Homossexualidade sob a perspectiva bíblica

image from google

Neste vídeo o Rev. Augustus Nicodemus Lopes ministra sobre Romanos 1:26-27, expondo a Palavra de Deus sobre a homossexualidade e refuta os pontos colocados pela chamada "teologia gay", que tenta justificar a prática homossexual como aceitável através de distorções ao texto sagrado. Assista:

***
Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia
Culto Noturno, 17/07/2016. 
Série ''A Mensagem da Carta aos Romanos''
7ª Mensagem: Homossexualidade: Uma perspectiva bíblica
Texto Bíblico: Romanos 1:26-27
.

A natureza humana é totalmente depravada

image from google

O homem, porém, não se pode melhor conhecer, em uma e outra parte da alma, a não ser que se ponha à vista com seus títulos, pelos quais é caracterizado pela Escritura. Se todos forem descritos com estas palavras de Cristo: “O que é nascido da carne é carne” [Jo 3.6], como é fácil comprovar, o homem é convencido de ser uma criatura mui miserável. Ora, o Apóstolo atesta que a inclinação da carne é morte, uma vez que é inimizade contra Deus, e por isso não se sujeita à lei de Deus, nem pode sujeitar-se [Rm 8.6, 7].

Porventura a carne está a tal ponto pervertida, que com toda sua inclinação exerça inimizade contra Deus, que não possa conformar-se à justiça da lei divina, que nada, afinal, possa exibir senão ocasião de morte? Pressupõe-se, então, que nada há na natureza humana senão carne, e que daí não se pode extrair algo de bom. Mas dirás que o termo carne se refere apenas à parte sensória, não à parte superior da alma. Isto, porém, se refuta plenamente à luz das palavras não só de Cristo, como também do Apóstolo. O postulado do Senhor é: ao homem importa nascer de novo [Jo 3.3], porque ele é carne [Jo 3.6]. Não está preceituando nascer de novo em relação ao corpo. Mas, na alma nada nasce de novo, se apenas alguma porção lhe for reformada; ao contrário, toda ela se renova. E isto é confirmado pela antítese estabelecida em uma e outra destas duas passagens, pois de tal modo o Espírito é contrastado com carne, que nada é deixado entre ambos. Logo, tudo que no homem não é espiritual, segundo este arrazoado, diz-se ser carnal. Nada, porém, temos do Espírito senão pela regeneração. Portanto, tudo quanto temos da natureza é carne.

Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação. E de fato, pouco antes pintara esta imagem da natureza humana, que mostra que estamos corrompidos e depravados em todas as nossas faculdades.

Ora, ele escreve que todos os gentios andam na vaidade de sua mente, estão entenebrecidos no entendimento, alienados da vida de Deus por causa da ignorância que neles há, e da cegueira de seu coração [Ef 4.17, 18], não havendo a mínima dúvida de que isso se aplica a todos aqueles a quem o Senhor ainda não reformou para a retidão, seja de sua sabedoria, seja de sua justiça. O que se faz ainda mais claro da comparação adjunta logo em seguida, onde adverte aos fiéis de que não haviam assim aprendido a Cristo [Ef 4.20]. Seguramente concluímos destas palavras que a graça de Cristo é o único remédio pelo qual somos libertados dessa cegueira e dos males daí resultantes.

Ora, também assim havia Isaías vaticinado acerca do reino de Cristo, quando o Senhor prometia que haveria de ser por luz sempiterna à sua Igreja [Is 60.19], enquanto, a esse mesmo tempo, trevas cobririam a terra e escuridão cobriria os povos [Is 60.2]. Quando testifica haver de despontar na Igreja a luz de Deus, fora da Igreja certamente nada deixa, a não ser trevas e cegueira. 

Não mencionarei, uma a uma, as passagens que a respeito da vacuidade do homem se contam por toda parte, especialmente nos Salmos e nos Profetas. Incisivo é o que Davi escreve: “Certamente os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira” [Sl 62.9]. Traspassado de pesado dardo lhe é o entendimento, quando todos os pensamentos que daí procedem são escarnecidos como estultos, frívolos, insanos, pervertidos.

A DEPRAVAÇÃO HUMANA É CONFIRMADA PELO QUE DIZ PAULO EM ROMANOS 3

Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9]. Mas, visto que estou tentando ser breve, contentar-me-ei com apenas uma passagem, a qual, no entanto, haverá de ser como um espelho caríssimo, em que contemplamos a imagem integral de nossa natureza. Ora, o Apóstolo, quando quer lançar por terra a arrogância do gênero humano, o faz com estes testemunhos [Rm 3.10-16, 18]: “Pois não há nenhum justo, não há quem tenha entendimento, ou que busque a Deus; todos se desviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, nem um sequer” [Sl 14.1-3; 53.1-3]; sepulcro aberto é a garganta deles; com suas línguas agem dolosamente” [Sl 5.9]; veneno de áspides há debaixo de seus lábios” [Sl 140.3]; “dos quais a boca está cheia de maldição e amargor” [Sl 10.7]; “cujos pés são velozes para derramar sangue; em cujas veredas há destruição e infortúnio” [Is 59.7]; “diante de cujos olhos não há temor de Deus” [Rm 3.18].

Com esses raios, o Apóstolo não está investindo apenas contra certos homens, mas contra toda a raça dos filhos de Adão. Nem está ele a censurar os costumes depravados de uma ou outra era, mas está acusando a perpétua corrupção de nossa natureza. Com efeito, nesta passagem, seu propósito não é simplesmente censurar os homens, para que caiam em si, mas, antes, ensinar que todos têm sido acossados de inelutável calamidade, da qual não podem sair, a não ser que sejam retirados pela misericórdia de Deus.

Visto que isso não podia ser provado, a não ser que fosse estabelecido da ruína e destruição de nossa natureza, trouxe ele à baila estes testemunhos, mediante os quais se convence de que nossa natureza está mais do que perdida. Portanto, fique isto demonstrado: os homens são tais quais aqui descritos, não apenas pelo vezo do costume depravado, mas ainda pela depravação de sua natureza. Porquanto não se pode de outra forma sustentar a argumentação do Apóstolo: não há para o homem nenhuma salvação, senão pela misericórdia do Senhor, porquanto, em si, ele está inexoravelmente perdido.

Não me darei aqui ao trabalho de provar a aplicabilidade desses testemunhos, para que não pareçam, aos olhos de alguém, indevidamente usados pelo Apóstolo.

Procederei exatamente como se essas coisas fossem originalmente ditas por Paulo, não tomadas dos profetas. Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.

Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um. Ora, como o corpo, quando já mantém incubada em si a causa e matéria de uma doença, se bem que ainda não efervesça a dor, por isso não se julgará ser sã nem mesmo a alma, enquanto borbulha em tais achaques de vícios, embora a comparação não se enquadre em todos os aspectos, porque, no corpo, por mais enfermo, subsiste um alento de vida; a alma, porém, imersa neste abismo fatal, não só padece desses achaques, mas ainda é inteiramente vazia de todo bem.

***
Autor: João Calvino
Fonte: CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. Vol. 2, Cap. III, pág. 57-59. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
.

Sobre os “Cristãos Progressistas”

image from google

Os assim chamados “cristãos progressistas” (alcunha que não é nova, e foi usada, por exemplo, na Polônia, nas décadas de 1950 e 1960 para caracterizar os católicos que apoiaram os comunistas) se notabilizam, hoje, no Brasil, por defender a união civil de pessoas do mesmo sexo, aborto, maioridade penal e todo tipo de estatismo, como bons devotos de uma ordem religiosa, totalmente leais ao Partido e ao santo graal da Ideia.¹ Todos aqueles que não concordam com eles são tratados, simplesmente, como “não-pessoas”. E alguns de seus autores prediletos são Jürgen Moltmann, Hans Küng, Paul Tillich, Rob Bell, Brian McLaren, John Howard Yoder, Rosemary Radford Ruether, Leonardo Boff, Frei Betto, Gustavo Gutiérrez, Severino Croatto, entre outros.

Mas a defesa veemente desses temas são sinais de um mal maior. Até que ponto esses “cristãos progressistas” não têm reinterpretado profundamente a fé cristã, tornando-a em algo amorfo, totalmente distinto daquilo que se pode receber como revelação de Deus nas Escrituras Sagradas?

Parece que há, da parte desses “cristãos progressistas”, uma clara ruptura com “aquilo que foi crido em todo lugar, em todo tempo e por todos [os fiéis]” (Vicente de Lérins); isto é, esses “cristãos progressistas” se caracterizam não só por um afastamento, mas por uma rejeição de todo o ensino consensual entre os cristãos legítimos: a crença no Deus uno e trino, em sua revelação infalível e autoritativa nas Escrituras Sagradas, no pecado original e pessoal, na salvação exclusiva pela livre graça, no nascimento virginal de Cristo Jesus, em seu sacrifício sangrento na cruz, expiatório e substitutivo, em sua ressurreição corporal e em sua segunda vinda, única, visível e pessoal.

Se há, de fato, tal cisão, como reconhecer esses ditos “progressistas” como cristãos? Até que ponto – mais uma vez, se há um afastamento do ensino consensual cristão, como resumido nos antigos credos, aceitos por todos os ramos da fé cristã – não se deve considerá-los como meros “cavalos de Tróia”? Pois estes têm por alvo subverter os alicerces mais básicos da fé e da ética cristã para que a Igreja seja controlada (Gleichschaltung), subordinando-a à agenda do Partido/Estado, inflexível e colossal.

E, me parece, com a derrocada da esquerda na esfera pública, esses “cristãos progressistas” dobraram a aposta, na esfera eclesial, propagandeando com mais virulência, militantemente, suas crenças e valores.

Ao fim, toda noção de cristianismo parece ter sido subvertida pelos “cristãos progressistas”, subordinados que estão a uma Ideia. Se isso é assim, estes não podem ser reconhecidos como cristãos. Pois eles colocam fé na Ideia, não na Revelação. E gnosticismo não é cristianismo.
___________________
Nota:
[1] O termo “cristão progressista” também foi usado no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 para caracterizar os adeptos da teologia da libertação, que “pensavam à frente”, contrapondo-se aos “reacionários”, que, por serem conservadores, estariam “amarrando o progresso”. E, na época, era hegemônico equacionar “progresso” com a noção comunista de história. Os “cristãos progressistas” surgiram nesse momento, supondo que a classe que salvaria o mundo seriam os pobres. Com a derrocada do socialismo no leste europeu, seguindo a nova esquerda, os “cristãos progressistas” entendem que a classe que salvará o mundo será a dos “excluídos” e minorias: mulheres, negros, homossexuais, índios, etc. Agora, enquanto o esquerdismo do PT sai de moda no Brasil e no restante da América Latina, alguns, atrasados em seis décadas, defendem e propagam o “cristianismo progressista”, na contramão da história.

***
Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

Uma resposta ao texto de Ronilso Pacheco, sobre a “cultura do estupro” na leitura bíblica

image from google

O que segue neste artigo é uma refutação ao texto: "Porque a cultura do estupro também descansa sob a sombra da nossa leitura bíblica", de Ronilso Pacheco.

Monstrum exitiabile, ira telluris genitum – “monstro mortal ali vivia, gerado pela Terra em sua fúria”, já dissera Silius Italicus. A frase que designava toda sorte de criaturas medonhas que viviam em antros, cavernas e nichos ocultos pode ser hoje perfeitamente atribuída aos produtos literalmente residuais que encontramos, a distância de um simples toque do mouse, nas redes sociais. Dentre as criações teratológicas resultantes da simbiose do humanismo com a inclusão digital e a ociosidade, talvez a mais curiosa seja a figura, mítica evidentemente, do cristão de esquerda. O “cristão de esquerda” (contradição em termos) não pode ser considerado cristão nem no sentido metafórico do termo. É um hibridismo bizarro que transita entre a esquizofrenia teológica e a apostasia pura e simples. É possível listar dois tipos: o primeiro é o sujeito mediano, o crente de certa forma honesto em suas crenças, mas ainda incapaz de organizar e sistematizar suas ideias. Incapaz de compreender que o âmago do marxismo não é a distribuição equitativa dos bens, mas, sim, a supressão da propriedade privada, não percebe a contradição entre a defesa recorrente, por parte das Escrituras, da posse da terra pelos seus proprietários originais e a tentativa de estatização de todos os meios de produção que é essencial nos governos que levam a cabo, mediante engenharia social e violência, os ideais do socialismo científico. Esse tipo de cristão marxista, em última análise não conhece as Escrituras, e somente reproduz aquilo que ouve no jornalismo, na academia e mesmo (infelizmente) em algumas comunidades eclesiásticas. É antes vítima do marxismo cultural niilista que, quando não destrói a alta cultura, a anula mediante o reducionismo de seus raciocínios que interpretam o real em categorias econômicas falsificadas. 

Romanos 14:5 e o Shabbath Semanal

image from google

A questão é se o Shabbath (descanso)[1] semanal enquadra-se no escopo da distinção atinente a dias, que o apóstolo aborda em Romanos 14:5. Caso isto seja verdade, precisamos levar em conta as seguintes implicações: 

(1) Isto significaria que o mandamento relativo ao Shabbath, no Decálogo, não continua a impor qualquer obrigação de obediência aos crentes, na economia do Novo Testamento. A observância de um dia em cada sete, reputando-o santo e investido da santidade enunciada no Quarto Mandamento, teria sido ab-rogada e encontrar-se-ia na mesma categoria da observância dos ritos cerimoniais da instituição mosaica. Com base nesta suposição, a insistência sobre a santidade permanente de cada sétimo dia seria algo tão judaizante quanto a existência de que se perpetuem as festas levíticas.

(2) O primeiro dia da semana não teria nenhuma significação religiosa. Não seria distinguido de qualquer outro dia como memorial da ressurreição de Cristo; tampouco poderia ser devidamente considerado como dia do Senhor, em distinção ao modo que cada dia tem de ser vivido em devoção e serviço ao Senhor Jesus Cristo. Nem poderia qualquer outro dia, semana ou período ser considerado com essa significação religiosa.

“Malakoí” e o debate Neto x Feliciano

image from google

Recentemente o empresário Felipe Neto e o Pastor/Deputado Marco Feliciano debateram sobre algumas questões de extrema relevância para a atualidade. O primeiro assunto debatido foi sobre o homossexualismo, que nas palavras de Felipe Neto, “é o assunto em pauta do século”.

Felipe Neto corretamente aponta a falta de uniformidade teológica no meio evangélico brasileiro, bem como a seletividade na aplicação de textos bíblicos por parte dos cristãos, demonstrando de forma eficaz contradições internas na teologia do Pr. Feliciano (p. ex. a questão das mulheres como pastoras).

No debate, foi aludido a 1Co. 6.9 como um texto que demonstra que relações do mesmo sexo são tratadas como pecado na Bíblia, ao que Felipe Neto, citando a palavra grega (e não hebraica!) “malakoí” (traduzida em algumas versões como “efeminados”) diz que o termo significa “devasso”, não se referindo explicitamente ao homossexualismo.

O propósito deste texto não é defender nenhum dos dois debatedores em questão, mas sim demonstrar que “malakoí” (em 1Co. 6.9) claramente se refere a prática homossexual. 

Malakoi” em 1Coríntios 6.9-10

Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus

No capítulo 6 dessa carta, Paulo critica o litígio no meio da igreja de Corinto. Nos versos em questão (9-10) Paulo fala sobre aqueles que não herdarão o reino de Deus (dentro da escatologia inaugurada de Paulo, reino de Deus nesse texto em específico se refere ao futuro e consumado reino vindouro de Deus). Paulo já havia feito um “catálogo” negativo com 6 elementos em 1Co. 5.9-11 (impuro, avarento, idólatra, maldizente, beberrão, roubador) adicionando agora mais 4, totalizando 10 (adúlteros, homossexuais passivos e ativos e ladrões).


Os termos devassos (impuros), idólatras, adúlteros, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores são claros e não precisam de um comentário aqui. O problema está nas duas palavras traduzidas tradicionalmente como “efeminados” (μαλακοὶ) e “sodomitas” (ἀρσενοκοῖται).

Μαλακός fora de um contexto sexual significa “leve” e é traduzido como “brando” (γλῶσσα δὲ μαλακὴ συντρίβει ὀστᾶ, Prov. 25.15 LXX), e também como “fino” (roupas finas em Mt. 11.8).

Na literatura helenística do período romano pode significar efeminado quando se referindo a homem (Dio Chrysostom, 49 [66]; Diogenes Laertius, 7: 173).

Em 1Co. 6.9, sua relação sintagmática com ἀρσενοκοῖται influencia sua extensão semântica. Este último é a forma mais antiga desse adjetivo composto, não tendo uma pré-história lexicográfica. Entretanto, os estudiosos estão em acordo que seus componentes significam “dormir com” ou “ter relações sexuais com” (κοῖτης) “homens” (ἄρσην – macho [substantivo]; ἀρσενικός – macho [adjetivo]). Ambos os termos receberam um intenso escrutínio lexicográfico, mas infelizmente nosso espaço aqui não nos permite tal mapeamento. 

Em geral, há um amplo consenso que  μαλακοί em 1Co. 6.9 significa “um parceiro passivo em uma relação homossexual entre homens”. Devemos considerar esses dois termos em relação um com o outro para não entrarmos num ambiente especulativo. Esses dois termos se referem ao relacionamento homossexual entre um parceiro mais passivo (μαλακοί) e um mais ativo (ἀρσενοκοῖται), sem fazer referência específica à pederastia (conforme Scroggs) nem a prostituição (conforme Boswell). Mesmo esses dois estudiosos acima que defendem traduções diferentes, concordam que ἀρσενοκοῖται significa “deitar na cama com outro homem”, expressão que ocorre em Levítico 18.22:

Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”.

Scroggs afirma que “o hebraico é traduzido fielmente”, e que também “partes desse composto grego aparecem na versão Septuaginta das leis em Levíticos” e na discussão legal rabínica “deitar com um homem (mishkav zakur) é o termo mais usado para descrever a homossexualidade entre homens” (Scroggs, The New Testament and Homosexuality, 107, n. 10.).


Entretanto, como corretamente pontua Anthony Thiselton em seu magistral comentário de 1Coríntios, a questão não é se podemos traçar um link entre Lv. 18.22 e 1Co. 6.9, mas se a visão de Paulo sobre o Antigo Testamento se origina totalmente através de lentes de recontextualização judaico-helenística em termos de uma sociedade greco-romana, ou se ele interpreta o AT como Escritura cristã oferecendo paradigmas diretos para o estilo de vida e para a ética do povo de Deus como uma identidade corporativa (Thiselton, 2000; p.450; esta última opção é a mais coerente).

Outro ponto que ajuda a lançar luz sobre o texto, é a cuidadosa análise estrutural de 1Co. 6.9-20 feita por Kenneth Bailey. Ele argumenta que 6.9-20 constitui uma cuidadosa construção de 5 parágrafos em que (a) os 5 pecados sexuais listados se referem aos caps. 5 e 6.12-20 e (b) os outros 5 se referem a questões como comida e bebida (cf. 1Co. 11.17-34). A condenação de um tipo de pecado não tem prioridade sobre os outros. Todos dizem respeito ao corpo. Ainda sim, cada subcategoria dentro desses dois grupos possui sua importância (Bailey, “Paul’s Theological Foundation,” 27-29). Bailey argumenta que todas as falhas sexuais estão relacionadas à idolatria. Nas quatro que são expressas com ações, duas são direcionadas aos heterossexuais (adultério (para os casados) e relacionamentos ilícitos (para os solteiros?)), e duas para os homossexuais (um aplicando à função passiva e outro à ativa). Não podemos ter certeza da precisão dos argumentos de Bailey, mas certamente eles acrescentam um impressionante peso cumulativo aos demais argumentos que demonstram que o homossexualismo é visto explicitamente como pecado em 1Co. 6.9.

Algumas conclusões reflexivas sobre 1Co. 6 e o homossexualismo

1. Em um catálogo com dez disposições que alcançam ações habituais no domínio público, apenas duas se referem a relacionamentos do mesmo sexo, e esses não recebem nenhuma ênfase adicional em relação aos outros oito (Thiselton). Considerações são feitas sobre desejos ilícitos heterossexuais e de aumento de poder e posses da mesma forma que são feitas sobre os relacionamentos do mesmo sexo (não estou defendo uma visão igualitária do pecado, apenas demonstrando algo específico desse texto).

2. As declarações que dizem que as questões homossexuais não são questões tratadas pela Bíblia são no mínimo confusas. Ao contrário do que Felipe Neto disse, Romanos 1.18-32 se refere claramente a relacionamentos do mesmo sexo, bem como o texto brevemente analisado aqui. Jesus apela para Gênesis 1.27 (‘homem e mulher os criou’) e 2.24 (‘o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne’), em suas observações sobre divórcio e recasamento em Marcos 10.6-9 e Mateus 19.4-6, mostrando a importância do pré-requisito de homem e mulher para o casamento, implicando assim, que não só a poligamia é algo ilícito, mas também o homossexualismo. 

3. Devido à distância entre os séculos I e XXI, alguém pode questionar se a questão Bíblica é comparável com a questão nos nossos dias. Quanto mais os estudiosos examinam a sociedade greco-romana e o pluralismo de suas tradições éticas, mais a situação em Corinto parece ressoar a nossa. Portanto são duas situações comparáveis, ainda mais para um cristão que crê que a Bíblia é a palavra de Deus e se aplica a todas as gerações. 

Paulo parece retornar ao AT como fonte de uma ética distinta para um povo distinto (os cristãos), interpretando à luz do evento-Cristo. A conexão entre 1Co. 6.9-10 e Rm. 1.26-29 e seu background veterotestamentário endossam que a idolatria, isto é, a pretensa autonomia humana construindo o valor de alguém acima de um compromisso pactual com Deus, leva a um colapso de valores morais em um tipo de efeito dominó (Thiselton).

***
Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
.

Desfazendo Alguns Discursos Progressistas (Parte 1)

image from google

Uma resposta ao artigo: Dez Coisas Que Você Jamais Poderia Votar a Favor Enquanto Segue a Jesus.

O que temos a oferecer ao leitor, agora, é uma refutação sistemática ao texto intitulado “Dez Coisas Que Você Jamais Poderia Votar a Favor Enquanto Segue a Jesus”.[1] Não é, nem de longe, um bom artigo. Não há referências significativas nem qualquer indício de pesquisa. Não há nem mesmo referências bíblicas ou qualquer sinal de exegese. Então, por que respondê-lo? Um amigo progressista com alguma influência tornou-o público e foi bem recebido. Endossaram-no como se tivesse real substância ou relevância. A despeito de parecer uma provocação a nós, autores destes textos,[2] por considerarmos as opiniões anti-bíblicas, equivocadas e até nocivas, e por terem se popularizado e estarem, aqui e acolá, presente na maioria dos textos dos ditos ‘cristãos progressistas’, vale a pena responde-lo afim de que já sirva para lidar com todos eles e aproveitar o ensejo da breve popularidade do texto com a finalidade tentar remediar os males que podem essas ideias causar. O texto consegue errar em absolutamente tudo. Até mesmo na introdução, ao tentar dizer o que é um cristão, peca por não fazer referência ás Escrituras. Não há – não por acaso – um apontamento para as páginas sagradas para definir o que é um cristão. Tudo que temos é um genérico (palavra de ordem para o texto, en passant) “seguir a Cristo implica certas coisas, motivações, sentimentos, ações e princípios”. Quais coisas? Quais motivações? Quais sentimentos? Quais ações? Quais princípios? Evidentemente são aqueles que o autor do detestável artigo articulou em sua própria cabeça (certamente mais progressista do que bíblica – para não dizer ‘totalmente progressista’).


Ideologia de Gênero: Uma Questão Teológica e Biopolítica

image from google

Em toda história da Igreja Cristã podemos pontuar vários ensinos contrários ao que a igreja professa. Isso é um fato inegável. O Cristianismo sempre sofreu oposição ideológica. A Ideologia de Gênero que tem sido pauta para os últimos debates sócio-educacionais é um assunto que precisa ser refletido com seriedade pela igreja e não pode ser ignorado, pelo simples fato de ser uma proposta alteradora do modelo bíblico para a sexualidade humana, a saber, homem e mulher (Gn 1.26-28). Ao me referir ao discurso hipermoderno sobre gênero, estabeleço uma ligação própria com a heresia, o termo usado por heresia é o que a Igreja tem professado no decorrer dos séculos, uma distorção da verdade declarada nas Escrituras de forma axiomática. A heresia é um desfoque da fala divina, é uma corrupção do ensino bíblico; e questão do gênero defendida por correntes psicológicas, antropológicas e sociológicas é uma distorção clara e confrontadora do que diz a Bíblia a respeito do homem e da mulher e de seu comportamento sexual[i].

De fato e de verdade, as teorias relativas à ideologia de gênero (também conhecidas como teoria queer ou gender) são desdobramentos de ideologias sociais referentes ao feminismo[ii], homossexualidade e demais distorções do comportamento sexual humano. O processamento de tal ideologia na sociedade é desastrosa e extremamente prejudicial. Crianças de ambos os sexos usarem o mesmo banheiro na escola? Deixar que a criança descubra suas inclinações sexuais sem nenhum molde – seja da religião, seja da moral vinda dos pais, seja de um padrão social ocidental – é uma violação da liberdade e não uma proclamação da liberdade. A intenção claramente é destruir a autoridade estabelecida, e isso é quebra do quinto mandamento descrito no decálogo. É força empregada por ideologias de gênero, obviamente ligadas a questões de hegemonia nas ideias biopolíticas. É um poder ideológico que dá cabo a uma guerra cultural para erradicação da moralidade cristã estabelecida no Ocidente. É um desmonte cultural em relação à função do homem e da mulher na sociedade e uma nova formulação da ideia de família, obviamente contrária a Palavra de Deus.

De um ponto de vista teológico podemos dizer que a ideologia de gênero é uma negação da realidade, uma negação da verdade e uma negação da autoridade. A realidade de que a criança nasce com um sexo e gênero é o sinônimo e não algo a ser escolhido, essa negação da realidade é uma violação do mandato social descrito em Gênesis 1. Onde lemos que o homem e a mulher deveriam procriar, assim a humanidade só se multiplicaria pelo cumprimento do mandato social, e para que isso acontecesse a sexualidade criada por Deus deveria ser cumprida como no plano original do Criador e não no exercício da homossexualidade ou na neutralidade do sexo. Deus criou o homem para se relacionar sexualmente com a mulher e não com outro homem (Rm 1.24-27). O feminismo em seu formado agressivo de desestabilização da autoridade masculina e exaltação da independência da mulher de toda opressão do sexo oposto também é uma distorção do que dizem as Escrituras sobre o papel da mulher no casamento e o papel do marido (veja Ef 5. 22-33), a submissão da mulher ao marido é estabelecida pelo próprio Deus em sua Palavra e todo ensino contrário é uma afronta a vontade do Criador.

É triste observarmos quietos a invasão diabólica de tal ideologia, que em muitos casos é inserida em materiais didáticos e paradidáticos aprovados pelo MEC. A ideologia de gênero tem sido subliminarmente colocada nestes materiais, demonstrando o tamanho da covardia e sordidez de gente que se diz educador e implanta monstruosamente na mente de crianças, padrões de reconstrução moral e social[iii]. Obviamente, nosso objetivo aqui não é examinar historicamente e exaustivamente a questão da ideologia, mas, direcionar para uma pesquisa mais ampla, diga-se de passagem, urgente principalmente para pastores, pais e professores cristãos.

A urgência e a importância de refletirmos a partir de uma visão teológica sobre o assunto é sem precedentes, nenhum cristão que esteja envolvido nos campos de conhecimento está autorizado pela Palavra de Deus a pensar autonomamente sobre quaisquer assuntos envolvendo a criação de Deus. Com isso não estou defendendo a falta de liberdade científica, mas, pontuando um princípio cristão (1 Co 10.31) que tudo que fazemos deve ser para a glória de Deus. Nossa teologia deve atender a questões sociais e devemos cultivar uma mente bíblica para o exercício de uma cosmovisão redentora, uma percepção de mundo que aponte para Cristo, o Cristo total, o Cristo que é um cerne da teologia, da revelação, da Criação e da ordem devida ao mundo criado.

Desenvolvermos uma reflexão social a partir de bases bíblicas e teológicas é ordem das Escrituras (Êx 20.1-3). O professor Felipe Nery, fundador do Observatório Interamericano de Biopolítica relata em um de seus artigos que “... na Alemanha. Dois pais são presos por não permitirem que seus filhos compareçam às aulas de sexo na escola”. E continua:

O caso dos pais presos na Alemanha por não aceitarem que sua filha fosse doutrinada pela cartilha de “gênero” ilustra bem a índole dos promotores da nova moral mundial. Trata-se de um grupo claramente totalitário. Embora use com frequência termos como “liberdade”, “tolerância” e “diversidade”, aqueles que ousam discordar de suas teorias mirabolantes são imediatamente punidos, ora por meio da mentira e da difamação, ora por sanções legais – como é o caso de Eugen e Luise Martens.
A atitude desse casal, no entanto, não é uma simples “reação”, como se os dois estivessem preocupados apenas em “desmascarar” a ideologia de gênero, ou fossem meros soldados preocupados em matar o inimigo. Talvez, Eugen e Luise Martens, pais de nove filhos, nem se interessassem muito por toda essa discussão, por essa que é realmente uma guerra cultural. A situação com que se depararam, no entanto, obrigou-os a agir. Não por ódio ao adversário, mas por amor àquilo que tinham de mais valioso: os seus filhos[iv].

Felipe Nery completa dizendo:

Algum pai poderia imaginar-se na mesma situação? A escola do próprio filho, que ele criou com tanto amor, dedicação e cuidado, querendo incutir em sua mente toda “variedade” de práticas sexuais... O que fazer? Qual atitude tomar? Ora, o gesto de Eugen e Luise parece bastante compreensível. É o mínimo que qualquer pai e qualquer mãe podem fazer para preservar a integridade e a pureza de seus filhos. Contudo, o Estado quer essas crianças para si, quer educá-las do “seu” jeito, quer implantar nelas as suas ideias, ainda que sejam essas, absurdas, citadas acima. É o que alguns parlamentares também absurdamente defendem, quando trabalham pela implantação da ideologia de gênero em nosso país. Filhos doutrinados, pais encarcerados – é este o futuro de uma nação que mina a célula-base da sociedade, a família, e entrega as suas crianças nas mãos do Estado. Eugen e Luise Martens representam a resistência dos homens de bem de todo o mundo, que não querem ver os seus filhos sequestrados de suas mãos, para serem manipulados por um Estado imoral e por uma ideologia depravada. Eugen e Luise lembram, com sua atitude, que os pais, por serem os transmissores da vida aos filhos, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores, e que essa função é essencial, insubstituível e inalienável. Eugen e Luise não negam a importância da educação sexual, mas recordam que esta deve ser dada fundamentalmente pelos pais, e não em oposição aos seus princípios e valores[v].

Portanto o que nos resta quanto cristãos? Com certeza, não um conformismo com tamanha calamidade moral e social que nos cerca, não um isolacionismo irresponsável para com nossa confissão de fé e para com a missão que nos foi dada (Rm 12.1-2). Finalizo com um grandioso texto da Escritura que me faz refletir sobre nossa postura:

"Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo..." (2 Coríntios 10:5)

_____________

Notas:
[i] Recomendo ao leitor para aprofundamento do assunto, principalmente para um alerta sobre a prática de ensino nas escolas sobre a questão gender (gênero), o site do Observatório Interamericano de Biopolítica que tem discutido de forma competente sobre o assunto de gênero (http://biopolitica.com.br/)
[ii] Para esclarecimentos históricos a respeito da origem e desdobramentos da questão recomendo o livro  - Gender, Quem és tu? Sobre a ideologia de gênero, escrito por Olivier Bonnerwijn, editora Ecclesiae.
[iii] Citação do meu artigo no blog Electus – Ideologia de Gênero, a negação da autoridade, da realidade e da verdade. http://blogelectus.blogspot.com.br/2015/10/ideologia-de-genero-negacao-da.html#.V0cL_jUrLIU
[v] Ibdem.

***
Autor: Thomas Magnum
Fonte: Electus
.

Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 3)

image from google

Nesta série involuntariamente e lamentavelmente esporádica, eu estive considerando a pergunta: O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo? No primeiro post eu argumentei que a Bíblia afirma (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus acerca dos contrafactuais de liberdade da criatura (isto é, o conhecimento acerca do que qualquer agente criado irá livremente fazer se colocado em determinadas circunstâncias), mas o Molinismo não possui nenhuma vantagem sobre o Agostinianismo no que diz respeito a (1) e (2). Eu concluí com a seguinte afirmação:

“Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

No segundo post eu examinei um candidato para a proposição p: a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo (uma coisa que os molinistas invariavelmente afirmam, mas que os agostinianos normalmente negam). Cheguei à conclusão de que a Bíblia não oferece suporte para o incompatibilismo. Neste post eu vou considerar um segundo candidato a proposição p: a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos.


A BÍBLIA E A VONTADE SALVÍFICA DE DEUS

Alguns molinistas tem argumentado que a Bíblia ensina que Deus deseja a salvação de todos e que o Molinismo faz melhor justiça a este ensino do que seu principal rival, o Agostinianismo. Kenneth Keathley, por exemplo, em seu livro Salvation and Sovereignty, aponta três textos bíblicos em particular – João 3:16, 1 Timóteo 2:3-4 e 2 Pedro 3:9 – como exemplos de passagens que ensinariam a vontade salvífica e universal de Deus. Keathley então começa a argumentar que o Molinismo faz mais justiça a este ensinamento bíblico na medida em que afirma tal desejo divino e ao mesmo tempo dá uma melhor explicação sobre o porquê esse desejo não se realiza. (Keathley assume, como faço aqui, que o universalismo é falso).

Vamos começar examinando se o desejo de Deus para a salvação universal é realmente um ponto afirmado de forma clara e explícita nas Escrituras. João 3:16 deve ser o versículo mais conhecido na Bíblia:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” [ACF]

Observe cuidadosamente o que o texto diz e o que ele não diz. O texto fala que o amor de Deus para “o mundo” era tal que Deus enviou o seu Filho unigênito, com o objetivo de que todo aquele que nele crê (no Filho) tenha a vida eterna. O texto não diz que Deus deseja que cada pessoa creia e que, assim, tenha a vida eterna. Alguém poderia pensar que essa é uma implicação do texto, mas ela não é indicada explicitamente. Ela se torna uma implicação apenas se existem determinados pressupostos como, por exemplo, o pressuposto de que “o mundo” refira-se a todas as pessoas, e que o amor de Deus para X implica que Deus deseja que X tenha a vida eterna. Meu propósito aqui não é questionar essas suposições (embora eu vá, pelo menos, destacar que João em nenhum lugar de seu evangelho ou de suas epístolas usa
kosmos de uma maneira que implica “todas as pessoas”). Pelo contrário, meu objetivo é simplesmente observar que a ideia de que Deus deseja a salvação universal, mesmo que seja verdade, não pode ser extraída diretamente de João 3:16.

Considere agora 1 Timóteo 2:3,4

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” [ACF]

Este parece um pouco mais claro até você aprender que a palavra grega para ‘todos’ às vezes pode levar o sentido de todos sem distinção (em português: “todos os tipos”) ao invés de todos sem exceção. Qual o sentido que melhor se ajusta nesse caso? Bem, isso é uma questão de debate entre os comentaristas. Dado o contexto imediato (considerando como Paulo usa ‘todos’ nos versos 1-2), é razoável pensar que o objetivo de Paulo aqui não é dizer que Deus deseja que cada pessoa seja salva, mas sim que Deus deseja que as pessoas de todas as faixas – tanto aquelas de alto status como as da plebe como nós – sejam salvas. De acordo com o evangelho da graça, Deus não privilegia uma classe de pessoas em detrimento de outra quando se trata de salvação. Como Calvino afirmou: “Com isso, realmente outra não é sua intenção, senão dizer que Deus não fechou o caminho da salvação a nenhuma ordem de homens, senão que, antes, de tal modo derramou sua misericórdia, que não quer que algum dentre eles seja dela carente” (Institutas, 3.24.16) . Ainda que alguém não esteja completamente convencido dessa leitura do texto, se deve, pelo menos, admitir que é linguisticamente plausível e que faz sentido no contexto imediato.

Finalmente, vamos considerar 2 Pedro 3:9:

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se.” [AR]

Mais uma vez, em uma leitura superficial isto parece ser um gol olímpico dos molinistas: Deus deseja que todos se arrependam de modo que ninguém venha a perecer. No entanto, assim como o texto de 1 Timóteo 2, a declaração de Pedro deve ser interpretada no seu contexto. A abrangência de “ninguém” e de “todos” é qualificada pelo público a quem Pedro está escrevendo: o “convosco” no início do versículo. A segunda metade deve ser entendida assim: “não querendo que nenhum de vocês se perca, senão que todos vocês venham a arrepender-se”.

Agora, novamente, pode muito bem ser possível inferir uma reivindicação mais ampla sobre o desejo de Deus para a salvação universal, ao trazer consigo suposições teológicas complementares derivadas de outros textos e ensinamentos bíblicos. Meu objetivo aqui é apenas enfatizar que não há nenhuma afirmação clara e explícita de um desejo salvífico universal em 2 Pedro 3:9.

Para ser mais claro: eu não quero argumentar contra a ideia de que Deus deseja que todos sejam salvos. Acredito firmemente que Ele queira, mas num sentido devidamente qualificado. Estou simplesmente observando que não existem textos bíblicos que afirmam explicitamente essa ideia ou que diretamente a implicam. É uma inferência (e eu acho que garantida) a partir de uma série de diferentes textos interpretados em termos da abrangente linha de história bíblica .

Em todo caso, pode-se verificar que essa questão é em grande parte irrelevante quando se trata de avaliar o Molinismo. Porque, como irei argumentar agora, mesmo que venhamos a admitir que a Bíblia de fato ensina um desejo salvífico universal da parte de Deus, está longe de ser claro que o Molinismo faça mais justiça a esse ensino que o Agostinianismo.

SERÁ QUE O MOLINISMO TEM VANTAGEM SOBRE O AGOSTINIANISMO?

Vamos supor, então, que a Bíblia ensine que Deus deseja que todos sejam salvos. Será que o Molinismo acomoda melhor esse ensino que o Agostinianismo? Os molinistas também acreditam que, ao contrário do que Deus deseja, nem todos serão salvos. Logo, os molinistas devem conciliar estas duas reivindicações:

A: Deus quer que todo o mundo seja salvo.
B: Nem todo mundo será salvo.

Existem basicamente duas opções aqui para o molinista. A primeira é dizer que nem todo mundo é salvo porque a garantia de salvação universal não estava dentro do poder de Deus. Precisamos lembrar, porém, que os molinistas desejam afirmar a providência divina abrangente, segundo a qual tudo no mundo ocorre de acordo com um eterno decreto divino. Assim, a partir de uma perspectiva molinista, dizer que Deus não poderia garantir que todos fossem salvos é equivalente a dizer que Deus não poderia ter eternamente decretado a salvação de todos, o que significa (em termos molinistas) que Deus não poderia tornar real um possível mundo possível onde todos fossem salvos (ou, sendo mais preciso, que Deus não poderia tornar real um mundo onde todas as pessoas que existem naquele mundo fossem também salvas nele).


Lembre-se que no esquema molinista, Deus não pode tornar real qualquer mundo possível. A escolha de qual mundo irá se tornar real é limitada pelos contrafactuais de liberdade da criatura (uma liberdade não-determinista). Há um subconjunto de mundos possíveis (às vezes chamados de mundos “viáveis”) em que Deus é capaz de tornar real com base no seu conhecimento médio. Assim, de acordo com esta primeira opção, o molinista estaria dizendo que apesar de existirem possíveis mundos onde todos são salvos, não há mundos factualizáveis onde todos são salvos (presumivelmente, Deus queria que houvessem alguns desses mundos, mas isso estava além de Seu controle. Deus só podia jogar com as cartas que tinha, e a mão que deram a Ele não foi a melhor possível).

Logo, nesta primeira forma de conciliar A e B, Deus não poderia satisfazer seu desejo de salvação universal simplesmente porque não havia mundos factualizáveis onde a salvação universal de fato ocorresse. A dificuldade para o molinista, no entanto, é que não existe apoio bíblico positivo para tal afirmação. Além disso, não há boas razões teológicas ou filosóficas para crer em tal afirmação, a menos que você já esteja comprometido com o Molinismo. O melhor que o molinista pode fazer aqui é insistir que “pelo que sabemos” não existem mundos factualizáveis onde todos são salvos; em outras palavras, que nada do que conhecemos tem o poder de descartar isso. Mas, claramente, isso não é bom o suficiente para estabelecer os credenciais bíblicos do Molinismo. O que precisamos aqui é de alguma razão para achar que o Molinismo se ajusta melhor aos dados bíblicos que seus concorrentes.

A segunda maneira do molinista conciliar A e B é propor que Deus poderia ter tornado real um mundo onde todos são salvos, mas que ele tinha uma razão primordial para não fazê-lo. Os molinistas podem oferecer (e têm oferecido) várias sugestões quanto a qual seria esse motivo:

  • Talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorresse fossem mundos muito escassamente povoados e, portanto, apenas um número relativamente pequeno de pessoas iria desfrutar das bênçãos da salvação.
  • Na verdade, talvez a maior preocupação de Deus não é concretizar um mundo onde todos são salvos, mas sim concretizar um mundo onde existe um equilíbrio global otimizado entre salvos e não salvos (como o William Lane Craig propõe aqui).
  • Uma sugestão intimamente relacionada: talvez a maior preocupação de Deus seja concretizar um mundo onde a felicidade humana líquida (o que levaria em conta tanto a felicidade total dos salvos e a infelicidade total dos perdidos) é maximizada.
  • Como alternativa, talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorre também viriam a ser mundos onde há terríveis males morais que ultrapassam o bem da salvação universal (ou, mais precisamente, superam o bem da salvação de todos os seres humanos caídos nesse mundo).

No final, realmente não importa o motivo específico que o molinista ofereça aqui, porque a lógica subjacente é a mesmo: sendo tudo igual, Deus iria tornar real um mundo onde todos são salvos, mas todo o resto já não seria igual.

Uma vez que o molinista faz essa jogada, no entanto, o jogo para, pois o agostiniano pode e, de fato, faz a mesma jogada. Os agostinianos irão afirmar que Deus poderia ter decretado um mundo onde todos são salvos, mas Deus tinha uma boa razão primordial para não fazê-lo. Ele pode até mesmo concordar que com todo o resto sendo igual, Deus teria decretado a salvação universal, mas tudo não continuaria a mesma coisa: Deus tinha outras considerações (mais elevadas). Em toda a probabilidade o agostiniano irá apontar para o desejo de Deus de expressar sua liberdade soberana na eleição e glorificar a si mesmo através da exibição tanto de sua misericórdia (na salvação imerecida de alguns seres humanos caídos) e da sua justiça (na justa condenação de outros seres humanos caídos). Na verdade, o agostiniano pode citar Romanos 9:14-24 como apoio bíblico positivo para a sua posição, que é muito mais do que o molinista pode fazer em relação às especulações sobre as razões de Deus (voltarei a esse ponto depois).

Mais uma vez vemos que o Molinismo está, na melhor das hipóteses, empatado com o Agostinianismo em relação aos dados bíblicos. Mesmo admitindo que a Bíblia ensine o desejo de salvação universal da parte de Deus, o Molinismo não faz mais justiça que o Agostinianismo em relação a esse ensino (isto é, não é melhor em conciliar esse ensino com o ensino bíblico adicional  de que alguns não serão salvos).

Na próxima parte desta série, irei considerar um outro candidato para a proposição p, sendo mais específico, a proposição de que Deus não é “o autor do pecado”.

***
Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
.

O Cristão e a Maconha: 6 Considerações

image from google

O consumo ordinário da maconha já não é mais considerado uma prática vergonhosa ou marginalizada na sociedade contemporânea, mas apenas uma preferência comum como o tabaco, o café ou o álcool. Essa mudança traz inúmeras consequências e preocupações, especialmente para pais, pastores, conselheiros bíblicos e líderes de igrejas em geral. De certa maneira, representantes desses grupos aguardam um “posicionamento cristão” sobre esse assunto. Porém, o assunto é demasiadamente complexo e controverso para se apresentar uma análise que atenda todas as implicações desse fenômeno. Por isso, o que se apresenta aqui são apenas ponderações iniciais de um assunto que necessita maior discussão.

Na controvérsia sobre a maconha, há alguns que a interpretam como uma droga como qualquer outro medicamento e, portanto, o seu uso não deveria ser discriminado. No entanto, é preciso lembrar que os medicamentos são drogas administradas com o objetivo de reparar ou restaurar as funções normais do corpo humano. Mas a maconha ou outras drogas psicoativas têm o objetivo de ampliar a experiência e sensação e gratificação humana. Além do mais, qualquer droga (legal ou ilegal) auto administrada apresenta um perigo para a saúde do seu consumidor.

Por anos a resposta cristã sobre a maconha foi que o seu uso era pecaminoso por se tratar de uma droga ilegal e que ofende o corpo, o templo do Espírito. Nos últimos anos, porém, essa posição tem sido contestada até em alguns círculos cristãos. Quanto à sua ilegalidade, as manifestações pró-canabis procuram, a todo custo, alterar esse status e muitos argumentam que a legalização traria mais benefício social do que prejuízo. No que diz respeito aos supostos efeitos maléficos no corpo, a erva tem sido apresentada como contendo propriedades medicinais, especialmente útil para tratamentos de casos de dores crônicas. Dessa maneira, a aceitação geral do uso da maconha é mais um fenômeno social a desafiar o cristão a rever ou reafirmar o seu posicionamento sobre o assunto.

O uso e os efeitos da maconha não são estranhos às famílias evangélicas, pois muitos pais se preocupam e se entristecem pelo interesse de seus filhos pela droga. Mães se espantam ao perceber alguns efeitos estranhos da droga, a ponto de, aparentemente mudar a personalidade de seus filhos: vitimizações, explosões de ira, ânsia por doces, indiferença a tudo e a todos, etc. Alguns líderes de igrejas não sabem como proceder ao descobrirem que seus jovens não veem qualquer contradição entre confessar a fé cristã e fumar maconha habitualmente. Porém, não se pode dizer que a juventude seja o único grupo interessado nesse consumo. Há muitos cristãos adultos que também se dizem incertos quanto à proibição do uso da maconha e até outros que fazem uso ocasional da erva. Assim, não é mais possível afirmar que o “perigo mora ao lado”, pois ele já é uma realidade dentro da casa de alguns cristãos.

Apenas para complicar um pouco mais, há até a tentativa de se defender teologicamente o uso da maconha. Nesse sentido, alguns usam certos textos bíblicos que supostamente validariam o seu consumo. Um desses textos é Gênesis 1.29: “E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento”. O argumento frequentemente empregado nesse sentido é: desde que a maconha é uma erva que produz semente, segue-se que o seu consumo é sancionado desde a criação. Todavia, o que é omitido nesse argumento é que na criação o Senhor se referia a ervas comestíveis, enquanto que o meio mais usado para o consumo da maconha é fumando-a. Ainda que alguns misturem essa erva a comidas, como biscoitos e petiscos, etc., o propósito nesses casos não é alimentício, mas a obtenção dos efeitos sensoriais resultantes de seu ingrediente psicoativo (THC). Além do mais, qualquer interpretação correta dos textos bíblicos deve considerar o que foi ordenado antes da queda e o que foi pervertido após a mesma, pois a entrada do pecado no universo alterou a realidade tanto da fauna quanto da flora, micro-organismos e DNAs. De fato, nada é mais como antes!

Alguns defensores do consumo da maconha ainda apelam para a analogia entre a erva e o álcool. De fato, a história bíblica testifica de muitos heróis da fé que ingeriram álcool sem qualquer problema de consciência. Até mesmo o Redentor não se privou de beber o vinho, ordenando, inclusive, que a sua morte fosse relembrada por meio dessa bebida (cf. Mt 11.19 e 1Co 11.24-25). Nesse caso, porém, há que se considerar que uma pessoa pode consumir pequenas quantidades de álcool sem qualquer intenção de se intoxicar, mas ninguém pode fumar maconha sem esse objetivo. Em quase todos os casos do uso recreativo da maconha, a motivação básica é a intoxicação para se obter os efeitos proporcionados por essa erva! No caso do álcool, a pessoa pode ingeri-lo sem a intenção de entorpecimento. De qualquer forma, o cerne da questão será a motivação da pessoa ao usar um ou outro!

Finalmente, ainda que exista muita controvérsia sobre o uso da maconha, é possível estabelecer um consenso sensato a respeito de alguns assuntos relacionados ao uso dessa erva. De fato, há alguns tópicos que são claramente reconhecidos e sustentados por todos e antes de qualquer aprofundamento sobre o assunto eles devem ser lembrados. O consenso em relação a esses itens se fundamenta tanto sobre o senso comum quanto o conhecimento factual sobre a canabis.

1) Em última instância, qualquer pessoa que recorre ao uso de uma substância psicoativa o faz na tentativa de fugir da realidade e criar uma situação mais aceitável aos seus desejos. Não importa se de início isso assuma o formato de busca por aceitação, modismo, curiosidade ou revolta. O fato é que ninguém recorre a qualquer subterfúgio se o seu mundo interior estiver “resolvido” e em “ordem”. Por essa razão, o consumo da maconha ou qualquer outra droga é, de fato, uma rendição aos desejos desordenados do indivíduo e uma busca por uma solução imediata que ao final poderá resultar em maiores sofrimentos.

2) A maconha consumida nos dias atuais é muito diferente daquela que as pessoas fumavam nos anos 60 e 70. A potência presente no produto atual torna a experiência dos seus usuários mais intensa. Além do mais, a crescente competição entre os fornecedores incentiva ao desenvolvimento de um produto mais “forte”, com reações mais rápidas e efeitos colaterais mais nocivos. Hoje, por exemplo, existe a maconha sintética (canabioide sintético), produzida em laboratório, mais barata, mais potente e mais perigosa. (fonte: http://bbc.in/299fbBo)

3) Não há nenhuma droga que altera o humor e o estado mental de uma pessoa que seja inofensiva. Certamente é possível dizer que algumas drogas são menos maléficas do que as outras, mas nenhuma delas é inconsequente. No caso da maconha, ela pode até ser menos nociva do que muitas outras drogas, mas ao final, todas podem se tornar viciantes ou “abrir as portas” para o consumo de outras substâncias mais danosas.

4) Geralmente o consumo de uma droga considerada ilegal aumenta rapidamente após a sua liberação no mercado, mas pode até diminuir com o passar do tempo. Todavia, os problemas domésticos e sociais advindos do seu consumo não acompanham o mesmo processo de interesse, ou seja, eles não diminuem com o passar do tempo. Um exemplo claro disso é o que se vê com o cigarro e o álcool. Além do mais, qualquer tentativa de fugir da realidade ou dos problemas por meio do uso de alguma substância química, acaba se revelando mais problemática, pois após o efeito da mesma, a realidade ainda terá que ser encarada e ela poderá até ter se agravado.

5) Assim como acontece com o álcool, é possível que alguns usuários casuais de maconha não apresentem efeitos prejudiciais imediatos. Todavia, utilizando a mesma analogia do álcool, é possível identificar pessoas que tiveram suas vidas negativamente alteradas pelo uso dessas drogas psicoativas e já não conseguem mais retornar à normalidade passada. Além do mais, ainda que os efeitos físicos não se apresentem imediatamente, as consequências espirituais e relacionais podem ser devastadoras.

6) Com todas as tensões da vida em um mundo caído, é compreensível que as pessoas procurem por uma forma de alívio imediato. No caso da maconha, porém, a proposta do alívio pode se tornar um pesadelo, tanto para a família como para o usuário. A razão para isso é que não existe uma paz que seja gerada por um produto químico e nem tranquilidade duradoura que seja resultante de uma substância externa. A verdadeira paz e tranquilidade são frutos do relacionamento com o Deus da paz, e isso não acontece por uma ingestão, mas conversão e mudança de dentro para fora (Rm 5.1-2). O esforço por se obter alívio na maconha ou qualquer outra coisa que não na comunhão com o verdadeiro Deus, revela uma distorção na adoração, onde se busca na criação aquilo que só o Criador pode conceder.

Concluindo, a popularidade do consumo da maconha é um convite à reflexão e discussão pelas igrejas e pequenos grupos. Nesse sentido, a pior resposta cristã a esse desafio será manter as pessoas na ignorância do mesmo, pois a curiosidade se alimenta da falta de conhecimento. Há que se considerar ainda as maneiras mais eficientes e coerentes com o Evangelho de se oferecer ajuda àqueles que lutam contra a inclinação de se voltarem para essa ou outras drogas.

***
Sobre o autor: Rev. Valdeci da Silva Santos é bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Goiânia (B.Th., 1988), mestre em Teologia Sistemática (Th.M, 1997) e doutorado em Estudos Interculturais pelo Reformed Theological Seminary (Ph.D., 2001). Em 2011 concluiu seus estudos pós doutorais em Aconselhamento Bíblico pela Christian Counseling Educational Foundation – CCEF. Atualmente é Secretário Geral de Apoio Pastoral da IPB e Vice-diretor do CPAJ. 
Fonte: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper - Página Facebook
.