0 Erros de interpretação da Bíblia - batismo com fogo

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Neste vídeo, o Pastor Marcos Granconato mostra o erro de interpretação em Mateus 3:11 que muitos cometem ao atribuir o "batismo com fogo" a uma nova experiência sobrenatural do Espírito. Assista e tire suas conclusões:


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Fonte: Roberto de Carvalho Forte, via Youtube
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2 A Igreja é uma vagabunda? Resposta ao Ariovaldo Jr.

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Por Thiago Oliveira


O Ariovaldo Júnior é o tipo de pessoa que adora polemizar. Recentemente ele publicou a seguinte frase em seu Facebook: “Falam sobre casamento perfeito, mas não falam que casamento perfeito não existe. A noiva de Cristo é uma vagabunda. E dá certo” (veja aqui). Pois bem, depois que disse tal bobagem, muitos se manifestaram favoráveis e muitos outros, contra. A discussão foi infindável. E como o Ariovaldo é um típico narcisista, ao invés de botar panos quentes na polêmica, ele alimenta o fogo e solta mais uma: “Sou odiado por dizer a verdade, na luta por desmistificar conceitos tão simples que os Doutores da Lei fazem questão de manter bem longe do homem comum” (veja aqui).

Alguns homens, tais como o Ariovaldo, tentaram “desmistificar conceitos tão simples” e acabaram presos num emaranhado de pensamentos que desbocou em heresia. Ele que já tem como ponto negativo a autoria da Bíblia Freestyle, continua usando a rede social com o objetivo de “causar”. Ariovaldo, vai com calma aí homem! Tratando da comparação da Igreja como uma prostituta (foi nesse sentido que ele usou o termo vagabunda), uma análise de alguns textos bíblicos refutará essa ideia equivocada do Sr. Polêmico.

Vamos começar por Efésios 5:25-27 que diz:

Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.

Os termos santificar (hagiazō / ἁγιάζω) e santo (hagnos / αγιος) trazem em seu bojo a pureza física, inocência moral e consagração religiosa. Isso se assemelha a uma prostituta? Muito pelo contrário, né? A Igreja é santa porque Cristo a santificou, e fez isso por meio de sua morte vicária. Ele desceu do céu e pagou o dote para casar com a Igreja. O Senhor concomitantemente a declara justa e a purifica. Aí temos um ato e um processo que não são apenas escatológicos, isto é, futuros. A purificação é evidenciada pela “lavagem da água, pela palavra”. O apóstolo se refere ao ritual do batismo. Mas o batismo santifica? Por si só, não. Aqui o batismo está associado a palavra ministrada pelo Espírito Santo no coração dos que creem. Os que receberam de bom grado a palavra de Deus foram batizados. É assim que ocorre a purificação.

Um outro texto é 1 Coríntios 6:20 fala o seguinte:

Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”

O assunto em pauta aqui é fornicação. Como Cristo comprou a sua Igreja, os vossos membros são os membros do próprio Cristo. Este é o argumento que Paulo utiliza para mostrar que não é lícito um cristão envolver-se com uma prostituta. Fazer isso seria o mesmo que levar Jesus para deitar-se com uma meretriz (o que é absurdo!). Sendo a Igreja o corpo de Cristo, chamá-la de vagabunda, como fez o Ariovaldo Júnior, é insultar o Senhor da Igreja. Conseguem compreender a gravidade da situação? É meus irmãos, “o tolo não tem prazer no entendimento, mas sim em expor os seus pensamentos” (Pv 18:2). Postar coisas na rede social no intento de angariar notoriedade é algo que pode ser muito prejudicial, ainda mais quando o texto sagrado é escarnecido. Discernimento é preciso, e hoje em dia, é coisa rara.

Todavia, precisamos ser honestos. A Igreja que conhecemos tem problemas? Sim, óbvio que tem e não devemos tapar o sol com a peneira. Composta por indivíduos que ainda pecam eventualmente, há respingos da pecaminosidade individual na vida da congregação. Só que daí a taxá-la de vagabunda/prostituta é algo totalmente diferente. A prostituta é alguém que deliberadamente vive em pecado. A sujeira moral é a sua rotina. Uma pessoa que se prostitui está num estado de trevas, em rebelião com Deus. Assim estão os crentes? A resposta é um sonoro “não!” Pecamos e não podemos ser farisaicos ao ponto de negarmos isso, no entanto, o pecado na caminhada cristã é um acidente de percurso eventual (não rotineiro) que gera, após sermos confrontados pela palavra, arrependimento e abandono. Eis a diferença abismal. O Cristianismo é mudança de vida, mudança de status quo, se antes nos prostituíamos, após o resgate de Cristo a nosso favor, não podemos mais sermos taxados dessa maneira. Estamos limpos para a glória de Deus. 

O livro de Apocalipse ressalta a diferença entre a Grande Prostituta e a Noiva do Cordeiro (capítulos 17 e 19). São figuras antagônicas e não podemos confundi-las. A primeira será derrotada por Cristo (Ap 17:14), desolada e nua queimará no fogo (Ap 17.16). Já a segunda, é bem-aventurada por participar das bodas do Cordeiro. Ela já está pronta, vestida e adornada para o seu Senhor (Ap 19: 7-9). Agora como se desfaz esse nó Ariovaldo? Apocalipse apresenta a “vagabunda”, só que esta não é a Igreja. Cabe agora a “difícil decisão”: Ficar com a afirmação bíblica ou com a afirmação feicibuquiana do Sr. Freestyle? Uma está alicerçada na rocha e a outra na areia. A importância do fundamento é a de que se ele estiver numa base sólida, o edifício está seguro, caso contrário, tudo desabará sobre nossas cabeças.

Mas guardo para o final a história de Oséias e Gômer. Muitos vão querer respaldar a frase do Ariovaldo Júnior com o enredo deste livro, ou até mesmo, com a fala de outros profetas que compararam Israel a uma prostituta (Is 1:21 e Jr 3:3). Então vamos lá:

1 - Embora Israel seja a congregação de Deus no contexto veterotestamentário, não podemos aplicar estas palavras a Igreja neotestamentária. A primeira congregação não havia sido comprada por Cristo, por isso mesmo o rejeitou. Ela teve o reino tirado de suas mãos e dado a outra nação (celestial e composta de todas as etnias) que mostra os frutos do Espírito (Mt 21:43).

2 - Deus abandonou propositadamente a Nação de Israel, Jesus disse que a casa dos israelitas ficaria deserta (Mt 23:38). E Deus destruiu o templo e o sacerdócio, deixando visível que o Israel do Antigo Testamento não era o povo exclusivo de Deus, parte dele foi inserido na Igreja Universal, composta por gente de várias partes do mundo (Ap 5.9). As ovelhas remanescentes do Israel étnico formam agora um único aprisco com as outras ovelhas, ambas tendo o mesmo pastor, a saber: Cristo Jesus (Jo 10:16).

3 - Mesmo no Antigo Testamento, sabemos que “nem todos os descendentes de Israel são Israel” (Rm 9:6). Nunca que a totalidade (pessoa por pessoa) representou o verdadeiro povo de Deus. Apenas uma parcela dos israelitas estava salva. Apenas os da linhagem da promessa e que possuíam a fé messiânica de Abraão (Rm 9:8). Aos gálatas, Paulo dirá: “se vós sois de Cristo, sois descendência de Abraão.” (Gl 3.29).

Diante do que foi exposto, endosso que comparar a Igreja com uma prostituta, e querer citar o contexto do Antigo Testamento para tentar comprovar esta profanação contra o Corpo de Cristo é não entender, à luz das Escrituras, quem somos no Reino de Deus. Ao Ariovaldo Júnior e seus seguidores digo que ainda dá tempo de voltar atrás e assumir o erro. E que lembremos todos de que quando falamos de ortodoxia, não é algo que compete a mim e a você, é algo que compete a Deus, pois Ele é o autor do texto sagrado. 

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Fonte: Electus
Divulgação: Bereianos
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0 A fé neopentecostal

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Por Leonardo Dâmaso


Os “curandeiros” neopentecostais triunfalistas atribuem a fé como o fator determinante para que as bênçãos, curas e milagres aconteçam na vida do crente. Por outro lado, se o crente não conseguiu obter aquilo que foi pedido em oração a Deus ou “profetizado”, o motivo foi que a fé do crente não foi forte o suficiente, a qual o impossibilitou de receber o que já é seu por direito, afirmam os “curandeiros” neopentecostais triunfalistas. Segundo este entendimento, a incredulidade impossibilita a liberação das bênçãos. Embora o pregador neopentecostal receba todos os créditos como o canal de Deus quando as bênçãos, curas e milagres acontecem, todavia, ele não é culpado por sua falha quando um crente não as recebe. Culpar o próprio crente do seu fracasso é a justificativa perfeita para os curandeiros neopentecostais triunfalistas, porém, isso não tem base alguma na Escritura.         

Indubitavelmente, a fé não é o fator determinante para que as bênçãos, curas e milagres aconteçam, e nem a incredulidade é a barreira que os impede de acontecerem. Se nos atentarmos para as Escrituras, iremos perceber que Jesus, em todo o seu ministério, por muitas vezes curou e operou milagres sem exigir fé da pessoa doente ou necessitada de um milagre.                                                             
Em Mateus 13.57-58, é descrito que os familiares, os vizinhos e as pessoas próximas e conhecidas de Jesus se escandalizavam nele. Eles não o reconheciam como o Messias, o Cristo, filho de Deus (Jo 7.5). Por essa razão, ele não fez muitos milagres na sua cidade natal, Nazaré, apenas algumas poucas curas (veja o paralelo dessa passagem em Mc 6.1-6). Contudo, é importante observar que a incredulidade não impediu Jesus de realizar milagres naquela ocasião, mas que pela sua soberania, como Deus que é ele simplesmente não quis realizar os milagres, independente se houve a incredulidade. O propósito maior do ministério de Jesus não consistia na operação de curas e milagres. A ênfase estava no ensino das verdades concernentes a redenção, ao reino de Deus, ao estado do homem caído, entre outros assuntos (veja Mc 6.5; Mt 4.23; 5,6,7; 9.35; Mc 2.13; 9.31; 10.1; Lc 4.15; 5.15; 6.6; 13.22; 20.21; 24.27; Jo 5.38,46-47; 6.44; 7.14,19,28; 8.20,28-45,51-59; 13.34-25, etc...). O propósito das curas e dos milagres era a confirmação da mensagem de Jesus, que ele era o enviado de Deus Pai e o Messias que haveria de vir resgatar o seu povo da escravidão do pecado e da morte eterna (At 2.22).       

Podemos ver alguns outros exemplos de curas operadas por Jesus onde ele não exigiu a fé das pessoas doentes, como em Mateus 19.1-2; 21.14. Temos o evento do homem da mão ressequida relatado também em Mateus 12.9-15. A restituição da orelha do servo do sumo sacerdote que foi cortada por Pedro com uma espada (Lc 22.51). A cura de um homem paralítico (Jo 5.1-3,5-9). Um cego que não sabia quem era Jesus e nem pediu para ser curado (Jo 9.1-12,35-35-38). Em outras ocasiões, Jesus também ressuscitou pessoas mortas, como a filha de Jairo e Lázaro (Mc 5.21-24,35-43; Jo 11.1-46). Sendo assim, eu pegunto: Morto tem fé para ser curado? Acredito que não! E, finalmente, outros eventos de curas realizados por Jesus, registrados em Lucas 7.21; Mateus 14.14; 15.29-31 e Marcus 1.34. 

Em contrapartida, vemos casos em que Jesus exigiu a fé das pessoas doentes para serem curadas. Podemos observar o registro da mulher que sofria há doze anos com uma hemorragia (Lc 8.43-48); o cego de Jericó, que também pode ter sido convertido (Mc 10.46-52); os dez leprosos curados, onde somente um voltou para glorificar a Deus (Lc 17.11-19); e a mulher siro fenícia (Mt 15.21-28).
  
Da modo semelhante, o mesmo ocorreu no ministério dos apóstolos: muitas pessoas doentes foram curadas sem que fosse exigida a fé delas. Em Atos 3.1-8, vemos relatado que Pedro curou um homem coxo que ficava mendigando na porta do templo sem exigir a fé dele. Mais tarde, ele ressuscitou uma mulher morta chamada Tabita (At 9.36-43). Paulo também ressuscitou um jovem chamado Êutico (At 20.7-12). 

Dessarte, então não é necessário ter fé para receber as bênçãos? Não é necessário termos fé que ele existe é que é abençoador daqueles que o buscam (Hb 11.6)? Não obstante, precisamos entender que, primariamente, Deus é soberano. Ele decide, pela sua livre vontade, fazer o que quiser (Sl 115.3). Partindo deste pressuposto, entendemos que Deus é quem decide se vai ou não abençoar, curar ou realizar algum milagre. O agir de Deus não depende da fé do crente para acontecer, mas exclusivamente da sua vontade soberana. Não somos abençoados pelas nossas "boas obras" diante de Deus em primeiro lugar. Existem crentes neopentecostais que, por ignorância, pensam que se fizerem jejuns específicos por uma benção, se fizerem um propósito de oração no monte, na madrugada, ou alguma campanha na “igreja”, receberão a benção que tanto almejam. Nada disso! Somos abençoados pela graça de Deus, a qual exclui os nossos méritos pessoais.

Contudo, é bem verdade que Deus utiliza o “meio de graça denominado oração” para nos abençoar, se assim for da sua vontade, é claro (veja Tg 4.13-15). Deus abençoa operando curando, realizando milagres e provendo em nossa vida pela nossa fé e também independente dela. Deus não está limitado pela fé ou pela incredulidade das pessoas para cumprir os seus propósitos soberanos na terra. Ele é soberano e tem todo o poder. Deus não depende do homem para nada! Se Deus não quiser abençoar um crente, ele não vai abençoar, mesmo se o tal for piedoso e orar por muitas vezes e até por anos! Todavia, é importante elencar que Deus determinou que a fé fosse o meio que ele utilizaria para se agradar em manifestar o seu poder abençoando, curando e realizando milagres na vida dos seus filhos, mas não que ele dependa da fé ou da incredulidade para agir no mundo e na vida das pessoas em geral, quer sejam elas crentes ou não crentes. Até o não crente é abençoado por Deus através da sua providência geral ou graça comum, que é uma manifestação da sua misericórdia e bondade para com todos (Mt 5.45; 6.26; Sl 36.6c; 145.15-17). Deus é soberano e abençoa quem quer, como quer e quando quiser! Portanto, a fé que o neopentecostalismo triunfalista ensina é peremptoriamente equivocada, visto que não é ratificada pelas Escrituras!  

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Fonte: Bereianos
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0 A glória da segunda casa: Uma interpretação cristológica

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Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ageu 2.9).

É com frequência que igrejas locais mudam de endereço, a fim de proporcionar melhorias aos seus membros, bem como em busca de maiores espaços, a fim de acomodar um maior número de pessoas. É frequente, também, que para promover esta busca e conferir uma grande importância a um espaço cúltico maior, muitos acabam usando a passagem de Ageu 2.9. A lógica é a seguinte: O primeiro “templo” comportava apenas 150 pessoas. Já este segundo possui a capacidade para 500 pessoas. Com isso, de acordo com eles, cumpre-se a Palavra do Senhor em Ageu, pois a glória da “segunda casa” é maior que a da primeira.

Meu propósito neste breve comentário é analisar a passagem citada em seu contexto, a fim de obter uma conclusão a respeito da maneira como a mesma é aplicada por aqueles que entendem que ela diz respeito a locais de culto cada vez maiores.

O Livro de Ageu

Ageu é conhecido como um dos profetas da restauração, o que significa que sua atuação profética se deu quando os judeus já haviam retornado à Terra Prometida. O livro tem início com a contextualização histórica: “No segundo ano do rei Dario” (1.1), ou seja, por volta de 520 a.C. Juntamente com Zacarias, Ageu profetizou durante o reinício da reconstrução do Templo, exatamente no ano 520 a.C. De acordo com O. Palmer Robertson, Ageu foi “a primeira voz profética a falar desde o tempo da restauração da nação”.[1]

O primeiro tema a receber destaque na profecia de Ageu é o da reconstrução da “Casa do SENHOR”:

Assim fala o SENHOR dos Exércitos: Este povo diz: Não veio ainda o tempo, o tempo em que a Casa do SENHOR deve ser edificada. Veio, pois, a palavra do SENHOR, por intermédio do profeta Ageu, dizendo: Acaso, é tempo de habitardes vós em casas apaineladas, enquanto esta casa permanece em ruínas? Ora, pois, assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerai o vosso passado. Tendes semeado muito e recolhido pouco; comei, mas não chega para fartar-vos; bebeis, mas não dá para saciar-vos; vesti-vos, mas ninguém se aquece; e o que recebe salário, recebe-o para pô-lo num saquitel furado.
Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerai o vosso passado. Subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa; dela me agradarei e serei glorificado, diz o SENHOR. Esperastes o muito, e eis que veio a ser pouco, e esse pouco, quando o trouxestes para casa, eu com um assopro o dissipei. Por quê? – diz o SENHOR dos Exércitos; por causa da minha casa, que permanece em ruínas, ao passo que cada um de vós corre por causa da sua própria casa (Ageu 1.2-10).

O povo de Israel estava sendo negligente em reconstruir o Templo, o lugar da habitação de Deus no meio do seu povo. A ordem de Deus era no sentido de que o povo abandonasse seu egoísmo e passasse a se preocupar com a casa do Senhor. A ideia passada pelo povo com a sua atitude era a de que Deus era irrelevante. Eles não sentiam falta do Templo, do lugar onde o Senhor era adorado, onde o sacrifício tipológico era realizado e o perdão anunciado.

A “Segunda Casa” Comparada com a Primeira

A partir do versículo 12 vê-se que o povo atendeu à ordem do Senhor por intermédio do profeta Ageu: “Então, Zorobabel, filho de Salatiel, e Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, e todo o resto do povo atenderam à voz do SENHOR, seu Deus, e às palavras do profeta Ageu, as quais o SENHOR, seu Deus, o tinha mandado dizer; e o povo temeu diante do SENHOR”. A profecia inicial de Ageu se deu no primeiro dia do sexto mês (1.1), ao passo que a reconstrução do templo teve início no “vigésimo quarto dia do sexto mês” (1.15).

Cerca de um mês após o início da reconstrução (2.1), os anciãos que ainda tinham em sua lembrança o esplendor do templo construído por Salomão, ao verem as construções do segundo templo lamentavam a sua inferioridade estética em relação ao primeiro. Por isso, o Senhor Deus perguntou por intermédio do profeta Ageu: “Quem dentre vós, que tenha sobrevivido, contemplou esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é ela como nada aos vossos olhos?” (2.3). “Comparado com o anterior, o templo que eles estão construindo terá pouco da primitiva grandeza e beleza. Parecer-lhes-á como nada”.[2] A comparação é feita entre a “glória” do primeiro templo e a aparente ausência de “glória” do segundo.

É importante recordar que o termo hebraico kabôd, traduzido como “glória” é usado em outros profetas com uma conotação diferente desta. Ezequiel, por exemplo, fala da kabôd para se referir à presença do Senhor no templo: “Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor. Esta era a aparência da glória do SENHOR; vendo isto, caí com o rosto em terra e ouvi a voz de quem falava” (1.28). No capítulo 10, Ezequiel vê a kabôd do Senhor abandonando o templo, simbolizando que Deus não mais habitaria ali, não mais estaria presente de um modo especial e pactual: “Então, se levantou a glória do SENHOR de sobre o querubim, indo para a entrada da casa; a casa encheu-se da nuvem, e o átrio, da resplandecência da glória do SENHOR [...] Então, saiu a glória do SENHOR da entrada da casa e parou sobre os querubins” (vv. 4,18). Entretanto, Ageu “não aponta inicialmente para essa glória da presença de Yahweh. Antes, ele refere-se à beleza do templo de Salomão”.[3]

Já no versículo 7, o termo kabôd possui a mesma conotação da profecia de Ezequiel. A referência é à presença do Senhor no seu templo. Enquanto os anciãos se lembravam da beleza e esplendor do templo de Salomão, Deus promete que o segundo templo, menor em tamanho e riquezas, possuirá uma glória plena, pois, diz o Senhor “encherei de glória esta casa”. O Senhor estava ensinando ao seu povo que, “a glória do templo não dependeria de sua forma exterior. Ao contrário, a glória é vista na própria presença de Yahweh”.[4] A mensagem para aqueles que se encontravam chorosos e àqueles que concentram sua atenção na estrutura física do edifício cúltico, é que a beleza e o tamanho não influenciam ou diminuem a glória do local, mas sim a presença de Deus com o seu povo.

A Glória da Segunda Casa e Jesus Cristo

Deus prometeu que a sua presença encheria aquela casa de glória: “Ainda uma vez, dentro em pouco, farei abalar o céu, a terra, o mar e a terra seca; farei abalar todas as nações, e as coisas preciosas de todas as nações virão, e encherei de glória esta casa, diz o SENHOR dos Exércitos” (2.6-7). A grande questão é se a manifestação plena da glória de Deus estaria limitada àquele segundo templo que estava sendo construído na ocasião, ou se ela aponta apara algo além daquela edificação. A linguagem do profeta lembra o que aconteceu quando Davi se tornou rei de Israel. Várias nações reconheceram o seu reinado e enviaram presentes, coisas preciosas (2Samuel 5.11). O mesmo aconteceu com Salomão, filho de Davi (1Reis 5.8-10; 10.1-10). Não obstante, a referência é que as nações virão agora para contemplar a glória da casa do Senhor. Deus está falando de Cristo, que tanto era filho de Davi (Mateus 1.1) como a habitação permanente de Deus entre o seu povo (João 1.14). O. Palmer Robertson faz um comentário perspicaz a este respeito:

Este segundo abalo põe em destaque um único descendente de Davi, que possuirá poderes para agir com autoridade divina sobre todas as nações. Assim como o templo de Deus e o trono de Davi se fundiram no Monte Sião com a vinda da Arca para Jerusalém, assim também o profeta antecipa uma futura unificação gloriosa do culto divino e do domínio através de um monarca Davídico restaurado.[5]

A interpretação de Calvino também leva em conta o elemento messiânico da profecia:

Mas nós podemos entender o que ele diz de Cristo, virá o desejo de todas as nações, e eu encherei esta casa com glória. De fato, sabemos que Cristo era a expectativa de todo o mundo, de acordo com o que foi dito por Isaías. E pode ser dito apropriadamente que, quando o desejo de todas as nações vier, isto é, quando Cristo se manifestar, em quem os desejos de todos convergem, então, a glória do segundo templo será esplendorosa.[6]

Por esta razão é que o Senhor declara, no versículo 9: “A glória desta última casa será maior do que a da primeira”. A glória do segundo templo não possui nenhuma relação com o seu espaço físico ou com seus objetos de valor. A glória do segundo templo está direta e inextricavelmente relacionada com a vinda de Jesus Cristo. Por se tratar de um templo mais próximo da vinda do Messias do que o que fora construído por Salomão, o segundo seria mais glorioso. Diz o puritano Matthew Poole que, “o que Deus chama de glória deve ser bem melhor do que prata e ouro. Maior que a da primeira, verdadeiramente mais gloriosa, em muitos graus. O mínimo de Cristo tem glória maior que toda a magnificência de Salomão. Não existiram mais que duas casas erigidas por designação divina, e, na segunda, adentrou pessoalmente o Messias”.[7] Calvino afirma ainda que, não devemos imaginar, como alguns intérpretes “brutos”, que a glória futura do segundo templo dizia respeito às reformas empreendidas por Herodes, visando restaurar a suntuosidade do templo. Antes, de acordo com ele, “o que é dito aqui a respeito da glória futura do templo é aplicado à excelência daquelas bênçãos espirituais que apareceram quando Cristo foi revelado, e ainda continuam visíveis para nós através da fé”.[8]

A conexão entre a glória do segundo templo e Jesus fica mais evidente com a continuação do versículo 9: “e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos”. No Antigo Testamento a promessa de paz sempre estava ligada à vinda do Messias: “O SENHOR dá força ao seu povo, o SENHOR abençoa com paz ao seu povo” (Salmo 29.11). O conceito veterotestamentário de paz carrega “a noção positiva de bênçãos, especialmente a de um correto relacionamento com Deus”.[9] Isso fica evidente na bênção araônica, em Números 6.24-26: “O SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz”.

Além disso, as passagens proféticas do Antigo Testamento olham adiante para um período de paz que seria inaugurado pela vinda do Messias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9.6); “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às proximidades da terra” (Zacarias 9.9-10). O profeta Ezequiel anunciou que através do Messias, Deus faria uma eterna aliança de paz com o seu povo: “Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre” (37.26). Interessantemente, a ideia de um santuário, um templo ligado ao estabelecimento da paz também aparece na passagem de Ezequiel.

Isto posto, quando os discípulos estavam reunidos com Jesus no cenáculo, ouviram o seu Mestre dizer: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (João 14.27). Com toda certeza eles rememoraram as promessas escriturísticas a respeito do estabelecimento da paz pelo Messias, aquele que era o tabernáculo de Deus entre os homens.

É importante observar ainda que, Apocalipse 21.22 faz uma afirmação extraordinária a respeito da Nova Jerusalém: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”. G. K. Beale e Sean M. McDonough afirmam que, “João provavelmente entendeu estas profecias do Antigo Testamento como sendo cumpridas no futuro por Deus e Cristo substituindo o primeiro templo físico e a arca por sua gloriosa habitação, o que tornará a glória do primeiro templo diminuta”.[10]

Conclusão

A glória do segundo templo não dizia respeito ao seu tamanho nem ao esplendor do material usado na sua construção – até porque, em comparação com o primeiro templo, o segundo foi capaz de despertar o choro dos anciãos que viram o que fora construído por Salomão. A glória da segunda casa estava ligada à vinda do Messias, de Jesus Cristo, o verdadeiro templo de Deus, o Emanuel, o Deus conosco.

Usar a passagem de Ageu 2.9 para recomendar um enorme espaço cúltico, com capacidade para abrigar milhares de pessoas é cometer duplo erro. Em primeiro lugar, comete-se o erro de torcer o sentido da passagem de acordo com o contexto do livro do profeta Ageu. A segunda casa cuja glória seria maior era pequena e destituída de ornamentos em comparação com a primeira. Mas muitos usam a passagem para falar de uma segunda casa maior que a que usavam até então. Em segundo lugar, comete-se o erro de desconsiderar Jesus Cristo, de se apegar às sombras do Antigo Testamento em detrimento daquele que dá sentido a todo ajuntamento solene e que enche de glória todo e qualquer lugar onde o povo de Deus está reunido para adorá-lo em espírito e em verdade.

Soli Deo Gloria!

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Notas:
[1] O. Palmer Robertson. The Christ of the Prophets. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2004. p. 368.
[2] Gerard van Groningen. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 813.
[3] Ibid.
[4] Ibid. pp. 817-818.
[5] O. Palmer Robertson. The Christ of the Prophets. p. 383.
[6] John Calvin. The Minor Prophets: Habakkuk, Zephaniah & Haggai. Vol. 4. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1986. p. 360.
[7] Matthew Poole. A Commentary On The Holy Bible: Psalms-Malachiah. Vol. 2. Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 2010. p. 987.
[8] John Calvin. The Minor Prophets: Habakkuk, Zephaniah & Haggai. Vol. 4. p. 361.
[9] Andreas J. Köstenberger. “John”. In: G. K. Beale e D. A. Carson (Eds.). Commentary On The New Testament Use of The Old Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic e Apollos, 2007. p. 490.
[10] G. K. Beale e Sean M. McDonough. “Revelation. In: Ibid. p. 1153.

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Fonte: Cristão Reformado
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