0 Desmistificando o relato bíblico da mulher adúltera

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Por Thiago Oliveira


O que desejo com este artigo não é trazer novidade, mas sim falar de algo que é de ampla aceitação para os estudiosos das Escrituras: Jesus cumpriu as ordenanças da Lei. E não podia ser diferente, uma vez que ele veio fazer Justiça. De maneira alguma poderia transgredir a Lei; Cristo cumpriu-a por completo, por isso foi declarado justo e pôde, através da sua propiciação tornar os homens justos diante de Deus. Como está escrito em Romanos 5: 17-19:

Se pela transgressão de um só a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo. Consequentemente, assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens. Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos”.

O pecado é a transgressão da Lei (1Jo 3:4) e Jesus nunca pecou (1Jo 3:5). Logo, Jesus não desobedeceu nenhum ponto da lei mosaica, tal como ele mesmo diz em Mateus 5: 17-18:

"Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra”.

Como disse anteriormente, não vos trago novidades e, recentemente, li um ótimo artigo do Frank Brito¹ sobre o tema, de modo que decidi escrever sobre o mesmo assunto não para superá-lo, mas sim, para realçar essa verdade bíblica. Talvez você ainda não tenha entendido o título dessa postagem, então aí vai uma justificativa: Muitos tem usado o relato bíblico da mulher adúltera para defender a tese de que Cristo teria descumprido e suplantado Moisés. Se isto for verdadeiro, então o Nazareno era um farsante e seu sacrifício não possui a menor validade "Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus;" (Hebreus 7:26).

O relato em questão se encontra no capítulo 8 do Evangelho de João e descreve uma armadilha dos fariseus para acusarem Jesus (v.6). Mas acusá-lo como? E de que? Ou de ser contrário a Lei, desqualificando seu ministério, pois nenhum judeu daria ouvidos a um messias que fosse contrário a Moisés, ou de ser um contraventor e desacatar a autoridade do Império Romano. Isso será pormenorizado mais adiante. 

Fato é que uma mulher foi trazida por ter sido pega em flagrante adultério (v.4). O que fazer com ela? No caso de adultério, a pena de morte deveria ser aplicada. Todavia, existe algo errado nesse “tribunal farisaico”. No pentateuco diz que serão mortos o homem e a mulher que adulterarem (Deuteronômio 22:22). Só que os fariseus apresentam apenas a mulher para receber a sua sentença, o que constitui um grave erro da aplicação da Lei.

Outro aspecto importante é a idoneidade das testemunhas. Ninguém poderia ser acusado por uma só pessoa (Deuteronômio 19:15) e Deus requeria que a testemunha fosse inocente do crime cometido pelo acusado. Cabiam as testemunhas arremessarem as primeiras pedras (Deuteronômio 17:7). Porém, se fosse falsa a acusação, aqueles acusadores que intentaram a morte de seu irmão injustamente, receberiam a punição pela qual planejaram aplicar ao seu próximo (Deuteronômio 19:19).

Diante do que foi exposto, quando Jesus afirma “se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela” (v. 7), ele está se referindo aquela fraude montada apenas para acusá-lo. Ele até ordena que as testemunhas joguem as pedras, em conformidade com Deuteronômio 7:7, contudo, as testemunhas precisavam atender os requisitos acima citados. A justiça deveria ser aplicada por magistrados que andassem em integridade (Deuteronômio 16: 18-20). Bem, ninguém ali naquele contexto era magistrado, e ainda por cima estavam torcendo a justiça. Por isso que aqueles homens foram saindo um a um e não cometeram o apedrejamento (v.9).

Também era sabido por todos que as leis só poderiam ser aplicadas por autoridades romanas, isso era uma imposição do Império que havia dominado os judeus ainda no século VI a.C. Vale lembrar que Jesus foi levado a Pilatos, para que este aplicasse a sentença de morte a Cristo (João 18:31). Esse era o cerne da armadilha farisaica: Acusar Jesus de ser contra Moisés, deixando-o acuado para aplicar uma pena capital que competia ser efetuada pelos romanos. Jesus, sabiamente, livra-se das duas acusações.

Desmistificando a interpretação de que Jesus foi indulgente ao ponto de não aplicar o que Deus prescrevera por intermédio de Moisés, faz-se necessário agora explicar que diferente de Cristo, não estamos debaixo da Lei. Ele estava submetido a ela porque o Novo Testamento só seria válido (como todo testamento) após a sua morte. Assim nos diz Hebreus 9: 16-17:

No caso de um testamento, é necessário que comprove a morte daquele que o fez; pois um testamento só é validado no caso de morte, uma vez que nunca vigora enquanto está vivo aquele que o fez”.

Agora debaixo da nova aliança, alguns aspectos da Lei continuam sendo observados. É o caso dos 10 mandamentos (Êxodo 20). Até hoje matar, roubar, jurar falsamente, tomar o nome de Deus em vão e etc. continuam sendo pecado e o povo de Deus não pode praticar tais abominações. O que mudou foram os aspectos que tipificavam Cristo, dentre eles, tomo emprestado uma lista feita pelo Pr. John Piper:

1 - Os sacrifícios de sangue cessaram, pois Cristo cumpriu tudo para o que eles estavam apontando. Ele foi o sacrifício final, irrepetível, pelos pecados. Hebreus 9:12: “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção”.
2 - O sacerdócio que ficava entre o adorador e Deus não existe mais. Hebreus 7:23-24: “E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque pela morte foram impedidos de permanecer. Mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo”.
3 - O templo físico cessou de ser o centro geográfico da adoração. Agora, o próprio Cristo é o centro da adoração. Ele é o “lugar”, a “tenda” e o “templo” onde encontramos Deus. Portanto, o Cristianismo não tem centro geográfico, nem em Meca, nem em Jerusalém. João 4:21-23: “Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai...Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem”. João 2:19-21: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei...Mas ele falava do templo do seu corpo”. Mateus 18:20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. 
4 - As leis alimentícias, que colocavam Israel aparte das nações, foram cumpridas e acabadas em Cristo. Marcos 7:18-19: “E ele [Jesus] disse-lhes: Assim também vós estais sem entendimento? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não entra no seu coração, mas no ventre, e é lançado fora?... (Assim declarou puros todos os alimentos)”.
5 - O estabelecimento da lei civil sobre a base de um povo etnicamente fixado, que foi diretamente ordenada por Deus, cessou. O povo de Deus não é mais um corpo político unificado ou um grupo étnico ou um estado-nação, mas são peregrinos e forasteiros entre todos os grupos étnicos e Estados. Portanto, a vontade de Deus para os Estados não deve ser tomada diretamente da ordem teocrática do Antigo Testamento, mas deve ser agora restabelecida de lugar para lugar e de tempo para tempo, pelos meios que correspondam ao governo soberano de Deus sobre todos os povos, e que correspondam ao fato de que a genuína obediência, enraizada como ela é na fé em Cristo, não pode ser coagida pela lei. O Estado é, portanto, fundamentado em Deus, mas não expressivo da regra imediata de Deus. Romanos 13:1: “Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus”. João 18:36: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos”.²

Cabe a nós louvarmos Aquele que é Santo. Cabe a nós a reverência devida ao Cristo entronizado entre as nações. Ele perdoou a mulher adúltera (v.11) alertando-a de que ela não deveria mais viver na prática do pecado. Isso é comprometimento com a Palavra, algo que nos falta hoje. Como Igreja, devemos ser misericordiosos e buscarmos o tratamento do pecador arrependido. Só não podemos usar uma indulgência frouxa que passa por cima dos mandamentos do SENHOR:

Mateus 5:19 – “Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus”.

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[1] Quem Está Sem Pecado, Atire a Primeira Pedra. Disponível em:
[2] Como Cristo Cumpriu e Acabou com o Regime do Antigo Testamento. Disponível em:

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Divulgação: Bereianos
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0 O que significa jogar pérolas aos cães e porcos?

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Neste vídeo, o Pastor Marcos Granconato mostra a maneira correta de interpretar Mateus 7:6: "Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem." Assista:



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Fonte: Roberto de Carvalho Forte, via Youtube
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0 A ortodoxia no abismo semântico

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Por Thomas Magnum


Ao lidar com uma questão semântica no atual cenário religioso brasileiro – com um recorte na problemática da identidade teológica da igreja no país – é impossível ignorar que o linguajar evangélico é um fator que tem sido correntemente crescente e curiosamente dissidente de uma explosão religiosa no Brasil e que tem raízes no liberalismo teológico e no sincretismo nascente do colonialismo com o catolicismo europeu, pajelança, espiritismo de mesa branca e religiões afrodescendentes.

De fato, e de verdade, a questão não passa somente por uma ambiguidade presente no estudo da ciência da religião, mas também por uma ambivalência de termos. Embora tenhamos uma linguagem cristã aparentemente bíblica no contexto apontado aqui, temos uma disparidade de questões que separam a falsa teologia da verdadeira teologia.

Francis Schaeffer desenvolve esse raciocínio de forma singular em seu livro O Deus que Intervém, quando fala do misticismo semântico empregado na relação religiosa e a linguagem teológica do cristianismo. Schaeffer diz algo muito interessante:

Uma ilusão de comunicação e conteúdo é dada de forma que, quando uma palavra é usada deste modo deliberadamente indefinido, o ouvinte “pensa” que sabe o que ela significa.*

Temos com isso uma questão muito interessante de que muitas vezes a teologia é expressa de forma descritivamente escriturística, mas, aquilo que foi dito se instala no campo do subjetivismo e de outra forma leva o receptor da mensagem a um campo epistemologicamente estranho a sã doutrina.

Ao ouvirmos falar de sangue, expiação, cruz, inferno, condenação, ira, juízo, salvação, espiritualidade, santificação, eleição, justificação, reino de Deus; estamos num campo comum em relação aos termos vocabulares da linguagem cristã. Mas, ao investigarmos como cada palavra recebe conotações diferentes, percebemos como existe um abismo entre o que foi escrito e o que foi inscrito pelo homem, pela cultura, pela tradição religiosa. Reconhecemos a clara diferença entre exegese e eixegese. O que notamos é que muitas instituições chamadas de evangélicas professam documentalmente uma fé bíblica, mas, na prática a Bíblia não é suficiente, a Palavra de Deus deve ser “acrescentada”, isso é um trágico contexto. O interessante aqui é que esse acréscimo se dá com palavras que estão na Bíblia, “mas não são da Bíblia”, portanto, uma hermenêutica que não serve a Palavra de Deus e não é fiel ao genuíno ensino das Escrituras Sagradas.

Sem sombra de dúvida, há uma forte influência ainda que inconscientemente da escola de interpretação de Alexandria, posteriormente seu crescente desdobramento com Orígenes deram suporte para muitos problemas na igreja cristã, fornecendo aparato para interpretações estranhas as verdades sagradas do Evangelho de Deus. Temos também o presente pensamento do Iluminismo nesse processo de subjugação da Escritura as ideias filosóficas presentes nesse período histórico.

Ao se falar de salvação em Cristo, nos deparamos muitas vezes com conotações muito distantes do que realmente é a obra salvadora de Jesus Cristo na cruz. Para muitos a salvação é um passaporte para uma vida melhor sob vários ângulos, fornecidos por gurus que maculam as verdades santas do Evangelho Eterno. Ao se tratar de fé, nos deparamos com uma série de amuletos, herança do sincretismo e pluralismo religioso que se desenvolveu do corolário das Escrituras.

Interessante notarmos que quando o protestantismo chegou ao Brasil, não ouve aqui o mesmo impacto cultural que a teologia reformada causou em países europeus. Tivemos aqui uma ênfase na espiritualidade e numa postura em relação ao reino de Deus muito próxima das visões de Lutero e dos Anabatistas e um tanto quanto distantes do que Calvino tinha ensinado em Genebra e sua perspectiva sobre cosmovisão cristã, embora que esse termo ainda não era utilizado. Essa questão trouxe um afrouxamento na educação do povo e no interesse pelo estudo da Sagrada Escritura, consequentemente o crescimento do fanatismo, legalismo, ignorância a respeito do reino de Deus cresceram.

Sobre esse descompromisso com a correta interpretação das Escrituras surgem oceanos de heresias e ventos de doutrinas como dizia Paulo, que enganam o povo e lhe arrastam para os falsos ensinos. Ao lidarmos com essa questão semântica, devemos estar submissos a Palavra de Deus, devemos ser zelosos pela suficiência das Escrituras, sua exposição e sua regra áurea da hermenêutica Bíblica que diz que: a Escritura interpreta a Escritura. A desvalorização do ensino bíblico e da exposição da Escritura tem causado muitos males. A preguiça de muitos pastores em dar a sua congregação alimento espiritual tem sido um preço muito alto e um campo muito vasto para lobos que enganam o rebanho. Seminários teológicos que são centros liberais de teologia, professores apostatas e ateus que não creem no que está escrito, causam efeitos trágicos na vida de muitos alunos.

Como podemos lidar com essa situação? Como a igreja cristã pode vencer o liberalismo prático e o secularismo em seu seio? Como o cristianismo atual poderá sobreviver em frente a uma avalanche de ideias megalomaníacas que transformaram igrejas em clubes, cultos em shows, louvores em encenação performática? Com lidar com uma cultura que se afasta de Deus numa era pós-cristã?

Os desafios que temos hoje circulam mais no campo das ideias do que na perseguição física como no passado. Doravante ser cristão, é ser discípulo de Jesus e apegados a sua revelação nas Santas Escrituras. Um dia desses conversando com um jovem cristão universitário ele me disse que o grande problema do esfriamento espiritual da igreja moderna é que ela não lê as Escrituras; mas, tenho uma fundamental discordância desse ponto. É claro que concordo que o relaxamento na leitura da Palavra é evidente, porque temos crentes analfabetos de Bíblia na igreja, cristãos que estão a muitos anos frequentando uma igreja, mas, não sabem o que é o pentateuco, ou os evangelhos e muito pior do que termos técnicos, não sabem que é o Espirito Santo, nem o Jesus das Escrituras. Em muitos casos o que muitos cristãos creem são figuras folclóricas com nomes de personagens bíblicos, ou seja, sua crença não está fundamentada no ensino bíblico de determinado assunto ou pessoas da Bíblia. A dificuldade não é somente na leitura, mas na compreensão do texto lido. A falta de exposição da Bíblia nos púlpitos tem causado isso. Os pregadores através de exposições bíblicas ensinam o povo a ler devidamente a Bíblia, é claro que temos a dependência do Espírito Santo de Deus para nos ensinar e nos guiar na verdade (Jo 16.13), no entanto fomos dotados de intelecto e capacidade de aprendizado, por isso temos tantas instruções na Bíblia para que meditemos, leiamos, guardemos, examinemos as Escrituras Sagradas.

O fator semântico é algo que pode impedir o crescimento de um crente e a fé na verdadeira Palavra de Deus, a verdade é a verdade de Deus como dizia Calvino. É claro que não digo com isso que um crente precisa aprender as línguas bíblicas para ouvir a voz de Deus, acredito que a Escritura fala com o povo de Deus na língua vernácula. Mas o trabalho dos pregadores e ensinadores é de fundamental importância para a igreja, esses sim devem ter um conhecimento abalisado das Escrituras e estarem sempre procurando aperfeiçoamento nos estudos teológicos para ensinarem o povo.  

Ao tratarmos com o princípio Sola Scriptura e Tota Scriptura da reforma (Somente a Escritura e toda a Escritura), estamos incluindo nisso uma correta interpretação da Palavra de Deus, respeitando seu contexto histórico e sua gramática, por isso usamos o método histórico-gramatical. Evidente que a Palavra alcança o crente leigo, mas existem casos que exigem esforço intelectual para uma correta compreensão do que Deus revelou, por isso insisto na importância da ortodoxia, ortopraxia e ortopatia. Temos que crer na verdade de Deus revelada, como Ele a revelou (ortodoxia), viver por essa verdade que nos foi dada (ortopraxia) e ter nossos sentimentos (ortopatia) regidos por ela.

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* O Deus que Intervém, Francis Schaeffer - Ed. Cultura Cristã

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Divulgação: Bereianos
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0 Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 3/5

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Por Rev. Felipe Camargo


3. Aplicação da mensagem

As duas grandes seções de Joel (Joel 1.8-14; 2.12-26) também mostram como ele se preocupava com que a mensagem fosse aplicada aos ouvintes. Após mostrar as calamidades e mostrar o erro, Joel chama o povo ao arrependimento. É importante que o pregador tenha essa preocupação em trazer mudança ao povo a quem prega. Usando a figura de John Stott, é necessário que o pregador construa uma ponte que ligue as duas épocas que são bem diferentes. [54]

De fato, a aplicação da mensagem e transformação dos ouvintes é obra do Espírito Santo. Como afirma Shedd, “pregar uma mensagem bíblica sem esse gracioso ministério do Espírito não produzirá qualquer benefício eterno”.[55] Um bom discurso sobre a Palavra de Deus sem o auxílio do Espírito não passará de uma boa palestra.[56] Mas, isso não exclui a tarefa do pregador de mostrar o que o texto exige dos crentes. É com isso em mente que Shedd também afirma:

“Se não se focaliza na necessidade dos ouvintes como pecadores, distantes de Deus e de sua vontade perfeita, o pregador pode facilmente disparar uma flecha sem ter um alvo em vista. Seguramente essa flecha se perderá”. [57]

Para Chapell, por exemplo, a aplicação é tão importante que ela não somente direciona como o pregador irá expor o texto [58], mas que sem a aplicação a exposição não está completa.[59]

Portanto, duas tarefas primordiais para um pregador são a interpretação do texto e a interpretação dos ouvintes. Mas estas não são as únicas tarefas. O pregador ainda tem o desafio de apresentar uma aplicação das verdades do texto dentro do contexto dos ouvintes. Por isso, Fergunson alerta que:

“É possível instruir, e ainda assim falhar ao nutrir aqueles a quem pregamos. É possível nos dirigirmos à mente, mas fazer isso com pouca preocupação em ver a consciência, o coração e as afeições alcançadas e purificadas, a vontade direcionada e a pessoa inteira transformada por uma mente renovada.” [60]

Por isso, no preparo do sermão o pregador só pode considerar sua tarefa completa no momento em que conseguir identificar as aplicações apropriadas para aquele determinado texto. [61]

Observando um pouco mais as aplicações de Joel pode-se perceber que ele não mostra apenas o que fazer, mas também como deveria ser esse arrependimento e o porquê desse arrependimento. Mais uma vez Joel se torna um padrão para o pregador atual. Essas três abordagens devem ser básicas para uma aplicação bem sucedidas.

• O que deveriam fazer: Eles deveriam se arrepender não apenas externamente, mas, principalmente internamente. Deveriam santificar suas vidas e se voltarem para Deus. Este é o arrependimento exigido para que pudessem receber o favor de Deus novamente.
 Como deveriam fazer: Primeiro diz que todos deveriam se reunir em assembleia solene, incluindo até mesmo as crianças. Todos deveriam fazer jejum, se vestir de pano de saco, se entristecer pelo pecado e rogar o favor de Deus. A maneira como deveriam se arrepender, portanto, é estabelecido pelo próprio profeta.
• Por que deveriam fazer: Como já apresentado, as consequências desse verdadeiro arrependimento trariam não apenas recompensas materiais, mas também espirituais. Não somente os castigos seriam retirados, mas também a promessa de que receberiam também o Espírito de Deus. Corretamente afirma Shedd: “Se os ouvintes não sabem porque devem cumprir as ordens de Deus, a mensagem pode ter um cheiro mais forte de sinagoga do que de igreja. Ela é mais parecida com regras vazias de homens, do que com a Palavra transformadora do Senhor”. [62]

Corretamente, portanto, Olyott afirma que o pregador deve dizer não somente “o que” fazer, mas também “como” fazer dando sugestões sempre que possível e apontar o “por que” fazer. [63] 

O objetivo principal da aplicação é a preocupação em ver vidas sendo transformadas pela palavra de Deus. Se este não for o propósito tanto a aplicação quanto a própria pregação perdem o sentido de existir. De fato, esta tarefa tem se tornado cada vez mais difícil, como explica Mohler:

“Seja pelo pregador ou pelo púlpito, simplesmente não há muita admoestação na igreja hoje. Em nossos dias, isso seria considerado intolerante, invasivo e até mesmo uma imposição. Na verdade, seria mesmo uma arrogância. Mas a função do pregador é expor o erro e revelar o pecado”.[64] 

No entanto, independente da dificuldade, o pregador precisa chamar o povo para uma mudança de vida. Se não fosse por essa preocupação, a mensagem de Joel não teria sentido algum. 

O grande reformador Calvino era um claro exemplo de pregador que visava a transformação dos ouvintes. Para ele, o propósito da pregação do evangelho é exatamente para que Deus guiasse todas as nações à obediência da fé.[65] Lawson, falando sobre os princípios de pregação de Calvino, diz:

“Em suas pregações, repetidas vezes instou seus ouvintes a viverem a realidade do texto abordado. Ao falar do púlpito, o reformador enchia de persuasão afetuosa e apelos fervorosos. Ele pregava com intenção de impelir, encorajar e estimular sua congregação a seguir a Palavra”. [66] 

Mas, como mostra Anglada, esta não era uma preocupação apenas de Calvino, mas também de outros reformadores e puritanos.[67] 

Se toda aplicação deve visar a mudança de vida dos ouvintes,[68] então, todo sermão deve ter uma chamada à esta mudança. Mohler, quanto a isso diz:

“Creio que o alvo da pregação é compelir as pessoas a tomarem uma decisão. Quero que as pessoas me ouçam para entenderem exatamente o que a Palavra de Deus exige delas, quando eu termino. Elas devem dizer ‘Sim, eu farei o que Deus está dizendo’ ou: ‘Não, não farei o que Deus está dizendo’”.[69]

E complementa:

“Todo Sermão apresenta ao ouvinte uma decisão compulsória. Obedeceremos ou desobedeceremos à Palavra de Deus. A autoridade soberana de Deus opera por meio da pregação de sua Palavra para exigir obediência de seu povo” [70]

Shedd alerta que “quando uma mensagem não consegue transformar o coração, fatalmente o endurece”[71] O pregador, portanto, não deve se sentir alegre por elogios recebidos devido à sua eloquência, mas quando percebe que vidas estão sendo transformadas pela exposição da Palavra de Deus e aplicação dela.

Continua nos próximos dias...

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Notas:
[54] STOTT. La predicación. p. 132.
[55] SHEDD. Palavra viva. p.19.
[56] Ibid. p. 58.
[57] Ibid. p. 92
[58] CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: CEP, 2002. p. 219-222.
[59] Ibid. p. 222.
[60] FERGUNSON. Pregando ao Coração. p. 121.
[61] CHAPELL. Pregação Cristocêntrica. p. 220.
[62] SHEDD. Palavra viva. p.94.
[63] OLYOTT, Stuart. Pregação pura e simples. São José dos Campos: Fiel, 2008. p. 105-113; OLYOTT, Stuart. Ministrando como o Mestre. São José dos Campos: Fiel, 2005. p. 23,24. 
[64] MOHLER. A primazia da pregação. p. 29.
[65] CALVINO, João. Exposição de Romanos: Comentário à Sagrada Escritura. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. 524.
[66] LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São Paulo, SP: Fiel, 2008. p. 99-100.
[67] ANGLADA. Introdução à Pregação Reformada. p. 188-191.
[68] CHAPELL. Pregação Cristocêntrica. p. 219.
[69] MOHLER. Deus não está em silêncio. p. 79
[70] Ibid. p. 79.
[71] SHEDD. Palavra viva. p.11

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Divulgação: Bereianos

Leia também:
Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 1/5

Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 2/5 
Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 4/5 (em breve)
Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 5/5 (em breve)
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