0 Carta aos Jovens Não Convertidos

.


Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha tem uma importante mensagem para os jovens que ainda não são convertidos. Assista:




Transcrição:

Seja você quem for que se proponha a ler esta carta, faça isso em caráter de urgência, esperando que o Deus Eterno desperte sua consciência adormecida pelo engano do pecado para a realidade da vida que há em Deus. Tudo o que aqui está registrado tem a ver com o seu futuro eterno. O Deus dos céus nos constituiu ministros da Palavra e nos deu a responsabilidade de conclamar os pecadores ao arrependimento, na esperança de que os mesmos se convertam dos seus maus caminhos e recebam a vida eterna em Cristo Jesus.

Você tem apenas uma breve vida, que logo passará, portanto, imploro que reserve o tempo que ainda lhe resta para refletir seriamente nas palavras que se seguem. E quando seus dias findarem por aqui elas certamente o acompanharão por todas as eras da eternidade. 

Jovem, estou extremamente preocupado e deveras angustiado por você. Minha aflição aumenta ainda mais à medida que percebo que você não se importa com o futuro eterno de sua alma. Perturba-me pensar que em troca de fugazes prazeres, você tem rejeitado o precioso evangelho da cruz de Cristo. Você trocou tão estimado tesouro por uma curta vida de deleites mundanos, e com isso está desperdiçando o escasso tempo que lhe resta para preparar-se para a eternidade.

Jovem, lamentavelmente você demonstra que não sabe o que está fazendo de sua vida. Se você soubesse quem é o Deus a quem tu tens enojado e ofendido, você certamente se arrependeria da maldade de viver em inimizade contra Ele. Ele criou você e te deu a oportunidade de existir no chão deste planeta. Mas, de que maneira você o agradece? Como dizia um velho pregador, como “um monstro que tem a cabeça e o coração no lugar dos pés, e este esperneando contra o céu - tudo fora do lugar.”[1]  

E o pior de tudo é que você tem se mostrado um pecador contumaz e descuidado. Embora tenha sido criado por Deus, vive como filho do diabo. Embora tenha recebido a vida e todos os privilégios de cidadão do cosmo, sua resposta vem em forma de transgressão deliberada da Lei de Deus. 

Jovem, considere o que você está fazendo, desprezando e zombando do glorioso e terrível Deus dos céus. Ele é fogo consumidor! Ele tem grande aversão pelo teu pecado. Diante Dele o sol escurece. Diante dele os anjos rebeldes não prevaleceram, antes foram precipitados em cadeias eternas para o juízo do grande dia.[2]

Portanto, tome cuidado para que sua alma não se torne tão perversa a ponto de não perceber quão maligno é o pecado. Lembre-se que além de uma vida amarga que o pecado vai te dar aqui na terra, a morte e o julgamento estão à sua espera, prontos para lança-lo na destruição.  

Jovem, esse estilo de vida que você leva hoje não satisfará sua alma imortal. Você foi criado para encontrar descanso em Deus. Mas, você vive aprisionado em um poço de vaidades, de bar em bar, de mesa em mesa, de pecado em pecado, embriagado com o veneno da serpente, tentando resolver o drama do seu desencontro nas coisas desta vida. E assim você despreza o precioso sangue de um Redentor tão amável! Você desvaloriza a glória celestial e dança à beira do grande abismo.

Por isso, temo e muito que você chegue à tamanha dureza de coração que nada além da morte interrompa seu sono. Temo que você se apegue tanto a este mundo inútil que nada além da ira de Deus possa separá-lo dele. 

Aproxima-se o dia, o dia em que você terá que partir para prestar contas das suas impiedades. Então, não esqueça que, por mais forte que você seja agora, você em breve irá partir para a eternidade.  Seu tempo é curto! Seus dias são como a erva. Suas conquistas são como a flor da erva, efêmeras, voláteis, como um conto ligeiro. A qualquer momento sua saúde pode lhe ser tirada e a morte pode lhe dar o último golpe.

Reflita sobre essas coisas. Ouça o conselho dos santos de Deus. Procure estudar sobre quem é o SENHOR. Estude sobre a malignidade do pecado. Estude sobre Cristo e Sua obra consumada. Estude sobre o que é o mundo; estudo sobre o inferno e veja o terrível juízo reservado para os não convertidos. Estude sobre a glória eterna que você terá, caso você se arrependa... 

Lembre-se que no dia em que você partir daqui, seus amigos, seus estudos, seus deleites não responderão por você no grande tribunal. Naquele dia somente um amigo poderá falar por você: JESUS DE NAZARÉ e, isso se você estiver do lado dele: bem aventurados todos os que Nele se refugiam. Mas, caso você seja encontrado como Seu inimigo, saiba que Sua santa ira urrará estrondosamente contra você. 

Ah! Aquele dia! Será um dia terrível, assustador e desesperador para todos os que rejeitaram o evangelho. A consciência acusará, a memória dará amargas provas. E ali todos saberão quão terrível é a ira de Jeová e, quão maligno é o ato de rejeitar Seu precioso Filho. Será um dia de desolação e completa ruína. Não haverá amigos e consolos, mas somente um terrível senso de abandono de Deus. E nestas circunstancias você certamente irá lamentar e dizer: 

Ah! Senhor! Tantas vezes fui advertido deste doloroso dia pelos pregadores da Palavra de Deus, e qual foi minha reação? Eu zombei! Eu os ridicularizei! Que proveito agora tenho de todos os encantos do pecado? Que proveito tenho agora de tantos amigos e amantes que tive sobre a terra? Em que deu o gostoso sabor de todos os meus deliciosos manjares que adquiri em troca do evangelho de Jesus Cristo? Tantas vezes me ofereceram a misericórdia e, eu a negligenciei, preferindo os prazeres transitórios do pecado.[3]

Ah! Meu amigo, esse será o seu lamento! E sabe, não haverá mais possibilidade de arrependimento. Nesta hora restará apenas trevas e condenação. 

Jovem, eu ainda tenho a esperança de que tal coisa não aconteça com você! Hoje é o dia de você deixar a vida louca de lado! Hoje é o dia de você volte-se para Deus. Então, pela graça de Deus, decida ler as Escrituras todos os dias da tua vida; decida gastar tempo ouvindo bons sermões, recebendo a Ceia do Senhor, chorando por seus pecados, jejuando, vigiando, orando e preparando a sua alma para a eternidade! 

Recomece sua vida, agora mesmo! Despreze o mundo e suas vaidades! Viva de forma pura e comprometida com os valores do reino. Frequente uma igreja verdadeiramente evangélica. Procure ter comunhão com os santos e santifique o Dia do Senhor! E se, porventura, Satanás te oferecer todos os tesouros e promoções deste mundo; se ele te sugerir que os encantos desta vida são preciosos demais para serem menosprezados, jamais esqueça que no fim definitivo você terá que responder por cada ato de maldade que você decidiu praticar contra o precioso Deus dos céus.

Jovem, agora olhe para o passado de sua vida. Veja o que você fez até aqui, além de acumular pecado e mais pecado para tua própria destruição. Você está com seus olhos fixos neste mundo e precisa mudar esta perspectiva. Oh! Pecador! acorda! Levanta ó tu que dormes e comece a olhar para a eternidade! Lembre-se que em pouco tempo, com dinheiro ou sem dinheiro, você estará do outro lado da vida e, precisará de uma justiça perfeita para apresentar-se diante do terrível juiz. 

Qual será teu destino? Qual será tua sorte se fores encontrados sem essa justiça? Jesus diz que o teu futuro será terrível: “E irão estes para o castigo eterno”.[4] E nesta condição você permanecerá por todas as infindáveis eras da eternidade. 

Então, jovem, acorda para a realidade! Você está a caminho do tribunal do grande Deus. E enquanto caminhas para lá a justiça santa te ameaça. Se, porventura, você partir sem estar reconciliado com o único Deus Verdadeiro, seu estado será de ruína absoluta em meio aos demônios do inferno, longe do olhar gracioso de Deus. 

O grande rei Davi falou desse dia como o “dia da Sua ira.”[5] Esse é o dia que te espera, pecador rebelde! Será terrível! Será o dia da vingança de Deus. Será o dia que Ele reservou para vindicar a glória da Sua majestade. E se você não for reconciliado com Ele agora mesmo, através da Cruz, você terá que sofrer todas as terríveis consequências de tamanha rebelião. Então, a fim de que você não seja vomitado e condenado a um castigo de proporções infinitas, considere, com muita seriedade, o que significa partir para o outro mundo.

Você está preparado? Você já foi reconciliado? Você está em um estado de pecado? Se você se encontra nessa última situação, está descendo a passos largos ao inferno! Você é um inimigo de Deus e usa todas as suas posses e prazeres contra Ele. Não seria, então, justo se Ele te amaldiçoasse nessas coisas, e as revertesse contra você, para a sua destruição? 

Jovem, ainda há esperança! Se você é um desviado da fé, filho de pais crentes lembre-se de onde você caiu e volte-se para o Senhor. Considere no que diz Charles Spurgeon, “que ninguém pode entrar no inferno com uma pior desgraça do que o homem que vai para lá com as gotas de lágrimas de sua mãe sobre sua cabeça, e com as orações de seu pai seguindo seus calcanhares.”[6]

A esperança do Evangelho ordena que você fuja do inferno! Se você é um ser humano e não um bloco de pedras sem sentimentos, reflita. Veja onde você está: à beira do precipício. Tão certo como o Senhor vive, há apenas um passo entre você e a destruição. 

Portanto, eu te ordeno agora, em nome do Senhor Jesus que você acorde e fuja da ira vindoura. Desperte! Desperte! Levante-se e fuja. Pense nas riquezas da graça de Deus. Volte-se para a Cruz de Cristo, afim de que teus pecados todos sejam perdoados. 

Venha, trêmulo pecador! Lembre-se que há somente uma porta e há somente um monte, portanto, corra para esta porta, corra para este monte, aos pés daquele que bebeu o cálice amargo da ira de Deus. Ele é a única esperança da nossa vida. Ele é a única esperança de qualquer transgressor deliberado da Lei de Deus. 

Saiba que na casa do Pai há comida simples, pão e vinho com fartura ... se você se arrepender Ele promete perdoar todos os teus pecados e te receber como um herdeiro eterno do reino de nosso Senhor Jesus Cristo. 

Porém, se após ter lido estas palavras, você ainda permanecer no estado em que se encontra, tenho apenas a lhe dizer, que você será seu próprio assassino.[7]

Jovem! Arrependa-se e creia no evangelho. 

Seu amigo,

Dorisvan Cunha 

______________
Notas:
[1] Joseph Aleyne
[2] Judas 6
[3] Parafraseando Lewis Bayly, em “A prática da Piedade, p.86”
[4] Mateus 25
[5] Salmo 110. 5-7
[6] No sermão “O céu e o inferno”.
[7] Uma paráfrase de Charles Spurgeon: “Que cada homem se lembre, que se ele perecer, depois de ter ouvido o Evangelho, ele será seu próprio assassino.” 

***
Fonte: Guerra Pela Verdade
.

0 Como devem ser os nossos relacionamentos

.


Texto base: 1 Pedro 3.8-12

INTRODUÇÃO

Pedro escreveu sobre como deve ser o relacionamento dos cristãos com as autoridades seculares, as quais foram nomeadas por Deus para reger as nações (2.13-17); como deve ser a postura deles com os patrões, baseando-se no exemplo de Cristo como a maior motivação (2.18-25); e, finalmente, como deve ser o relacionamento entre marido e mulher no casamento (3.1-7). O apóstolo ensina que a submissão deve nortear todos estes relacionamentos.

Agora, nesta nova seção, Pedro traça um resumo de tudo o que ensinou anteriormente. Ele reitera algumas lições preciosas que considera essencial, porém através de uma nova perspectiva. Pedro aduz conselhos práticos que devem governar o relacionamento dos cristãos entre si. O apóstolo discorre sobre como deve ser a postura dos cristãos entre eles e entre os que não são cristãos (3.8-12). Para isso, ele descreve uma lista de cinco virtudes que devem ser observadas (vs.8).

O esboço analítico desta seção pode ser dividido em quatro partes:
            
1. A postura dos cristãos perante os irmãos na fé (3.8); 2. A postura dos cristãos perante os seus opositores (3.9); 3. A postura dos cristãos diante da vida (3.10-11); 4. O contraste entre os justos e aqueles que fazem o mal (3.12).

EXPLANAÇÃO

1. A POSTURA DOS CRISTÃOS PERANTE OS IRMÃOS NA FÉ (3.8)

A palavra finalmente ainda não conclui o assunto discorrido anteriormente, mas introduz um resumo dos imperativos (exortações) salientados no capítulo 2.11, os quais se estendem até o capítulo 3.7. Pedro já se dirigiu a várias classes de pessoas, como servos, esposas e maridos. Agora, no ápice de sua argumentação, ele dirige-se a todos os cristãos.

Logo, a palavra finalmente possui o sentido de “resumo” e também introduz um novo assunto. Assim como toda a Lei se resume no amor (Rm 13.8-10), da mesma forma os relacionamentos interpessoais se cumprem no amor. Este princípio aplica-se aos cristãos em todas as esferas da vida. Portanto, quais são as atitudes que os cristãos precisam manifestar uns para com os outros? Pedro lista cinco adjetivos que devem caracterizar o relacionamento dos cristãos entre eles. Senão vejamos:

a) Os cristãos devem demonstrar unidade no pensamento (vs.8a)

Pedro admoesta os cristãos a pensarem da mesma forma. O termo igual ânimo ομόφρονες (homofrones), no grego, significa “pensar a mesma coisa”, “ter a mesma opinião”; expressa “unanimidade” (At 4.32; Fp 2.2). Com isso, Pedro orienta os cristãos a pensarem da mesma forma em todos os aspectos? Não, exatamente. Deus, por meio do teu Espírito, concedeu uma variedade de dons ao seu povo. Existe também uma variedade de opiniões entre a igreja, a qual é constituída de indivíduos que pensam diferente uns dos outros em muitas coisas. Pedro, todavia, não exclui a individualidade de cada um, antes, exorta que os cristãos sejam regidos pela Palavra de Deus, de modo que as diferenças pessoais não causem divisão, mas que seja um complemento para a igreja (veja Rm 12.16; 15.5).

Pedro está dizendo que os cristãos devem ter a mesma convicção nas coisas fundamentais, como nas doutrinas centrais da fé cristã, por exemplo. Nas coisas não essenciais, pode haver divergências de opinião, mas em todas estas coisas, não pode deixar de haver o amor. Warren Wiersbe corrobora que unidade não é o mesmo que uniformidade; unidade é cooperação em meio à diversidade. Apesar de diferentes, as partes do corpo trabalham juntas em unidade.  Os cristãos podem discordar quanto à forma de certas coisas, mas devem concordar quanto ao conteúdo e a motivação.[1]

APLICAÇÃO PRÁTICA

A igreja não é uma arena de competição onde diáconos, presbíteros e professores disputam quem exerce melhor a sua função! Isto é sinal de carnalidade e imaturidade espiritual. Antes, devemos cooperar uns com os outros através dos diferentes dons para a edificação coletiva da igreja. Não deve haver divisões nem vanglória entre os cristãos. Em face disso, Paulo exortou a igreja de Corinto a terem uma só mente em Cristo Jesus (1Co 1.10). John MacArthur enfatiza que os cristãos devem ser exemplos e promovedores da paz e unidade, e não de divisão e desarmonia.2 Os cristãos devem manter a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.13-14). Esta é, pois, a vontade de Deus!    
  
b) Os cristãos devem esboçar compaixão (vs.8b)

A palavra compadecidos traz a ideia de “sentir a dor com”. É sentir as dores do outro como se fosse a própria dor! É sofrer junto com o outro. “Os cristãos devem demonstrar sua preocupação e interesse pelo próximo, especialmente em tempos de alegria e tristeza. Devem alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15; 1Co 12.26)”.[3]

APLICAÇÃO PRÁTICA

Devido a ausência do amor fraternal, muitos cristãos negligenciam a compaixão pelos outros. São cristãos extremamente individuais, indiferentes ao sofrimento de outrem! Estão mais preocupados com suas próprias vidas do que em saber como está a vida dos seus irmãos na fé. Cada cristão tem a sua vida individual, mas não deve esquecer também da sua vida social como igreja. Ele deve pensar em como servir e ajudar cada irmão em suas necessidades. Isso é demostrar compaixão! 
         
c) Os cristãos devem amar fraternalmente uns aos outros como amigos (vs.8c)

No grego, a expressão fraternalmente amigos φιλάδελφοι (filadelfoi), saleinta o “amor entre os irmãos”. Pedro já havia ressaltado a importância dos cristãos amarem-se uns aos outros (1.22).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Uma das marcas do verdadeiro cristão é o amor pelos irmãos. O amor não é a causa da salvação, mas a sua evidência. O amor é comprovado por atos. Palavras de amor devem resultar em atos de amor. Amar é ceder talentos, posses, recursos financeiros e a si mesmo pelos outros. Devemos amar os nossos irmãos na fé profundamente, tendo como exemplo o amor de Cristo por nós. Acerca disso, Hernandes Dias Lopes escreve:
       
O amor de Cristo é o nosso supremo exemplo. Assim como ele deu a sua vida por nós, devemos dar a nossa vida pelos irmãos.  Obviamente não podemos dar a nossa vida como Cristo a deu. Cristo deu a sua vida por nós vicariamente. Nesse sentido não podemos imitar a Cristo. Porém, podemos dar a nossa vida pelos irmãos em termos de serviço e cuidado. [...] O amor não é o que falamos, mas o que fazemos. O amor não é tanto uma questão de sentimento, mas de movimento, e movimento em direção do necessitado. Amamos não com discursos eloquentes, regados de emoção, mas com ações práticas para aliviar a dor do irmão e socorrê-lo em suas necessidades (1Jo 3.18).[4] 
  
d) Os cristãos devem ser misericordiosos (vs.8d)

O termo misericordiosos retrata um sentimento interior que parece “vir das entranhas ou do intestino” e resulta em ações exteriores. Misericórdia é fazer algo que não deveria ser feito. É demonstrar compaixão pela miséria de outrem. É prestar auxílio de coração a alguém que sofre, mas que não merece.

APLICAÇÃO PRÁTICA

Deus manifestou a sua graça e misericórdia aos pecadores que elegeu para a salvação enviando Cristo Jesus para morrer em favor deles. Merecíamos a condenação eterna, mas recebemos a misericórdia de Deus! Portanto, como imitadores de Cristo, precisamos ser misericordiosos com os outros, mesmo que não mereçam receber misericórdia (Cl 3.12).
            
e) Os cristãos devem ser humildes (vs.8e)

A humildade é uma virtude que foi ensinada e demostrada na vida prática por Jesus. O maior exemplo disso foi quando Ele lavou os pés dos seus discípulos (Jo 13.4.17). “Jesus deu o exemplo de serviço abnegado mostrando-se pronto a ser o menor na companhia de seus discípulos e a ser o servo de todos eles”.[5] Na sociedade ímpia, ser humilde denota fraqueza e inferioridade! No reino de Deus, porém, é o contrário. Ser humilde não é ser fraco e inferior, mas considerar-se como tal (Rm 12.13). Ser o primeiro no reino de Deus é ser o servo de todos (Mc 10.44-45); o maior é o servo de todos (Mt 23.11; Ef 4.2; 5.5).   

2. A POSTURA DOS CRISTÃOS PERANTE OS SEUS OPOSITORES (3.9)

Tendo instruído os cristãos sobre como deve ser o relacionamento fraternal, isto é, o relacionamento dos irmãos na fé (vs.8), Pedro, agora, passa das relações internas (com os cristãos) para as relações externas (com os não cristãos). Ele esboça a postura que os cristãos devem manifestar para com aqueles que fazem o mal contra eles. Retornando ao pensamento do capítulo 2.23, onde escreveu sobre a reação de Jesus quando foi maltratado por aqueles que o rejeitaram e o crucificaram, Pedro, aqui, enfatiza duas atitudes que os cristãos devem ter quando também forem maltratados. Sendo assim, como deve ser a conduta dos cristãos diante dos seus algozes? Quais as duas atitudes que eles devem demonstrar para com aqueles que os maltratam?

a) Quando forem maltratados e ofendidos, os cristãos devem manifestar uma atitude passiva (vs.9a)

Pedro exorta os cristãos a não retribuírem o mal e a ofensa que receberem da mesma forma. Os primeiros leitores de Pedro estavam dispersos em algumas regiões da Ásia Menor (1.1). Eram severamente perseguidos por serem cristãos. Sofriam males físicos, materiais e morais. Não eram bem vistos pela sociedade e sofriam preconceito. Em vez de retribuírem todo o mal e a ofensa que receberam na mesma moeda, por mais tentador que fosse – estes cristãos primitivos deveriam manter uma reação passiva em face do sofrimento. Pedro indica que os seus destinatários poderiam ficar tentados a corresponder o mal e as ofensas que recebiam. Assim, ele ensina que a retaliação não é uma atitude cristã. Estes cristãos deveriam seguir o exemplo de Cristo no sofrimento (2.21-23) e observar os preceitos do Evangelho sobre a retaliação. Paulo escreveu em 1 Tessalonicenses 5.15 que os cristãos devem evitar retribuir o mal que receberam dos outros com o mal. Em Romanos 12.17 ele corrobora que não devemos pagar o mal com o mal.

b) Quando forem maltratados e ofendidos, os cristãos devem manifestar uma atitude ativa (vs.9b)

Ao invés de retribuírem o mal com o mal e a ofensa com ofensa, os cristãos devem bendizer os seus inimigos. A expressão antes, pelo contrário, enfatiza uma categórica rejeição de uma atitude por outra. Nesta rejeição poderia estar incluso o falar mal dos outros (2.1), que é algo que os ímpios falam acerca dos cristãos (2.12) ou, então, os cristãos falarem bem dos que os maldizem.  

Porém, a ênfase encontra-se na reação ativa de “bendizer” ou “abençoar” enquanto caluniado, que significa mais do que não falar mal ou falar bem. Bendizer denota “que oramos por nossos inimigos, somos gentis para com eles em palavras e ações e buscamos promover o seu bem-estar”.[6] Jesus ensinou no sermão que pregou no monte que devemos amar e orar pelos que nos perseguem (Mt 5.44). Em Lucas 6.28, Ele também ensinou que devemos bendizer os que nos maldizem e orar por aqueles que nos caluniam. Paulo ratifica em 1 Coríntios 4.12b que, quando somos insultados, devemos bendizer.

APLICAÇÃO PRÁTICA

Retribuir o bem com o mal é perversidade; retribuir o bem com o bem ou o mal com o mal é justiça; mas retribuir o mal com o bem é graça.[7]  

c) A herança celestial (vs.9b)

A expressão pois para isto mesmo fostes chamados pode se referir ao chamado dos cristãos para bendizer [ou abençoar] os seus inimigos ou para receber a benção por herança. É difícil saber com exatidão o que Pedro tinha em mente. As duas interpretações são possíveis. Talvez Pedro quisesse abarcar os dois chamados, ou seja, os cristãos foram chamados para abençoar os opositores da fé e para receberem a herança celestial.

A benção por herança indica um alvo. O cristão não se empenha para ganhar a benção, mas a recebe por herança, afirma Pedro. O conceito de herança já foi abordado por Pedro (1.4; 3.7) e remonta ao tempo dos patriarcas. Isaque, por exemplo, abençoou seus filhos e lhes deu a terra como herança (veja Gn 27.27-39,39-40). Não se trabalha para receber uma herança; ela é um presente. A palavra benção enfatiza “a salvação futura de Deus, porém não apenas isso. Desde já os cristãos constantemente encontram-se sob a dedicação abençoadora de Deus. Herdar ou “ser herdeiro” declara que a bênção de Deus não é mero desejo, mas riqueza real”.[8]   

3. A POSTURA DOS CRISTÃOS DIANTE DA VIDA (3.10-11)

Para os cristãos experimentarem uma vida feliz em Deus (vs.10a), alguns imperativos precisam ser observados. Pedro enumera quatro conselhos práticos. Os dois primeiros são negativos – “o que os cristãos não devem fazer”. O terceiro é, ao mesmo tempo, um conselho negativo e positivo – “o que os cristãos não devem fazer” e “o que devem fazer”. Finalmente, o último é positivo – “o que os cristãos devem fazer”.

Com o intuito de fortalecer seus conselhos, Pedro recorre ao Antigo Testamento, citando, nesta perícope, o Salmo 34.12-16. Ele já havia feito alusão ao versículo 9 desse mesmo Salmo no capítulo 2.9. “A diferença nas palavras entre a citação e o Salmo 34 podem ser pelo fato de o salmo ser usado na igreja primitiva. Pedro introduz as palavras de sua citação com o termo pois para dizer aos leitores que a Palavra de Deus tem autoridade”.[9]

Senão vejamos os cinco conselhos práticos que o apóstolo aduz:

a) Os cristãos não devem usar a língua para fazer o mal (vs.11b)

O termo mal, na citação do salmo, refere-se à palavra falada. Com isto, Pedro reforça a exortação anterior para não pagar o mal com o mal (vs.9). A língua é um órgão do qual emana palavras boas e más. O que dizemos pode causar efeitos positivos e negativos para nós e para os outros. O mau uso da língua faz parte do catálogo de pecados que deve ser rejeitado pelos cristãos (2.1).

Em sua carta, no capítulo 3.5-8, Tiago apresenta duas analogias para descrever a natureza da língua. Primeiro, ela é como “fogo destruidor” (vs.5-6); segundo, ela contém veneno mortífero semelhante ao de uma cobra peçonhenta que pode “matar” quem for atacado por ela (vs.8).   

Provérbio 18.21 ressalta: A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto. Este provérbio ensina que devemos ser cautelosos no falar demonstrando os efeitos benéficos e prejudiciais de cada palavra proferida. Devemos nos precaver de que nossas palavras não nos conduzam a situações embaraçosas. Temos que saber como dizer as coisas, pois certamente iremos colher situações causadas por nós mesmos (veja Pv 13.3).   
      
b) Os cristãos não devem falar ardilosamente (vs.11c)

Este outro pecado da fala que também deve ser rejeitado complementa o anterior. A expressão falar dolosamente significa “não falar a verdade”, mentir; traz a ideia de “falar com o intuito de enganar outrem”. O mal que Pedro destaca aqui é especificamente o “engano”. Falar de maneira ardilosa é esconder atrás de palavras doces uma intenção perversa! É alguém que diz uma coisa, mas sente outra.

É bajular alguém pela frente e, pelas costas, apunhalá-la de forma traiçoeira! A língua do cristão não deve ser uma promotora de maldade e engano; pelo contrário, deve ser um instrumento que glorifica o nome de Cristo e que edifica os irmãos na fé com boas palavras. 
       
c) Os cristãos devem se afastar do mal e fazer o bem (vs.11d)

Pedro menciona novamente a palavra mal, dessa vez em paralelo com a palavra bem. Ele exorta negativamente os cristãos a rejeitarem toda forma de mal praticada [ação] e falada [palavra] (vs.9a-10b). Em seguida, exorta positivamente os cristãos a fazerem o bem. Somente quem despreza e se afasta do mal consegue ter boas ações e boas palavras (Sl 37.27; 3Jo 11).
      
d) Os cristãos devem buscar a paz com diligência (vs.11e)

Os termos buscar e empenhar-se são ativos. Denotam intensidade. Buscar a paz com empenho significa “persegui-la, correr atrás a qualquer custo” (veja Mt 5.9; Rm 12.18; 2Co 13.11; 1Ts 5.13; Hb 12.14). Quem retribuí o mal com o mal, ofensa com ofensa, não refreia língua do mal, fala ardilosamente e não se aparta do mal, aprofunda a inimizade com os outros. Por outro lado, quem abençoa os outros divulga a paz.

Holmer afirma que não somos dados à paz. Ela se encontra sob risco permanente. Temos de buscá-la sinceramente, correr atrás dela. Talvez o semelhante, ou até mesmo o adversário, tornem difícil que preservemos a paz, ainda que a busquemos sinceramente.[10] Warren Wiersbe complementa, dizendo que não se trata de uma política de "paz a qualquer preço", pois a paz deve sempre ser baseada na justiça (Tg 3.13-18). Significa apenas que o cristão deve usar de moderação ao se relacionar com as pessoas e não criar problemas só porque deseja que as coisas sejam feitas a sua maneira.[11]

4. O CONTRASTE ENTRE OS JUSTOS E AQUELES QUE FAZEM O MAL (3.12)

O versículo 12 estabelece as exortações precedentes com maior nitidez. O trecho do Salmo 34 que Pedro cita, no contexto, destaca um contraste e uma advertência para os justos e os maus. Para os justos, o apóstolo tece uma advertência positiva, e para os maldosos uma advertência negativa.

Pedro salienta que os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos às suas súplicas, porém, o seu rosto está contra aqueles que praticam males.

Esta expressão retirada do Salmo 34 atribui partes humanas a Deus. Todavia, Deus é espírito; espírito não possui forma corpórea. Se atribuirmos qualquer forma humana a Deus, estaremos negando sua natureza espiritual que lhe é peculiar. Se Deus fosse um ser corpóreo, Ele não poderia ser infinito, imutável, onipresente, independente, etc. As várias passagens na Escritura que enfatizam Deus como tendo partes humanas são antropomórficas, isto é, uma figura de linguagem. Deus, pela sua graça e misericórdia, decidiu revelar-se aos homens através de formas pertecentes ao “mundo” para que estes pudessem compreendê-lo.

Calvino denomina o modo de Deus se revelar aos homens de “acomodação” ou “adaptação”. Em outras palavras, para se revelar e se tornar conhecido, Deus se adaptou à nossa capacidade. Vemos isso nas Escrituras, na encarnação de Jesus, nos sacramentos e na pregação. Senão vejamos as duas advertências enunciadas:

a) Os privilégios dos cristãos diante de Deus (vs.12a)

i. Recebem o favor e o cuidado de Deus

A expressão os olhos do Senhor repousam sobre os justos revela o zelo de Deus pelos cristãos. Ele protege o seu povo como um vigia que cuida de um patrimônio muito valioso. O Salmo 121 retrata esta sublime verdade! A proteção do Senhor repousa incessantemente sobre os cristãos.  O termo justos, no Novo Testamento, refere-se aos que foram justificados pela fé em Cristo Jesus. São aqueles que obtiveram o perdão de seus pecados e que agora “vivem para a justiça” (2.24).

ii. As orações são respondidas

A palavra clamor, no contexto do Salmo 34, indica, como em outros contextos do Novo Testamento, “petições” a Deus por alguma necessidade, como livramentos de males e dos inimigos, cura de enfermidade, provisão financeira, restauração do casamento, etc. No hebraico, a palavra transmite a ideia de “um clamor intenso”. Apesar de Pedro utilizar a palavra grega δέησιν (deisin), traduzida como súplica pela ARA, o sentido é o mesmo que no Salmo 34.

Deus ouve e responde as orações dos cristãos. Nenhuma delas passa despercebida diante de Deus, embora as adversidades que enfrentamos nos fazem querer pensar o contrário. No entanto, nada escapa do conhecimento exaustivo de Deus! Ele vê e ouve tudo! Mesmo que nossas orações não sejam respondidas da forma que pedimos, Deus as responde de acordo com a sua vontade e da melhor forma para nós! Nem sempre a nossa vontade é a vontade de Deus, mas a vontade Deus é indubitavelmente melhor que a nossa vontade!  
         
b) Deus é contra aqueles que fazem o mal (vs.12b)

A expressão mas o rosto do Senhor está contra os que praticam males evidencia a oposição ativa de Deus contra estas pessoas. Deus se obsta aos malfeitores! O rosto do Senhor era algo extremamente temível para um judeu. Ver a face de Deus era ser fulminado pela sua glória, pois ninguém resiste a Sua santidade (Gn 32.30; Jz 13.22; Is 6.5). Portanto, a expressão em voga denota o inevitável julgamento de Deus sobre os que fazem o mal (Ap 20.11-15).

Atos 12 relata que Herodes ordenou a prisão de Pedro. Ele tencionava, depois da páscoa, apresentar Pedro aos judeus para que requeressem a sua morte. Herodes queria executá-lo. Enquanto isso, a igreja orava pela libertação do apóstolo. Deus, então, responde a oração da igreja e envia um anjo para libertar Pedro e matar Herodes. Os olhos de Deus estavam fixos em Pedro e os seus ouvidos abertos às súplicas da igreja, mas o rosto do Senhor estava contra o maldoso Herodes. 

É interessante observar que “Pedro não está interessado em explicar o que Deus faz com seus adversários. Na verdade, ele não termina a citação do Salmo 34.16, que descreve o fim dos adversários de Deus. Seu desejo é dar ao malfeitor tempo e oportunidade para que ele se arrependa e estabeleça um relacionamento vivo com Deus”.[12]

CONCLUSÃO

É imperativo haver nos relacionamentos fraternais unanimidade no pensamento sobre as doutrinas centrais da fé e a prática delas, compaixão, amor sincero e amizades profundas, misericórdia e humildade. Não devemos retribuir o mal e a ofensa dos descrentes contra nós da mesma forma; antes, devemos abençoá-los. Devemos reprimir a nossa língua do mal e da mentira, nos afastar do mal e buscar diligentemente viver em paz com todos, se possível.

_____________
NOTAS:
1. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, volume 2, pág 530.
2. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1734.
3. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 174-175. 
4. Hernandes Dias Lopes. 1,2,3 João, pág 176-178.
5. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 175.
6. Ibid, pág 176.
7. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 119.
8. Uwe Holmer. 1 Pedro, pág 49.
9. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 178.
10. Uwe Holmer. 1 Pedro, pág 49.
11. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, volume 2, pág 532.
12. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 179.

***
Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos
.

0 O Cristo Glorificado Voltará

.


Imagine alguém que trabalhou o dia inteiro, como por exemplo, uma mãe que acordou bem cedo e desde a hora que as crianças saíram para escola ela não parou de trabalhar (e nem pensou em si mesma). Ela fez todo o seu serviço doméstico, além de deixar o café da tarde e também o jantar pronto. E agora, desde a hora que ela acordou, agora que todo o trabalho terminou, ela se senta. Este “sentar” não é um mero descanso, mas ela se sentou porque o trabalho foi concluído.

Quando olhamos para Hebreus 1.3-4 nós vemos a declaração do escritor mostrando que Cristo, após ter feito a purificação dos pecados, assentou-se a destra de Deus. Assim como a ilustração que mostrou uma mãe fazendo o seu trabalho e se sentando como sinal de seu término, da mesma forma Cristo, após cumprir aquilo que o Pai lhe mandou, Ele se assentou à direita de Deus.

É justamente isso que o 19º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg vai nos mostrar:

50. Por que se acrescenta: "e está sentado à direita de Deus"?
R. Porque Cristo subiu ao céu para manifestar-se, lá mesmo, como o Cabeça de sua igreja cristã(1) e para governar tudo em nome de seu Pai (2). 
(1) Ef 1:20-23; Cl 1:18. (2) Mt 28:18; Jo 5:22. 
51. Que importância tem, para nós, essa glória de Cristo, nosso Cabeça?
R. Primeiro: por seu Espírito Santo, Ele derrama sobre nós, seus membros, os dons celestiais (1). Segundo: Ele nos defende e protege, por seu poder, contra todos os inimigos (2). 
(1) At 2:33; Ef 4:8,10-12. (2) Sl 2:9; Sl 110:1,2; Jo 10:28; Ef 4:8; Ap 12:5. 
52. Que consolo traz a você a volta de Cristo "para julgar os vivos e os mortos"?
R. Que, em toda miséria e perseguição, espero, de cabeça erguida, o Juiz que vem do céu, a saber: o Cristo que antes se apresentou em meu lugar ao tribunal de Deus e tirou de mim toda a maldição (1). Ele lançará, na condenação eterna, todos os seus e meus inimigos (2), mas Ele me levará para si mesmo, com todos os eleitos na alegria e glória celestiais (3). 
(1) Lc 21:28; Rm 8:23,24; Fp 3:20; 1Ts 4:16; Tt 2:13. (2) Mt 25:41-43; 2Ts 1:6,8,9. (3) Mt 25:34-36; 2Ts 1:7,10. 

O “assentar” de Cristo não é somente porque Ele concluiu a Sua obra, mas foi também uma demonstração de sua vitória sobre o pecado, a morte e o Diabo. Fazendo que todas as coisas fossem colocadas debaixo de seus pés, tornou-se o cabeça da Igreja (Ef 1.20-23), tendo toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18), como um Rei Soberano. 


Na última pergunta do Dia do Senhor, o Credo confessa que Cristo voltará para “julgar os vivos e os mortos” e que esta certeza nos faz ter consolo em Cristo, mas de que forma? 

Primeiro, o retorno de Cristo é uma demonstração pública da absolvição dos nossos pecados. Pois, outrora nós, filhos da ira, fomos resgatados da nossa vã maneira de viver para uma nova e viva esperança em Cristo Jesus. E assim, a condenação que nós deveríamos receber, Cristo recebe na cruz, se fazendo maldição por nós. Por isso podemos dizer que “espero, de cabeça erguida, o Juiz que vem do céu, a saber: o Cristo que antes se apresentou em meu lugar ao tribunal de Deus e tirou de mim toda a maldição”. 

Segundo, além de Cristo nos livrar da condenação eterna, Cristo nos faz vitorioso com Ele, pois os nossos inimigos serão condenados. No entanto, estes inimigos não são aqueles que odiamos sem uma causa justa (p.e. vizinhos, colegas de trabalho, irmãos da igreja etc.), mas são aqueles que se voltam contra o Evangelho, os inimigos da cruz de Cristo. Mas por que será um consolo para nós, saber que tais pessoas serão lançadas no inferno? Porque, primeiro, Deus é justo e todos aqueles que zombaram d'Ele serão, por Ele mesmo, lançados no inferno, cumprindo inúmeras passagens bíblicas que falam da realidade do inferno. Segundo, é um consolo saber que a fé que Deus nos deu é genuína, uma fé que nos faz crer realmente no sacrifício perfeito de Cristo, pois aqueles que não crêem em Cristo serão lançados eternamente no inferno. E, terceiro, de que valeria o inferno se Cristo tivesse morrido por toda a humanidade? Pois, se Deus derramou a sua ira – a qual era para ter sido derramada sobre mim – sobre Seu único Filho, por que Deus derramaria de novo a Sua ira sobre pecados que o Seu Filho já pagou?

Por fim, a volta de Cristo é um consolo para nós porque habitaremos com Ele para todo sempre em corpo e alma, onde todas as nossas dores, doenças e aflições serão sanadas. E, é claro, nunca mais pecaremos entristecendo o Santo Espirito de Deus. 

No entanto, este consolo indizível será para aqueles que entendem que o único consolo na vida e na morte é que não pertencemos a nós mesmos, mas de corpo e alma pertencemos ao nosso fiel Salvador, Jesus Cristo, e o seu retorno é a nossa bem-aventurada esperança (Tt 2.13).

***
Fonte: Bereianos
.

0 Da necessidade de coerência entre pregação e vida do pregador e a sua incapacidade

.


Introdução

Não há tarefa mais importante para um Ministro do Evangelho do que expor as Sagradas Escrituras, a fim de alimentar o rebanho do Supremo Pastor, o Senhor Jesus Cristo. A tradição cristã reformada entende acertadamente que a fiel pregação é a Vox Dei, a voz de Deus falando ao povo da aliança reunido em assembleia solene no dia do Senhor. A Segunda Confissão Helvética, datada de 1562 e escrita por Heinrich Bullinger, em seu primeiro artigo afirma: “A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”.[i] Tão séria e solene é a tarefa da pregação, que o apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, afirmou: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? [...] E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (10.13-15,17). É pela pregação da Palavra de Deus, como instrumento, que o Espírito Santo regenera o coração do pecador e o traz à fé em Jesus Cristo. Tiago, em sua epístola, afirmou que, segundo o querer de Deus, fomos gerados “pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (1.18).

Dada a magnitude da tarefa da pregação, o presente texto tem o objetivo de refletir, ainda que de maneira superficial, sobre a necessidade de coerência entre a pregação e a vida do pregador, bem como sobre a sua consciente incapacidade de viver o que prega à medida que mais se esforça por ser fiel ao Senhor.

“Você tem de viver aquilo que prega”

Tão grave e séria é a pregação, que a mesma não pode ser efetuada por qualquer um. Não é pregador aquele que, simplesmente, deseja pregar. É preciso ser comissionado e dotado para tal. Dessa perspectiva, como preceitua o Catecismo Maior de Westminster em sua resposta à pergunta 158, “a Palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que têm dons suficientes, e são devidamente aprovados e chamados para o ministério”.[ii] Da perspectiva moral, a pregação deve ser empreendida por aqueles que são conhecidos por sua piedade, seriedade e zelo na vida cristã. Alguém caracterizado por escândalos e por uma vida notadamente desenfreada não deve ser chamado a pregar as Sagradas Escrituras. Há a premente necessidade de que o pregador seja alguém piedoso e sério em seu proceder. Escrevendo ao seu jovem pupilo Timóteo, o apóstolo Paulo afirmou a importância da coerência entre a Palavra pregada e a vida piedosa do pregador: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Timóteo 4.12). Em outra ocasião, Paulo deu o seguinte conselho a Timóteo: “Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o nome do Senhor” (2Timóteo 2.22). Timóteo deveria ter o devido cuidado para que a sua pouca idade não fosse usada como motivo para que a igreja o desprezasse e ao seu ensino. Certamente, abster-se daquelas que caracterizavam as paixões da mocidade o ajudaria, e muito, no cumprimento dessa tarefa. Além disso, o jovem pastor Timóteo tinha o dever de se tornar o “tipo” (τύπος), o padrão, o exemplo dos fiéis. Era necessária a harmonia entre pregação e vida, de modo que Timóteo pudesse se apresentar diante da igreja de Éfeso como um exemplo digno de ser imitado.

O dever do pregador de ser exemplo e de “viver o que prega” é algo que perpassa todas as eras, não se limitando apenas ao primeiro século. Timóteo não era o único a ter de atentar a isso. Todo pregador do evangelho deve andar dessa forma. O Pr. Joel Beeke se expressa nestes termos: “Nossa doutrina deve dirigir nossa vida, e nossa vida deve adornar nossa doutrina. Como pregadores, devemos viver o que pregamos e ensinamos”.[iii] São também pertinentes as afirmações do puritano John Owen e do pastor escocês Robert Murray McCheyne. O primeiro disse o seguinte: “Se um homem ensina corretamente e anda tortuosamente, se prostrará mais na noite de sua vida do que edificará no dia de sua doutrina”.[iv] Já McCheyne enunciou uma das frases mais conhecidas a este respeito: “A vida de um pregador é a vida de seu ministério... Em grande medida, segundo a pureza e perfeições do instrumento, assim será o sucesso. Não é tanto aos grandes talentos que Deus abençoa, quanto à semelhança com Jesus. Um ministro santo é uma terrível arma nas mãos de Deus”.[v]

Inegavelmente, quando um homem ocupa o púlpito e prega uma mensagem eloquente, concatenada, com uma excelente exegese da passagem, mas, sabidamente, tal pregador vive em hipocrisia, isso se constitui num grave pecado. O puritano Richard Baxter afirmou o seguinte sobre aqueles que pregam contra os exatos pecados que cometem: “É triste pormos a nossa igreja a dormir com a nossa prédica, mas é trágico pôr-nos a nós mesmos a dormir. Quão terrível é quando falamos tão longamente contra a dureza de coração dos ouvintes, e, contudo, ficamos endurecidos e surdos ao ruído das nossas próprias repreensões!”[vi] Em outro lugar Baxter diz que os pregadores devem cuidar de si mesmos, uma vez que os seus pecados possuem mais agravantes que os pecados dos outros homens.[vii] Quais são esses agravantes? O próprio Baxter responde:

(1) Você, mais do que os outros, peca contra o conhecimento porque você possui mais do que eles. Pelo menos, você peca contra mais luz, ou contra meios de conhecimento [...] (2) Seus pecados são mais hipócritas que os dos outros homens, por causa de como você fala contra tais pecados [...] (3) Seus pecados são mais traiçoeiros que os dos outros homens, por causa de como você tem engajado a si mesmo contra eles.[viii]

Baxter conclui a sua exortação com os seguintes questionamentos:

Com que frequência você tem proclamado o mal e o perigo do pecado e chamado pecadores a se voltarem dele? Com que frequência você o denunciou contra os terrores do Senhor? Seguramente, tudo isso implica que você o renunciou em si mesmo. Cada sermão que você prega contra ele, cada exortação, cada confissão dele na congregação se estabelecem como um compromisso, feito por você, de renunciá-lo. Cada criança que você batizou, e cada administração da Ceia do Senhor implicam na sua própria renúncia do mundo e da carne, bem como do seu compromisso com Cristo. Quão frequente, e quão abertamente, você testemunhou da natureza odiosa e abominável do pecado? E, ainda assim, você ainda se delicia nele, apesar de todas essas profissões e testemunhos dados por você? Oh! Que traição é fazer um rebuliço contra o pecado no púlpito e, depois de tudo, entretê-lo no coração, e dar-lhe o lugar que é devido a Deus, e ainda preferi-lo em vez da glória dos santos![ix]

“Eu Tento! Mas Não Consigo!”

Não há dúvida ou disputa alguma acerca da enorme necessidade de uma vida piedosa da parte do pregador ou, como se diz, que ele viva o que prega no púlpito. Não obstante, há ainda outra questão que deve ser considerada, que é a incapacidade do pregador de viver com perfeição aquilo que é anunciado por ele no púlpito. É a minha convicção particular que, não importa o quanto o pregador se esforce para viver uma vida piedosa, ele nunca viverá aquilo que prega. Com isso não estou querendo apresentar uma justificativa para que o pregador ou o Ministro do Evangelho deixe de cuidar de si mesmo e de lutar pela sua santificação pregando para si próprio e fazendo o devido uso dos meios de graça que Deus disponibiliza. Como penso já ter deixado claro no início da seção anterior, é imprescindível que hipócritas e homens conhecidos e marcados por maus hábitos sejam mantidos longe do púlpito.

O ponto que desejo salientar diz respeito à convicção que o próprio pregador deve possuir da sua incapacidade e do quanto do pecado interior ele ainda precisa mortificar, a fim de corresponder ao padrão apresentado pelas Sagradas Escrituras. Em minha própria experiência, a preparação de cada sermão é uma experiência extremamente humilhante. Recentemente fiz a exposição do Salmo 1 e ao refletir sobre como o Senhor Jesus Cristo é o homem justo do salmo, de como ele se absteve do pecado, de como ele amou e demonstrou grande zelo pela meditação na Palavra de Deus e de como ele foi como uma árvore frutífera cujo fruto produzido foi inteiramente do agrado do Pai, a minha oração foi “Senhor, tenha misericórdia de mim!” Ao expor Efésios 5.22-33 e observar o amor sacrificial de Jesus pela Igreja e a obrigação correspondente do marido de amar a sua esposa, minha reação é unicamente suspirar diante do Senhor, expressando o meu anelo de que ele me ajude nessa tarefa.

Recentemente me deparei com a expressão do mesmo sentimento por parte do Dr. R. C. Sproul. Falando sobre a experiência do profeta Isaías ao ver o Senhor assentado em seu trono e sendo adorado pelos serafins, Sproul diz o seguinte:

Todos pregadores são vulneráveis à acusação de hipocrisia. Na verdade, quanto mais fiéis à Palavra de Deus os pregadores forem, mais passíveis de tal acusação serão. Por quê? Porque quanto mais as pessoas forem fiéis à Palavra de Deus, mais elevada será a mensagem que pregarão. Quanto mais elevada a mensagem, mais distante estarão de obedecê-la. Eu tremo quando falo nas igrejas sobre a santidade de Deus. Posso antecipar as respostas das pessoas. Elas deixam o santuário convencidas de que estiveram na presença de um homem santo. Porque me ouviram pregar sobre santidade, elas assumem que devo ser tão santo quanto a mensagem que prego. É aí que clamo “ai de mim”! É perigoso assumir que porque uma pessoa é atraída a estudar a santidade, então ela é uma pessoa santa. Há aqui uma ironia. Estou certo de que a razão pela qual tenho um desejo profundo de aprender sobre a santidade de Deus é precisamente porque não sou santo. Sou um homem profano. Mas provei o suficiente da majestade de Deus para querer mais. Sei o que significa ser perdoado e ser enviado em uma missão. Minha alma clama por mais.[x]

O sentimento do Dr. Sproul é o meu sentimento. E é justamente por causa de quem eu sou que necessito pregar, primeiramente, a mim mesmo, a fim de poder pregar a outros. Todas as vezes em que subo no púlpito e prego as Escrituras não ajo como alguém impecável ou perfeito. Prego como um pecador que experimentou a doçura da Palavra, do conforto e das advertências vindos de Deus e que, portanto, entende que a sua congregação possui a mesma necessidade.

Um Pensamento Final

Por todo o arrazoado acima entendo muito bem quando alguém afirma que o pregador precisa “viver aquilo que prega”. Entendo que o verdadeiro mal está em ser um hipócrita e dissimulador, alguém que conscientemente anuncia ao povo aquilo que ele mesmo não pratica e nem possui o desejo de praticar. Não obstante, com relativa frequência o moto “Ele não vive o que prega!” é usado como uma espécie de justificativa deliberada para não se dobrar diante das exigências de Deus em sua santa Palavra.

É preciso que compreendamos que, independentemente do caráter do pregador a Palavra de Deus é a Verdade. Assim, mesmo que o pregador seja um flagrante hipócrita e dissimulado, caso a sua pregação esteja de acordo com aquilo que as Escrituras realmente ensinam, ninguém possui a permissão de não obedecer ao que Deus exige. Embora a vida piedosa do pregador seja importante e, por assim dizer, funcione como uma joia que adorna a exposição, a verdade não depende dela. A verdade por si só se autentica. A Palavra de Deus, em si mesma, é inspirada, inerrante, infalível e também autoritativa. Ela deve ser obedecida mesmo quando o pregador for um hipócrita desprezível. Da mesma forma como nem mesmo um anjo vindo do céu tem a permissão de pregar um evangelho falso, a igreja não tem permissão para desconsiderar a verdade dita por um impostor. É o que diz a Segunda Confissão Helvética no artigo já citado:

Portanto, quando a Palavra de Deus é pregada atualmente na igreja por pregadores legitimamente vocacionados, nós cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, nem esperada que venha dos céus: e que hoje o que deve ser considerado é a própria Palavra anunciada, e não o ministro que a prega, pois, embora este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.[xi]

A minha súplica ao Senhor é que ele nos ajude a unirmos as duas coisas: exposição fiel das Escrituras e vida piedosa. Nas palavras do Pr. Joel Beeke: “Como ministros, devemos buscar a graça de edificar a casa de Deus com ambas as mãos – a mão da sã pregação e doutrina, e a mão de um coração santificado”.[xii] Amém, Pr. Beeke! Amém!

____________
Notas:
[i] Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/credos/seg-confissao-helvetica.pdf.
[ii] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. In: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. p. 198.
[iii] Joel R. Beeke. Espiritualidade Reformada: Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus. São José dos Campos: Fiel, 2014. p. 336.
[iv] Ibid.
[v] Ibid. pp. 336-337.
[vi] Richard Baxter. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES, 1996. p. 70.
[vii] Richard Baxter. “The Reformed Pastor”. In: The Works of Richard Baxter. Posição 7990. Edição Kindle.
[viii] Ibid. Posição 7990-8014. Edição Kindle.
[ix] Ibid. Posição 8014. Edição Kindle.
[x] R. C. Sproul. Deus É Santo: Como Posso me Aproximar Dele? São José dos Campos: Fiel, 2014. pp. 32-33.
[xi] A SEGUNDA CONFISSÃO HELVÉTICA. In: Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson. Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 12. Ênfase acrescentada.
[xii] Joel R. Beeke. Espiritualidade Reformada: Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus. p. 336.

***
Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Cristão Reformado
.

Related Posts with Thumbnails