0 Os sonhos de Deus?

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Por Thomas Magnum


Uma pergunta dessas no século dezesseis seria absurda. Nos anais da reforma protestante encontramos discursos, tratados, sermões, confissões, catecismos e declarações de fé que vão dizer que Deus é soberano e que é o governador absoluto do universo. No entanto, vivemos momentos estreitos nas terras tupiniquins onde Deus leva porta na cara, como diz a música de uma celebridade do gospel nacional, Deus pede permissão para operar na vida de alguém. Esse não é o Deus das Escrituras! A frouxidão doutrinaria no ranço da musicalidade evangélica brasileira é repleto de heresias, desvios doutrinários e sorrateiras doses de liberalismo, libertinagem, pluralismo, hedonismo e blasfêmias a sã doutrina.

Tive o desprazer de ver algumas vezes os surtos de modinhas na música gospel no Brasil. Um tempo desses, todos cantavam sobre chuva, tudo era chuva. Depois, apaixonados por Deus, aí todo mundo cantava que estava apaixonado. E dentre tantas modas musicais no meio gospel, surge os sonhos de Deus. Eu pergunto: onde está escrito que Deus sonha? Alguém que sonha é porque não tem perspectiva do futuro, não tem domínio sobre a história, tal afirmativa diminui a soberania de Deus e o coloca como um Deus frustrado que não pode agir na criação, invalida a doutrina da providência que é o cumprimento histórico dos decretos de Deus. Se Deus sonha, então o cumprimento de seu sonho depende de quem para se cumprir? Alguém que sonha não tem poder em si mesmo desamparado por causas externas para cumprir o fato. Sei que quem tem cantado isso não acredita que existe um Deus acima de Deus, mas muitas vezes em nome da licença poética se ultrapassa os ensinos da sã doutrina, isso é muito perigoso.

A Confissão Fé de Westminster diz sobre os decretos de Deus:

Desde de toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece. ¹

A confissão de fé Belga nos diz:


Cremos que o Bom Deus, depois de ter criado a todas as coisas, não as abandonou nem as entregou ao acaso ou à sorte, mas as dirige e governa conforme sua santa vontade de tal maneira que, neste mundo, nada acontece sem a sua determinação. ²

É interessante notarmos aqui que o emprego da palavra
sonho carrega nessas músicas um aparato semântico, ou seja, o significado de sonho aqui é idealização, aspiração por algo bom para o futuro. Vemos na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, alguns sonhos; o copeiro de Faraó, o próprio Faraó, Nabucodonosor. Notamos, no entanto, que os sonhos foram dados por Deus e também sua interpretação, os sonhos ali tinham um porque, Deus deu aqueles sonhos e deu a interpretação, por quê? Simplesmente porque ele domina a história, ele diz o que irá acontecer.

Vejamos alguns textos bíblicos:

"Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas. " - Isaías 45.6,7

"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!" - Romanos 11.33

"A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda a determinação."Provérbios 16.33 

Portanto, Deus não tem sonhos, porque sonhar é algo puramente humano, Deus tem decretos e planos. E a Bíblia nos diz que nenhum dos seus planos pode ser frustrado (Jó 42.2). A teologia esboçada no gospel infelizmente está cheia de erros e problemas doutrinários. Infelizmente vivemos na geração que mais canta nas igrejas, mas também a mais analfabeta de Bíblia. Shows, eventos e entretenimento tomaram o lugar da meditação, do estudo, da leitura e da pregação da Palavra. Não sou contra todas as formas de entretenimento, devemos ter momentos de recreação e relaxamento, isso é bom e é bíblico, mas a verdade das Escrituras não pode ser negociada, o Senhorio de Cristo deve ser a tônica do culto, das canções e de tudo que fizermos em nossa vida. Que Deus nos ajude, minha oração é que Ele levante uma geração que ama as Escrituras Sagradas e não os prazeres que as vãs filosofias oferecem.

Sola Scriptura,  Solus Crhistus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria!

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Notas:
[1] CFW, cap 3
[2] Confissão Belga, artigo 13

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Divulgação: Bereianos
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1 A Igreja, de fato, habitará no Céu?

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Por Roberto de Carvalho Forte


É comum, nos dias de hoje, em grande parte das igrejas, ao tratarem sobre a escatologia, afirmarem que quando Cristo vier, a igreja irá morar no céu. Há até mesmo muitas canções que declaram isto, e pelo fato de muitos não examinarem as Escrituras quanto a tudo o que ouvem, lêem ou cantam, acabam formando sua “teologia” baseada apenas em alguns clichês ou canções, e também por conta de uma forte influência do dispensacionalismo. O cantor Lázaro, em sua música “Morar No Céu”, declara enfaticamente: “Ainda bem que eu vou morar no céu”.

Anthony Hoekema, comenta: “A partir de certos hinos, temos a impressão de que os crentes glorificados passarão a eternidade em algum céu etéreo, em algum lugar no espaço, bem longe da terra”. [1]

Mas, afinal de contas, onde a igreja habitará?

O termo “morar no céu” certamente é citado por muitos por causa da passagem em João 14, que diz: Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. (v.2). Seria essa “morada de Deus” o céu, neste contexto? O versículo 23, deste mesmo capítulo, responde: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.”. O substantivo grego no singular μονή, e no plural μοναὶ, aparecem apenas duas vezes no NT, que correspondem à “morada” e “moradas”, respectivamente, e só são encontradas neste capítulo. Jesus disse aqui aos discípulos que subiria ao céu, mas não os deixariam órfãos, pois os enviariam o Consolador (v.16), e que faria morada nos crentes (v.23), e esta promessa já se cumpriu com a vinda do Espírito Santo. (Para um entendimento mais amplo sobre isto, sugiro a leitura de um artigo no site da Mackenzie, fonte no rodapé [2])

Mas o que vemos nas Escrituras são textos bíblicos que apontam para novo céu e nova terra, que é o caso de 2 Pe 3:13, que diz: “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.”. Jesus disse em Mateus 5: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (v.5). E ainda em Apocalipse 21, referindo à eternidade: E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.” (v.1). No AT, temos esta promessa em Isaías 65: “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão.” (v.17), e em Isaías 66: “Porque, como os novos céus, e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante da minha face, diz o Senhor, assim também há de estar a vossa posteridade e o vosso nome.” (v.22). 

Hoekema, comenta: “Existe uma passagem no livro de Apocalipse que fala acerca de nosso reinado sobre a terra: ‘Digno és [Cristo] de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra’ (Ap 5:9-10). Embora alguns manuscritos tragam o verbo ‘reinarão’ no tempo presente, os melhores textos trazem o tempo no futuro. O reinado sobre a terra dessa grande multidão redimida é representado aqui como a culminação da obra redentora de Cristo por seu povo.” [3]

A terra que hoje vivemos será restaurada, e não aniquilada. Como escreveu William Hendriksen: “Os céus e a terra que agora existem foram reservados para o fogo, de forma que logo os céus estarão queimando [..] serão dissolvidos e os elementos derreterão com calor fervente” [4]. E ele conclui: “O fogo não anulará o universo. Depois do fogo ainda existirão os mesmos ‘céus e terra’, mas gloriosamente renovados, como explicado em 2 Pe 3.13; Apocalipse 21:1-5.” [4]

Pedro, o apóstolo, escreve: “Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão [...] em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?”  (2 Pe 3:7,10,11,12). 

Depois dessa restauração, a nova Jerusalém (símbolo da Igreja de Cristo) descerá do céu à nova terra, “adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Ap 21:2) e reinará eternamente com Cristo.

Podemos afirmar, portanto, que não só teremos o céu na eternidade, mas habitaremos no Novo Céu e na Nova Terra, e Cristo será eternamente o Rei: “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.” (Apocalipse 21:3)

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Notas:
1 – A Bíblia e o Futuro, Anthony A. Hoekema, pág. 292.
2  Jesus e as moradas na casa do Pai: interpretando monai em João 14
3 – A Bíblia e o Futuro, Anthony A. Hoekema, pág. 300.
4 – A Vida Futura Segundo a Bíblia, William Hendriksen, pág. 257.

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Fonte: Bereianos
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0 Um caso exegético para o calvinismo - Rm 9:6-23

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Por Thomas R. Schreiner 


Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas também a Rebeca, que havia concebido de um, de Isaque, nosso pai (pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum. Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia. Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra. Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece. Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória.” (Rm 9.6-23).

Alguém poderia objetar que o uso paulino deste modo distorce o AT, o que não exclui Ismael das promessas salvíficas. Como réplica eu diria que Paulo emprega Isaque e Ismael tipologicamente e relaciona suas histórias aos propósitos salvíficos de Deus. Além disso, apesar de vozes contrárias, é duvidoso que o autor de Gênesis concebesse Ismael como um portador da bênção pactual da salvação. Ele recebe as promessas de bênção temporal (Gn 17.20; 21.13, 18), mas ele provavelmente foi excluído do pacto salvífico com Abraão. 

Nesta conjuntura eu deveria notar que a seleção de um remanescente de Israel implica a seleção de alguns indivíduos de um grupo maior.

... O “chamado em Paulo” é eficaz, em que o chamado cria o que é desejado. O verso 11 repete a mesma tese. Por que a promessa foi feita antes do nascimento dos gêmeos e não baseada nas suas obras? O propósito é “a fim de que o propósito de Deus quanto à eleição prevalecesse”.

Isto não pode ser frustrado, nem mesmo pelos seres humanos, porque ele não é baseado em suas ações, obras ou escolhas, mas na vontade e na intenção de Deus. É importante notar também que Paulo não contrasta “fé e obras”, mas “o chamado de Deus e as obras”.

O verso 16 reapresenta e esclarece isto ao indicar que a escolha e esforço humanos não são a base sobre a qual a promessa misericordiosa de Deus é recebida. Este verso exclui nos termos mais claros possíveis a noção de que o livre arbítrio é o fator fundamental na eleição divina.

O poder é de dois gumes mesmo na narrativa do Êxodo, efetivando a salvação para Israel e trazendo julgamento para Faraó e o Egito.

Cranfield se perde ao colocar tanto o endurecimento e a misericórdia sob a égide da misericórdia de Deus. O exato ponto do v.18 é que a misericórdia e o endurecimento são antitéticos, e nenhuma indicação é dada de que aqueles que são endurecidos recebem a misericórdia de Deus.

Em qualquer caso, a referência a Faraó aqui deve ser fundamentada no contexto de Romanos... E assim o assunto em questão é o porquê da maioria dos israelitas não serem salvos.

Nem Paulo discorda nos versos 19-23 da ideia de que a vontade de Deus é a causa última do destino de alguém. Ele não resolve o problema ao recuar do seu argumento anterior. Paulo está bem ciente de que alguns se recusam a submeter-se ao que Deus tem ordenado. A resistência da maioria dos israelitas ao evangelho estimulou a escrita dos capítulos 9-11. Além disso, nos versos anteriores a resistência de Faraó à ordem de Deus é notável. No entanto, 9.14-18 indica que a resistência de Faraó foi no fim das contas devido ao endurecimento de Deus.

Se os seres humanos não podem no fim das contas resistir à vontade de Deus, então como nós deveríamos interpretar a resposta de Paulo à queixa no verso 20? Eu já mostrei que ele não nega a premissa: ninguém pode finalmente resistir à vontade de Deus. O que ele nega é a conclusão: Deus, portanto, não pode culpar os seres humanos.

Paulo não depende de qualquer um destes textos especificamente, embora o texto de Romanos 9.20 esteja especialmente próximo a Is 29.16. Paulo adapta a metáfora para os seus próprios propósitos, e reflete uma consciência das tradições bíblicas nas quais a ilustração foi empregada. Não se pode determinar, portanto, a partir dos usos antecedentes da metáfora se Paulo a emprega com referência a salvação individual. A significância da metáfora deve ser recolhida a partir do fluxo do argumento em Romanos uma vez que o uso judaico da metáfora é variado. Só o destino histórico das nações dificilmente responde a questão que provocou a discussão inteira: por que muitos em Israel não são salvos.

Os versos 22-23 se constroem sobre esta ilustração ao informar ao leitor por que DEUS PREPAROU alguns vasos para a destruição e outros para a misericórdia... O ônus da prova está sobre aqueles que veem uma separação entre o uso do termo no v. 21 e seu uso nos versos 22-23. No último exemplo as referências ao julgamento escatológico e a glória são claras... Tanto orge quanto apoleia se referem frequentemente ao julgamento escatológico em Paulo. Qualquer noção de destino histórico somente certamente parece forçado.

Uma vez que skeue orges refere-se ao julgamento escatológico e skeue eleous à glória escatológica, e uma vez que nenhum sentido contrário evidente pode ser encontrado entre os versos 21 e 22-23, segue-se que os vasos para honra e desonra devem naturalmente significar os salvos e os perdidos respectivamente. A palavra “honra” designa vida eterna em 2.7, 10, onde ele põe em paralelo o termo “glória”. 

De forma semelhante, a escolha de alguém para a honra escatológica e outro para o julgamento da mesma massa indica que aqueles escolhidos não tinham méritos especiais ou distinção que explicassem o fato de serem escolhidos.

Desse modo, a razão de Deus suportar pacientemente os vasos de ira é explicada. A bondade de Deus é sublinhada neste verso, pois a cláusula principal diz “ele suportou com muita paciência os vasos de ira.” A implicação é que teria sido justo para ele destruí-los imediatamente (cf. Rm 3.25-26). Aqueles com quem ele é paciente são skeue orges, pois o julgamento escatológico está em contraste com os skeue eleous no v.23 que experimentarão a salvação escatológica. Nem há qualquer insinuação de que os vasos de ira depois se tornarão vasos de misericórdia, pois o texto diz que eles “são preparados para a destruição”.

Finalmente, a frase participial no v. 22 explica porque Deus suporta com paciência aqueles que experimentarão a sua ira: ele quer “mostrar a sua ira e fazer conhecido o seu poder.” No caso de Faraó Deus demonstrou sua paciência ao não destruir Faraó imediatamente, embora ele tenha resistido à ordem de Deus. Ao adiar o seu julgamento sobre Faraó, porém, Deus exaltou seu nome e exibiu mais fortemente a grandeza de sua salvação e o terror do seu julgamento. A correspondência parece exigir uma interpretação semelhante do v. 22. Deus adia o seu julgamento imediato dos vasos de ira de forma que ele possa revelar toda a extensão do seu poder e ira sobre aqueles que continuamente resistem a sua oferta de arrependimento (Cf. 10.21). A ideia de que Deus suspende uma retribuição imediata a fim de impor um julgamento mais severo mais tarde é atestada em outro lugar na literatura judaica. Isto também responde a objeção observada anteriormente de que Deus não faria os vasos a fim de destruí-los uma vez que nenhum oleiro faz isso. Além disso, o conceito paulino de julgamento escatológico não envolve aniquilação, mas exclusão eterna da presença graciosa de Deus.

A palavra “preparados”, então, denota uma preparação DA PARTE DE DEUS para a destruição em vez de uma auto-preparação. Em qualquer caso, não se pode por recursos exegéticos livrar Deus de decidir o destino dos vasos de ira. Isto também fazia parte de seu plano, e assim a dupla predestinação não pode ser evitada. Não há qualquer base para a ideia de que os mesmos vasos de ira se tornarão depois vasos de misericórdia. O texto exclui isto explicitamente ao descrever os vasos de ira como “preparados para a destruição”.

Agora, o verso 23 nos informa que a demonstração desta ira tem um propósito maior. Quando os vasos de misericórdia percebem a ira temível de Deus sobre os desobedientes e refletem sobre o fato de que eles merecem o mesmo, então eles apreciam de uma forma mais profunda as riquezas da glória e da graça de Deus esbanjadas sobre eles. A misericórdia de Deus é apresentada com clareza contra o pano de fundo da sua ira. Assim, Deus exibe a gama completa dos seus atributos: sua ira poderosa e o esplendor da sua misericórdia. A misericórdia de Deus não seria impressionada na consciência dos seres humanos à parte do exercício da ira. (T. Schreiner, Romans, 497-523).

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Fonte: Triablogue
Tradução: Francisco Alison Silva Aquino
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0 Se há eleitos, há eleição!

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Por Charles H. Spurgeon

Ora, se as pessoas são chamadas de eleitas, então deve haver eleição. Se Jesus Cristo e seus apóstolos são acostumados a chamar os crentes pelo título de eleitos, certamente acreditamos que eles o sejam, a menos que o termo nada signifique. Jesus Cristo disse: 

"Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos que ele escolheu, abreviou tais dias." (Marcos 13:20) 

"Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando sinais e prodígios, para enganar, se possível, os próprios eleitos." (Marcos 13:22)

"E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu." (Marcos 13:27)

"Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?" (Lucas 18:7) 

Em conjunto com mais outras passagens que poderiam ser selecionadas, onde tanto o termo "eleito", ou "escolhido", ou "preordenado", ou "apontado" é mencionado; ou a frase "minhas ovelhas" ou alguma designação similar, mostrando que o povo de Cristo é distinto do resto da humanidade.

Mas vocês têm concordâncias, e eu não vou lhes dar mais problemas com textos. Através das epístolas, os santos são constantemente denominados "os eleitos". Em Colossenses encontramos Paulo dizendo: "... pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia". Quando ele escreve a Tito, ele mesmo se chama, "Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus". Pedro diz: "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai". E se você vai para João, descobrirá que ele é afeiçoado ao termo. Ele diz: "O presbítero à senhora eleita"; e ele fala da nossa "irmã, a eleita". E sabemos onde isso está escrito: "Aquela que se encontra em Babilônia, também eleita". Eles não se envergonhariam desse termo hoje em dia; não tinham medo de falar disso. 

Atualmente esse termo tem sido revestido de uma diversidade de sentidos, e as pessoas têm mutilado e estragado a doutrina, e assim transformado-a numa verdadeira doutrina de demônios, tenho que admitir; e muitos do que se chamam crentes, têm que se intitular antinomistas. Não obstante esse fato, por que eu me envergonharia disso, se o homem o corrompe? Amamos a verdade divina tanto na tormenta quanto na bonança. Se há um mártir pelo qual temos amor antes de ele ser torturado, deveríamos amá-lo mais ainda quando ele está livre. Quando a verdade divina é desenvolvida na tribulação, não a chamamos de falsidade. Não a apreciamos para vê-la na tribulação, porque podemos discernir como deveria ser, mutatis mutandis, se ela não tivesse ido para a masmorra e torturada pela crueldade e pelas maquinações humanas. Se você vir a ler algumas das epístolas dos Pais da Igreja, você os descobrirá sempre se referindo ao povo de Deus como "eleito". Realmente, nas conversas do dia a dia, o termo usado entre as igrejas dos cristãos primitivos para uma outra era "eleito". Eles frequentemente usavam o termo para os demais, demonstrando que era geralmente aceito que todo o povo de Deus era manifestamente "eleito".

Mas vamos agora para os versículos que provam a doutrina de modo afirmativo. Abram suas Bíblias em João 15:16, e vejam que Jesus Cristo escolheu seu povo, pelo que diz: "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda." E no versículo 19: "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." E no capítulo 17, versículos 8 e 9: "porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus".

Vá para Atos 13:48: "Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna." Eles poderiam ter omitido essa passagem, se quisessem, mas ela diz: "destinados para a vida eterna" no original tão patente quanto possível; e não nos importamos sobre os diferentes comentários existentes por aí. Vocês por pouco não precisam ser lembrados de Romanos 8, porque eu acredito que todos já estão bem familiarizados com esse capítulo e atualmente o entendem. Nos versículos 29 e seguintes ele diz: 

"Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?" 

Seria desnecessário repetir o contexto do nono capítulo de Romanos. Tão certo quanto aquela [doutrina] se encerra na Bíblia, nenhum homem será capaz de provar o Arminianismo; tão certo quanto aquela [doutrina] está lá escrita, nem as mais violentas deturpações da passagem vão ser capazes de exterminar, das Escrituras, a doutrina da eleição. Permitam-nos ler versos como esses: "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço." Então leia no versículo 22, "Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão" Então vá para Romanos 11:7: "Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos" No quinto versículo do mesmo capítulo, lemos: "Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça"

Vocês, sem dúvida, vão se lembrar da passagem de I Coríntios 1:26-29: "Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus." Novamente, lembrem-se da passagem de I Tessalonicenses 5:9: "porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo"

Então vocês têm meu texto, que creio ser o bastante; mas, se precisam de mais, poderão encontrá-las com mais vagar, se já tiverem removido sua desconfiança de que essa doutrina seja verdadeira.

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Fonte: spurgeon.org
Tradução: Josemar Bessa
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