômica está relacionada aos diferentes papéis interpretados pelas pessoas da Trindade com relação ao mundo e, especialmente, com relação ao plano da salvação. Na Trindade econômica há subordinação (ou, talvez seja melhor dizer, submissão) de uma pessoa à outra, assim como o Filho encarnado faz a vontade do Pai e o Espírito fala, não por sua própria conta, mas em nome do Filho. A Trindade econômica não reflete diferenças ontológicas entre as pessoas; pelo contrário, é uma expressão da amorosa condescendência de Deus em prol da salvação. O erro da cristologia do Logos está em combinar a Trindade econômica com a Trindade ontológica, introduzindo a subordinação na natureza da própria Divindade.” 

A Regra de Rahner, por outro lado, diz o contrário: “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’ e a Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”. Quem estará correto, Craig ou a Regra de Rahner?

Como Deus fala conosco?

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Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1,2)

Introdução

Quando perguntamos “como Deus fala conosco?” diversas respostas podem ser formuladas. Por exemplo, se olharmos para o texto bíblico acima, algumas respostas já podem ser dadas. Ao consideramos a progressividade do Antigo Testamento vemos em algumas passagens Deus falando de forma audível, usando um anjo, os profetas ou até mesmo com o próprio dedo.

Os perigos de uma igreja que não te disciplina

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Disciplina eclesiástica (Mateus 18.15-20) é muitas vezes confusa, custosa e danosa. Quando um crente tem de ser publicamente afastado da igreja local, a dor sentida costuma ser inigualável.

Ainda assim, quando praticada biblicamente, ela é biblicamente consistente com o amor, o cuidado, e a obediência bíblica a Cristo. Mark Dever acertadamente afirmou que a disciplina eclesiástica é “um amoroso, provocativo, atrativo, distinto, respeitoso e gracioso ato de obediência e misericórdia, e ajuda a construir uma igreja que traz a glória de Deus”. Nessa mesma linha, um amigo meu foi biblicamente disciplinado para fora de uma grande igreja, e, até os dias de hoje, admite que isso foi uma das melhores coisas que já aconteceu com ele. Mas, mais importante, isso é uma questão não negociável no tipo de Igreja que Deus deseja.

O Direito e o cristão ou o Direito versus o cristão?

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A crise de fundamentação

Desde o Iluminismo, a configuração jurídica sofreu profunda mudança. A influência da filosofia kantiana, “o homem como fim”, levou a uma leitura moderna da realidade jurídica que considera a autonomia humana como a medida de todo o bem legal.

Entretanto, diante das crises perpetradas pelas Guerras Mundiais do século XX, fez-se uma reflexão humanística da realidade social que encontrou no Judiciário, como interprete da lei, uma âncora de apoio para a defesa de minorias e de direitos individuais em detrimento da rígida e formal leitura da lei.

Tal iniciativa, porém, somada às profundas mudanças da compreensão da filosofia da linguagem moderna, levou a um empoderamento do Poder Judiciário que, nos dias de hoje, tende a uma ditadura de sua interpretação legal. Isto é, diante da crise de conteúdo das normas legais, as Cortes Supremas dos países ocidentais passaram a desempenhar um papel proeminente na interpretação que, nos dias de hoje, parece sem controle legal e reduzida ao jogo político.

Ora, essa percepção não é tão recente assim. O autor Francis Schaeffer, em seu livro “Manifesto Cristão”, que data do início da década de 80, referindo-se a crise jurídica desencadeada nos Estados Unidos da América, já apontava que o principal motivo de tamanha mudança foi filosófica: um abandono da cosmovisão judaico-cristã para uma abordagem humanística. Nesta última, o homem, à parte de influências externas e baseado nos postulados da imparcialidade e objetividade, seria autônomo para decidir seu próprio destino comunitário. Isto é, o homem passa a ser a base pela qual a lei é criada e medida.

Essa virada humanística tem um alto custo: tanto a Constituição como as normativas legais passam a ser profundamente relativizadas e usadas como uma linguagem para se tomar decisões políticas nos tribunais, especialmente nas Cortes Supremas.

Com efeito, Ratzinger (2007, p. 170) chama esse esfacelamento linguístico de “virada linguística” em que se renuncia a verdade, a partir da noção de que não se pode atingir o que está por trás da linguagem e das suas imagens, já que a razão está linguisticamente condicionada e perpetrada de vícios políticos.

Desse modo, o quadro pode ser resumido no seguinte sentido: a modernidade, com seu postulado de autonomia, abandonou uma crença no sentido da linguagem, a relativizando, e se dispôs a atribuir mais força legal ao Poder Judiciário, especificamente, às Cortes Supremas, como sendo o guardião da interpretação constitucional e das garantias individuais. Entretanto, isso tem feito com que essas Cortes Superiores, sem controle legal, já que se encontram no topo da “pirâmide normativa”, usem da linguagem jurídica como um instrumento político para impor uma espécie de “ditadura jurídica moderna”.

Ditadura jurídica moderna

Diante do quadro apresentado, as crises institucionais e, principalmente, de base moral e filosófica, que abrange o abandono da influência judaico-cristã, levam a uma imposição jurídica de ideologias e de crenças dos julgadores que solapam o frágil regime democrático.

Schaeffer (1985, p. 44) diz que “esta mudança da base judaico-cristã para a lei e para o desvio das restrições da Constituição, automaticamente milita contra a liberdade religiosa”. Nesse sentido, a lei se torna um meio de forçar um modo político-ideológico de pensar sobre a população.

É a tentativa de que uma minoria se imponha legitimamente sobre a maioria, o que, em última instância, se constitui no que C. S. Lewis (2012, p. 56-57) dizia: “o poder do Homem para fazer de si mesmo o que bem quiser significa (...) o poder de alguns homens para fazer dos outros o que bem quiserem”.

Consequentemente, como já alertava Schaeffer (1985, p. 102) a mais de trinta anos, os tribunais são utilizados, ao invés do legislativo, porque eles não se sujeitam ao crivo da opinião pública para serem reeleitos e porque podem aumentar a criação de leis sem passar por um árduo processo de debates legislativos.

Nos tempos mais recentes, coaduna Scruton (2015, p. 256) ao dizer que

É notório o abuso da Suprema Corte, com juristas astutos e perspicazes, ao criar argumentos que decidem questões de matérias rejeitadas pelo Congresso eleito, ao mesmo tempo que reivindicam a autoridade de uma Constituição, à qual todos têm o dever de fidelidade.

Tal atuação, chamada por alguns do Direito de “ativismo judicial”, leva ao escanteamento da religião do debate público. Os religiosos são ridicularizados como fundamentalistas, retrógrados, fascistas, reacionários, entre outros.

Com o tempo, esse esvaziamento da moral judaico-cristã é preenchido por falsos ídolos ideológicos que prometem demais, mas que produzem mais instabilidades e crises. Não se cria com isso um vácuo que será preenchido por valores objetivos em que o homem, supostamente, analisando a realidade social, cria de sua mente e democraticamente leis que são melhores para todos. Na verdade, o vácuo é preenchido por valores que são antagônicos a tudo aquilo que taxam de conservador. Como coloca Razzo (2016, p. 232), “o homem totalitário impõe ao Estado e à sociedade um ordenamento jurídico revelado de sua própria imaginação, apelando para a ‘mudança muito mais radical’ como a verdadeira e única fonte do direito”.

Desse modo, o resultado é que, como prenunciava Schaeffer (1985, p. 77), a Suprema Corte: a) impõe leis sociológicas arbitrárias; b) cria novas leis e formula os pareceres que vinculam todas as interpretações legais; c) domina os dois outros poderes governamentais, solapando o princípio da tripartição dos poderes.

Resistência cristã

Em um dos documentos mais antigos do federalismo, em que se postulou a limitação estatal, Althusius (2003, p. 217) dizia que não é lícito aos administradores estatais ultrapassar os limites da lei. Quando esses assim o fazem deixam de ser ministros de Deus e se tornam pessoas privadas, “às quais não mais é devida a obediência naquilo que excederam os limites de seu poder".

Nesse sentido, é preciso que os cristãos resistam a esses avanços ideológicos que levam a uma crise estatal e a uma ditadura jurídica por parte dos tribunais. Consideram-se, assim, três pontos fundamentais apresentados:

Primeiramente, é preciso que se afirme que a linguagem humana tem algum grau de sentido objetivo que deve ser respeitado quando a lei é aprovada legislativamente. A hermenêutica não pode ser usada para relativizar e aprisionar o homem em uma espécie de “gabinete de espelhos das interpretações” (RATZINGER, 2007, p. 172).

Além disso, é essencial que os valores fundamentais, de influência judaico-cristã, que são base da sociedade moderna, sejam devidamente respeitados como previstos na Constituição porque garantem o mínimo de segurança jurídica, previsibilidade legal e imparcialidade que limitam os agentes estatais, e, também, porque são “propriedade de outros que ainda estão por nascer” (SCRUTON, 2015, p. 272).

Por fim, absolutizar as decisões judiciais que impõem uma agenda ideológica é, como ensinou Dooyeweerd (2015), considerar autossuficiente o que não é autossuficiente. Por isso, o Judiciário, que serve para controlar os outros poderes, deve também ser controlado para que não se permita a perpetuação de uma “ditadura jurídica moderna”.

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Referências bibliográficas:
ALTHUSIUS, Johannes. Política. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2003.
DOOYEWEERD, Herman. Raízes da Cultura Ocidental. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.
LEWIS, C. S. A abolição do homem. – 2ª. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
RATZINGER, Joseph. Fé, verdade, tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência, 2007.
RAZZO, Francisco. A imaginação totalitária: os perigos da política como esperança. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.
SCHAEFFER, Francis A. Manifesto Cristão. Refúgio Editora: Brasília, DF. 1ª ed, 1985.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. 2 ed. – Rio de Janeiro: Record, 2015.

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Autor: Anderson Barbosa Paz é seminarista do Seminário Teológico Betel Brasileiro. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, debatendo e ensinando.
Divulgação: Bereianos
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O Dia de Finados é bíblico?

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O dia de finados teve origem entre os clérigos romanos no início da paganização do Cristianismo, institucionalizada na Igreja Católica Romana. Antes mesmo de o dia de finados ser criado, o culto aos mortos já existia no mundo pagão, e quando começou a ser praticado - inicialmente de forma subtil e depois mais abertamente - pela Igreja Católica Romana, sofreu a crítica de um pequeno grupo de Cristãos da época, centrados no ensino da Palavra de Deus, que foi repelido pelos líderes de Roma. Posteriormente, essa prática herética só aumentou.

Na época carolíngia, que compreende os séculos IX e X D.C., surgiu o registo dos vivos e mortos a serem lembrados nas missas, como ocorre ainda hoje em toda Igreja Católica Romana, tomando o lugar dos antigos dípticos, tabuinhas de cera onde figuravam os nomes dos doadores de oferendas. Esses registos eram chamados libri vitae (livros da vida) e incluíam os vivos e os mortos.

Não muito tempo depois de criados esses registos, os mortos foram separados dos vivos nessas listas. Já no século VII, na Irlanda, passou-se a escrever os nomes dos mortos em rolos que eram lidos nos mosteiros e igrejas. Essa tradição deu origem às necrologias, lidas nos ofícios católicos romanos, e aos obituários que lembravam os serviços e obras dos defuntos nas datas em que completavam aniversário de falecimento. Os libri memorialis, como eram conhecidos, na época carolíngia continham de 15 mil a 40 mil nomes para serem lembrados. As necrologias da Abadia de Cluny, na França, faziam menção a 40 ou 50 nomes de defuntos por dia.

No século XI, exatamente entre 1024 e 1033 D.C., Cluny instituiu a comemoração dos mortos em 2 de novembro, estabelecendo a ligação deste dia ao chamado dia de todos os santos. O dia de todos os santos foi criado pela Igreja Católica Romana em 835 D.C. e comemorado no dia 1º de novembro em honra dos mortos, mas foi o abade beneditiano Odílio (962-1049 D.C.), de Cluny, que modificou e substituiu o tal dia de finados, que seria um dia reservado às orações pelas almas no purgatório. O dia de finados começou a ser aceito por Roma em 998 D.C., juntamente com a celebração do dia de todas as almas, e foi oficializado no início do século XI, sendo cristalizado já no século XX.

É interessante notar que o dia de todos os santos, de onde tudo começou, foi copiado dos cultos pagãos dos celtas e dos gauleses. A festa dos espíritos era celebrada pelos celtas em 1 de Novembro. Nessa data os celtas ofereciam sacrifícios para libertar os espíritos que eram aprisionados por Samhain, o príncipe das trevas. O império romano também absorveu o dia de pomona, dos gauleses, transformando as duas festas numa só. Posteriormente, a Igreja Católica Romana tomou a data para celebração do dia de todas as almas, absorvendo a crendice dos pagãos.

Em 1439, quando Roma bateu o martelo decisivamente pró doutrina do purgatório, o dia de finados foi fortalecido, sendo confirmado definitivamente com o Concílio de Trento, no século XVI, que inseriu na Bíblia católica romana os livros apócrifos. É no livro apócrifo de 2 Macabeus que se baseia o culto aos mortos, promovido por Roma em todo o mês de novembro.

Os católicos romanos alegam que Judas realizou sacrifício pelos mortos no livro de Macabeus (2 Macabeus 12.44-45), mas não podemos de forma alguma tomar este livro como sendo parte das Escrituras Sagradas. O autor de Macabeus, no final do livro, pede desculpas por algum erro que possa ter cometido. Se fosse um livro inspirado por Deus, o Senhor precisaria de pedir perdão por alguma coisa? Veja o que o epílogo do livro de Macabeus afirma: "Finalizarei aqui a minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor", 2 Macabeus 15.38.

As pessoas às vezes preferem acreditar mais em tradições humanas e experiências pessoais do que procurar estudar a Bíblia para verificar o que ela realmente diz a respeito do assunto. Não há base, em nenhum trecho das Sagradas Escrituras, para o purgatório. Não se deve orar pelos mortos porque a Bíblia diz que, depois da morte, segue-se o juízo (Hebreus 9.27).

Veja o absurdo ensinado pelos romanistas ao falarem do purgatório: "Se alguém disser que, depois de receber a graça da justificação, a culpa é perdoada ao pecador penitente e que é destruída a penalidade da punição eterna, e que nenhuma punição fica para ser paga, ou neste mundo ou no futuro, antes do livre acesso ao reino a ser aberto, seja anátema" (A Base da Doutrina Católica Contida na Profissão de Fé, Secção VI, papa Pio IV).

Como pode-se ver, a doutrina do purgatório simplesmente menospreza a obra expiatória de Cristo na cruz do Calvário, quando a Bíblia diz que o que Jesus fez é definitivo. Se alguém está em Cristo, nenhuma condenação há (Romanos 8.1), há completo livramento do juízo vindouro (João 5.24). Como, então, ensinar que Deus queima os Seus filhos no purgatório para satisfazer a sua justiça já satisfeita pelo sacrifício de Cristo, ou mesmo para satisfazer a Si mesmo, como se o que Cristo fez não fosse suficiente? Como Deus pode purgar pecados já expiados? Além disso, teria o papa mais poderes que Jesus, já que Roma ensina que Jesus, que do Céu intercede pelos pecadores, vê-se impossibilitado de livrar as almas que estão no purgatório, e que só o papa possui a chave daquele cárcere?

Orar por quem já morreu NÃO adianta. É antibíblico e inócuo. O dia de finados não se sustenta, porque ele é uma mera tradição religiosa, nada mais que isso. É uma invenção religiosa, bem explorada pelo comércio e pela Igreja Católica Romana. Uma farsa, como qualquer outra. Devemos orar pelos vivos. Isso sim é bíblico!

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Autor: Pr. Carlos M. Oliveira
Fonte: IQC - Portugal

Leia também (altamente recomendável): 
Por que não devemos celebrar o Dia de Finados
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Feliz Dia da Reforma!

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Estou vendo alguns posts sobre o Dia da Reforma e decidi tomar um tempinho para escrever alguns de meus pensamentos.

Todos nós sabemos que a escolha da data de 31 de Outubro de 1517 é (como a maioria das datas na história) arbitrária. É claro, você pode identificar 7 de Dezembro de 1941 com o Pearl Harbor porque foi um evento específico, mas (ainda assim) muitas coisas contribuíram para que ele acontecesse naquele dia. A data que escolhemos para o início da Reforma é ainda mais subjetiva. Isso porque era necessário muitos e muitos fatores para que a Reforma pudesse acontecer, e esses fatores tiveram raízes nos séculos que precederam as ações de Lutero.

Duvido, ainda mais, que Lutero colocaria algum peso sobre essa data em específico. Bem, é claro que ele veria alguma relevância sobre o desafio que havia lançado, mas não mais do que em qualquer um dos outros eventos de sua vida. Ele não tinha intenção alguma de criar uma rebelião contra Roma por suas ações, ele estava apenas fazendo o que a maioria dos professores na Europa faziam naqueles dias: convidando uma escola rival a uma versão escolástica de um jogo moderno de futebol. Em sua mente ele estava seguindo os passos de outros homens piedosos da igreja, e, nesse exato momento, ele ainda não havia reconhecido as questões epistemológicas básicas que ele haveria de ser forçado a encarar em apenas uma questão de anos.

Mas é certo sim marcar o início da Reforma (ainda que façamos isso de forma arbitrária). Poderíamos ter voltado até Wycliffe, ou ter escolhido 6 de Julho de 1415 e a morte de João Huss (pois sua morte teve muita importância). Poderíamos ter ido até a divisão entre Zuínglio e Roma ou a Dieta de Worms e o “Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa”. Em todo caso, parece adequado marcar o evento (ao menos para uma pequena minoria).

Para a maior parte do Romanismo e Protestantismo, a Reforma é um evento histórico sem qualquer significado duradouro. Para muitos, na verdade é um trágico evento, um erro, digno de arrependimento de seus adeptos e de repúdio pelos outros. Mas para a maioria é apenas uma nota de rodapé na história e, dada sua teologia e prática, não possui significado duradouro. Entre esses estão os católicos nominais que provam, por suas vidas, que eles realmente não acreditam na maioria das coisas que Roma ensinou. Mas também estão aqueles que são protestantes por conveniência e não por convicção. Para eles a Reforma claramente não apresenta qualquer razão para se celebrar ou refletir nos dias de hoje. Se alguém não aprecia a liberdade que a justificação garante, não se alegra com a imputação da justiça de Cristo (saiba que muitos dos grandes nomes de hoje da “cristandade não-católica” riem disso) e não abraça e confessa o Sola Scriptura, esse alguém não tem razão alguma para refletir sobre o Dia da Reforma (seria melhor ir comprar doces e se juntar às festividades pagãs).

Mas para aqueles que ainda abraçam aos Solas não por uma fidelidade partidária ao que é “legal”, mas por um reconhecimento do eterno valor que essas verdades representam, o Dia da Reforma é um lembrete anual do que realmente importa nesses dias de “verdades” borradas e transitórias. Então, para aqueles que entendem isso, um feliz Dia da Reforma!

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Autor: James R. White
Fonte: Página do autor no Facebook
Tradução e adaptação: Erving Ximendes
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Halloween: uma tradição de mau gosto

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Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” Isaías 5:20

Em torno do dia 31 de outubro, anualmente, em diversas partes do mundo, é realizada uma festividade denominada Halloween, mais conhecida no Brasil como o “Dia das Bruxas”. Muitos colégios, centros comunitários e até igrejas protestantes reproduzem cenários, fantasias, brincadeiras e até defendem a inocência cultural de tal ocasião.

Esta breve reflexão pretende, objetivamente, destacar a história do Halloweenseu significado, bem como apresentar uma resposta bíblica que auxilie sua aplicação.

Cinco séculos antes de Cristo, os celtas irlandeses começaram a comemorar o fim do verão e início de ano novo para a agricultura. Na ocasião, homenageavam todos que, durante aquele ano, haviam morrido. Esta homenagem envolvia a consagração dos seus mortos ao Sol, conhecida como Samhain (“fim de verão”). Os druidas (magos celtas) acreditavam que nesta data os mortos voltavam para se relacionar com suas famílias, mas para afastar os maus, era preciso deixar doces e comidas na porta dos seus antigos lares.

Para associar-se com tal tradição, em 741 d.C. o Papa Gregório III transferiu a data 13 de maio para 1º de novembro, a fim de comemorar a “Festa de Todos os Santos” ou “Finados” (culto prestado a favor de fiéis católicos mortos). No dia anterior era realizada uma importante vigília, chamada All Hallows Eve: All (todos), Hallows (santos) e Eve ou e’en que é uma contração de evening (fim do dia ou noite), posteriormente adotada como Halloween. Portanto, o significado é “noite de todos os santos”, cujo contexto envolve culto aos mortos. Com o passar dos anos, esta festividade essencialmente religiosa e pagã, tornou-se numa prática folclórica enfatizada por figuras demoníacas, bruxas, caveiras, abóboras com espíritos, zumbis, vampiros, monstros, etc., contrariando a perspectiva de culto aos santos católicos. Por isto, o Vaticano chegou ao ponto de chamar o Halloween de “manifestação contracultural”¹ e, no seu jornal mais conhecido, L'Osservatore Romanocriticou tais práticas por seu pano de fundo ocultista e absolutamente anticristão.²

A prática de cultuar os mortos começou com os egípcios e lentamente seduziu facções do povo de Israel, sendo posteriormente proibido por Deus. Qualquer culto que não seja dedicado exclusivamente a Deus, é idólatra. Deus exige adoração exclusiva e condena qualquer envolvimento com ocultismo pagão (Lv 19:31, 20:6-8, 27; Dt 18:10-12; Sl 106:28, 36-38; Pv 8:36; Is 8:19; Mt 4:10; Jo 4:24; Rm 12:2; 1 Co 10:20; 2 Co 2:11; Ef 5:8-12; 2 Tm 1:7; Hb 9:27; 1 Jo 4:4; Ap 22:15).

Embora muitos permitam e até participem destas festividades alegando folclore inocente e sem intenção de cultuar mortos ou demônios, tais práticas demonstram aceitação e/ou admiração por aquilo que é condenável aos olhos de Deus, independente da intenção, mas da sua prática em si. Por trás da suposta inocência, especialmente por causa do uso tradicional de crianças e doces, há significados tenebrosos relacionados com demônios, medo, idolatria e feitiçaria.

Portanto, não se envolva ou permita a seus filhos se envolverem com festas temáticas do Halloween.
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Notas:
¹http://www.vatican.va: The Salesian Center for Faith and Culture.
²http://the-american-catholic.com: Vatican Condemnation of Halloween is False

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Autor: Rev. Ericson Martins

Leia também:

A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

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O caráter e situação de alguém que está se preparando para o Ofício Sagrado são interessantes além da capacidade de expressão. Essa pessoa, como o Mestre a quem professa amar e servir, está “destinada tanto para a ruína como para levantamento de muitos em Israel”. Em tudo o que é e em tudo o que faz, o bem-estar temporal e eterno, não apenas de si mesmo, mas de milhares pode estar envolvido. Ele é assaltado por perigos de todos os lados. Quaisquer que sejam seus talentos e conhecimento, se não tiver genuína piedade, provavelmente será não uma bênção, mas uma maldição para a Igreja. Mas esse não é o único perigo ao qual está exposto. Ele pode ter genuína piedade, bem como talentos e conhecimento, e, ainda assim, devido à indiscrição habitual, a algum defeito na sobriedade de mente – que é tão preciosa a todos os homens e especialmente àquele que ocupa uma posição pública –, ao amor pela novidade e inovação, ou ao amor pela distinção, que é tão natural aos homens, enfim, por isso tudo, em vez de edificar o “corpo de Cristo”, pode-se tornar um perturbador de sua paz e um corruptor de sua pureza. De modo que poderíamos quase dizer, qualquer que seja o desfecho com respeito a ele próprio, que “seria melhor para a Igreja se ele jamais tivesse nascido”. 

A TULIP e o Dogma Romano - Um estudo comparativo entre a soteriologia Calvinista e Católico Romana

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A Confissão de Fé de Westminster diz que tudo o que precisamos saber para nossa salvação, “ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.6). Jesus assevera: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6:37). De fato, essa palavra não poderia ser mais clara. Nossa salvação não acontece por acaso, ela está bem definida dentro do plano eterno do Pai, foi executada com perfeição pelo Filho e é aplicada eficazmente pelo Espírito. 

Por isso, o calvinismo sustenta que a salvação é um ato da livre e exclusiva graça de Deus, visto que o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1) e não pode responder à oferta de reconciliação, de modo que Deus mesmo transforma a sua vontade ao lhe regenerar o coração (At 16.14). 

A Parábola da Cordeirinha e os Padrinhos dos “Pais de Pets”

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Introdução

Há exatamente uma semana publiquei um pequeno artigo a respeito da atual prática de dispensar aos animais de estimação o mesmo tipo de tratamento e afeto destinados aos nossos filhos.[i] Homens e mulheres que se denominam “pais e mães de pets” e que, com base nisso, praticam as coisas mais absurdas, desde aniversário do bichinho de estimação até a concessão do sobrenome da família ao animal.

Meu argumento contra essa prática se baseou nas doutrinas da Trindade e da criação. O relacionamento entre as pessoas do Pai e do Filho, bem como a igualdade de essência define quem o homem deve considerar como seus filhos. De igual modo, o fato de o homem ser criado à imagem de Deus, conforme a sua semelhança, faz com que exista um abismo ontológico entre o ser humano e os animais. À parte da classificação biológica dos reinos vegetal, mineral e animal, a Escritura não classifica o homem como “animal”, mas como “alma vivente”, um ser que porta a imagem de Deus. Assim, é completamente inapropriado que animais de estimação sejam chamados e tratados como filhos. Inclusive, é bom que se diga que a Bíblia faz distinção entre o ser humano e os animais: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gênesis 6.7; conferir 7.23 e Jeremias 51.62).

Contudo, não tardou para que defensores da prática e relativistas bíblicos começassem a tergiversar na busca por alguma brecha que justificasse o seu modo de agir. Um argumento apresentado se baseia numa passagem das Escrituras, e é tal argumento que me impele a escrever este breve artigo. É necessário afirmar que a tentativa de encontrar na Escritura uma abertura para a prática poderia me levar a elogiar o intento, uma vez que tais pessoas estariam desejando agir com base na Escritura. Não obstante, o contrário é que é verdade. Elas continuam desejando seguir as inclinações dos seus corações. Estão apenas usando a Bíblia como pretexto.

Sem mais delongas, vamos à passagem.

2 Samuel 12.4

A passagem diz o seguinte: “O SENHOR enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: Havia na cidade dois homens, um rico e outro pobre. Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha como filha. Vindo um viajante ao homem rico, não quis este tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante que viera a ele; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o homem que lhe havia chegado”.

O argumento utilizado é que esta passagem bíblica ensina que animais de estimação podem ser tratados e considerados como filhos, afinal de contas, o homem pobre da passagem havia comprado uma cordeirinha e a tratava como filha. Ela vivia com os seus filhos, denotando igualdade. Ela comia do seu prato e bebia do seu copo. Ela dormia nos braços do homem e era tratada como filha. O argumento pode ser esboçado em forma de um silogismo:

PREMISSA MAIOR: Se a Bíblia contivesse ao menos um exemplo de um animal sendo tratado como filho, seria lícito fazer o mesmo com os nossos animais.

PREMISSA MENOR: A Bíblia apresenta o exemplo de um homem que tinha uma cordeirinha e a tratava como filha.

CONCLUSÃO: Logo, animais de estimação podem ser tratados como filhos.

Trata-se de um argumento lógico bem construído. Não obstante, é um argumento falacioso, pois se fundamenta numa péssima hermenêutica. O argumento desconsidera, por completo contexto histórico, bem como o gênero literário da passagem em questão. Assim, é preciso interpretar devidamente a passagem, a fim de ficar evidenciado que a mesma não tem como propósito fornecer o fundamento para a atual prática dos “pais e mães de pets”.

A primeira verdade que precisa ser afirmada a respeito da passagem de 2Samuel 12.1–4, é que ela é uma parábola.[ii] Esta informação é crucial para entendermos a passagem.

Uma parábola nada mais é do que “uma narrativa breve que exige uma reação do ouvinte. No que diz respeito ao gênero, as parábolas são histórias realistas que abordam situações cotidianas”.[iii] Herbert Lockyer, um erudito estudioso das parábolas da Bíblia afirma que existem duas ideias presentes na raiz do termo grego παραβολή: “‘representar ou significar algo’; ‘semelhança ou aparência’. Esse termo grego significa ‘ao lado de’ ou ‘lançar ou atirar’, transmitindo a ideia de proximidade, num cotejamento que visa a verificar o grau de semelhança ou de diferença. Uma ‘semelhança’ ou ‘pôr uma coisa ao lado da outra’”.[iv] Assim, ao contar a parábola, Natã fará uma comparação entre a história e a realidade.

É preciso compreender que, apesar de ser uma história realista, uma parábola não é uma história real. Apesar de fazer uso de elementos do cotidiano das pessoas, as parábolas não eram histórias reais. O Dr. Paulo Anglada afirma o seguinte sobre as parábolas: “Elas são histórias empregando elementos do cotidiano. Não são fatos reais, mas histórias imaginárias concebidas a partir de aspectos da vida comum, familiares aos ouvintes e relacionados ao trabalho, religião e vida social e doméstica”.[v] Dessa maneira, como coloca, Köstenberger e Patterson: “Provavelmente nunca houve, por exemplo, nenhum estalajadeiro ou ‘bom samaritano’ históricos”.[vi]

Se as parábolas não apresentam fatos, então, qual o seu propósito? Qual o seu objetivo? Em primeiro lugar, as parábolas possuem um propósito didático. Elas são concebidas para ensinar determinada lição espiritual ou moral a um grupo de pessoas. Caso a lição fosse apresentada de maneira proposicional, em forma de proposições teológicas ou morais, dificilmente conseguiria captar a atenção do seu público. Lockyer diz: “Se Natã tivesse entrado no palácio real e, de forma direta e imediata, censurasse a culpa do rei decretando a sentença devida ao seu pecado, é pouco provável que Davi desse ouvidos. O tratamento direto e franco da questão talvez fizesse o rei se irar e o impedisse de se arrepender”.[vii] Assim, as parábolas se prestam a esse propósito. Os ouvintes rapidamente se identificavam com o conteúdo da história e permaneciam atentos até o fim. O erudito Moisés Silva diz que, além disso, “as parábolas têm a vantagem de desarmar aqueles que possam ofender-se com sua mensagem, visto que o ouvinte frequentemente tem que esperar até o último momento da história para descobrir seu significado”.[viii]

Qual a importância disso para o assunto dos “pais e mães de pets”? Simples. A passagem não está narrando um fato. Ela não está contando a história real de um homem que colocou em prática aquilo que a sociedade e até mesmo muitos crentes dos nossos dias têm praticado. As pessoas não conseguem perceber que estão fazendo uso de uma parábola, uma história apenas e extraindo dela um princípio para fundamentar um comportamento que é diametralmente oposto a doutrinas claras da Escritura, como as doutrinas da Trindade e da criação do ser humano à imagem de Deus. Numa ânsia por continuarem alimentando práticas antibíblicas, elas acabam por trocar aquilo que é certo por algo errado, e tudo isso firmadas numa péssima interpretação textual.

Mas há outro problema em se utilizar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para apadrinhar o comportamento dos “pais e mães de pets”.

Ao se interpretar uma parábola é necessário ter o devido cuidado para não se extrair dela mais do que aquilo que, verdadeiramente, é o seu propósito. Anglada nos ajuda com este aspecto da interpretação das parábolas (a citação é longa, mas também é bastante elucidativa):

3. Identifique o foco ou focos centrais da parábola. A diferença principal entre parábolas e alegorias consiste em que as primeiras se propõem a ilustrar apenas uma ou algumas verdades ou lições centrais, enquanto que nas alegorias, cada detalhe é concebido com o propósito de significar alguma coisa, ensino ou pessoa, como ocorre por exemplo em O Peregrino, de João Bunyan. De modo geral, Jesus ilustra apenas uma lição com as suas parábolas (ver Lc 15.7; 18.7; 20.16). Algumas parábolas, entretanto, tais como a parábola do semeador (Mt 13.18–23) e a do joio (em Mt 13.36–43), são tão adequadas para ilustrar as lições que Cristo queria ensinar, que vários detalhes ilustram aspectos dessas verdades. Em geral, entretanto, o intérprete deve ter cuidado para não alegorizar os detalhes de uma parábola, encontrando significados em detalhes da história que não se propõem a ensinar nenhuma verdade em particular. Zuck chama a atenção para o fato de que geralmente Jesus não atribui significado aos detalhes das suas parábolas. Como exemplo, ele cita a parábola da ovelha perdida (Lv 15.3–7). Apesar de obviamente apontar para Jesus (o pastor), para pecadores perdidos (a ovelha perdida) e para os crentes (as 99 ovelhas), nada indica que detalhes, tais como o deserto, o ombro do pastor, sua casa, seus amigos e vizinhos, tenham qualquer significado.
4. Observe indicações explícitas e implícitas do propósito da parábola. Às vezes, a própria parábola indica explicitamente o seu propósito — geralmente no início ou no final — como ocorre na parábola do juiz iníquo (Lc 18.1–8). Logo no primeiro versículo, é dito que o propósito da parábola é demonstrar “o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (cf. também o propósito da parábola das bodas, em Mateus 22.14). Quando não há indicação explícita do significado ou propósito da parábola, o intérprete deve observar o seu contexto-histórico literário. Frequentemente, a circunstância em que a parábola é proferida, uma pergunta, comentário ou explicação, logo antes ou depois da parábola, ajudam o leitor a compreender o seu propósito ou significado.[ix]

Por exemplo, na parábola do credor incompassivo muitas pessoas acabam afirmando que ela ensina que é possível perder a salvação depois de a termos recebido, pois a parábola fala do rei concedendo perdão ao homem que lhe devia dez mil talentos, porém, anulando esse perdão posteriormente. O que as pessoas deixam de considerar é que o propósito da parábola não é ensinar isso. A parábola tem o objetivo de nos ensinar a respeito de perdoarmos nossos irmãos ilimitadamente, uma vez que nossa dívida em relação a Deus é infinitamente maior do que a dívida que qualquer pessoa tenha conosco (Mateus 18.23–35). Muitas pessoas erram na interpretação das parábolas porque as desassociam do seu contexto histórico, e isso jamais deve ser feito. No caso da parábola do credor incompassivo, o contexto histórico pode ser aferido nos versículos 21–22: “Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

De igual modo, dizer que 2Samuel 12.1–4 fornece o fundamento para tratarmos nossos animais de estimação como filhos é violentar o propósito da parábola. Devemos perguntar: Qual o propósito de Natã ao contar essa parábola ao rei Davi? Por acaso, Natã desejava ensinar Davi a dormir com seus animais de estimação, deixar que eles comessem do seu prato e bebessem do seu copo, além de fazê-los irmãos dos seus verdadeiros filhos? É absurda e desonesta qualquer sugestão nesse sentido. O contexto histórico da parábola da cordeirinha é claro: os pecados cometidos por Davi, seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias (2Samuel 11). O capítulo 11 termina com a afirmação de que, “isto que Davi fizera foi mal aos olhos do SENHOR” (v. 27).

A parábola, então, foi contada por Natã para levar Davi a reconhecer a sua culpa diante de Deus. Ao contar a história do homem e sua cordeirinha, o único objetivo de Natã era extrair a confissão: “Pequei!”, de Davi. Natã não tinha a menor ideia de que, um dia a história que contou seria usada para defender uma tolice. Novamente citando Moisés Silva: “O ponto aqui é que as parábolas devem ser entendidas historicamente, isto é, identificando-se as situações específicas em que elas foram usadas”.[x]

Sinceramente, causa-me espécie o caráter pueril de se usar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para defender tamanha insensatez. Insisto em dizer que as pessoas desconsideram o que passagens e doutrinas claramente ensinadas nas Escrituras ensinam, a fim de agarrarem a deturpações de passagens que nada têm a ver com aquilo que corações pecaminosos concebem. Paulo Anglada dá o alerta: “Finalmente, é importante verificar se outras passagens bíblicas ensinam a verdade que o intérprete pensa que a parábola ilustra. Como regra, parábolas não devem ser usadas como base doutrinária, mas como ilustrações de verdades ensinadas em outras passagens bíblicas”.[xi]

Consideração Final

Depois de todo o arrazoado acima, só resta dizer uma coisa em relação a quem procura usar a parábola da cordeirinha para ensinar que animais de estimação podem ser tratados como filhos. Como afirmou o reformador João Calvino: “É lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”.[xii]

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Notas:
[i] O artigo pode ser lido aqui e aqui.
[ii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006. p. 39.
[iii] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 396.
[iv] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 9.
[v] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada: Correntes Históricas, Pressuposições, Princípios e Métodos Linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2006. p. 210.
[vi] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica. p. 396.
[vii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 40.
[viii] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 104.
[ix] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. pp. 212–213.
[x] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. p. 106.
[xi] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. p. 213.
[xii] João Calvino. As Institutas da Religião Cristã. 1.11.8. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 107.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Medium
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