0 Quando os magos do oriente foram adorar a Cristo?

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Por Frank Brito


E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”. (Mateus 2:1-2)

A maioria das pessoas acreditam que os magos do Oriente se encontraram com Cristo enquanto ele ainda estava na manjedoura, tendo acabado de nascer. Essa ideia é perpetuada por quadros e presépios que mostram os magos do Oriente diante da sagrada família, na manjedoura. Mas esse cenário não condiz com a narrativa bíblica. O Evangelho segundo S. Mateus é muito claro que os magos se encontraram com o bebê Jesus, não mais quando estavam na manjedoura, mas em uma “casa” (Mt 2:11), o que aconteceu, provavelmente, cerca de dois anos depois de Cristo ter nascido.

Harmonizando os Evangelhos

Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas são os únicos que entram em detalhes sobre as circunstâncias do nascimento de Cristo. Marcos já começa narrando Seu ministério público e o de João Batista. E o Evangelho de João, logo depois de falar sobre a Divindade de Cristo e Sua encarnação também pula direto para Seu ministério público e o de João Batista. Somente Mateus e Lucas narram as circunstâncias de Seu nascimento. Todavia, eles dão detalhes diferentes. Isso levou alguns críticos no decorrer da história a criticar a veracidade das duas narrativas, alegando que elas se contradizem. Mas quando analisamos cuidadosamente a informação que recebemos dos dois Evangelhos, fica claro que não há qualquer contradição nos fatos narrados, as duas narrativas se harmonizam perfeitamente.

Lucas começa seu Evangelho falando do anúncio do nascimento de João Batista pelo anjo Gabriel ao seu pai, enquanto este ministrava como sacerdote no templo (Lc 1:5-23), passa para o anúncio do nascimento de Cristo a Maria, também pelo anjo Gabriel (Lc 1:26-35) e depois fala sobre o nascimento dos dois (Lc 1:57-80; 2:1-40). Nada disso é narrado pelo Evangelho de Mateus. Como será demonstrado a seguir, todos os eventos narrados em Lucas 2:1-40, sobre o nascimento de Cristo, devem ser entendidos como uma explicação detalhada do que aconteceu em Mateus 1:25, antes de Mateus 2:1: “deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus” (Mt 1:25). E tudo o que é narrado no segundo capítulo de Mateus, começando pela chegada dos magos do Oriente, deve ser entendido como tendo acontecendo depois de Lucas 2:39, no decorrer do período descrito pelo verso 40: “E o menino crescia, e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele”.

A visita dos magos e a fuga para o Egito

Quando os magos do Oriente chegam para visitar Jesus, ele já tinha nascido. “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”. (Mt 2:1-2) Aqui é importante observar que o texto diz somente que Cristo já tinha nascido, mas não diz há quanto tempo ele tinha nascido. Em nenhum momento é dito que tinha acabado de nascer. Pelo contrário, no decorrer do diálogo entre os magos e o rei Herodes, temos evidência de que Ele já tinha cerca de dois anos:

E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele. E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; Porque de ti sairá o Guia Que há de apascentar o meu povo de Israel. Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. (Mateus 2:3-7)

Aqui é muito importante observar que o rei Herodes queria saber exatamente quando a estrela apareceu. Ou seja, os magos receberam a revelação do nascimento de Cristo por meio de uma estrela e o rei Herodes queria saber quando eles tinham visto essa estrela para, com base nisso, calcular há quanto tempo Cristo havia nascido. Foi com base nisso que ele mandou matar as crianças:

Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. (Mateus 2:16)

Se ele mandou matar as crianças de dois anos para baixo, com base no testemunho dos magos, isso indica que Cristo teria nascido dois anos antes e esse havia sido o tempo que eles demoraram para sair do Oriente e chegarem em Jerusalém, desde quando receberam a revelação. Não é dito exatamente de que lugar eles vieram do Oriente, mas existem grandes possibilidades de que eles vieram do Império Arsácida, que existia ao oriente do Império Romano, o que, sem dúvidas, teria sido uma viagem longa e difícil. Ou possivelmente, eles teriam vindo da Índia, o que seria uma viagem ainda mais longa. Não temos como saber ao certo de onde eles vierem, mas o fato de virem do Oriente indica que a distância teria sido, no mínimo, um importante fator para que a viagem fosse demorada.

Além disso, é importante observar um detalhe que é frequentemente apontado por críticos como uma contradição entre as duas narrativas. Segundo o Evangelho de Mateus, os magos encontraram com Cristo em uma “casa… com Maria sua mãe” (Mt 2:11) em Belém (v. 8). Depois disso, a família sagrada foi para o Egito, onde morou por um tempo: “E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes”. (Mateus 2:13-15) Todavia, segundo o Evangelho de Lucas, depois do nascimento, circuncisão e apresentação de Cristo no templo, a família sagrada “voltou à Galiléia, para a sua cidade de Nazaré” (Lc 2:39). É dito que a família já morava lá (Lc 2:4), que eles somente foram até Belém por causa do alistamento (v. 2). Ou seja, eles moravam em Nazaré, foram até Belém, foram até Jerusalém para apresentar a criança e depois voltaram para Nazaré. Depois disso, não há maiores detalhes sobre outros lugares para onde eles teriam ido, mas, é dito que “todos os anos iam seus pais a Jerusalém à festa da páscoa” (Lc 2:41). Isso significa que, para os magos terem encontrado com Jesus em Belém, é preciso que, depois deles terem voltado para Nazaré, onde eles já moravam, eles teriam voltado novamente para Belém, cerca de dois anos depois. Dois anos é tempo suficiente para que, por algum motivo, eles tivessem ido a Belém de novo. Estando lá, eles se encontraram com os magos e, então, fugiram para o Egito. E o período em que permaneceram no Egito tem que necessariamente ter sido menos de um ano, para que houvesse tempo para que fosse possível que estivessem todos os anos em Jerusalém na festa da Páscoa. Sendo assim, eles teriam fugido para o Egito em algum momento logo depois da festa da Páscoa e teriam voltado em algum momento antes da festa da Páscoa do ano seguinte. Desta maneira, as duas narrativas se harmonizam perfeitamente, sem qualquer contradição. Então, para resumir:

1. O anjo visita Maria e ela concebe do Espírito Santo (Mateus 1:18; Lucas 1:27-28).

2. Maria imediatamente vai visitar Isabel, sua prima e fica por três meses (Lucas 1:39-56).

3. José, em algum momento destes três meses, enquanto Maria estava na casa de Isabel, decide abandonar Maria, sendo impedido pelo anjo (Mateus 1:19-24).

4. João Batista nasce e é circuncidado (Lucas 1:57-79).

5. José se casa com Maria em algum momento depois dela voltar da casa de Isabel (Mateus 1:24).

6. José e Maria saem de Nazaré e vão até Belém por conta do alistamento (Lucas 2:1-5).

7. Enquanto eles estavam em Belém, Jesus nasceu na manjedoura, por não haver lugar para eles na estalagem, provavelmente pela grande quantidade de pessoas que lá havia para o alistamento (Lucas 2:6-20).

8. Eles saem de Belém, depois que nasceu, e vão até Jerusalém para apresentar Jesus no templo (Lucas 2:22-38).

9. Eles voltam para Nazaré e continuam a morar lá (Lucas 2:39).

10. Em algum momento, até dois anos depois, eles voltam para Belém (Mateus 2:8-11).

11. Estando eles em Belém, os magos do Oriente chegam em Jerusalém e se encontram com o rei Herodes para perguntar sobre o Seu nascimento (Mateus 2:1-2).

12. O rei Herodes envia os magos até Belém (Mateus 2:8).

13. Os magos, guiados novamente pela estrela, chegam até uma casa onde estava Maria com o bebê Jesus, onde eles prestam culto a Cristo e o presenteiam com “tesouros” de “ouro, incenso e mirra”. (Mateus 2:9-11)

14. Os magos voltam para o Oriente, por conta de uma revelação de Deus (Mateus 2:12).

15. José recebe uma revelação em sonho, para que fugisse ao Egito, o que eles fazem imediatamente (Mateus 2:13-14).

16. O rei Herodes manda matar todas as crianças de dois anos para baixo que havia em Belém (Mateus 2:16).

17. A sagrada família permaneceu no Egito, por menos de um ano, até a morte do rei Herodes (Mateus 2:15,22).

18. A família voltou para Nazaré (Mateus 2:22,23).

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Fonte: Resistir e Construir
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0 A rejeição da Escritura como fundamento epistemológico e a resultante confusão de termos

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Por Paulo Ribeiro


Como pressuposicionalista eu defendo que, a não ser que o cristianismo, com todas as suas implicações, seja adotado integralmente, o conhecimento não é possível, em qualquer área. Por consequência, nenhum raciocínio lógico poderia ser empregado sem as premissas bíblicas pois só elas possibilitam e justificam a existência da razão, e amparam a ideia de ordem e continuidade no universo e na mente. Com efeito, essas condições para o conhecimento e para a lógica não são percebidas pela avassaladora maioria das pessoas, obviamente. É triste que até mesmo uma grande parcela de cristãos pense diferente ou não concorde com a absoluta necessidade das premissas bíblicas para que qualquer conhecimento seja possível. Entretanto, uma das consequências da rejeição da Bíblia como fundamento epistemológico é mais facilmente identificável, ao menos para os cristãos: a impossibilidade de definirmos muitos termos empregados cotidianamente pela maioria das pessoas. Palavras que portam conceitos densos como "amor", "justiça", "Deus", "ciência" e "mal", por exemplo, tornam-se COMPLETAMENTE desestruturadas, amorfas e desamparadas de sentido quando utilizadas em detrimento da Palavra de Deus.

Nesta reflexão, enfocarei o amor. A Bíblia fala no amor de Deus por ele mesmo (amor ad intra), no amor de Deus pela obra de suas mãos (amor ad extra) e no amor de Deus por seus eleitos, que se enquadra no amor ad extra, porém, de uma forma redentiva. Há também o amor das pessoas umas pelas outras, pela criação divina, bem como há o amor do cristão pelo próximo, por seu inimigo e por Deus. Definitivamente foge aos nossos propósitos, neste momento, investigar o amor na Bíblia empregando análises etimológicas. O que nos interessa é observar, partindo de uma perspectiva ontológica, a definição última de amor, segundo a Escritura nô-la fornece; e a Bíblia diz que "Deus é amor" (1Jo 4.8). Desconsiderando momentaneamente todas as implicações desta afirmação da Escritura, concentremo-nos no simples fato de que a Bíblia nos fornece uma definição de "amor". Na verdade, a Bíblia vai muito além de definir o amor; ela revela a propriedade metafísica do amor. Deus não "tem" amor, ele "é" amor. O significado disso é que tudo o que o ser humano concebe por "amor" (seja como sentimentos, seja como ações, ou seja o que for), não é amor senão como um eco do verdadeiro amor, que integra a natureza divina como uma de suas perfeições, sendo, por isso mesmo, tão eterno quanto à própria divindade. Deixe-me colocar isso de outra forma. Se a Palavra de Deus é eterna como é o próprio Deus (Is 40.28), então tudo deve ter tido origem nele. E se tudo teve origem nele (Gn 1.1), dele somos criação, e empregamos o termo "amor" em nosso vocabulário, então não podemos arrogar para nós mesmos o direito de manipular um termo de autoria divina, e que só tem sentido dentro da definição que o próprio Deus outorgou a ele. Assim, se o amor É uma propriedade de Deus, então ele NÃO É outra coisa e NÃO É o que nós queremos que ele seja. Nós podemos usar o termo "amor" somente nos parâmetros e nas aplicações permitidas pelo que não "tem" amor, mas É amor.

Frequentemente empregamos a palavra amor em nossa vida. Dizemos que amamos nossas esposas, filhos, amigos, animais de estimação etc., mas jamais poderemos entender o amor conforme nossa própria mente o definir pois o amor é eterno ("Deus é amor...") e já era antes que tudo fosse criado. Então, somos encorajados por Deus para que o amemos e para que exercitemos este amor para com próximo. Na verdade, somos chamados até mesmo a amar aos nossos inimigos, conforme pontuei em outro texto. Mas nunca fomos autorizados a alterar a definição de amor! Por exemplo, se eu, na prática, resolvo amar a meu inimigo, eu não posso, com base em suposições fúteis a respeito do que significa amar o inimigo, empreender um esforço para conciliar nossos ideais e valores; ou mesmo tentar "sentir coisas boas" por ele. A Bíblia diz que os cristãos têm a mente de Cristo (1Co 2.16) e que o incrédulo é tolo (Sl 14.1). Não há o que ser conciliado. Sendo assim, eu não devo utilizar a palavra "amor" independentemente de sua definição original, e eu não deveria amar meu inimigo segundo o que EU entendo por "amor ao inimigo". Antes, eu devo definir o amor segundo os usos e definições do que detém sobre ele os direitos autorais.

Este é o ponto. Ao abrirmos mão da Escritura como alicerce para o conhecimento, sujeitamo-nos ao mais pernicioso relativismo: a definição de amor ficaria por nossa própria conta e poderíamos defini-lo da maneira que mais nos agradasse. De fato, poderíamos sustentar inúmeras definições distintas para o amor, caindo, então, na impossibilidade completa de termos qualquer definição e, por extensão, qualquer conhecimento.

Isso parece um cenário terrível, não é? Não obstante, vivemos uma versão deste cenário em nossos tempos. O maciço abandono dos pressupostos bíblicos e a crescente hostilidade às heranças éticas e culturais do cristianismo (como consequências do apelo histérico à "laicidade do Estado" - apenas um nome diferente para REBELDIA) têm produzido, há anos, uma enfática relativização do significado não só do amor, que foi um exemplo, mas de diversas palavras, de modo que as consequências para o Reino de Deus são visíveis. A palavra casamento foi relativizada. O significado de casamento pertence somente a Deus, pois Deus o instituiu e exerceu seu direito de defini-lo conforme a boa determinação de sua vontade (Ef 1.11). Mas no momento em que lançamos mão da Bíblia como fundamento epistemológico, passamos a definir casamento por nós mesmos. Então, o casamento não precisa mais ser casamento. Ele pode ser "união estável" ou qualquer outra besteira, sob qualquer formato e parâmetro que quisermos. Outras palavras foram também roubadas de seu fundamento eterno e mergulhadas no oceano ímpio do relativismo. "Família", "paraíso", "pecado", "homem", "mulher", "bom e mal", "certo e errado" foram igualmente estupradas. A agenda anticristã atualmente estabelecida é, indubitavelmente, um catalisador da relativização dos termos (e conceitos subjacentes) e da aproximação de um estado latente de não-conhecimento.

Entretanto, apesar do evidente cenário relativista em que vivemos, notamos também que o caos não é absoluto. Há ainda uma consciência geral, ainda que tímida e sufocada, acerca dos corretos significados das palavras, ou, mais precisamente, de uma direção que aponta para um sentido mais acurado delas. E isso, mesmo com a rejeição da Palavra de Deus. Tal ordem se deve ao fato de que Deus, em sua grande sabedoria, implantou no homem uma vívida intuição acerca de sua lei, bem como categorias de raciocínio lógico e proposições que as instrumentalizam. Destarte, ainda que o homem, em rebeldia contra seu criador, ouse cerrar os punhos e negar a Palavra de Deus como fundamento de todo o conhecimento, ele ainda PRECISA dos pressupostos bíblicos para viver. O homem natural consegue, por exemplo, concluir que dois mais dois somam quatro; ele só não é capaz de fornecer uma justificativa para este resultado, para a lógica. A não ser que o homem assuma a Bíblia como fundamento de todo o seu conhecimento, ele jamais encontrará justificativas últimas para a existência da lei moral, para a lógica e para a beleza. Mesmo assim, nós sabemos que se a experiência humana levar às últimas consequências sua rejeição da Escritura como único fundamento epistemológico possível, o resultado mais óbvio dessa rejeição será a completa relativização dos termos e, por fim, a imersão em um "limbo" epistemológico. Dirão os homens: "Não podemos conhecer nada; [porém] conhecemos que não podemos conhecer; e não sabemos explicar a razão desta flagrante incoerência! Nada tem sentido, nem mesmo o que eu estou dizendo agora".

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Fonte: Teologia Expressa
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0 Resposta ao vídeo "Palavra do Senhor" do canal Põe na Roda

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Um argumento comum de quem defende a prática homossexual é que não podemos obedecer os mandamentos de Levítico porque lá também existem proibições contra usar poliéster, comer presunto e fazer a barba. O canal gay "Põe na Roda" publicou esta semana um vídeo que usa exatamente essas questões para zombar da fé cristã. Neste vídeo, lidamos com hermenêutica e com o padrão bíblico de sexualidade. Assista:



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Fonte: Dois dedos de Teologia
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0 Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 2/5

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Por Rev. Felipe Camargo


2. Anunciando a mensagem

Os profetas eram mensageiros do Senhor e, portanto, devem ser considerados bons modelos para nós hoje. Uma das coisas que podemos perceber nos profetas do Antigo Testamento é o fato de sua mensagem ter sido fundamentada no Pentateuco. Eles não traziam uma mensagem totalmente nova, mas se preocupavam em mostrar como as Escrituras podiam ser aplicadas aquele povo. Com isso em mente, o principio a ser aplicado ao mensageiro contemporâneo é que toda pregação deve ser fundamentada na Palavra de Deus.

Embora possa parecer óbvio que o pregador deva pregar a Bíblia, isso não parece ser tão natural assim. Na verdade, pode haver uma grande confusão nos púlpitos a respeito disso. Muitos sermões possuem aparência de pregação bíblica, mas, na realidade são pensamentos de homens e não de Deus. O simples fato de alguém levar a Bíblia para o púlpito não quer dizer que ele esteja pregando realmente a Bíblia. A tentação que o pregador pode sofrer é usar um texto bíblico apenas para dizer o que pensa e não o que a Bíblia realmente diz. 

Muitas vezes, ainda, a falha no púlpito acontece por uma preocupação em agradar aqueles que estão ouvindo. Paulo adverte que nos últimos dias as pessoas não aceitariam as verdades de Deus (2 Tm 3.1-4.5). É natural, portanto, que a pregação verdadeira não seja tão aceita pela maioria das pessoas. No entanto, quando um pregador deixa de pregar a Palavra de Deus simplesmente pela tentação de agradar a igreja, mostra que ele deixou de ser um pregador e que seu temor está em homens e não em Deus. Por isso, não está errado também afirmar que se a pregação não tem causado impacto na igreja certamente o pregador abandonou o compromisso de pregar a Bíblia. Como afirma Mohler, “se você está e paz com o mundo, você já abdicou do seu chamado”.[29] 

O que se defende aqui é que a autoridade de uma pregação não vem pela forma de falar ou pelo número de pessoas que se consegue persuadir, mas pela autoridade da Palavra de Deus. Quanto à isso, Robinson explica: “Um pregador pode proclamar qualquer coisa, com voz imponente, no domingo de manhã, depois de serem cantados os hinos. Mesmo assim, quando um pregador deixa de pregar as Escrituras, perde sua autoridade.”[30]  

Calvino, que era um grande expositor da Bíblia, não aceitava outra forma e pregação senão aquela que explicasse com fidelidade a vontade de Deus exposta na Bíblia:

Quando, porém, pareceu bem a Deus suscitar mais clara forma à Igreja, quis que fosse confiada à escrita, e assim selar sua Palavra, para que os sacerdotes daí buscassem o que ensinar ao povo e para que a essa regra se conformasse todo o ensino que se transmitisse. E assim, após a promulgação da lei, quando se ordena aos sacerdotes que ensinassem “pela boca do Senhor” [Ml 2.7], o sentido é que não ensinassem algo estranho ou alheio a esse gênero de ensino que Deus havia compreendido na Lei. Com efeito, lhes foi vedado acrescentá-la e diminuí-la.[31] 

Para Calvino, o motivo para se pregar biblicamente é porque somente através desta pregação que Deus se utiliza para edificar seu povo.[32] Calvino, neste ponto não aceita exceções: “Deve-se, porém, ser mantido por nós o que já citamos de Paulo: que a Igreja não é edificada de outro modo senão pela pregação externa.”[33]  

Por isso, a pregação expositiva se torna o melhor modelo de pregação, pois nela a preocupação do pregador é expor a Bíblia e somente isto. Por pregação expositiva deve ser entendida como aquela pregação cujo alvo principal é explicar e aplicar a mensagem de um determinado texto da maneira mais fiel possível. Mohler, sobre isso, diz:

“Eu defino pregação expositiva como aquele estilo de pregação cristã que tem como propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. [...] Sendo a Palavra de Deus, o texto da Escritura tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo quanto a estrutura do sermão. A exposição genuína ocorre quando o pregador define o significado e a mensagem do texto bíblico e deixa claro como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a perspectiva da igreja como povo de Deus.” [34] 

O mesmo afirma MacArthur de maneira resumida: “por expositiva quero dizer pregar de tal maneira que o significado da passagem bíblica se apresente completa e exatamente como Deus quer” (tradução minha).[35] Portanto, quem direciona a forma e o assunto do sermão é o texto e não o pregador.

No entanto, a pregação expositiva não é um simples método de pregação, mas um compromisso com a Palavra de Deus. Está correto Robinson ao afirmar que a pregação expositiva é mais uma filosofia do que um método.[36] Ligon Duncan explica melhor esse pensamento dizendo:

“Eu não me refiro à pregação expositiva como um estilo ou um método de pregação, mas ao compromisso de princípios autoconsciente com a pregação de tal modo que a própria Escritura forneça o tema principal, as verdades essenciais e aplicação principal na nossa proclamação” [37]

Assim, fazer uso de recursos homiléticos e didáticos não são errados desde que não interfira na mensagem central do texto. Na verdade, estes recursos devem ser dependentes do próprio texto.

Entretanto, o fato de um pregador tratar de alguma verdade bíblica, não significa que ele esteja sendo expositivo. É interessante notar que o grande pregador Lloyd-Jones recusava qualquer pregação que não fosse a pregação expositiva. Neste ponto ele chega a afirmar: “A verdadeira pregação é a exposição da Palavra de Deus. Não é mera exposição dos dogmas ou do ensino da Igreja.”[38] Em outro lugar ele ainda adverte que:

“É erro grave quando um homem impõe violentamente o seu sistema sobre qualquer texto em particular; porém, ao mesmo tempo, é vital que a sua interpretação a respeito de qualquer texto especifico seja confrontada e controlada por esse sistema, por esse corpo de doutrina e de verdades, que se encontram na Bíblia. A tendência de alguns homens que têm uma teologia sistemática, e à qual se apegam rigidamente, consiste em impô-la a textos particulares, assim forçando tais textos.” [39]

É nisso que se diferencia a pregação expositiva da pregação textual e temática. Na pregação textual e temática o pregador é tentado a impor a sua doutrina em determinados textos. Mas, como apresentado até agora, a preocupação do pregador é que o texto bíblico fale ao coração do crente e não um sistema doutrinário.

Para que isso ocorra, ou seja, que o pregador transmita realmente a Palavra de Deus, ele necessita de um estudo detalhado do texto bíblico. Usando as palavras de Mohler, “o pregador deve ser um servo da Palavra”.[40] Por isso, é importante que o pregador faça uma exegese cuidadosa da passagem. Olivetti demonstra a preocupação com a correta interpretação da Palavra de Deus dizendo que:

“Descuidar da interpretação da Bíblia é tender a pregar inverdades, a torcer ou truncar ou falsear as verdades da Palavra de Deus. E agir assim é ser infiel a Deus e à Sua Palavra, e é ser um traidor dos seus ouvintes e dos seus leitores.” [41]

Este talvez seja um grande motivo do porque a pregação expositiva não tenha tido tanto espaço nos púlpitos. A pregação expositiva exige, inevitavelmente, um estudo mais demorado e árduo que as demais formas de pregação.

De certa forma, toda essa preocupação com a pregação expositiva parte de um pressuposto teológico. Como bem explica MacArthur, a pregação expositiva deve ser uma resposta à certeza da inspiração e inerrância da Bíblia.[42] Ele afirma que a “infalibilidad demanda la exposición como el único método de predicación que preserva la pureza de la Escritura y alcanza el propósito para el cual Dios nos dio su Palabra”.[43] O mesmo afirma Mohler dizendo que se “cremos verdadeiramente que a Bíblia é a Palavra escrita de Deus – a revelação de Deus perfeita e divinamente inspirada, a pregação expositiva é a única opção válida para nós”.[44] 

Nesse sentido, Shedd também explica que “o poder transformador da Palavra depende do reconhecimento da autoridade divina.”[45] A igreja precisa obedecer à palavra pregada não pelo pregador, mas porque a autoridade vem de Deus. Se este compromisso e entendimento partir primeiramente do pregador será mais fácil para que a igreja também se comprometa. Shedd continua neste pensamento dizendo que “quando um mestre da Palavra demonstra um compromisso real com a revelação de Deus, os ouvintes estarão mais dispostos a aprender a se submeter igualmente aos conselhos divinos.”[46] 

Tanto MacArthur quanto Shedd evidenciam uma preocupação em mostrar a grande tarefa que o pregador tem nas mãos. Com esse ensino eles refletem um princípio que se estende desde a reforma, que o pregador fiel à Escritura é na verdade a própria “boca de Deus”.[47] Para a teologia reformada, pregar biblicamente não é falar algo acerca da Palavra de Deus. Pelo contrário, a pregação bíblica se torna a própria Palavra de Deus. Sobre isso, Anglada afirma:

“Assim como a palavra inspirada não deixa de ser divina, embora escrita por autores humanos em pleno uso de suas peculiaridades humanas, assim também a palavra pregada não deixa de ser de Deus por ser mediada pela personalidade do pregador”. [48] 

Calvino, em suas institutas diz:

“Mas, os que pensam que a autoridade da doutrina é desprezada pela baixa condição dos homens que foram chamados a ensiná-la, estes põem à mostra sua ingratidão, porquanto, entre tantos dotes preclaros com os quais Deus adornou o gênero humano, esta prerrogativa é singular: que a si digna consagrar as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz.” [49]

E o mesmo em seus comentários:

A fé procedente do evangelho seria deveras frágil, se fôssemos nós olhar somente para os homens. Toda a sua autoridade procede de reconhecermos que os homens são meros instrumentos de Deus e de ouvirmos Cristo nos falando por meio de lábios humanos. [50]

Portanto, o pregador não pode se esquecer do grande peso que carrega em seus ombros. Ele deve ser fiel à Palavra do Senhor para que ele seja a própria voz de Deus. Ele não é apenas um orador, mas é um mensageiro de Deus. Ele não pode simplesmente estar preocupado em agradar pessoas, mas preocupado em agradar aquele que envia a mensagem ao seu povo. 

Uma última observação deve ser feita sobre a pregação expositiva. Afinal, até essa forma de pregação tem causado certa confusão nos pregadores. A função da exegese na pregação é apenas para “oferecer uma boa base para descobrir o sentido do texto”.[51] Mas, a exegese não deve ser apresentada em um sermão. Com essa preocupação em mente Thomas explica que a pregação deve sempre ser feita de maneira didática. Em seu artigo sobre pregação expositiva ele mostra que a pregação expositiva não é um comentário exegético sobre um determinado texto.[52]

Se o primeiro dever de um pastor é ser instruído no conhecimento da sã doutrina, e o segundo é reter sua confissão com firmeza e inusitada coragem, o terceiro é que adapte o método do ensino visando a produzir edificação, e não divague, movido pela ambição, por entre as sutilezas da curiosidade frívola; mas, ao contrário, que busque tão-somente o sólido avanço da Igreja. [53]

Se a mensagem vem carregada de informações complexas o pregador não está atingindo o objetivo da pregação. Mas, o pregador deve aprender a selecionar bem o conteúdo e apresentar a mensagem de maneira que até o mais simples consiga entender e ser edificado.

Continua nos próximos dias...

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Notas:
[28] ELLSWORTH, Roger. Pregue a Palavra. In: ASCOL (Ed.). Amado Timóteo. São José dos Campos: Fiel, 2005. Cap.15. p. 236.
[29] Ibid. p. 22.
[30] ROBINSON. Pregação Bíblica. p. 20
[31] CALVINO, João. As Institutas. 2ª ed. São Paulo: CEP, 2006. (Vol. 4). IV.8.6.
[32] CALVINO, João. As Pastorais: 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemon: Comentário à sagrada escritura. Tradução de MARTINS. São Paulo: Edições Paracletos, 1998. p. 313.
[33] CALVINO. As Institutas. IV.1.5.
[34] MOHLER, R. Albert; Jr. Pregar com a cultura em mente. In: A pregação da cruz. São Paulo: CEP, 2010. Cap.3. p. 64.
[35] MacARTHUR, John. El mandato de la infalibilidade biblica. In: MacARTHUR (Ed.). El redescubrimiento de la predicacion expositiva. Nashiville, Tenn.: Caribe, 1996. Cap.2. p. 41.
[36] ROBINSON. Pregação Bíblica. p. 22.
[37] DUNCAN III, J. Ligon. Pregar Cristo a Partir do Antigo Testamento. In: DEVER (Ed.). A Pregação da Cruz. São Paulo: CEP, 2010. p. 37,38.
[38] LLOYD-JONES, David Martyn. A Pregação. São Paulo: PES, [19--]. p.
[39] LLOYD-JONES, David Martyn. Pregação & pregadores. 2ª ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 1986. p. 48.
[40] MOHLER. A primazia da pregação. p. 17.
[41] OLIVETTI, Odayr. O púlpito e a interpretação da Bíblia. In: PIERATT (Ed.). Chamado para servir. São Paulo: Vida Nova, 1994. Cap.16. p. 253-266. p. 259.
[42] MacARTHUR. El mandato de la infalibilidade biblica. p. 41.
[43] Ibid. p. 42.
[44] MOHLER, R. Albert; Jr. Deus não está em silêncio. São José dos Campos: Fiel, 2011. p. 72.
[45] SHEDD, Russell Philip. Palavra viva. São Paulo: Vida Nova, 2000. p.13
[46] Ibid. p. 56.
[47] ANGLADA, Paulo R. B. Introdução à Pregação Reformada. Ananindeua: Knox Publicações, 2005. p. 60.
[48] ANGLADA, Paulo R. B. Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação, http://geocities.com/arpav/biblioteca/voxdei.html. 19 de agosto, 2008.
[49] CALVINO. As Institutas. IV.1.5.
[50] CALVINO, João. Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998. 75.
[51] SHEDD. Palavra viva. p. 67
[52] THOMAS, Derek. A pregação Expositiva: Mantendo os olhos no texto. In: MOHLER, BOICE, THOMAS and BEEKE (Ed.). Apascenta o meu rebanho. São Paulo: CEP, 2009. p. 52
[53] CALVINO. As Pastorais: 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemon. p. 313-314.

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Divulgação: Bereianos

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