Casamento obrigatório? Respondendo...

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Determinado pastor fez um recorte de uma fala de O. Palmer Robertson: “Portanto, o casamento pode ser considerado como uma dimensão altamente significativa na ordenança divina da criação. Essa ordenança continua a ter importância obrigatória para o homem na redenção”.

A fala está no livro O Cristo dos Pactos” (p. 64) e encerra a questão do casamento na aliança da criação. Após fazer o resgate dessa frase, ele cita 1 Coríntios 7. 1,27: “E aos solteiros e viúvas digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo... Estás casado? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures casamento.

Na citação de Robertson, ele coloca o título “Teologia Aliancista”. Já o texto de coríntios, intitula como “Teologia Bíblica”, dando a entender que existe uma contradição, forçando o julgamento de que o aliancismo não é bíblico. Todavia, o pastor além de ser tendencioso em seu recorte, também foi desonesto. O próprio Robertson não ignora o texto mencionado e dá uma explicação. Vejamos:

O argumento de Robertson, que é um eminente teólogo aliancista, repousa no fato de que na criação Deus institui o casamento como sendo uma ordenança para o homem criado. “...não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Ao ser questionado sobre o divórcio, que é a anulação do casamento, Jesus evocou a criação para defender a indissolubilidade do matrimônio “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher’” (Mt 19.4). Cristo então prossegue: “‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe (Mt 19.5,6).

Vejam que aquilo que Deus estabelece na criação é paradigma para a humanidade. O casamento é a base da sociedade e é responsável pelo povoamento da terra. “Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se!” (Gn 1.28). A multiplicação se dá através da geração de filhos mediante o ato sexual, e este só é abençoado no leito do matrimônio. A sexualidade foi algo criado por Deus para o deleite do casamento. Adão e Eva foram criados para formar uma família, dando origem a outras famílias. Por isso que em Levítico 20 há uma lista de pecados envolvendo relações íntimas. O adultério, o incesto, a sodomia, relações sexuais com parentes de primeiro grau e zoofilia são atos pecaminosos que desagradam a Deus. Sendo assim, o casamento é normativo e é obrigatório para a raça humana continuar aquilo que começou lá no Éden. Essa é a citação de Palmer em seu devido contexto:

“A propagação da raça por meio da instituição do casamento indica o meio primário pelo qual os propósitos de Deus na redenção encontram cumprimento. Deus realiza seus propósitos de redenção não por um método contrário às estruturas da criação, mas por método em conformidade com a criação.
Portanto, o casamento pode ser considerado como uma dimensão altamente significativa na ordenança divina da criação. Essa ordenança continua a ter importância obrigatória para o homem na redenção”. (O Cristo dos Pactos, p. 64)

A obrigação não é em relação aos indivíduos, pois alguns destes não se casarão - o que diz o texto de Paulo aos coríntios, e que Robertson já havia comentado anteriormente, na pág. 63:

“Embora a injunção de Deus para multiplicar e encher a terra aplique-se ainda aos homens de hoje, e o casamento ainda permaneça como a intenção criacionalmente ordenada ao homem, não se deve ver nenhuma contradição quando a expressão apostólica ‘é bom que o homem não toque mulher’ (1Co 7.1) é colocada ao lado da ordem da criação ‘não é bom que o homem esteja só’ (Gn 2.18). Com base no ‘dom’ necessário para permanecer no estado de solteiro (1Co 7.7), e devido aos sofrimentos do tempo presente (1Co 7.26), o homem ou a mulher pode deixar de casar-se”.

As dificuldades do casamento, isto é, dificuldades de se relacionar, resultam do pecado: “Mas aqueles que se casarem enfrentarão muitas dificuldades na vida, e eu gostaria de poupá-los disso” (1 Co 7.28b). Um pouco antes Paulo diz que sua recomendação para não casar não é mandamento, é um parecer que ele dá para evitar os que são virgens e jovens para que não sofram com as pressões da vida matrimonial (vide 1 Co7:25,26). Gosto de uma frase que diz: “Enquanto o pecado for amargo, o casamento não poderá ser doce” (Extraída de “Quando Pecadores Dizem Sim”). Isso quer dizer que é o fato dos cônjuges serem pecadores causam as aflições da vida de casado, todavia, a percepção de que somos pecadores também opera nos cristãos a dependência e o desejo de andar com Cristo, tendo fé de que ele nos santifica mediante a obra realizada pelo Espírito Santo em nós.


Dito tudo isso, chegamos então a duas conclusões:

1. O que o aliancismo prega sobre o casamento não é contrário a Bíblia, nem mesmo é contrário ao texto específico de 1 Coríntios 7. O casamento é obrigatório para a RAÇA HUMANA sim, além disso, ele é o meio ordinário para que Deus cumpra seu propósito redentor. Não se pode negar tal fato por conta de alguns poucos indivíduos que, por dom ou por outras razões, optam por não casar.

2. O tal pastor, além de infeliz em sua saga para enfraquecer o aliancismo, usou um meio desonesto para fazer isso. O recorte intencionalmente distorceu o que disse Palmer Robertson. Isso é dar falso testemunho, quebra do nono mandamento (Coisa grave!) Mas, não sei se por conta de seu dispensacionalismo, talvez ele ache que o decálogo não seja válido, podendo então ser assim descumprido. Será? Bem, a certeza que pode se ter é que o episódio é muito triste. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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O que Calvino realmente disse sobre o Quarto Mandamento?

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João Calvino de Genebra (1509-1564) desferiu o golpe de morte para os dias de festa dos romanistas e deu grande ímpeto ao Decálogo e à observância do domingo. Muito uso tem sido feito pelos antinomistas anabatistas a respeito das cuidadosas afirmações de Calvino em suas Institutas de 1536 de que “foi bom deixar de lado o dia guardado pelos judeus” – mas pouco uso tem sido feito das afirmações igualmente cuidadosas que aparecem duas linhas depois na mesma sentença, de que “foi necessário estabelecer em seu lugar outro dia”.[i] Antinomistas têm enfatizado a afirmação verdadeira de Calvino contra os romanistas de que guardadores ferrenhos do domingo “insultam os judeus pela mudança do dia, e ainda atribuem a ele a mesma santidade” – mas ignoram sua afirmação, igualmente verdadeira (aparentemente contra os antinomistas!) que aparece seis linhas depois: “Tenhamos o cuidado, entretanto, de observar a doutrina geral... diligentemente comparecendo às nossas assembleias religiosas”.[ii]

Anti-calvinistas desprezadores da lei não falharam em apreender a opinião correta do genebrino quando disse que “o sábado tenha sido revogado” – mas falharam em apreender com igual correção a opinião apresentada na seção seguinte, de que “algumas mentes levianas se agitam demais hoje em dia por causa do domingo. Queixam-se de que o povo cristão continua preso a um tipo de judaísmo, visto que ainda retém alguma observância de dias. A isso respondo que sem judaísmo observamos o domingo”.[iii] Essas “mentes levianas” não se furtam de citar fortes afirmações de Calvino de que “Cristo é o verdadeiro cumprimento do sábado” e que ele “não está contente com um dia, mas exige o curso inteiro de nossa vida” etc. – mas se furtam de afirmações igualmente fortes de que Deuteronômio 5 é “igualmente aplicável a nós como aos judeus” e que nos tempos apostólicos “os primeiros cristãos substituíram o sábado por aquilo que nós chamamos de Dia do Senhor”![iv]

Contudo, talvez ainda mais importante do que suas visões nas Institutas de 1536 – escritas em seus tenros 26 anos de idade – são as afirmações posteriores de Calvino sobre a questão do sábado, sobre as quais os antinomistas mantêm o mais profundo silêncio. Em seu sermão em Deuteronômio 5, ele escreveu sobre “quando as janelas das nossas lojas estão fechadas no dia do Senhor, quando não andamos segundo a ordem comum e o costume dos homens”. Ele pergunta: “Se empregamos o Dia do Senhor para nos distrair, para nos exercitar, para ir a jogos e passatempos, Deus está sendo nisto honrado? Não é isto uma zombaria? Não é uma profanação de seu nome?”[v]

Em 1550, de acordo com Beza, seu biógrafo, Calvino determinou “que não deveria haver qualquer outro dia de festa, exceto um em sete, que nós chamamos de Dia do Senhor”[vi]; e no ano de 1554, ele escreveu em seu Comentário de Gênesis (2.1-3) que Deus “primeiro descansou, então abençoou este descanso que em todas as eras deveria ser sagrado entre os homens”. “Deus”, continuou Calvino, “consagrou cada um dos sétimos dias de descanso” e que, “sendo ele [o shabbath] ordenado aos homens desde o princípio, para que o empreguem na adoração a Deus, é certo que deve continuar até ao fim do mundo”. Além disso, conclui, “deve-se notar que essa instituição tem sido dada não a um único século ou povo, mas a toda a raça humana”.[vii]

Um ano antes de sua morte em 1564, Calvino claramente afirmou com respeito a Êxodo 20, em sua obra Harmonia do Pentatêuco, que “temos a mesma necessidade de um dia de descanso que os antigos”; e acrescentou: “não é crível que a observância do dia de descanso tenha sido omitida quando Deus revelou o rito de sacrifício aos santos Pais, mas aquilo que na depravação da natureza humana estava completamente extinta entre as nações pagãs, e quase obsoleta entre a geração de Abraão, Deus renovou em sua lei”.[viii]

Essas visões do grande genebrino foram propagadas e desenvolvidas por todos os seus seguidores que orgulhosamente chamavam-se por seu nome – os calvinistas.

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Notas:

[i] Calvino. “Institutas”, II:VIII:33.
[ii] Ibid., II:VIII:34.
[iii] Ibid., II:VIII:32,33.
[iv] Ibid., II:VIII:32,34.
[v] A. A. Hodge. op. cit., pp. 18-19.
[vi] Beza. op. cit., I, p. xciii.
[vii] A. A. Hodge. op. cit., pp. 17:8; Kuyper. “Tractaat” etc., pp. 165-166.
[viii] Calvino. “Harmony of the Pentateuch”, p. 437.

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Autor: Dr. Francis Nigel Lee
Fonte: The Covenantal Sabbath
Tradução: Márcio Santana Sobrinho
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O Princípio Regulador do Culto

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De todas as atividades da Igreja, a mais nobre e a mais importante é o culto a Deus. Fomos criados para, na adoração a Ele, nos deleitarmos e sermos plenamente felizes e satisfeitos em e para a Sua glória; evangelizamos a fim de que os eleitos de Deus sejam alcançados e salvos, e, assim, se juntem à Igreja Invisível e à Visível também no louvor e adoração ao santo Nome de Deus. Mas, o culto a Deus tem de ser da forma como Ele requer de nós. Não deve ter invencionices humanas, nem visar agradar às pessoas, mas, sim, conformá-las à vontade soberana de Deus, e, assim, elas encontrarem a verdadeira felicidade para os seus corações. Por isso mesmo, Deus nos prescreveu princípios que regulam o Seu culto.

O princípio regulador do culto é claramente expresso nas Escrituras, mostrando que tudo o que não é ordenado pela Escritura no culto a Deus é proibido. Os textos-chave são: “Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes; para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o Senhor Deus de vossos pais vos dá. Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4.1,2). “Guarda-te, que não te enlaces seguindo-as, depois que forem destruídas diante de ti; e que não perguntes acerca dos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações os seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Assim não farás ao Senhor teu Deus; porque tudo o que é abominável ao Senhor, e que ele odeia, fizeram eles a seus deuses; pois até seus filhos e suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses. Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás” (Dt 12.30-32).

Tanto na pregação da Palavra quanto na liturgia (serviço de culto a Deus) não podemos ir além do que está revelado nas Escrituras. Os hinos e músicas cantadas, as orações e a pregação não podem jamais ir além ou aquém das Escrituras. Deus fala por meio delas, e se elas não nortearem cada parte do nosso culto, então não podemos dizer que cultuamos a Deus como Ele requer de nós.

A Assembleia de Westminster além de produzir a nossa Confissão de Fé, os Catecismos, Breve e Maior, também produziu “Um Diretório de Culto”, o qual embora não tenha sido (lamentavelmente) adotado oficialmente pela IPB, podemos utilizá-lo como um norte para o nosso culto.


Da Reunião dos Crentes da Igreja e Seu Comportamento no Culto Público de Deus
Quando a Igreja se reúne para o Culto Público, as pessoas (tendo antes preparado seus corações para o mesmo) devem todas vir, e tomar parte; não se ausentando das Ordenanças Públicas por negligência, ou por pretexto de reuniões particulares.
Que todos entrem no recinto da Reunião, não com irreverência, e sim de maneira comedida e decorosa, tomando seus lugares sem mesuras (cumprimentos) em direção a um ou outro lado, ou outros movimentos de adoração.
Os fiéis estando reunidos, o ministro, depois de convoca-los solenemente à adoração do grande nome de Deus, deverá começar com Oração: “Reconhecendo em toda reverência e humildade a incompreensível grandeza e majestade do Senhor (em cuja presença eles assim se apresentam de modo especial), e sua própria condição vil e indigna de se aproximar Dele; com inteira incapacidade por si mesmos de fazer tão grande obra; e humildemente implorando-Lhe o perdão, auxílio e aceitação em todo o Culto a ser então realizado; e por uma bênção naquela porção definida de sua Palavra que ora será lida; e tudo mais, em o Nome e pela mediação do Senhor Jesus Cristo”.
Uma vez começado o Culto Público, as pessoas deverão dirigir toda sua atenção a este culto, evitando ler qualquer coisa que não seja o que o ministro está lendo ou citando no momento; e abstendo-se sobretudo de todos os cochichos, consultas, saudações, ou cumprimentos particulares a quaisquer pessoas presentes, ou que estejam entrando; como também de todos os olhares fixos, cochilos, e outro comportamento indecoroso, que possam perturbar o ministro ou as pessoas, ou impedir a si mesmo ou a outros de cultuar a Deus.
Se por necessidade as pessoas forem impedidas de estarem presentes no início, não devem, ao entrar na Igreja, se entreter em devoções pessoais, e sim reverentemente se comporem para se unir com a congregação, para a Ordenança de Deus que esteja ocorrendo no momento.
(Extraído do Diretório de Culto de Westminster).

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Autor: Rev. Olivar Alves Pereira
Fonte: Noutesia

Esse artigo é o conjunto das duas primeiras postagens da série O Princípio Regulador do Culto que está sendo publicada periodicamente no site do autor. Fique ligado e acompanhe as futuras publicações da série, aqui!
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O Mito da Natureza

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Um dos maiores mitos do mundo moderno é a ideia de que há algo chamado “Natureza”, a qual é definida pela Segunda Edição Integral do Dicionário Merriam-Webster como “um princípio, força ou agente, ou ainda um conjunto de forças ou princípios controladores e criativos, que opera ou se encontra em operação num ente, determinando total ou principalmente sua constituição, desenvolvimento, bem-estar...”; ou também “aquilo que é produzido por forças naturais; o universo, tomado como as leis que governam a natureza; na natureza nada acontece sem causa; mais precisamente, a totalidade da realidade física, excluindo as mentes e o elemento mental”.

Ora, uma coisa é dizer que o universo ou criação existe; outra, todavia, é afirmar que este universo é a fonte de suas próprias leis e fenômenos, ou que é um sistema autocontido de causalidade. Não há na Bíblia um termo como “Natureza”. E, na verdade, as Escrituras não reconhecem a Natureza como a fonte e causa dos fenômenos naturais; pelo contrário, elas veem Deus em operação direta e absoluta em todos os fenômenos naturais. Não há lei inerente à “Natureza”, mas, sim, uma lei sobre a “Natureza”. Destarte, o termo “Natureza” é um coletivo para uma realidade não-coletivizada, e com isto queremos dizer que a “Natureza” não possui unidade em e de si mesma que faça dela uma ordem unificada. Afirmar a existência da unidade na e como “Natureza” é advogar um princípio hierárquico no tocante ao universo e suas esferas.

Desse modo, se a “Natureza” é uma unidade, seja em fase estacionária, ou em processo, logo representa um sistema de autoridades, poderes e leis superiores e inferiores, estando sujeita a uma compreensão com base em seu desenvolvimento passado, presente ou contínuo – como uma cadeia do ser no qual há os seres inferiores e superiores. As leis, pois, deste domínio do ser devem ser derivadas a partir da interioridade da escala do ser. Caso o elemento primitivo e inferior seja encarado como vital, então configura-se como a verdadeira fonte de poder e determinação. Todavia, caso seja se considere o racional e superior como o mais importante, segue-se que este se torna, então, a fonte necessária de poder e determinação. Contudo, em todo o caso, a causalidade e o poder criativo não inerentemente localizados dentro do universo, de modo que é necessário tomar a “Natureza” como o fundamento do ser, a fonte da ultimidade, e “o sistema de todos os fenômenos no espaço e tempo”.

Se Deus é o Criador, então o sistema não é a “Natureza”, mas, sim, o decreto eterno de Deus. Ora, a exclusão do conceito tradicional de “Natureza” implica também na alteração dos conceitos tradicionais de natural e sobrenatural. No âmbito do mito [da Natureza], o natural representa a vida normal de um sistema cósmico autocontido, ao passo que o sobrenatural é a intrusão da atividade de Deus neste sistema. 

No entanto, se os eventos naturais e sobrenaturais são igualmente a atividade do Deus triúno, e, ambos, de semelhante modo, Sua atividade direta, então a distinção deve ser pautada em outros termos. A Bíblia não hesita em atribuir a Deus as tempestades, relâmpagos, trovões, secas, pragas e outros acontecimentos naturais da mesma forma que atribui também a Ele o nascimento virginal e outros milagres. Ora, as Escrituras fazem uma distinção notável entre o nascimento dos homens em geral e o nascimento de Jesus Cristo; porém a diferença não está em situar Deus no milagre e atribuir os nascimentos habituais à “natureza”. Pelo contrário, Deus Se encontra igualmente em ambos; e tanto um quanto o outro se tratam da ação, poder e decreto diretos de Deus. Portanto, a diferença não está no grau da presença ou atividade divinas, mas na natureza dos atos. Os nascimentos naturais representam o padrão de Deus para a humanidade em sua geração, ao passo que o nascimento virginal representa Seu padrão para a humanidade em sua regeneração. Ora, o nascimento virginal é ímpar, entretanto é ainda o padrão ou plano de Deus nos termos de Seu decreto eterno: em Cristo, é dada uma nova criação à humanidade, e todos aqueles que nasceram de novo nEle são “os que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13).

A introdução do conceito de “Natureza” e da lei natural, oriunda da filosofia helênica, levou a um desvio da fé bíblica. A lei natural trata de um sistema autocontido de sua própria lei inerente. O deísmo foi um de seus produtos, o qual reduziu Deus a um mecânico que somente criou a “Natureza”, e esta, agora, funciona independentemente de Deus. O próximo passo foi a aceitação da ultimidade da “Natureza” e o afastamento total de Deus.

O caminho para o restabelecimento teísta é apenas possível por meio de um ataque sistemático sobre o conceito ilegítimo da “Natureza”, que impôs, pelo menos, uma membrana entre Deus e o homem, e, em sua forma plenamente desenvolvida, suplanta Deus com um universo autocontido. A “Natureza” é um conceito bastardo e deve ser, portanto, abandonado. 

NOTAS SOBRE “A MITOLOGIA DA NATUREZA”, POR VÍTOR BARRETO

A crítica de Rushdoony à lei natural é comumente equivocadamente compreendida no meio reformado conservador. Ela não pode ser confundida, por exemplo, com a crítica de Karl Barth, cuja cosmovisão manteve o dualismo tomista natureza-graça, e que, como uma espécie de existencialista cristão, desvalorizando o “andar inferior da natureza”, em termos schaefferianos.

Rushdoony, pelo contrário, seguiu a trilha iniciada por Herman Dooyeweerd, buscando apenas subjugar a política ao motivo básico religioso da Criação-Queda-Redenção. Assim sendo, sua crítica começa com uma abordagem histórica dos efeitos do dualismo graça-natureza em Tomás de Aquino, que era uma síntese da teologia cristã com uma visão de natureza derivada do aristotelismo. Como Dooyeweerd explica em “Raízes da Cultura Ocidental”, a visão de natureza da filosofia grega era, ela própria, oriunda de uma síntese entre as antigas religiões da natureza e a nova religião cultural grega (ver “Raízes da Cultura Ocidental”). Não é possível negligenciar a impossibilidade de reconhecermos a filosofia grega como “neutra”, mas como igualmente religiosa. Em “The One and The Many”, Rushdoony mostra como a filosofia aristotélica tinha um aspecto esotérico. É impossível sintetizar motivos religiosos básicos, porque ambos partem de pontos absolutos distintos. Nas palavras de Rushdoony no livro Sovereignty, “As raízes da mudança do homem cristão para o homem civil estão na adoção do pensamento de Aristóteles pela igreja medieval”. A síntese tomista, portanto, foi o descarrilar político-filosófico que trouxe-nos a secularização e a exclusão do cristianismo da vida pública, especialmente depois que Guilherme de Ockham levou o dualismo tomista às suas consequências lógicas, distanciando a natureza e a graça. Se a natureza é reconhecida como uma realidade substantiva e equilibrada, funcionando por leis próprias independentemente da ação divina, então ela é também a fonte da lei e a base para a organização humana. A Lei de Deus não é mais levada em consideração, antes, deve-se obedecer à natureza. Isto é perceptível nos nossos dias, quando anti-cristãos atacam a fidelidade conjugal e a castidade antes do casamento, alegando que a natureza humana requer sexualidade como uma “necessidade fisiológica”.

Nesse caso, o conflito entre uma natureza tornada normativa e a Lei de Deus torna-se evidente. Para Aristóteles, por exemplo, que não possuía a Revelação especial de Deus, a família seria uma instituição “natural” cuja função seria prover a satisfação de necessidades alimentares e sexuais. Não há menção aqui ao propósito espiritual do casamento. Semelhantemente, o estado passou a ser visto como uma organização natural responsável por conduzir a comunidade a um objetivo também natural, que em momento algum leva em conta a existência do pecado ou a função de punição do mal, conforme Paulo descreve em Romanos 13. A visão da sociedade natural de Tomás era derivada do aristotelismo. Para ele, a igreja exerceria a função de orientadora sobrenatural, como cabeça espiritual do mundo natural. Depois de Tomás, portanto, a lei pública deixou de ser baseada na religião cristã para ser baseada na “lei natural” como uma interpretação racional-empírica da própria natureza através da observação de tendências e necessidades humanas, ao passo que a Revelação Bíblica foi posta de lado a favor das supostas certezas científicas. [Tomás tinha duas fontes de conhecimento, a Bíblia e os sentidos; ver Três Tipos de Filosofia Religiosa, do Gordon Clark. Tomás, seguindo Aristóteles, entendeu que é possível para a mente do homem obter conhecimento sem referência a seu estado moral; a visão da mente do homem como uma “tábula rasa” em John Locke segue a mesmíssima linha, e ambas produziram a divisão fato-valor que Nancy Pearcey discutiu em “A Verdade Absoluta”. Hoje, tal linha de pensamento é a hegemônica no Ocidente]. A lei agora é “da natureza”. Mas Rushdoony diz em outro lugar, “se a lei é natural, tudo o que nos resta é uma moral naturalista”. Em um de seus efeitos, a vida humana primeiramente passou a ser vista como tendo dois propósitos: um espiritual e o outro “natural” ou “social”, para em seguida se expurgar o propósito espiritual como um elemento alheio e prejudicial ao homem natural.

No primeiro caso, do qual nem mesmo os países protestantes conseguiram desvencilhar-se completamente, percebe-se que resiste uma visão comum do chamado “bom cidadão”. Às vezes, alguém pode não ser nem mesmo um cristão, mas é reconhecido como um “bom cidadão” caso adeque-se às exigências sociais. A doutrina da depravação total e da Graça não permite um julgamento dessa categoria. No segundo caso, o cristianismo passou a ser inimigo da liberdade e dos potenciais humanos. Nasceram assim as teorias políticas hostis e estatistas como a de Thomas Hobbes e outros. É preciso dizer que Hobbes representou uma transição do direito natural clássico para o moderno. Ele mesmo foi influenciado por Maquiavel, que também foi influenciado por uma teoria própria de direito natural.

É provavelmente com Hobbes que notamos aquilo que Edmund Burke percebeu como sendo o ataque do ateísmo contra o cristianismo. “Antigamente, a audácia não era uma característica dos ateus como tais. (...) Mas posteriormente eles se fizeram ativos, astuciosos, turbulentos e sediciosos”. Groen Van Prinsterer, um leitor de Burke, reconheceu que a raiz das revoluções modernas é principalmente “um conceito ateísta de liberdade”.

Com efeito, os revolucionários imanentizaram a fonte das leis – do Deus transcendente para o reino da natureza. Como disse Charles Beard, “os seguidores do clero e os monarquistas pretendiam ter direitos especiais por direito divino. Os revolucionários invocavam a natureza” (In: Direito Natural e História, Leo Straus, 111.). E embora alguns possam argumentar sobre as diferenças entre o direito natural moderno e o direito natural clássico, o fato é que também no direito natural clássico, a autoridade do ancestral, das tradições e das religiões é desarraigada em favor da autoridade conferida à natureza. Como diz a famosa frase de Schaeffer, “a natureza devorou a graça”. Foi o que efetivamente aconteceu no Ocidente. Depois de Hobbes, vieram, cada um a próprio modo, Rousseau, Hegel até o Marquês de Sade. Se a transcendência é negada, como Rushdoony diz no texto acima, é possível, pois, elencar a excelência da razão dentro do mundo natural. Foi o que fez Hegel. Para este último, por fim, o estado era a encarnação da Razão e, portanto, a autoridade máxima na natureza. A menos que, como alertava Dooyeweerd, retornemos ao móvito básico religioso da Criação-Queda-Redenção, amargaremos repetidas revoluções no Ocidente.

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Autor: Rousas John Rushdoony
Fonte: The Mythology of Science, p. 127
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Notas: Vítor Barreto
Divulgação: Bereianos
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A Coerência da Ordo Salutis Reformada

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Ordo salutis
("ordem de salvação") é o nome latino que se dá àquela organização lógica e mais ou menos cronológica das diversas ações divinas, agenciadas pela Terceira Pessoa, ligadas à economia da salvação para o indivíduo. E essa representação esquematizada posiciona-se como um ponto de cisão entre as diversas tradições legítimas do cristianismo [1]: católicos a concebem de uma maneira, luteranos de outra, arminianos de outra. A ordo salutis reformada, entretanto, apresenta-se como a que mais precisamente faz jus ao ensino bíblico acerca da salvação, considerando esta doutrina pelo prisma do tota scriptura, valendo-se de uma lógica pressuposicionalista e empregando de forma adequada os assentos da depravação total do ser humano e da perfeita liberdade e soberania de Deus. 


A ordo salutis reformada

Em seu esqueleto mais conciso, a ordem de salvação dos reformados é organizada como se segue:

        (I) eleição;
        (II) regeneração;
        (III) chamado;
        (IV) conversão;
        (V) santificação;
        (VI) glorificação.

Portanto, a concatenação lógica destes mistérios do Espírito deve ser, para que se materialize segundo a Escritura, exatamente como foi expressa. Ela deve postular essas operações na ordem em que a Bíblia nô-las apresenta e a qual os reformados honram com sua teologia. 

Argumentação bíblica em favor da ordo reformada 

Embora a eleição não seja uma aplicação dos méritos de Cristo ao pecador individual - conforme normalmente propõe a definição de ordo salutis - , é prudente considerarmos esta doutrina no approach em questão pelo simples fato de que, em última instância, tudo o que ocorre com o pecador na ordem de redimí-lo é decorrência de uma vontade soberana de Deus. Assim, em primeiro lugar, a eleição é o ponto de partida para tudo pois ela é nada menos do que a dimensão soteriológica da doutrina dos decretos de Deus. 

A Escritura afirma:

"[...] anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; [...] O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade." (Isa 46:10)

Tudo o que acontece é resultado direto de um decreto eterno de Deus. Deus decretou todas as coisas (todas!), desde a eternidade. A salvação, desse modo, está incluída nos decretos de Deus. 


Em segundo lugar, Deus implanta nos seus escolhidos o princípio da nova vida, batizando-os no Santo Espírito. Desde que os outros "momentos" da salvação de um pecador pressupõem o seu estado de vida (uma pessoa não pode ter fé nem santificar-se se está morta em pecados - Ef 2.1,2), e desde que o homem morto em seus pecados não pode fazer absolutamente nada nem por si, nem por outros, é lógico que, antes sequer que ele possa dar-se conta de sua salvação, ele precisa estar "salvo", ele precisa estar REGENERADO. 

Diz o apóstolo João:

"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12-13)

Este verso, fazendo eco ao ensino geral das Escrituras, mostra que os filhos de Deus são os que crêem Nele, e diz que estes mesmos que crêem nasceram da vontade única de Deus! A lição é clara: se uma pessoa crê em Deus é porque ela já foi nascida de Deus, já foi regenerada. Do contrário, como diz Paulo,
"a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser." (Rom 8:7)

Em terceiro, os que Deus regenerou são chamados para a vida com Deus e só podem obedecer ao chamado porque foram regenerados. E este chamado divino, que não pode ser resistido visto que parte de um decreto eterno (eis o motivo pelo qual a eleição deve ser lembrada na análise da ordo salutis), dá-se por instrumentalidade da palavra de Deus:

"Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada." (1Pe 1:23-25)

A palavra de Deus, tornada eficaz pela poderosa ação do Espírito, opera como meio instrumental de conversão. E, novamente, há uma lógica aqui. Se a conversão pode ser resumida como arrependimento e fé, se arrependimento e fé só podem ser articulados em função de um conteúdo objetivo de informações, e se este conteúdo consta exclusivamente na palavra de Deus, então é evidente que apenas pela palavra de Deus uma pessoa regenerada pode ser chamada à conversão. 


Em quarto, portanto, o pecador que já recebeu a semente da vida incorruptível e que foi chamado pela "palavra que permanece para sempre", é convertido mediante ação do mesmo Espírito. Neste ponto, há uma observação a ser fixada: pode haver um hiato de tempo entre a regeneração e a conversão. Louis Berkhof acentua:

"[Regeneração] é uma mudança que ocorre na vida subconsciente. É uma secreta e inescrutável obra de Deus que o homem nunca percebe diretamente. A mudança pode ter lugar sem que o homem esteja cônscio dela momentaneamente, se bem que não é o que se dá quando a regeneração e a conversão coincidem". [2]

Dessa forma, a conversão caracteriza-se precisamente pela necessidade de consciência da parte do pecador. Ele precisa saber a quem está sendo convertido:

"E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (João 17:3)

Em quinto lugar, os que foram convertidos são iniciados, agora, em sua santificação. Conquanto um não-regenerado não possa obedecer a Deus, o que qualifica um pecador convertido é precisamente aquela sua vontade de servir a Deus, amá-lo e obedecê-lo. 


Diz Paulo aos romanos:

"Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. … Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. … E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados." (Rom 8:5,14,17)

Outrossim, com o mesmo poder onipotente com que Deus constrange seus eleitos à conversão, eles são santificados de forma irresistível. Se Deus decretou a salvação dos que escolheu, e se a glorificação deles depende também de seu engajamento na santificação, é mister que Deus os garantirá nesta etapa da
ordo. Os salvos, como atesta a Escritura, podem cair em graves pecados e por algum tempo continuar neles; incorrer assim no desagrado de Deus, entristecer o seu Santo Espírito e de algum modo vir a ser privados das suas graças e confortos; e ter os seus corações endurecidos e as suas consciências feridas; prejudicando e escandalizado os outros e atraindo sobre si juízos temporais [3]. Contudo, Deus os restaurará à obediência no caminho santo. 

Por fim, em sexto e último lugar, os mesmos que foram eleitos na eternidade serão glorificados no final. Não há opção quanto a isso e não há evento contingente que se interponha como barreira à ação e aos decretos de Deus. 

A Bíblia diz:

"Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo. … Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou." (Rom 8:22-23,29-30)

A glorificação dos santos é certa primeiramente porque ela é um componente sine qua non do decreto salvífico de Deus: o Senhor não apenas predestinou "os que conheceu de antemão", mas os predestinou para serem conformes a imagem de Jesus Cristo. A existência de um final pressupõe o sucesso e a concreção dos meios. Ademais, aos que Deus predestinou, ele também chamou e, por fim, glorificou. Ou seja, os mesmos que foram chamados serão glorificados. Os mesmos! E, mais do que isso, sua glorificação é tão certa que a Escritura a posiciona como um evento passado, ao lado do chamado e da justificação. Para Deus, tudo está tão certo que essas obras são consideradas fatos consumados.  


Estes, concluindo, são os diversos elos da corrente de eventos soteriológicos. E a coerência na disposição dessas operações, tanto mais se aproxima da ordo salutis reformada mais reflete a lógica da Escritura. 


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Notas: 
[1] Esse ponto não fraciona a igreja universal de tal maneira que sua identidade cristã seja anulada ou que sua unidade seja perdida. A igreja, na ordem de manter-se como tal, deve concentrar seu senso de comunhão na doutrina mais central do cristianismo, resumida com perfeição no Credo Apostólico. 
[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática: São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
[3] CFW XVII.III.

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Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
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A perigosa interpretação de Mateus 24.36 feita pelo Pr. Marcos Granconato

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Recentemente deu-se uma polêmica envolvendo o pastor batista Marcos Granconato, devido a um vídeo em que o mesmo fala que Jesus não é onisciente quando se considerado as relações intratrinitárias, limitando sua onisciência às relações extratrinitárias. Em outras palavras, Granconato disse que Jesus só seria onisciente na relação da Trindade com as coisas criadas, pois, segundo o mesmo diz em sua mensagem, Deus-Pai guardou certas coisas apenas para si. Alguns o acusaram de heresia, já outros foram mais brandos, discordando de sua posição, todavia não o chamando de herege. O fato é que o Granconato foi infeliz em suas afirmações, ditas ao expor o difícil texto de Mateus 24.36, que diz o seguinte: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”. Mais à frente voltarei a esse texto, mas antes gostaria de dizer o porquê considero o ensino do Marcos Granconato perigoso.

Dizer que Deus-Pai guarda coisas para si que não são reveladas ao Deus-Filho, inferioriza Jesus. Ele não poderia ser uma divindade da mesma “estatura” do Pai, já que não seria onisciente por completo, sendo que a onisciência é um atributo divino. Mas, a máxima cunhada por Tertuliano, que foi reafirmada pela ortodoxia cristã diz “uma substância, três pessoas”. Por substância, devemos entender que é o elo incomum entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no qual se baseia a unidade da Trindade. É devido à substância ser a mesma que não ocorre uma divisão entre as três pessoas da Deidade, gerando uma unidade na diversidade. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo desempenham papéis diferentes no plano de salvação (Trindade econômica), sem que haja a perda dessa unidade.

Após Tertuliano, talvez Agostinho de Hipona tenha sido o teólogo que mais contribuiu com a doutrina trinitária, principalmente na tradição ocidental. Ele então afirma que não se pode subordinar (ontologicamente) as pessoas da Trindade. Na eternidade eles são iguais em atributos, poder e glória. Portanto, se afirmarmos, como fez o Granconato, que Deus-Pai retém algum conhecimento para si, logo, caímos no equívoco da subordinação eterna. Contudo, como defende Berkhof[1], a natureza divina é indivisível, isto é, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade. Franklin Ferreira até recomenda rejeitarmos a prática de enumerar os membros da Deidade (e.g. Jesus é a segunda pessoa da Trindade) e diz que a razão para não fazermos isso está na indivisibilidade da natureza divina, inexistindo subordinação entre elas. Logo, embora sendo três personas distintas, elas não se somam.[2]

Granconato, frente ao que já foi exposto, ainda pode argumentar que isso não resolve a dificuldade presente no texto de Mateus 24.36. O que é verdade. Mas o ponto aqui deveria ser o seguinte: no afã de responder esse mistério, é válido prejudicar a doutrina trinitariana? Pois, se a Trindade é o cerne da adoração cristã, não podemos ter uma compreensão equivocada da mesma. Embora reconhecendo que o assunto é complexo, podemos subir “nos ombros de gigantes” e falar sobre a Trindade sem que a plena igualdade de seus membros seja distorcida.[3]

Para interpretarmos Mateus 24.36, a teoria da kenosis não seria a melhor resposta, como alguns deram ao Granconato em debates nas redes sociais. Pois, dizer que Cristo se esvazia, no sentido de deixar de ter seus atributos, seria o mesmo que afirmar que ele não mais teria a substância que concede unicidade à Trindade. O esvaziamento a que a Escritura se refere (vide Fp 2.6-8) não é referente a atributos, mas sim a posição de Cristo, que sendo igual a Deus-Pai em soberania e glória, encarna, e num estado de humilhação se coloca em condição de subserviência.

Então, para sermos coerentes com a doutrina reformada da unipersonalidade de Cristo, presente nas confissões e catecismos, que dizem existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta concomitantemente o status divino-humano, devemos observar a contribuição do extra-calvinisticum.[4] A contribuição em questão, que foi o ponto de discordância entre calvinistas e luteranos, diz, em suma, que os atributos divinos não devem ser limitados pela encarnação. Embora haja completa divindade no Verbo encarnado, pois a natureza divina se uniu a natureza humana numa mesma pessoa, seus atributos não estão confinados na carne, eles estão presentes dentro e fora do corpo de Cristo. Por isso que quando Cristo morre na cruz, a divindade não morreu, pois, a natureza divina não participa da fraqueza humana. Assim como também, as limitações da natureza humana não alcançam os atributos divinos. Por isso que Cristo foi limitado circunstancialmente, mesmo que na sua eterna essência ele nunca tenha deixado de lado a sua onisciência. Esta é uma posição que se enquadra com os postulados de Calcedônia e que faz jus ao fato de Cristo responder que não sabia o futuro, todavia sem deixar de ser onisciente.

Para ficar mais claro, tomemos outro atributo como exemplo: a onipresença. Quando Jesus, em sua forma corpórea deslocava-se de um lugar para o outro, não seria ele, como membro da Trindade, um ser onipresente? O conceito extra-calvinisticum vai dizer que mesmo ele ascendendo aos céus corporalmente, e estando à destra do Pai, se faz presente na ceia. Logo, a encarnação não pode delimitar a divindade de Cristo. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg:

Pergunta 47- “Mas não está Cristo conosco até o fim do mundo, como nos prometeu?” 
Resposta - “Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; quanto à sua natureza humana, agora já não está na terra; mas, quanto à sua divindade, majestade, graça e espírito, em nenhum momento está ausente de nós.”
Pergunta 48 – “Se a sua humanidade não está onde quer que esteja a sua divindade, então não estão as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra?”
Resposta - “Certamente não. Visto que a divindade não está limitada e está presente em toda parte, fica evidente que a divindade de Cristo está certamente além dos limites da humanidade que ele tomou, mas ao mesmo tempo sua divindade está em e pessoalmente permanece unida à sua humanidade.”

Como bem observa o Dr. Heber Campos[5] “Segundo o pensamento reformado, o Logos está no Cristo total, mas a natureza divina do Logos extrapola os limites físicos da natureza humana”. Pois, o infinito não cabe no finito. Se esta não é uma resposta totalmente satisfatória, é de longe a melhor resposta para lhe dar com a dificuldade em questão, pelo simples fato de não trazer prejuízo a cristologia, e nem desembocar numa concepção equivocada da Trindade.


Concluo dizendo que entendo a complexidade do assunto e que todo teólogo está sujeito a dar suas “escorregadas”. O pastor Marcos Granconato é alguém teologicamente gabaritado e que possui anos e anos de labor ministerial, contudo, não está imune aos erros. No entanto, acredito que ele tenha escolhido muito mal a sua resposta frente a uma questão difícil. Talvez, diante da dificuldade de expor o texto, seria melhor apenas dizer que a questão da união hipostática é um mistério inefável, para usar palavras do próprio Calvino. E não negar a ontológica onisciência do divino Logos, como preferiu. Não apenas por sua imagem, mas por zelo pela sã doutrina, cairia bem uma revisão de sua concepção, reconhecendo que seu ensino abre um precedente muito perigoso que pode resultar em noções heréticas da doutrina trinitária. 

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P.S. Gostaria de esclarecer três coisas: A primeira delas é que optei por fazer um texto breve, por achar mais propício devido à densidade do assunto. A segunda é que o Granconato é um irmão em Cristo, não o trato como um adversário. E por fim, não tenho a mínima intenção de gerar um debate cheio de desdobramentos, portanto, esse texto será o único em que exponho o que outros autores já expuseram com maestria. Destaco aqui o Dr. Heber Campos e suas obras sobre a união hipostática das naturezas de Cristo. 

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Notas:
[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, p.84.
[2] Franklin Ferreira usa como referência a obra de Basílio de Cesaréia para defender a plena igualdade entre a trindade. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=bfmLE6SjpLI.
[3] Mesmo havendo alguns teólogos renomados que defendem uma subordinação ontológica, como o Wayne Grudem e Bruce Ware, isso não pode ser tomado como argumento favorável. John Stott, um dos mais eminentes e profícuos teólogos do século XX, defendeu o aniquilacionismo, e nem por isso a ideia ortodoxa do castigo eterno foi flexibilizada apenas porque o Stott ensinou o oposto.
[4] Um ótimo texto sobre o Extra-Calvinisticum escrito pelo Rev. Alan Rennê Alexandrino está disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370.
[5] CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor. Ed. Cultura Cristã, p.284. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Sendo um jovem cristão em uma universidade anticristã

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Há alguns anos atrás assisti uma palestra do Rev. Augustus Nicodemus na qual ele citou um dado alarmante vindo de uma pesquisa feita nos EUA. Segundo ele, somente 3 de cada 10 jovens cristãos americanos continuavam firmes na fé após a sua saída da faculdade. Isso me chamou muita atenção e fiquei imaginando se no Brasil a situação não seria semelhante ou até mesmo pior.

Desconheço a existência de uma pesquisa como essa feita em solo brasileiro, mas, ainda assim, acredito que nossa situação não seja muito diferente. Baseando-me em minha própria vivência em uma universidade pública e observando relatos de amigos a respeito de suas experiências, percebi que nossos jovens, em sua maioria, não estão preparados para lidar com o ambiente acadêmico principalmente de universidades públicas, que é muito hostil ao jovem cristão.

Por conta disso, decidi escrever esse texto com algumas orientações pessoais aos jovens cristãos que irão ingressar ou já ingressaram em uma universidade. Meu propósito é tão somente ajuda-los a manterem sua fé durante o seu tempo de graduação.

1) Busque a Deus, pois é Ele quem te sustenta e guarda do mal.