Futuro para os filhos, ou, filhos para o futuro? Eis a questão

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Muitos pais estão extremamente preocupados em deixar um futuro melhor para seus filhos, mas poucos estão interessados em deixar filhos melhores para o futuro.

Quanto mais o tempo passa, mais aumentam os casos de depressão, vício e violência na adolescência. E esses problemas estão presentes tanto fora quanto dentro da igreja.

Os pais estão cada vez mais distantes dos filhos devido à quantidade de atividades realizadas por ambos. O diálogo já não existe mais, e como forma de compensar a ausência, os pais não medem consequências para fazer as vontades dos filhos. Mas isso só torna as coisas piores. Sozinhos, carentes de afeto e donos de suas próprias vontades, os adolescentes enveredam por caminhos tortuosos, procurando alívio para a ausência de afetividade nos vícios, nas relações sexuais precoces, na corrupção dos costumes, provocando alienação, destruição, guerras e conflitos interiores, terminando na decadência do ser humano e na falência moral. Tudo isso acontece quando os valores são invertidos. 

Não há mal nenhum em trabalhar com o intuito de preparar o futuro para os filhos, o problema é quando isso nos impede de preparar os filhos para o futuro. Uma boa escola, uma faculdade bem conceituada, uma poupança generosa e a garantia de não passar necessidade financeira, são coisas excelentes para desejarmos aos nossos filhos, mas isso não é a garantia de um bom futuro. O que vai determinar o futuro dos filhos é a obediência deles aos mandamentos de Deus (Dt 6:1-3). Mandamentos que devem ser obedecidos não somente por eles. O v.2 diz que a obediência é exigida dos pais, dos filhos e dos netos. Os pais, assim como os filhos, estão no mesmo patamar em relação a Deus, isto é, sujeitos à obediência. Os papéis são diferentes, mas o Mestre é o mesmo. Ambos devem guardar os mandamentos, mas existe um em especial que se destina exclusivamente aos pais, a saber, ensinar os mandamentos de Deus aos filhos (Gn 18:19).

O propósito de Deus é que uma geração siga a outra nos caminhos d’Ele. Os pais são agentes de Deus para o cumprimento desse propósito. Se os nossos filhos desobedecerem a Deus por falta de ensino, nós também estaremos em desobediência. Nunca se esqueça de uma coisa: “Você pode ganhar o mundo para seu filho, mas se não ganhar o coração dele para Cristo, fracassará na missão que Deus lhe incumbiu”.

Deuteronômio 6:6-9 nos diz que nós devemos “inculcar” a palavra de Deus em nossos filhos. Inculcar significa “ensinar incisivamente” ou “perfurar”. O texto nos mostra que a Palavra é inculcada aos filhos quando os pais fazem o uso dela de forma constante (vs.7-9). O principal desafio para o pai cristão não é preparar o futuro para os filhos, e sim, preparar os filhos para o futuro. Deus nos deu Sua palavra para que a transmitíssemos a nossos filhos, “tu as inculcarás”, porque ela é “...útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3:16,17). Devemos gastar com a transmissão da Palavra de Deus a nossos filhos. Mas, é importante lembrarmos que, essa Palavra deve, antes de tudo, estar em nossos corações (v.6). Lembremo-nos sempre: “nós e nossos filhos devemos obediência a Deus, o que ensinamos a eles deve ser vivido por nós”.

E mais: “os filhos pertencem aos pais, mas o futuro a Deus pertence; preocupemos em preparar nossos filhos, pois o futuro já está preparado por Deus”. 

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Autor: Rev. Rogério Bernardes da Mota
Fonte: Boletim Informativo PIPG, ano XIX, nº 41

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Por que sou contra o aborto

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Poucas coisas nesse mundo causam-me desgosto. Por assumir uma visão normativamente negativa da humanidade, acredito que a existência e a prática de atos deploráveis são possíveis aos homens, em qualquer época e lugar, religião ou filosofia, por qualquer razão ou falta dela, a quem quer que seja por quem quer que for. E isso é claramente demonstrado na experiência humana, seja nos livros de história ou nas histórias do Datena. Num mundo com claras tendências ao mal, tenho a convicção de que a maldade do homem pode ser manifesta de diferentes modos e a qualquer momento. Entretanto, a questão da luta pela liberdade do aborto me causa um amargo desgosto.

Eu não consigo entender como alguém teria condições morais para defender o aborto como uma questão de liberdade do indivíduo. Eu acredito que para encontrar qualquer consistência nesse tipo de argumento, a dessensibilização da consciência e a desumanização da vida são fundamentais. Entretanto, essas são duas coisas que não consigo fazer.

Para dessensibilizar a consciência desse modo é necessário abraçar alguma forma de niilismo, ou talvez alguma forma extremada de hedonismo, a ponto de considerar como válido apenas o desejo do ego em detrimento da existência de um ente, que por sua fraqueza precisa ser destituído de qualquer direito, vez ou voz. Por isso, pouco importa o que [ou melhor quem] é que perde o direito a vida, o que realmente importa é que indivíduo não perca a possibilidade da liberdade dos encargos da maternidade.

Para desumanizar a vida desse modo é necessário acreditar que existem diferentes tipos de vida, e que os estágios mais embrionários da vida são na verdade não humanos. Um embrião pode até ser considerado como vivo, mas não goza do status de humano. Por isso, exterminar a possibilidade de vida fora do útero de um embrião não pode ser classificado como um assassinato.

Como já disse, essas são premissas que eu não consigo assumir. Não consigo encontrar argumentos que sejam suficientes para suportar a validade moral dessas premissas. E é por isso que eu sou contra o aborto.

Por que Sou Contra o Aborto

Partindo da cosmovisão cristã, posso afirmar que sou contra o aborto por que eu acredito na dignidade da vida humana, independente do tempo de existência. De acordo com o Cristianismo, a vida humana é marcada pela dignidade que lhe foi atribuída por seu Criador (Gen 1:26, 27a, b; 9:6). Tal dignidade é descrita nos termos da Imago Dei (imagem de Deus), que em última análise reflete a dignidade do Criador. Não importa qual é o estado de rebelião do indivíduo em relação a Deus, sua vida é ainda marcada pela dignidade derivada da criação. É por isso que o assassinato, em qualquer forma, é deplorável diante dos valores morais do Cristianismo.

Eu sou contra o aborto porque acredito na humanidade da criança não nascida, desde os mais embrionários estágios da vida. As escrituras tratam da criança não nascida como pessoas (Gen. 25:22; Jer 1.5; Sal 22:9-10; 71:6), a ponto de serem consideradas como filhos mesmo antes do seu nascimento (Lc 1.36, 41, 44). Nas escrituras, a criança não nascida é frequentemente descrita como os mesmos termos que descrevem um criança já nascida, o que sugere que não existe diferença essencial entre elas (Gen. 38:27-30; Jo 1:21; 3:3, 11-16; 10:18-19; 31:15; Sal.51:5; Isa. 49:5; Jer. 20:14-18; Os. 12:3; Lc 1:15; Rom. 9:10-11). É por iso que o aborto é considerado como assassinado do ponto de vista da cosmovisão cristã.

Eu sou contra o aborto porque o sou contra a morte de crianças inocentes. Do ponto de vista do Cristianismo, a morte do inocente é deplorável (Gen 9.6; Exo 23.7; Deut 19.10-11; 27.25; Prov 6.16-19), e no caso do aborto, a criança é penalizada com morte pelo simples fato de existir. Ela não é culpada de sua existência, ainda que com ela grandes desafios venham a existir. Do ponto de vista do Cristianismo, a vida é sagrada (Gen. 1:26–27; 2:7; Deut. 30:15–19; Jo 1:21; Sal. 8:5; 1 Cor. 15:26), em especial a vida das crianças (Sal. 127:3–5; Lc 18:15–16).

Eu sou contra o aborto porque acredito que o direito a vida da criança não nascida é maior que o direito da liberdade da mãe. A partir do momento que entendemos a criança não nascida como humana, seu direito à vida é superior ao direito da liberdade da mãe. Nas escrituras, o direito da criança é garantido na lei (Deut. 14:29; 24:17–21; 26:12–13; cf. 16:11, 14) ao mesmo tempo que o assassinato de crianças não nascidas é visto como o mais desumano e cruel dos atos dos homens ímpios (2Re 8:12; 15:16; Os. 10:14–15; Na. 3:10; cf. Mat. 2:16).

Eu sou contra o aborto porque acredito que a criança não nascida não é parte da constituição do corpo da mãe. Na verdade a criança não nascida tem um código genético distinto da mãe, um sistema imunológico distinto do da mãe e em muitos casos um tipo sanguíneo e gênero distinto da própria mãe. Nas escrituras a criança não nascida nunca é confundida com a mãe, ou apresentada como parte do corpo da mãe.

Uma Visão Retrógrada desde a Antiguidade

Talvez você tenha lido até aqui e concluído que a visão cristã da dignidade da vida humana, mesmo em sua forma mais embrionária, seja retrógrada, ultrapassada e sem lugar no diálogo sobre o aborto nos nossos dias. E talvez você tenha razão: O cristianismo defende mesmo uma opinião antiga, ultrapassada e a cada dia que passa tem seu lugar reduzido no diálogo sobre a dignidade da vida humana. Mas, historicamente, nós cristãos estamos acostumados com isso. No que se refere ao chamado “direito” ao aborto, o monoteísmo judaico-cristão é considerado ultrapassado há muito tempo.

Os filósofos da Grécia não me deixam mentir aqui. De acordo com as leis de Sólon em Atenas (638-558 a.C) os pais tinham o direito de condenar seus filhos à morte em qualquer momento de suas vidas (Sextus Empiricus: Hyp 3,24; Hermógenes: De. Invent. I.1). Entre os escritores clássicos não era incomum encontrar ilustrações desse fato, e que também não era incomum que o aborto fosse realizado por meio de substâncias químicas (ἀμβλωθρίδιον; cf. Ph.1.59; Poll.2.7; Aret.CA2.11). Platão (427-348 a.C.), por exemplo, defendia que uma sociedade forte seria construída de modo análogo a criação de animais: “Se quisermos manter nosso rebanho no mais alto grau de excelência, deve existir o maior número de união possível entre o melhor dos animais de ambos os sexos (…) Aqueles que tem pais de uma ordem inferior, e qualquer criança dentre eles que sofra de alguma deformidade serão mortos de um modo misterioso, e colocados em um lugar desconhecido, como deve ser.” (Republic 460B). Aristoteles (384-322 a.C.) também defendia que a decisão entre criar ou matar uma criança deveria ser tomada com base na deformidade da mesma, e dizia: “que deveria existir uma lei que afirmasse que nenhuma criança com deformidade tem direito a vida (…) quando um casal tiver filhos em excesso, que eles realizem o aborto antes dos sentidos e da vida começar” (Politics 7.14). Já no primeiro século da era cristã, Hilarion escreve uma carta para sua esposa Alis, na qual ele afirma: “Se porventura você engravidar, e se for um menino, deixe que ele viva. Mas se for uma menina, jogue-a fora” (P.Oxy 744).

Similarmente, em Roma o mesmo direito existia, mas com algumas ressalvas. De acordo com Dionísio de Halicarnasso (I sec a.C.), o historiador grego, existia em Roma uma lei que proibia a morte de qualquer criança antes dos três anos, pois a expectativa era que esse tempo permitisse aos pais desenvolver algum tipo de afeto pela criança antes de encerrar sua vida (Roman Antiquities 2.15). Até mesmo Sêneca (4a.C.-65d.C.), o ético e estóico escritor, partilhava desse sentimento e dizia: “Os cachorros loucos, nós esmurramos a cabeça; o animal feroz e selvagem nós matamos; as ovelhas doentes nós matamos com faca para proteger o rebanho; o descendente desnecessário nós destruímos; até mesmo afogamos as crianças que no nascimentos parecem fracas ou anormais” (On Anger I. 15.2). De acordo com Sêneca, o que movia os romanos ao nobre ato de assassinar seus descendentes não era a raiva, mas a razão. De acordo com Sêneca, a morte de um filho não desejado era um ato em conformidade com a razão. Agora, a razão em si não era a única razão pelo qual os romanos eram inclinados a assassinar seus próprios descendentes. Na verdade, as razões para tal prática eram as mais diversas, e um pai poderia assassinar seus filhos pelo simples fato de considerar ter filhos o suficiente (Longus, Pastor 4). Aliás, foi Cornélio Tácito (55-120 d.C.), o historiador romano, que ao investigar o comportamento dos judeus os ridicularizou por descobrir que eles condenavam tanto o aborto quanto o infanticídio: “Entre ele é um crime matar crianças recém nascidas” (Histories, 5.5).

Outro Fundamento, Outro Ponto de Vista

Os fundamentos éticos, morais e intelectuais do judaísmo estavam em franca oposição a visão apresentada pelos filósofos e historiadores greco-romanos. Por outro lado, os judeus não partilhavam da mesma visão apresentada por esses filósofos e historiadores greco-romanos. Os fundamentos éticos, morais e intelectuais do judaísmo estavam em franca oposição a eles. De acordo com Flávio Josefo, o povo judeu é um povo que tem orgulho em “criar seus filhos e fazê-los guardar as leis preservando a piedade tradicional, que de acordo com eles é a mais importante das tarefas nessa vida” (Apion 1.60), afinal, de acordo com Josefo, a lei “deu ordens para cuidar de todas as crianças” (Apion 2.202). Digno de nota que nas duas passagens Josefo reage contra a prática Greco-Romana de abandono de crianças e do infanticídio, demonstrando que ambas as práticas eram consideradas anátema entre os judeus. Entre eles, “uma mulher não poderia matar a crianças não nascida ainda em seu ventre, nem ainda após o seu nascimento entregar aos cães ou a aves de rapina” (Ps.Phocydes). De acordo com Filo de Alexandria, o abandono de crianças era proibido entre os judeus em função de que “tal ato de impiedade tornou-se comum entre as outras nações, devido a sua desumana natureza” (Spec.Laws 3.111). Pouco à frente Filo ainda afirma: “Que os pais que privam seus filhos de todas as bênçãos, não dividindo com eles nada no momento do nascimento, que eles saibam que estão violando as leis da natureza, e que apesar de atribuírem a tal grandeza  ao amor ao prazer, eles odeiam sua própria espécie, e são assassinos, que executam o modo mais cruel assassinato, o infanticídio” (3.112). De acordo com Filo, a santa lei detesta aqueles que conspiram contra crianças, e os considera dignos de estrita punição (3.119).

De fato, o judaísmo era conhecido no mundo antigo por sua condenação do aborto e do infanticídio. A razão para tal visão da dignidade da vida humana mesmo em seu estágio embrionário, é que o ethos judaico era definido pela Lei Divina, que proibia qualquer tipo de sacrifício de crianças (Ex 13:13; Lev 18:21; 20:1-5; Num 18:14) e ao mesmo tempo reconhecia que a criança ainda no ventre de sua mãe era um ser humano (Gen 25:22-24; Ex 21:22-25; Jer 1:5). Aliás, de acordo com o AT, o próprio Deus zela pelas crianças e recompensa aqueles que as protegem (Ex.1:15-21; 2:6; Eze 16:3-6).

Diferente de outras civilizações do Oriente Médio Antigo, a legislação de Israel nem se quer menciona o caso do aborto. Por exemplo, nas Leis Assírias (1200 a.C.) encontra-se uma série de instruções relacionadas a morte de crianças não nascidas divididas em duas categorias: (1) A morte acidental da criança, vítima de um terceiro seria resolvida por meio do pagamento de um dívida. Caso a mãe viesse a morrer, o acusado pelo acidente teria o mesmo destino (A§50-52); (2) Por outro lado, se a mãe, por razões próprias decidisse terminar com a gravidez, ela também sofreria o mesmo fim, sendo empalada sem direito de ser enterrada (A§53; cf. COS II:281-2). Na legislação de Israel nós encontramos situações similares à primeira categoria mencionada nas leis assírias, entretanto, não encontramos qualquer paralelo para a segunda. Em outras palavras, a ideia do aborto era tão estranha entre os judeus, que a legislação de Israel nem sequer contemplou uma possível punição para o mesmo.

O Cristianismo é veementemente contrário ao abandono de crianças, o infanticídio e o aborto desde o estágio mais embrionário da fé cristã.

Por isso, não era surpreendente que o Cristianismo, desde o mais embrionário estágio, fosse veementemente contra o abandono de crianças, o infanticídio e o aborto. De acordo com o antigo documento cristão conhecido como Didaque (50-100d.C.), na sessão de pecados absurdos a serem evitados, nós lemos: “não assassinarás a criança por meio do aborto, nem matarás a criança já nascida” (2.2). Na epístola de Barnabé (70-130 d.C), seu autor instrui os cristãos no caminho da luz, e para permanecer nele, o cristão “não matará a criança por meio do aborto, nem a destruirá depois de seu nascimento” (19.10). Ao descrever os cristãos, o autor da carta a Diogeneto disse: “Eles se casam como todos os outros homens, e tem filhos. Mas eles não abandonam os seus filhos” (Ep.Dio. 5.6). Atenágoras de Atenas (133-190d.C.) já dizia que “aquelas mulheres que usam drogas para induzir o aborto cometem assassinato e precisarão prestar contas a Deus desse aborto” (Supplicatio 35). Pouco antes, Atenágoras também responde aos que acusam  os cristãos de assassinar seus filhos dizendo que “o mesmo homem não pode proibir o abandono de crianças, ao equiparar tal atitude ao infanticídio, e então assassinar a criança que tem quem dela possa cuidar” (Supplicatio 35). Minucio Felix (150-270d.C.), respondendo à mesma acusação afirma que “ninguém acredita em tal acusação, mas sabemos quem é capaz de tal crime. Entre vocês eu vejo recém nascidos eventualmente abandonados e entregues às feras e pássaros, ou violentamente estranguladas em uma morte certamente dolorosa” (Octaviuss 30.1, 2).

Justino Mártir (110-175) escreve: “No que se refere a nós, nos foi ensinado que o abandono de crianças recém nascidas é a ação do ímpio. Isso nos foi ensinado para que não causemos a ninguém qualquer tipo de lesão, ou venhamos a ser culpados de tão ímpia conduta” (First Apology I.27.1-2). Tertuliano (155-240d.C.) já afirmava que “a lei de Moisés, na verdade, pune com o devido rigor, o homem que causar um aborto, baseado no fato de que ali já existe o rudimento de um ser humano” (Treasure on the Soul, 37). Em outro livro, Tertuliano também responde a seus acusadores sobre o cristianismo e pergunta: “Quantos dos os seus líderes, notáveis por sua justiça com vocês e pela severa administração para conosco, devo eu acusar de acordo com a consciência deles com o pecado de assassinar seus próprios filhos? No que se refere a diferença de gravidade do assassinato, esse é certamente o modo mais cruel de matar afogando [o recém nascido], ou o abandonando no frio, com fome e aos cachorros. (…) No nosso caso, entretanto, uma vez que o assassinato em todas as suas formas é proibido, nós não destruímos nem mesmo o feto no ventre de sua mãe” (Apology, 9).

Outro Ponto de Vista, Outro Modelo

Com fica evidente, o desprezo e descaso pela criança faz parta da história da humanidade. Nos nossos dias, entretanto, a idade com que as matamos, ou as razões que usamos para justificar tal ato, são diferentes, mas o desprezo e o descaso com as crianças continuam entre nós. Entre os filósofos gregos, o fortalecimento da sociedade justificava a morte de crianças fracas. Para eles, era melhor entregar uma criança que sofria de deformidades aos cães do que criar tal aberração. Entre os romanos, a razão e a sensibilidade eram os motivos para o assassinado a sangue frio de crianças, nascidas ou não. Contudo, em nossos dias alguns defendem que o assassinato de crianças não nascidas seja definido pela liberdade do indivíduo. Em outras palavras, eles querem que a decisão entre vida e morte seja entregue à mães que rejeitam sua maternidade, a indivíduos que valorizam o seu corpo, o seu trabalho, a sua carreira enquanto desprezam a vida dos seus próprios descendentes. Pessoas cuja consciência foi dessensibilizada a ponto de conseguirem desumanizar a vida dos seus próprios filhos.

Entretanto, o Cristianismo se opõe radicalmente a essa visão de mundo por que o motivo que os move é o amor. Amar ao outro sempre fez parte do monoteísmo judaico-cristão, mesmo quando esses não foram exemplares no exercício de suas responsabilidades. Entretanto, os cristãos não são apenas convidados  a amar o outro, mas a amá-los do mesmo modo que seu mestre os amou (Jo.13.34-35). Os cristãos são convidados por Cristo a amar aqueles que deles discordam e orar por aqueles que os perseguem (Mt.5.44). Como Jesus Cristo, o mestre maior dos cristãos, eles valorizam e respeitam as crianças (Mt.19.14; Lc.18.16), por que sabem que quando assim o fazem, eles valorizam e respeitam o próprio Cristo (Mt.18.5). Para o cristão, servir, amar, proteger aqueles que não tem vez ou voz é um ato de amor expresso ao próprio Cristo (Mt.25.35-40). É por isso que os cristãos são contra o aborto, criam orfanatos para cuidar de crianças abandonadas, prestam assistência as crianças nas ruas, prestam assistência a mães que precisam de ajuda e lutam pela voz e o direito das crianças não nascidas. Aliás, valorizamos aqueles que não tem vez ou voz desde os momentos mais embrionários da fé cristã.

Em outras palavras, a tradição Cristã sempre foi contrária ao abandono de crianças, do infanticídio e do aborto, por que os cristãos acreditavam que a beleza e a dignidade da vida superam o desastre da morte, em especial o do assassinato.  Eles valorizavam as escrituras e acreditavam que os valores morais apresentados nela eram de fato corretos, como foi também claramente ilustrados pelo próprio Cristo.

E o mesmo não é diferente comigo. Eu acredito que as escrituras apresentam os valores morais defendidos por Deus, e com ela afirmo que sou contra o aborto, infanticídio e o abandono de crianças. Pouco me importa se vier a ser rotulado como antiquado, retrógrado ou religioso por aqueles que acredito serem assassinos de crianças ou coniventes com tal atrocidade. Do ponto de vista da cosmovisão cristã, é aqui que me encontro, contra o aborto e em oposição aqueles que o valorizam.

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Autor: Marcelo Berti
Fonte: Teologando
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O que a Bíblia diz sobre nascer gay?

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Essa é uma questão complicada e muito dela depende do que nós queremos dizer com essa frase. Assim, vamos lidar com a pessoa que diz “eu nasci gay” e que afirma que houve alguma causa genética para sua atração por pessoas do mesmo sexo. Eu responderia que nós podemos examinar a literatura científica mais recente, que não apoia com muita força essa conclusão. Na verdade, o discurso oficial das principais associações psiquiátricas ou psicológicas dirá que nós não sabemos ainda de uma causa definitiva e que é provavelmente uma mistura de inato e adquirido. Assim, quaisquer relatos sobre um suposto “gene gay” são grandemente exagerados. Essa é uma coisa que nós poderíamos dizer.

Nós poderíamos ir um pouco além e dizer: “Bem, talvez haja questões de química no cérebro ou há conexões em nós que tornariam as pessoas mais pré-dispostas a serem atraídas por pessoas do mesmo sexo”. Mas, mesmo isso não prova tanto quanto poderíamos pensar, pois temos visto estudos que sugerem que pessoas têm uma pré-disposição ao alcoolismo. Ou nós sabemos que se os homens têm níveis mais altos de testosterona eles podem ser mais ambiciosos, mais atléticos, mais propensos à promiscuidade, talvez mais propensos à irritação. Assim, há todo tipo de maneira de entender nossos corpos. E nós não desejamos um tipo de determinismo biológico que diz: “Como eu ajo e como me sinto é apenas produto dos meus genes, da minha química, ou algum tipo de ligação neural no cérebro”.

Assim, existe essa maneira de responder a questão. E há a pessoa que diz “Eu nasci gay” e talvez queira dizer “Eu tenho esses desejos por pessoas do mesmo sexo e eu não escolhi conscientemente eles. Eu não acordei um dia e pensei: ‘eu quero ser atraído por pessoas do mesmo sexo’”. Na verdade, talvez elas tenham orado, batalhado e buscado uma maneira de mudar esses desejos.

A essas pessoas eu quero dizer que é verdade que normalmente esses desejos vêm espontaneamente. Eles não são conscientemente escolhidos. E, embora nós possamos precisar nos arrepender de desejos desordenados, aquilo com o qual a Bíblia parece estar mais preocupada é que nós não desejemos em nossos corações e não ajamos com base nesses desejos.

Por fim, a última coisa que devemos dizer é que não importa como alguns de nós nasçam, a ênfase da Bíblia é que podemos nascer de novo de uma maneira diferente. Com certeza, há um pouco de verdade em dizer que só podemos ser quem somos. Isso é um pouco de boa teologia cristã. Porém, o que geralmente falta nessa equação é que nós temos uma nova identidade em Cristo, o que significa que nós somos novas criações, isto é, que agimos como “pequenos Cristos”. E, assim, toda a nossa identidade é remodelada e renascida, e quem nós somos e o que fazemos será inteiramente novo. Isso pode significar para algumas pessoas novos desejos por pessoas do sexo oposto e, para outras que batalham com a atração pelo mesmo sexo, pode significar um longo compromisso de vida ao celibato e mortificação da carne, e seguir a Cristo independentemente do custo.

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Autor: Kevin Deyoung
Fonte: CrossWay

Tradução: Josaías Jr.
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Não há bem que se torne em mal!

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O mundo está mesmo uma coisa, parece o campo de recreação do diabo, se é que ele é capaz de se divertir com algum evento. No fundo, ele é apenas um fracassado, mesmo conseguindo uma vitória ali, outra acolá, é um malogrado, uma desgraça!

Hoje, pela manhã, recebi a ligação de uma funcionária, em prantos, comunicando-me o assassinato do seu filho, ontem à noite. Ele havia saído da penitenciária, onde cumpria pena por tráfico, e estava em condicional. Quase certo ser um caso de “acerto de contas” entre bandidos. Porém, não pude deixar de me apiedar do sofrimento daquela mãe com a perda do filho. Seja bandido ou o que for, ele é filho, e não dá para aquilatar a dor pela perda. Orei com ela, pedindo ao Senhor para fortalecê-la e confortá-la, assim como a sua família.

Por certo, ele encontrou o que procurou durante a sua vida, um fim trágico para uma vida desperdiçada, na qual o caminho da bandidagem parece ser uma via fácil, porém curta.

Há tempos, ouvi uma entrevista de um garoto de nove anos, mula do tráfico na favela onde morava, no Rio, dizendo que pouco importava o que lhe acontecia, morrer, matar, não fazia diferença. Para alguém que sequer começara a viver, uma afirmativa dessas reflete o quão expostas as crianças estão ao mundo adulto, onde a morte ou o assassinato (assim como o sexo inconsequente) parece ser uma opção como escolher o sabor de um sorvete.

Logo depois, outra funcionária relatou um tiroteio onde morava, noite passada, quando chegou em casa; tempo suficiente para se esconder atrás do fogão junto com a filha, enquanto a netinha e o marido refugiavam-se atrás do sofá, ao som do espocar das balas, algo que, segundo ela, durou cerca de cinco minutos. Descreveu, com uma naturalidade assombrosa, o incidente, entremeado por sorrisos que pareciam ignorar a gravidade da situação. Disse que a netinha ficou em estado de choque, e custou a dormir em meio a pesadelos e acessos de pânico, mesmo tomando um chá de maracujá com açúcar.
        
Tudo isso parece muito comum e natural na sociedade, uma sociedade em que os valores morais foram se perdendo à medida em que ela se afastou proposital e (in)conscientemente de Deus e sua Lei.
        
Alguém pode dizer que estou a tratar a questão com cinismo ou insensibilidade, mas descrevo apenas a causa pelo estado atual de degradação, apatia, e contemporização com o mal ao qual nos aliamos silenciosamente, e que o mundo, de forma geral, ignora e não quer ver, por teimosia, autossuficiência, ignorância ou insensatez. A destruição de valores caros ao ocidente, os fundamentos a estabelecerem a sociedade (a tradição judaico/cristã), não se daria impunemente, sem consequências dramáticas e nefastas para o cidadão comum, muito distante das reuniões regadas a "comes e bebes" onde o mal é maquinado e lançado sobre as pessoas com o falso argumento de serem para o seu próprio bem. Não há bem que se torne em mal, se antes não for o mal travestido de bem. Deus transformou o mal na vida de José em bem (Gn 50.20), mas nunca o contrário pode ser reivindicado, demonstrando a insensatez, o descalabro e a malignidade dos proponentes de “um bem utópico”, impossível, cujos resultados são a desgraça, a morte e a destruição.

Penso não haver muito mais a se acreditar neste mundo, pois ele caminha célere para o abismo mais profundo e tenebroso; podemos sim, pelo poder do Evangelho, como servos inúteis de Cristo, resgatar um ou outro, ou mesmo alguns, desse redemoinho sinistro, funesto, no qual a humanidade se envolveu e do qual não pode sair por suas próprias forças, a despeito da ilusão propagandeada de ser uma questão de tempo para tudo chegar ao seu devido lugar.

A queda vertiginosa dos fundamentos do ocidente, a família, a lei, o Cristianismo, a educação, principalmente, e não nesta ordem, têm tornado o mundo em um local caótico e desenfreado, onde o certo é tido como errado, e o errado é posto como certo, num caminho capaz de ser revertido se o homem voltar-se para o Senhor, em busca da verdadeira sabedoria, da verdadeira paz e espiritualidade, do conforto seguro em estar em suas mãos santas.
       
O profeta já alertava, há milênios:

Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! Ai dos que são poderosos para beber vinho, e homens de poder para misturar bebida forte; Dos que justificam ao ímpio por suborno, e aos justos negam a justiça! Por isso, como a língua de fogo consome a palha, e o restolho se desfaz pela chama, assim será a sua raiz como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, e desprezaram a palavra do Santo de Israel” (Isaías 5.20-24).

A resposta está naquele que, sendo Deus, humilhou-se e assumiu a forma de homem, fazendo-se um de nós, e, por nós, padeceu, morreu e ressuscitou, a fim de ajuntar para si mesmo um povo que, independente do mundo e daqueles que o governam, esperam firmes na sua volta, quando estaremos para sempre com ele, o Pai e o Espírito, em comunhão perene, trinitariana, em adoração constante, sem as distrações e a superficialidade desta vida, na qual o pecado é a sua força motriz. É a garantia dada por ele mesmo, Jesus Cristo:

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.27-30).

E, deixo ao final uma questão: por que você não reconhece a verdade, Cristo, e contenta-se com a mentira mais vergonhosa e insana alardeada pelos agentes do Inferno?

Com você a resposta, para hoje e sempre.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos

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Prolegômena à Predestinação - uma questão de justiça

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"Ora, a excelência, beleza e perfeição de cada ser vivo, objeto inanimado ou ação humana depende exclusivamente da utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (Platão, Livro X da República).

Prolegômena é aquilo que se discute antecipadamente. É a discussão que deve ser feita - mas geralmente não o é - antes de entrarmos em outros pontos. Supostamente há pontos pacíficos quando se vai discutir vários temas. Acreditamos que aquele com quem estamos a debater assume algumas coisas que nós de antemão achamos óbvias demais para serem discutidas. No entanto, um levantamento de pressupostos que regem as colocações demonstrará que, não raro, há pontos de discordância que impediriam completamente os contendores de chegarem a um acordo.

Com esse pequeno texto, pretendemos explorar alguns itens prolegomenais em relação à discussão sobre a predestinação, eleição e afins, contidos nas doutrinas da graça* conforme expõem os teólogos protestantes reformados - os quais nos parecem mais próximos das Escrituras. Particularmente, estamos interessados em considerar o conceito de justiça que é trazido à baila nessas discussões de forma, amiúde, desorganizada e confusa. Basicamente, questiona-se se seria justo que Deus elegesse algumas pessoas para serem salvas e outras não. Nossa tese é de que é perfeitamente justo que Deus faça tal escolha.

Foi Voltaire quem observou que para discutirmos adequadamente temos que definir os nossos termos, o que já consiste, por si, em uma tarefa prolegomenal. Isso é uma forma de evitar a falácia da equivocação, que consiste em discutir com conotações distintas para um mesmo termo. É marca distinta de um bom pensador e de uma boa discussão que as coisas fiquem de antemão claras. Ao acompanharmos as discussões socráticas veremos da parte do sábio ateniense justamente o desejo de definições precisas para evitar confusão - o que, com frequência, colocava o próprio adversário em confusão, pois esse fora para a discussão sem pensar muito bem nas palavras que usava.

Queremos entender, pois, o que significa 'justiça'. Esse é o termo-chave da discussão. Acreditamos que podemos defini-la como algo nos seguintes termos: 'é ter cada um o que lhe é de direito', ou, 'cada um ter o que é adequadamente seu'. Quem já leu a República sabe como é difícil uma definição precisa, embora 'intuitivamente' arranhemos o conceito. Supomos suficiente definir tal como o fizemos.

A questão que se segue é a de saber o que é devido a cada um, ou seja, o que é de direito. O direito de algo ou alguém é determinado por seu valor ontológico, i. é., o valor intrínseco que a coisa tem segundo seu próprio ser. Entretanto, há algo assim? Valor intrínseco?

O valor de um determinado artefato criado por um homem está determinado por ele ao criar e estabelecer seu objetivo. E mesmo as coisas que ele não cria ganham seu valor segundo os fins para os quais ele percebe. Um homem pode considerar um violão extremamente valoroso na medida em que aprecia a música e, principalmente, aquela produzida pelo violão. Mas um cão ou gato não terá o mesmo apreço pelo instrumento, principalmente se não houver quem o toque - se é que animais podem verdadeiramente apreciar uma música. No máximo, servir-lhes-á para depositar alguma coisa, ou para afiar suas unhas. Portanto, percebemos que o valor das coisas é determinado de forma subjetiva. É preciso um referencial para que haja a determinação do valor.

Pois bem, temos que decidir de antemão se nosso referencial será antropocêntrico ou teocêntrico. Se tomarmos o homem como a medida de todas as coisas, teremos uma avaliação valorativa, e se tomarmos Deus, outra.

Estamos percebendo a que rumo o argumento está levando? Quem é que determina o valor do homem? Se ele é determinado pelo próprio homem, temos uma situação distinta daquela em que Deus é quem o determina. Esse é o ponto nevrálgico. Podemos falar que todas as coisas têm valor segundo o estabelece a subjetividade humana. Mas não seríamos indelicados se perguntássemos sobre o valor do próprio homem. É engraçado ver como naturalistas 'rebolam' para tentar dar algum valor distinto para um conjunto determinado de átomos dispostos de uma forma específica e não de outra. O homem não é mais do que isso nesse tipo de cosmovisão. E o valor que ele dá às coisas é relativo. E daí se as coisas têm esses valores para o homem?

Sem o homem poderíamos pensar no valor das coisas para manter o ecossistema. Mas, e daí? Por que o ecossistema deveria ser mantido? Alguém poderia responder imediatamente que seria para manter a vida na terra. Mas por que manter a vida? Ela nem mesmo é compreendida de forma 'anímica' pelo naturalista. Uma cosmovisão naturalista não pode dar um significado essencial para a realidade. Um cristão que toma o homem como referência para o valor das coisas é um incoerente que anda de mãos dadas com naturalistas. Um protestante, então, nesse caminho, chama para banquetear consigo Pelágio, João Cassiano e toda a corja que se segue.

Agora podemos rumar para a situação oposta. Deus determinando o valor das coisas. Para começar, Ele está numa situação singular e muito superior à do homem para determinar o valor das coisas. Antes de mais nada, na cosmovisão cristã, Ele é quem cria 'ex nihilo' tudo o que há. Cada parte do que existe além dele é engendrado, formulado, cogitado e executado por seu desejo. Portanto, o valor das coisas é definido segundo os objetivos que Deus tem para com tudo. Aí está o valor absoluto das coisas. Elas têm valor intrínseco por conta de seu lugar na criação.

Segue-se que é de direito que Deus dê ao homem o que lhe é cabível segundo o valor que Deus deu na execução de seus planos para cada coisa. Se o valor das coisas é dado por Deus, cabe a Ele dar a cada um o que bem entender segundo lhe parecer viável.

Não podemos encerrar esse artigo sem uma última formulação. Um ser racional age, na medida em que age racional e inteligentemente, com fins. Ele tem planos. Julgamos a integridade de seus planos e a competência do logos em executar seus planos. Um homem ao fazer algo tem, consciente ou inconscientemente, planos. Na medida em que ele conhece mais a si mesmo, mais consciente de seus objetivos ele está. Na medida em que é mais sábio e bom, objetivos mais nobres e sensatos ele tem, bem como os meios para alcançá-los. Apliquemos o raciocínio a Deus e teremos alguém que age com fins plenamente conscientes e estabelecidos, totalmente nobres e sensatos. Portanto, quando Deus criou cada coisa, inclusive cada homem, tinha uma pauta, um objetivo em mente.

E qual objetivo é esse? Com Charles Hodge aprendemos o que viria a ver novamente em John Piper: que Deus não pode ter outro objetivo que não ele mesmo como alvo final, último, derradeiro para as coisas. Quando ele vai criar só pode haver um objetivo sumamente nobre, santo e justo que é enaltecer aquilo que é mais santo, belo, nobre e bom: ele mesmo. Ele age, pois, em consonância com o que Paulo diz na epístola aos Romanos, para a sua glória, pois 'por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!'.

Na mesma epístola, no nono capítulo, o apóstolo Paulo diz que Deus criou os eleitos para enaltecer sua misericórdia e os ímpios para enaltecer sua santidade, justiça e severidade para com o mal, o que implica ser extremamente bom. Paul Helm, certa feita, notou que se fosse injusto que Deus não salvasse alguns homens, então salvá-los seria questão de dívida, e não de misericórdia. Deus os salva segundo seu propósito final de glorificar a si mesmo em suas várias perfeições.

Portanto, é mais do que justo, nobre e santo que Deus eleja quantos ele quiser para a sua inteira glória, bem como pretira, igualmente, a quantos lhe aprouver. Este é o soberano Deus para quem nos dobramos em reverente adoração!

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* Notar que não iremos discutir as demais doutrinas da graça que são indissociáveis da eleição, como justificação objetiva e subjetiva, chamado externo, regeneração, santificação, adoção, ressurreição e glorificação.

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Autor: Lúcio Antonio de Oliveira
Fonte: Panacéia Teo-Referente

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O problema de uma democracia sem Deus

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A democracia hoje é uma referência comum em debates políticos no que diz respeito às liberdades civis. Não é exagero dizer que, pra muitas pessoas, ela tornou-se um ídolo, quase sempre incompreendido, e dona de uma suposta superioridade inquestionável. É certo que a democracia americana tem uma clara contribuição dos princípios reformados e que a Reforma Protestante tem uma participação direta no desenvolvimento dos direitos civis da modernidade. Abraham Kuyper considera a democracia uma verdadeira benção de Deus. No livro "Calvinismo", ele escreveu:

"A questão sobre como aquelas pessoas, que pela autoridade divina devem ser revestidas de poder, são indicadas, segundo Calvino não pode ser assegurado semelhantemente para todas as pessoas e para todos os tempos. E, contudo, ele não hesita em afirmar, num sentido ideal, que as condições mais desejáveis existem onde o próprio povo escolhe seus próprios magistrados. Onde existe uma condição como esta, ele conclui, o povo deveria agradecidamente reconhecer nisto um favor de Deus, precisamente como tem sido expresso no preâmbulo de mais de uma de suas constituições; - "Graças ao Deus Todo-Poderoso que deu a nós o poder de escolher nossos próprios magistrados." Em seu Comentário sobre Samuel, Calvino entretanto admoesta tais povos: 'E vós, Ó povos, a quem Deus deu a liberdade de escolher seus próprios magistrados, cuidem-se de não se privarem deste favor, elegendo para a posição de mais alta honra, patifes e inimigos de Deus.' 
Posso adicionar que a escolha popular é bem sucedida, naturalmente, onde nenhum outro governo existe, ou onde um governo existente se enfraquece. Onde quer que novos Estados tem sido instituídos, exceto pela conquista ou pela força, o primeiro governo sempre tem sido instituído pela escolha popular; e assim também onde a mais alta autoridade tem caído em desordem, quer pelo desejo de fixação de direito de sucessão, quer através de revolução violenta, sempre tem sido o povo que, através de seus representantes, reivindicou o direito de restaurá-lo. Mas com igual resolução, Calvino afirma que Deus tem o poder soberano no modo de administração de sua providência, para tirar de um povo esta condição mais desejável, ou nunca concedê-la absolutamente quando uma nação é inapta para ele, ou, por seu pecado tem sido completamente privada da benção." 

A Reforma foi muito abençoada até determinado momento; a liberdade civil e a prosperidade seguiram os rastros dos teólogos reformados ortodoxos. Contudo, há um grande perigo quando as leis de um povo não estão pautadas na Lei transcendente de Deus, e sim na soberania popular, que é o entendimento de democracia que vem sendo defendido especialmente no séc. XX. 

No paganismo do Império Romano, a soberania estava no Imperador. Na Baixa Idade Média, havia uma disputa entre o papado e os reis absolutistas por soberania. Na Reforma Calvinista, Deus é o soberano sobre o Estado e sobre a Igreja. A soberania popular nasce - para explicar de forma grosseira um processo histórico dono de certa complexidade - como uma proposta de defesa humanista contra a tirania e contra a soberania, tanto dos absolutistas quanto da igreja. Tornar-se-á evidente que esse conceito de democracia não pode ser considerado cristão, embora a liberdade civil seja cristã e a democracia americana tenha emergido como fruto de uma luta evangélica que deixou seus mártires. Margaret Thatcher, membro de uma igreja metodista, durante um discurso para a "General Assembly of the Church of Scotland", afirmou que

"Quando Abraham Lincoln falou em seu famoso discurso de Gettysburg em 1863 sobre "governo para o povo", ele deu ao mundo uma definição nítida de democracia que desde então tem sido selvagem e entusiasticamente adotada. Mas o que ele anunciou como uma forma de governo não era em si mesmo algo Cristão, já que em nenhum lugar na Bíblia a palavra 'democracia' é mencionada. Idealmente, quando Cristãos reúnem-se, como Cristãos, para tomar conselho juntos, seu propósito não é (ou não deveria ser) determinar qual é a mente da maioria, mas qual é a mente do Espírito Santo - algo que deve ser bem diferente."

Abraham Lincoln era um humanista. Seu governo foi marcante na história dos EUA por diversos motivos. Quando os revolucionários americanos construíram o sistema americano - que na verdade era, no período colonial, o modelo britânico de um sistema feudal -, influenciados pelos trabalhos de outros puritanos, incluindo John Knox, eles não tinham em mente a ideia de uma "soberania popular," mas o desejo da manutenção de uma ordem Cristã com liberdade civil diante de um Estado limitado. O Rev. John Cotton, um dos grandes fundadores do sistema americano, tornou básica para o governo colonial "a premissa que a lei e a ordem piedosa significam poder limitado e liberdade limitada." Mas o sistema americano foi paulatinamente subvertido durante os séculos.

A Constituição Americana foi escrita para um povo fortemente comprometido com o Cristianismo, e ela não tem estabilidade de outra forma. A limitação estatal era equilibrada pelo freio moral das igrejas locais. Na Reforma Calvinista, a liberdade civil era uma liberdade sob Deus, dentro dos limites da verdadeira religião Cristã, donde a Palavra de Deus soberana impunha as funções específicas para o Estado e para a Igreja, cada qual com seu limite. Mas para os revolucionários franceses, a liberdade significava outra coisa. Guillaume Groen Van Prinsterer, historiador calvinista e estadista holandês, percebeu, em seu livro "Incredulidade e Revolução", que a premissa das revoluções modernas é um conceito ateísta de liberdade. Não é de forma alguma uma liberdade Cristã, mas antes uma liberdade que finalmente rebelaria-se contra a própria ordem moral de Deus. Se o Rev. John Cotton enfatizava uma liberdade limitada e um poder limitado, as demandas humanistas pedem ao mesmo tempo uma liberdade ilimitada e um poder ilimitado, ainda que sua contradição seja explícita. O dualismo desses dois conceitos antitéticos de liberdade está fortemente presente nos debates atuais entre Conservadores e Liberais nos EUA. Os Conservadores buscam interpretar a Constituição Americana com a intenção original dos seus fundadores, cristãos. Os Liberais procuram interpretar a mesma Constituição removendo os conceitos originais dos termos nela escritos. Dessa forma, o atual presidente Barack Obama pode dizer que o casamento gay é coerente com os "ideais americanos," quando na verdade ele nunca foi pensado pela América cristã original.

Nesse contexto, R. J. Rushdoony, especialista na relação entre Igreja e Estado, tece uma pertinente crítica contra o conceito de democracia predominante hoje, mostrando que, uma vez que ela baseia-se na soberania popular, e não na soberania de Deus e de sua Palavra-Lei, ela torna-se ímpia, totalitária e uma maldição para os homens.

Por obedecer sumamente à "vontade do povo", a democracia não serve necessariamente ao princípio de justiça, mas transforma toda vontade da maioria em "justiça" e lei, enquanto a justiça objetiva, a verdadeira, simplesmente deixa de existir. Ela dá lugar à "justiça" relativa, fruto da convenção e conveniência humanas. Nesse modelo político, tudo aquilo que for contra a vontade do povo passa a ser considerado crime. O problema é que os homens são pecadores rebeldes, e, portanto, a vontade da maioria geralmente tende a harmonizar-se com a injustiça, não com a justiça. Dessa forma, a maioria pode decidir roubar a minoria e o roubo torna-se-á legalizado, como vemos no Socialismo.

Por causa dos princípios que norteiam a mentalidade humanista, toda noção objetiva de justiça passa a ser considerada injusta quando ela fere o conceito de liberdade autônoma do ateísmo e quando, consequentemente, fere a vontade "soberana" do indivíduo - que não é mais indivíduo, mas conjunto. É por isso que Deus é entendido como "opressor" por aqueles de mentalidade humanista, por trazer princípios de justiça que não são a vontade da maioria. O resultado é uma confusão sem fim. 

Um exemplo claro disso pode ser visto nas acusações lançadas pelo movimento LGBT contra o pastor pentecostal Silas Malafaia em março desse ano, na ocasião da campanha pelo boicote contra a marca de perfumes "O Boticário." Poucos meses antes, Elton John lançou uma campanha de boicote contra a marca "Dolce & Gabbana" por causa de uma declaração de seus donos - a saber, um "casal" homossexual - contra a adoção de crianças por "casais" gays. Mas para os que tomaram as dores do movimento homossexual, apenas Silas Malafaia pode ser considerado "opressor" e "antidemocrático", não Elton John. Para a maioria dessas pessoas, esse julgamento não é fruto de uma malícia política consciente, mas da conclusão de seus pressupostos. De fato, Saul Alinsky e outros ideólogos de esquerda inventaram a "tolerância intolerante" e muitos dos esquerdistas que sustentam esse discurso são realmente cínicos de marca maior, guardando em suas mentes o objetivo consciente de destruir a cultura ocidental. Para os demais, os idiotas úteis da rev. gramsciana, trata-se do pressuposto religioso do humanismo sendo exposto. Para eles, a liberdade autônoma é o únivo bem moral a ser preservado. A Lei de Deus, por limitar o comportamento humano, é, portanto, contra a vontade soberana do indivíduo livre, e contra seu poder de auto-determinação, que ascendeu mais fortemente desde o pós-Guerra com o existencialismo de Sartre. O Estado humanista é servo do indivíduo, ou da maioria, e todas as obrigações morais reais são anuladas em favor de uma demanda cada vez mais exaustiva de direitos, direitos e mais direitos. A premissa agora é: "seja feita a minha vontade." E essa vontade é a vontade de pecar. A democracia sem a orientação da Lei de Deus tende a transformar o pecado em lei. O homem deixa de ser responsável por seus atos e passa a ser vítima das condições externas, precisando do amparo do Estado, o justiceiro e justificador. Em outras palavras, o Estado é o messias do humanismo.

A democracia sem a soberania de Deus não apenas cria uma nova justiça, mas enxerga a si mesma como a encarnação da justiça. Ela é inimiga da Justiça de Deus e da ordem criacional, e os países que sustentam-na já estão sofrendo com a ira divina há algum tempo. Em nome da democracia, os revolucionários estão atacando a Igreja Cristã que a fundou. Eis o preço que a Igreja está pagando por ter abandonado a liderança intelectual no Ocidente e por ter se tornado irrelevante para a cultura. 

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Autor: Vitor Barreto
Fonte: Uma Visão Reformada
Imagem: The Forgotten Man - Jon McNaughton. Arte: Bereianos
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A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (Parte 2)

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A inversão axial da relação culto/cultura

Podemos afirmar ousadamente que aqueles que não cumprem o Princípio Regulador do Culto, ou que, no afã aparentemente louvável de diluir os elementos do culto na cultura local, alteram suas liturgias, são não apenas idólatras e insinceros, mas também solapam quaisquer tentativas de redenção cultural.

Ora, Kuyper já havia dito que uma cultura pode subsistir sem a arte (o que a empobrece, evidentemente), porém não sem a religião. Russel Kirk já atentara para o fato de que toda cultura (como a própria etimologia aponta) provém de um cultus. Dito de outro modo, a religião é o embrião de toda civilização, assim como o cimento que coere seus indivíduos organicamente. Não cabe aqui explorar todos as nuances e complexidades dessa questão – Christopher Dawson, o grande historiador católico, já estabeleceu e explorou tais princípios em seu livro Progresso e religião.

Destarte, se a cultura procede de um culto, aqueles que buscam moldar seu culto segundo a cultura estão efetivamente invertendo a ordem lógica e até mesmo antropológica da questão. Não estamos afirmando que a liturgia é um elemento abstrato e desencarnado que exige a supressão (impossível) de nossas tradições e costumes. Pelo contrário, o cristianismo é encarnacional: diferentemente do islamismo, ele não suprime a cultura “receptora”, antes, a redime. Isso é evidente ao longo de toda a história da Igreja – a Escola de Alexandria, dada a influência mística dos sábios que ali habitavam, praticavam uma exegese mais alegórica e espiritualizada, ao passo que a Escola de Antioquia, na Síria, também devido às influências, apresentava uma hermenêutica mais literalista. Até mesmo dentro de uma mesma tradição, há diferenças cruciais; basta compararmos as igrejas reformadas escocesas e as holandesas. Portanto, não reivindicamos a supressão de traços culturais dentro dos cultos, todavia, protestamos resolutamente contra a primazia da cultura sobre a liturgia.

Conforme dito, Deus, com efeito, deu ao homem aquilo que os neocalvinistas chamaram de Mandato Cultural, ordenado desde a criação do homem: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28). A criação está prenhe de possibilidades e potencialidades (At 14:17), que devem ser exploradas e descobertas pelo homem, desenvolvidas segundo os princípios normativos de Sua Lei e direcionados à glória de Deus (1 Co 10:31-33). Ora, estruturalmente toda a criação é boa, conforme assevera o relato de Gênesis, entretanto, nas palavras de Albert Wolters, o homem pode conduzi-la segundo uma direção transgressora da lei divina e corruptora de sua (da criação) bondade intrínseca. É interessante notar que logo após o relato da descoberta da música – “o nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21) –, o livro de Gênesis nos apresenta de forma quase imediata os efeitos da depravação, que se estendem até mesmo a essas potencialidades que o SENHOR embutiu na Sua criação:

E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4:23-24).

Lameque, com seu coração pervertido pelo pecado, conspurca a musicalidade, criando para si um cântico que exalta uma retaliação totalmente desproporcional à injúria sofrida.


A cultura, embora se fundamente, em última instância, na revelação, caso não seja direcionada segundo as diretrizes proposicionais da lei de Deus, certamente será deturpada pela pecaminosidade humana. Ora, nesse sentido, o Princípio Regulador do Culto se configura como um parâmetro objetivo, que nos resguarda das alterações e deformações do culto dedicado a Deus. Nas palavras de Michael Bushell, citado por Brian Schwartley, “de modo particular, o Princípio Regulador do Culto pode ser visto como uma inferência natural da doutrina da depravação total [...] Qualquer obra das mãos do próprio homem, que ele presume oferecer a Deus em adoração, é poluída pelo pecado e é, por essa razão, totalmente inaceitável” (SCHWARTLEY, Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, p. 42).

Em Êxodo 20:25, o SENHOR dá instruções tão precisas e concisas relativas à construção do altar dedicado ao Seu nome, que o simples desvio era, por si só, considerado profanação:

Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois, se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás (Êxodo 20:25, ARA).

Um dos possíveis motivos dessa prescrição (que também pode ser vista em Deuteronômio 27:5-6) é a diferenciação que se pretende traçar entre o altar israelitas e os altares pagãos. Os santuários das nações vizinhas estavam repletos de desenhos e entalhes minuciosos idólatras e não raro eróticos (Ezequiel 8:5-18). Dessa forma, a simplicidade e rusticidade do altar do SENHOR seriam um nítido contraponto com as demais religiões. Além disso, o fato de não poderem cortar as pedras com instrumentos de ferro demonstra que os israelitas (que naquela época não dominavam a técnica da metalurgia) não deveriam depender de nenhuma nação pagã circunvizinha (os cananeus, por exemplo, eram mestres na siderurgia) para auxiliá-los na adoração a Deus.


Ora, ademais, o altar bruto nos ensina que nossa cultura, por mais refinada que seja, não deve aparar, ornamentar, burilar ou remoldar o culto a Deus. Pelo contrário, a simplicidade do culto é a condição essencial para a restauração e evolução cultural. O meio reformado se encontra premido por dois posicionamentos – primeiramente, aquilo que já abordamos na primeira parte deste artigo, a saber, o gramscianismo que se quer passar por kuyperianismo, “valorizando” e acolhendo em suas comunidades todos os tipos de monstruosidades teológicas e estéticas que se querem fazer passar por música ou arte cristãs. Alguns chegam ao ponto de elencar o brilhante Schaeffer como seu mestre e orientador, como se esse grande pensador cristão, admirador da alta cultura e da cosmovisão bíblica, fosse admitir que a mentalidade reformada fosse conspurcada por elementos como DJ’s, cultos jovens, apresentações teatrais, motoclube, etc.

Em segundo lugar, o meio reformado enfrenta também o perigo do empobrecimento cultural e artístico, como no caso da ala neopuritana, a qual chega a proibir até mesmo as representações iconográficas de Jesus Cristo, com o argumento de que se constituem como transgressão do segundo mandamento. Creio que, ainda que essa mentalidade dominasse inteiramente nosso Ocidente, seus defensores teriam certa dificuldade em incinerar e arruinar a vasta quantidade de quadros, representações, mosaicos, afrescos, telas, etc., que estão presentes nos grandes museus da Europa e Américas, movidos por uma estranha espécie de futurismo puritanista, no afã de apagar a história, que passa a ser concebida como uma simples sequência de eventos idólatras, ao invés do locus da Providência. Tudo isso, podemos dizer, para que, ao fim de seu esforço iconoclasta, percebam aquilo que Nathaniel Hawthorne, brilhante escritor puritano, já havia entrevisto em seu conto Earth’s Holocaust [O Holocausto da Terra], no qual as pessoas se reúnem perante uma grande fogueira, uma espécie de conflagração cósmica, a fim de lançar ao fogo todos os livros, pinturas, objetos, etc. que os lembrassem do passado – a conclusão do conto:

“O Coração – o Coração – havia ainda essa pequena mas ilimitada esfera, na qual subsiste o erro primordial, do qual o crime e a miséria deste mundo visível são simplesmente tipos. Purifique essa esfera interna; e as várias formas de mal que assombram o exterior, e que presentemente aparentam ser a quase totalidade de nossas realidades, tornar-se-ão em meros espectros sombrios, desparecendo por contra própria” (Nathaniel Hawthorne, Tales & Sketches, p. 906, tradução nossa).

Ora, a religião, e em especial um de seus elementos, a liturgia, não devem castrar a arte – isso é confusão de esferas de soberania, e, portanto, transgressão das leis criacionais de Deus. Como já disse Rookmaaker, “a arte não precisa de justificativa”. Tal afirmação, no entanto, não implica na autonomia da arte ou seu desprezo pela cosmovisão bíblica; pelo contrário, toda e qualquer esfera somente realiza e concretiza suas potencialidades quando se encontra pautada nos pressupostos bíblicos, levando em consideração os pilares do macrodrama da história salvífica: Criação, Queda, Redenção e Consumação. Portanto, afirmarmos de fato que o Princípio Regulador do Culto deve exercer sua autoridade e vigilância de forma intransigente – mas na área que lhe cabe: o culto público e privado (no lar e na devoção particular). Jamais deve transgredir os limites de sua própria esfera, com o risco de se tornar pietismo ou iconoclastia gnóstica. Em suma, não se pode negar, todavia, o excelente trabalho litúrgico, incluindo a publicação de obras teológicas que enfatizam e explanam o Princípio Regulador do Culto, livros que se fazem extremamente necessários nesse nosso contexto eclesiástico sincrético e idolátrico, que efetivamente precisa ser purificado por uma nova reforma direcionada pelo Espírito de Deus.


Herman Bavinck, em uma de suas palestras sobre a relação entre Revelação e cultura, lança as bases de um pensamento que se apresenta como uma alternativa ao atual dilema do meio reformado. Para o teólogo holandês, a religião não é o cão de guarda da cultura, e esta, por sua vez, não é autônoma nem livre para conceber uma ética alheia à Lei de Deus. Nas palavras de Bavinck:

A ciência, arte e moralidade são cognatas em origem, essência e sentido à religião, pois todas se baseiam na crença num mundo ideal, cuja realidade é assegurada e garantida somente pela religião, isto é, da parte de Deus por meio da revelação. 
Indubitavelmente tem havido um empenho para tornar a cultura ética independente da religião. Todavia, tal tentativa é ainda nova e restrita a um pequeno círculo e provavelmente há de ter pouco êxito. É sem dúvida uma desonra para a religião servir como um agente policial ou como um cão de guarda da moralidade. Religião e moralidade não estão unidas nesse modo externo e mecânico, mas estão em aliança entre si de forma orgânica, por causa de suas naturezas íntimas. O amor a Deus inclui o amor ao nosso próximo, e este se reflete naquele, pois o bem se apresenta a todos nós, desde nossa tenra idade, na forma de um mandamento. Nem a ética autônoma nem a ética evolucionista podem mudar algo nisso. A criança não cria gradualmente leis morais por meio do instinto ou reflexão, antes, ela cresce num círculo que possuía anteriormente essas leis e que as impõe sobre ela com autoridade. À medida que olhamos para as nações e examinamos a história da humanidade, testemunhamos muita hesitação e variedade, no entanto, sempre encontramos, por toda parte, um fundo de leis morais. Todo homem reconhece que, na moralidade, existe uma lei que lhe é sobreposta, obrigando-o, em sua consciência, à obediência. Se de fato é assim, então, nesse surpreendente fenômeno, estamos lidando ou com uma ilusão, ou com um sonho, ou como uma fantasia da humanidade, ou, ainda, com uma realidade que se eleva bem acima do mundo empírico e nos preenche com a mais profunda reverência (BAVINCK, Philosophy of Revelation, p. 260-261, tradução nossa).

Se queremos de fato
renovar a nossa cultura já degradada, será necessário primeiramente desistir de nossas pretensões idolátricas de renovação do culto. Um culto que não se sustenta sobre as firmes bases das Escrituras, deixando espaço para a autonomia humana, produzirá eventualmente uma cultura também autônoma, que se opõe a tudo que está relacionado à Lei de Deus.

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos

Leia também: A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (parte 1)
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O cristão pode ser um esquerdista?

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Neste vídeo, de maneira breve, nosso irmão Filipe Machado apresenta dez razões pelas quais o cristão não pode ser um esquerdista. Assista:




Resumo - 10 razões pelas quais um cristão não pode ser esquerdista:
1. Porque promove o aumento do Estado;
2. Cria a ideia de luta de classes;
3. Demoniza o capitalismo;
4. Quer fazer boas obras, mas com o dinheiro dos outros;
5. Crê que o indivíduo não sabe cuidar de seus próprios interesses,     mas que o governo sabe;
6. Defende que se deve tirar do rico para dar ao pobre;
7. Não entende a Lei de Deus no Antigo Testamento;
8. Acredita que Jesus e os discípulos foram comunistas;
9. Distorce valores bíblicos como família, casamento e autoridade;
10. Não acredita na unidade das Escrituras.

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Autor: Filipe Machado
Fonte: 
Reforma hoje

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