0 A perspectiva de John Owen sobre a mortificação do pecado

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Por Morgana Mendonça dos Santos


"Mate continuamente o pecado ou ele matará você continuamente."

Um teólogo puritano (1616-1683), um pastor fiel, escritor dedicado, chamado John Owen, autor desta intrigante frase, escreve sobre a mortificação do pecado. Bastante ressonante! O entendimento dessa frase poderia ser: ou mata ou morre! A responsabilidade da luta contra o pecado, isto é, uma permanente batalha contra o pecado é o dever do cristão que deve entender a ordem divina que trata da mortificação. Já ouvi dizer: "se pecado fosse ruim, ninguém pecava", desde quando o pecado é algo bom? (Rm 6.23) Como pode ser bom aquilo que manifesta a ira de Deus (Rm 1.18) e nos afasta da Sua presença? (Rm 3.23) O pecado é ruim e mata!

Entender que pecamos porque somos pecadores e nos santificamos porque somos santos é devidamente crucial. Não buscamos a santidade para tornarmos santos, a santificação é uma responsabilidade do cristão por ter sido separado. O pecado não nos torna pecadores, de fato já somos (Sl 51.5; Rm 5.12), o homem depravado totalmente só sabe fazer uma coisa na vida: pecar! O texto que iremos observar sobre a mortificação do pecado em nossas vidas está escrito na carta de Paulo à igreja de Roma. 

Romanos 8.13 "porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis." 

Segundo Owen, essa é a passagem fundamental na teologia da mortificação do pecado. Ele apresenta três princípios fundamentais:
1- Os cristãos diariamente devem trabalhar para mortificar o poder do pecado;
2- Só o Espírito Santo é suficiente para essa obra;
3- A mortificação do pecado gera no cristão vida e bem estar;

O que seria mortificação do pecado? Podemos concordar absolutamente com o autor da frase acima, que "é o enfraquecimento habitual e bem-sucedido do pecado que envolve a luta e a contenda constante contra a carne, através do Espírito Santo". Muitos cristãos acreditam ser salvos pela graça e santificados pelas obras, parecendo que a graça é somente parte inicial da salvação. Por outro lado, existem cristãos acreditando que a justificação isenta a responsabilidade da obediência fiel e ativa, anulando assim o chamado bíblico, gerando então, uma passividade inapropriada. 

O propósito desse texto é enfatizar o pensamento de Owen, sobre esse verso em Rm 8.13, baseando-se nessa declaração e percebendo o contexto que Paulo o encaixa encontramos alguns pontos sublimes. Paulo começa com uma prescrição de um dever:
"mortificardes os feitos do corpo", quem deve assumir essa ordem? "Vós" - "se [vós] mortificardes"
• Existe uma promessa que está interligada a esse dever, vejamos: "certamente vivereis", qual seria então o meio para o cumprimento? O Espírito: "Se, pelo Espírito"

O esclarecimento de que devemos ter uma praxes em relação ao pecado, deve muda como o enxergamos. O sentido de urgência contra o pecado deve nos levar a uma vida em constante batalhas, a santificação deve ser um prazer para o cristãos e não um peso obrigatório. É intrigante e faz sentido pensar nessa frase em relação ao pecado: "Não poder e Não querer". Percebo que muitos lutam contra o pecado porque não podem pecar, mais isso gera um peso em relação a santidade. Deveria ser "não quero pecar", tornando assim a santidade um prazer, uma disposição agradável para acertar o alvo. Um relacionamento sério com o pecado tem como resultado a morte, o que o apóstolo está dizendo nesse verso (Rm 8.13) é que não há nenhuma outra maneira que seja capaz de produzir mortificação do pecado, a não ser pelo próprio Espírito Santo.

Ao ler calmamente esse verso, percebemos que é pelo Espírito que há morte do pecado, é a Sua obra, a concretização vem do próprio Deus. No verso, vemos as palavras "carne e corpo", usando essas palavras no lugar da depravação da nossa natureza, pois são os "feitos da carne" que serão mortificados, essa carne que converte os membros em servos da iniquidade (Rm 6.29). A ideia da mortificação dos feitos do corpo é combater as obras da carne onde exatamente elas brotam, na sua raiz, essa ideia metafórica "mortificar" tem um sentido, "matar um vivente". É chamado de "velho homem", o apóstolo Paulo diz que é essa natureza que deverá ser morta e aniquilada, isto é, deve ser, pelo Espírito. Por Cristo, pela cruz de Cristo foi crucificado nosso velho homem (Rm 6.6), os cristãos tem o dever de lutar contra o pecado e não admitir amizade com ele.

A promessa desse verso é vida, ao cumprir esse dever, é garantido: certamente vivereis! Aqui temos justamente o oposto da frase anterior: "porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer", a "vida" da qual é a promessa do dever cumprido nos consola não somente na eternidade, mais nessa vida aqui e agora. Gostaria de rescrever nove orientações fornecidas por Owen no que tange à mortificação:
1- Avalie se o pecado com o qual você está lutando é acompanhado de alguns sintomas perigosos;
2- Tenha na mente e na consciência uma percepção clara e duradoura da culpa, do perigo e da malignidade desse pecado;
3- Oprima a sua consciência com a culpa desse pecado;
4- Anele constantemente para ser liberto do seu poder;
5- Considere se o pecado está radicado na sua natureza e é exacerbado pelo seu temperamento;
6- Analise as ocasiões e as vantagens das quais o seu pecado tem se aproveitado para se manifestar e aparecer, e mantenha-se em guarda contra todas elas;
7- Erga-se decididamente contra os primeiros sinais de atividade e concepção do seu pecado;
8- Medite de tal maneira a estar, em todo tempo, plenamente auto-humilhado e consciente da própria vileza;
9- Dê ouvidos ao que Deus diz à sua alma e não fale de paz consigo mesmo antes que Deus o faça, antes preste atenção ao que ele diz à sua alma;
"Mortifique o pecado; seja essa a sua obrigação diária; cumpra-a enquanto viver; não deixe de realizá-la nenhum dia; Mate continuamente o pecado ou ele matará você continuamente". 
A Deus toda Glória! Romanos 11.36. [1]
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Nota: 
[1] Para Vencer o pecado e a tentação, John Owen

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Fonte: Bereianos
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0 A onipotência de Deus e o "dilema da pedra"

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Por Rafael de Lima


É provável que alguma vez na vida você já tenha se deparado, ou vá se deparar, com a seguinte indagação: "Deus pode fazer uma pedra tão pesada que Ele mesmo não possa movê-la?". Essa pergunta tem sido feita por céticos que se acham muito espertos e que tentam, com ela, embaraçar e constranger os cristãos. A ideia é colocar em xeque o atributo da onipotência de Deus e, posteriormente, questionar a sua existência.

De fato, a pergunta soa como um dilema, visto que, se a resposta para o questionamento é que Deus pode criar a pedra, Ele não poderá movê-la, caso Ele não possa criá-la, da mesma forma haverá algo que Ele não pode fazer.

Vejamos porque este é um falso dilema que falha tanto teologicamente quanto logicamente.

Primeiramente, o referido questionamento falha em termos teológicos. O falso “dilema da pedra” se baseia em um conceito errado do que seria a onipotência divina. De fato, para o senso comum (e para a esmagadora maioria dos cristãos), dizer que Deus é onipotente equivale a dizer que Ele pode fazer tudo. Todavia, isto não passa de um equívoco teológico, visto que, claramente existem coisas que Deus não pode fazer. Don Fortner enumera uma lista de sete coisas que Deus não pode fazer: Deus não pode mudar ou ser mudado (Ml 3:6; Tg 1:17); Deus não pode mentir (Tt 1:2); Deus não salva um pecador sem um sacrifício agradável (Hb 9:22); Deus não pode levar para o céu alguém que não seja perfeitamente justo à Sua vista (Mt 5:20; Hb 12:14); Deus não pode mandar para o inferno alguém por quem Cristo sofreu e morreu no Calvário (Is 53:11; Rm 8:33,34); Deus não pode salvar um pastor aparte da pregação do evangelho (1Co 1:21-24; Tg 1:18; 2Pe 1:23-25); Deus não pode falhar em salvar qualquer pecador que confie no Senhor Jesus Cristo, seu Filho amado (Jo 3:16,36)[1]. Recomendamos a leitura integral do artigo para uma melhor elucidação.

Sproul define qual seria o conceito teológico correto para onipotência: “Como termo teológico [...] onipotência não significa que Deus pode fazer qualquer coisa [...] O que onipotência realmente significa é que Deus mantém poder absoluto sobre sua criação”.[2]

Teologicamente falando a resposta para o falso dilema da pedra seria: Não. Deus não pode fazer a pedra, pois ele estaria criando algo sobre o qual não teria domínio e, desta forma, anulando a sua onipotência.

Um segundo erro seria de ordem lógica. Ainda que abandonássemos a definição teológica de onipotência e adotássemos a ideia (incorreta) de que afirmar que Deus é onipotente é afirmar que Ele pode fazer tudo, o “dilema da pedra” falharia em termos lógicos.

Nas palavras de Phillip R. Johnson, a lei mais fundamental da lógica, chamada lei da contradição (ou não contradição), pode ser definida da seguinte maneira:

A lei da contradição significa que duas proposições antitéticas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e no mesmo sentido. X não pode ser não-X. Uma coisa não pode ser e não ser simultaneamente. E nada que é verdade pode ser auto-contraditório ou inconsistente com qualquer outra verdade.[3]

O falso dilema da pedra tenta propor justamente isto, que Deus possa e não possa ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Sproul propõe um dilema análogo ao da pedra que nos ajuda a perceber a falácia:

O que acontece quando uma força irresistível se choca contra um objeto irremovível? Podemos conceber uma força irresistível. Podemos, igualmente, conceber um objeto irremovível. O que não podemos conceber é a coexistência dos dois. Se uma força irresistível encontra um objeto irremovível, e o objeto se mover, o mesmo não poderia mais ser chamado com propriedade de irremovível. Se o objeto não se mover, então nossa força "irresistível" não poderia mais ser chamada, com propriedade, irresistível. Portanto, vemos que a realidade não pode conter uma força irresistível e um objeto irremovível.[4]

Assim, concluímos que o “dilema da pedra” falha tanto na sua perspectiva teológica, quanto na sua base lógica, se demonstrando apenas como mais uma falácia, sendo, portanto, um falso dilema.

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Notas
[1] FORTNER, Don. Sete coisas que Deus não pode fazer. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/atributos_deus/sete_coisas_deus_nao_pode.htm>. Acesso em: 10 set. 2014.
[2] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 1º caderno. 3ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 38.
[3] JOHNSON, Phillip R. A Lei da Contradição. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Lei_Contradicao_Phillip.pdf>. Acesso em: 10 set. 2014.
[4] SPROUL, R. C. Op. cit., p. 38. 

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Fonte: Cosmovisão Cristã
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0 Falsos Apóstolos já Atacavam Igrejas no Novo Testamento

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Examinemos agora o caso daqueles a quem o apóstolo Paulo chama de “superapóstolos” e “falsos apóstolos”, na sua segunda carta aos coríntios (2Co 11.5; 11.13 e 12.11). Trata-se de obreiros que apareceram na igreja de Corinto, ostentando o título de apóstolos, apresentando credenciais que supostamente provavam esta reivindicação, querendo diminuir Paulo como apóstolo e assumir a liderança da igreja.

Paulo os chama de “super apóstolos,”  (2Co 11.5; 12.11), provavelmente como uma ironia.[1] Os tais se apresentavam com reivindicações extravagantes e se colocando acima de Paulo e talvez dos doze. Paulo os considera “falsos apóstolos” (2Co 11.13), não somente porque a mensagem deles representava um desvio do ensino apostólico original, mas também porque eram imitadores, tentando se passar por apóstolos de Cristo. [2]

Robertson e Plummer afirmam que “não poderia ter havido falsos apóstolos (2Co 11.13), a menos que o número de Apóstolos [sic] fosse indefinido”. [3] O que eles querem dizer é que se reconhecia a existência de apóstolos além de Paulo e dos doze, e que não havia limite para o número de apóstolos naquela época. De acordo com esta interpretação, os “falsos apóstolos” eram falsos não porque estavam usurpando um título que era somente dos doze ou de Paulo, pois havia muitos outros apóstolos além deles. Eles eram falsos somente porque pregavam um falso evangelho. Assim, de acordo com esta linha de interpretação, a existência de falsos apóstolos no período apostólico é uma prova de que havia muitos apóstolos em atividade naquela época e que consequentemente não existe nenhuma razão pela qual se deva negar a existência deles em nossos dias.

Todavia, uma análise mais atenta aos textos de 2 Coríntios que se referem aos falsos apóstolos, parece sugerir que Paulo os considera “falsos” não somente por serem falsos mestres, mas também por serem usurpadores do título. Eles se apresentavam como apóstolos similares aos doze e a Paulo, e não como enviados de alguma igreja para cumprir uma missão. Eles queriam poder, autoridade, reconhecimento e, especialmente, ganhar dinheiro. Suas credenciais envolviam sonhos, visões, revelações, milagres, ascendência judaica e outras coisas destinadas a impressionar os crédulos coríntios. É verdade que haviam outros apóstolos além de Paulo e dos doze, conforme já mostramos anteriormente, mas estes que apareceram em Corinto não eram do nível de Silas, Timóteo, Barnabé ou Epafrodito – não, eles eram “superapóstolos”, como os doze e acima de Paulo. Eles eram falsos porque o grupo de “apóstolos de Jesus Cristo” ao qual eles queriam pertencer – os doze e Paulo – era limitado. [4]

Examinemos mais de perto as evidências. Quase que certamente esses obreiros eram judeus, supostamente convertidos ao Cristianismo, pregadores itinerantes, que se vangloriavam de sua ascendência judaica e de serem ministros de Jesus Cristo. [5] Eles haviam entrado na igreja de Corinto e estavam fazendo graves acusações contra Paulo, o que levou o apóstolo a ter de escrever esta carta depois de haver visitado a cidade para tratar do assunto.

Paulo diz que eles “mercadejavam a Palavra de Deus”, uma alusão às exigências financeiras que estavam fazendo (2Co 2.17). Eles se apresentavam com “cartas de recomendação,” provavelmente da igreja de Jerusalém, com o intuito de imporem a sua autoridade sobre a igreja (2Co 3.1-3). [6] Ao apresentar-se como “ministro de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito” (2Co 3.6) e ao fazer o contraste entre o Evangelho e o Judaísmo (2Co 3.6-18), Paulo deixa transparecer que eles pregavam as glórias da antiga aliança baseada na lei de Moisés como superior ao Evangelho de Paulo. [7] Ao fazer isto, eles astutamente “adulteravam” a Palavra de Deus (2Co 4.2) e pregavam a si mesmos e não a Cristo (2Co 4.5). Paulo os critica por se “gloriarem na aparência”, o que pode ser uma referência ao fato de que se gloriavam de ser judeus legítimos, talvez de Jerusalém, ao contrário de Paulo que era da Dispersão (2Co 5.12). Eles haviam sugerido que Paulo havia enlouquecido (2Co 5.13). Criticavam-no por proceder como o mundo (2Co 10.2) e de ser covarde, pois escrevia cartas fortes e graves quando estava distante, mas quando estava presente, sua apresentação pessoal era “fraca” e sua palavra “desprezível” (2Co 10.9-10; cf. 11.6). Eles insinuavam que Paulo queria aproveitar-se financeiramente deles, ao inventar uma coleta para os pobres de Jerusalém (2Co 8.14-18). [8] Eles apresentavam-se como verdadeiros israelitas (2Co 11.22) e “ministros de Cristo” (2Co 11.23), talvez operadores de milagres (2Co 12.12), que tinham visões e revelações do Senhor (2Co 12.1). Apresentavam-se como no mesmo nível de Paulo, ou mesmo como superiores a ele, por terem maiores e melhores credenciais (2Co 11.12). A igreja de Corinto, ou um grupo dentro dela, estava aceitando a presença e o discurso deles, com suas críticas a Paulo, que certamente tinham o objetivo de minar a sua liderança e autoridade e, finalmente, assenhorear-se da comunidade (2Co 11.1-4).

A resposta de Paulo a tudo isto vem de várias maneiras. Primeira, ele responde às reivindicações destes “apóstolos” apresentando, constrangido, as suas próprias credenciais apostólicas, aceitando, num primeiro momento, que estas credenciais definem um apóstolo de Cristo: ele também é judeu (2Co 11.22), faz sinais e prodígios (2Co 12.12), tem visões e revelações do Senhor (2Co 12.1-4).

Mas, paralelamente, Paulo apresenta as credenciais de um verdadeiro apóstolo que estes “apóstolos” não tinham, e que o faziam um verdadeiro “ministro de Cristo,” em contraste com eles, que eram ministros de Satanás: eles traziam cartas de recomendação, mas a recomendação de Paulo eram os próprios coríntios, convertidos pela sua pregação (2Co 3.1-4). Eles se vangloriavam de seus predicados e credenciais, mas Paulo se gloriava de seus sofrimentos (2Co 6.4-10), de um espinho na carne (2Co 12.7-10) e de ter tido de fugir uma vez de uma cidade descido num cesto, pelo muro, para não ser morto pelos judeus (2Co 11.32-33).

Terceiro, Paulo os denuncia como “falsos apóstolos,” “obreiros fraudulentos,” que na verdade eram ministro de Satanás travestidos de ministros de Cristo, seguindo a estratégia do diabo de se passar por Deus (2Co 11.13-15). Ele apela aos coríntios para não se porem em “jugo desigual com os incrédulos,” no que parece ser uma referência a estes falsos apóstolos (2Co 6.14-18).

Fica evidente, então, de nossa análise, que estes obreiros fraudulentos haviam arrogado a si mesmos o título de apóstolos de Jesus Cristo, numa tentativa de se imporem autoritativamente sobre as igrejas, numa espécie de imitação dos doze, com o fim de dominarem sobre elas. Eles eram apóstolos falsos, não somente porque o grupo de apóstolos ao qual eles reivindicavam pertencer estava já fechado, mas também porque não possuíam as credenciais essenciais de um verdadeiro apóstolo. Além disso, estavam adulterando a Palavra de Deus no intento de auferir ganhos financeiros das igrejas.

Nossa conclusão está de acordo com o fato de que apareceram muitos, quando os doze e Paulo ainda viviam, reivindicando um status similar. Encontramos um exemplo disto no livro de Apocalipse, na carta à igreja de Éfeso: “Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos” (Ap 2.2). À semelhança do que havia acontecido em Corinto, homens maus apareceram na igreja de Éfeso dizendo-se apóstolos. Ao contrário do que havia acontecido na igreja de Corinto, os crentes de Éfeso puseram estes apóstolos à prova – certamente examinando as suas reivindicações, suas credenciais e sua mensagem – e concluíram que eles eram impostores, no que foram aprovados pelo Senhor. Aqui cabem as palavras de Spence-Jones: “Chamar um homem de sucessor dos apóstolos, o qual não tem o caráter apostólico – nobreza, lealdade a Cristo e total auto-abnegação – é uma farsa malévola”. [9]

O status de apóstolo era cobiçado desde cedo na história da igreja cristã, não como um indicativo de alguém que estava envolvido na obra missionária, mas pelo poder, autoridade e respeito que este status comandava. E é exatamente neste sentido que ele vem sendo apropriado e usado por muitos hoje que se apresentam como apóstolos de Jesus Cristo.

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Notas:
1. Cf. “tais apóstolos”, ARA; “superapóstolos”, NVI; “superapóstolos” NTLH. A ARC, todavia, traduziu como sendo uma referência não irônica,“aos mais excelentes apóstolos”, o que altera substancialmente a interpretação da passagem, sugerindo que estes apóstolos “mais excelentes” eram os doze com quem Paulo estava se comparando.
2. Alguns estudiosos sugerem que Paulo estava se referindo ironicamente aos doze apóstolos de Jesus Cristo, sediados em Jerusalém. Contudo, diante dos relatos do livro de Atos e de Gálatas capítulo dois, da concordância e harmonia entre Paulo e os doze, esta sugestão não se sustenta. Veja os argumentos contra a ideia de que os “superapóstolos” eram os doze em Kirk, “Apostleship since Rengstorf,” 253.
3.  Robertson, Corinthians, 279.
4.  “Apóstolos de Jesus Cristo” é uma designação quase que exclusiva dos doze e Paulo no Novo Testamento, cf. a argumentação na seção “Apóstolos de Jesus Cristo”.
5.  Cf. Carson, New Bible Commentary, na Introdução.
6.  Isto não quer dizer que os apóstolos de Jerusalém estariam de acordo com a atividade sectária e mercenária deles, em Corinto.
7. Para uma posição contrária, veja Clark, “Apostleship,” 359-360 e Carson, New Bible Commentary, Introdução. Mesmo admitindo que os oponentes de Paulo eram judeus cristãos, Carson não acredita que eram judaizantes, como aqueles que infestaram as igrejas da Galácia. Contudo, o contraste entre as duas alianças no capítulo 3 só faria sentido no contexto de uma mensagem judaizante dos oponentes de Paulo.
8. Esta é, provavelmente, a razão pela qual Paulo toma várias precauções para evitar acusações de apropriação indébita das ofertas que ele haveria de levar a Jerusalém, cf. 2Co 8—9.
9. Spence-Jones, Galatians, 140.

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Fonte: Ministério Fiel

Se você vive nesse contexto e é liderado por algum "apóstolo" ou se deseja conhecer a fundo sobre esse movimento, não deixe de ler o livro Apóstolos - verdade bíblica sobre o apostolado. Você poderá adquiri-lo diretamente no site da Editora Fiel. Acesse o hot site aqui!
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0 Reformado sim! Deformado não!

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Por Rev. Leandro Lima


A fé reformada, aquela que desde o Sec. 16 proclama a exclusividade da Bíblia como regra de fé e prática, que busca conduzir todos os aspectos da vida para a glória de Deus, tem sido redescoberta nesses tempos pós-modernos. Em grupos de compartilhamento em redes sociais se multiplicam todos os dias os admiradores (e também os críticos) dessa visão teológica. Mas será que há um genuíno reflorescimento da fé reformada nos dias atuais? Apesar do meu desejo pessoal de acenar positivamente, algumas coisas têm me feito ficar menos empolgado. Identifico inicialmente dois problemas com o único objetivo de promover reflexão e amadurecimento.

Resumo o primeiro problema como "muita discussão, pouca santidade". Espanta-me ver o modo como muitos crentes ditos reformados se comportam em redes sociais. O baixo nível do linguajar, a ira e animosidade diante do pensamento contrário, a absoluta falta de respeito. Ou seja, o problema é a falta de um verdadeiro testemunho de humildade e piedade que foi o estilo de vida dos grandes reformadores do passado. Outro dia, num fórum as pessoas estavam perguntando a opinião dos demais sobre um pregador brasileiro. Espantou-me ver o modo desrespeitoso como a maioria se referiu, mesmo o homem sendo reconhecido como um fiel expositor da Bíblia. “Ele é cópia do fulano” disse alguém. “Ele é exagerado naquilo” disse outro. Até críticas ao modo de se vestir e outras que eu teria vergonha de relatar aqui. Que é feito do respeito? Onde foi parar a polidez? Se não respeitam mais os próprios pastores, a quem respeitarão? De fato, a internet, às vezes, parece mesmo um grande “rebanho sem pastor”. Também se podem ver na internet fotos de pessoas fumando e bebendo ao lado de imagens de Spurgeon ou de Calvino. E a preocupação com o testemunho? Sei de “defensores” de doutrinas calvinistas que, infelizmente, dividem a mesma tela do computador com o grupo de discussão e sites pornográficos.

Em segundo lugar, identifico também “muita discussão, pouco conteúdo”. Ou seja, há um conhecimento superficial das doutrinas, levando muitos a tomar o todo pelas partes. Pessoas jovens demais, com conhecimento bem relativo, que fazem leituras apressadas dos textos dos reformadores (como lêem posts do facebook), sem a devida maturação, acabam tendo impressões muito equivocadas da teologia reformada. Nesse sentido, muitos escolhem suas "doutrinas favoritas” das quais fazem o "cavalo de batalha”, e tentam se promover defendendo pontos de vista polêmicos e complexos, deixando de tratar desses temas com o cuidado e a reverência que os reformadores trataram no passado. Predestinação e a origem do mal estão entre as doutrinas mais abusadas dos dias atuais.

Meu conselho é o seguinte: se queremos ser reformados, precisamos entender que a teologia reformada não é meramente a defesa dessa ou daquela particularidade doutrinária, antes é um modo de vida consistente, que engloba o conhecimento profundo das Escrituras, o exercício intenso da piedade individual, a proclamação inteligente do Evangelho, e a consagração de todos os aspectos da vida diária para a glória de Deus. Do contrário, ela será deformada e não reformada.

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Fonte: Perfil do autor no Facebook
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