0 A Confissão de Fé de Westminster e o valor supremo das Escrituras Sagradas

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Por Rodrigo Ribeiro


De forma extremamente coerente a Confissão de Fé Westminster inicia o primeiro capítulo tratando das questões relativas à bibliologia, em perfeita consonância com o principio formal da reforma protestante, o Sola Scriptura. Se um dos lemas mais preciosos dos reformadores dizia respeito justamente à autoridade exclusiva das Escrituras como regra de fé e prática, é natural que a confissão de Fé iniciasse sua jornada teológica a partir deste ponto de partida: a doutrina das escrituras sagradas.

Neste sentido destaca-se o seguinte artigo que trata exatamente da doutrina da revelação: Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo (Confissão de Fé de Westminster, 1:1).

Posteriormente a Confissão trata dos seguintes temas: Doutrina da Revelação (parágrafo I; O Cânon e a Inspiração das Escrituras (parágrafos II e III); Autoridade das Escrituras (parágrafos IV e V); Suficiência das Escrituras (parágrafo VI); Clareza das Escrituras (parágrafo VII); Preservação e Tradução das Escrituras (parágrafo VIII); Interpretação das Escrituras (parágrafo IX) e O Juiz Supremo das Controvérsias Religiosas (parágrafo X).

No tocante à doutrina da revelação, a CFW professa a doutrina da revelação natural, afirmando que a natureza, seja o macrocosmos (estrelas, plantas e etc) ou o cosmo (terra, os mares, o próprio homem e etc) consistem em uma pregação acerca da existência de Deus. Mesmo o homem pós-queda, nasce com uma versão da lei de Deus em si, impulsionando-o à adoração, e consequente idolatria para naqueles que não foram regenerados. Este doutrina tem como fundamentos diversas passagens das Escrituras, como por exemplo Sl 19:1-4 e Rm 2:14-15. Esta revelação torna o homem indesculpável diante de Deus.

Ao compreender esta doutrina somos inclinados a observar as ciências sob uma nova ótica, não mais como inimiga dos cristãos, mas sim como uma forma de descobrir a glória de Deus mediante o estudo de suas obras, pois como afirma Paulo Anglada: “As ciências podem até ser consideradas departamentos da teologia, especializações que estudam a criação e a providência. O estudo da química, da física, da matemática, da biologia, da geografia, da política, da antropologia, da história, etc., deve ter por fim último a glória de Deus. Não é sem razão que muitos dos primeiros cientistas dignos do nome eram cristãos sinceros, como Isaac Newton e Faraday.

O direcionamento materialista e ateísta percebido nas academias só atestam a ação do pecado na vida de muitos cientistas, que se esmeram em compreender a criação, mas são absolutamente cegos e rebeldes diante do Criador de todas as coisas. Estes homens são indesculpáveis.

Diante da insuficiência da revelação natural para salvar os homens, haja vista que a cegueira causada pelo pecado o faz distorcer completamente o testemunho da criação, aprouve a Deus revelar-se de maneira especial e graciosa a sua igreja.

O Senhor do universo escolheu um povo para si e passou a se revelar de forma gradual e progressivamente, primeiramente através dos patriarcas, profetas e por fim através do seu próprio filho encarnado, Cristo Jesus (Hb 1:1-2). Esta revelação entregue à igreja é único meio eficaz do homem alcançar o caminho que o leva a salvação, restaurando sua comunhão com o Criador.

A fim de resguardar este imenso tesouro de valor imensurável, Deus instruiu seu povo para escrever sua revelação, e assim preservá-la de posteriores adições e deturpações. Ainda que esta processo tenha sido efetuado pelos homens, cremos que o próprio Deus esteve por trás destes atos, resguardando o conteúdo de nossa fé, o caminho para a salvação e a piedade.

Diante deste breve mais profundo relato presente nas Escrituras e organizando na Confissão de Fé de Westminster devemos nutrir um apreço intenso pela Palavra de Deus, dando a esta graça que nos foi dada toda a honra merecida, e nos esforçando para permanecer puros e firmes em seus preceitos pois ela é a orientação que vem dos céus para nos levar para junto de nosso Deus.

Nenhuma tradição deve tomar o seu lugar de honra, e nenhuma outra revelação deve suplantar ou concorrer com seu poder normativo. Seu valor é inestimável pois se não fosse esta preciosa revelação todos nós seríamos condenados. Que esta seja nossa Confissão, mas que também seja a nossa verdade. Sola Scriptura!

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Este texto é fruto de um trabalho feito do módulo de BIBLIOLOGIA da Especialização em Estudos Teológicos do Andrew Jumper, ministrado pelo Prof. LEANDRO LIMA, e que teve como base um resumo feito de um trecho do livro de Paulo R. B. Anglada, Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras (São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998), 25-31.

Fonte: UMP da quarta
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0 Os peregrinos e os puritanos

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Por Samuel T. Logan Jr.


Qual é a diferença entre os peregrinos e os puritanos? Todos eles são as mesmas pessoas? Qual dos dois grupos nasceu primeiro? E por que eles surgem como grupos religiosos distintos?

Excelentes perguntas, cada uma!

Ao responder a todas as perguntas acima, o ano de 1517 foi especialmente crucial.

A maioria sabe uma razão para isso, em outubro de 1517, Martinho Lutero pregou suas teses teológicas (declarações) na porta do castelo em Wittenberg, na Alemanha. Mas 1517 é um ano crucial por outro motivo, bem como, no mesmo ano, em Boston, na Inglaterra, em um local onde agora está um pub Inglês chamado de Martha Vineyard, de 1526, (bastante subversivo) discussões teológicas regulares estavam sendo conduzidas na Taverna White Horse em Cambridge. Entre os participantes, alguns futuros luminares como Thomas Bilney, Hugh Latimer, Nicholas Ridley e Thomas Cranmer. Cada um dos quatro foram martirizados posteriormente.

Entretanto, no final dos anos 1520 e início dos anos 1530 Henry VIII estava passando por dificuldades matrimoniais e políticas de tal forma que, em 1533, ele insistiu que a convocação de Canterbury declarasse seu casamento com Catarina de Aragão anulado. No ano seguinte, Henry declarou o Parlamento Inglês como Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra, cortando, assim, todos os laços com a Igreja Romana.

Enquanto Henry não tinha nenhum desejo especial de "reformar" a teologia da igreja, aqueles que haviam se reunido no White Horse (e muitos de seus colegas e simpatizantes) viram isso como uma oportunidade "do Senhor." Talvez agora somente as Escrituras pudessem realmente tornar-se o fundamento da igreja e da nação.

Tais esperanças encontraram pouco apoio real durante a vida de Henry, mas, quando o rei morreu, em 1547, seu filho de nove anos de idade, Edward assumiu oficialmente o trono, governando principalmente através de regentes, ambos (primeiro duque de Somerset e, em seguida, o Duque de Northumberland) tiveram mais simpatia pela visão que tinha iluminado essas discussões em White Horse. O impulso pela purificação da igreja e do estado ganhou grande força na Inglaterra entre 1547 e a morte de Edward em 1553.

Mas a próxima Tudor no trono era Mary Tudor, mais conhecida pelas gerações posteriores como "Maria, a Sanguinária". Mary não queria nada mais a não ser voltar "seu" país para o rebanho católico romano, não importasse o custo.

Entre 1553 e 1558, protestantes exilados inundaram a Europa, na esperança de escapar da espada de Maria, reunindo-se em tais bastiões protestantes como Genebra e Frankfurt. Neste último, veio John Foxe, com 38 anos. Foxe desenvolveu uma visão poderosa do que a Inglaterra poderia ser, se a Palavra de Deus fosse seguida total e fielmente.

A morte de Maria em 1558 e a ascensão ao trono Inglês de Elizabeth, irmã protestante de Mary reverteu à maré mais cedo e trouxe de volta ingleses e inglesas para suas casas em massa. A semente que se tornou o puritanismo recebeu um tiro cheio de fertilizante teológico da pena de John Foxe.

Durante o reinado de Maria, centenas morreram por sua fé. Será que o povo da Inglaterra homenageou essas mortes, aproveitando a oportunidade maravilhosa que o Senhor tinha dado a Inglaterra, removendo Mary e substituindo-a com Elizabeth? Será que o povo da Inglaterra agora insiste que sua igreja e seu estado devem ser completamente purificados de todos os elementos não bíblicos para que ambas as instituições (e todas as pessoas nele) possam trazer honra singular para o Senhor, o Deus da Bíblia?

Estas foram as perguntas no trabalho monumental de Foxe que conhecemos como O Livro dos Mártires. Publicado pela primeira vez em 1563 o trabalho de Foxe foi um relato da intensa a dor sofrida pelos mártires de Maria e uma convocação para trazer a nação e a Igreja da Inglaterra em plena conformidade com a Palavra de Deus.

Muitos daqueles que compartilharam o sonho que tinha sido alimentado na Taverna White Horse agora se apoderaram da expressão das expectativas de Deus para com seu povo de Foxe que insistiu, com fervor cada vez maior, de que tanto a sua realeza e seus líderes eclesiásticos direcionassem todos os assuntos da Inglaterra somente pelas Escrituras, Sola Scriptura. 

A Rainha Elizabeth I, no entanto, viu as coisas de forma diferente. Sua visão era de estabilidade política e de ordem. Elizabeth não tinha nenhum interesse em qualquer tipo de extremismo, especialmente o tipo de extremismo religioso, que os herdeiros teológicos desses debatedores da Taverna White Horse pareciam representar para ela.

A Inglaterra (incluindo a igreja Inglesa) devia, nessa visão elisabetana, ser ampla e inclusiva e basear a sua vida na tradição e na razão, bem como sobre os ensinamentos da Bíblia.

Então, por 1570, havia se desenvolvido na Inglaterra dois grupos:

1) os que favoreciam esse entendimento mais racionalista da Igreja e do Estado, e; 2) aqueles que continuaram a insistir que a purificação dessas duas entidades era exigido pela Escritura e que a Inglaterra deveria agora aproveitar a oportunidade espiritual tão brilhantemente descrita por John Foxe. E foi em meio a essa polêmica que o termo "puritano" começou a ser usado regularmente pelo primeiro grupo como um epíteto irônico de ataque em cima do segundo grupo.

O ano de 1570 viu a intensificação do conflito com pouco "progresso", pelo menos do ponto de vista do partido puritano. Na verdade, com a demissão de Thomas Cartwright de seu cargo de professor na Universidade de Cambridge para promulgar o presbiterianismo, pareceu a alguns puritanos que a causa estava sendo perdida e essa percepção levou à primeira grande cisão dentro do partido puritano.

À medida que o impulso Puritano pode ser principalmente associado (embora, na verdade, precedido) do Livro dos Mártires de Foxe, de modo que o caráter "Peregrino" pode ser rastreado de forma adequada do livro de Robert Browne, Reforma Sem Permanência de Anie, publicado pela primeira vez em 1580. Browne pode ser chamado de puritano desiludido. Ele compartilhou a visão que informou o trabalho de Foxe, mas depois de mais de uma década de busca de renascimento dentro da igreja Inglesa, ele chegou à conclusão de que isso simplesmente não iria acontecer. Browne "separado" da igreja Inglesa e, com a mesma opinião de Robert Harrison, iniciou sua própria congregação em Norwich em 1581.

Assim, formou-se o movimento "separatista", um movimento que mais tarde produziu líderes tais como John Smyth (a quem alguns consideram como o pai dos batistas ingleses), John Robinson, William Brewster, e William Bradford. Os três últimos foram diretamente envolvidos nesse grupo de separatistas, que, em 1608, deixou a Inglaterra para a Holanda e, posteriormente, decidiu emigrar para o Novo Mundo, e desembarcou em Plymouth, Massachusetts, em 1620.

Muitos puritanos (provavelmente a maioria) optaram por permanecer dentro da igreja Inglesa trabalhando por uma reforma, e foi a partir desse grupo que um grupo muito maior de imigrantes saíram da Inglaterra para a Nova Inglaterra no final dos anos 1620, estabelecendo sua colônia na Baía de Massachusetts.

As colônias de Boston e Plymouth eram entidades políticas e religiosas distintas (pelo menos até a época em que o governo Inglês as uniu no final de 1680) e, enquanto as relações entre eles eram geralmente amigáveis, os membros de ambos os grupos eram claros sobre suas diferenças.

"Os Puritanos" queriam permanecer como parte do estabelecimento Inglês, trabalhando por uma reforma bíblica dentro da Igreja da Inglaterra. Mesmo quando eles emigraram para a Nova Inglaterra, eles afirmaram o seu "anglicanismo" e viu o principal objetivo da sua nova colônia como sendo dar um testemunho bíblico, uma "cidade em uma colina", que deu um exemplo de justiça bíblica na igreja e estado para Velha Inglaterra e o mundo inteiro verem. Como teólogos do pacto profundamente comprometidos, eles enfatizaram especialmente fortemente a justiça social de toda a comunidade diante de Deus. 

"Os Peregrinos" queriam alcançar "reforma sem tardança", mesmo que isso significasse a separação de sua igreja e sua nação. Enquanto eles continuaram a pensar em si como Ingleses, sua ênfase estava em sua nova identidade política e identidade espiritual. Por causa de seu compromisso apaixonado com a necessidade de reforma imediata e sem compromisso, eles enfatizaram especialmente fortemente justiça do indivíduo diante de Deus.

O que unia a Baia de Massachusetts e Plymouth, que uniu ambos os puritanos e peregrinos era muito mais significativo do que o que os distingue. Todos os filhos da Reforma sabiam que a salvação era somente pela graça através da fé em Cristo. E eles sabiam disso, porque eles tomaram, como sua autoridade, somente as Escrituras.

Todos sabiam que somente a Deus deve ser dada toda a glória e, em suas diferentes formas, eles procuraram trazer cada pensamento e cada ação religiosa, política, social cativos ao senhorio de Jesus.

Poderia haver alguma meta mais importante para os cristãos americanos de hoje?

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Sobre o autor: Dr. Logan é o presidente do Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, Pensilvânia, onde leciona história da igreja.

Fonte: Reproduzido da revista Tabletalk, vol. 20, 11 de Novembro de 1996, com a permissão do Ligonier Ministries.
Tradução: César Augustos Vargas Américo
Imagem: "Embarkation of the Pilgrims" by Robert Walter Weir, adaptada ao Bereianos.
Divulgação: Bereianos
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0 A palavra “inclinar” em Provérbios 21:1 significa “influenciar” como afirmam os arminianos?

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Por Marcelo Flávio Radunz


Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina.” (Pv 21:1)

A palavra “inclinar” em Provérbios 21:1 pode significar simplesmente “influenciar” como afirmam os arminianos?

Não, não pode. A palavra é ‘natah’ e os significados podem ser: esticar, estender, espalhar, lançar, tornar, perverter, inclinar, curvar, arcar, mas nunca meramente influenciar. O arminiano faz essa objeção porque “influenciar” pressupõe que pode haver uma resistência daquele que está sendo influenciado, mas considere essas definições da palavra. Todas elas pressupõem algo irresistível. Se Deus estica, estende, espalha, lança, torna, perverte, inclina, curva, arca o coração do rei, está implícito que é algo que Ele soberanamente faz sem qualquer resistência da parte do agente. A palavra é usada 12 vezes no livro de Provérbios e vamos analisar cada uma delas para ver seus respectivos significados.

1. A primeira vez que a palavra é usada é em Provérbios 1:24, é a palavra “estender” de “estendi a minha mão e não houve quem desse atenção”. Se isso pode ser interpretado simplesmente como influenciar, então Deus apenas influenciava a sua mão à eles, não realmente estendia.

2. Em Provérbios 2:2, quando é dito “e inclinares o teu coração ao entendimento”, a palavra traduzida com inclinar é ‘natah’. Inclinar o coração é move-lo, desvia-lo para um lado, dirigir. O autor aqui diz o que alguém deve fazer (v. 1-4) para entender o temor do Senhor e achar o conhecimento de Deus (v. 5). Inclinar o coração para o entendimento é uma das condições. Mas se isso pode significar meramente influenciar, então quer dizer que posso entender o temor do Senhor e achar o conhecimento d’Ele meramente influenciando, ou seja, apenas incentivando e induzindo meu coração sem de fato inclina-lo realmente. A interpretação arminiana também encontraria problemas aqui.

3. No versículo 5 de Provérbios 4, ‘natah’ aparece como “apartes” de “nem te apartes das palavras da minha boca”. Se apartar aqui não significa algo certo e irresistível, ou seja, que devemos fazer sem que resistamos, então a ordem é para que nós não nos apartemos das palavras de Deus de uma forma resistível, logo podemos resistir e de fato apartar das palavras de Deus, o que negaria justamente o que está sendo demandado. A interpretação arminiana não funciona aqui.

4. No versículo 20, ‘natah’ é “inclina de” “às minhas razões inclina o teu ouvido”. Mas se o arminianismo estiver certo aqui, então o que Deus pode estar dizendo é que eu devo apenas influenciar, incentivar meus ouvidos às razões de Deus. Induzi-los, e não realmente dirigir e inclina-lo.

5. Ainda no capítulo 4, versículo 27 ‘natah’ vem como “declinar” da frase “não declines nem para a direita nem para a esquerda”. Declinar é sinônimo de desviar. A ordem aqui não é para que simplesmente não nos influenciarmos pela direita ou esquerda, mas para que de fato não desviemos.

6. Dessa vez ‘natah’ aparece como inclinar. O mesmo argumento de 2:2 (2.), 4:20 (4.), 5:13 (7.) e 22:17 (12.) pode ser usado contra o arminiano.

7. Dessa vez ‘natah’ aparece como inclinar. O mesmo argumento de 2:2 (2.), 4:20 (4.), 4:27 (6.) e 22:17 (12.) pode ser usado contra o arminiano.

8. ‘Natah’ aparece como “seduziu-o” em Provérbios 7:21 (“seduziu-o com palavras persuasivas”). A palavra ‘natah’ é empregada aqui justamente para mostrar o total controle que essas mulheres têm sobre esses homens. Com o “lisonjear dos seus lábios” ela o arrasta. Para esse tipo de homem descrito no texto, a sedução dessas mulheres é algo irresistível. Eles estão tão fortemente atraídos, tão profundamente cegos por amor a essa falsa paixão, que são irresistivelmente persuadidos pela tentação. O tipo de homem aqui descrito é tão apegado a mulheres que ele não tem outra escolha senão ir atrás dela, como um boi que vai ao matadouro ou como o cervo que corre para a rede (v. 22). Um arminiano pode dizer que é possível resistir a essas mulheres. Certamente é. Mas não é possível para esses homens que Provérbios 7 descreve. Como vimos até agora, ‘natah’ carrega uma enorme força que implica em um controle irresistível; e o fato do autor usar essa palavra aqui é justamente para entendermos o poder que essas mulheres exercem sobre esses homens. Ela de fato inclina o coração deles ao seu querer. Mesmo que o arminiano consiga de algum modo provar (o que não vai acontecer) que é possível para o homem de Provérbios 7 resistir a essas mulheres, ficaremos então com 10 versículos que mostram que ‘natah’ envolve um controle irresistível e somente 1 que negue isso.

9. Desta vez, vemos a palavra vindo como “perverter” em Provérbios 17:23 , é dito que o ímpio “toma presentes em secreto para perverter as veredas da justiça”. Não. O ímpio não meramente faz isso para influenciar maldosamente as veredas da justiça. Ele de fato perverte. Leia o versículo. É o que o ímpio de fato tem a intenção de fazer, não de tentar fazer.

10. ‘Natah’ vem como “Fazer/ perder” de “fazer o justo perder a questão” (Provérbios 18:5). O versículo diz que não é bom faze-lo perder o julgamento, é mal. O que é mal não é apenas tentar influenciar o julgamento manipulando resistivelmente o juiz, mas de fato o fazer perder o julgamento.

11. Esse é o versículo que causou toda a discussão, Provérbios 21:1. Estamos analisando a palavra para ver o que ele quer dizer, portanto, obviamente não analisaremos esse.

12. Dessa vez ‘natah’ aparece como inclinar. O mesmo argumento de 2:2, 4:20 e 5:13 pode ser usado contra o arminiano.

Assim vemos que ‘natah’ nunca é usado em Provérbios para se referir a uma influência que possa ser resistida, então, a premissa de que a palavra pode querer dizer isso é falsa. Não só em Provérbios, mas provavelmente a palavra nunca é usada nenhuma vez em toda a Escritura para indicar uma influência resistível. Poderia fazer uma extensa análise de todos os versículos que contém essa palavra, mas isso requerera muito tempo e terá que ficar para outra hora. Dizer que o que está sendo dito em Provérbios 21:1 é que Deus influencia o rei, e não que exerce total controle sobre ele é negar o próprio versículo. O “a todo o seu querer” indica que é apenas a vontade de Deus que é levada em conta aqui, e que o controle sobre o rei é completo. Fora que é feito uma analogia: “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer”. Ribeiros de água são um curso de água. Será que Deus não tem total controle sobre os ribeiros de água ou ele só influencia os ribeiros mesmo? Os ribeiros não tem querer e escolha para serem influenciáveis, não faz sentido dizer isso, Deus de fato inclina os ribeiros controlando-os. Da mesma forma, é isso que está sendo dito sobre o rei também. ‘Natah’ quer dizer inclinar, mover, dirigir, desviar. São definições que indicam total controle da parte daquele que atua sem que o agente passivo possa resistir. Controlar soberanamente. É só observar inúmeras vezes que ela aparece na Escritura, a palavra carrega essa força.

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Fonte: Pelo Calvinismo .

0 O que é o batismo com fogo?

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Por Leonardo Dâmaso


Email respondendo a pergunta da dona Francisca Peixoto das Neves Bueno, a irmã Chiquita.

(Este nome é fictício, porém, o fato descrito na pergunta é bem real e comum no meio evangélico pentecostal e neopentecostal, claro, com algumas exceções).

Professor Leonardo, você poderia me explicar que tipo de batismo é o batismo de fogo mencionado em Mateus 3.11? Este batismo com fogo é um revestimento de poder do Espírito Santo conforme o meu pastor diz em suas pregações?

Irmã Chiquita, é muito comum vermos no meio evangélico, especialmente no meio pentecostal e neopentecostal, não somente pregações, mas também as famosas campanhas e vigílias baseadas nessa passagem de Mateus 3.11.

Geralmente, tais pregações, campanhas e vigílias têm como base ou tema frases do tipo: “A necessidade do batismo com fogo”; “A campanha dos 7 elos do fogo purificador de pecado” ou “A vigília do fogo que batiza e renova com poder”.

O evento desta passagem de Mateus 3.11, também descrito nos evangelhos de Marcus 1.8 e Lucas 3.18, na maioria dos casos, é entendido como se o batismo com fogo no qual João diz que Jesus batizaria juntamente com o batismo com o Espírito Santo é um batismo de “purificação e revestimento de poder do Espírito Santo”. Não obstante, este batismo com fogo capacita o crente com “unção e poder” para ter uma vida espiritual mais profunda com Deus, a pregar o evangelho, orar fervorosamente, realizar exorcismos e triunfar sobre os demônios, curar os enfermos dentre outras coisas.    

No entanto, se fizermos uma exegese cuidadosa e detalhada de toda a passagem em pauta, analisando meticulosamente todo o seu contexto, as palavras chave e o original grego, veremos que esta interpretação popular acerca do batismo com fogo como uma espécie de “poder e unção especial” é diametralmente equivocada! Vamos, então, a análise da passagem: 

Mateus 3.11 – Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo.” (NVI)

Para que possamos interpretar corretamente o texto a lume e chegarmos ao seu real e único significado, isto é, entender o que de fato ele diz, é necessário examinarmos o contexto anterior de Mateus 3.11 que começa a partir do versículo 1. Observe Mateus 3.1-12:

Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judéia. Ele dizia: Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo. Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele. As roupas de João eram feitas de pêlos de camelo, e ele usava um cinto de couro na cintura. O seu alimento era gafanhotos e mel silvestre. A ele vinha gente de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região ao redor do Jordão. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham para onde ele estava batizando, disse-lhes: "Raça de víboras! Quem lhes deu a idéia de fugir da ira que se aproxima? Deem fruto que mostre o arrependimento! Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga.” (NVI)

O contexto da passagem de Mateus 3.11 ressalta a dura pregação de João Batista chamando o povo ao arrependimento, pois o reino de Deus estava próximo (vs.2), e, em contraste, ele mostra o resultado daqueles que não se arrependerem sofrerão, ou seja, a ira futura (vs.7). Portanto, o tema vigente que predomina nesse trecho é o chamado ao arrependimento! A ênfase de João em sua premissa recaí inteiramente sobre o destino daqueles que não se arrependerem dos seus pecados (vs.10-12).

A palavra chave nesse trecho de Mateus é batizo (βαπτίζω), que no grego denota mergulho; 1 significa o sepultamento da velha vida em contraste com o nascimento de uma nova vida. 2 Sendo assim, três tipos de batismo estão destaque aqui:   

1. O batismo com água. Este batismo demonstrava uma atitude de arrependimento dos pecados. Este batismo de João simbolizava uma espécie de limpeza espiritual e tinha suas raízes no nos rituais de purificação do AT (veja Lv 15.13). 

2. O batismo com ou no Espírito Santo. Todos os crentes verdadeiros são batizados com o Espírito Santo no momento da conversão. Esse batismo é o mesmo que o novo nascimento (veja 1Cor 12.13).

3. O batismo com fogo. Este batismo, mediante o contexto analisado, significa o batismo como um meio de punição ou condenação eterna para os que não se arrependerem de seus pecados (vs.10-12).

Desse modo, concluímos, então, que, o “batismo com fogo”, diferente do batismo com o Espírito Santo, que é o nascer de novo, significa o batismo para a condenação. No dia do julgamento final dos homens, que se dará na segunda vinda de Cristo, a justiça de Deus se manifestará em ira e sobrevirá sobre os ímpios obstinados onde eles serão batizados e castigados pela morte e pelo tormento eterno no lago de fogo e enxofre. Espero que através desta carta, irmã Chiquita, a Senhora seja esclarecida. Um abraço! A paz de Cristo Jesus!

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Notas:
[1] Dicionário do Novo Testamento grego James Strong, pág 2108.
[2] Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento Grego, pág 5.  

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Fonte: Bereianos
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