Orare et Labutare: A Hermenêutica Reformada das Escrituras - 1/3

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Por Rev. Paulo R. B. Anglada 


Orare e labutare foram palavras empregadas por Calvino para resumir a sua concepção hermenêutica. Com estes termos ele expressou a necessidade de súplica pela ação iluminadora do Espírito Santo e do estudo diligente do texto e do contexto histórico, como requisitos indispensáveis à interpretação das Escrituras. Com o mesmo propósito, Lutero empregou uma figura: um barco com dois remos, o remo da oração e o remo do estudo. Com um só destes remos, navega-se em círculo, perde-se o rumo, e corre-se o risco de não chegar a lugar algum

Palavras e figuras como estas revelam a consciência que os reformadores tinham do caráter divino-humano das Escrituras e o equilíbrio fundamental que caracteriza a hermenêutica reformada da Palavra de Deus. 

O mesmo não ocorre hoje. O evangelicalismo brasileiro parece estar vivendo dias difíceis. Quando se considera a diversidade doutrinária e prática que, em geral, caracteriza as igrejas evangélicas no nosso país, talvez não seja descabido questionar até mesmo se o termo "evangélico" ainda tem algum sentido, se ainda se presta para distinguir um grupo definido de pessoas dentro da igreja cristã. 

Pode haver muitas razões para tal estado de coisas. Mas, sem dúvida, a rejeição da sã doutrina é uma delas. Na prática, as igrejas evangélicas em geral não têm professado teologia precisa, sistemática, confessional e histórica. Mesmo as denominações mais tradicionais parecem estar se distanciando progressivamente das doutrinas e práticas reformadas que caracterizavam as igrejas protestantes do passado, e pelas quais muitos chegaram a dar suas vidas. 

É convicção deste autor que boa parte desta descaracterização teológica e eclesiástica das igrejas evangélicas no nosso país se explica pelas hermenêuticas deficientes que têm regido a interpretação e pregação da Palavra de Deus. Também é convicção deste autor que a hermenêutica reformada das Escrituras é um modelo de interpretação bíblica capaz de promover, com a graça de Deus, a reforma teológica, litúrgica e eclesiástica que o evangelicalismo brasileiro necessita. Este é o assunto deste artigo. 

I. Delimitação do Assunto 

O termo hermenêutica tem sido empregado em dois sentidos. Historicamente, nos compêndios clássicos de interpretação bíblica, designa a disciplina que, partindo de pressupostos básicos, estuda e sistematiza a teoria da interpretação das Escrituras, enquanto a exegese designa a prática. Neste sentido, o objetivo da hermenêutica é descobrir e sistematizar os princípios e métodos apropriados para a compreensão do sentido que o autor intentou transmitir aos seus leitores originais. 

Mais recentemente, entretanto, estes termos têm sido usados com sentidos diferentes: exegese, para designar o estudo das Escrituras com vistas a descobrir o sentido original pretendido pelo autor, e hermenêutica, no sentido restrito da sua contemporaneidade. Ou seja, a exegese seria uma primeira tarefa histórica pela qual se busca compreender o que os leitores originais entenderam; enquanto que a hermenêutica seria uma tarefa teológica prática e posterior, na qual se busca compreender a relevância da sua mensagem para nós, hoje, no nosso contexto específico.[1]

Neste artigo estes termos são usados no sentido histórico mais comum: hermenêutica, designando a disciplina que estuda e sistematiza os princípios e técnicas, com as quais, partindo de determinados pressupostos, se busca compreender o sentido original do texto bíblico; exegese, designando a prática destes princípios e técnicas; e aplicação, designando a busca da relevância do texto ao nosso contexto específico. Isto é: tendo compreendido qual a mensagem do texto para os seus leitores originais, em que sentido esta mensagem é aplicável aos nossos dias e ao nosso contexto? 

Convém esclarecer também que o termo reformada, não é empregado neste artigo para designar especificamente a hermenêutica dos reformadores. Não se pretende aqui fazer uma descrição específica e detalhada da hermenêutica desenvolvida e praticada por Lutero, Melanchton, Calvino e outros. O termo também não se refere à denominação reformada (ramo da reforma como ficou conhecido especialmente na Europa). O termo hermenêutica reformada, neste trabalho, refere-se a uma corrente ou escola de interpretação bíblica histórica, distinta de outras correntes, fundamentada em pressupostos bíblicos quanto à natureza das Escrituras, e que emprega princípios e métodos específicos. Trata-se de uma escola ou corrente de interpretação que adota o método histórico-gramatical, em contraposição aos métodos intuitivos (da corrente espiritualista) e histórico-crítico (humanista) de interpretação bíblica. 

Com a expressão hermenêutica reformada, quer-se designar neste artigo o modelo de interpretação bíblica defendida e aplicada pelos reformadores, pelos principais símbolos de fé protestantes (inclusive batista)[2], pelos puritanos ingleses, pelos huguenotes franceses, e pelas igrejas evangélicas ortodoxas em geral até os nossos dias. Esta corrente de interpretação poderia ser chamada de hermenêutica protestante ou hermenêutica evangélica. Mas, ao que parece, estes termos já não caracterizam muita coisa — pelo menos no campo da hermenêutica —, pois englobam, sem qualquer distinção, defensores e praticantes de todas as correntes de interpretação bíblicas: desde a corrente espiritualista (intuitiva) até a corrente humanista (histórico-crítica). 

II. Importância do Assunto 

A importância do assunto dificilmente pode ser exagerada, pois a hermenêutica é a base teórica da exegese, que, por sua vez, é o alicerce tanto da teologia (quer bíblica, quer sistemática) como da pregação. O diagrama a seguir ilustra estas relações: 


Parece que, atualmente, pelo menos no Brasil, estas disciplinas têm sido parcialmente relegadas por alguns segmentos evangélicos a um segundo plano. Exegese, doutrina e pregação têm sido substituídas por coisas ‘‘mais práticas’’ (tais como a ação social, o engajamento político, a administração eclesiástica, o evangelismo, a liturgia, as exortações morais, etc.). Quando não se nega a importância da exegese, da doutrina e da pregação, na teoria, nega-se na prática. 

Convém observar, entretanto, que o apóstolo Paulo exorta Timóteo a cuidar ‘‘de si mesmo e da doutrina’’, de modo que possa ser ele mesmo salvo bem como os seus ouvintes (1 Tm 4.16). Ele o admoesta a apresentar-se a Deus ‘‘aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade’’ (2 Tm 2.15). E afirma que devem ‘‘ser considerados merecedores de dobrados honorários (ou honra) os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na Palavra e no ensino’’ (1 Tm 5.17). 

Não se pode esquecer de que ‘‘aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação’’ (1 Co 1.21); e de que ‘‘a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo’’ (Rm 10.17). 

A importância da doutrina é vista especialmente nas cartas do apóstolo Paulo e no tratamento que faz da questão da justificação pela fé na carta aos Gálatas. Nem a Igreja de Corinto, com todos os seus problemas morais, foi tão duramente tratada pelo apóstolo quanto as igrejas da Galácia, em função do seu desvio doutrinário. 

A verdade de Deus expressa em sua Palavra é o instrumento empregado pelo Espírito Santo para salvar e santificar. São ‘‘as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus’’, e fazer com que ‘‘o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra’’ (2 Tm 3.15,17). 

Richard Baxter, um dos puritanos mais conhecidos do século XVII, foi o instrumento nas mãos de Deus em um reavivamento na sua cidade. Autor de dezenas de obras, a maioria de cunho prático, usou uma figura para expressar a relação entre a verdade da Palavra e a santidade. Eis suas palavras: 

...as verdades de Deus são os próprios instrumentos da santificação de vocês; essa santificação é o resultado produzido por essas verdades sobre o entendimento e a vontade de vocês. As verdades são o selo e a alma de vocês é a cera; a santidade, é a impressão feita. Se vocês receberem apenas algumas verdades, terão apenas uma impressão parcial... Se vocês as receberem de modo desordenado, a imagem que produzirão nas almas de vocês será igualmente desordenada; como se os membros dos corpos de vocês fossem unidos de modo monstruoso.[3] 

Aí está a importância da hermenêutica: ela é a base teórica da exegese, que por sua vez é o fundamento da teologia e da pregação, das quais depende a saúde espiritual da igreja, e da nossa própria vida. Uma hermenêutica deformada fatalmente resultará em exegese deformada, produzirá teologia e pregação deformadas, e se manifestará tragicamente em igrejas e vidas deformadas. 

III. Necessidade da Hermenêutica 

Todo leitor é um intérprete. Mas ler não implica necessariamente em entender. Quando não há barreiras na compreensão de um texto, a interpretação é automática e inconsciente. Mas isso nem sempre ocorre. De conformidade com a doutrina reformada da clareza ou perspicuidade das Escrituras, a Bíblia é substancialmente, mas não completamente clara. As verdades básicas necessárias à salvação, serviço e vida cristã são evidentes em um ou outro texto, mas nem todos os textos das Escrituras são igualmente claros. 

Por ser um livro divino-humano, inspirado por Deus, mas escrito por homens, admite-se que há dificuldades de ordem espiritual e de ordem humana para a compreensão das Escrituras. O apóstolo Pedro reconheceu essa dificuldade com relação aos escritos do apóstolo Paulo, dizendo que neles ‘‘há certas coisas difíceis de entender...’’ (2 Pe 3.16). 

Isto significa que a compreensão das Escrituras não é necessariamente automática e espontânea. É, sim, o resultado da ação iluminadora do Espírito Santo, por um lado, e por outro, do estudo diligente da língua e do contexto histórico em que foi escrita. 

A. Dificuldades de Ordem Espiritual 

O aspecto espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é demonstrado claramente em passagens bíblicas tais como 1 Coríntios 2.14 e 2 Coríntios 4.3-6: 

Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, por que lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 
...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. 

Nestes textos o apóstolo Paulo ensina claramente a absoluta incapacidade do homem natural (não regenerado) de compreender a revelação de Deus. A razão desta incapacidade é a cegueira espiritual em que se encontra como resultado da queda do homem do seu estado original, e da ação diabólica. E a cura desta cegueira não é intelectual, mas espiritual. Só o Espírito Santo pode fazer resplandecer a luz do Evangelho da glória de Cristo num coração em trevas. 

Outro texto que demonstra o caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é 2 Coríntios 3.14-15. Neste texto o apóstolo Paulo explica que os judeus tinham como que um véu embotando os seus olhos espirituais, de modo que não podiam compreender o significado do que liam, por causa da incredulidade: 

Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que em Cristo é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. 

Como este véu pode ser retirado? Pela conversão, responde o apóstolo no verso seguinte: ‘‘Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu é retirado.’’Na carta aos Efésios, o apóstolo Paulo ensina a mesma coisa com relação aos gentios: 

...não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza dos seus corações (Ef 4.17-18). 

A ação iluminadora do Espírito Santo é, portanto, indispensável na interpretação e apreensão do ensino das Escrituras. A erudição piedosa é preciosa e indispensável para a preservação da sã doutrina. Um erudito, por mais bem equipado que esteja hermeneuticamente, desprovido, porém, da ação regeneradora e iluminadora do Espírito, possivelmente não alcançará o sentido da Escritura tanto quanto um crente simples e fiel, mesmo que indouto em métodos e técnicas de interpretação. 

Mesmo o crente precisa da ação iluminadora contínua do Espírito Santo para progredir na compreensão das Escrituras. Seu coração não está embotado como o dos judeus descrentes; nem seu entendimento está obscurecido, como o dos gentios incrédulos. Mas ainda há muito a compreender; e a ação iluminadora do Espírito Santo permanece indispensável. Com esse propósito o apóstolo Paulo orava insistentemente pelos crentes, a fim de que Deus lhes iluminasse mais e mais, para compreenderem mais profundamente a natureza do evangelho e a suprema riqueza da sua graça. Eis um exemplo apenas na carta aos Efésios: 

...não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos... (Ef 1.16-19). 

Textos como este revelam o papel do Espírito Santo e da fé na compreensão das verdades espirituais. A interpretação e compreensão das Escrituras torna-se essencialmente uma tarefa espiritual — embora não rejeitando habilidades naturais ou técnicas. 

B. Dificuldades Naturais 

Deve-se observar, entretanto, que as Escrituras também revelam, por ensino direto e por inúmeros exemplos, que o coração do homem é mais enganoso do que todas as coisas e desesperadamente corrupto (Jr 17.9), não sendo, portanto, totalmente confiável. Além disso, não existe somente o Espírito da verdade; há também o espírito do erro (1 Jo 4.6). O pai da mentira está sempre pronto a enganar, se possível for, até os eleitos. Logo, o caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras não elimina, de modo algum, o lado humano, também necessário para a sua correta interpretação e compreensão. Afinal, é pela própria Palavra, e através da Palavra, que o Espírito Santo realiza essa obra iluminadora. 

Por haver sido escrita em línguas humanas, em contextos históricos, sociais, políticos e religiosos específicos, um conhecimento adequado da língua e do contexto histórico também é necessário para uma melhor interpretação e compreensão das Escrituras. Deve-se lembrar também que o ministro da Palavra é aquele que se afadiga no estudo dela (1 Tm 5.17). Logo, para uma interpretação e compreensão adequada das Escrituras, fazem-se necessários requisitos de natureza espiritual, bem como requisitos de natureza intelectual. Ambos são necessários e imprescindíveis. 

Continua...

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Os dons extraordinários

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Por 
Flávio Teodoro e Luciano Hérbet

A Bíblia em 1 Coríntios 12: 7-11, Efésios 4:11-12 e 1 Pedro 4: 10-11 revela-nos que o Espírito do Senhor concede aos crentes habilidades sobrenaturais para que a igreja possa cumprir a sua missão no mundo até a volta de Jesus Cristo. A relação dos dons espirituais é enorme (1 Co. 12: 4-11, 28-30; Rm. 12: 6-8; Ef. 4:11; 1 Pe. 4: 9-10): profecia, ensino, cura, hospitalidade, milagres, sabedoria, socorro, generosidade, etc. Dentre os dons espirituais, existiu um grupo de dons especiais que foram destinados a autenticar diante dos judeus incrédulos à nova mensagem vinda da parte de Deus – o evangelho de Cristo. Chamados de dons extraordinários, os dons de milagres, cura, exorcismo, profecia, línguas e interpretação foram concedidos aos apóstolos e outras poucas pessoas próximas dos discípulos e apóstolos.[1]

Esses sinais especiais atestavam a pregação da nova mensagem e removiam qualquer pretexto de dúvida ou incredulidade de quem estava ouvindo. Foi exatamente o que aconteceu com João Batista quando encarcerado e em momento de dúvida e angústia, foi confortado por Jesus quando mandou lhe dizer: "... Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho." (Mt. 11:4-5). Por isso, Paulo foi capaz de afirmar: "Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo..." (1 Ts. 1:5). Esse poder foi manifestado freqüentemente através dos apóstolos quando muitos eram curados de suas enfermidades, ressuscitados e libertos da opressão e possessão demoníaca. O evangelho, as boas novas, era algo novo, uma mensagem nova para aquele povo que não reconheceram o Seu Messias; ainda não tinha o Novo Testamento sido escrito. A confiança dava-se na palavra falada dos apóstolos (a mensagem proclamada), e por isso aprouve a Deus confirmar a pregação de seu evangelho através de sinais e maravilhas.

Em Atos 5:12 lemos que "muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos" e quando questionado sobre sua autoridade apostólica, Paulo responde que "os sinais de meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas." (2 Co. 12:12). Portanto, no meio deles, da igreja e do povo em geral, Deus estava confirmando o ministério dos apóstolos, validando suas pregações e ensinamentos através dos sinais, dos milagres, curas e expulsão de demônios. Podemos, então, concluir claramente que Deus destinou esses dons aos apóstolos e poucas outras pessoas no início da igreja.

Se esses dons, os extraordinários, não são mais para os dias da igreja atual, então alguns questionamentos bastantes pertinentes são: Deus cura hoje? E como Ele o faz? Ele ainda opera milagres em nossos dias? A nossa resposta é um firme e forte sim; Nós não podemos restringir ou anular a soberania de Deus. Não cremos que já cessaram milagres, mas sim nos moldes como os pentecostais pregam. Deus pode, por exemplo, de acordo com a sua soberania, atender positivamente a oração de uma igreja local ou família e curar uma pessoa de alguma doença letal ou suprir de forma sobrenatural alguma necessidade de um servo dele. Tendo isso em mente partiremos agora para uma breve descrição de cada dom extraordinário:

O dom de Profecias

As profecias possuíam duas dimensões: a predição de algum evento ou fenômeno no futuro e a exposição do que Deus disse. Exemplos claros do primeiro aspecto da profecia podem ser vistos em toda a Bíblia. No A. T. os profetas anunciaram muitas ações ou fatos que aconteceriam no futuro. No N. T. encontramos Ágabo alertando a igreja que um período de escassez, marcado por uma grande fome, se aproximava (At. 11:28). Os apóstolos registraram os eventos que antecedem e envolvem o retorno de Cristo, bem como o que aguarda os crentes fiéis após a Sua volta. Na segunda dimensão vemos que a obra ou ministério de quem Deus destinava o dom da profecia era de receber e declarar a Palavra de Deus sob o controle absoluto do Espírito Santo. O profeta falava inspirado diretamente pelo Senhor. Esse dom era imprescindível e vital antes das Escrituras do Novo Testamento. Após o cânon, as Escrituras dos apóstolos passaram a ser lidas e recebidas pelas congregações como a autorizada Palavra de Deus.

O dom de Línguas e de Interpretação

A Bíblia registra que a manifestação primária desse dom ocorreu durante a festa de Pentecostes (At. 2: 1-13). Claramente nos é revelado que a natureza dessas manifestações era em idiomas. Ininteligível para quem falava (a não ser que o mesmo tivesse também o dom de interpretação), mas perfeitamente inteligível para quem era originário ou educado naquele idioma. Os próprios pentecostais e carismáticos se dividem quanto à interpretação da natureza desse dom. Somente forçando bastante a exegese dessa passagem para se chegar a outra conclusão. Alguns então, para corroborar a outra interpretação sobre a natureza das línguas não ser de idiomas humanos, e sim linguagens celestiais ou angelicais, afirmam que somente nesse episódio se tratou de idiomas, sendo todos os outros eventos subseqüentes se tratar de linguagem celestial.[2]

Será que aconteceu também entre os anjos alguma Babel? Se a linguagem é angelical ela é única ou de vários "idiomas" angelicais? Nas Escrituras não existe uma única passagem relacionada aos anjos se expressando oralmente onde não seja entendida sua linguagem pelos homens. Até mesmos os Serafins, que estão diante do trono de Deus, foram perfeitamente compreendidos pelo profeta Isaías (Is. 6:3, 7). Trata-se de um erro exegético usar da linguagem de 1 Co. 13:1 para justificar a existência de uma linguagem própria dos anjos, ou então deveríamos fazer o mesmo com Lc. 19:40 insinuando uma linguagem pétrea. Os dons de interpretação seguem a mesma lógica dos dons de línguas. São habilidades especiais concedidas pelo Espírito para interpretar na linguagem local dos ouvintes aquilo que está sendo pronunciado pelo dom de línguas.
     
Os dons de milagres, prodígios e sinais

De uma forma geral, todos os dons extraordinários são considerados sinais e prodígios, mas podemos agrupar aqui o dom de curar milagrosamente, de repreender e expulsar demônios e de ressuscitar os mortos, como foi o caso de Paulo ao ressuscitar Êutico (At. 20:9-12). Já está posto que esses dons serviram para confirmar o testemunho dos apóstolos e daqueles seguidores mais próximos. Em muitas igrejas atuais existem ministérios de curas e de libertação espiritual, focadas no exorcismo. Nenhum crente, com exceção desses anteriormente mencionados, nem no passado ou no presente, possui autoridade para repreender ou ordenar alguma coisa a Satanás.  Nós somos guardados de sua fúria unicamente pela presença do Espírito em nós. Embora o crente não possa ser possuído por nenhum tipo de demônio, pode sim, ser oprimido por ele sob a permissão divina. Creio que, estabelecida a igreja pelo fundamento dos apóstolos, passa a ser agora a pregação do evangelho a única maneira para se libertar o endemoniado.[3] Quando o pecador recebe o evangelho e crê em sua mensagem, ele é perdoado de todos os seus pecados bem como liberto de Satanás. Para um possesso ser liberto hoje ele precisa crer no evangelho e qualquer crente pode conduzi-lo a Cristo.

Muitos têm associado os dons extraordinários com a doutrina pentecostal do "batismo com o Espírito Santo". Eles ensinam que essa experiência vem acompanhada desses sinais, principalmente o dom de línguas. Alguns chegam a afirmar que até mesmo o pastor Martin Llyord-Jones (já falecido), ministro da capela de Westminster, Inglaterra, defendia a contemporaneidade dos dons extraordinários. Apesar de esse grande teólogo reformado ter crido que o batismo com o Espírito Santo era uma experiência após a conversão, ele não cria na continuidade dos dons extraordinários para a igreja após o período apostólico.[4] Embora esses dons não existam mais, permanece hoje uma variedade de dons concedidos pelo Espírito Santo à igreja. Cada crente tem recebido o seu dom para desenvolver e exercer com zelo e dedicação à obra do Senhor, de modo que a igreja está equipada pelo Espírito para proclamar a Cristo como o Salvador do mundo.

Notas:
1 - "Todos os milagres/sinais/prodígios/maravilhas realizados através de crentes, desde Atos até Apocalipse, foram dons concedidos como características exclusivas e identificatórias (ver 2Co 12:12) dos 13 apóstolos e dos 70 discípulos = 83 varões ex-israelitas escolhidos pelo Cristo manifestado em carne e osso, tendo eles sido testemunhas oculares de todos os dias dos mais de 3 anos de ministério de Cristo na terra, e da Sua ressurreição corporal. Por isso, na Bíblia somente encontramos esses 83 apóstolos e discípulos como homens através dos quais Deus concedeu o dom de operar milagres/sinais/prodígios/maravilhas". Hélio de Menezes em "Milagres e Sinais Realizados Através de Crentes, desde Atos até Apocalipse", disponível aqui, e aqui.
2 - "As línguas faladas em Pentecostes eram da terra, humanas, entendidas pelos naturais sem necessidade de intérpretes; as línguas faladas em Corinto, ou o Dom do Espírito, eram sobrenaturais, celestiais (...). Não são, portanto, iguais as línguas faladas em Pentecostes e em Corinto. No primeiro caso, foi um ato esporádico, singular, sem exemplo de repetição...". Pr. José Rêgo do Nascimento. Livro Calvário e Pentecoste, páginas 101 a 112 (Infelizmente não tenho mais a capa do livro, que data de 1960, e por isso a omissão do restante da referência bibliográfica).
3 - Para a necessidade de maior aprofundamento sobre o tema indicamos a obra de Thomas Ice e Robert Dean, Jr. "Triunfando na Batalha", da Editora Chamada da Meia Noite, onde os autores abordam com bastante fundamentação bíblica as questões sobre batalha espiritual, opressão e possessão demoníaca e o exorcismo.
4 - "É extremamente importante notar que o pensamento de Lloyd-Jones sobre o selo ou batismo do Espírito, é essencialmente diferente da posição pentecostal clássica, e da posição neopentecostal. Lloyd-Jones não vê nenhuma evidência bíblica de que esta experiência deva ser acompanhada pelo falar em línguas e pelo profetizar, ou por qualquer outra manifestação extraordinária. Na verdade, ele chama a atenção para o fato de que muitos dos dons que foram concedidos no início da Igreja Cristã não haviam sido mais concedidos no desenrolar desta mesma história. Ele aponta para o fato de que nenhum dos grandes nomes da História da Igreja, conhecidos como tendo passado por experiências profundas com o Espírito (que ele considera como tendo sido esse "selar" ou "batizar" do Espírito) terem manifestado dons como línguas, profecia, ou milagres. Para Lloyd-Jones, o ponto essencial desta experiência também não é a capacitação de poder, como enfatizado em círculos pentecostais e carismáticos, mas a certeza dada de forma direta, pelo Espírito, de que somos filhos de Deus". Extraído do artigo "Martyn Lloyd-Jones, John Stott, e 1 Co 12.13: O Debate sobre o Batismo com o Espírito Santo" do pastor presbiteriano Augustus Nicodemus, disponível aqui.

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Relativismo moral e cultura moderna

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O livro de Juízes nos adverte sobre o relativismo moral, ou seja, o comportamento baseado nas opiniões humanas. A Bíblia nos ensina que os padrões para o comportamento humano são dados por Deus. Sozinhos, os seres humanos vão sempre falhar em viver dentro desses padrões. Mas com a ajuda de Deus e a sua graça podemos descobrir qual é a sua vontade para que andemos de forma reta (Sl 1.1,2).

Ao contrário da Bíblia, a cultura moderna com frequência estabelece os padrões sociais para o comportamento tomando por base a opinião da maioria. O certo e o errado são determinados por aquilo que a maioria considera certo ou errado. Mas tal moralidade é instável. Antes de 1973, por exemplo, o aborto era ilegal nos Estados Unidos, o que deixava implícito que era moralmente incorreto e prejudicial à moral norte americana. Naquele ano, a famosa decisão Roe versus Wade, na Suprema Corto dos Estados Unidos, mudou esse padrão social.

Mas o que foi, de fato, que mudou? Será que um ato errado e pecaminoso tornou-se subitamente aceitável só porque um grupo poderoso assim decidiu? Será que as verdades universais que antes tornavam o aborto ilegal mudaram de repente? Não. Na verdade, foi a sociedade americana [a nossa também. N. do E].

Os padrões morais de Deus nunca se alteram, Apesar das culturas humanas inevitavelmente se desenvolverem, os requisitos de Deus para a retidão e santidade não mudam. Cada geração de cristãos deve cuidadosamente repensar qual é a aplicação especifica desses requisitos. Mas está claro que Deus estabeleceu e revelou um padrão absoluto de santidade que os cristãos devem respeitar mais que ao relativismo humano.

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Fonte: Arnold, T. Bill e Beyer, E. Bryan, Descobrindo o Antigo Testamento: Uma perspectiva Cristã. Juízes e Rute - Assuntos Éticos e Teológicos; Ed. Cultura Cristã; pg. 185.

Sola Gratia

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Por Guy Prentiss Waters


“Maravilhosa Graça! Quão doce o som que salvou um miserável como eu!”; “Maravilhosa graça do nosso amado Senhor, a graça que excede o nosso pecado e a nossa culpa”. “Maravilhosa graça de Jesus, maior do que todos os meus pecados, como a minha língua deveria descrevê-lo, por onde deveria começar o seu louvor?”.

Os cristãos adoram cantar sobre a graça salvadora de Deus – e com razão. João nos diz que de Jesus “todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:16). Muitas das cartas do Novo Testamento começam e terminam com os escritores expressando seu desejo de que a graça de Jesus estivesse com o seu povo. As últimas palavras da Bíblia são: “A graça do Senhor Jesus seja com todos. Amém” (Apocalipse 22:21).

Os reformadores entenderam a importância da graça de Deus para o ensino bíblico sobre a salvação. De fato, um dos lemas que vieram a definir o ensino da Reforma era sola gratia, que é o latim para “somente pela graça”. Os cristãos são salvos somente pela graça de Deus.

Entre os protestantes, existe uma conhecida incompreensão e uma distorção do ensino da Igreja Católica Romana sobre a graça. Às vezes é dito: “Roma ensina que somos salvos pelas obras, mas os protestantes ensinam que somos salvos pela graça”. Esta declaração, mesmo sendo comum, é uma calúnia contra a Igreja Católica Romana. Roma não ensina que alguém é salvo pelas obras à parte da graça de Deus. Ela, de fato, ensina que uma pessoa é salva pela graça de Deus.

A que, então, Roma objetou no ensino dos reformadores? Onde está a linha que diferencia Roma da Reforma? Encontra-se em uma única palavra – sola (“somente”). Os reformadores sustentavam que o pecador é salvo pela graça de Deus, o seu favor imerecido, somente. Essa doutrina significa que nada que o pecador fizer pode trazer-lhe o mérito para obter a graça de Deus, e que o pecador não coopera com Deus, a fim de merecer a sua salvação. A salvação, do começo ao fim, é o dom soberano de Deus para os indignos e não merecedores. Conforme Paulo escreveu aos cristãos de Corinto que estavam inclinados a vangloriar-se: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1 Coríntios. 4:7). Ninguém pode estar diante de Deus e dizer: “Olhe para mim e veja o que eu fiz!” Deus não é devedor de ninguém, nem mesmo em matéria de salvação (Romanos 11:35).

Uma passagem da Escritura na qual a doutrina da salvação somente pela graça brilha é Efésios 2:1-10. Paulo escreveu aos Efésios, depois de ter ministrado entre eles por cerca de três anos (Atos 20:31). Está claro a partir do livro de Atos dos Apóstolos que Paulo dedicou-se profundamente a pregar e ensinar a Palavra de Deus para eles (19:8-10, 20:20-21).

A carta aos Efésios nos dá um vislumbre do banquete de ensino que Paulo havia colocado diante daquela igreja. No primeiro capítulo, Paulo leva-nos para os “lugares celestiais” (1:3). Ele nos mostra o plano do Pai para salvar os pecadores através da obra de seu Filho, uma obra que é aplicada e garantida pelo Espírito. Este plano é um plano generoso – o Pai “nos abençoou em Cristo com todas as bênçãos espirituais” (v. 3). Acima de tudo, Paulo enfatiza como esse plano de redenção redunda em louvor da gloriosa graça de Deus (vv. 6, 12, 14).

Depois de uma pausa para agradecer a Deus e interceder pelos Efésios, Paulo aplica as realidades celestiais de 1:3-14 às nossas vidas cristãs individuais em 2:1-10. Ele destaca duas vezes o fato de que “pela graça sois salvos” (2:5, 8). Como é a graça de Deus evidente na salvação? Nós vemos a graça de Deus em evidência, Paulo diz, quando Deus faz com que o morto viva em Cristo. Para apreciar plenamente a graça de Deus, vamos considerar a partir de Efésios 2:1-10 o que significa estar “morto” e o que significa estar “vivo”.

Quem são os “mortos”? Os Efésios estão incluídos. (“Vocês estavam mortos em... delitos e pecados...”, v.1). Inclui Paulo e seus companheiros judeus. (“Nós todos vivíamos nas paixões da nossa carne”, v. 3). De fato, inclui todo homem, mulher e criança em Adão. (“[Nós] éramos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade”, v.3). A palavra “mortos” inclui pessoas como você e eu.

O que significa estar "morto"? Paulo aponta para três coisas nesta passagem. Primeiramente, isso significa estar sob condenação. Antes de Cristo, estávamos “mortos nos delitos e pecados nos quais [nós] uma vez andávamos”. Deus disse a Adão em Gênesis 2, que a morte é a penalidade para o pecado. Quando violamos a lei de Deus, nós somos culpados perante este Deus santo, e responderemos perante a sua justiça. Em segundo lugar, estar morto significa que estávamos debaixo do jugo. Servíamos a três mestres: o mundo (“seguir o curso deste mundo”, 2:2), a carne (“todos nós vivíamos segundo as paixões da nossa carne, realizando os desejos do corpo e da mente”, 2:3), e o Diabo (“seguindo o príncipe do poder do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência”, 2:2). Em terceiro lugar, estar morto significa que estávamos sob a ira. Nós “éramos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade” (2:3). Estávamos justamente sujeitos ao descontentamento santo de Deus por causa do nosso pecado. Éramos assim “por natureza” - em outras palavras, nascemos nessa condição.

Muitos não aceitam esse ensinamento. Fora da igreja, muitos assumem que as pessoas são basicamente boas. Elas tendem a acreditar, pelo menos implicitamente, que se dermos às pessoas uma educação adequada, os exemplos ou leis, então eles vão seguir o caminho certo. Leis justas, exemplos nobres e educação adequada são inestimáveis, mas são impotentes para mudar um coração comprometido com sua rebelião contra Deus. Dentro da igreja, muitos já disseram e ainda dizem que as pessoas estão doentes, e até mesmo desesperadamente doentes. No entanto, ainda diz-se a esses doentes que eles têm os recursos necessários para responder e cooperar com a graça de Deus. Mas Paulo não diz que estamos doentes. Ele diz que, longe de Cristo, nós estamos mortos. Espiritualmente falando, somos cadáveres no chão, sem Jesus. Não podemos nos aproximar de Deus, assim como um cadáver não pode reunir forças para sair de seu túmulo. Assim é o quão ruim estamos quando estamos longe de Cristo.

Felizmente, Paulo não termina por aí. Começando no versículo 4, Paulo se volta de nós para Deus, do mal que fizemos para o bem que Deus está fazendo em Cristo. Ele destaca três coisas sobre a graça de Deus no resto desta passagem:

Primeiro, ele nos aponta para a obra de Deus nos versículos 5-6: “Deus nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos – e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar com ele nos lugares celestiais em Cristo Jesus”. Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e o fez assentar-se à sua direita (1:18-20), e ele nos fez algo incrível em nossa união com Cristo. Deus, Paulo disse, fez os mortos viverem. Isso é o que evoca a exclamação de Paulo: “Pela graça sois salvos” (2:5).

Em segundo lugar, Paulo nos aponta para a motivação de Deus. Por que Deus fez o morto reviver? Não foi por causa de nossas obras, Paulo diz no versículo 9, nem as obras que fizemos antes de nos tornarmos cristãos, nem as obras que temos feito depois que nos tornamos cristãos. Caso contrário, poderíamos ter motivo para “nos gloriar” (v. 9). Em vez disso, Paulo diz, Deus nos deu vida por causa de sua “misericórdia”, de seu “grande amor com que nos amou” (v. 4). Paulo sai do seu caminho para incutir em nós que o próprio amor e a misericórdia de Deus são a fonte da nossa salvação.

Em terceiro lugar, Paulo nos aponta para o propósito de Deus. Com que propósito Deus fez o morto reviver? Paulo diz no versículo 7, foi para que possamos colocar em exposição, tanto agora como na eternidade, as “riquezas imensuráveis ??da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus”. Como podemos fazer isso? Através da exposição em nossas vidas da obra prima de nosso Criador e Redentor - fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (v. 10).

Nós somos salvos, então, sola gratia – somente pela graça de Deus. Longe de levar-nos a abraçar uma vida de libertinagem e imprudência moral, a graça de Deus no evangelho nos leva a buscarmos uma vida de consagração e santidade. Por que isso acontece? O grande compositor de hinos, Isaac Watts, capturou bem o ponto de Paulo quando escreveu em seu hino “Quando eu vejo a maravilhosa cruz”: “Se toda a criação me pertencesse, ainda assim seria um presente muito pequeno, se comparado ao amor tão incrível, tão divino, que exigiria a minha alma, a minha vida, o meu tudo”. Pense nisso da próxima vez que cantar sobre a graça de Deus.

- Sobre o autor: Dr. Guy Prentiss Waters é professor de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary em Jackson, Mississippi. Ele é autor do livro How Jesus Runs the Church.

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A disciplina de presbíteros e diáconos

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Por Rev. Ewerton B. Tokashiki


O Senhor Jesus afirma que a quem maior autoridade é dada, maior será o grau de responsabilidade diante dele. Na parábola do servo vigilante lemos que “àquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez cousas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas aquele quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e aquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12:48, ARA). Os presbíteros e diáconos são capacitados com dons específicos, e recebem o reconhecimento da igreja e são revestidos de autoridade por Cristo para liderarem o rebanho. Por estes motivos, não podem ser relapsos, nem irresponsáveis com os seus deveres cristãos em todas as áreas da sua vida. Eles prestarão contas, de um modo especial. Se fiéis em seu dever a sua honra será maior, entretanto, também será proporcional o escândalo se houver queda.[1]

A sábia orientação do apóstolo deve ser observada diligentemente. Escrevendo ao jovem pastor Timóteo adverte que “não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam (1 Tm 5:19-20, ARA). Não se deve aceitar qualquer acusação contra um presbítero, a não ser que seja endossado pelo testemunho verbal de duas ou três pessoas, e que sejam fidedignas. William Hendriksen comenta que “não se deve prejudicar desnecessariamente a reputação de um presbítero, e sua obra não deve sofrer uma interrupção desnecessária.”[2] O mesmo poderia ser concluído acerca dos diáconos. O livro de Provérbios observa que “mais vale o bom nome do que as muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a prata e o ouro” (Pv 22:1).

Uma vez comprovado que um presbítero tenha realmente cometido pecado que exija disciplina pública os demais não podem se omitir de repreendê-lo. Hendriksen esclarece que

os presbíteros que andam por vias pecaminosas não devem ser poupados. Aliás, seus pecados devem ser punidos ainda com mais severidade do que os demais. A lei fazia a mesma distinção (Lv 4:22, 27). Timóteo devia não só fazer com que seu pecado ferisse sua consciência, mas que, no caso deles, isso fosse feito não privativamente, nem na presença de apenas uns poucos (Mt 18:15-17), mas publicamente, ou seja, na presença de todo o consistório, para que os demais presbíteros também viessem a sentir-se cheios de um piedoso temor de praticar o mal (cf. Gn 39:9; Sl 19:13).[3]

Porque Paulo evoca a indispensável presença de testemunhas para se acusar um presbítero? Este é um direito de todo crente, tanto na antiga como na nova Aliança (Nm 35:30; Dt 17:6; Mt 18:16; Jo 5:31; 8:14). Comentando este verso, João Calvino sugere que

ninguém é mais exposto a calúnias e insultos do que os mestres piedosos. E isso provém não só das dificuldades de seus deveres, os quais são às vezes tão volumosos que, ou vão a pique, ou cambaleiam, ou param hesitantes, ou dão um passo em falso, de maneira que os perversos encontram muitas ocasiões de deparar-se com algum defeito deles; mas também que, mesmo quando executam corretamente todos os seus deveres, e não cometem nem sequer um erro mínimo, jamais conseguem evitar mil e uma críticas. (...) Satanás faz com muitas pessoas, na verdade quase todas, sejam tão crédulas que, sem qualquer investigação, pressurosamente condenam seus pastores, cujo bom nome deveriam esforçar-se a defender.[4]

O reformador genebrino sabia pessoalmente o que era ser acusado, e ter o nome caluniado na boca de pessoas perversas. É inevitável as falsas acusações, o próprio Senhor Jesus as sofreu, mas, elas não devem encontrar provas. Não quero dizer com isto que os pecados devem ser encobertos, mas, sim, que o oficial deve ser irrepreensível, de tal modo que, não haja do que acusá-lo com provas!

Em seu ofício de governo os presbíteros não podem se iludir pensando que se tornaram intocáveis. O Conselho não possui imunidade diante da justiça de Deus. John Murray comenta que

é na igreja que a supervisão é exercida. Existe aqui uma sutil e necessária distinção. Enquanto a supervisão é sobre a igreja, ela não está acima de algo da qual os presbíteros se isentam. Os presbíteros não são senhores sobre a herança do Senhor; eles mesmos fazem parte do rebanho e devem ser exemplos para ele. A Escritura tem um modo singular de enfatizar a unidade e diversidade, e neste caso, a diversidade que reside no exercício do governo é mantida na mesma proporção em que lembramos que os presbíteros também são sujeitos ao governo que eles exercem sobre outros. Presbíteros são membros do corpo de Cristo e estão sujeitos à mesma espécie de governo da qual eles são administradores.[5]

Os pecados dos presbíteros e dos diáconos são como os de qualquer outro membro da igreja local. Mas, por causa da sua posição dentro do corpo de Cristo e a sua responsabilidade de ser exemplo dos fiéis, o seu escândalo tem maior repercussão.


Notas:
[1] Na eclesiologia presbiteriana os ofícios são apenas dois: presbíteros e diáconos. Entretanto, o presbítero pode ser regente ou docente, sendo este último, comumente chamado de pastor.
[2] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito (São Paulo, Editora Cultura Cristã), p. 228.
[3] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito, p. 228.
[4] João Calvino, Comentário do Novo Testamento das Pastorais – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito (São Paulo, Edições Parácletos), p. 150, 151.
[5] John Murray, Collected Writings: The Claims of Truth (Edinburgh, The Truth of Trust), vol.1, p. 262.

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Calvino falando em línguas? Uma análise séria das evidências

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Por Breno Macedo


Foi publicado recentemente no site CPAD News uma notícia intrigante. Calvino teria falado em línguas! O autor do texto, o Sr. Silas Daniel é jornalista, na verdade é chefe de jornalismo, além de ser pastor e escritor. O texto pode ser encontrado aqui.

É importante salientar que tenha Calvino falado em línguas ou não isso em nada valida a prática pentecostal de fazê-lo. Esse tipo de falácia argumentativa é bastante conhecida e é chamada de apelo para autoridade. Tenta-se validar a veracidade de um fato ou pensamento através de alguém que a fez o que a abraçou. Portanto, tenha Calvino falado em línguas ou não, isso não valida ou invalida a prática. A matéria precisa ser lidada de maneira bíblica através de exegese.

Mas esse não é o foco do texto. O que o Pr. Silas tenta fazer é demonstrar que há a possibilidade histórica de que Calvino tenha em um momento de sua vida e ministério experimentado a prática da glossália. Tendo isso em vista seguem os meus comentários.

1. Vamos às fontes!

Para substanciar sua hipóstese o autor recorre a um suposto artigo publicado por um seminário americano. Eis o que afirma o pastor: 

"Há 38 anos, mais precisamente na sua edição de 24 de março de 1975, o jornal The Paper, uma publicação do Seminário Teológico Gordon-Conwell, nos EUA, trouxe um artigo, na sua página 6, intitulado “Calvin Speaks Unknown Tongue” (“Calvino Fala Língua Desconhecida”), de autoria de Quent Warford."

Fazendo uma rápida pesquisa na internet deparei-me com um texto escrito por Jim Darlack, que é ex-aluno da instituição e trabalhava, pelo menos até Setembro de 2009 como bibliotecário no seminário. o Sr. Darlack explica que esse "jornal" era apenas um periódico estudantil. Não é um jornal acadêmico revisado por teólogos. Seria o equivalente ao boletim de notícias do diretório acadêmico de uma universidade. Em outras palavras, é uma fonte de informação sem crédito algum. Um colega do Sr. Darlack, que ensinava Hebraico no seminário, não tinha a menor idéia da existência desse texto e afirmou até que poderia se tratar de uma "pegadinha".

É nesse texto que o pastor e jornalista Silas baseia sua afirmação.

Você pode conferir o texto o Sr. Darlack aqui.

2. Vamos à fonte da fonte!

No seu minúsculo texto, Quent Warford  fala de uma citação que ele encontrou na biografia de Calvino escrita por Beza na qual o Reformador teria revelado ao seu amigo que ele havia experimentado falar uma língua desconhecida durante suas devocionais. Você confere o texto do Sr. Warford aqui.

Temos já aqui dois grande problemas. Primeiro, o Sr. Warford não nos dá mais nenhuma informação sobre a fonte que consultou. Tirando o nome da obra, ele não cita ano de publicação, quem a publicou, nem muito menos a página onde se encontra o relato. Não há referência alguma para que se possa confirmar se tal afirmação é verdadeira! 

Warford afirma que foi muito difícil chegar até tal documento, tendo ele que acessar uma sala chamada de "o cofre" onde ficavam livros raros. Não seria lógico que tal descorberta, sendo verdadeira, seria preservada? Não teria o aluno levado seu achado aos seus professores de história da igreja para que ficasse registrado e fosse divulgada a sua grande descorbeta? Não taria aparecido depois em jornais acadêmicos de verdade como o Calvin Theological Journal, ou o Church History, tal informação? Pois é! Mas nada disso aconteceu. Nem Warford cita sua fonte de maneira que ela possa ser confirmada nem nenhum historiador de respeito jamais mencionou tal relato.

O segundo problema é que Warford simplesmente ignora as traduções existentes do texto que ele afirma ter consultado. Diz ele que essa informação foi encontrada na biografia de Calvino escrita originalmente em Latin por Beza e que um amigo, também aluno, teria ajudado na tradução. O problema é que o texto, escrito em 1975, ignora traduções do mesmo texto para a língua inglesa feita por homens gabaritados e que já estavam disponíveis desde 1836. Essa tradução foi feita por Francis Sibson e está disponível gratuitamente no Google Books. Você pode consultá-la aqui. A outra foi feita por Henry Beveridge que também traduziu As Institutas do mesmo autor. Ao invés de comprar sua tradução com as já disponíveis, o autor simplesmente finge que elas não existem.

Pior, quando analisadas as traduções disponíveis nada é encontrado sobre esse episódio. Como a tradução de Sibson está escaneada no Google Books, faça você mesmo essa experiência. Busque por palavras tipo "tongues", "language", "barbarian", "pagan", ou "cursed". Você nada encontrará no que diz respeito a essa tal experiência que Calvino teve.

Entretanto, é essa a única fonte que o pastor e jornalista Silas utiliza para dar suporte a sua matéria.

3. Calvino falando em línguas? Fala sério!

Considerando essas evidências será que dá para acreditar no artigo do Pr. Silas? Será que de fato existe suporte histórico para tal afirmação? Acreditar, com base nessas fontes, que Calvino falou em línguas é o mesmo que acreditar que Michael Jackson descobriu o Brasil!

O que o Pr. Silas Daniel poderia fazer para tornar seu artigo, de fato, confiável? Seguem aqui algumas sugestões:

  • Encontar no original escrito por Beza, em Latin, o mesmo texto que o Sr. Warford afirma ter encontrado. Talvez vocês esteja pensando: "mas essa é uma tarefa muito difícil, que tem acesso a tal livro?" Por incrível que pareça não é difícil não, basta consultar uma base de dados chamda EEBO (Early English Books Online) que lá tem todo o tipo de literatura, tanto em Latin como em outras línguas, dos mais diversos autores, para serem consultadas. Basta ir lá e procurar.

  • Encontrar um estudioso de Calvino que corrobore com essa afirmação. Homens como Richard Muller, Bruce Gordon, Herman Seldernhius, ou Paul Helm são acadêmicos reconhecidos e renomados, todos eles escreveram bastante sobre Calvino, têm acesso às fontes primárias e certamente, sendo tal afirmação verdadeira, poderão confirmar sua veracidade.

  • Encontrar o Sr. Quent Warford, certamente ainda vivo, e arguí-lo sobre a veracidade do seu texto. Foi mesmo sério ou foi uma pegadinha? Se foi sério, onde está a evidência histórica?


Isso é o mínimo que eu espero do Pr. Silas Daniel, como jornalista e como servo do Deus vivo que ama a verdade e odeia a mentira. Seria isso o que eu faria como pastor e teólogo se eu quisesse ser levado a sério. 

É triste perceber que o Pr. Silas começa com uma hipótese e termina com uma certeza. Na conclusão do seu texto ele escreve de forma enfática, tirando lições para seus leitores:

"Bem, vejamos: Calvino, em suas orações devocionais, falou, estranha e espontaneamente, em uma língua desconhecida por ele, o que o deixou impressionado. Como temia que tivesse falado em uma língua parecida com a de um povo pagão do passado, temeu não ser uma experiência sadia. Em seguida, comentou com seu amigo e confidente Beza, e depois deixou para lá o caso."

O que se tornou certeza para o Pr. Silas, em nenhum momento deixou de ser mera possibilidade para a sua própria fonte como é claramente expresso pelo Sr. Warford:

"Esse assunto foi apenas um detalhe para Beza, que dedica a ele apenas poucas sentenças em De Vitam Iohannes Cauvin. A preocupação de Calvino era apenas uma matéria de linguística. Portanto, não existe material primário suficiente para construir um caso de uma maneira ou de outra."

Fica aqui a lição para todos nós: se for usar exemplos da história da Igreja esteja pronto para fornecer sempre as fontes primárias ou, então, caia no descrédito.

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O pecado corrompe o entendimento sobre o pecado

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Por Horatius Bonar


A história de seis mil anos acerca do mal se perdeu para o homem. Ele se recusa a ler sua terrível lição concernente ao pecado e ao desagrado de Deus contra o pecador, registrada por essa história. Ele se esqueceu da inundação de perversidade que resultou de um único pecado. A morte, a escuridão, a tristeza, a enfermidade, as lagrimas, a fadiga, a loucura, a confusão, o derramamento de sangue, o ódio enfurecido entre homem e homem, fazendo da Terra um subúrbio do inferno - todas essas coisas foram negligenciadas ou mal interpretadas; e o homem rejeita a ideia de que o pecado seja um crime, o qual Deus odeia com um ódio infinito, e o qual Ele, em Sua justiça, deve condenar e punir.

Se o pecado for algo tão superficial, tão insignificante, quanto o homem o considera, qual é a importância dessa história tão longa e triste? Será que os milhares de cemitérios, onde os amores humanos encontram-se sepultados, não contam uma narrativa mais sombria? Será que os milhões e milhões de corações em pedaços e olhares abatidos dizem que o pecado é apenas insignificante? Será que os gemidos nos hospitais ou a mortandade dos campos de batalhas, a espada banhada de sangue e artilharia mortal proclamam que o pecado é uma simples casualidade, e que o coração humano é, afinal, a sede da bondade? Será que o terremoto, o vulcão, o furacão e a tempestade nada falam do mal irremediável do pecado? Será que a dor de cabeça do homem, o coração vazio, o espírito oprimido, a fronte sombria, o cérebro exausto e as pernas cambaleantes não anunciam com nitidez, de modo inequívoco, que o pecado é uma CULPA, e que essa culpa deve ser castigada – punida pelo Juiz dos juízes – não como uma mera “violação das leis naturais, mas como uma contravenção da lei eterna, que não admite anulação? “A alma que pecar, essa morrerá”. Porque sem a lei, o pecado não existe. “A força do pecado é a lei” (1Co 15.56). Aquele que faz do pecado algo trivial está defendendo a confusão moral e injustiça; e aquele que se recusa a reconhecer o pecado como culpa está anulando a lei do universo ou atribuindo imbecilidade e injustiça ao Juiz de todos os juízes.

O mundo tem envelhecido no pecado e hoje, mais do que nunca, tem começado a brincar com ele, quer seja como uma necessidade que não pode ser tratada ou como um desvio parcial da boa ordem que se auto-corrigirá em breve. É essa falsificação do mal, essa recusa em ver o pecado como Deus o vê; conforme a lei o declara, e conforme a história da nossa raça tem revelado; que tem sido, em todas as eras, a raiz do erro e do abandono da fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Admita a maldade do pecado, com todas as suas consequências eternas, e você deverá se calar diante do modo divino de lidar com ele. Negue a maldade do pecado e os resultados futuros dessa maldade, e você estará negando toda a revelação de Deus, desprezando a cruz, e ab-rogando a lei.

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Fonte: A justiça eterna - Horatius Bonar (Como o homem será justo diante de Deus?) 
Ed. Fiel, p. 21-22.
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Murmuração - o pecado da ingratidão

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Por Rev. Ericson Martins


Levantou-se, pois, toda a congregação e gritou em voz alta; e o povo chorou aquela noite. Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão; e toda a congregação lhes disse: Tomara tivéssemos morrido na terra do Egito ou mesmo neste deserto! E por que nos traz o SENHOR a esta terra, para cairmos à espada e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos para o Egito? Números 14:1-3

A palavra “murmuração”, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, significa: “persistente reclamação”, “reinvindicação”, “descontentamento”, “falar mal de outrem em voz baixa, em segredo” ou “questionamento malicioso”.

Nesses dias, jovens e adultos, descontentes com a imoralidade política dos seus representantes nos três poderes da República, transformaram as principais capitais de todo Brasil em palcos de manifestações. Seus protestos foram reconhecidamente justos e dignos de serem considerados, pois rogaram pela punição dos corruptos, fortalecimento do sistema de saúde, humanização do transporte coletivo, dentre outras obrigações constitucionais da administração pública. A possibilidade dessas manifestações é um dos privilégios e responsabilidades de uma sociedade democrática. Não é errado reclamar quando a reivindicação é justa e irrevogavelmente necessária. Por exemplo: os helenistas murmuraram contra os hebreus porque as suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária (At 6:1). Nesse caso a murmuração significou uma justa reclamação, sem denotação pecaminosa.

Contudo, em boa parte da bíblia a murmuração é tratada como sendo mais que uma justa reclamação, e sim como um protesto da rebeldia, do egoísmo, da ingratidão e da difamação. Ou seja, é tratada como pecado.

O texto de Números 14:1-3 relata um dos momentos em que os israelitas murmurarem contra Deus, sendo Ele clemente e amoroso, e contra Moisés que fora designado para conduzir Israel pelo caminho que Ele mesmo dirigiu (Nm 14:14 cf. Êx 13:21, Ne 9:12). O povo de Israel murmurou frequentemente ao longo da sua peregrinação no deserto, e toda uma geração foi destruída por causa disso (1 Co 10:10-11).

Infelizmente, muitos são murmuradores, se queixam o tempo todo e por todo motivo, no contexto da sociedade, da profissão, da família e da igreja. Nada lhes satisfazem, já não conseguem reconhecer as benesses de Deus nesses contextos e serem sinceramente gratos. Para esses, ser grato é ser passivo ou omisso, e enchem seus corações de amargura e seus lábios de injustiça.

Murmuradores são insaciáveis, porque suas expectativas são irreais e infantis. Veio João Batista, que não comia nem bebia, e disseram: “Tem demônio!”. Veio o Filho do homem, que comia e bebia, e disseram: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11:18-19). O tom geral dessa conduta do coração e do relacionamento, se resume no fato de, se não atender as falsas expectativas que criam, se não estiver de acordo com seus interesses infantis, murmuram. Não nos enganemos: a murmuração é pecado e, portanto, passivo da disciplina do Senhor.

A bíblia diz: “Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo...” (Fl 2:14-15).

Infelizmente, a murmuração, na qualidade de uma persistente reclamação, é um dos pecados mais comuns em nosso meio. Ninguém deveria tolerar o murmurador e suas reinvindicações porque a murmuração é pecado. Também, porque ela aborrece a paz e a tranquilidade com a rixa e o pessimismo (Pv 21:9).

Murmuradores são descontentes eufóricos. Grande parte dos nossos interesses jamais serão atendidos porque somos pecadores (Tg 4:1-3). Também, porque interpretamos mal a experiência da vida. Julgamos que o que dá prazer é sempre bom, e não admitimos que o desprazer de determinadas experiências seja eficazmente útil para tratar as nossas falsas expectativas e interesses egoístas (Hb 12:11; Tg 2:1-4). Por isso, o descontentamento gera a murmuração. Os cristãos são ensinados a se contentarem com as suas necessidades (1 Tm 6:7-8; Hb 13:5); porém o descontente, tendo suas necessidades mais fundamentais supridas, murmura, porque tudo tem de ser conforme os seus interesses ou modo de pensar. Também, o descontentamento gera o descaso com a palavra de Deus: “desprezaram a terra aprazível e não deram crédito à sua palavra; antes, murmuraram em suas tendas e não acudiram à voz do Senhor” (Sl 106:24-25). Murmuradores podem ter tudo, mas agem como se nada tivessem. Porém, os que dão crédito à palavra de Deus experimentam o contentamento por confiarem no Senhor.

A bíblica diz: “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão” (1 Tm 6:6-11).

Murmuradores são caluniadores discretos. A palavra grega que traduz “murmuração” tem o sentido de murmúrio, resmungação, palavras desagradáveis ditas em voz baixa. O murmurador é aquele que, discretamente, espalha seus descontentamentos sobre determinadas pessoas e, com essa conduta, provocam dissensões. Geralmente agem assim pela firme certeza que estão mais certos do que os demais. Leia este relato: “Falaram Miriã e Arão contra Moisés,... E disseram: Porventura, tem falado o Senhor somente por Moisés? Não tem falado também por nós? O Senhor o ouviu… E a ira do Senhor contra eles se acendeu; e retirou-se” (Nm 12:1-2, 9).

As queixas dos murmuradores expressam, também, sua imensa inquietação com o crescimento dos outros. Se queixam da sua realidade e dos outros, pois são frustrados com as suas próprias experiências pessoais nos contextos da sociedade, ou da profissão, ou da família ou da igreja. São infelizes e amargurados consigo mesmos.

A bíblica ensina substituir a murmuração pela ação de graças (1 Ts 5:18), porque somente a gratidão pode vencer o descontentamento do coração. Reconhecer as virtudes mais que os defeitos, as oportunidades mais que as dificuldades, o que já tem mais do que poderia ter, o que os outros fazem pelo nosso bem mais que aquilo que deixam de fazer e etc, dá a vida pessoal maior significado e felicidade pelos efeitos da gratidão (Fl 4:11-13; 1 Tm 4:4).

Que em nossos corações haja mais gratidão que ingratidão, haja mais contentamento que a perturbadora insatisfação por confiarmos no Senhor as nossas vidas com tudo o que ela necessita.
No amor de Deus,

Ericson Martins
contato@brmail.info

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