Batismo e Circuncisão: uma breve apologia ao pedobatismo

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Tendo estabelecido os elementos da circuncisão, e seu propósito de inclusão na aliança, temos que ver como isso é transmitido para o Novo Testamento. Está pressuposta a essa aula o princípio hermenêutico de que a Aliança é a religião da Bíblia. O que temos é a alteração de administração, i. e., de formas de se observar os mesmos elementos. Talvez o argumento mais rápido para se observar isso seja o da própria expressão lucana ‘Nova Aliança’, usando o termo καινὴ¹ que não significa ‘novo’ de inédito, mas algo que não está usado, fresco… e coisas do tipo. Jesus estava dizendo, pois, que tínhamos uma renovação da aliança, e que uma nova etapa administrativa seria iniciada. Tal como nas ocasiões anteriores, isso não significava a supressão dos elementos anteriores, mas algumas coisas poderiam mudar.

Já foi visto que a Páscoa é substituída pela Santa Ceia. O Batismo é, por sua vez, substituto da Circuncisão². Para entender muito bem a isso, temos que tentar entender a instituição desses dois rituais com a perspectiva dos crentes da época, i.e., temos que adotar uma perspectiva exegética.

Um crente, então, acreditava que Deus havia instituído dois Sacramentos. Um memorial tinha sido estabelecido e deveria ser constantemente celebrado. Agora, novamente, um memorial estava sendo estabelecido. Era preciso que eles lembrassem o evento que inaugura a ‘nova’ aliança. Jesus, então, no próprio dia da Páscoa estabelece a Santa Ceia. Qualquer judeu ali entenderia que o novo memorial estava estabelecido. Sem esse recurso dedutivo não há como proibir ou mesmo não observar normativamente a Páscoa. Ela teria valor obrigatório para nós.

O raciocínio para o batismo é muito semelhante. Os crentes estão entendendo que o sinal para a inclusão de um indivíduo ao povo de Deus era a circuncisão. Agora, após alguém se unir ao povo de Deus deveriam ser batizados. O recado foi captado - ou deveria ser. Mais tarde, o Novo Testamento condenará explicitamente a circuncisão como ato de abandono da Nova Aliança³. O batismo é até mesmo chamado de ‘Circuncisão de Cristo’⁴! Paulo também diz que nós, os cristãos, somos a Circuncisão.⁵

Estabelecido esse ponto inaugural, é hora de observarmos quem são os indivíduos que deveriam ser circuncidados. A Páscoa exigia, como memorial, que toda a família celebrasse o memorial. A criança, é claro, comia sem uma compreensão adequada do que era o memorial, mas em breve seria instruída e comeria com fé. Igualmente, na circuncisão a criança não cria, mas logo deveria confirmar a fé dos pais. E o batismo? Não teria a mesma característica?

Pois bem, assim seria entendido pelo judeu que se convertesse. Tal como ele circuncidava seus filhos, batizaria os mesmos, naturalmente. “A referida exclusão [da criança ao rito neotestamentário] por certo exigiria uma declaração muito explícita a respeito”⁶. Todavia, há algumas objeções normalmente levantadas por nossos irmãos batistas para negar esse raciocínio⁷. Pretendemos analisá-las. 

1) Primeiro, alguns observam que o Novo Testamento apresenta o batismo como algo a ser recebido com fé, de modo que alguém que não entende não poderá ser batizado. Nós, porém, respondemos que a fé apresentada como condição para o batismo diz respeito a convertidos não nascidos na aliança, i. e., nascidos fora da Igreja. O mesmo acontecia no Antigo Testamento. De fato, é o próprio Paulo que nota ser a circuncisão um sinal que funcionava como sinal da justiça da fé entregue para Abraão quando ele ainda não havia se convertido⁸. Precisamos notar com cautela o que está sendo afirmado aqui. Abraão, quando creu, foi justificado pela fé.

Então recebe o sinal da circuncisão, firmando a aliança. Ele é, pois, circuncidado quando adulto, quando se converteu. A partir daí, a situação natural seria que os filhos não mais fossem circuncidados quando grandes. Mas e se alguém viesse a crer quando mais velho? Ele não era circuncidado novamente. Valia a circuncisão já recebida, funcionando novamente como ‘sinal da justiça da fé’. Confirmava-se, pois, a circuncisão.

2) Mas não é forçado pensar numa noção de confirmação da fé? A circuncisão exigia tal confirmação? Em Deuteronômio 10:16⁹, Jeremias 4:4¹⁰ e Ezequiel 44:7 é dito que os judeus deveriam circuncidar seus corações. O ensino de Paulo é justamente esse, i. e., que os judeus que se arrogavam mestres da lei e circuncisos só poderiam gozar de algum louvor se fossem circuncidados de coração. Essa é a circuncisão que vale a pena¹¹. Mas essa circuncisão de coração, que era a de valor, só poderia ser exercida pela fé, quando alguém cresse. Não obstante, não implicava em proibição da circuncisão enquanto não houvesse fé.

3) Mas não vemos nenhum exemplo [explícito]¹² de batismos infantis no Novo Testamento. Como, pois, sustentar que esse tipo de prática é lícita? Na verdade, embora isso seja respondido de uma forma simples, não é tão facilmente notado. Entretanto, faça esse simples exercício exegético: observa que não há qualquer narração a respeito da continuidade da vida comunitária cristã no único livro narrativo após os Evangelho: Atos. Temos, ali, o registro das viagens missionárias. Seria de se esperar que encontrássemos pessoas batizando seus filhos onde as pessoas nem mesmo eram crentes? Não, evidentemente. Como Hodge diz: 

A Igreja expandiu-se grande rapidez, mas suas adesões vinham de fora; adultos convertidos dentre os judeus e gentios que, ao se tornarem cristãos, traziam consigo, naturalmente, seus filhos para o rebanho de Cristo. Portanto, durante esse período, pouco se ouviu do batismo de crianças.¹³

Berkhof dá explicação muito semelhante:“Mas não há necessidade de ninguém se surpreender com o fato de não haver menção direta do batismo de crianças, pois num período missionário como o da era apostólica, naturalmente a ênfase recai sobre o batismo de adultos”¹⁴.

E a questão é tão pueril que, como coloca Berkhof, atesta contra os próprios batistas, i. e., não lemos em qualquer lugar uma menção ao batismo de filhos de crentes quando se tornam mais velhos, adultos. Ou seja, a prática batista encontra igualmente nenhuma referência:

A ausência de referências definidas ao batismo de crianças tem explicação, ao menos em boa medida, no fato de que a Escritura nos dá um registro histórico da obra missionária dos apóstolos, e não da obra empreendida nas igrejas organizadas. Aí também o feitiço vira contra o feiticeiro, quanto aos batistas. Poderão mostrar eles algum exemplo de batismo de um adulto nascido e criado num lar cristão? Não há risco nenhum de que algum dia o façam.¹⁵

4) Mas não há qualquer registro de que os crentes deveriam confirmar sua fé quando amadurecessem. Isso não deveria estar na instrução de alguma das epístolas? Não pelo simples fato de que essa já era a prática corrente. Não é dito que deveriam evitar a adoração por meio de imagens, mas essa já era a prática vigente e certamente a adoração pública demonstraria os ensinos implícitos.

5) Não há ordem para que crianças sejam batizadas. Antes, se diz que a condição para o batismo é a fé. Como explicar textos como Marcos 16:15-16? Aqui é dito, claramente, que apenas quem cresse deveria ser batizado.

Primeiro, é preciso observar que não há lugar algum dizendo que as crianças não deveriam ser batizadas. Nenhuma ressalva do tipo: ‘batizem, mas não as crianças’.

Por isso, Hodge coloca: 

O ‘onus probandi’ repousa sobre aqueles que assumem a negativa sobre este tema. Se os filhos devem ser privados de um direito nato do qual têm desfrutado desde quando houve Igreja sobre a terra, é preciso haver algum mandamento positivo para sua exclusão, ou alguma mudança claramente revelada nas condições de membresia que façam tal exclusão necessário. Quase nem é preciso dizer que Cristo não deu nenhum mandamento de não se considerar mais as crianças dos crentes como membros da Igreja…¹⁶

Em segundo lugar, é preciso observar as condições em que tal orientação está inserida, a saber, num contexto evangelístico. ‘Preguem o Evangelho’ é dito antes.

Além disso, ele seria pregado não na igreja, nesse arranjo, mas fora, e no mundo todo. O contexto é evidentemente missionário. E, sendo assim, permanece a situação descrita no ponto 3, i. e., aquela perspectiva missionária que certamente apontaria para convertidos fora da aliança. Esses só seriam batizados, evidentemente, depois de crer.

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Notas:
[1] Lucas 22:20. É o mesmo termo usado em 1 Coríntios 11:25. Apesar do uso de νέας em Hebreus 12:24, o argumento na sequência permanece o mesmo. Afinal, se algo é renovado, podemos chamá-lo de novo, mas não o contrário.
[2] O artigo foi feito como material para uma aula dada no curso de Teologia ministrado nas EBDs da Igreja Presbiteriana Confessional. Nesta etapa do curso já foi ensinada a transição da Páscoa para a Santa Ceia. Quem precisar compreender melhor esse ponto deve buscá-lo em outras fontes. Sugerimos as próprias Teologias Sistemáticas reformadas, como a de L. Berkhof, Charles Hodge, Françoi Turretini e etc.
[3] Um dos episódios mais claros é o da controvérsia em Jerusalém, em Atos 15. Ali Paulo e Barnabé confrontavam claramente os farizeus que haviam crido exigiam que os irmão observassem a circuncisão para serem salvos (cf. 1-5). Curiosamente, não houve controvérsia em relação à Páscoa, e não ouvimos qualquer relato de que alguém a tenha observado.
[4] Colossenses 2:11-12, que diz: ‘Nele [em Cristo], também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados, juntamente com ele no batismo…” Fomos circuncidados por Cristo, não por intermédio de mãos, mas no ato de despojar-se do corpo da carne. Isso foi feito tendo havido o batismo. Portanto, no batismo somos circuncidados por Cristo.
[5] Filipenses 3:3.
[6] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, 3 ed., 2007, p. 585.
[7] Isso quando são aliancistas, como Charles Haddon Spurgeon ou Franklin Ferreira, para ficarmos nos nomes mais célebres. Os que advogam a Teologia da Nova Aliança, por exemplo, ou os dispensacionalistas, argumenta contrariamente a tal noção justamente fazendo uma cisão, uma ruptura mais abrupta entre as alianças.
[8] Romanos 4:11.
[9] Vale a pena ler a partir do verso 12. A instrução é clara: deveriam temer a Deus, obedecer seus mandamentos e circuncidar o coração.
[10] cf. 9:25-26.
[11] Romanos 2:25-29.
[12] Alguns admitem a possibilidade do batismo da casa de Lídia (Atos 16:15), e da do carcereiro (Atos 16:32-33 incluírem crianças. Todavia, vociferam que isso é especulativo, e que não há menção 
explícita a crianças. Se não se deve admitir batismo a elas, então se houvesse crianças, foram  omitidas.
[13] HODGE, Charles. Teologia Sistemática, p. 1432.
[14] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, p. 586.
[15] Ibid, p. 588, itálico nosso.
[16] HODGE, Charles. Teologia Sistemática, p. 1431.

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Autor: Lucio Antônio de Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Desfazendo Alguns Discursos Progressistas (Parte 3)

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Depois de nosso primeiro artigo respondendo ao artigo ‘Dez Coisas Que Você Jamais Poderia Votar a Favor Enquanto Segue a Jesus’, do blog Evangelho Social, recebemos uma ‘resposta’[1]. Este texto é uma réplica a ela.

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Antes de mais nada, há coisas a serem esclarecidas. Algumas confusões foram feitas e precisam ser aclaradas. A primeira coisa a ser dita é que o autor do Evangelho Social[2] lisonjeou-se pela referência que o Bereianos fez a ele e a seu site, e ficamos com a impressão de que ele entendeu que os proprietários do blog ou mesmo nós, o autor do artigo em resposta a seu texto, fôssemos ávidos leitores ou tivéssemos dado alguma relevância para o artigo que ele escreveu. Como colocamos no início da primeira resposta, só consideramos seu texto por servir como ótimo catálogo para as falácias do chamado ‘progressismo cristão’[3] e por ter sido amplamente divulgado por amigos e conhecidos cristãos[4]. Por isso, se for o caso, take it easy, companheiro!

Desfazendo Alguns Discursos Progressistas (Parte 1)

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Uma resposta ao artigo: Dez Coisas Que Você Jamais Poderia Votar a Favor Enquanto Segue a Jesus.

O que temos a oferecer ao leitor, agora, é uma refutação sistemática ao texto intitulado “Dez Coisas Que Você Jamais Poderia Votar a Favor Enquanto Segue a Jesus”.[1] Não é, nem de longe, um bom artigo. Não há referências significativas nem qualquer indício de pesquisa. Não há nem mesmo referências bíblicas ou qualquer sinal de exegese. Então, por que respondê-lo? Um amigo progressista com alguma influência tornou-o público e foi bem recebido. Endossaram-no como se tivesse real substância ou relevância. A despeito de parecer uma provocação a nós, autores destes textos,[2] por considerarmos as opiniões anti-bíblicas, equivocadas e até nocivas, e por terem se popularizado e estarem, aqui e acolá, presente na maioria dos textos dos ditos ‘cristãos progressistas’, vale a pena responde-lo afim de que já sirva para lidar com todos eles e aproveitar o ensejo da breve popularidade do texto com a finalidade tentar remediar os males que podem essas ideias causar. O texto consegue errar em absolutamente tudo. Até mesmo na introdução, ao tentar dizer o que é um cristão, peca por não fazer referência ás Escrituras. Não há – não por acaso – um apontamento para as páginas sagradas para definir o que é um cristão. Tudo que temos é um genérico (palavra de ordem para o texto, en passant) “seguir a Cristo implica certas coisas, motivações, sentimentos, ações e princípios”. Quais coisas? Quais motivações? Quais sentimentos? Quais ações? Quais princípios? Evidentemente são aqueles que o autor do detestável artigo articulou em sua própria cabeça (certamente mais progressista do que bíblica – para não dizer ‘totalmente progressista’).


Prolegômena à Predestinação - uma questão de justiça

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"Ora, a excelência, beleza e perfeição de cada ser vivo, objeto inanimado ou ação humana depende exclusivamente da utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (Platão, Livro X da República).

Prolegômena é aquilo que se discute antecipadamente. É a discussão que deve ser feita - mas geralmente não o é - antes de entrarmos em outros pontos. Supostamente há pontos pacíficos quando se vai discutir vários temas. Acreditamos que aquele com quem estamos a debater assume algumas coisas que nós de antemão achamos óbvias demais para serem discutidas. No entanto, um levantamento de pressupostos que regem as colocações demonstrará que, não raro, há pontos de discordância que impediriam completamente os contendores de chegarem a um acordo.

Com esse pequeno texto, pretendemos explorar alguns itens prolegomenais em relação à discussão sobre a predestinação, eleição e afins, contidos nas doutrinas da graça* conforme expõem os teólogos protestantes reformados - os quais nos parecem mais próximos das Escrituras. Particularmente, estamos interessados em considerar o conceito de justiça que é trazido à baila nessas discussões de forma, amiúde, desorganizada e confusa. Basicamente, questiona-se se seria justo que Deus elegesse algumas pessoas para serem salvas e outras não. Nossa tese é de que é perfeitamente justo que Deus faça tal escolha.

Foi Voltaire quem observou que para discutirmos adequadamente temos que definir os nossos termos, o que já consiste, por si, em uma tarefa prolegomenal. Isso é uma forma de evitar a falácia da equivocação, que consiste em discutir com conotações distintas para um mesmo termo. É marca distinta de um bom pensador e de uma boa discussão que as coisas fiquem de antemão claras. Ao acompanharmos as discussões socráticas veremos da parte do sábio ateniense justamente o desejo de definições precisas para evitar confusão - o que, com frequência, colocava o próprio adversário em confusão, pois esse fora para a discussão sem pensar muito bem nas palavras que usava.

Queremos entender, pois, o que significa 'justiça'. Esse é o termo-chave da discussão. Acreditamos que podemos defini-la como algo nos seguintes termos: 'é ter cada um o que lhe é de direito', ou, 'cada um ter o que é adequadamente seu'. Quem já leu a República sabe como é difícil uma definição precisa, embora 'intuitivamente' arranhemos o conceito. Supomos suficiente definir tal como o fizemos.

A questão que se segue é a de saber o que é devido a cada um, ou seja, o que é de direito. O direito de algo ou alguém é determinado por seu valor ontológico, i. é., o valor intrínseco que a coisa tem segundo seu próprio ser. Entretanto, há algo assim? Valor intrínseco?

O valor de um determinado artefato criado por um homem está determinado por ele ao criar e estabelecer seu objetivo. E mesmo as coisas que ele não cria ganham seu valor segundo os fins para os quais ele percebe. Um homem pode considerar um violão extremamente valoroso na medida em que aprecia a música e, principalmente, aquela produzida pelo violão. Mas um cão ou gato não terá o mesmo apreço pelo instrumento, principalmente se não houver quem o toque - se é que animais podem verdadeiramente apreciar uma música. No máximo, servir-lhes-á para depositar alguma coisa, ou para afiar suas unhas. Portanto, percebemos que o valor das coisas é determinado de forma subjetiva. É preciso um referencial para que haja a determinação do valor.

Pois bem, temos que decidir de antemão se nosso referencial será antropocêntrico ou teocêntrico. Se tomarmos o homem como a medida de todas as coisas, teremos uma avaliação valorativa, e se tomarmos Deus, outra.

Estamos percebendo a que rumo o argumento está levando? Quem é que determina o valor do homem? Se ele é determinado pelo próprio homem, temos uma situação distinta daquela em que Deus é quem o determina. Esse é o ponto nevrálgico. Podemos falar que todas as coisas têm valor segundo o estabelece a subjetividade humana. Mas não seríamos indelicados se perguntássemos sobre o valor do próprio homem. É engraçado ver como naturalistas 'rebolam' para tentar dar algum valor distinto para um conjunto determinado de átomos dispostos de uma forma específica e não de outra. O homem não é mais do que isso nesse tipo de cosmovisão. E o valor que ele dá às coisas é relativo. E daí se as coisas têm esses valores para o homem?

Sem o homem poderíamos pensar no valor das coisas para manter o ecossistema. Mas, e daí? Por que o ecossistema deveria ser mantido? Alguém poderia responder imediatamente que seria para manter a vida na terra. Mas por que manter a vida? Ela nem mesmo é compreendida de forma 'anímica' pelo naturalista. Uma cosmovisão naturalista não pode dar um significado essencial para a realidade. Um cristão que toma o homem como referência para o valor das coisas é um incoerente que anda de mãos dadas com naturalistas. Um protestante, então, nesse caminho, chama para banquetear consigo Pelágio, João Cassiano e toda a corja que se segue.

Agora podemos rumar para a situação oposta. Deus determinando o valor das coisas. Para começar, Ele está numa situação singular e muito superior à do homem para determinar o valor das coisas. Antes de mais nada, na cosmovisão cristã, Ele é quem cria 'ex nihilo' tudo o que há. Cada parte do que existe além dele é engendrado, formulado, cogitado e executado por seu desejo. Portanto, o valor das coisas é definido segundo os objetivos que Deus tem para com tudo. Aí está o valor absoluto das coisas. Elas têm valor intrínseco por conta de seu lugar na criação.

Segue-se que é de direito que Deus dê ao homem o que lhe é cabível segundo o valor que Deus deu na execução de seus planos para cada coisa. Se o valor das coisas é dado por Deus, cabe a Ele dar a cada um o que bem entender segundo lhe parecer viável.

Não podemos encerrar esse artigo sem uma última formulação. Um ser racional age, na medida em que age racional e inteligentemente, com fins. Ele tem planos. Julgamos a integridade de seus planos e a competência do logos em executar seus planos. Um homem ao fazer algo tem, consciente ou inconscientemente, planos. Na medida em que ele conhece mais a si mesmo, mais consciente de seus objetivos ele está. Na medida em que é mais sábio e bom, objetivos mais nobres e sensatos ele tem, bem como os meios para alcançá-los. Apliquemos o raciocínio a Deus e teremos alguém que age com fins plenamente conscientes e estabelecidos, totalmente nobres e sensatos. Portanto, quando Deus criou cada coisa, inclusive cada homem, tinha uma pauta, um objetivo em mente.

E qual objetivo é esse? Com Charles Hodge aprendemos o que viria a ver novamente em John Piper: que Deus não pode ter outro objetivo que não ele mesmo como alvo final, último, derradeiro para as coisas. Quando ele vai criar só pode haver um objetivo sumamente nobre, santo e justo que é enaltecer aquilo que é mais santo, belo, nobre e bom: ele mesmo. Ele age, pois, em consonância com o que Paulo diz na epístola aos Romanos, para a sua glória, pois 'por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!'.

Na mesma epístola, no nono capítulo, o apóstolo Paulo diz que Deus criou os eleitos para enaltecer sua misericórdia e os ímpios para enaltecer sua santidade, justiça e severidade para com o mal, o que implica ser extremamente bom. Paul Helm, certa feita, notou que se fosse injusto que Deus não salvasse alguns homens, então salvá-los seria questão de dívida, e não de misericórdia. Deus os salva segundo seu propósito final de glorificar a si mesmo em suas várias perfeições.

Portanto, é mais do que justo, nobre e santo que Deus eleja quantos ele quiser para a sua inteira glória, bem como pretira, igualmente, a quantos lhe aprouver. Este é o soberano Deus para quem nos dobramos em reverente adoração!

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* Notar que não iremos discutir as demais doutrinas da graça que são indissociáveis da eleição, como justificação objetiva e subjetiva, chamado externo, regeneração, santificação, adoção, ressurreição e glorificação.

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Autor: Lúcio Antonio de Oliveira
Fonte: Panacéia Teo-Referente

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