Uma resposta ao texto de Ronilso Pacheco, sobre a “cultura do estupro” na leitura bíblica

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O que segue neste artigo é uma refutação ao texto: "Porque a cultura do estupro também descansa sob a sombra da nossa leitura bíblica", de Ronilso Pacheco.

Monstrum exitiabile, ira telluris genitum – “monstro mortal ali vivia, gerado pela Terra em sua fúria”, já dissera Silius Italicus. A frase que designava toda sorte de criaturas medonhas que viviam em antros, cavernas e nichos ocultos pode ser hoje perfeitamente atribuída aos produtos literalmente residuais que encontramos, a distância de um simples toque do mouse, nas redes sociais. Dentre as criações teratológicas resultantes da simbiose do humanismo com a inclusão digital e a ociosidade, talvez a mais curiosa seja a figura, mítica evidentemente, do cristão de esquerda. O “cristão de esquerda” (contradição em termos) não pode ser considerado cristão nem no sentido metafórico do termo. É um hibridismo bizarro que transita entre a esquizofrenia teológica e a apostasia pura e simples. É possível listar dois tipos: o primeiro é o sujeito mediano, o crente de certa forma honesto em suas crenças, mas ainda incapaz de organizar e sistematizar suas ideias. Incapaz de compreender que o âmago do marxismo não é a distribuição equitativa dos bens, mas, sim, a supressão da propriedade privada, não percebe a contradição entre a defesa recorrente, por parte das Escrituras, da posse da terra pelos seus proprietários originais e a tentativa de estatização de todos os meios de produção que é essencial nos governos que levam a cabo, mediante engenharia social e violência, os ideais do socialismo científico. Esse tipo de cristão marxista, em última análise não conhece as Escrituras, e somente reproduz aquilo que ouve no jornalismo, na academia e mesmo (infelizmente) em algumas comunidades eclesiásticas. É antes vítima do marxismo cultural niilista que, quando não destrói a alta cultura, a anula mediante o reducionismo de seus raciocínios que interpretam o real em categorias econômicas falsificadas. 

O Mito da Natureza

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Um dos maiores mitos do mundo moderno é a ideia de que há algo chamado “Natureza”, a qual é definida pela Segunda Edição Integral do Dicionário Merriam-Webster como “um princípio, força ou agente, ou ainda um conjunto de forças ou princípios controladores e criativos, que opera ou se encontra em operação num ente, determinando total ou principalmente sua constituição, desenvolvimento, bem-estar...”; ou também “aquilo que é produzido por forças naturais; o universo, tomado como as leis que governam a natureza; na natureza nada acontece sem causa; mais precisamente, a totalidade da realidade física, excluindo as mentes e o elemento mental”.

Ora, uma coisa é dizer que o universo ou criação existe; outra, todavia, é afirmar que este universo é a fonte de suas próprias leis e fenômenos, ou que é um sistema autocontido de causalidade. Não há na Bíblia um termo como “Natureza”. E, na verdade, as Escrituras não reconhecem a Natureza como a fonte e causa dos fenômenos naturais; pelo contrário, elas veem Deus em operação direta e absoluta em todos os fenômenos naturais. Não há lei inerente à “Natureza”, mas, sim, uma lei sobre a “Natureza”. Destarte, o termo “Natureza” é um coletivo para uma realidade não-coletivizada, e com isto queremos dizer que a “Natureza” não possui unidade em e de si mesma que faça dela uma ordem unificada. Afirmar a existência da unidade na e como “Natureza” é advogar um princípio hierárquico no tocante ao universo e suas esferas.

Desse modo, se a “Natureza” é uma unidade, seja em fase estacionária, ou em processo, logo representa um sistema de autoridades, poderes e leis superiores e inferiores, estando sujeita a uma compreensão com base em seu desenvolvimento passado, presente ou contínuo – como uma cadeia do ser no qual há os seres inferiores e superiores. As leis, pois, deste domínio do ser devem ser derivadas a partir da interioridade da escala do ser. Caso o elemento primitivo e inferior seja encarado como vital, então configura-se como a verdadeira fonte de poder e determinação. Todavia, caso seja se considere o racional e superior como o mais importante, segue-se que este se torna, então, a fonte necessária de poder e determinação. Contudo, em todo o caso, a causalidade e o poder criativo não inerentemente localizados dentro do universo, de modo que é necessário tomar a “Natureza” como o fundamento do ser, a fonte da ultimidade, e “o sistema de todos os fenômenos no espaço e tempo”.

Se Deus é o Criador, então o sistema não é a “Natureza”, mas, sim, o decreto eterno de Deus. Ora, a exclusão do conceito tradicional de “Natureza” implica também na alteração dos conceitos tradicionais de natural e sobrenatural. No âmbito do mito [da Natureza], o natural representa a vida normal de um sistema cósmico autocontido, ao passo que o sobrenatural é a intrusão da atividade de Deus neste sistema. 

No entanto, se os eventos naturais e sobrenaturais são igualmente a atividade do Deus triúno, e, ambos, de semelhante modo, Sua atividade direta, então a distinção deve ser pautada em outros termos. A Bíblia não hesita em atribuir a Deus as tempestades, relâmpagos, trovões, secas, pragas e outros acontecimentos naturais da mesma forma que atribui também a Ele o nascimento virginal e outros milagres. Ora, as Escrituras fazem uma distinção notável entre o nascimento dos homens em geral e o nascimento de Jesus Cristo; porém a diferença não está em situar Deus no milagre e atribuir os nascimentos habituais à “natureza”. Pelo contrário, Deus Se encontra igualmente em ambos; e tanto um quanto o outro se tratam da ação, poder e decreto diretos de Deus. Portanto, a diferença não está no grau da presença ou atividade divinas, mas na natureza dos atos. Os nascimentos naturais representam o padrão de Deus para a humanidade em sua geração, ao passo que o nascimento virginal representa Seu padrão para a humanidade em sua regeneração. Ora, o nascimento virginal é ímpar, entretanto é ainda o padrão ou plano de Deus nos termos de Seu decreto eterno: em Cristo, é dada uma nova criação à humanidade, e todos aqueles que nasceram de novo nEle são “os que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13).

A introdução do conceito de “Natureza” e da lei natural, oriunda da filosofia helênica, levou a um desvio da fé bíblica. A lei natural trata de um sistema autocontido de sua própria lei inerente. O deísmo foi um de seus produtos, o qual reduziu Deus a um mecânico que somente criou a “Natureza”, e esta, agora, funciona independentemente de Deus. O próximo passo foi a aceitação da ultimidade da “Natureza” e o afastamento total de Deus.

O caminho para o restabelecimento teísta é apenas possível por meio de um ataque sistemático sobre o conceito ilegítimo da “Natureza”, que impôs, pelo menos, uma membrana entre Deus e o homem, e, em sua forma plenamente desenvolvida, suplanta Deus com um universo autocontido. A “Natureza” é um conceito bastardo e deve ser, portanto, abandonado. 

NOTAS SOBRE “A MITOLOGIA DA NATUREZA”, POR VÍTOR BARRETO

A crítica de Rushdoony à lei natural é comumente equivocadamente compreendida no meio reformado conservador. Ela não pode ser confundida, por exemplo, com a crítica de Karl Barth, cuja cosmovisão manteve o dualismo tomista natureza-graça, e que, como uma espécie de existencialista cristão, desvalorizando o “andar inferior da natureza”, em termos schaefferianos.

Rushdoony, pelo contrário, seguiu a trilha iniciada por Herman Dooyeweerd, buscando apenas subjugar a política ao motivo básico religioso da Criação-Queda-Redenção. Assim sendo, sua crítica começa com uma abordagem histórica dos efeitos do dualismo graça-natureza em Tomás de Aquino, que era uma síntese da teologia cristã com uma visão de natureza derivada do aristotelismo. Como Dooyeweerd explica em “Raízes da Cultura Ocidental”, a visão de natureza da filosofia grega era, ela própria, oriunda de uma síntese entre as antigas religiões da natureza e a nova religião cultural grega (ver “Raízes da Cultura Ocidental”). Não é possível negligenciar a impossibilidade de reconhecermos a filosofia grega como “neutra”, mas como igualmente religiosa. Em “The One and The Many”, Rushdoony mostra como a filosofia aristotélica tinha um aspecto esotérico. É impossível sintetizar motivos religiosos básicos, porque ambos partem de pontos absolutos distintos. Nas palavras de Rushdoony no livro Sovereignty, “As raízes da mudança do homem cristão para o homem civil estão na adoção do pensamento de Aristóteles pela igreja medieval”. A síntese tomista, portanto, foi o descarrilar político-filosófico que trouxe-nos a secularização e a exclusão do cristianismo da vida pública, especialmente depois que Guilherme de Ockham levou o dualismo tomista às suas consequências lógicas, distanciando a natureza e a graça. Se a natureza é reconhecida como uma realidade substantiva e equilibrada, funcionando por leis próprias independentemente da ação divina, então ela é também a fonte da lei e a base para a organização humana. A Lei de Deus não é mais levada em consideração, antes, deve-se obedecer à natureza. Isto é perceptível nos nossos dias, quando anti-cristãos atacam a fidelidade conjugal e a castidade antes do casamento, alegando que a natureza humana requer sexualidade como uma “necessidade fisiológica”.

Nesse caso, o conflito entre uma natureza tornada normativa e a Lei de Deus torna-se evidente. Para Aristóteles, por exemplo, que não possuía a Revelação especial de Deus, a família seria uma instituição “natural” cuja função seria prover a satisfação de necessidades alimentares e sexuais. Não há menção aqui ao propósito espiritual do casamento. Semelhantemente, o estado passou a ser visto como uma organização natural responsável por conduzir a comunidade a um objetivo também natural, que em momento algum leva em conta a existência do pecado ou a função de punição do mal, conforme Paulo descreve em Romanos 13. A visão da sociedade natural de Tomás era derivada do aristotelismo. Para ele, a igreja exerceria a função de orientadora sobrenatural, como cabeça espiritual do mundo natural. Depois de Tomás, portanto, a lei pública deixou de ser baseada na religião cristã para ser baseada na “lei natural” como uma interpretação racional-empírica da própria natureza através da observação de tendências e necessidades humanas, ao passo que a Revelação Bíblica foi posta de lado a favor das supostas certezas científicas. [Tomás tinha duas fontes de conhecimento, a Bíblia e os sentidos; ver Três Tipos de Filosofia Religiosa, do Gordon Clark. Tomás, seguindo Aristóteles, entendeu que é possível para a mente do homem obter conhecimento sem referência a seu estado moral; a visão da mente do homem como uma “tábula rasa” em John Locke segue a mesmíssima linha, e ambas produziram a divisão fato-valor que Nancy Pearcey discutiu em “A Verdade Absoluta”. Hoje, tal linha de pensamento é a hegemônica no Ocidente]. A lei agora é “da natureza”. Mas Rushdoony diz em outro lugar, “se a lei é natural, tudo o que nos resta é uma moral naturalista”. Em um de seus efeitos, a vida humana primeiramente passou a ser vista como tendo dois propósitos: um espiritual e o outro “natural” ou “social”, para em seguida se expurgar o propósito espiritual como um elemento alheio e prejudicial ao homem natural.

No primeiro caso, do qual nem mesmo os países protestantes conseguiram desvencilhar-se completamente, percebe-se que resiste uma visão comum do chamado “bom cidadão”. Às vezes, alguém pode não ser nem mesmo um cristão, mas é reconhecido como um “bom cidadão” caso adeque-se às exigências sociais. A doutrina da depravação total e da Graça não permite um julgamento dessa categoria. No segundo caso, o cristianismo passou a ser inimigo da liberdade e dos potenciais humanos. Nasceram assim as teorias políticas hostis e estatistas como a de Thomas Hobbes e outros. É preciso dizer que Hobbes representou uma transição do direito natural clássico para o moderno. Ele mesmo foi influenciado por Maquiavel, que também foi influenciado por uma teoria própria de direito natural.

É provavelmente com Hobbes que notamos aquilo que Edmund Burke percebeu como sendo o ataque do ateísmo contra o cristianismo. “Antigamente, a audácia não era uma característica dos ateus como tais. (...) Mas posteriormente eles se fizeram ativos, astuciosos, turbulentos e sediciosos”. Groen Van Prinsterer, um leitor de Burke, reconheceu que a raiz das revoluções modernas é principalmente “um conceito ateísta de liberdade”.

Com efeito, os revolucionários imanentizaram a fonte das leis – do Deus transcendente para o reino da natureza. Como disse Charles Beard, “os seguidores do clero e os monarquistas pretendiam ter direitos especiais por direito divino. Os revolucionários invocavam a natureza” (In: Direito Natural e História, Leo Straus, 111.). E embora alguns possam argumentar sobre as diferenças entre o direito natural moderno e o direito natural clássico, o fato é que também no direito natural clássico, a autoridade do ancestral, das tradições e das religiões é desarraigada em favor da autoridade conferida à natureza. Como diz a famosa frase de Schaeffer, “a natureza devorou a graça”. Foi o que efetivamente aconteceu no Ocidente. Depois de Hobbes, vieram, cada um a próprio modo, Rousseau, Hegel até o Marquês de Sade. Se a transcendência é negada, como Rushdoony diz no texto acima, é possível, pois, elencar a excelência da razão dentro do mundo natural. Foi o que fez Hegel. Para este último, por fim, o estado era a encarnação da Razão e, portanto, a autoridade máxima na natureza. A menos que, como alertava Dooyeweerd, retornemos ao móvito básico religioso da Criação-Queda-Redenção, amargaremos repetidas revoluções no Ocidente.

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Autor: Rousas John Rushdoony
Fonte: The Mythology of Science, p. 127
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Notas: Vítor Barreto
Divulgação: Bereianos
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Revelação e Futuro

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Excerto da palestra X, "Revelação e Futuro", do livro A Filosofia da Revelação, de Herman Bavinck, a ser publicado em breve pela Editora Monergismo. Tradução de Fabrício Tavares de Moraes, co-editor do blog Bereianos.

A doutrina de que o homem está corrompido pelo pecado, não podendo, portanto, santificar e salvar a si mesmo por meio de sua própria força é comumente considerada o erro mais terrível de todos; a autonomia e a autosoteria rejeitam toda forma de heterosoteria. Mas, ao mesmo tempo, quando toda transcendência e metafísica são negadas, o ser humano é exaltado acima de seu estado habitual, passando a ser identificado com o divino. A tarefa super-humana de transformar a presente sociedade num estado de paz e alegria requer mais do que simplesmente o poder humano; se Deus não opera a mudança, a esperança pode ser cultivada somente quando o poder do homem é divinizado. De fato, essa é a ideia central daquela teoria filosófica que Strauss desenvolveu mais claramente, a saber, que o infinito não é realizado num único homem, mas somente na humanidade; esta, sendo a verdadeira unidade das naturezas divina e humana, o homem transformando-se em Deus, o Espírito infinito descendo à finitude, a criança da visível mãe-natureza e do invisível pai-espírito, o realizador de milagres, o salvador do mundo. Aquilo que a humanidade confessa com relação a Cristo e declara em sua ideia de divindade é simplesmente um símbolo daquilo que ela encontra em si mesma, daquilo que ela é. Teologia é essencialmente antropologia; o culto a Deus é a humanidade adorando a si mesma. Comte, dessa forma, foi bem consistente quando substituiu a adoração a Deus pela adoração ao homem.

Essa deificação do homem prova claramente que nenhuma escatologia é possível sem metafísica. Mas isso é demonstrado ainda mais claramente por outro fato. A cultura, a ética, o idealismo – todos indo atrás de um objetivo – devem sempre buscar uma aliança com a metafísica. Kant reverteu as relações entre esses elementos, e tentou tornar a moral totalmente independente da ciência; mas sobre essa moralidade, o filósofo construiu novamente uma fé prática numa providência divina. De semelhante modo, qualquer sistema ético que aspira ser a verdadeira ética e apresentar um caráter normativo e teleológico, sem se tornar uma simples descrição de hábitos e costumes, se vê forçado a buscar o apoio da metafísica. Se o homem deve se empenhar por um ideal, ele pode ganhar coragem apenas pela fé que tal ideal é o ideal do mundo inteiro e está baseado efetivamente na realidade. Ao banir a metafísica, o materialismo não possui mais um sistema ético, passa a desconhecer a distinção entre bem e mal, não possui mais lei moral, nem dever, nem virtude, nem sumo bem. E quando a filosofia humanista imanentista de Natorp, Cohen e outros procura basear a ética exclusivamente no imperativo categórico, ela perde toda segurança de que o “deveria” irá algum dia triunfar sobre o “é”, e o bem sobre o mal. Independentemente daquilo que se crê ser o bem maior, este é ou uma imaginação, ou é e deve também ser o supremo e verdadeiro ser, a essência da realidade, o sentido e destino do mundo, e, assim, também o vínculo que mantém unidos todos os homens e nações em cada parte do mundo, salvando-os da anarquia.

O cristão, por sua vez, encontra a segurança do triunfo do bem em sua confissão da vontade soberana e todo-poderosa, que, embora distinta e exaltada acima do mundo, cumpre, todavia, por meio dele, Seus santos desígnios, e, de acordo com estes desígnios, conduz a humanidade e o mundo à salvação. Mas aquele que rejeita essa confissão não escapa, contudo, da metafísica. Soa bem chamar o homem de “o rebelde na natureza”, o qual, quando esta diz: “Morra!”, responde: “Eu continuarei vivendo”. Porém, com toda sua sabedoria e força, o homem, ao final das contas, é impotente contra a natureza. Eis o motivo porque, mesmo quando o teísmo é negado, a verdadeira realidade – a vontade do mundo que se encontra oculta por detrás dos fenômenos, manifestando-se muito imperfeitamente – é pensada como análoga àquela do homem, e especialmente como uma vontade eticamente boa. Não obstante toda sua autoconfiança e autoglorificação, o homem está, em toda cosmovisão possível, incorporado num todo maior, sendo, portanto, explicado e confirmado por essa totalidade. A metafísica, que é a crença no absoluto como um poder sagrado, sempre constitui o fundamento da ética.

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Autor: Herman Bavinck
Fonte: A filosofia da revelação
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Divulgação: Bereianos
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A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (Parte 2)

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A inversão axial da relação culto/cultura

Podemos afirmar ousadamente que aqueles que não cumprem o Princípio Regulador do Culto, ou que, no afã aparentemente louvável de diluir os elementos do culto na cultura local, alteram suas liturgias, são não apenas idólatras e insinceros, mas também solapam quaisquer tentativas de redenção cultural.

Ora, Kuyper já havia dito que uma cultura pode subsistir sem a arte (o que a empobrece, evidentemente), porém não sem a religião. Russel Kirk já atentara para o fato de que toda cultura (como a própria etimologia aponta) provém de um cultus. Dito de outro modo, a religião é o embrião de toda civilização, assim como o cimento que coere seus indivíduos organicamente. Não cabe aqui explorar todos as nuances e complexidades dessa questão – Christopher Dawson, o grande historiador católico, já estabeleceu e explorou tais princípios em seu livro Progresso e religião.

Destarte, se a cultura procede de um culto, aqueles que buscam moldar seu culto segundo a cultura estão efetivamente invertendo a ordem lógica e até mesmo antropológica da questão. Não estamos afirmando que a liturgia é um elemento abstrato e desencarnado que exige a supressão (impossível) de nossas tradições e costumes. Pelo contrário, o cristianismo é encarnacional: diferentemente do islamismo, ele não suprime a cultura “receptora”, antes, a redime. Isso é evidente ao longo de toda a história da Igreja – a Escola de Alexandria, dada a influência mística dos sábios que ali habitavam, praticavam uma exegese mais alegórica e espiritualizada, ao passo que a Escola de Antioquia, na Síria, também devido às influências, apresentava uma hermenêutica mais literalista. Até mesmo dentro de uma mesma tradição, há diferenças cruciais; basta compararmos as igrejas reformadas escocesas e as holandesas. Portanto, não reivindicamos a supressão de traços culturais dentro dos cultos, todavia, protestamos resolutamente contra a primazia da cultura sobre a liturgia.

Conforme dito, Deus, com efeito, deu ao homem aquilo que os neocalvinistas chamaram de Mandato Cultural, ordenado desde a criação do homem: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28). A criação está prenhe de possibilidades e potencialidades (At 14:17), que devem ser exploradas e descobertas pelo homem, desenvolvidas segundo os princípios normativos de Sua Lei e direcionados à glória de Deus (1 Co 10:31-33). Ora, estruturalmente toda a criação é boa, conforme assevera o relato de Gênesis, entretanto, nas palavras de Albert Wolters, o homem pode conduzi-la segundo uma direção transgressora da lei divina e corruptora de sua (da criação) bondade intrínseca. É interessante notar que logo após o relato da descoberta da música – “o nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21) –, o livro de Gênesis nos apresenta de forma quase imediata os efeitos da depravação, que se estendem até mesmo a essas potencialidades que o SENHOR embutiu na Sua criação:

E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4:23-24).

Lameque, com seu coração pervertido pelo pecado, conspurca a musicalidade, criando para si um cântico que exalta uma retaliação totalmente desproporcional à injúria sofrida.


A cultura, embora se fundamente, em última instância, na revelação, caso não seja direcionada segundo as diretrizes proposicionais da lei de Deus, certamente será deturpada pela pecaminosidade humana. Ora, nesse sentido, o Princípio Regulador do Culto se configura como um parâmetro objetivo, que nos resguarda das alterações e deformações do culto dedicado a Deus. Nas palavras de Michael Bushell, citado por Brian Schwartley, “de modo particular, o Princípio Regulador do Culto pode ser visto como uma inferência natural da doutrina da depravação total [...] Qualquer obra das mãos do próprio homem, que ele presume oferecer a Deus em adoração, é poluída pelo pecado e é, por essa razão, totalmente inaceitável” (SCHWARTLEY, Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, p. 42).

Em Êxodo 20:25, o SENHOR dá instruções tão precisas e concisas relativas à construção do altar dedicado ao Seu nome, que o simples desvio era, por si só, considerado profanação:

Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois, se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás (Êxodo 20:25, ARA).

Um dos possíveis motivos dessa prescrição (que também pode ser vista em Deuteronômio 27:5-6) é a diferenciação que se pretende traçar entre o altar israelitas e os altares pagãos. Os santuários das nações vizinhas estavam repletos de desenhos e entalhes minuciosos idólatras e não raro eróticos (Ezequiel 8:5-18). Dessa forma, a simplicidade e rusticidade do altar do SENHOR seriam um nítido contraponto com as demais religiões. Além disso, o fato de não poderem cortar as pedras com instrumentos de ferro demonstra que os israelitas (que naquela época não dominavam a técnica da metalurgia) não deveriam depender de nenhuma nação pagã circunvizinha (os cananeus, por exemplo, eram mestres na siderurgia) para auxiliá-los na adoração a Deus.


Ora, ademais, o altar bruto nos ensina que nossa cultura, por mais refinada que seja, não deve aparar, ornamentar, burilar ou remoldar o culto a Deus. Pelo contrário, a simplicidade do culto é a condição essencial para a restauração e evolução cultural. O meio reformado se encontra premido por dois posicionamentos – primeiramente, aquilo que já abordamos na primeira parte deste artigo, a saber, o gramscianismo que se quer passar por kuyperianismo, “valorizando” e acolhendo em suas comunidades todos os tipos de monstruosidades teológicas e estéticas que se querem fazer passar por música ou arte cristãs. Alguns chegam ao ponto de elencar o brilhante Schaeffer como seu mestre e orientador, como se esse grande pensador cristão, admirador da alta cultura e da cosmovisão bíblica, fosse admitir que a mentalidade reformada fosse conspurcada por elementos como DJ’s, cultos jovens, apresentações teatrais, motoclube, etc.

Em segundo lugar, o meio reformado enfrenta também o perigo do empobrecimento cultural e artístico, como no caso da ala neopuritana, a qual chega a proibir até mesmo as representações iconográficas de Jesus Cristo, com o argumento de que se constituem como transgressão do segundo mandamento. Creio que, ainda que essa mentalidade dominasse inteiramente nosso Ocidente, seus defensores teriam certa dificuldade em incinerar e arruinar a vasta quantidade de quadros, representações, mosaicos, afrescos, telas, etc., que estão presentes nos grandes museus da Europa e Américas, movidos por uma estranha espécie de futurismo puritanista, no afã de apagar a história, que passa a ser concebida como uma simples sequência de eventos idólatras, ao invés do locus da Providência. Tudo isso, podemos dizer, para que, ao fim de seu esforço iconoclasta, percebam aquilo que Nathaniel Hawthorne, brilhante escritor puritano, já havia entrevisto em seu conto Earth’s Holocaust [O Holocausto da Terra], no qual as pessoas se reúnem perante uma grande fogueira, uma espécie de conflagração cósmica, a fim de lançar ao fogo todos os livros, pinturas, objetos, etc. que os lembrassem do passado – a conclusão do conto:

“O Coração – o Coração – havia ainda essa pequena mas ilimitada esfera, na qual subsiste o erro primordial, do qual o crime e a miséria deste mundo visível são simplesmente tipos. Purifique essa esfera interna; e as várias formas de mal que assombram o exterior, e que presentemente aparentam ser a quase totalidade de nossas realidades, tornar-se-ão em meros espectros sombrios, desparecendo por contra própria” (Nathaniel Hawthorne, Tales & Sketches, p. 906, tradução nossa).

Ora, a religião, e em especial um de seus elementos, a liturgia, não devem castrar a arte – isso é confusão de esferas de soberania, e, portanto, transgressão das leis criacionais de Deus. Como já disse Rookmaaker, “a arte não precisa de justificativa”. Tal afirmação, no entanto, não implica na autonomia da arte ou seu desprezo pela cosmovisão bíblica; pelo contrário, toda e qualquer esfera somente realiza e concretiza suas potencialidades quando se encontra pautada nos pressupostos bíblicos, levando em consideração os pilares do macrodrama da história salvífica: Criação, Queda, Redenção e Consumação. Portanto, afirmarmos de fato que o Princípio Regulador do Culto deve exercer sua autoridade e vigilância de forma intransigente – mas na área que lhe cabe: o culto público e privado (no lar e na devoção particular). Jamais deve transgredir os limites de sua própria esfera, com o risco de se tornar pietismo ou iconoclastia gnóstica. Em suma, não se pode negar, todavia, o excelente trabalho litúrgico, incluindo a publicação de obras teológicas que enfatizam e explanam o Princípio Regulador do Culto, livros que se fazem extremamente necessários nesse nosso contexto eclesiástico sincrético e idolátrico, que efetivamente precisa ser purificado por uma nova reforma direcionada pelo Espírito de Deus.


Herman Bavinck, em uma de suas palestras sobre a relação entre Revelação e cultura, lança as bases de um pensamento que se apresenta como uma alternativa ao atual dilema do meio reformado. Para o teólogo holandês, a religião não é o cão de guarda da cultura, e esta, por sua vez, não é autônoma nem livre para conceber uma ética alheia à Lei de Deus. Nas palavras de Bavinck:

A ciência, arte e moralidade são cognatas em origem, essência e sentido à religião, pois todas se baseiam na crença num mundo ideal, cuja realidade é assegurada e garantida somente pela religião, isto é, da parte de Deus por meio da revelação. 
Indubitavelmente tem havido um empenho para tornar a cultura ética independente da religião. Todavia, tal tentativa é ainda nova e restrita a um pequeno círculo e provavelmente há de ter pouco êxito. É sem dúvida uma desonra para a religião servir como um agente policial ou como um cão de guarda da moralidade. Religião e moralidade não estão unidas nesse modo externo e mecânico, mas estão em aliança entre si de forma orgânica, por causa de suas naturezas íntimas. O amor a Deus inclui o amor ao nosso próximo, e este se reflete naquele, pois o bem se apresenta a todos nós, desde nossa tenra idade, na forma de um mandamento. Nem a ética autônoma nem a ética evolucionista podem mudar algo nisso. A criança não cria gradualmente leis morais por meio do instinto ou reflexão, antes, ela cresce num círculo que possuía anteriormente essas leis e que as impõe sobre ela com autoridade. À medida que olhamos para as nações e examinamos a história da humanidade, testemunhamos muita hesitação e variedade, no entanto, sempre encontramos, por toda parte, um fundo de leis morais. Todo homem reconhece que, na moralidade, existe uma lei que lhe é sobreposta, obrigando-o, em sua consciência, à obediência. Se de fato é assim, então, nesse surpreendente fenômeno, estamos lidando ou com uma ilusão, ou com um sonho, ou como uma fantasia da humanidade, ou, ainda, com uma realidade que se eleva bem acima do mundo empírico e nos preenche com a mais profunda reverência (BAVINCK, Philosophy of Revelation, p. 260-261, tradução nossa).

Se queremos de fato
renovar a nossa cultura já degradada, será necessário primeiramente desistir de nossas pretensões idolátricas de renovação do culto. Um culto que não se sustenta sobre as firmes bases das Escrituras, deixando espaço para a autonomia humana, produzirá eventualmente uma cultura também autônoma, que se opõe a tudo que está relacionado à Lei de Deus.

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos

Leia também: A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (parte 1)
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A gnose no contexto eclesiástico brasileiro

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Estou certo de que muito já se comentou e analisou acerca da relação quase simbiótica entre o movimento pentecostal e sua cria teratológica denominada “neopentecostalismo”. Com efeito, há textos excelentes que versam magistralmente sobre essa temática, por exemplo, “O gnosticismo e os pentecostais”, de Michael Horton, e “O pentecostalismo e seus danos à Igreja”, do Pr. Marcos Granconato, de modo que quase se torna desnecessária nossa presente tarefa de radiografar a presença viral do gnosticismo no contexto eclesiástico brasileiro.

A busca cada vez mais ávida por experiências extáticas, transes, teofanias, arcanos e mistérios tornou-se efetivamente a chave hermenêutica para se compreender a caoticidade de alguns segmentos carismáticos – e, de fato, seríamos intelectualmente desonestos caso não afirmássemos que não poucas linhas dentro do pentecostalismo têm realizado um importante trabalho evangelístico, acompanhado de uma capacitação ministerial mais profunda e de uma liturgia mais ordenada. Todavia, o que ainda infelizmente impera é a exacerbação mística, a catarse emocional e a tentativa de ressignificar a “liberdade do Espírito” (Gl 5:1), transformando-a em desordem carnal. Conforme já disse John McArthur, em seu livro Caos carismático, é possível, por vezes, atribuir a certos grupos pentecostais a alcunha de “neo-montanistas” – gnósticos que dualizam os cristãos em duas categorias, espirituais (pneumáticos) e carnais (sárquicos), conforme era costume entre os coríntios, e que reivindicam uma suposta superioridade espiritual mediante um conhecimento (gnosis) exclusivo (na maioria das vezes o domínio da “língua dos anjos”).

No entanto, a gnose não é simplesmente uma heresia deslocada, facilmente erradicável e diagnosticável. Pelo contrário, já nos dizia Charles Hodge que a história da igreja é a constante luta entre a gnose e o que podemos chamar anacronicamente de “calvinismo”, ou dito de outro modo, o eterno embate entre a autonomia e autosoteria humana e heteronomia e heterosoteria provenientes de Deus. Desse modo, a gnose sempre ressurgiu ao longo da igreja, sempre reerguendo-se após ter sido mortalmente ferida; basta, pois, contemplar panoramicamente a história para se deparar com os já citados montanistas, os cátaros ou albigenses, a Cabala no século XII em Provença, e, mais hodiernamente, as modernas ideologias, especialmente o marxismo. Ora, a afirmação de que modernas ideologias e cosmovisões seculares que deliberadamente buscaram esvair os princípios religiosos são, na verdade, movimentos gnósticos chocam, num primeiro momento, a sensibilidade e a racionalidade do homem atual. Entretanto, como já vários cientistas políticos analisaram, as ideologias, em especial os movimentos revolucionários, nada mais são do que heresias gnósticas com um fundo religioso mascarado.

Eric Voegelin dedicou grande parte de sua obra à análise dos elementos ordenadores da História e da sociedade, chegando, por fim, à conclusão de que a “ordem da história (nome inclusive de sua magnífica pentalogia) é a história da ordem”, isto é, a tentativa do homem de alcançar a harmonia entre quatro princípios: Deus, cosmos, homem e civilização. Nesse sentido, Voegelin afirma que a escatologia proposta pelos movimentos revolucionários nada mais é do que uma “imanentização do eschaton”, ou seja, uma tentativa de “terrestralizar” a consumação final cristã, uma busca por criar, aqui e agora, os novos céus e nova terra. Portanto, os movimentos revolucionários são apenas a versão atual da antiga torre de Babel, como já disse Dietrich von Hildebrand em sua obra The New Tower of Babel: modern man’s flight from God [A Nova Torre de Babel: o homem moderno fugindo de Deus]:

O emblema da presente crise é justamente a tentativa por parte do homem de se libertar de sua condição de criatura, de negar sua situação metafísica e de se desembaraçar de todos os laços que o ligam a algo que é maior do que ele. Ora, o homem moderno busca construir uma nova Torre de Babel [Tradução nossa]  

As ideologias revolucionárias negam, portanto, toda forma de transcendência, mutilando, assim, a natureza espiritual do homem. Entretanto, como já disse Herman Dooyweerd – seguindo o pensamento de Calvino, o homem é um ser congenitamente religioso; a Queda não eliminou o sensus divinitatis (o senso da divindade) e a semen religionis (a semente da religião), antes, a obscureceu, corrompendo-a a ponto de transformá-la num impulso idolátrico. Desse modo, as modernas ideologias não são antirreligiosas (embora a maioria seja anticristã), mas, sim, religiões distorcidas, idólatras e que, acima de tudo, depravam a Revelação.


Destarte, todas as ideologias invariavelmente usurpam símbolos transcendentais e escatológicos cristãos para, em seguida, imanentizá-los. Ora, a escatologia marxista, sob o governo de um proletariado abstrato, na qual todas as desigualdades econômicas e sociais desaparecerão – ao mesmo tempo em que todas as potencialidades humanas aflorarão plenamente (nos dizeres de Marx e Engels, um indivíduo pode caçar pela manhã, pescar pela tarde e fazer crítica literária à noite, sem no entanto ser pescador, caçador ou crítico); tal escatologia configura-se como uma versão imanentizada da nova terra. Ou podemos citar ainda a ideia sustentada por alguns vegetarianos radicais, segundo a qual a raça humana eventualmente deixará de consumir carne, adotando uma dieta essencialmente herbívora; tal concepção nada mais é do que uma secularização, um esvaziamento simbólico da descrição feita por Isaías a respeito do novo estado inaugurado pelo Messias: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará” (Is 11:6).

Portanto, não há neutralidade neste ponto: é impossível ao homem escapar de sua condição inerentemente religiosa; as ideologias se sustentam sobre um fundo inegavelmente religioso; e tal constatação parte inclusive de ateus confessos, como John Gray – em seu livro Missa Negra: Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias. Assim, a gnose é um elemento muito mais sutil do que primeiramente pode se pensar, até porque não se trata de um ponto isolado na mentalidade secular, mas, sim, uma cosmovisão integral, um modo de contemplar e interpretar a realidade. Nas palavras de David Koyzis, em seu livro Visões e ilusões políticas: uma análise & crítica cristã das ideologias contemporâneas: “[...] as diversas ideologias se baseiam numa visão gnóstica da realidade, atribuindo a origem do mal a algum elemento da criação de Deus e buscando a redenção num outro aspecto da criação” (p. 82).

Em suma, a gnose é uma espécie de inversão da ordem da criação, é a rejeição absoluta da estrutura da realidade tal como criada por Deus. Semelhantemente ao grito de Mefistófeles, no Fausto de Goethe, o gnóstico cria para si mesmo uma espécie de realidade postiça, com uma estrutura engendrada segundo suas próprias preferências, e não segundo as leis eternas de Deus:


       O Gênio sou que sempre nega!
       E com razão; tudo o que vem a ser
       É digno só de perecer;
       Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.
       Por isso, tudo a que chamais
       De destruição, pecado, o mal,
       Meu elemento é integral (GOETHE, Fausto, 2010, p.139, Editora 34).


Porém, alguém pode presentemente indagar-se acerca da relação entre ideologia, pentecostalismo e gnose, bem como a razão desse périplo acima nas várias teorias religiosas e políticas. Ora, nesse momento adentramos num domínio já vislumbrado por alguns, comentado por poucos e raramente criticado, a saber, a presença de  ideologias marxistas dentro de igrejas históricas e formalmente reformadas. Todos são prestos em criticar a gnose descarada nos cultos e práticas pentecostais, mas muito ciosos em apontar os famosos “cristãos esquerdistas” e pastores marxistas dentro das Presbiterianas, Batistas e igrejas reformadas independentes.

Com efeito, ao passo que Roma tem sido assolada pela chamada Teologia da Libertação, nós, protestantes, dado que Deus é hábil para desenvolver cruzes para seus seguidores (A.W. Tozer), somos açoitados pela Teologia da Missão Integral. No entanto, esta corrente é deveras popular somente nos meios teológicos acadêmicos, de forma que, na sua vida prática, nossa eclesiologia se vê afligida por outro flagelo, dissimulado sobre uma máscara de neocalvinismo de Kuyper, a saber, a execrável “liturgia aberta” (assim denominada pelos seus “teóricos”) organicamente unida ao não menos nefando “louvor contemporâneo” (epíteto para canções de teor massivamente sentimentalista emolduradas por melodias homogêneas e simplórias).

Em outras palavras, já é habitual participarmos de cultos presbiterianos e batistas que são regidos não mais por um princípio regulador, mas pela supremacia do sentimentalismo barato; mas não apenas isso – argumentando estarem pondo em prática os princípios de redenção da cultura e graça comum propostos por Kuyper, Bavinck e mais recentemente Richard Mouw, alguns pastores inserem em seus cultos e comunidades versões “samba” ou “reggae” de hinos tradicionais, afirmando que, mediante a redenção realizada por Cristo, até mesmo esses ritmos populares se tornam pertinentes ao culto. Ora, não é nossa intenção presentemente discutir sobre a neutralidade ou não dos ritmos musicais (Michael Horton já tratou disso no seu artigo “Is style neutral?” [O estilo musical é neutro?]), mas sim, analisar se esse era efetivamente o pensamento dos neocalvinistas.

Na verdade, basta uma análise superficial para notar que a aceitação indiscriminada de toda sorte de ritmos sob o pretexto de cumprimento do mandato cultural soa mais como Gramsci do que Kuyper. O receio de postular um parâmetro objetivo do belo e consequentemente uma hierarquia estética tem levado não somente os acadêmicos incrédulos a aceitarem como arte todo tipo de experimentalismo e obras disformes, mas também aos pastores e líderes cristãos a admitirem em suas congregações o relativismo estético marxista, que, como tudo o mais, repudia quaisquer padrões objetivos e imutáveis que possam determinar ou avaliar nosso comportamento ou feitos. E nesse sentido, portanto, são gnósticos ou, no mínimo, intelectualmente desonestos.

Kuyper, em seu livro Wisdom and Wonder: common grace in Science & Art, repudia qualquer forma de relativismo estético; e a redenção da cultura e da arte diz respeito, antes de tudo, à alta cultura (termo cada vez mais raro). Com isso não se pretende dizer que se descarta de antemão qualquer participação ou produção popular, afinal, era notório o cuidado e o empenho de Kuyper em trazer as camadas populares (kleine luyden, a "gente pequena") a uma maior participação política e social. Na verdade, como o próprio teólogo afirmou, para Deus devemos dedicar os melhores frutos de nosso trabalho, incluindo, pois, as mais sublimes produções estéticas. Ora, comparar Hillsong United ou "corinhos de fogo" com os Salmos metrificados de Goudimel ou as composições de Isaac Watts é, no mínimo, sinal de uma completa obnubilação do senso estético – isto para não dizer que se trata de uma depravação do gosto. A liturgia de igrejas que se dizem reformadas deve necessariamente seguir a linha histórica, pois qualquer tentativa de rompê-la, refazendo-a inteiramente, constitui-se antes como ato revolucionário (e, portanto, gnóstico) do que inovador. Nas palavras do teólogo holandês:

Na igreja de Cristo, Ele é o Rei, e é necessário que tudo O sirva. Um organista tocando seu instrumento apenas para si mesmo não compreende, por conta disso, seu chamado; e o cantor que não compõe suas letras segundo a linha histórica da tradição cultual não se santifica, mas peca, caso o som de sua voz sirva apenas para estimulá-lo, e caso, ao conduzir o canto, não se entregue completamente à adoração de seu Senhor e Rei.
Nada é mais irrisório do que coristas cantando como se fossem pássaros, e não pessoas; ou músicos que não sentem absolutamente nada daquilo que estão cantando, os quais estão simplesmente perdidos nas notas musicais. Mas, contanto que essa espécie de performance artística seja evitada, a arte da música e da canção permanecem indispensáveis para nossa adoração. Em Genebra, Calvino convergiu todo empenho para que o canto congregacional soasse cerimonioso, natural, animado e belo.
Todos que são suficientemente humildes hão de admitir com franqueza que ninguém, ao se assentar no santuário, possui o fervor apropriado para a adoração. Nesse momento, a arte da música e do canto devem ser os meios para içar a alma do adorador para fora do ordinário e do mecânico em direção à paixão e atividade. Canto e melodia devem falar ao coração humano na plenitude do culto de uma forma que o estimule à adoração. Tal objetivo não será atingindo caso falte ao canto o ardor santo, e à música, uma vivacidade mais imponente [Tradução nossa]

Naturalmente, alguns argumentarão que há necessidade de adaptarmos a liturgia à cultura ou que é imperativo atualizá-la, a fim de não nos transformamos em adoradores anacrônicos. Se Deus assim o permitir, trataremos futuramente dessas e outras argumentações.


Que Deus nos livre, pois, da gnose em suas mais diversas formas.

Soli Deo Gloria

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos
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