Como interpretar Apocalipse?

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Introdução

Os debates sobre o livro de apocalipse são ad infinitum. Dentro da escatologia tupiniquim de nosso país os problemas ainda se agravam. Em geral, a escatologia brasileira é guiada e hipnotizada pelo sensacional e cinematográfico, em vez de ser guiada por uma análise séria do texto. 

Então, como devemos interpretar o Apocalipse de João? Literalmente? Simbolicamente? Ambos? As próprias regras hermenêuticas para a interpretação de textos apocalípticos em geral já responde nossa questão. Entretanto, uma análise cuidadosa do próprio texto esclarece para nós o caminho que devemos tomar. 

Neste breve artigo, veremos o significado e o pano de fundo de uma palavra logo no primeiro verso do livro. A palavra “semaino” (traduzida como notificar, na ARA) significando “comunicação por símbolos” será o objeto de nosso estudo. Não faremos uma análise exegética exaustiva, nem de Ap. 1.1, nem da sua alusão veterotestamentária, mas nos deteremos apenas na palavra semaino (para uma análise completa, ver Beale, 1999).

1. O significado de “semaino” (σημαίνω)

João inicia seu livro dizendo que é uma revelação (Ἀποκάλυψις) de Jesus Cristo, que pela mediação de um anjo, foi notificada a João (Ap. 1.1). A palavra que nós traduzimos como “notificou” (ἐσήμανεν) é o aoristo ativo do verbo σημαίνω. O léxico Inglês-Grego do NT traduz essa palavra como “fazer conhecer, comunicar, reportar, significar” (BAGD, 747). Todas essas definições trazem a ideia de comunicação, mas não especifica a natureza ou o modo dessa comunicação (Beale, 1999).

2. O pano de fundo de “semaino

Para entendermos com maior precisão o significado de semaino, precisamos analisar a clara alusão ao Antigo Testamento presente em Apocalipse 1.1. O texto alude a Daniel 2.28-30, 45. As cláusulas “revelação... Deus mostrou... o que deve acontecer... e fez conhecer (σημαίνω)” aparecem juntas somente em Dn. 2 e em Ap. 1.1 (Beale, ibid.).

O σημαίνω de Daniel 2 é a tradução grega do aramaico yĕda (fazer conhecer). O modus da comunicação é definido pelo contexto, que trata sobre uma visão como uma comunicação simbólica por intermédio de um sonho. Essa natureza simbólica da comunicação é atestada em Dn. 2.45:

Porquanto viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, o grande Deus faz saber (σημαίνω) ao rei o que há de suceder no futuro. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”.

O contexto fala sobre o sonho que o rei Nabucodonosor teve sobre uma estátua composta de quatro partes feitas de metais diferentes (ouro, prata, bronze e ferro). Daniel interpretou cada parte como sendo grandes reinos mundiais, mas que no fim, foram substituídos/derrotados pelo reino de Deus. A revelação dada ao rei babilônico não era abstrata, mas sim pictórica (
ibid.). 

Portanto, João ao escolher semaino em vez de “gnorizo” (fazer conhecer), faz isso intencionalmente (e não por acaso) demonstrando a natureza simbólica dessa comunicação (o livro de Apocalipse) que é definida pela alusão à Dn. 2.

3. O uso de “semaino” no restante do NT

Semaino” tipicamente traz a noção de comunicação por símbolos quando não tem o sentido mais geral de “fazer conhecer”, e ambos os sentidos são encontrados na LXX (Septuaginta). Dos outros cinco usos no NT, dois tem o sentido de “fazer conhecer” (At. 11.28; 25.27) ainda que um deles (11.28) tenha nuanças de comunicação simbólica (revelação simbólica do profeta).

Os três outros usos estão no evangelho de João (Jo. 12.33; 18.32; 21.19), resumindo a descrição pictórica de Jesus sobre a crucificação (ibid.). Esse evangelho usa o substantivo cognato “semeion” repetidamente para se referir aos milagres de Jesus como “sinais” ou “símbolos” de seus atributos e de sua missão (Ibid.).

4. O paralelo entre “semaino” e “deiknymi” em Ap. 1.1

A definição semântica de semaino como “comunicação por símbolos” é reforçada pelo seu paralelo com a palavra δείκνυμι (mostrar) no mesmo verso: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos...”. Embora essa palavra possa significar algum sinônimo de “fazer conhecer” em outras literaturas gregas, aqui ela tem o sentido de uma “revelação mediada por visões celestiais simbólicas comunicadas por um anjo (Beale, ibid.)”. O significado de “mostrar” para δείκνυμι é corroborado pelos outros sete usos dessa palavra em Apocalipse (4.1; 17.1; 21.9–10; 22.1, 6, 8). O que se é mostrado em cada uma delas é uma visão simbólica, e João escreve que ele “viu” (E eu vi - καὶ εἶδον) essas revelações pictóricas (p. ex. 17.3, 6; 21.22; 22.8; ibid.).

Conclusão

Tanto a semântica como o Background de semaino em Ap. 1.1 é de imensa importância para uma aproximação hermenêutica correta a esse livro. Alguns comentaristas presumem que Apocalipse algumas vezes explica o significado de suas imagens, e que, portanto, onde não há explicações, deve se interpretar conforme o sentido “natural/literal”, a menos que o contexto indique o contrário (Walvoord, Revelation, 30). Conclui-se disso que devemos interpretar Apocalipse literalmente, a menos que sejamos forçados pelo contexto a interpretá-lo simbolicamente. Entretanto, com a análise acima, concluímos exatamente o contrário. O material de Apocalipse é majoritariamente simbólico (no mínimo 1.12-20; 4.1-22.5). Obviamente algumas partes não são simbólicas, mas a essência do livro é figurativa (Ibid.). 

Greg Beale (op. cit.) demonstra que há quatro níveis de comunicação em Apocalipse: 1. Linguístico (o próprio texto); 2. Visionário (as experiências visionárias de João; 3. Referencial (que consiste numa identificação histórica específica dos objetos vistos na visão) e; 4. Simbólico (é o que os símbolos nas visões conotam sobre seu referencial histórico). Então, por exemplo, em Ap. 19.7-8 a descrição textual é o nível linguístico, que pode ser lido e/ou ouvido. As imagens da noiva e do linho fino são o que João viu no nível visionário. 3. No nível referencial, a figura do casamento da noiva com o noivo se refere ao regozijo atual dos cristãos em comunhão com Cristo, provavelmente após sua segunda vinda. Finalmente, o nível simbólico se refere ao que nós determinamos ser o sentido preciso da comunhão da noiva com o noivo e da imagem do casamento em geral (o linho fino é explicitamente interpretado como sendo os atos de justiça dos santos). Pelo menos parte desse simbolismo significa a união espiritual consumada da igreja com Cristo, em Sua presença, e a celebração jubilosa associada a essa união final (Beale).

Concluímos que o próprio autor de Apocalipse (João) determina logo no primeiro verso que devemos interpretar seu livro simbolicamente, a menos que o contexto explicitamente se mostre literal (como o autor, a ilha de Patmos, as sete igrejas, etc).     
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Bibliografia:

- Bauckham, Richard, "The theology of the Book of Revelation" (1993).
- W. Bauer, W. F. Arndt, F. W. Gingrich, and F. W. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament. Chicago: University of Chicago, 1979.
- Beale, G. K. (1999). The book of Revelation: a commentary on the Greek text. Grand Rapids, MI; Carlisle, Cumbria: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.
- "John´s use of the Old Testament in revelation",(1998).

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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Ser calvinista é ser reformado?

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Por Isaque Sicsú


Admito. Sou um teólogo que gosta bastante de definições, categorias e classes – aquilo que chamamos de taxonomia. Me perdoe o neologismo, mas sou quase um “taxonomólatra”. Gosto de ter meu pensamento teológico bem definido e bem classificado. Prefiro me referir ao “Arianismo”, do que falar genericamente de “um movimento teológico que afirma que Cristo não era plenamente divino, mas apenas a primeira criação do Pai”. Acho mais simples, mais rápido e economiza espaço.

Porém, nem tudo é “preto no branco” quando categorizamos o pensamento teológico. Muitas vezes, as definições acabam sobrepondo-se umas às outras. Por exemplo, quando falamos da Doutrina da Circunsessão, não necessariamente falamos da Pericoresis, apesar de geralmente serem conceitos tratados como sinônimos.

Um outro exemplo deste entrelaçamento categórico é a atribuição do termo “Reformado” ao teólogo calvinista e vice-versa. Graças a explosão dos ministérios de teólogos como John Piper, John MacArthur, Mark Driscoll, Mark Denver, C.J. Mahaney, e a turma do Gospel Coalition no EUA; bem como, Augustus Nicodemus, Mauro Meister e a turma da Editora Fiel no Brasil, convencionou-se classificar como “Reformado” aqueles que afirmam uma soteriologia calvinista. Desta forma, os termos “Reformado” e “Calvinista” são atualmente sinônimos.

Essa equiparação categórica produz bons e maus frutos. É bom porque localiza historicamente o calvinismo como um sistema teológico dissidente do movimento da reforma protestante no século XVI. Também, deixa claro o tipo de calvinismo em questão. Em dias em que todo mundo é calvinista, ou como prefiro nominar, “cover do John Piper”, essa equiparação mostra que o calvinismo em questão é aquele proveniente da reforma. Não é o Amiraldianismo (popularizado por Richard Baxter no século XVII), nem os vários tipos de calvinismo que são frutos de diversas revisões ao longo do tempo. Desta forma, reformado é o calvinista que afirma o calvinismo, por assim dizer, “puro”, de cinco pontos (TULIP), proveniente da reforma protestante.

Entretanto, essa equiparação pode trazer um problema sério, a saber, a perda dos elementos distintivos da teologia reformada. Uma vez que todo calvinista recebe o rótulo “reformado”, corremos o risco de classificar teólogos de outras tradições teológicas como “reformados”, simplesmente porque afirmam uma soteriologia calvinista.

Ao observamos a teologia dos reformadores, percebemos que não lidamos com uma definição soteriológica somente. Vemos que a teologia da reforma é muito mais um “pacote teológico” que também abrange as áreas da hermenêutica, eclesiologia e escatologia. Assim, um “reformado” no sentido clássico da definição é aquele que não somente afirma o calvinismo, mas também abraça o aliancismo como método hermenêutico; o pós ou amilenismo como sistema escatológico; e o presbiterianismo ou episcopalismo como modelo eclesiológico. O quadro resume:

Reformado Clássico
Novo Reformado
– Soteriologia calvinista
– Hermenêutica aliancista
– Escatologia amilenista ou pós-milenista
– Eclesiologia presbiteriana ou episcopal
– Soteriologia calvinista
– Hermenêutica diversa
– Escatologia diversa
– Eclesiologia diversa

Segundo essa nova definição de reformado, todos os calvinistas dispensacionalistas, calvinistas liberais, calvinistas pentecostais, calvinistas católicos (sim, existem católicos que afirmam o calvinismo. Duvida? Veja aqui), ou seja, qualquer calvinista de qualquer tradição é “reformado”. Há, também, quem diga que para ser “reformado” basta afirmar as 5 Solas distintivas da reforma. O que na minha visão, só piora as coisas, pois qualquer arminiano clássico afirma as 5 solas sem nenhum problema.

Essa generalização não é saudável pois descaracteriza a teologia da reforma, e dá margem para muita confusão. Assim, em nome do bom entendimento teológico (e alimentado meu vício por taxonomias), prefiro chamar de “reformado” somente o reformado clássico que abraça todo o pacote teológico da reforma; e os tais “Novos Reformados”, os chamo de calvinistas, pois teologicamente falando, é isso que de fato são.

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Fonte: Site do autor
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A Igreja, de fato, habitará no Céu?

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Por Roberto de Carvalho Forte


É comum, nos dias de hoje, em grande parte das igrejas, ao tratarem sobre a escatologia, afirmarem que quando Cristo vier, a igreja irá morar no céu. Há até mesmo muitas canções que declaram isto, e pelo fato de muitos não examinarem as Escrituras quanto a tudo o que ouvem, lêem ou cantam, acabam formando sua “teologia” baseada apenas em alguns clichês ou canções, e também por conta de uma forte influência do dispensacionalismo. O cantor Lázaro, em sua música “Morar No Céu”, declara enfaticamente: “Ainda bem que eu vou morar no céu”.

Anthony Hoekema, comenta: “A partir de certos hinos, temos a impressão de que os crentes glorificados passarão a eternidade em algum céu etéreo, em algum lugar no espaço, bem longe da terra”. [1]

Mas, afinal de contas, onde a igreja habitará?

O termo “morar no céu” certamente é citado por muitos por causa da passagem em João 14, que diz: Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. (v.2). Seria essa “morada de Deus” o céu, neste contexto? O versículo 23, deste mesmo capítulo, responde: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.”. O substantivo grego no singular μονή, e no plural μοναὶ, aparecem apenas duas vezes no NT, que correspondem à “morada” e “moradas”, respectivamente, e só são encontradas neste capítulo. Jesus disse aqui aos discípulos que subiria ao céu, mas não os deixariam órfãos, pois os enviariam o Consolador (v.16), e que faria morada nos crentes (v.23), e esta promessa já se cumpriu com a vinda do Espírito Santo. (Para um entendimento mais amplo sobre isto, sugiro a leitura de um artigo no site da Mackenzie, fonte no rodapé [2])

Mas o que vemos nas Escrituras são textos bíblicos que apontam para novo céu e nova terra, que é o caso de 2 Pe 3:13, que diz: “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.”. Jesus disse em Mateus 5: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (v.5). E ainda em Apocalipse 21, referindo à eternidade: E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.” (v.1). No AT, temos esta promessa em Isaías 65: “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão.” (v.17), e em Isaías 66: “Porque, como os novos céus, e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante da minha face, diz o Senhor, assim também há de estar a vossa posteridade e o vosso nome.” (v.22). 

Hoekema, comenta: “Existe uma passagem no livro de Apocalipse que fala acerca de nosso reinado sobre a terra: ‘Digno és [Cristo] de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra’ (Ap 5:9-10). Embora alguns manuscritos tragam o verbo ‘reinarão’ no tempo presente, os melhores textos trazem o tempo no futuro. O reinado sobre a terra dessa grande multidão redimida é representado aqui como a culminação da obra redentora de Cristo por seu povo.” [3]

A terra que hoje vivemos será restaurada, e não aniquilada. Como escreveu William Hendriksen: “Os céus e a terra que agora existem foram reservados para o fogo, de forma que logo os céus estarão queimando [..] serão dissolvidos e os elementos derreterão com calor fervente” [4]. E ele conclui: “O fogo não anulará o universo. Depois do fogo ainda existirão os mesmos ‘céus e terra’, mas gloriosamente renovados, como explicado em 2 Pe 3.13; Apocalipse 21:1-5.” [4]

Pedro, o apóstolo, escreve: “Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão [...] em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?”  (2 Pe 3:7,10,11,12). 

Depois dessa restauração, a nova Jerusalém (símbolo da Igreja de Cristo) descerá do céu à nova terra, “adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Ap 21:2) e reinará eternamente com Cristo.

Podemos afirmar, portanto, que não só teremos o céu na eternidade, mas habitaremos no Novo Céu e na Nova Terra, e Cristo será eternamente o Rei: “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.” (Apocalipse 21:3)

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Notas:
1 – A Bíblia e o Futuro, Anthony A. Hoekema, pág. 292.
2  Jesus e as moradas na casa do Pai: interpretando monai em João 14
3 – A Bíblia e o Futuro, Anthony A. Hoekema, pág. 300.
4 – A Vida Futura Segundo a Bíblia, William Hendriksen, pág. 257.

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Fonte: Bereianos
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O verdadeiro Israel

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Por Thiago Oliveira


Recentemente fui a uma igreja e vi um Pastor que lá pregava, exaltar o povo de Israel e dizer que eles são o legítimo povo de Deus. Este senhor, com mais de três décadas pastoreando, é com certeza um cooperador do Evangelho. Não julgo o seu ministério, apenas discordo de sua frase, que biblicamente está equivocada. Não é só ele que pensa assim. Um dia desses, num fórum sobre o atual conflito israelenses X palestinos, um cristão disse que o bombardeio a Gaza servirá para que todos vejam e glorifiquem o Deus de Abraão.

Este argumento que leva em consideração o Israel-étnico como sendo o povo da aliança que o SENHOR fez com Abraão está em total desacordo com o ensino contido em toda a Escritura. O equívoco do exclusivismo étnico, isto é, do nacionalismo soteriológico é muito comum em diversas igrejas e foi a pedra de tropeço dos judeus que rejeitaram a Cristo, por esperar um Messias político, que iria vencer os dominadores romanos e transformar a sua nação na mais exaltada sobre a face da terra. Por isso, se quisermos ter o reconhecimento de que somos o “povo da Bíblia”, devemos então rechaçar a ideia de que o atual Estado judeu abriga os escolhidos de Yaveh.

O Dispensacionalismo é o grande responsável por tantos equívocos. Esta linha escatológica (parte da Teologia que retrata os últimos acontecimentos) não tem dois séculos de existência, mas foi extremamente difundida entre as Igrejas. Seu ensino impreciso está presente em diversos materiais, incluindo as Bíblias de Estudo, tais como  Bíblia Anotada, a Dake, a Scofield, a Plenitude e a Pentecostal. Para apontar todos os erros dispensacionalistas, seria necessário um estudo específico apenas para fazermos tais apontamentos. Por isso, tratarei apenas sobre a questão do exclusivismo étnico. 

Antes de me aprofundar, gostaria de dizer que não sou antissemita. E também não estou me vangloriando pela lamentável condição daqueles que são israelenses, mas que estão fora da aliança. Tampouco afirmo que nenhum judeu foi, é e pode ser salvo e herdeiro da Pátria Celestial juntamente com Cristo. O que proponho neste breve texto é esclarecer o que é tão somente um ensinamento bíblico. A salvação nunca foi limitada a uma etnia. Deus chamou para si gente de todos os povos e para comprovar isso será necessário consultar a teologia do Antigo Testamento e também mergulhar nos dois principais autores neotestamentários.

A) A Salvação de Outros Povos no Antigo Testamento


Quando Deus faz a sua aliança com Abraão, a promessa foi que a partir de sua descendência seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12:3). Mesmo fazendo daquele homem uma nação, o SENHOR revela que o seu plano não é de salvar apenas a sua linhagem consanguínea. É tanto que quando Deus ordena a circuncisão como um sinal evidente da aliança, os estrangeiros são incluídos:

Gênesis 17:12 - O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo o homem nas vossas gerações; o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua descendência.

Êxodo 12:48 - Porém se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a páscoa ao Senhor, seja-lhe circuncidado todo o homem, e então chegará a celebrá-la, e será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela.

Obviamente, Israel foi uma nação privilegiada, pois dela veio a revelação, e isto inclui a Lei, o culto, a Escritura e o principal: Deus se fez carne e se fez homem-judeu. E foi em solo judaico que o sangue na cruz verteu, para perdoar os pecados de muitos. Vale ressaltar que os primeiros cristãos e líderes da Igreja foram judeus. No entanto, não era o fato de nascer judeu que dava automaticamente ao homem o direito de fazer parte da Congregação dos Santos. Vemos em todo o Antigo Testamento que muitos deles foram infiéis ao concerto e por este motivo, ficaram de fora das promessas. O exemplo mais claro disto está em Números 16, onde relata a morte de cerca de 15 mil pessoas, todos de descendência abraâmica. Morreram no meio do deserto porque foram infiéis. Antes deste episódio, Deus já havia decidido que aquela primeira geração que viveu no Egito não entraria na Terra Prometida, devido a sua incredulidade (Ex 14:23), a exceção foram Josué e Calebe. 

Lembremos do livro de Jonas, onde a salvação foi pregada aos ninivitas, um povo gentio e perverso. Lembremos de como Jonas ficou indignado com a salvação de uma nação composta por não-judeus. Ali, o exclusivismo nacionalista dava os seus sinais. Esta concepção era tão forte que mesmo após estarem com Cristo ressurreto, que durante 40 dias lhes falou acerca do Reino de Deus, os discípulos perguntaram se o reino terreno de Israel seria restaurado ainda naquela presente era (At 1:6).

Poderíamos aqui também citar Melquisedeque, que não era judeu e foi chamado sacerdote do Deus altíssimo (Gn 14:18), e por ter abençoado Abraão, demonstra a sua superioridade em relação ao patriarca hebreu. Outros exemplos de gentios que são apresentados como servos do SENHOR são Jó, homem fiel e temente a Deus, de nacionalidade desconhecida. Rute, que era moabita, mas entrou na genealogia messiânica. De igual modo, Raabe, a prostituta de Jericó que se converteu ao Todo-Poderoso e gerou aquele que se casaria com Rute, Boás, bisavô do Rei Davi (Mt 1:5). Se na linhagem do Messias, havia “sangue gentio”, isto revela então que o exclusivismo étnico é um erro crasso na interpretação da História redentora. 

B) Paulo Explica Quem São os Filhos de Abraão

Gálatas 3:7 e 29 - Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. (...) E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

O verso acima é o mais claro possível. Paulo, hebreu dentre os hebreus (Fl:3-5) é quem evidencia o que já foi dito anteriormente. O povo de Deus é composto por aqueles que possuem a fé na revelação, e Cristo é o ápice da revelação. Podemos ler acerca disto em outra de suas epístolas:

Romanos 4:16 ao 17 - Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós, (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.

Abraão é pai dos que creem no que ele creu, sejam estes judeus ou gentios. A nacionalidade não importa (Gl 3:28). Nem a circuncisão - o sinal da aliança veterotestamentária - faz mais sentido. Segundo Paulo, o que importa é ser nova criatura (Gl 6:15). E sabemos que apenas os que estão em Cristo são nascidos de novo e feitos nova criação (2Co 5:20). Se durante a antiga aliança a proporção de gentios incrédulos era tamanha, deixando-os de fora do Israel de Deus, agora pelo sangue de Cristo há uma aproximação e ambos, judeus e gentios, formam um mesmo povo (Ef 2:14).

Mesmo sendo conhecido como apóstolo dos gentios, Paulo frequentava a sinagoga nos locais que chegava e pregava primeiramente para os judeus. Porém a rejeição a Cristo era maior entre os seus patrícios. Agora, na nova aliança, a probabilidade é invertida, e há mais gentios na congregação dos santos do que judeus. Contudo, existe um remanescente fiel entre os israelitas. Deus não os rejeitou por completo. Entre os eleitos pela graça, também encontramos pessoas do Israel-étnico (Rm 11:5). Creio que o atual estado da grande maioria dos israelenses é de cegueira espiritual, pois a Bíblia assim o descreve, porém eu também creio que os israelenses eleitos soberanamente pelo Aba-Pai, continuam sendo adicionados ao Corpo de Cristo, formando o verdadeiro Israel. 

C) O Israel de Deus nos Escritos de João

João, o apóstolo amado, foi usado por Deus para escrever 5 livros do Novo Testamento. Em seu Evangelho, narra um episódio tenso entre Jesus e os mestres da Lei. O motivo da tensão, ao ponto de intentarem contra a vida de Cristo foi porque ele negou a filiação abraâmica dos seus ouvintes incrédulos. Além disso, falou que o verdadeiro pai daqueles que eram etnicamente israelitas, todavia, não tinham a fé que teve Abraão, era o Diabo (Jo 8: 39-44). Mais adiante (Jo 10:16) Jesus se apresenta como o bom pastor e fala das ovelhas de outro aprisco que por ele serão apascentadas. Estas ovelhas formam um rebanho e não dois paralelos. A Igreja precisa entender que não existe um tratamento diferenciado por parte do nosso Sumo Pastor. Há um só Israel composto por etnias distintas e todos receberão a mesma parcela do Reino Celestial.

Já em seu livro profético, o Apocalipse, João impelido pelo Senhor dirige-se a igreja de Esmirna e quando trata sobre a tribulação, acusa os que se dizem judeus, mas que não são (Ap 2:9), muito pelo contrário, por perseguirem o verdadeiro rebanho de Cristo, são chamados de “sinagoga de Satanás”. A semelhança com o relato de João 8 é perceptível. Os mesmos judeus recebem o mesmo nome pejorativo no capítulo 3, versículo 9, por fustigarem a igreja da Filadélfia.  

Na visão do trono de Deus, em que o livro da vida é apresentado, um cântico celestial é cantando:

Apocalipse 5:9 - E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação.

Conclusão

O povo adquirido por Deus não tem sangue judaico, apenas. Os que reinarão com Cristo na Jerusalém celestial são de diversas nacionalidades e culturas. O verdadeiro Israel é composto por povos vindos de todo o globo. Não existe um povo que esteja à parte de Jesus, o Salvador que possa reivindicar as promessas que o SENHOR fez ao povo da aliança. 

Louvado seja o Cordeiro de Deus, que com sua morte e ressurreição nos comprou para o louvor de sua glória. Aleluia!

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Fonte: Bereianos
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Jerusalém é a Terra Santa?

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Por Thiago Oliveira


Todos os anos, milhões de pessoas viajam para Jerusalém com o objetivo de conhecer os locais considerados sacros. Muitas igrejas evangélicas tentam ir, ao menos uma vez por ano, para Israel e dizem que a experiência mística é completamente diferente. Existem agências de viagem especializadas no turismo religioso para a “Terra Santa”. É um mercado bem explorado e rentável. Não nego que deve ser emocionante pisar nos mesmos lugares que Jesus e os Doze pisaram. Localidades que lemos sobre elas nos Evangelhos. Todavia, devemos ter o cuidado de não deixar que a emoção sobreponha a razão e negue algo que está claro nas Escrituras: Jerusalém não é uma terra santa.

Não existe respaldo bíblico para afirmarmos que exista um território físico, hoje, mais santo do que qualquer outra parte do planeta. Tal conclusão é um equívoco de uma promessa de Deus feita para seu povo. Quando olhamos para o conceito da “terra prometida” na Bíblia, temos que observá-la na perspectiva da redenção. Quando o pecado entrou no mundo, através do primeiro casal, não apenas o homem foi infectado, toda a terra foi. Deus disse a Adão: “Maldita é a terra por tua causa” Gn 3.17.

Se observarmos para os efeitos noéticos que o pecado causou em toda a terra, entenderemos melhor a promessa feita à Abraão (Gn 12.1). Um lugar especial entregue para os descendentes do patriarca hebreu foi reafirmado para Moisés, responsável por conduzir os hebreus do cativeiro Egípcio para Canaã (mas não entrou com eles), terra que mana leite e mel (Ex 3.8). Todavia, este local não era o único em que o Senhor habitava, não podemos restringir Deus a um pedacinho do mundo criado e governado por Ele. Afinal: “Ao Senhor, ao seu Deus, pertencem os céus e até os mais altos céus, a terra e tudo o que nela existe.” Dt 10:14.

Temos que entender que a posse desta terra dada aos hebreus, serve como mais uma das tipologias da antiga aliança. Abraão não seria apenas herdeiro de um pedaço de chão na Palestina, ele seria herdeiro do mundo (Rm 4.13). E assim ele se torna pai de muitas nações (Rm 4.16-17) e não apenas dos judeus. Canaã, e mais especificamente Jerusalém, cumpriu um papel de “sombra” para aquilo que na nova aliança se tornaria realidade. Da mesma forma que o tabernáculo, a lei, o sacerdócio e os sacrifícios não tinham um fim em si mesmo, mas apontavam para a plenitude da pessoa e do ministério de Cristo, assim também devemos entender a questão da terra. O próprio Abraão entendeu que embora a posse da terra fosse algo que aconteceria de maneira factível, ele já havia compreendido que empossar-se dela era um indicativo de que herdaria algo maior. Além de antever a Jerusalém terrena, ele anteviu, creu e ansiou pela Jerusalém celestial (Hb 11.16). 

Em Isaías 19:18-25 temos uma predição de futuro que abraça a ideia da redenção do mundo  e qual o papel de Israel nisso. A Salvação chegará ao Egito e lá será um centro de adoração a Deus (vs. 18 e 19). Isto é uma representação da salvação do mundo gentílico. Israel será mediador deste plano, pois vem dela o Salvador (Jo 4.22). O profeta fala de uma estrada que será construída do Egito até a Assíria (v. 23). Tal estrada é um caminho que corta Jerusalém, e os egípcios passarão para a Assíria e os assírios passarão para o Egito para cultuarem juntos. Reparem que Jerusalém não é tida como o centro da adoração. Os dois povos representando o mundo gentio ganham o status que pertencem a Israel “benção” e “obras de minhas mãos” (v.25). Assim Israel cumpriu o seu propósito de que por meio dela, seriam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 22.18). Assim todos que estavam distantes agora estão perto (Ef 2.14-17).

Atualmente vemos o cenário de guerra em que vive a nação de Israel. Eles reclamam para si aquele território físico e fazem dele o objeto final da promessa que Deus fez lá no passado para Abraão. Isto é uma demonstração do endurecimento em que ainda vivem muitos judeus, os quais negam que Cristo seja o Messias que as Escrituras apontavam. Tal como no tempo dos Macabeus ou no tempo dos Zelotes, os israelenses querem um Messias político que reine com eles na Palestina. Esta negação é um retrocesso, pois exige a continuação da antiga e limitada aliança. Estar debaixo de uma ordenança da antiga aliança é desprezar a obra de Cristo. Paulo exemplifica isso ao tratar da circuncisão, outra “sombra” da antiga aliança: “Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá” Gl 5.2.

Ademais, a aliança é condicional (Ex 19.5). A terra não é um presente de Deus para os ímpios, mas para os justos (vide Sl 37), a justificação veio por meio da fé em Cristo, então apenas os crentes no Senhor Jesus são, mediante a graça divina, considerados justos (Rm 3.21-26). Também devemos alertar para o que o apóstolo Paulo falou acerca de Jerusalém, quando traçou o comparativo entre os dois filhos de Abraão: Ismael, o filho da escrava Hagar e Isaque, o filho da livre, que é Sara: “Hagar representa o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à atual cidade de Jerusalém, que está escravizada com os seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre, e essa é a nossa mãe” Gl 4.25-26. 

Portanto, podemos concluir que Jerusalém não é a terra santa e que este adjetivo não mais lhe cabe. Enquanto, nos moldes da antiga aliança, o Templo situado no centro da Cidade era o local em que estava a Shekinah, o título era adequado. Mas o Senhor tirou a Sua glória do Templo antes da chagada dos babilônicos (vide Ez 10) e mesmo após ter restaurado a glória da segunda casa (Ag 2.9), Jesus rasgou o véu do Templo (Mt 27.51) e este foi novamente destruído no ano 70 pelos romanos. Hoje a glória do Senhor está naqueles que O adoram, nem em Jerusalém e nem em Samaria, mas em Espírito e em Verdade (Jo 4.23-24). Deus, em Cristo, redimiu toda a terra que Adão maculou. Aguardemos então a verdadeira Jerusalém, santa e imaculada, no qual Jesus é o Senhor e que foi revelada a João, o apóstolo amado. Lá:

- Deus estará presente, habitando no meio do Seu povo (Ap 21.3).

- Não haverá morte, nem sofrimento, nem dor (Ap 21.4).

- Teremos acesso direto a fonte da vida (Ap 21.6).

- Não será preciso santuário, pois a glória do SENHOR iluminará todo o local (Ap 21. 22-24).

- Não terá nada contaminado pelo pecado (Ap 21.27).

- Nesse lugar, o fruto da árvore da vida, negado a Adão e Eva, enfim nos será dado (Ap 22. 2).

- A maldição será totalmente abolida do meio do povo remido (Ap 22.3).

Maranata! Ora, vem Senhor Jesus! (Ap 22.20)

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Fonte: Bereianos
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Academia em Debate 42 - Escatologia

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Neste vídeo o Rev. Augustus Nicodemus Lopes Entrevista o Rev. Leandro Lima e o Rev. Heber Carlos de Campos Jr. sobre o Fim do Mundo (Escatologia). Assista:



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Fonte: Academia em Debate - TV Mackenzie
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Bate Papo Reformado com Rev. Augustus Nicodemus Lopes (Questão 6)

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O presente vídeo é o sexto da série: "Bate Papo Reformado" com: Rev. Augustus Nicodemus Lopes. A série é composta por 12 vídeos. 

Questão 6:

Escatologia. No Brasil há o predomínio do dispensacionalismo, defendido pela maioria dos pentecostais e muito empregado por adeptos de teorias conspiratórias. Todavia, reformados, adotam, geralmente, o amilenismo ou o pós-milenismo. Por que esses dois (ou apenas um, no seu caso seria o amilenismo) tem maior respaldo bíblico?



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- Veja também a questão 1
- Veja também a questão 2
- Veja também a questão 3
- Veja também a questão 4
- Veja também a questão 5

Paralelismo progressivo: interpretando corretamente o Apocalipse

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Por William Hendriksen (1900/1982)


Análise Geral.

I – As Sete Seções Paralelas.

1. Cristo no meio dos candeeiros (1:1-3:22)

O tema dos três primeiros capítulos do Apocalipse parece ser Cristo no meio dos sete candeeiros de ouro. Esses candeeiros representam as sete Igrejas (1:20). A cada Igreja João é levado a escrever uma carta (ver capítulos 2 e 3). Como esse número sete ocorre muitas vezes no Apocalipse, e é em todo lugar um símbolo daquilo que é completo, podemos ter como certo, com segurança, que esse é o caso aqui, e que ele indica a Igreja toda através de todo e espectro de sua existência até o próprio fim do mundo. Assim interpretada cada Igreja em particular é, por assim dizer, um tipo, não indicando um período definido na História, mas descrevendo condições que são constantemente repetidas na vida de diversas congregações. [1] Assim, essa seção parece perpassar toda a dispensação, da primeira vinda de Cristo para salvar o seu povo (1:5) à sua segunda vinda para julgar todas as nações (1:7). A última das sete cartas é escrita à Igreja em Laodicéia. É evidente que o capítulo 4 introduz um novo assunto – ainda que intimamente relacionado.

2. A visão do céu e dos selos (4:1-7:17)

Os capítulos 4-7 constituem a próxima divisão natural do livro. O capítulo 4 descreve aquele que está sentado no trono e a adoração daqueles que o cercam. Na mão direita do Senhor há um livro selado com sete selos (5:1). O Cordeiro toma esse livro e recebe adoração. Do capítulo 6 aprendemos que o Cordeiro abre os selos um a um. Entre o sexto e o sétimo selo temo a visão dos cento e quarenta e quatro mil que foram selados da incontável multidão postada ante o trono.

Deve-se notar cuidadosamente que essa seção também cobre toda a dispensação, da primeira à segunda vinda de Cristo. A primeira referência a Cristo retrata-o como sendo imolado, e, agora, como governando dos céus (5:5,6). Próximo do fim dessa seção é apresentado o juízo final. Observe a impressão da segunda vinda sobre os não-crentes:

“...e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós, e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono, e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (6:16,17).

Agora, observe a bem-aventurança dos crentes:

“Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vinda. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (7:16,17).

Esse é um retrato da Igreja triunfante toda, ajuntada de todas as nações e assim, em sua inteireza, postada diante do trono e diante do Cordeiro – um ideal que não é entendido até o dia da grande consumação. Temos, assim, perpassado toda a era do evangelho.

3. As sete trombetas (8:1-11:19)

A seção seguinte consiste dos capítulos 8-11. Seu tema central é: as sete trombetas que afetam o mundo. O que acontece com a Igreja é descrito nos capítulos 10 e 11 (o anjo com um pequeno livro, as duas testemunhas). Também, no fechamento dessa seção há uma clara referência ao juízo final.

“O sétimo anjo tocou a trombeta e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo tornou-se de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos... Na verdade, as nações se enfureceram; chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, assim aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que destroem a terra” (11:15-18).

Tendo alcançado o fim da dispensação, termina a visão.

4. O dragão perseguidor (12:1-14:20)

Tudo isso nos leva aos capítulos 12-14: a mulher e o “filho varão” perseguidos pelo dragão e seus auxiliares. Essa seção também cobre toda a dispensação. Começa com uma clara referência ao nascimento do Salvador (12:5). O dragão ameaça devorar o filho varão. O filho é carregado para Deus e para o seu trono. O dragão, agora, persegue a mulher (12:13). Como seus agentes, ele emprega a besta que vem do mar (13:1), a besta que vem da terra (13:11,12) e a grande meretriz, Babilônia (14:8). Essa seção, também, termina com uma inspiradora descrição da segunda vinda de Cristo, para julgamento:

“Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de outro e na mão uma espada afiada... E aquele que estava sentado sobre a nuvem passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada” (14:14-16).

5. As sete taças (15:1-16:21)

A seção seguinte compreende os capítulos 15 e 16, e descreve as taças de ira. Aqui, também, temos uma referência clara ao juízo final a aos eventos que ocorrerão em conexão com ele. Assim, lemos em 16:20:

“Toda a ilha fugiu e os montes não foram achados”.

6. A queda da Babilônia (17:1-19:21)

A seguir vem uma descrição vívida da queda da Babilônia e a punição infligida sobre a besta e o falso profeta. Observe a figura de Cristo vindo para julgar (19:11ss.).

“Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro, e julga e peleja com justiça”.

7. A grande consumação (20:1-22:21)

Isso nos leva a seção final, capítulos 20-22, pois Apocalipse 20:1 definitivamente começa com uma nova seção e introduz um novo assunto. [2] Esse novo assunto é a condenação do diabo. Uma comparação, sobretudo, com o capítulo 12 revela o fato de que, ao início do capítulo 20, estamos mais uma vez no limiar de nova dispensação. Enquanto em 12:9 nos é dito que, em conexão com a ascensão e a coroação de Cristo, o diabo é lançado à terra, aqui em 20:2,3, lemos que ele é preso por mil anos, sendo depois lançado no abismo. Os mil anos são seguidos por um tempo curto durante o qual Satanás é solto de sua prisão (20:7). Isso, por sua vez, é seguido da descrição da derrota final de Satanás em conexão com a vinda de Cristo para julgamento (20:10,11ss.). Nessa vinda, o presente universo, passando, deixa lugar para os novos céus e a nova terra, a nova Jerusalém (20:11ss.).

Uma leitura cuidadosa do livro do Apocalipse mostra claramente que o livro consiste de sete seções, e que essas sete seções correm paralelas umas às outras. Cada uma delas abarca toda a dispensação, da primeira à segunda volta de Cristo. Esse período é visto ora de uma perspectiva, ora de outra. [3]

II – Outros Argumentos em Favor do Paralelismo.

Há uma outra linha de raciocínio que confirma nossa posição de que cada uma das sete seções se estende do começo ao fim da nova dispensação e de que as sete correm paralelas umas às outras. [4] Diferentes seções atribuem a mesma duração ao período descrito. De acordo com o terceiro ciclo (capítulos 8-11), o maior período aqui descrito é de quarenta e dois meses (11:2), ou mil duzentos e sessenta dias (11:3). Agora, é um fato admirável que encontremos esse mesmo período de tempo na seção seguinte (capítulos 12-14), a saber, mil duzentos e sessenta dias (12:6), ou um tempo, dois tempos e metade de um tempo (3 ½ anos) (12:14). As três designações – quarenta e dois meses, mil duzentos e sessenta dias e um tempo, dois tempos e metade de um tempo – são equivalentes exatos. Assim, a seção das trombetas (capítulos 8-11) deve correr paralela à que descreve a batalha entre Cristo e o dragão (capítulos 12-14).

Um estudo cuidadoso do capítulo 20 revela que ele descreve um período sincrônico com o capítulo 12. Dessa forma, mediante esse modo de raciocínio, fica demonstrado o paralelismo.

Cada seção oferece-nos uma descrição de toda a era do evangelho, da primeira à segunda vinda de Cristo, e é fundada na História de Israel sob a antiga dispensação, à qual faz freqüentes referências.

Temos dito que a seção sobre as trombetas (capítulos 8-11) é paralela à seção sobre a mulher e o dragão (12-14) e à seção final (20-22), que também se estende além dela (21,22). Provaremos, agora, que essa mesma seção (capítulos 8-11) tem toda a aparência de ser paralela à das taças de ira (capítulos 15, 16). Observe, portanto, que a primeira trombeta (8:7) afeta a terra; o mesmo que a primeira taça (16:2). A segunda trombeta afeta o mar; o mesmo que a segunda taça. A terceira trombeta se refere aos rios; o mesmo com respeito à terceira taça. A quarta, em ambos os casos, se refere ao sol. A quinta se refere ao grande abismo ou ao trono das bestas, a sexta ao Eufrates, e a sétima à segunda vinda para juízo. [5]

Novamente, observe que a quarta seção (capítulos 12-14) apresenta, como os inimigos de Cristo e da sua igreja, o dragão, as duas bestas e a grande prostituta (Babilônia). Esses surgem juntos. É natural, portanto, inferir que eles caiam juntos. Isso se torna claro quando entendemos que o significado da besta e da grande prostituta, Babilônia, é o seguinte: A besta que sobe do mar é a perseguição que o dragão promove contra os cristãos, corporificada nos governos mundiais e dirigida contra o corpo dos crentes. Nos dias de João isso era feito pelo governo romano.

A besta que surge da terra é a religião anticristã de Satanás que objetiva enganar a mente e escravizar a vontade dos crentes. No tempo em que essas visões apareceram a João, essa besta estava incorporada na religião pagã e no culto ao imperador de Roma.

A grande prostituta, Babilônia, é a sedução anticristã que tentou roubar o coração e perverter a moral dos crentes. Nesse tempo a prostituta se revela como a cidade de Roma. Assim, quando Satanás cai, as bestas e a prostituta também caem. Eles sobem juntos; eles também caem juntos. A sexta seção (capítulos 17-19) descreve a queda da grande prostituta, Babilônia (capítulos 17,18) e das bestas (19:20), enquanto o sétimo ciclo descreve a queda de Satanás (20:10) e sua derrota final no dia do juízo. O juízo final sobre os quatro inimigos – o dragão, a besta que vem do mar, a besta que vem da terra e a grande prostituta – é descrito em duas seções separadas. Assim, essas duas devem ser paralelas. Cada uma descreve um período que se estende até o conflito final, o mesmo último julgamento quando os inimigos de Cristo e de sua Igreja receberão sua final e eterna punição. [6]

Nessa mesma relação há outro forte argumento que defende a posição de que as seções correm paralelas, assim como cada uma delas termina com a vinda do Senhor para juízo. A evidência a que nos referimos agora é obscurecida pela tradução. A seção sobre as taças de ira (15,16) termina com uma referência a uma batalha. (Ver 16:14, onde o conflito é chamado a batalha do grande dia de Deus, o Todo-poderoso.) A seção seguinte (capítulos 17-19), de novo, termina com a mesma cena de batalha. (Ver 19:19) Conforme o original, essa é a mesma batalha mencionada em 16:14, pois ali lemos:

“congregaram-se para pelejar contra ele”.

Finalmente, no fechamento da seção (capítulos 20-22), lemos mais uma vez:

“a fim de reuni-los para a peleja”. (Ver 20:8)

Todas as três seções, portanto, descrevem eventos que se dirigem à mesma grande batalha de Jeová. Elas são paralelas.

As sete seções são paralelas. Nosso argumento final para apoiar a posição paralelística é o fato de que encontramos exatamente a mesma coisa nas profecias de Daniel, que têm sido chamadas de Apocalipse do Antigo Testamento. Desse modo, as partes do sonho de Nabucodonosor (capítulo 2) correspondem exatamente às quatro bestas do sonho de Daniel (capítulo 7). [7] O mesmo período é coberto duas vezes, e visto de diversas perspectivas.

A divisão do Apocalipse em sete seções [8] é preferida por muitos autores, embora não haja unanimidade com respeito aos limites exatos de cada seção. [9] Nós preferimos a divisão dada, com pequenas variações, por L. Berkhof, S. L. Morris, B. B. Warfield e outros. É a mais natural. É claramente provida pelo próprio livro, cada seção findando, como temos demonstrado, no mínimo com uma referência à vinda de Cristo para Juízo. Isso é verdadeiro mesmo com respeito à seção final (capítulos 20-22; ver 22:20), embora vá além do juízo final, descrevendo o novo céu e a nova terra (cf. 7:9ss.). Sobretudo, se interpretada dessa forma, cada seção incorpora um tema que pode ser facilmente distinguido dos outros. Nossa divisão é a seguinte:

1. Cristo no meio dos sete candeeiros de ouro (1-3).
2. O livro com os sete selos (4-7).
3. As sete trombetas de juízo (8-11).
4. A mulher e o filho perseguidos pelo dragão e seus auxiliares (a besta e a prostituta) (12-14).
5. As sete taças de ira (15,16).
6. A queda da grande prostituta e das bestas (17-19).
7. O julgamento do dragão (Satanás) seguido pelo novo céu e nova terra, a Nova Jerusalém (20-22).

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Notas:
[1] Ver W. Milligan, The Book of Revelation (Expositor's Bible),VI, p.836; E. H. Plumptre, The Epistles to the Seven Churches, p. 9; W. M. Ramsay, The Letters to the seven Churches of the Asia, pp. 30, 177ss.; R. C. Trench, Commentary on the Epistles to the Seven Churches in Asia, pp. 59ss.; C. F. Wishart, The Book of Day, p. 22.
[2] Ver Capítulo Quatorze, p. 245.
[3] Essa, visão, de uma forma ou de outra, é adotada por R. C. H. Lenski, op. cit., pp. 216, 240, 350, 358; S. L. Morris, The Drama of Christianity, p. 26; M. F. Sadler, The Revelation of St. John the Divine, pp. xvi.ss. Ver, além desses, B. B. Warfield, Biblical Doctrines, pp. 645, 661.
[4] Embora as visões descrevam a nova dispensação, elas têm a antiga dispensação como ponto de partida. Cf., por exemplo, 12:1-4; 17:10; 20:3 (“para que não mais enganasse as nações”).
[5] S. L. Morris, op. cit., p. 64.
[6] R. C. H. Lensk, op. cit., p. 553.
[7] S. L. Morris, op. cit., p. 27; W. M. Taylor, Daniel the Beloved, p. 124.
[8] Para um de muitos sistemas de divisão, ver H. B. Swete, The Apocalypse of St. John, pp. xxxiii e xliv.
[9] Os diversos sistemas de divisão nessas sete seções serão encontradas em L. Berkhof, op. cit., p. 339; H. B. Swete (para a divisão de Ewald), op. cit., p. xlv; P. Mauro, The Patmos Visions, pp. 11ss.; W. Milligan, op. cit., passim; S. L. Morris, op. cit., p. 29; M. F. Sadler, op. cit., pp. xviss.; C. F. Wishart, op. cit., p. 30; B. B. Warfield, op. cit., p. 645 nota.

Sobre o autor: William Hendriksen (1900-1982) (Th.D., Princeton Theological Seminary) foi professor de literatura do Novo Testamento no Calvin Theological Seminary.

Fonte: Mais que Vencedores,  William Hendriksen. Editora Cultura Cristã, 2011, p. 25-28. 

Via: Amilenismo
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