0 Rudolf Bultmann e a desmitologização

.

Por Jonathan Silveira


Quando se pensa em teologia liberal, o nome do teólogo alemão Rudolf Bultmann (1884-1976) talvez seja o que mais se destaque como ícone deste movimento, embora ele mesmo negasse isso.

No entanto, ao se considerar que a estrutura teológica do liberalismo é marcada pela utilização de princípios humanistas como forma de se reinterpretar as Escrituras, desafiando, assim, sua autoridade e relativizando-a, não restam dúvidas de que Bultmann está entre aqueles que se desviam da ortodoxia protestante.

Dentre suas diversas ideias teológicas, Bultmann é mais popularmente conhecido por sua “desmitologização”. Para o teólogo alemão, os eventos narrados no Novo Testamento marcados pelo sobrenatural deveriam ser lidos e interpretados à luz da mitologia. Milagres e eventos sobrenaturais, portanto, não deveriam ser entendidos como eventos históricos, mas como histórias mitológicas que devem ser eliminadas a fim de chegarmos às verdades que estariam inseridas por detrás delas. Daí o nome “desmitologização”. Nas palavras de Bultmann,

“Ninguém que seja adulto o suficiente para pensar por conta própria imagina que Deus possa habitar um céu situado em algum lugar. Não existe mais céu algum no sentido tradicional da palavra. O mesmo se aplica ao inferno no sentido de um submundo mítico localizado debaixo dos nossos pés. Portanto, a história segundo a qual Cristo desceu ao inferno e subiu ao céu deve ser descartada. Não podemos mais esperar pelo retorno do Filho do Homem nas nuvens ou acreditar que os fiéis o encontrarão nos ares”.[1]

Nota-se que se trata de um discurso humanista cujo pressuposto é o racionalismo – bandeira orgulhosamente ostentada pelo movimento iluminista que influenciou diretamente a teologia liberal.

Acreditar que Jesus nasceu de uma virgem, que andou sobre as águas, que transformou água em vinho e multiplicou pães e peixes, que realizou curas e expulsou demônios, que morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus etc., é simplesmente obscurantista e irracional. O homem moderno, diria Bultmann, já progrediu o suficiente nos campos da filosofia e da ciência a ponto de saber que as histórias contidas nas Escrituras não passam de mitos.

A pergunta que surge diante disto é: É possível excluir o sobrenatural e ainda assim conservar a essência do cristianismo? É possível excluirmos a divindade de Cristo ou a sua ressurreição física e ainda nos autodenominarmos cristãos? A resposta a estas perguntas é um sonoro não. Dizer o contrário seria o mesmo que dizer que uma pessoa pode continuar sendo ateia, mesmo que acredite em milagres. Negar o sobrenatural é negar o cristianismo. O milagroso, o sobrenatural, o transcendente, são indissociáveis da pregação do evangelho. Portanto, o evangelho é isto e não menos do que isto. O milagroso e o sobrenatural estão entrelaçados ao próprio registro das Escrituras. Remova-os e não se tem cristianismo, mas apenas uma filosofia baseada em subjetivismos e em experiências como qualquer outra. É preciso ser intelectualmente desonesto ou ingênuo demais para não perceber isso nas Escrituras. Assim como no conto “A Roupa Nova do Rei”, os teólogos liberais acreditam que estão majestosamente vestidos quando, na verdade, estão vergonhosamente nus. Como disse C. S. Lewis:

“Tais homens pedem-me que eu creia que eles mesmos podem ler nas entrelinhas de textos antigos; a evidência é sua própria inabilidade para ler (muito menos discutir) as próprias linhas. Afirmam ver sementes de samambaias e não podem ver um elefante a dez metros, à luz do dia.”[2]

Não obstante a relação orgânica entre a mensagem do evangelho e o sobrenatural que pode ser facilmente verificada na leitura do Novo Testamento, não há bons motivos para crer que o pressuposto racionalista de Bultmann seja plausível, uma vez que não há bons motivos para crer que milagres são impossíveis. Uma vez que se admita a existência de um Deus transcendente, criador de todas as coisas, por que não acreditar que Ele poderia a qualquer momento intervir no universo, causando eventos sobrenaturais? As leis naturais são descritivas e não prescritivas. Afirmações sobre o que foi observado até agora não acarretam logicamente afirmações sobre o futuro. Não se pode dizer que a natureza é uniforme aqui e agora e concluir que provavelmente é uniforme em toda parte. Neste sentido, G. K. Chesterton tem um insight brilhante, como é de costume – a citação é longa, mas digna de ser inserida:

“Aqui reside a perfeição peculiar de tom e verdade dos contos infantis. O cientista diz: ‘Corte o pedúnculo, e a maçã cairá’; mas diz isso calmamente, como se uma ideia de fato levasse à outra. A bruxa dos contos de fada diz: ‘Toque a corneta, e o castelo do ogro cairá’; mas ela não diz isso como se fosse alguma coisa em que o efeito obviamente surgisse da causa. Sem dúvida ela já deu esse conselho a muitos heróis e viu muitos castelos caírem, mas ela não perde nem o espanto nem a razão. Sua cabeça não se perturba tentando imaginar uma conexão mental necessária entre uma corneta e a queda de uma torre. Mas os cientistas quebram a cabeça até conseguirem imaginar uma conexão mental necessária entre uma maçã que deixa o galho e uma maçã atingindo o chão. Eles realmente falam como se tivessem descoberto não apenas um conjunto de fatos maravilhosos, mas também uma verdade ligando esses fatos. Falam como se a ligação de duas coisas fisicamente estranhas as conectasse filosoficamente. Sentem que, pelo fato de uma coisa incompreensível sempre vir depois de outra incompreensível, as duas de certo modo constituem uma coisa compreensível. Dois enigmas negros constituem uma resposta branca. [...] Quando nos perguntam por que os ovos se transformam em pássaros ou por que as frutas caem no outono, devemos responder exatamente como a fada madrinha responderia se Cinderela lhe perguntasse por que os ratos se transformam em cavalos ou por que as roupas dela desapareceram depois da meia-noite. Devemos responder que é MÁGICA. Não é uma ‘lei’, pois não entendemos sua fórmula geral. Não é uma necessidade, pois, embora contemos com esse tipo de acontecimento na prática, não temos o direito de dizer que ele deve sempre acontecer. [...] Todos os termos usados nos livros de ciência, ‘lei’, ‘necessidade’, ‘ordem’ e assim por diante, são realmente não-intelectuais, porque pressupõem uma síntese interior, que nós não possuímos. As únicas palavras que sempre me satisfizeram como descrições da natureza são os termos usados nos contos de fada, ‘sortilégio’, ‘feitiço’, ‘encantamento’. Eles expressam a arbitrariedade do fato e do mistério. Uma árvore dá frutos porque é uma árvore mágica. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque está enfeitiçado. Eu nego totalmente que isso seja fantástico ou mesmo místico. [...] essa linguagem dos contos de fada sobre as coisas é simplesmente racional e agnóstica. É a única maneira de expressar com palavras minha percepção clara e definida de que uma coisa é totalmente distinta da outra; de que não há nenhuma ligação lógica entre voar e botar ovos. É o homem que fala de ‘uma lei’ que nunca viu que é místico. Ou melhor, o cientista ordinário é estritamente um sentimental. Um sentimental no sentido essencial, de estar mergulhado em meras associações que o vão carregando. Ele viu tantas vezes pássaros voando e botando ovos que sente como se devesse existir alguma fantástica, delicada ligação entre as duas ideias, quando não há nenhuma”.[3]

Como vemos, seja por motivos hermenêuticos, seja por motivos filosóficos, Bultmann está errado. Bultmann não melhorou o cristianismo, mas simplesmente criou outra religião. Ao “desmitologizar”, Bultmann exaltou o homem e rebaixou Deus. Preocupou-se com o bem-estar da razão cega e desconsiderou a fé que tudo vê.

___________
Notas:
[1] Citado por Ed. L. Miller e Stanley J. Grenz em Teologias contemporâneas. Ed. Vida Nova: São Paulo, 2013. p. 54.
[2] Citado por John Frame em Apologética para a glória de Deus – Uma introdução. Ed.Cultura Cristã: São Paulo, 2010. p. 105.
[3] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Ed. Mundo Cristão: São Paulo, 2008. p. 84-89.

***
Sobre o autor: Jonathan Silveira é advogado e seminarista na Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia, São Paulo. Dedica-se ao estudo da apologética e da filosofia e é coordenador do ministério “Tuporém”. 

Fonte: Tuporém
.

0 Os Cinco Contraditórios Pontos do Arminianismo

.

Por Jailson Serafim

a) O dogma do livre arbítrio

Como resultado da queda de Adão no Éden, a Bíblia diz que n'Ele, toda a raça humana está espiritualmente morta (Gn 2:17; Ef 2:1,5; Cl 2:13). Estando espiritualmente mortos, todos os filhos de Adão tendem a refletir a atitude de seu pai, ou seja, fugirem da presença de Deus (Gm 3:8-10) e não se reconhecerem como culpados (pecadores) diante de Deus (Gn 3:11-13), razão pela qual o Espírito Santo têm que convencê-los de seu pecado (Jo 16:7-9). Ora, se houvesse após a queda a capacidade de escolher a Deus por parte do homem espiritualmente morto, certamente Adão procuraria a Deus, e não Deus a Adão! E o resultado da queda de Adão sobre os seus descendentes é que segundo a Bíblia, "viu o SENHOR... que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração ERA SÓ MÁ continuamente" (Gn 6:5 ACF). Embora as Escrituras digam que após a queda no Éden o homem está completamente morto (totalmente depravado) e arruinado, todavia, à revelia da Bíblia, os arminianos dizem que "a natureza humana foi indubitavelmente prejudicada pelo pecado, porém não arruinada totalmente" (Rev. José G. Salvador; Arminianismo e Metodismo, p.87). 

Não só o dogma do livre arbítrio é falso e blasfemo, mas também contraditório. Ele entra em contradição com o segundo ponto do arminianismo - a eleição condicional. Os arminianos dizem que "desde a fundação do mundo, Deus sabia quem iria crer ou não crer em Cristo. Assim, com base nessa presciência, elegeu os que iriam crer para a salvação, e da mesma forma, predestinou, designou, recusou ou reprovou de antemão [desde a eternidade] os que não iriam crer para a condenação" (Pr. Raimundo Ferreira de Oliveira; Lições Bíblicas [CPAD], Quarto Trimestre de 1987, pp.32-33). Com base nisto, perguntamos: Aqueles que, pela presciência de Deus, não crerão em Cristo e que foram de antemão por Deus predestinados, designados e reprovados para a condenação possuem a capacidade de escolherem a Deus? Se Possuem essa capacidade, onde fica, então, a presciência de Deus?

Harpa Cristã, hinário das Assembleias de Deus, canta a doce melodia da total depravação do homem (esmigalhando o dogma do livre arbítrio), dizendo: "Longe do Senhor, andava no caminho do horror, por Jesus não perguntava, nem queria o seu amor no juízo não pensava, nem na minha perdição, nem na minha alma desejava a eterna salvação" (169:1,2).

Tais frases refletem o ensino bíblico. Os ímpios, antes de serem regenerados pelo Senhor, não tem nenhum interesse por Deus (Rm 10:20). Nenhum deles tem ou podem ter qualquer desejo de ir até a Cristo (Jo 3:20; 5:40; Jó 21:14-15). O ímpio não pensa no juízo nem em sua perdição, uma vez que, em seu estado de total morte espiritual, ele não se julga um pecador (Mt 23:30; Lc 18:11-12). Por conta de seu estado caído (a sua natureza pecaminosa), ele não entende que o juízo de Deus está sobre ele (Pv 28:5 compare com Sl 7:11; Rm 1:18). E por que os ímpios não estão convencidos de que estão debaixo do juízo (ira) de Deus? Porque estando espiritualmente mortos, "eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas" (Sl 82:5 ARA); "Os perversos são inimigos da luz, não conhecem os seus caminhos" (Jó 24:13 ARA). Os ímpios estão totalmente impossibilitados e incapacitados de chegarem a esta conclusão por si mesmos. O Espírito Santo têm que convencê-los disso (Jo 16:7-8). Agora imaginem alguém que têm condições de chegar as suas próprias conclusões necessitar da ajuda de outro alguém para chegar a estas conclusões? Complicado, não é? Os ímpios não podem jamais desejar a salvação, visto que eles odeiam tanto a Deus (Rm 5:10; 8:7; Cl 1:21) e reputam as trevas como "luz" (Is 5:20). Em suma, o dogma do livre arbítrio não encontra respaldo nas Escrituras!

(b) O dogma da eleição condicional

A Bíblia diz que a eterna eleição para a salvação (Ef 1:4) é "a eleição da graça" (Rm 11:5,6), e se "graça" é "favor imerecido", como ela pode ser condicionada a qualquer futura atitude do homem? Embora a Bíblia diga que a eleição é da graça (isto é, incondicional = At 13:48), os arminianos, contrapondo as Escrituras, dizem que ela é condicional. Não só este dogma é blasfemo e antibíblico, como também contraria o terceiro ponto do arminianismo. Ora, se em sua presciência, Deus já sabia quem vai crer e quem não vai crer em Cristo, elegendo os futuros crentes em Cristo para a salvação, bem como predestinando, designando, recusando ou reprovando de antemão os que não crerão em Cristo, como, então, Cristo poderia morrer por aqueles que de antemão Ele próprio havia predestinado, designado, recusado e reprovado para a condenação? Poderia Cristo morrer por aqueles que de antemão sabia que jamais creriam n'Ele? Morreria Cristo em vão? E onde estaria a sua presciência? Justamente por isso, cantamos com a Harpa Cristã a doce melodia da eleição incondicional (que é a eleição da graça): "Fomos nós predestinados, para crermos em Jesus" (236:3)

As palavras da Harpa Cristã ensinam o que a Bíblia ensina: A fé é a consequência, não a causa da eleição para a salvação. Em outras palavras - fomos eleitos para crermos, e não porque creríamos (At 13:48). 

(c) Expiação Geral

Enquanto a Bíblia explicitamente diz que Cristo não morreu por todos os homens, sem exceção (Mt 26:28; Mc 14:24), e que seu sangue foi derramado em favor apenas dos eleitos (1 Pe 1:2), os arminianos, contradizendo as Escrituras, dizem que Ele morreu por todos os homens sem exceção, isto é, por cada indivíduo. Tal dogma arminiano é uma blasfêmia, pois se é verdade que era parte do plano de Deus que Cristo morresse por toda a raça humana sem exceção (com o objetivo de salvar à todos), e se todos não serão salvos, então o plano de Deus foi frustrado e não alcançou o seu objetivo, que é a salvação de todos. Porém, de acordo com a Bíblia, nenhum plano de Deus ficou sem ter o seu objetivo alcançado; antes, todos os seus planos se realizaram perfeitamente (Jó 42:2; Sl 135:6; Is 46:10). Além do mais, a Bíblia diz que Cristo ficaria satisfeito com o resultado de sua obra expiatória (Is 53:11). E qual foi o motivo desta satisfação? O plano de Deus era que Cristo morresse pelos eleitos para que estes obtivessem a vida eterna, que foi algo que eficazmente ocorreu (Is 53:11; Dn 12:10; Mt 20:28; Jo 17:2,4,6). 

Agora, não só o dogma arminiano (expiação geral) é blasfemo e antibíblico como também entra em contradição com o quarto ponto do arminianismo. Ora, o quarto ponto do arminianismo (resistibilidade da graça divina) ensina que a graça de Deus pode ser resistida não só por uma parte da raça humana (os eleitos), mas por toda as duas partes (eleitos e não eleitos [reprovados]). Neste sentido, se Cristo morreu por toda a raça humana para dar-lhe a vida eterna, e se qualquer uma das partes da humanidade (os eleitos ou os reprovados) pode resistir ao seu chamado interno, isto faria com que o Salvador morresse em vão!

Ao contrário do terceiro ponto do arminianismo, prefiro abrir a Harpa Cristã e cantar a doce melodia da "Expiação Particular", que diz: 

"Só mesmo o tão profundo amor Do nosso bendito Deus, mandava ao mundo de horror, o Seu Filho, para salvar os seus" (475:4).

"Por Ele abençoada é toda a nação, que foi predestinada a grande vocação" (135:3).

"Já dantes desta criação me preparava a mais perfeita salvação; Oh! Quanto a mim amava" (219:2).

A estrofe 3, do hino 135, ensina que somente a nação predestinada (ou escolhida) por Deus recebia a benção da vida eterna, como diz a Bíblia (1 Cr 17:21-22; 2 Sm 7:23). A estrofe 4, do hino 465, ensina que Cristo foi enviado para morrer pelos eleitos conforme diz a Bíblia (Jo 10:11,14-16; 17:2,6,9). A estrofe 2, do hino 219, nos ensina que Cristo amou os seus escolhidos bem antes da fundação do mundo com o amor de um Salvador, conforme diz mais uma vez a Bíblia.

(d) Graça resistível

A Bíblia diz que, dentre a raça humana, apenas alguns são escolhidos para a vida eterna, e que aqueles que foram escolhidos para este fim não resistirão ao chamado interno do Espírito Santo e certamente virão a Cristo (Jo 6:37; 10:14). 

Contudo, à revelia da Bíblia, os arminianos dizem que todos (inclusive os eleitos) podem resistir ao chamado interno do Espirito Santo, frustrando, assim, os propósitos de Deus. Todavia, este dogma arminiano não só é blasfemo e antibíblico, mas também contraria o segundo ponto do arminianismo. 

Ora, se é verdade que desde a eternidade Deus já sabia quem iria crer em Cristo, e que com base nesta presciência elegeu estes para a salvação, como, então, estes podem resistir ao chamado interno do Espírito Santo? Este dogma resultaria em negar a presciência de Deus bem como todo o dogma da eleição condicional para a salvação.

Rejeitando este dogma arminiano (resistibilidade da graça divina), preferimos abrir a Harpa Cristã e cantar a doce melodia da "irresistibilidade da graça divina" (para os eleitos), dizendo:

- "Hoje é o dia aprazível,
- Vem a Jesus, teu Salvador
- o Seu amor é irresistível" (238:4).

A estrofe 4, do hino 238, nos ensina que, uma vez amados por Jesus desde a eternidade, os eleitos irresistivelmente passam a amá-lo neste mundo no momento da regeneração (1 Jo 4:19).

(e) Cair da graça ou perder a salvação

A Bíblia ensina explicitamente que é impossível um cristão ser enganado pelos ministros de Satã a vida toda, porém, o engano pode ocorrer temporariamente (Jo 10:4,5). O verdadeiro cristão não pode ser arrebatado das mãos de Cristo e do Pai (Jo 10:28-29) e que não podem ser derrotados pelo maligno e pelo mundo (1 Jo 5:4). Entretanto, em oposição às Escrituras, os arminianos (especialmente os wesleyanos) dizem que é possível um cristão perder a salvação. Todavia, este dogma arminiano, não só é falso e blasfemo, como também entra em contradição com o segundo ponto do arminianismo. Ora, se desde a eternidade Deus sabia quem iria crer nele e perseverar até o fim, e com base nesta presciência, os elegeu para a salvação, como é possível eles se perderem? Este dogma resultaria tanto em negar a presciência de Deus como também negar o dogma arminiano da eleição condicional. Mas, rejeitando o quinto dogma arminiano (remonstrante), prefiro abrir a Harpa Cristã e cantar a doce melodia do "uma vez salvo, para sempre salvo", que afirma:

"Nunca jamais hei de perecer" (146:2)

"Me guardarás por teu amor, fiel até o fim" (229:3)

"Vem a Cristo, sem tardar,Com seus dons te quer fartar, com riquezas que jamais se perderão" (281:3)

"Pra escravidão do Egito nunca mais voltarei" (316:3)

"Jesus para sempre me salvou" (424).

A estrofe 2, do hino 146, revela que é impossível um cristão perecer (Jo 10:28). A estrofe 3, do hino 281, revela que é impossível as riquezas da salvação serem perdidas. E sabe por quê? Porque se a nossa eleição para a salvação e se a nossa vocação para a salvação são dons de Deus (Ef 2:8-9; 2 Tm 1:9), e se "os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis" (Rm 11:29 ARA), como, então, poderia Deus anular o seu chamado (interno) e anular a própria salvação? Como poderia Ele retirar de nós a fé salvífica? (Hb 12:2). A estrofe 3, do hino 316, diz que uma vez libertos da escravidão do pecado jamais poderemos outra vez nos tornarmos seus escravos totalmente (Jo 8:36; 2 Co 3:17). Paulo chega até a ensinar que os verdadeiros cristãos jamais se desviam para a perdição (Hb 10:39). O hino 424 simplesmente está ensinando e afirmando: "Uma vez salvos, para sempre salvos" (Jo 5:24; 10:28-29). A estrofe 3, do hino 229, nos ensina a coroa da doutrina reformada-protestante da perseverança dos santos. Tal estrofe nos diz que a nossa perseverança final não é produto de nossos esforços, mas da graça de Deus (Jr 32:40; Fl 1:6; 1 Co 1:8).

Portanto, concluímos que, além dos quatro pontos do arminanismo remonstrante não se sustentarem biblicamente e de serem uma herança da Contra Reforma (através dos cânones do Concílio de Trento, 1547 d.C), para piorar ainda mais a sua situação vexatória, ambos contradizem a si mesmos e se excluem. 

Que Deus abençoe a todos!

***
Fonte: Presbiterianos Calvinistas
Imagem: Contradição, flor crescendo em uma pedra - Crazy Ivan. | Arte: Bereianos
.

0 A importância de uma exegese correta

.

Por Daniel Doriani


Um estudioso da Bíblia entra na cozinha de um amigo e vê um imã fixando um plano de dieta na porta da geladeira. O plano diz: “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro” (Jr 29.11 NVI). Esse amigo em dieta está interpretando a Bíblia corretamente? O primeiro princípio da interpretação é “leia contextualmente”. O estudioso da Bíblia pensa consigo mesmo: “Ele sabe que Jeremias falava aos líderes de Israel que estavam no exílio na Babilônia? Que uma palavra falada à nação de Israel não é necessariamente uma promessa pessoal a cristãos individuais?” O estudioso se preocupa: “Meu amigo pensa que Deus prometeu prosperá-lo através desse plano de dieta?” Ou o treinamento do estudioso o deixou louco? “Talvez meu amigo simplesmente queira lembrar que Deus é por seu povo”, o estudioso pensa, “inclusive por ele mesmo”.

Nós confessamos que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas a menos que a leiamos e a interpretemos apropriadamente, nossa confissão é uma mera formalidade. Uma exegese bíblica correta é essencial se esperamos conhecer e agir a partir da verdade bíblica. Uma interpretação correta possui dois elementos: o técnico e o pessoal. Do lado técnico, devemos ler a Bíblia de acordo com a gramática e o léxico da época. Não é suficiente saber o que palavras como carne, aliança, juiz, talento, escravo ou justificação significam hoje; nós devemos saber o que elas significavam naquela época. Em segundo lugar, devemos ler o texto em seus contextos literário e cultural.

A frequente ordenança “saudai uns aos outros com ósculo santo” (Rm 16.16; 1Co 16.20; 2Co 13.12; 1Ts 5.26; 1Pe 5.14) ilustra ambos os princípios. No ocidente, nós ingenuamente assumimos que esse beijo é algo para pessoas do primeiro século fazerem, mas não para nós. Mas não podemos simplesmente desconsiderar uma ordenança; nós devemos investigar. Quando fazemos isso, descobrimos que o “beijo” se tratava de um toque ritual de bochechas, não de lábios, e que era sempre de homem para homem ou de mulher para mulher, não de homem para mulher. Culturalmente, o beijo demonstrava amizade, afinidade e afeição. Portanto, para obedecer a ordenança em nossa cultura, nós avaliamos como nós demonstramos lealdade e afeição, e praticamos isso. A exegese correta descobre que o beijo em si não é a preocupação de Paulo. Ao invés disso, ele deseja que os crentes demonstrem lealdade e afeição de formas que possam adequar-se a cada cultura.

Leitores sérios possuem uma pergunta tríplice a respeito da interpretação bíblica: o que significava, o que significa e como isso se aplica? A pergunta é ainda mais urgente quando discípulos perguntam: quando eu interpreto uma afirmação literalmente e quando eu a interpreto de forma figurada? Quando devemos obedecer uma ordenança literalmente e quando não devemos? Nós respondemos essas questões estudando uma passagem em seu contexto cultural.

Tome, por exemplo, a questão de cobrir a cabeça e dos cabelos longos das mulheres (1Co 11.2-16). O véu é uma questão em si mesmo ou é um sinal de alguma coisa? Tradicionalmente, muitos cristãos tomaram a prescrição do véu como permanentemente obrigatória. Mesmo hoje, muitos insistem que o princípio permanente da autoridade masculina no lar significa que as mulheres devem cobrir as suas cabeças na igreja. Outros, contudo, argumentam que cortes de cabelo variam imensamente entre e dentro de culturas, e carregam pesos simbólicos variáveis. Os primeiros presidentes dos Estados Unidos usavam perucas e, até 1915, a maioria possuía pêlos faciais proeminentes. Retratos greco-romanos mostram que mulheres respeitáveis cobriam seus cabelos e os deixavam presos, não soltos. Hoje, mulheres casadas piedosas perguntam como sua aparência pode demonstrar respeito por seus maridos.

Uma segunda maneira de compreender o significado e a aplicação da Bíblia é seguindo a progressão de pensamento em uma passagem. Por exemplo, uma mulher certa vez disse a Jesus: “Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram!” (Lc 11.27). Esse louvor à mãe de Jesus parece estranho, mas naquela cultura as pessoas acreditavam que mulheres podiam encontrar grandeza ao dar à luz um grande filho. Ela pretendia bendizer Jesus ao bendizer Maria. A resposta de Jesus é intrigante: “Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (v. 28). O termo antes sugere que Jesus pretende gentilmente corrigi-la. Antes significa “sim, mas há mais”. O elogio dela é louvável, mas ela sutilmente diminui o sexo feminino ao assumir que uma mulher encontra grandeza através da ligação com um grande homem. Embora isso não seja inteiramente falso, uma mulher encontra verdadeira grandeza ao se tornar um fiel discípulo. Nesse caso, a exegese correta exige recursos. Qualquer comentário cuidadoso vai abordar os fatores culturais em Lucas 11. Dicionários bíblicos e enciclopédias bíblicas também são grandes auxílios.

Uma exegese adequada neste caso também requer que observemos a sutil mudança marcada pela palavra antes. Leitores cuidadosos prestam atenção em termos que significam uma mudança no pensamento. Quando uma passagem contrasta ideias, tira conclusões ou faz concessões, nós frequentemente vemos termos como mas, ou, ademais, ainda, visto que, pois, porque, então, portanto, a fim de que, e muito mais.

O discurso bíblico frequentemente deixa o ponto principal claro ao colocá-lo primeiro ou por último em uma passagem, ou repetindo-o (Sl 103.1-2; Tg 2.17, 20, 26). Mas devemos ler cuidadosamente para ver como a passagem alcança ou desenvolve o ponto principal. Por exemplo, o tema de Romanos 3.21-4.25 é a justificação pela fé somente, mas a função de 4.1-8 não é imediatamente óbvia. A frase é assim também que Davi declara (4.6) mostra que há alguma conexão. Uma reflexão demonstra que a conexão é: sabendo que aquela única declaração a respeito da justificação pela fé não será suficiente, Paulo ilustra seu ponto através dos heróis da fé, Abraão e Davi. A lição: nem mesmo Abraão, com suas incríveis ações, foi salvo pelas obras. E mesmo Davi, com seus terríveis pecados, foi perdoado e justificado pela fé. Se esses dois são justificados pela fé somente, todos os crentes são.

Nós temos muitos livros excelentes sobre métodos de estudo bíblico. Juntos eles respondem nossas perguntas comuns. Por exemplo, quando lemos história, deveríamos preferir a interpretação literal da Escritura, em que um monte é um monte. Ainda assim, o ensino de Jesus e dos profetas irrompe em metáforas, hipérboles e ironias. Jesus fez perguntas profundas esperando respostas, enquanto se recusava a dar uma resposta direta para metade das perguntas que lhe faziam. Jesus interpretou algumas parábolas (Mt 13.3-43), mas nos deixa tentar decifrar outras (v. 37). Semelhantemente, o Apocalipse ocasionalmente oferece dicas a respeito da interpretação apropriada de seus símbolos (por exemplo, Ap 12.7-12).

Moisés e Paulo possuíam um estilo linear e proposicional, mas Jesus e a maioria dos profetas amam poemas, parábolas e analogias que nos prendem com sua vivacidade, ou sua estranheza, e nos convidam a pensar. Quando nós os lemos, um monte pode ser um lugar de rebelião. Nesse sentido, Jeremias 51.25 chama a Babilônia, uma cidade localizada em uma vasta planície, de um “monte que destrói”. Semelhantemente, enquanto a maior parte das narrativas enunciam imediatamente a mensagem, outras se esticam por páginas sem fazê-lo. Se mantivermos a atenção no estilo ou no gênero de cada livro, essas coisas se tornam claras. Em sua sabedoria, Deus escolhe nos entregar verdades básicas como “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15). Mas ele nos deixa lutar para entender outros princípios.

Ocasionalmente, Jesus escolheu ser enigmático como repreensão àqueles que se recusavam a ouvir a sua palavra ou a prestar atenção aos seus sinais (Mt 13.11-17; veja Am 8.11; Jo 8.45). Ainda assim, a Bíblia não é poesia elitista que pretende causar perplexidade. Deus nos deu a sua Palavra para que crêssemos nele, para que o amássemos pactualmente e para que o seguíssemos. João disse que recontou os sinais de Jesus “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30-31).

Conforme consideramos repreensões e fé, nós entramos no ângulo pessoal da interpretação. Os profetas e Apóstolos sabiam que suas palavras encontrariam rejeição e distorção deliberada (Jr 36.23; 2Pe 3.16), não apenas interpretação errônea comum. Portanto, Deus nos diz que se nós lermos a Bíblia corretamente em um nível pessoal, nós o conheceremos e seremos conformados a Ele. Visto que ele “faz misericórdia, juízo e justiça”, nós também deveríamos fazê-lo (Jr 9.24; 22.3). Nós deveríamos nos tornar mais como Deus em nosso caráter e nossas práticas (Rm 8.29; Ef 4.32-5.2).

O ângulo pessoal explica por que a Bíblia, diferentemente de outros livros, nos conta como lê-la. Jesus diz que devemos ler integralmente, procurando por seu sofrimento e glória (Lc 24.25-27; Hb 2.9; 1Pe 1.11). Paulo diz que a Escritura pode “tornar-te sábio para a salvação” (2Tm 3.15). Os Salmos ordenam que o povo de Deus medite na Palavra para encontrar vida (Sl 1; 19; 119). Provérbios encoraja os leitores a valorizar a sabedoria e encontrar bênção (Pv 2.1; 7.1). Tiago 1.22 diz: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. Paulo diz que devemos ler através do Espírito ao invés da letra da lei (2Co 3.6).

A Escritura também nos fala sobre como não ler. Jesus frequentemente censurou os líderes judeus por lerem a Escritura erroneamente, perguntando: “Não lestes?” (por exemplo, Mt 12.3-5; 19.4; 21.16, 42; 23.31). Jesus não questionou a escolaridade ou os hábitos de leitura deles. Eles liam a Escritura, mas falhavam em compreender o seu significado. Em quatro ocasiões, eles perderam de vista o testemunho de Jesus. Uma vez, eles seguiram a letra da lei e perderam a sua intenção.

Em Mateus 19, os fariseus perguntaram: “É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?” (Mt 19.3). Jesus respondeu, perguntando-lhes se haviam lido que Deus criou a humanidade macho e fêmea para tornarem-se uma só carne (vv. 4-6). Ainda assim, muitos fariseus a liam erroneamente, transformando regulamentos que intentavam restringir o divórcio em bases para facilitar o divórcio. Eles perderam de vista o plano de Deus — que marido e mulher devem permanecer juntos.

Em Mateus 12, os fariseus novamente leram erroneamente quando acusaram Jesus de violar o sábado permitindo que seus discípulos colhessem grãos dos campos enquanto viajavam. Eles não tinham lido como Davi e seus companheiros comeram pão consagrado, o que era ilícito, porque tinham fome (v. 3; veja 1Sm 22)? Se eles tivessem lido a Escritura corretamente, eles saberiam que Deus diz: “Misericórdia quero, não sacrifício” (v. 7; veja Os 6.6). Isso significa que a verdadeira necessidade humana pesa mais do que regulamentos do templo e do sábado. Além disso, “aqui está quem é maior que o templo” (Mt 12.6). Isto é, se sacerdotes têm permissão de servir em um espaço que representa a presença de Deus, então os discípulos podem fazer qualquer coisa que seja necessária para auxiliar Jesus, pois ele é a presença de Deus.

Esses casos de leitura errônea demonstram que a correta exegese exige mais do que métodos apropriados. Não podemos fazer justiça à Escritura a menos que percebamos, como Agostinho disse, que o propósito final da Escritura é aumentar o “duplo amor a Deus e ao próximo”. Cristãos leem bem a Escritura quando buscam isso por si mesmos e pelos outros, e então fazem discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20). Que leiamos a Bíblia de tal maneira que nos tornemos “homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2).

***
Fonte: Ligonier Ministries
Tradução: Alan Cristie
.

0 O Diabo era um anjo chamado Lúcifer?

.

Por Thiago Oliveira


A resposta para a pergunta que intitula este artigo é um sonoro não. De fato Satanás, o nosso Inimigo não possui esse nome, e eu diria mais: também não temos clareza bíblica quanto a sua origem angelical. O que a Bíblia nos diz sobre ele com todas as letras é que ele não passa de um enganador. “Pai da Mentira” é a sua alcunha (Jo 8:44). Sendo assim, talvez essa seja uma boa explicação acerca desta confusão criada há muito tempo sobre o termo Lúcifer.

O texto de Isaías 14, mal interpretado, corrobora para este equívoco. Lá, o profeta que exerceu o seu ministério entre os anos 750 - 686 a.C, fala ao povo que estes sofreriam com um castigo divino, resultante da idolatria e da imoralidade. O castigo virá por meio do Rei da Babilônia, que levará a muitos cativos, destruindo Jerusalém. Todavia, o Senhor de forma soberana fará com que a própria Babilônia caia em desgraça. A profecia do capítulo 14 está voltada para o rei babilônico (v.4). Ele ensoberbecido tentou ocupar o lugar do Altíssimo (v. 12 ao 15) porém viria ruir de maneira vertiginosa o seu poderio, sendo escarnecido pelos povos que dantes havia dominado, estes celebrariam a ruína do Império Babilônico (v.7). 

O verso 12 é a chave para se compreender o amplo equívoco que tomou a cristandade (Talvez pela influência de teólogos como Tertuliano e Orígenes). Lá está escrito: “como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!” Bem, já vimos que esta queda não é a de Satanás e sim o do Rei da Babilônia e para que não aja dúvidas quanto a isso atente para os seguintes fatos:

A - O futuro dele é a morte e será como um cadáver pisado, comido pelos vermes (v. 11 e 19).
B - A profecia claramente se trata de um homem (v. 16).
C - Aquele que “caiu” tem descendentes, isto é, uma linhagem que também será assolada (v. 21 e 22).

Insistir que a profecia trata do Diabo é ignorar o contexto da referida passagem. E quanto ao nome Lúcifer, presente no versículo 12, este não é um substantivo próprio no hebraico. A palavra em questão é הילל (hêlel) identificada como a estrela d’alva ou estrela da manhã. As versões ARC, ARA, NVI e NTLH utilizam a palavra traduzida. Algumas como a ACF utilizam o termo latino lucifer, adotado por Jerônimo para a tradução das Escrituras em latim, a conhecida Vulgata. 

O que muitos desconhecem é que o termo latino que é atribuído como o verdadeiro nome do Diabo também é usado em outras passagens da Vulgata para se referir até mesmo a Jesus em seu retorno definitivo. Comparem a versão portuguesa com a latina, o versículo em questão é 2Pedro 1:19:

E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações”.

et habemus firmiorem propheticum sermonem cui bene facitis adtendentes quasi lucernæ lucenti in caliginoso loco donec dies inlucescat et lucifer oriatur in cordibus vestris”.

Por isso devemos tomar mais cuidado ao reproduzir certos ensinamentos a respeito da origem e da nomenclatura daquele que é o Inimigo de nossas almas. O conceito massificado de que ele era um “anjo de luz” e que regia o coral celestial (até isso eu já ouvi) não é biblicamente comprovado. Paulo diz que o Diabo pode se fazer passar por anjo de luz e não que ele é ou era um (veja 2Co 11:14).

Mas e quanto outras passagens bíblicas, fora a mencionada de Isaías 14? Elas não dariam respaldo para afirmarmos que o Diabo é um anjo caído? Vamos analisar brevemente as mais comuns.

Ezequiel 28:12-16

Esta, assim como Isaías 14 é mal interpretada. Uma menção sobre o Éden (v. 13) faz com que muitos afirmem de “bate-pronto” que o trecho em questão fala sobre Satanás. Contudo vendo o contexto, fica nítido que é uma profecia endereçada ao Rei de Tiro (v. 2 e 12). O Éden aqui não é literal, o profeta usa a figura de linguagem para ligar a questão do pecado de Adão (Gn 3) e sua queda por querer ser igual a Deus com a queda de Tiro, por também se engrandecer diante do Todo-Poderoso.

Lucas 10:18

Este é o texto em que Jesus diz que viu “Satanás cair como um raio”. Embora não seja algo muito simples de se compreender, o cenário da volta dos 70 discípulos, exclusivo a narrativa de Lucas, extasiados com o que tinha acontecido durante o anúncio do Evangelho, realizando curas e exorcismos, pode nos dar uma pista do que o Mestre pretendeu com a sua frase: Jesus correspondendo de uma maneira positiva e animadora ao relato dos discípulos diz que aquela obra incumbida aos setenta representou uma derrota de Satanás e de seu reino tenebroso, pelo qual Cristo foi capaz de visionar a sua queda enquanto os seus enviados levavam as boas-novas aos povoados. 

Apocalipse 12: 7-9

Talvez esta seja a passagem mais difícil de se compreender. Porém é sabido que o texto de João era um encorajamento para a Igreja que padecia uma forte perseguição. Será que discorrer sobre as origens de Satanás seria útil para encorajar aqueles irmãos? Creio que não. Por isso o texto em questão, recheado de figuras de linguagem e simbologia é, assim presumo, um relato de como o Inimigo da Igreja foi derrotado pelo aparecimento de Cristo e Sua obra. O encorajamento está no fato de relatar Satanás já vencido pelo Messias, Senhor da Igreja, atribulada, mas vitoriosa. 

Mesmo não tendo a sua origem tão definida, sabemos que o Diabo é um ente espiritual que ele é o adversário do Corpo de Cristo, sempre nos tentando a pecar para em seguida nos acusar. Ele é mentiroso, ladrão, homicida, influencia este mundo perverso e anda em nosso derredor. Todavia, sabemos que Jesus Cristo triunfou sobre as obras malignas deste ser, que não é o arqui-inimigo de Deus. Satanás nem ousa medir forças com o SENHOR, o seu alvo é a raça humana. Não precisamos ir em busca de respostas que estão aquém da Bíblia para matar nossa curiosidade. O que é preciso saber já está escrito e nos é útil para vencer as ciladas do Inimigo: 

Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.” Efésios 6:11.

Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”. Tiago 4:7.

Portanto, afirmamos categoricamente que Lúcifer não é o nome do Diabo. Quanto a sua natureza angelical, isto não podemos negar com veemência, tampouco podemos afirmar. 

A Deus toda glória!

_____________
Abreviaturas:
ACF: Bíblia Almeida Corrigida Fiel
ARA: Bíblia Almeida Revista e Atualizada.
ARC: Bíblia Almeida Revista e Corrigida.
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
NVI: Nova Tradução Internacional.

***
Fonte: Bereianos

Como complemento, recomendamos a excelente análise exegética feita por Robert L. Alden sobre a questão. Para ler, clique aqui!
.

Related Posts with Thumbnails