0 Os atributos do cristão - 1/2

.


Texto base: Romanos 12.9-21

Os cristãos são convocados pelo evangelho a manifestarem amor uns pelos outros, especialmente pelos inimigos. O amor é a base dos nossos relacionamentos. Nossas atitudes devem ser regidas pelo amor, conforme o apóstolo João [em sua primeira carta] e os demais escritores sacros admoestam. 

Visto que o amor tem decrescido não somente da sociedade, mas especialmente na igreja, Paulo, em Romanos 12.9-21, enumera uma lista de virtudes baseadas no amor, as quais não devem ser apenas almejadas, mas, sobretudo, alcançadas pelos cristãos através da oração e do agir soberano do Espírito Santo na concessão delas.    
                   
INTRODUÇÃO 

No trecho anterior (vs.3-8), Paulo utilizou a analogia do corpo humano e suas partes, a fim de ilustrar a unidade e a diversidade dos dons espirituais na igreja (vs.5-6). O apóstolo também focalizou a necessidade de cada cristão reconhecer os seus dons e a importância de usá-los de forma apropriada para a edificação coletiva (vs.6-8).  

O presente trecho (vs.9-21), por sua vez, expressa similaridades com os ensinamentos de Jesus no Sermão do Monte (compare os vs.14, 17,21 com Mateus 5.43-45). Não obstante, a linha de pensamento que Paulo descreve em Romanos 12 é praticamente a mesma de 1 Coríntios 12-13 (sobre a analogia do corpo humano, compare os vs.4-5 com 1Co 12.12-27; acerca da diversidade dos dons espirituais, compare os vs.6-8 com 1Co 12.28-30; e a respeito do amor como o dom supremo, compare os vs.9-31 com 1Co 13).

Segundo muitos estudiosos, não há uma ordem sistemática neste trecho de Romanos 12. Eles afirmam que a estrutura do raciocínio de Paulo é digressiva, isto é, confusa e desorganizada, como se o apóstolo não tivesse um foco. Pessoalmente, reconheço que este trecho, no que se refere a divisões e subdivisões é, com efeito, o mais abstruso da carta aos Romanos. Entretanto, mesmo que não seja um paradigma a ser observado, há várias formas de metodizá-lo.  
                
Paulo elenca uma lista de imperativos que os cristãos devem obedecer. John Murray realça que o capítulo inteiro ocupa-se com os aspectos práticos da santificação; e, por esse motivo, as exortações têm de abranger diversas situações da vida.[1] À partir deste trecho, Paulo inicia uma longa série de imperativos baseados no amor, o qual se estende até o capítulo 15.    
      
O esboço analítico desta seção pode ser dividido em apenas duas seções. Primeiro, o apóstolo discorre sobre a relação dos cristãos uns com os outros (vs.9-13, 15-16); Segundo, ele disserta acerca da relação dos cristãos com aqueles que os consideram inimigos (12.14,17-21).
    
EXPLANAÇÃO

1. O relacionamento dos cristãos uns com os outros (12.9-13,15-16) 

A palavra “amor” αγάπη (ágape) aparece em Romanos 12 vezes (veja as ocorrências em 5.5, 9; 8.35-36, 39; 9.3; 12.9-10; 13.8, 10; 14.15; 15.30). Nos capítulos antecedentes, essa palavra salienta o amor de Deus pelos seus eleitos. No capítulo em voga, todavia, Paulo enfatiza o amor como uma marca preponderante do cristão. Este novo trecho, diferentemente do anterior (vs.3-8), onde o apóstolo tratou sobre os dons espirituais, sublinha o fruto do Espírito, descrito em Gálatas 5.22 [amor, alegria, paz, longanimidade]. Portanto, qual é o motivo dessa distinção?  

Os dons espirituais são outorgados aos cristãos de “maneira diversa”, onde cada um é admoestado a exercer seus dons adequadamente para a edificação da igreja (vs.6-8). Por outro lado, é determinante que todos os cristãos apresentem os frutos do Espírito, conforme indicam os cinco deveres subsequentes. Senão vejamos:  
          
a) As obrigações pessoais (12.9)

Paulo descreve dois imperativos que assinalam a responsabilidade dos cristãos como indivíduos.  
    
i. Devemos amar de forma sincera (vs.9a)

O amor é a base de todos os mandamentos (Mt 22.34-40). Diferente do amor fraternal (vs.10), que é “restritivo”, pois faz parte do relacionamento entre irmãos na fé, o amor que Paulo realça aqui é “inclusivo”. O apóstolo exorta que o amor dos cristãos por Deus, pelos irmãos na fé, pelo próximo e até pelos inimigos, deve ser verdadeiro. 
    
O adjetivo sincero é a tradução do substantivo hipocrisia ανυπόκριτος (anypókritos), que, no grego, significa “fingimento”, “dissimulação”. Essa palavra caracteriza os “atores” que utilizavam “máscaras” nas peças de teatro, no mundo antigo; traz a ideia de “representar um papel”, “fingir ser alguém que não é diante das pessoas.” O hipócrita é um enganador! Stott ressalta que a igreja não pode transforma-se num palco. Afinal, o amor não é teatro; ele faz parte da vida real.[2] 

Nenhum pecado é mais digno de repreensão e mais destrutivo para a integridade do que a hipocrisia, porquanto é a contradição da verdade (veja Lc 22.48). Se o amor é o resumo da virtude, e a hipocrisia é a síntese do pecado, que contradição está envolvida na junção dessas duas coisas! Afeição dissimuladora![3]

Sendo assim, Paulo declara que a expressão de amor dos cristãos não deve ser encenada, como se estivessem representando um papel ou usando uma máscara. Nosso amor pelos outros deve ser genuíno, sem fingimento (Lv 19.18; Mt 22.34-40; Gl 5.14; Tg 2.8).  
              
ii. Devemos execrar o mal e afeiçoarmo-nos ao bem (vs.9b,c)

As palavras mal e bem retratam uma antítese. O Mal πονηρόν (ponirón) refere-se “aquilo que é prejudicial”, enquanto o bem αγαθός (agathos) designa “aquilo que é benéfico”. Paulo, então, recomenda negativamente a detestarmos, abominarmos αποστυγέω (apostygéo̱) todas as classes de maldade; em seguida, ordena positivamente a nos afixarmos κολλάω (kolláo̱) [“como cola”, que é a ideia no grego] em todas as manifestações de bondade. Fomos chamados não apenas para sermos diligentes na prática do bem, mas, sobretudo, a persistirmos ativamente nesta conduta. Apesar de sermos regenerados pelo Espírito Santo, ainda temos uma natureza pecaminosa que ama fazer o mal e, portanto, necessita ser subjugada todos os dias através do revestimento do novo homem (Ef 4.17-32; Cl 3.5-17). Destarte, precisamos “odiar” o amor ao mal e “agarrarmo-nos” ao bem!(Sl 97.10a; 1Pe 3.10-11).

b) As obrigações sentimentais (12.10)

Paulo desloca-se, agora, para a responsabilidade dos cristãos para com o aspecto emocional dos irmãos na fé. Ele tece dois imperativos. Vejamos, pois:
  
i. Devemos amar os irmãos na fé assim como amamos nossa família (vs.10a)

O apóstolo utiliza duas palavras incomuns para associar o “amor fraternal” ao “amor de viés afetivo”. Amai-vos cordialmente φιλόστοργοι (filostorgos), destaca o amor natural que sentimos por nossos familiares, como o amor dos pais pelos filhos e o amor entre irmãos. O amor fraternal φιλαδελφία (filadelfia), por sua vez, acentua o amor entre os irmãos na fé. As duas palavras eram empregadas para frisar os relacionamentos familiares. Paulo, no entanto, atribui uma nova conotação a essas palavras, referindo-se ao amor que uni os cristãos uns com os outros como membros da família de Deus em Cristo.

Hendriksen escreve: 
         
Os vínculos que unem os membros dessa família espiritual são muito mais seguros e duráveis do que os que ligam os membros de uma família puramente física (Lc 14.26). O que o apóstolo está dizendo, pois, é que os membros dessa família espiritual precisam fazer tudo que estiver em seu poder para dedicar-se uns aos outros, e permanecer assim, com terna afeição.[4]

William Barclay alega que a igreja cristã não é uma coleção de conhecidos, nem mesmo uma reunião de amigos; é uma família em Deus.[5] Precisamos oferecer todo o nosso amor aos demais cristãos. Fazemos parte de uma família. Somos irmãos na fé (veja 1Ts 4.9; 1Pe 1.22; 1Jo 2 7-11; 3.11-12, 17-18).   
  
ii. Devemos engrandecer uns aos outros (vs.10b)

Este segundo imperativo mútuo complementa o anterior. Não devemos somente amar os nossos irmãos, mas, também, prestar honra a eles. No grego, a palavra preferindo-vos προηγέομαι (proegeomai), traz a ideia de “abrir e mostrar o caminho para os outros”; significa “demonstrar respeito, apreço, considerar os outros como melhores que nós”. Paulo solicita que devemos considerar nossos irmãos na fé como dignos de maior honra do que nós; que os estimemos mais do que a nós mesmos. Isso, porém, não denota que você e eu temos que considerar uns aos outros mais competentes do que nós. Cada um é eficiente naquilo que foi dotado por Deus. Antes, o apóstolo quer dizer que humildemente devemos “considerar” nossos irmãos melhores do que nós (veja Fp 2.3).

Devemos honrar nossos irmãos em vez de menosprezá-los por suas debilidades. Calvino disse que não há veneno mais letal para arrefecer [esfriar] os relacionamentos do que alguém imaginar-se depreciado.[6] Ao invés de contendermos por superioridade, que estejamos dispostos a conceder aos outros a preeminência.[7]
                                  
c) As obrigações espirituais (12.11-12)

Paulo convoca a atenção dos cristãos para a responsabilidade nos deveres espirituais. Tendo em vista o perigo da letargia espiritual concernente ao fato de honrarmos nossos irmãos na fé, o apóstolo aduz três imperativos que estão intimamente conectados. Senão vejamos: 

i. Não devemos ser indolentes na vida cristã (vs.11a)

Temos aqui uma admoestação negativa, a qual é direcionada contra o ato de cansar-se de fazer o bem (Gl 6.9). A expressão no zelo, não sejais remissos, implica que não devemos ser “preguiçosos”, “apáticos” na vida cristã, na doutrina, no trabalho para Deus; antes, precisamos ser diligentes.

Lloyd Jones expande:

Quando Paulo diz para os cristãos se animarem, não está pedindo que eles se transformem em algo que não são por natureza. Não podemos mudar nossa natureza ou temperamento. Sendo assim, Paulo não está tentando conseguir que alguém que talvez seja um pouco apático por natureza coloque uma máscara e desempenhe um papel. Não é isso. Contudo, ele está dizendo que nos animemos a nós mesmos.[8]  

Calvino frisa que, se esquecermos de nós mesmos na execução de muitos de nossos deveres, jamais estaremos adequadamente preparados para a obediência a Cristo, a menos que instemos conosco mesmos, esforçando-nos diligentemente por desprendermo-nos de toda nossa indolência.[9]   
          
ii. Devemos ser aplicados na vida cristã (vs.11b)

Este segundo preceito, de cunho positivo, acresce o anterior, demonstrando a importância de nos sustermos nele. Paulo recomenda que sejamos fervorosos no espírito. Pessoalmente, acredito que essa expressão refere-se não ao “espírito humano”, conforme muitos estudiosos atestam, mas ao “Espírito Santo”. Descarto a ideia de que, baseado em Atos 18.24-25, Paulo esteja fazendo alusão ao “espírito humano”. 
   
Lloyd Jones explica:

Você não pode mudar seu temperamento. Se você nasceu fervoroso no “espírito”, é o que você é; porém, se nasceu com uma espécie fleumática de temperamento, não será fervoroso no espírito, no sentido natural. Contudo, o texto nos diz que devemos ser “fervorosos no espírito”. Portanto, eu digo que essas palavras só podem referir-se ao “Espírito Santo”, que está em nós, cristãos, seja o que for que sejamos por temperamento. Não devemos nos esquecer de que isso é uma ordem, e, portanto, é algo que podemos ser.[10] 

A expressão sede fervorosos ζέοντες (zéontes), literalmente “mantendo o fervor”, significa “ferver ao ponto de ebulição, estar muito quente, inflamado”; traz a ideia de “estimulação”. Paulo está dizendo que devemos estar fervendo no “Espírito”, isto é, sempre entusiasmados com a vida cristã e suas nuances, como a oração, o estudo da Palavra, a assiduidade nos cultos e o serviço cristão. 

Hendriksen corrobora nosso entendimento da expressão “fervoroso no Espírito”, dizendo: 

Naturalmente, a fonte do entusiasmo não está no homem. Se uma pessoa está para ser “lançada ao fogo”, é o Espírito Santo quem deve fazer isso. Assim diz Paulo: “Nunca evitem demonstrar entusiasmo.” E acrescenta imediatamente: “Que ardam com o Espírito.” Os santos não só devem tomar cuidado de não apagar o Espírito, de não resistir ao Espírito e nem mesmo de entristecer o Espírito; devem rogar ardentemente que o Espírito Santo as encham de zelo, do entusiasmo necessário para apropriadamente levar a bom termo seus deveres cristãos e atingir seu alvo.[11]   
     
Calvino enuncia que nossa carne, à semelhança dos asnos, é perenemente indolente, e por isso carecemos de ser esporeados. Não há outro corretivo mais eficaz para a nossa indolência do que o fervor do espírito. Portanto, a diligência em fazer o bem requer aquele zelo que o Espírito de Deus acendeu em nossos corações.[12]  
      
A terceira exortação, por conseguinte, assinala que os cristãos devem ser fervorosos servindo ao Senhor τω κυρίω δουλεύοντες (to̱ kyrío̱ doulév̱ontes) [tradução literal]. O grego transmite a ideia de “estarmos continuamente trabalhando para o Senhor como escravos dele”. Essa frase completiva mostra que o “fervor no Espírito” não é algo isolado, não obstante está ligado ao “servir a Deus”, e tem “o duplo propósito de despertar-nos da ociosidade e regular o zelo”.[13]  

Logo, ser “fervoroso no Espírito” não implica em ter um comportamento extravagante e sem domínio próprio, conforme muitos pentecostais e neopentecostais apresentam. Pelo contrário, o “fervor no Espírito” é caracterizado pela diligência. Em outras palavras, da piedade e do serviço cristão sucede uma vida fervorosa.

James Dunn ratifica:

A frase adicional sirvam ao Senhor pode muito bem servir como "um controle ou uma pausa para aquilo que, de outra forma, poderia ser interpretado como um convite ao entusiasmo desenfreado". 

Stott, por sua vez, afirma que o comprometimento prático com o Senhor Jesus, tal como o de um escravo com o seu mestre, mantém o zelo firmemente enraizado na realidade.[14] 

Não devemos permitir que a morosidade espiritual adentre-se em nossa vida e apague o “fogo do Espírito” (1Ts 5.19). Que sejamos constantemente aplicados nas disciplinas espirituais, servindo ao Senhor orando, conhecendo-o cada vez mais através do estudo das Escrituras, congregando e usando nossos dons para a edificação dos irmãos. Servir a Deus é “o antídoto supremo contra toda e qualquer tendência para a preguiça na vida cristã”.[15]  
  
iii. Devemos nos alegrar na esperança, sermos pacientes na adversidade e diligentes na oração (vs.12)  

Assim como a tríade anterior, os três imperativos em voga também estão interligados. Em primeiro lugar, temos que nos regozijar na esperança, que se refere à consumação da nossa salvação, que se dará no futuro, por ocasião da segunda vinda de Cristo (5.2, 4-5; 8.24-25; 15.4, 13; 1Pe 1.3-5). Todavia, é importante frisarmos que a esperança não é o “objeto” da alegria que devemos ter. Antes, o “foco” da nossa esperança é Cristo! Desse modo, a esperança que temos no estabelecimento do reino de Deus nesta terra sobre a égide do Senhor Jesus é a “causa” da nossa alegria. Portanto, o conselho instaurado é que devemos nos alegrar “em virtude” da esperança da regeneração de todas as coisas. 
    
Em segundo lugar, só iremos ter paciência na tribulação se nos alegrarmos através da esperança. Paulo não ensina que devemos “suportar” as pressões da vida, mas sim, “perseverarmos” em meio às intempéries (8.35-39; Jo 16.33; Atos 14.22; 2Co 1.4-5, 4.17; 8.2; 1Ts 1.6-7; 3.3; 2Ts 1.4; 2Tm 3.11-12). O propósito do Senhor no decreto dos infortúnios para os cristãos é pedagógico. As calamidades têm o poder de santificar, aperfeiçoar e amadurecer os cristãos para, assim, torná-los cada vez mais semelhantes à Cristo Jesus (2Co 4.17-18). 

Em terceiro lugar, se não houver afinco na oração, será impossível nos alegramos na esperança do retorno de Cristo e sermos persistentes na fé nas adversidades. A oração faz parte de uma vida cristã normal, saudável. Precisamos orar constantemente! (At 2.42; Cl 4.2; 1Ts 5.17; 1Tm 2.8). A inércia na oração gera tepidez espiritual! John Murray pontua: 
      
A perseverança em meios às tribulações é medida por nossa diligência na oração. A oração é o instrumento determinado por Deus para o suprimento da graça suficiente para toda circunstância e, particularmente, contra o desencorajamento de coração a que somos tentados pelas aflições. Quão assustadoras seriam as tribulações, se não possuíssemos esperança (1Co 15.19); quão derrotistas seriámos na perseguição, se não tivéssemos os recursos da esperança e da perseverança fornecidos a nós através da oração.[16] 
           
A oração é o mecanismo mais eficaz para não sermos sucumbidos pelo desânimo espiritual que as tribulações geralmente produzem em nosso coração. Lloyd Jones conclui, expandindo:

São esses os antídotos contra a preguiça, a moleza, o desalento, o pessimismo, ou o medo dos incrédulos modernos e seus escritos. Leiam as Escrituras, considerem o plano de Deus, Contemplem Jesus, fixem seus olhos nele (Hb 12.2). Vejam o que Ele fez, vejam o que Ele está fazendo, vejam o que Ele ainda vai fazer. Assim não haverá preguiça.[17]    
                           
d) As obrigações sociais (12.13)

Desta vez, Paulo apresenta aos cristãos os deveres sociais. O apóstolo ressalta dois imperativos.  
  
i. Devemos ser generosos para com os irmãos em necessidade (vs.13a)

No grego, o verbo compartilhar κοινωνέω (koino̱néo̱), literalmente “compartilhando”, denota “comunhão”, “parceria”. Traz a ideia de “participar nas diversas necessidades e sofrimentos dos irmãos, repartindo os nossos recursos com eles sempre que precisarem”. 

Adolph Pohl observa:

Às vezes, o membro que passava a pertencer a uma igreja domiciliar perdia facilmente seu respaldo social anterior. Era possível que as viúvas fossem excluídas da assistência pública aos pobres por causa de sua fé. Com isso, elas eram depositadas aos pés da igreja como uma tarefa (Tg 1.27). Os mestres da igreja também careciam de auxílio em seus primórdios, uma vez que o serviço dedicado à igreja comprometia sua subsistência (Gl 6.6; 1Co 9.14).[18]

Numa sociedade em que impera o individualismo e a indiferença, devemos, como cristãos, assumir os problemas dos irmãos como se fossem os nossos próprios problemas, sofrendo e lutando com eles. Devemos ser parceiros dos irmãos que se encontram atribulados.   

A generosidade em compartilhar nossos bens com os irmãos em necessidade é uma prova cabal do amor fraternal ordenado na Escritura (Gl 6.2; 1Jo 3.18). Calvino acentua que somente quando aliviamos as necessidades de nossos irmãos, por nenhuma outra razão senão para exercer nossa benevolência em prol deles, é que verdadeiramente comprovamos nosso amor.[19] Os cristãos da igreja primitiva, por exemplo, eram extremamente liberais e solidários (At 2.44-45). Acerca disso, MacArthur escreve: 

Os cristãos primitivos não viviam em comunidade ou associação e redistribuíam tudo em igualdade, antes, mantinham suas posses sem estarem presos às mesmas, estando dispostos a usá-las a qualquer momento em favor de alguém, à medida que as necessidades surgissem.[20]

ii. Devemos ser receptivos (vs.13b)

A palavra hospitalidade φιλοξενία (filoxenia), no grego, significa “amor aos estranhos” (Hb 13.2). O verbo διώκοντες (dió̱kontes), literalmente “buscando”, foi traduzido por praticar. Comunica a ideia de sermos “ativos na busca pela hospitalidade”.

Na época do Novo Testamento, viajar era perigoso e as hospedarias eram ruins, escassas e caras. Assim, os primeiros cristãos, com frequência, abriam suas casas para os viajantes, especialmente para os companheiros cristãos (veja 2Tm 1.16-18; 3Jo 5-8).[21]

John Murray complementa:

Na época dos apóstolos, existia a urgente necessidade da prática dessa virtude. Havia as perseguições pelas quais os cristãos eram compelidos a migrar e outras razões que os forçavam a mudar de um lugar para o outro. Os mensageiros do evangelho eram itinerantes no cumprimento de sua missão. O mundo não se mostrava hospitaleiro. Portanto, era um exemplo fundamental da maneira pela qual os crentes deveriam ser participantes das necessidades dos santos.[22]

A hospitalidade é uma ordem (1Pe 4.9), faz parte das boas obras (1Tm 5.10), é um privilégio (Hb 13.2) e, por isso, devemos praticá-la. Não somente os cristãos devem ser hospitaleiros para com os irmãos, mas especialmente os pastores. Eles devem ser os primeiros a exercerem a hospitalidade (Tt 1.8). 

e) As obrigações relacionais (12.15-16)

O apóstolo expõe a responsabilidade dos cristãos no vínculo afetivo. Paulo arrola três exortações. Vejamos, pois: 

i. Devemos nos identificar uns com os outros (vs.15)

No versículo 13, vimos que os cristãos devem manifestar empatia para com os irmãos na fé. Aqui, no presente versículo, temos outro exemplo de empatia. O corpo de Cristo [a igreja] é uma unidade composta de pessoas individuais. Sendo assim, temos que expressar nosso amor pelos irmãos na fé nos momentos de alegria e tristeza (1Co 12.26). Esse amor é confirmado por simples gestos que significam muito! MacArthur elenca-os:  

Ficar feliz com as bênçãos, as honras e o bem-estar dos outros – não importa qual seja a sua própria situação (2Co 2.3), e ser sensível e compassivo com relação às adversidades e aflições dos outros (Cl 3.12; Tg 5.11; Lc 19.41-44; Jo 11.35).23

A empatia, segundo John Murray, não se encontra em nós por natureza. Ciúmes e inveja, ódio e malícia são nossas inclinações naturais (Gl 5.20; Tt 3.3). Essa exortação, tanto quanto qualquer outra na lista de virtudes demonstra a transformação (vs.2) que deve ser realizada naqueles que são um só corpo em Cristo (vs.5).[24] Conforme disse Calvino, deixar de dar as boas vindas à felicidade de um irmão, com genuína alegria, é um sinal de inveja; e deixar de demonstrar real tristeza em seu infortúnio, é sinal de desumanidade. Portanto, sintamos compaixão uns pelos outros, de forma que nos identifiquemos mutuamente, demonstrando o mesmo estado mental.[25] 

ii. Devemos viver em conformidade uns com os outros (vs.16a)

A expressão tende o mesmo sentimento uns para com os outros sublinha a ideia de “termos uma mesma mentalidade uns para com os outros.” Em outras palavras, Paulo exorta os cristãos a “a terem o mesmo pensamento”, a “viverem em harmonia uns com os outros”. Com isso, o apóstolo exige que os cristãos pensem da mesma forma em todas as coisas? Não! A igreja é uma unidade constituída de indivíduos que pensam diferente uns dos outros em muitas coisas. Cada homem e mulher têm estilos e predileções que diferem uns dos outros. Isso faz parte da essência de cada ser humano. Desse modo, Paulo está dizendo que os cristãos precisam ser unânimes com relação à verdade, com as doutrinas primordiais da fé (1Co 1.10; 11.17-19; Fp 1.27; 3.15-16; Cl 2.1-3). 

Todos nós devemos pensar as mesmas coisas. As nossas mentes devem estar operando da mesma forma e seguindo os mesmos canais, para que não haja nenhuma divisão, nenhum cisma, mas sim, unidade como povo cristão.[26]  
   
iii. Devemos ser humildes (vs.16b) 

As duas proposições seguintes opõem-se ao orgulho, ao desejo por status e ao reconhecimento dos homens. Paulo traça uma antítese entre a mentalidade ufana [soberba] e a mentalidade humilde. A palavra condescendei συναπαγόμενοι (synapagómenoi), significa “deixar ser conduzido”, “indicando que nossos sentimentos e atitudes devem estar de tal maneira harmonizados com as coisas humildes, que nos sintamos perfeitamente à vontade com essas circunstâncias”.[27] O apóstolo recomenda que, ao invés de pensarmos que somos melhores do que os outros, sendo sábios aos nossos próprios olhos (Pv 3.7-8), de ambicionarmos coisas e posições sociais grandiosas, e de anelarmos a glorificação dos homens, devemos ser humildes, contentando-nos com o nosso status e com a vida que foi decretada para nós (veja Fp 4.11; 1Tm 6.8-9; Hb 13.5).

Continua nos próximos dias...


_____________
NOTAS:

1. John Murray. Romanos, pág 491.
2. John Stott. A mensagem de Romanos, pág 399.
3. John Murray. Romanos, pág 491.
4. William Hendriksen. Romanos, pág 544.
5. William Barclay. Romanos, pág 175.
6. Calvino. Romanos, pág 447.
7. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Novo Testamento – Atos a Apocalipse, Pág 390.
8. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 443.
9. Calvino. Romanos, pág 447.
10. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 447.
11. William Hendriksen. Romanos, pág 545.
12. Calvino. Romanos, pág 447.
13. John Murray. Romanos, pág 494.
14. John Stott citando James Dunn, em A Mensagem de Romanos, pág 401.
15. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 456.
16. John Murray. Romanos, pág 495-496.
17. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 474-475.
18. Adolph Pohl. Romanos, pág 125.
19. Calvino. Romanos, pág 449.
20. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1440.
21. Ibid, pág 1517.
22. John Murray. Romanos, pág 497.
23. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1517.
24. John Murray. Romanos, pág 498.
25. Calvino. Romanos, pág 452.
26. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 543.  
27. John Murray. Romanos, pág 500.  

***
Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos
.

0 Erros que o Ciro Sanches Zibordi e os arminianos devem evitar

.


O respeitável Pr. Ciro Sanches publicou ontem, em seu blog, um texto que tem o seguinte título: Romanos 9 é a criptonita dos defensores do livre-arbítrio? (leia aqui). Sua abordagem é uma tentativa de fazer com que a doutrina arminiana do livre-arbítrio não seja vilipendiada toda vez que um calvinista apelar para o pensamento paulino contido no capítulo nono da Epístola aos Romanos. Confesso que é uma empreitada um tanto quanto inútil essa do Pr. Ciro, todavia, já que ele se propôs a executá-la, acabei cedendo a indicação de um amigo para escrever algo em resposta ao artigo supracitado.

Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que não sou inimigo do Pr. Ciro e o considero um irmão em Cristo, apesar de sustentar que a sua soteriologia é equivocada e até mesmo prejudicial à sã doutrina. No entanto, por entender que a inserção no Corpo de Cristo é algo misteriosamente gracioso, compreendo que algumas divergências teológicas não podem ser usadas como apontamentos para se afirmar que fulano ou sicrano são salvos ou não – a não ser, obviamente, aquelas questões que envolvem a apostasia. Por isso, reitero a irmandade em Cristo Jesus com o nobre pastor e procurarei ser respeitoso ao replicar o seu escrito. Serei firme em meus apontamentos, o que não caracterizará um desrespeito. 

O título desta réplica faz referência a duas obras conhecidas do Pr. Ciro, ambas publicadas pela CPAD. Portanto, elenquei quatro erros que ele e os adeptos do arminianismo devem evitar.

Erro nº 1: Insinuar que a predestinação só é sustentável isolando Romanos 9

Pois bem, o primeiro equívoco do Pr. Ciro ocorre ao insinuar que apenas isolando Romanos 9 é que se fundamenta a predestinação em detrimento da escolha humana. Mas, isso não é verdade. Toda a carta vai de encontro à ideia de que o homem só é salvo após escolher ou rejeitar a oferta de Cristo. Lemos em Romanos 8.28-30 algo que não deixa dúvidas de como a eleição é um ato soberanamente administrado por Deus:

Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”.

É notória a tentativa arminiana de transformar esse texto numa defesa do sinergismo, pois dizem que os escolhidos nesse contexto foram aqueles que Deus anteviu que dariam uma resposta positiva ao seu chamado. O versículo 28 é enfático: Deus chama segundo o seu propósito. Não tem referência alguma a resposta humana. Ele o quer, Ele o faz. O versículo 30 diz que é Deus quem predestina, quem chama, quem justifica e quem glorifica. O trabalho é monergístico. O chamado é eficaz. O que argumentam os arminianos é que no versículo 29 o termo conheceu corrobora com a presciência. Mas, não é este o significado do termo. Conhecer significa amar, se relacionar. A inconsistência em afirmar que a eleição se pauta na visão futura de Deus das nossas escolhas, além de não encontrar respaldo bíblico, fere a lógica.

Deixe-me explicar melhor a questão: Se Deus ao criar todas as coisas, trouxe tudo a existência de acordo com o seu decreto, obviamente sabia todo o desenrolar da História e decretou que o mundo surgisse e seguisse o curso que Ele soberanamente, idealizou, vizualizou e  determinou. Logo, se alguém crê em Cristo ou o nega, isto se dá por determinação divina.  Ou será que existe alguém acima de Deus que possa fazer algo contrário àquilo que Ele decretou? Se o SENHOR conhece o futuro, e de fato conhece, vendo quem teria fé ou não, está mais do que claro que tal fé é resultante daquilo que Ele orquestrou desde a Eternidade. Seria possível que algum homem subvertesse a ordem das coisas e mudasse o futuro que Deus certamente conhece, pegando-O de surpresa? Ademais, a eleição na perspectiva monergística é encontrada em diversos outros textos bíblicos para além de Romanos 9. A eleição incondicional é ensinada por Cristo (Jo 6.44 e 15.16) e pelos apóstolos (At 13.48, 2 Ts 2.13, Tg 1.18 e 1 Pe 1.1). Dentre uma infinidade de versículos, destaco o mais belo, em minha opinião, Efésios 1.4:

Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença”.

Erro nº 2: Afirmar o que a Escritura não afirma apenas para defender uma corrente teológica

Um ensino com base na especulação não deve ser levado a sério. Bem pior é quando a especulação é levantada para tentar destruir algo que já está solidificado, o resultado disso descamba para a desonestidade intelectual. Os versículos 20 à 22 de Romanos 9 claramente dizem que Deus, o Oleiro, fez vasos de ira para a destruição. Da mesma substância, uns são destinados à salvação e outros a perdição. É isso que o apóstolo Paulo diz claramente. E por ser vontade de Deus, ao homem não compete reclamar. Assim como o oleiro faz o que bem quiser com os vasos, Deus tem autoridade para governar o destino humano para a vida e para a morte. Por isso que o apóstolo diz: “Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus?”. Insinuar que Deus é injusto por causa da eleição incondicional é sinal de impiedade. Pois, Deus faz todas as coisas para o louvor da Sua glória, e isso inclui eleição e reprovação.

O Pr. Ciro parece não se contentar com a recomendação paulina. Ele vai afirmar que os vasos de ira “são objetos da ira divina porque se recusam a se arrepender”. Daí eu pergunto: onde é que Paulo diz isso? Os vasos de ira são feitos para este fim. Não existe nenhum argumento paulino que respalde essa interpretação de que é a obstinação que torna os vasos objetos do divino furor. O Pr. Ciro alega que a paciência que Deus teve com eles (v.22) elucida a questão, pois, Deus estava esperando que eles se arrependessem. Mas, é isto que diz o apóstolo? De maneira nenhuma! Paulo salienta que o motivo pelo qual o SENHOR não destruiu os ímpios de uma vez foi para manifestar as riquezas da Sua glória aos que são seus - aqueles que foram preparados de antemão para a glória (v. 23). Tal como Deus não destruiu faraó logo de início, pois, com as pragas consecutivas a misericórdia para com os hebreus, povo eleito, se manifestou entre os egípcios, de igual modo Deus procede com os ímpios. E se alguém ainda tem dúvida de que o ímpio foi criado para este fim, basta ler Provérbios 16.4: “O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o dia do castigo”. Este é o ensino apostólico. Este é o ensino bíblico. Quer discutir predestinação com Deus? Quer sentenciá-lo segundo seus padrões de justiça? Você pode questionar Aquele que é a fonte da tua capacidade de questionar? Vá em frente, só não espere se dar bem com isso.

Erro nº 3: Reverberar um argumento que é nitidamente fraco e descabido

Um dos argumentos mais fracos da soteriologia arminiana é a de que eleição existe na Bíblia, mas é corporativa e não individual. O Pr. Ciro é mais um que faz uso disso, ao afirmar que a sentença “Amei a Jacó e odiei Esaú” não trata de indivíduos, mas sim de dois povos.  Não podemos negar o caráter corporativo da eleição, uma vez que a Igreja é a Senhora Eleita (2 Jo 1). Contudo, é absurdo negar o fato incontestável de que todo o corpo é a soma dos indivíduos. Quando aprendemos sobre Conjuntos, ainda nos primeiros anos escolares, sabemos que onde não existe nada é um conjunto vazio, se há um elemento, chamamos de unitário, se há mais de um elemento, é coletivo (ou universo). Quando falamos das vogais, temos um corpo formado por cinco elementos individuais, que são as letras a-e-i-o-u. Sem os indivíduos não se pode formar o corpo.

Particularmente, me pergunto se os arminianos não ficam envergonhados ao cometer um equívoco tão primário. Não é segredo que o apóstolo Paulo está lidando com a eleição de Israel. Mas, devemos lembrar que essa nação é procedente de um homem chamado Abraão, a quem Deus escolheu e prometeu fazê-lo pai de um grande povo (Gn 12.2). Logo, falar em eleição corporativa e negar que Deus elege indivíduos é uma discrepância matemática das mais bizarras.

Erro nº 4: Destronar Deus de sua Soberania

Por fim, ao falar sobre o endurecimento de Faraó, o Pr. Ciro vai alegar que Deus apenas confirmou o que o Faraó já estava disposto a fazer. Mas a narrativa de Êxodo diz com clareza que é Deus quem causa o endurecimento e não que compactua com ele. Deus endurece e Faraó então se recusa a libertar os hebreus, esta é a sequência (Ex 9.12).  O próprio SENHOR revela a Moisés que foi Ele o responsável pela obstinação do líder egípcio (Ex. 10.1).

Deus é soberano e faz o que bem quer para que Sua glória resplandeça em toda a Terra. O arminianismo ataca a soberania quando transforma Deus num ser subserviente a autonomia humana. Um "deus" que não faz o que quer porque certos homens frustam o divino querer. Que tipo de "deus" fraco é esse meus irmãos? Com toda a certeza não é o Deus da Escritura Sagrada. Deuteronômio 32,39 mostra quem é o SENHOR:

Vejam agora que eu sou o único, eu mesmo. Não há deus além de mim. Faço morrer e faço viver, feri e curarei, e ninguém é capaz de livrar-se da minha mão”.

De maneira infeliz, o Pr. Ciro conclui dizendo que “é inegável o fato de o Senhor ter dotado o homem de intelecto, sentimento e vontade, a fim de que ele receba ou não, pelo livre-arbítrio, a salvação”. Mas, se fosse de fato inegável, o apóstolo Paulo não teria negado ao escrever, em Romanos 4. 6 e 11. 6, que se a eleição for determinada por obras, deixaria de ser pela graça.

Sabemos que o calvinismo não desconsidera a responsabilidade humana e muito menos nega a capacidade do ser humano de fazer escolhas. Isto é um espantalho criado pelos seguidores de Armínio. O que o calvinismo defende é que Deus é soberano e nada foge do controle de Suas mãos, sendo a salvação uma obra exclusivamente Sua, sem nenhuma ajuda humana, pois, este estava morto em delito e pecados (Ef 2.1) capaz de voltar-se para Deus só após ser por Ele vivificado. A resposta positiva que damos ao chamado divino foi possível graças à atuação do Espírito de Deus que nos conduziu a Cristo Jesus. Assim creem e ensinam os calvinistas, conforme cria e ensinou Calvino, conforme cria e ensinou Agostinho, conforme cria e ensinou o apóstolo Paulo, instruído pela mensagem apostólica - que á e mensagem de Cristo - e inspirado pelo Santo Espírito.

Soli Deo Gloria!

***
Fonte: Electus
.

0 Abimeleque, o fantoche e o Deus não amoroso do Arminianismo

.


Deus, porém, veio a Abimeleque em sonhos de noite, e disse-lhe: Eis que morto serás por causa da mulher que tomaste; porque ela tem marido. Mas Abimeleque ainda não se tinha chegado a ela; por isso disse: Senhor, matarás também uma nação justa? Não me disse ele mesmo: É minha irmã? E ela também disse: É meu irmão. Em sinceridade do coração e em pureza das minhas mãos tenho feito isto. E disse-lhe Deus em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la. (Gênesis 20.3-6)

O pobre Abimeleque provavelmente pensou que ele livremente se absteve de tocá-la, pensou que ele poderia ter tocado ela mas não tocou. Abimeleque poderia ter realmente pensado que seu futuro em relação a Sara fosse um jardim de caminhos que se bifurcam. Sua crença do senso comum não correspondia à realidade, porém; na verdade, ele deixou de ser um agente moral neste momento. Neste momento, Deus ontologicamente transformou a pessoa de Abimeleque, protegendo-o com cordas e controlando-o via “providência meticulosa, retentiva”. Neste momento, tornou-se um fantoche.


O que é mais lamentável para alguns teólogos é que parece que Deus pode guardar as pessoas de pecar sem criar um “mundo massivamente diferente” do que nós vemos agora. Ou ele violou o livre arbítrio libertário de Abimeleque fazendo o que ele fez, ou ele não fez. Se ele fez, ele era capaz de fazer tão conspicuamente (contrária a afirmação de alguns apologistas arminianos). Se ele não fez isto, então por que o Deus arminiano não faz isto com mais frequência? Ele pode guardar Abimeleque de pecar contra Deus e de tocar Sara enquanto não guarda David Westerfield de pecar contra Deus de tocar em Danielle Van Dam?¹ Deus amou Sara mais do que Danielle? Ele gostou mais de Abimeleque do que de Westerfield? Que amor é este?

***
Autor: Mr. Fletcher
Fonte: Triablogue
Tradução: Francisco Alison Silva Aquino
Via: Pelo Calvinismo

¹ David Westerfield sequestrou e matou uma menina de apenas 7 anos (Danielle Van Dam) que era sua vizinha. Em 2003 foi condenado a pena de morte no Estado da Califórnia/EUA.
.

0 Da Redução da Menoridade Penal e a Fé Cristã

.


Introdução

Há cerca de um mês um debate acirrado tem movimentado a mídia e, principalmente, as redes sociais. Trata-se da polêmica aprovação da menoridade penal[1] pela Câmara dos Deputados, uma das casas legislativas do nosso país. A vasta maioria da população brasileira se mostra favorável à redução da menoridade penal. No entanto, a minoria contrária tem se empenhado numa cruzada tentando mostrar por que, na sua visão, é um absurdo pleitear tal causa. Interessantemente, são muitos os cristãos protestantes, inclusive de confissão reformada, que têm tomado parte nas manifestações contrárias à redução.

Alguns têm agido de modo semelhante à Associação Evangélica Brasileira, que no ano de 1993 escreveu um documento – uma espécie de manifesto – no qual se posicionava de forma contrária à pena de morte. O documento foi apresentado ao plenário da Câmara dos Deputados e, posteriormente, reproduzido tanto em jornais como por várias igrejas. De acordo com o Pb. Solano Portela, tal manifesto “foi escrito em linguagem persuasiva, mas sem conter uma única citação das Escrituras”.[2] Semelhantemente, as razões apresentadas pelos cristãos progressistas contrários à redução da menoridade penal não são fundamentadas nas Sagradas Escrituras. Antes, tratam-se de argumentos eivados de apelo emocional e de retórica muitos dos quais são, em essência, os mesmos contrários à aplicação da pena capital: 1. A redução da menoridade penal não vai resolver a causa da violência; 2. Existe muita desigualdade social e injustiça na distribuição de renda em nosso país; e 3. Nossa sociedade possui muitos males próprios. Outros argumentos apresentados são os seguintes: 1. É preciso que o Estado faça um investimento maciço em educação, lazer e cultura, a fim de proporcionar um meio de escape aos nossos adolescentes e jovens; 2. Nossos adolescentes já são penalmente responsabilizados[3]; 3. Reduzir a menoridade penal é tratar o efeito, não causa; e 4. A fase de transição da adolescência justifica o tratamento diferenciado.

Associado ao último argumento, como uma espécie de fundamento, está o argumento da poda sináptica, que em linhas gerais, nada mais é do que um processo neurológico pelo qual várias sinapses são destruídas, a fim de se obter uma melhor regulação do sistema nervoso. Educadores afirmam que, a poda sináptica “se relaciona com o período crítico que o adolescente atravessa em seu desenvolvimento, caracterizado por impulsos descontrolados, conduta desajustada e déficit cognitivo, que podem levar a comportamentos de risco desnecessários, impulsivos e violentos”.[4] Uma vez que o adolescente está atravessando tal processo, ele não pode ser penalmente responsabilizado por seus atos. Trata-se de um argumento imbuído de determinismo biológico, algo que pode ser facilmente refutado.

Não obstante, o meu propósito neste pequeno texto não é responder a todos os argumentos supramencionados. Antes desejo fazer uma apresentação da ética bíblica, ou seja, pretendo mostrar que a Bíblia Sagrada, a inspirada, inerrante e autoritativa Palavra de Deus, a única regra de fé e prática do cristão, requer que todo aquele que comete um crime seja devidamente responsabilizado pelos seus atos não existindo, portanto, nada que justifique o cristão posicionar-se de forma contrária à redução da menoridade penal. Inicialmente, tratarei da ética cristã e seu fundamento. Logo em seguida, apresentarei uma pequena teologia bíblica da aplicação de castigos.

A Ética Cristã

De modo claro e direto, o posicionamento ético, político e teológico dos cristãos nunca deve ser alimentado e formado pela opinião pública e popular. Recentemente li o que um jovem escreveu, no sentido de que o Brasil deveria olhar para os Estados Unidos estão fazendo o caminho inverso ao da menoridade penal, investindo em formas de acompanhamento e promoção de cidadania para os menores infratores. É interessante que, na década de 90, quando a discussão girava em torno da pena de morte, o mesmo tipo de argumento foi apresentado ao Pb. Solano Portela por uma repórter da antiga revista evangélica Vinde. Um dos argumentos utilizados por ela foi no sentido de que, “a maioria dos países está deixando a aplicação da pena de morte”. A réplica do Pb. Solano foi a seguinte: “Constatamos, também, que a maioria dos países abriga a pornografia, aceita cada vez mais o divórcio e a dissolução familiar como normal, o casamento entre homossexuais, e por aí vai. Nada disso significa que estas coisas sejam certas em si – elas foram erradas e continuam erradas”.[5] Quanto a isso, basta lembrar que dias antes da aprovação da redução da menoridade penal na Câmara dos Deputados, a Suprema Corte americana aprovou a legalização do casamento homossexual nos cinquenta estados daquele país. Assim sendo, os Estados Unidos da América não são o referencial a ser seguido em nossas discussões éticas.

O posicionamento ético dos cristãos também não pode ser formado por argumentos sociológicos positivistas – que partem do pressuposto de que a natureza humana é intrinsecamente boa –, cientificistas tendo como fundamento o determinismo biológico. Também não deve ser formado por agendas influenciadas pelo marxismo cultural. É lamentável que muitos jovens cristãos sejam profundamente influenciados por pensadores esquerdistas, como por exemplo, o francês Michel Foucault, o queridinho dos universitários progressistas.[6] Para Foucault, todas as questões sociais nada mais são do que uma disputa pelo poder. Roger Scruton afirma que, “o tema que unifica a obra de Foucault é a busca pelas secretas estruturas de poder. Poder é o que ele deseja desmascarar por trás de toda prática, de toda instituição e da própria linguagem”.[7]

Dessa forma, instituições como o manicômio, por exemplo, são apenas manifestações do poder da burguesia sobre os menos favorecidos: “Através do confinamento, a loucura é sujeita à regra da razão: a loucura agora vive sob a jurisdição daqueles que são sãos, confinados por suas leis, e orientados por sua moralidade”.[8] O mesmo se dá em relação à prisão. A prisão, para Foucault, nada mais é do que um tipo de segregação imposta aos menos favorecidos por aqueles que são os detentores do poder. É daí que surge a popular ladainha de que “apenas os pobres e negros serão penalizados”. Para ele, a prisão é a negação ao outro do direito de existir. Discorrendo sobre a diferença existente entre a aplicação de castigos em séculos passados – que consistia em infligir dor ao corpo do indivíduo – e a nossa época, Foucault diz o seguinte:

Mas, de modo geral, as práticas punitivas se tornaram pudicas. Não tocar mais no corpo, ou o mínimo possível, e para atingir nele algo que não é o corpo propriamente. Dir-se-á: a prisão, a reclusão, os trabalhos forçados, a servidão de forçados, a interdição de domicílio, a deportação – que parte tão importante tiveram nos sistemas penais modernos – são penas “físicas”: com exceção da multa, se referem diretamente ao corpo. Mas a relação castigo-corpo não é idêntica ao que ela era nos suplícios. O corpo se encontra aí em posição de instrumento ou de intermediário; qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento, pelo trabalho obrigatório visa privar o indivíduo de sua liberdade considerada ao mesmo tempo como um direito e como um bem. Segundo essa penalidade, o corpo é colocado num sistema de coação e de privação, de obrigações e de interdições. O sofrimento físico, a dor do corpo não são mais os elementos constitutivos da pena. O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos.[9]

Daí surge a ideia no pensamento esquerdista de, não apenas a redução da menoridade penal, mas do enclausuramento ou da prisão em si ser uma injustiça, visto que o aprisionamento significa a negação de um direito fundamental do indivíduo. Em outro lugar Foucault deixa explícita a sua concepção de que a prisão é, em sua essência, uma imposição daqueles que são os detentores do poder sobre os menos favorecidos do ponto de vista econômico-social. Para ele, a disciplina da prisão nada mais é do que uma espécie de “tática de poder” intimamente associada à acumulação de capital do mundo ocidental:

Se a decolagem econômica do Ocidente começou com os processos que permitiram a acumulação do capital, pode-se dizer, talvez, que os métodos para gerir a acumulação dos homens permitiram uma decolagem política em relação a formas de poder tradicionais, rituais, dispendiosas, violentas e que, logo caídas em desuso, foram substituídas por uma tecnologia minuciosa e calculada de sujeição. Na verdade os dois processos, acumulação de homens e acumulação de capital, não podem ser separados; não teria sido possível resolver o problema da acumulação de homens sem o crescimento de um aparelho de produção capaz ao mesmo tempo de mantê-los e de utilizá-los; inversamente, as técnicas que tornam útil a multiplicidade cumulativa de homens aceleram o movimento de acumulação de capital.[10]

De acordo com Roger Scruton, esse tipo de afirmação de Foucault é uma explicação forçada e essencialmente marxista: “Tais observações impulsivas são produzidas não por academicismo, mas por associação de ideias, sendo a ideia principal a morfologia histórica do Manifesto Comunista”.[11] Além disso, é esse tipo de pensamento que dá ensejo a duas ladainhas inculcadas nas massas e repetidas de forma acrítica: 1. A que diz que apenas os adolescentes pobres, marginalizados e negros serão afetados pela redução da menoridade penal; e 2. A que diz que o próximo passo da agenda daqueles que são favoráveis à redução é a privatização das prisões, a fim de contribuir com o acúmulo de capital por aqueles que são os detentores do poder. Tais argumentos procedem de uma visão de mundo não-cristã.


Isso nos conduz, então, à consideração do que é a ética cristã e qual o seu fundamento. É comum o fato de muitas pessoas crescerem em nossas igrejas sem a devida compreensão acerca da ética cristã e suas implicações para o todo da vida humana. A ética, de modo geral, diz respeito à conduta humana. A ética cristã, por sua vez, procura se harmonizar com o padrão absoluto e divino da vontade de Deus revelada nas Sagradas Escrituras. O objetivo da ética cristã é “relacionar um entendimento de Deus com a conduta dos homens e mulheres e, mais particularmente, usar da resposta a Deus que Jesus Cristo requer e torna possível”.[12] Em outras palavras, a ética cristã nos diz como devemos ajustar a nossa conduta e a nossa forma de pensar a respeito do todo da vida àquilo que Deus declara na sua Palavra. A lógica é a seguinte: Tudo o que Deus fala nas Escrituras é verdade. Sendo assim, qualquer forma de pensar e de agir que difira daquilo que está na Palavra, por necessidade consequente, é falso e errado. Assim sendo, nossos pensamentos e ações devem se ajustar à mente do Senhor revelada na Bíblia. Ron Gleason, pastor americano e advogado, faz a seguinte afirmação: “Isto quer dizer que os cristãos estão obrigados a sujeitar-se à Escritura e, por esta, como o padrão, avaliar todas as decisões e toda forma de conduta”.[13] O filósofo reformado Gordon H. Clark disse o seguinte: “A ética calvinista é baseada na revelação. A distinção entre certo e errado [se resolve] pela revelação de Deus nos dez mandamentos”.[14] Outro teólogo reformado, chamado Jochem Douma, disse: “Ética cristã é a reflexão sobre conduta moral à luz da perspectiva oferecida a nós na Sagrada Escritura”.[15]

Isto posto, é inadmissível que numa discussão sobre qualquer assunto o cristão não fundamente as suas afirmações nas Sagradas Escrituras. É simplesmente impensável que na discussão a respeito da redução da menoridade penal os cristãos de confissão reformada se baseiem tão somente em teorias seculares do direito, no positivismo e na opinião pública. Então, é urgente compreendermos que somos chamados a pensar os pensamentos de Deus a respeito de toda a realidade. De forma específica, somos chamados a pensar os pensamentos de Deus a respeito da responsabilidade do indivíduo por crimes por ele cometidos. O que fica claro é que a forma de pensar da grande maioria dos evangélicos não está ajoelhada aos pés das Sagradas Escrituras.

Da Aplicação de Punições nas Sagradas Escrituras

Discutir a aplicação de punições a adolescentes por crimes praticados só faz sentido quando aceitamos, de início, a existência do conceito de autoridade e sua relação com a punição. Como salienta o Dr. John Frame: “O castigo dá validade prática ao conceito de autoridade. Uma autoridade não pode funcionar bem se não houver consequências para aqueles que a desobedecem”.[16] O conceito de autoridade está intrinsecamente embutido na ordem criacional. Ao criar o homem segundo a sua imagem, conforme a sua semelhança, Deus concedeu-lhe o exercício da autoridade para subjugar e dominar a criação (Gênesis 1.26-28), além de ordenar o funcionamento da vida em sociedade. Uma vez compreendido isso, não há como escapar da conclusão de que a aplicação de punições a todo transgressor das leis estabelecidas por aqueles que exercitam legitimamente a autoridade é algo sem o qual a sociedade não poderá funcionar de maneira ordeira. É preciso afirmar que os contrários à redução da menoridade penal não são contrários à aplicação de punições aos “menores infratores”. De acordo com eles, o que deve ser posto em prática é o que já está estabelecido no famigerado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O grande problema está no fato do ECA propor apenas aquilo que é denominado de medidas socioeducativas. Tais medidas partem do pressuposto de que o propósito primário da punição deve ser a recuperação/educação dos “menores infratores”.

É interessante que, visando responder à pergunta “Por que punimos aqueles que desobedecem à autoridade?”, John Frame argumenta que existem seis motivos diferentes para a aplicação de punições: 1. Desencorajamento; 2. Reforma; 3. Restituição; 4. Restrição; 5. Tributação; e 6. Retribuição. Recomendo que o leitor leia a exposição que o Dr. Frame faz de cada um desses motivos.[17]

É preciso destacar, todavia, que o segundo motivo – reforma – é aquele que ocupa o ideário daqueles que são contrários à redução da menoridade penal. Frame diz o seguinte sobre a reforma como a motivação para a aplicação de punições àqueles que desobedecem às leis: “Neste caso, não punimos Josh para desencorajar outros na sociedade, mas para o seu próprio bem. Aqui o objetivo do castigo é fazer Josh se tornar uma pessoa melhor, de modo que ele não cometa novamente esse crime”.[18] É por essa razão que o ECA preconiza a aplicação de medidas socioeducativas aos “menores infratores” o que, ao menos na teoria, deveria ser realizado pelas instituições de internamento de menores. A ideia é que a educação é a chave para o aprimoramento do “ser social” em construção, a saber, o adolescente. Isso também explica a massificação do slogan #ReduçãoNãoÉSolução.

Quando nos voltamos para as Escrituras, a fim de observar de que maneira ela lida com o ideal de reforma através da aplicação de punições, é possível perceber que ela limita tal motivação à disciplina eclesiástica e ao castigo dos nossos filhos. No primeiro caso, encontramos o apóstolo Paulo ordenando o seguinte à igreja de Corinto: “Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus” (1Coríntios 5.3-5). O propósito de Paulo é que, como resultado dessa disciplina, o praticante do incesto seja salvo, de modo que ele não venha a sofrer dano maior, ou seja, o castigo eterno. Assim, a motivação por trás da aplicação dessa punição específica é a reforma do pecador. No segundo caso – o castigo dos nossos filhos –, está escrito em Provérbios 22.15: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela”. O pastor presbiteriano escocês James Bannerman disse o seguinte: “A disciplina, em todas as suas aplicações, fora da sentença de excomunhão, deve ser considerada, com respeito ao ofensor, como terapêutica, em vez de punitiva – um meio de promover, através de cuidados especiais doloridos e rigorosos, não a destruição, mas a edificação do ofensor”.[19] Não há, todavia, nenhuma passagem na Bíblia que sugira que a reforma deve ser a motivação ou o fim pretendido quando da aplicação de punições a criminosos.

Uma melhor motivação para a aplicação de punições é a do desencorajamento. Esta motivação também pode ser denominada dissuasão. Aqui a sociedade, por meio do Estado, pune um criminoso com o objetivo de desencorajar os demais cidadãos. A punição serve, então, como uma lição para o restante da sociedade. Assim se expressa Frame a respeito do desencorajamento: “Punimos ladrões com a esperança de dissuadir outros de roubar. Fazemos o mesmo quanto a assassinos, sonegadores de impostos e caluniadores”.[20] Em Deuteronômio 13 está escrito que, caso um israelita adore outros deuses, ele deve ser apedrejado até a morte (vv. 6-10). O versículo 11 apresenta o propósito do desencorajamento: “E todo o Israel ouvirá e temerá, e não se tornará a praticar maldade como esta no meio de ti”. Quando consideramos a disciplina eclesiástica podemos perceber que ela também possui o propósito de dissuadir os demais membros de uma igreja local de cometerem o mesmo pecado daquele que está sendo apenado. Assim, uma igreja precisa ser fiel na administração da disciplina eclesiástica, dentre outras razões, para que outras pessoas sejam desencorajadas a pecar contra o Senhor.

Uma crítica corretamente feita ao motivo do desencorajamento é que é possível cometer abusos na aplicação de uma punição e, assim, torná-la injusta. John Frame diz o seguinte: “Se a restrição é a única consideração, pode-se justificar o castigo de pessoas inocentes pelo seu valor como dissuasão”.[21] Outro fator que deve ser levado em consideração, dessa vez tanto em relação ao desencorajamento quanto à reforma, é que ambos os motivos estão sujeitos aos caprichos dos penalogistas. Mais uma vez John Frame é de grande auxílio aqui:

Se um penalogista visa primariamente ao desencorajamento, ele tenderá a tornar o castigo o mais duro possível, para maximizar seu efeito no público em geral. Se, por outro lado, ele favorece a reforma, ele provavelmente planejará castigos mais brandos; talvez um regime de punição e incentivo que não apenas restrinja o mau comportamento, mas também incentive o bom.[22]

Para citar apenas um exemplo envolvendo punições que visam reformar o criminoso, basta lembrar dos jovens Liana Friendenbach e Felipe Caffé, que foram brutalmente assassinados por um adolescente conhecido como “Champinha”. Não há como chegar à conclusão de que justiça foi feita no exemplo em questão. O que pode ser percebido aqui, é que nem o desencorajamento nem a reforma são elementos motivadores adequados para discutir a punição de crimes em geral e, de modo específico, o modo como adolescentes que cometem crimes devem ser punidos.


Dito isso, quando se observa atentamente os princípios absolutos estabelecidos pela Palavra de Deus, o elemento da retribuição aparece como a motivação mais adequada e justa quando da consideração da aplicação de castigos. Quando se considera a retribuição como ensinada pela Bíblia é possível chegar á conclusão de que defender que menores de 18 anos sejam devidamente punidos de acordo com os crimes cometidos está em plena harmonia com a cosmovisão cristã.

A retribuição estabelece o princípio de que um homem deve ser punido simplesmente porque ele merece. No caso, um adolescente que comete um crime hediondo deve ser punido de acordo com a gravidade do seu crime.  Isso está solidamente fundamentado na lei de Deus no Antigo Testamento: “Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Êxodo 21.23-25); “Se alguém causar defeito em seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará. Quem matar um animal restituirá outro; quem matar um homem será morto” (Levítico 24.19-21).

Duas observações que precisam ser feitas a respeito das passagens citadas acima são:

1. A chamada lei do talião expressa nos textos de Êxodo e de Levítico não têm o propósito de ensinar que aquele que sofre algum mal tem o direito de se vingar do ofensor ou criminoso. Hoje em dia é comum citar o “olho por olho, dente por dente” como sendo uma espécie de refrão justificador da vingança ou retaliação. Muito pelo contrário, o que está enfatizado aqui é o princípio da justa retribuição ou da punição isonômica. Deus não está autorizando a vingança. Ele estava controlando “os excessos”. A vingança é proibida ao ofensor, por exemplo, em Romanos 12.17-19: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” E mais do que isso, Deus também estava estabelecendo o princípio de que uma punição não pode ser muito indulgente[23], ou seja, ela não pode ser exageradamente fraca. Como exemplo disso, Deus não aprova que um assassino serial (Serial Killer) cumpra míseros 30 anos de pena. Trata-se de uma pena muito fraca ou muito indulgente. O mandamento “olho por olho, dente por dente” ensina a equidade e a justiça na aplicação da pena. Por conseguinte, se um homem chegasse a cegar alguém, ele não deveria se morto por isso. Antes, seria “olho por olho”. Se ele viesse a arrancar um dente de outra pessoa, como pena, deveria perder um de seus dentes. O castigo era sempre equivalente à ofensa, sem jamais excedê-la, ou mesmo sem jamais ficar aquém do delito cometido. Era sempre igual. Nem mais, nem menos.

2. O princípio da retribuição não pode ser descartado de maneira apressada sob a alegação de que o mesmo faz parte da lei do Antigo Testamento, não tendo mais nenhuma relação com a nossa época. O princípio da retribuição é ensinado nas Sagradas Escrituras desde o início, logo no Gênesis: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (9.6).[24] Verifica-se, pois, que a retribuição é contemplada pelo Senhor antes da outorga da lei por intermédio de Moisés.

Como destacado por John Frame, assumimos a validade e a necessidade da retribuição na aplicação de punição a criminosos porque “assumimos que há uma ordem moral objetiva no universo” e que, de acordo com ela, um homem – não importa quem ele seja, qual a sua situação econômica e social, sua cor da pele ou mesmo a sua idade – precisa ser punido quando comete um crime.[25] Frame afirma ainda que, “obviamente, numa cosmovisão cristã, a fonte dessa ordem moral objetiva é o Deus trino. À parte dele, não há base para essa ordem moral ou qualquer outra”.[26] No caso de Gênesis 9.6, por qual razão a punição precisa ser a morte? Porque uma vida foi tirada e esta vida fora feita segundo a imagem de Deus.

É interessante que o referencial teórico dos cristãos progressistas/esquerdistas contrários à redução da menoridade penal não é a Escritura. Pelo contrário, o fundamento epistemológico de tais cristãos pode ser encontrado no ECA, em Michel Foucault, em Émile Durkheim e na Psicologia Comportamental. A Palavra de Deus sequer é mencionada. Não há uma única passagem citada. Quando muito, apela-se para generalizações retóricas que falam do amor de Jesus que restaura e reforma o pecador.

Uma Palavra Final

A defesa da redução da menoridade penal não pode ser identificada como um estímulo à barbárie, como desonesta e comumente é feito por pessoas ideologicamente comprometidas com a esquerda. A barbárie seria estimulada se, conjuntamente, houvesse a defesa da ideia de que cada cidadão tem o direito de fazer justiça com as suas próprias mãos. Não é esse caso! Como já foi afirmado aqui, as passagens bíblicas que tratam da retribuição têm justamente o objetivo de impedir que os ofendidos e as vítimas tomem vingança contra os ofensores e os criminosos. A administração das punições não foi entregue a indivíduos. Deus entregou a execução dos castigos aos magistrados, aos líderes do povo, os juízes, os príncipes. Em outras palavras, a execução dos castigos pertence ao Estado. Consideremos Deuteronômio 19.21, outra passagem que apresenta a lei do talião: “Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”. Os versículos 17 e 18 mostram que os juízes, não as vítimas, eram os responsáveis pela execução da pena: “então, os dois homens que tiverem a demanda se apresentarão perante o SENHOR, diante dos sacerdotes e dos juízes que houver naqueles dias. Os juízes indagarão bem; se a testemunha for falsa e tiver testemunhado falsamente contra seu irmão”. A lei é executada pelos magistrados, por aqueles que foram encarregados por Deus de zelar pela lei e pela ordem entre os indivíduos.

Isso está em pleno acordo com o papel do Estado e das autoridades, conforme exposto pelo apóstolo Paulo em Romanos 13.3-4: “Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás o louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”. A função do Estado, conforme apontada por Paulo, não é colocar menores que cometeram crimes sob o regime de internação para o cumprimento de medidas socioeducativas. Antes, o Estado deve proteger os bons cidadãos e punir, castigar aqueles que fazem o mal, independentemente da idade.

Poderia ser argumentado que, uma vez que a visão de mundo bíblica deve direcionar o pensamento do cristão a respeito de todas as áreas da vida humana e, mais especificamente, a ética bíblica deve conduzir a discussão a respeito da imputabilidade dos adolescentes que cometem crimes, então, uma vez que o sistema prisional é algo estranho ao Antigo Testamento, sendo antes, uma invenção de outras nações, a prisão não é a punição que deve ser dispensada aos menores de idade que cometem crimes. A grande questão é que este texto não pleiteia pela prisão desses adolescentes, muito embora a penalogia brasileira se utilize apenas dela e, portanto, em nossa cultura, punir criminosos equivale a enclausurá-los. Este texto tem o objetivo único de mostrar que a ideia existente de que medidas socioeducativas são o tratamento adequado para os “menores infratores” é completamente antibíblica. E mais, este texto pleiteia que se atente para o princípio da isonomia entre crime praticado e punição, conforme ensinado pelas Sagradas Escrituras. As chamadas medidas socioeducativas jamais estabelecerão a verdadeira justiça.

SOLI DEO GLORIA!

______________
NOTAS:
[1] Uso o termo “menoridade” em vez do popular “maioridade”. Atualmente, é o menor de 18 anos que é inimputável. A discussão gira em torno da redução dessa idade para os 16 anos. Assim sendo, do ponto de vista técnico-jurídico é preferível falar em redução da menoridade penal, uma vez que, como esclarece o Dr. Valdinar Monteiro de Souza, advogado especialista em Direito Constitucional: “maioridade penal é o período de vida do ser humano imediatamente posterior à menoridade”. Se deseja-se falar em maioridade, que se fale na ampliação da maioridade penal. Cf. Valdinar Monteiro de Souza. “Redução da Maioridade, ou da Menoridade Penal?”.
<http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4241328.>
[2] F. Solano Portela. A Pena Capital e a Lei de Deus. São Paulo: Os Puritanos, 2000. p. 10.
[3] É importante frisar o tipo de responsabilidade penal atribuída atualmente aos adolescentes brasileiros. Como salienta o Dr. Valdinar Monteiro de Souza: “Conforme a lei, menor não comete crime, pratica ato infracional e, por conseguinte, pratique ele o ato mais hediondo ou escabroso, não será criminoso, será menor infrator. Não importa se tem 15, 16, 17 ou – o que é mais acintoso – 17 anos, 11 meses, 29 dias e algumas horas. Azar da vítima!”. Ao cometer um ato infracional, o adolescente é submetido a medidas socioeducativas. Cf. “Redução da Maioridade, ou da Menoridade Penal?”.
[4] <http://aranzazu5.blogspot.com.br/2013/05/implicaciones-de-la-poda-sinaptica-en.html>.
[5] F. Solano Portela. A Pena Capital e a Lei de Deus. p. 12.
[6] A designação de Michel Foucault como sendo um pensador esquerdista não é descabida. Há quem possa se levantar e afirmar que Foucault não pode ser elencado como esquerdista, uma vez que ele sempre foi crítico do marxismo. Não obstante, o filósofo Roger Scruton diz o seguinte: “Escolhi Michel Foucault, o filósofo social e o historiador das ideias, como o representante da esquerda intelectual francesa. Deve ser ressaltado, ademais, que a posição de Foucault foi constantemente cambiante e que ele mostra um sofisticado desprezo por todos os rótulos disponíveis. Ele é também um crítico (embora, até seus últimos anos, um crítico um tanto quanto calado) do comunismo moderno. No entanto, Foucault é o mais poderoso e ambicioso daqueles que buscaram ‘desmascarar’ a burguesia, e a posição da esquerda foi substancialmente reforçada por seus escritos”. Cf. Roger Scruton. Pensadores da Nova Esquerda. São Paulo: É Realizações, 2014. p. 59.
[7] Ibid.
[8] Ibid. p. 61.
[9] Michel Foucault. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42. Ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014. p. 16. Ênfase acrescentada.
[10] Ibid. p. 213.
[11] Roger Scruton. Pensadores da Nova Esquerda. p. 68.
[12] Sinclair Ferguson e David F. Wright (Eds.). Novo Dicionário de Teologia. São Paulo: Hagnos, 2011. p. 393.
[13] Ron Gleason. Vida por Vida: A Pena de Morte no Banco dos Réus. Brasília: Monergismo, 2014. p. 20.
[14] Gordon H. Clark. “Ética Calvinista”. In: Carl Henry. Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 231.
[15] J. Douma. Responsible Conduct: Principles of Christian Ethics. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2003. p. 13.
[16] John M. Frame. A Doutrina da Vida Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. p. 660.
[17] Ibid. pp. 661-664.
[18] Ibid. p. 661.
[19] James Bannerman. A Igreja de Cristo: Um Tratado sobre a Natureza, Poderes, Ordenanças, Disciplina e Governo da Igreja Cristã. Recife, PE: Os Puritanos, 2014. pp. 661-662.
[20] John M. Frame. A Doutrina da Vida Cristã. p. 661.
[21] Ibid. p. 663.
[22] Ibid.
[23] Vincent Cheung. The Sermon on the Mount. Boston, MA: Reformation Ministries International, 2004. p. 90.
[24] Gênesis 9.6 ensina, em primeiro lugar, a validade da pena capital mostrando que a mesma também não é um produto do tempo em que Israel era uma teocracia. Todavia, a discussão acerca da pena capital será deixada para outra ocasião.
[25] John M. Frame. A Doutrina da Vida Cristã. p. 662.
[26] Ibid. pp. 662-663.

***
Autor: Rev. Alan Renê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
.

Related Posts with Thumbnails