Fé: Dom de Deus ou não (Efésios 2.8)?

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Por William Hendriksen 


Pela graça vocês foram salvos ... Para sua explicação, ver supra sobre o versículo 5. Ele prossegue: por meio da fé; e isto não vem de vocês, (é) o dom de Deus ...

Há três explicações que merecem consideração:

(1) A que A.T. Robertson oferece. Comentando sobre esta passagem em seu Word Pictures in the New Testament, Volume 4, página 525, ele declara: “Graça é a parte de Deus; fé, a nossa.” Ele acrescenta ainda: já que no original o demonstrativo “isto” (e isto não vem de vocês mesmos) é neutro e não corresponde ao gênero da palavra “fé”, que é feminina, não se refere à última, “porém ao ato de ser salvo pela graça condicionada à fé que é parte nossa”. Ainda mais claramente: “Em Efésios 2.8 ... não há referência a [dia pisteos] [por meio da fé] nem [pouto] [isto], mas, antes, à idéia de salvação, da sentença anterior.

Sem qualquer hesitação respondo a Robertson, a quem os eruditos do Novo Testamento do mundo inteiro estão indiscutivelmente em dívida, que neste caso não se expressa de forma muito feliz. Estou convicto disto, primeiro porque, num contexto em que o apóstolo põe tão forte ênfase sobre o fato de que, do começo ao fim, o homem deve sua salvação a Deus, e tão-somente a ele, teria sido muito estranho, sem dúvida, que ele diga: “Graça é a parte de Deus; fé, a nossa.” De fato, embora tanto a responsabilidade de crer quanto também sua atividade sejam nossas, visto que Deus não pode crer por nós, não obstante, no presente contexto (vs. 5-10), se esperaria ênfase sobre o fato de que, seja em seu início seja em seu seguimento, a fé é inteiramente dependente de Deus, bem assim nossa salvação plena. Em segundo lugar, Robertson, como gramático famoso em sua área, sabia que, no original, o demonstrativo (isto), embora neutro, nem sempre pode corresponder em gênero ao seu antecedente. Que ele tinha conhecimento disso demonstra-se pelo fato de que, na página indicada de sua gramática (p. 704), ele realça que “em geral” o demonstrativo “concorda com o substantivo em gênero e em número”. Quando diz “em geral”, ele quer dizer “nem sempre, e sim na maioria das vezes”. Portanto, ele deveria ter considerado mais seriamente a possibilidade de que, pela natureza do contexto, aplica-se a exceção à regra, exceção que de forma alguma é rara. Ele deveria ter feito tal concessão.[60] Finalmente, ele deveria ter justificado o silêncio que manteve sobre a regra que determina que, a menos que haja uma forte razão para agir de outra maneira, deve-se buscar o antecedente na vizinhança imediata do pronome ou adjetivo ao qual se refere.

(2) A apresentada, entre outros, por F.W. Grosheide. Em sua opinião, as palavras “e isto não vem de vocês mesmos” significam “e isto – de ser salvos pela graça mediante a fé – não vem de vocês mesmos”, porém é o dom de Deus. Já que, segundo essa teoria – também endossada, ao que parece, por João Calvino, em seu comentário –, a fé está inclusa no dom, nenhuma das objeções contra a teoria (1) se aplica à teoria (2).

Significa, pois, que o item (2) é inteiramente satisfatório? Não necessariamente. Isto nos leva a...

(3) A definida por A. Kuyper pai, em seu livro Het Werk van den Heiligen Geest (Kampen, 1927), pp. 506-514. Embora o Dr. Kuyper não seja o único defensor desta teoria, todavia provavelmente sua defesa seja a mais detalhada e vigorosa. Em suma, a teoria pode ser apresentada assim: As palavras de Paulo podem ser assim parafraseadas: “eu tenho o direito de falar sobre as ‘riquezas infinitas de sua graça’ visto que, indubitavelmente, é pela graça que vocês são salvos, através da fé; e a fim de que não comecem agora a dizer: ‘Mas então merecemos crédito, pelo menos por crermos’, acrescentarei imediatamente que, mesmo esta fé (ou: mesmo este exercício da fé), não vem de vocês mesmos, mas é dom de Deus.” 

Com variações quanto a detalhes, esta explicação foi favorecida por grande parte dos seguidores da tradição patrística. Entre os que a apoiavam se encontram também Beza, Zanhius, Erasmo, Hugo de Groot (Grotius), Bengel, Michaelis, entre outros. É partilhada também por Simpson (op. cit. p. 55) e por Van Leenwen e Greijdanus em seus comentários. H.C.G. Moule (Ephesians Studies, Nova York, 1900, pp. 77, 78) a endossa, com a seguinte qualificação: “Devemos explicar touto [isto] como se referindo não precisamente ao substantivo feminino pístis [fé], mas ao fato de exercermos nossa fé.” Além disso, talvez não seja exagero dizer que a explicação oferecida é também partilhada pelo homem comum que lê 2.8 em sua Bíblia. Salmond, depois de apresentar várias provas em favor dessa teoria, especialmente essa que diz que “a fórmula kai touto poderia antes favorecê-la, já que amiúde acrescenta algo à idéia à qual está ligada”, termina separando-se dela porque “a salvação é a idéia principal na declaração precedente”, fato que, sem dúvida, os defensores de (3) não estão dispostos a negar, porém não há dúvida de que vigorosamente a afirmam, porém que não é um argumento válido contra a idéia de que a fé, tanto quanto tudo o que inclui a salvação, é dom de Deus. Portanto, não é um argumento válido contra (3).

Estou convencido de que a teoria (3) é a explicação mais lógica da passagem em questão. Provavelmente o melhor argumento em seu favor seja este: Se Paulo quis dizer: “Pela graça vocês foram salvos mediante a fé, e este ‘ser salvo’ não vem de vocês mesmos”, ele teria sido culpado de repetição desnecessária – pois que outra coisa é a graça, senão a que procede de Deus e não de nós mesmos? –, uma repetição que se faz ainda mais prolixa quando agora (supostamente) ele acrescenta: “ela, isto é, a salvação, é o dom de Deus”, seguida de uma quarta e uma quinta repetição, ou seja, “não de obras, porque somos obra de suas mãos”. Não surpreende que o Dr. A. Kuyper declare: “Se o texto reza: ‘Pela graça vocês foram salvos, não vem de vocês mesmos, é obra de Deus’, isto faria algum sentido. No entanto, ao dizer primeiro: ‘Pela graça vocês foram salvos’, e então, como se surgisse algo novo, acrescenta: ‘e este ser salvo não vem de vocês mesmos’, é algo que não soa bem, mas é como se fosse um som produzido por pancada oca ... E enquanto que, com essa interpretação, tudo procede em obediência a vertigens e impulsos, tornando-se ricocheteantes e redundantes, nós seguimos os antigos intérpretes da igreja de Cristo, o que torna tudo excelente e significativo.”[61] Esta, ao que me parece, é também a refutação da teoria (1) e, até certo ponto, da teoria (2).

Basicamente, contudo, as teorias (2) e (3) enfatizam a mesma verdade, ou seja, que o crédito para todo o processo de salvação deve ser conferido a Deus, de modo que o homem perde toda a razão de se vangloriar, e é precisamente o que Paulo afirma nas palavras que vêm em seguida, a saber: 9,10. não de obras, para que ninguém se vanglorie.

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Notas:
[60] Ainda que Lenski chame a declaração de Robertson (“graça é a parte de Deus; fé, a nossa”) de displicente, por outro lado sua própria explicação (op. cit. p. 423), na qual baseia tudo no fato de que tou/to é neutro, porém pi,stij é feminino, basicamente é o mesmo que faz Robertson.
[61] No tocante à gramática, existem vários casos citados por Kuyper nas obras de Platão, Xenofontes e Demóstenes em que se usa touto para indicar um antecedente masculino ou feminino. Também cita o seguinte de uma gramatica grega: "É muito comum o uso de um pronome demonstrativo neutro para indicar um antecendente substantivo do gênero masculino ou feminino quando a ideia dada pelo substantivo é mencionada num sentido geral". A citação é da obra de Kuhnhert. Ausfuhliche Grammatik der Griech. sprache (Hanover, 1870). vol II, p. 54.

Fonte: Comentário do Novo Testamento - Efésios e Filipenses - 2ª Ed. - São Paulo: Cultura Cristã, 2005; págs. 144-147

Nota do Blog Bereianos: Para a continuação da análise sobre o tema, recomendamos a leitura do excelente artigo "Efésios 2:8 - A fé é um dom!", escrito por André R. Fonseca do blog Teologia et cetera. Para ler, clique aqui!
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Paralelismo progressivo: interpretando corretamente o Apocalipse

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Por William Hendriksen (1900/1982)


Análise Geral.

I – As Sete Seções Paralelas.

1. Cristo no meio dos candeeiros (1:1-3:22)

O tema dos três primeiros capítulos do Apocalipse parece ser Cristo no meio dos sete candeeiros de ouro. Esses candeeiros representam as sete Igrejas (1:20). A cada Igreja João é levado a escrever uma carta (ver capítulos 2 e 3). Como esse número sete ocorre muitas vezes no Apocalipse, e é em todo lugar um símbolo daquilo que é completo, podemos ter como certo, com segurança, que esse é o caso aqui, e que ele indica a Igreja toda através de todo e espectro de sua existência até o próprio fim do mundo. Assim interpretada cada Igreja em particular é, por assim dizer, um tipo, não indicando um período definido na História, mas descrevendo condições que são constantemente repetidas na vida de diversas congregações. [1] Assim, essa seção parece perpassar toda a dispensação, da primeira vinda de Cristo para salvar o seu povo (1:5) à sua segunda vinda para julgar todas as nações (1:7). A última das sete cartas é escrita à Igreja em Laodicéia. É evidente que o capítulo 4 introduz um novo assunto – ainda que intimamente relacionado.

2. A visão do céu e dos selos (4:1-7:17)

Os capítulos 4-7 constituem a próxima divisão natural do livro. O capítulo 4 descreve aquele que está sentado no trono e a adoração daqueles que o cercam. Na mão direita do Senhor há um livro selado com sete selos (5:1). O Cordeiro toma esse livro e recebe adoração. Do capítulo 6 aprendemos que o Cordeiro abre os selos um a um. Entre o sexto e o sétimo selo temo a visão dos cento e quarenta e quatro mil que foram selados da incontável multidão postada ante o trono.

Deve-se notar cuidadosamente que essa seção também cobre toda a dispensação, da primeira à segunda vinda de Cristo. A primeira referência a Cristo retrata-o como sendo imolado, e, agora, como governando dos céus (5:5,6). Próximo do fim dessa seção é apresentado o juízo final. Observe a impressão da segunda vinda sobre os não-crentes:

“...e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós, e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono, e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (6:16,17).

Agora, observe a bem-aventurança dos crentes:

“Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vinda. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (7:16,17).

Esse é um retrato da Igreja triunfante toda, ajuntada de todas as nações e assim, em sua inteireza, postada diante do trono e diante do Cordeiro – um ideal que não é entendido até o dia da grande consumação. Temos, assim, perpassado toda a era do evangelho.

3. As sete trombetas (8:1-11:19)

A seção seguinte consiste dos capítulos 8-11. Seu tema central é: as sete trombetas que afetam o mundo. O que acontece com a Igreja é descrito nos capítulos 10 e 11 (o anjo com um pequeno livro, as duas testemunhas). Também, no fechamento dessa seção há uma clara referência ao juízo final.

“O sétimo anjo tocou a trombeta e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo tornou-se de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos... Na verdade, as nações se enfureceram; chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, assim aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que destroem a terra” (11:15-18).

Tendo alcançado o fim da dispensação, termina a visão.

4. O dragão perseguidor (12:1-14:20)

Tudo isso nos leva aos capítulos 12-14: a mulher e o “filho varão” perseguidos pelo dragão e seus auxiliares. Essa seção também cobre toda a dispensação. Começa com uma clara referência ao nascimento do Salvador (12:5). O dragão ameaça devorar o filho varão. O filho é carregado para Deus e para o seu trono. O dragão, agora, persegue a mulher (12:13). Como seus agentes, ele emprega a besta que vem do mar (13:1), a besta que vem da terra (13:11,12) e a grande meretriz, Babilônia (14:8). Essa seção, também, termina com uma inspiradora descrição da segunda vinda de Cristo, para julgamento:

“Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de outro e na mão uma espada afiada... E aquele que estava sentado sobre a nuvem passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada” (14:14-16).

5. As sete taças (15:1-16:21)

A seção seguinte compreende os capítulos 15 e 16, e descreve as taças de ira. Aqui, também, temos uma referência clara ao juízo final a aos eventos que ocorrerão em conexão com ele. Assim, lemos em 16:20:

“Toda a ilha fugiu e os montes não foram achados”.

6. A queda da Babilônia (17:1-19:21)

A seguir vem uma descrição vívida da queda da Babilônia e a punição infligida sobre a besta e o falso profeta. Observe a figura de Cristo vindo para julgar (19:11ss.).

“Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro, e julga e peleja com justiça”.

7. A grande consumação (20:1-22:21)

Isso nos leva a seção final, capítulos 20-22, pois Apocalipse 20:1 definitivamente começa com uma nova seção e introduz um novo assunto. [2] Esse novo assunto é a condenação do diabo. Uma comparação, sobretudo, com o capítulo 12 revela o fato de que, ao início do capítulo 20, estamos mais uma vez no limiar de nova dispensação. Enquanto em 12:9 nos é dito que, em conexão com a ascensão e a coroação de Cristo, o diabo é lançado à terra, aqui em 20:2,3, lemos que ele é preso por mil anos, sendo depois lançado no abismo. Os mil anos são seguidos por um tempo curto durante o qual Satanás é solto de sua prisão (20:7). Isso, por sua vez, é seguido da descrição da derrota final de Satanás em conexão com a vinda de Cristo para julgamento (20:10,11ss.). Nessa vinda, o presente universo, passando, deixa lugar para os novos céus e a nova terra, a nova Jerusalém (20:11ss.).

Uma leitura cuidadosa do livro do Apocalipse mostra claramente que o livro consiste de sete seções, e que essas sete seções correm paralelas umas às outras. Cada uma delas abarca toda a dispensação, da primeira à segunda volta de Cristo. Esse período é visto ora de uma perspectiva, ora de outra. [3]

II – Outros Argumentos em Favor do Paralelismo.

Há uma outra linha de raciocínio que confirma nossa posição de que cada uma das sete seções se estende do começo ao fim da nova dispensação e de que as sete correm paralelas umas às outras. [4] Diferentes seções atribuem a mesma duração ao período descrito. De acordo com o terceiro ciclo (capítulos 8-11), o maior período aqui descrito é de quarenta e dois meses (11:2), ou mil duzentos e sessenta dias (11:3). Agora, é um fato admirável que encontremos esse mesmo período de tempo na seção seguinte (capítulos 12-14), a saber, mil duzentos e sessenta dias (12:6), ou um tempo, dois tempos e metade de um tempo (3 ½ anos) (12:14). As três designações – quarenta e dois meses, mil duzentos e sessenta dias e um tempo, dois tempos e metade de um tempo – são equivalentes exatos. Assim, a seção das trombetas (capítulos 8-11) deve correr paralela à que descreve a batalha entre Cristo e o dragão (capítulos 12-14).

Um estudo cuidadoso do capítulo 20 revela que ele descreve um período sincrônico com o capítulo 12. Dessa forma, mediante esse modo de raciocínio, fica demonstrado o paralelismo.

Cada seção oferece-nos uma descrição de toda a era do evangelho, da primeira à segunda vinda de Cristo, e é fundada na História de Israel sob a antiga dispensação, à qual faz freqüentes referências.

Temos dito que a seção sobre as trombetas (capítulos 8-11) é paralela à seção sobre a mulher e o dragão (12-14) e à seção final (20-22), que também se estende além dela (21,22). Provaremos, agora, que essa mesma seção (capítulos 8-11) tem toda a aparência de ser paralela à das taças de ira (capítulos 15, 16). Observe, portanto, que a primeira trombeta (8:7) afeta a terra; o mesmo que a primeira taça (16:2). A segunda trombeta afeta o mar; o mesmo que a segunda taça. A terceira trombeta se refere aos rios; o mesmo com respeito à terceira taça. A quarta, em ambos os casos, se refere ao sol. A quinta se refere ao grande abismo ou ao trono das bestas, a sexta ao Eufrates, e a sétima à segunda vinda para juízo. [5]

Novamente, observe que a quarta seção (capítulos 12-14) apresenta, como os inimigos de Cristo e da sua igreja, o dragão, as duas bestas e a grande prostituta (Babilônia). Esses surgem juntos. É natural, portanto, inferir que eles caiam juntos. Isso se torna claro quando entendemos que o significado da besta e da grande prostituta, Babilônia, é o seguinte: A besta que sobe do mar é a perseguição que o dragão promove contra os cristãos, corporificada nos governos mundiais e dirigida contra o corpo dos crentes. Nos dias de João isso era feito pelo governo romano.

A besta que surge da terra é a religião anticristã de Satanás que objetiva enganar a mente e escravizar a vontade dos crentes. No tempo em que essas visões apareceram a João, essa besta estava incorporada na religião pagã e no culto ao imperador de Roma.

A grande prostituta, Babilônia, é a sedução anticristã que tentou roubar o coração e perverter a moral dos crentes. Nesse tempo a prostituta se revela como a cidade de Roma. Assim, quando Satanás cai, as bestas e a prostituta também caem. Eles sobem juntos; eles também caem juntos. A sexta seção (capítulos 17-19) descreve a queda da grande prostituta, Babilônia (capítulos 17,18) e das bestas (19:20), enquanto o sétimo ciclo descreve a queda de Satanás (20:10) e sua derrota final no dia do juízo. O juízo final sobre os quatro inimigos – o dragão, a besta que vem do mar, a besta que vem da terra e a grande prostituta – é descrito em duas seções separadas. Assim, essas duas devem ser paralelas. Cada uma descreve um período que se estende até o conflito final, o mesmo último julgamento quando os inimigos de Cristo e de sua Igreja receberão sua final e eterna punição. [6]

Nessa mesma relação há outro forte argumento que defende a posição de que as seções correm paralelas, assim como cada uma delas termina com a vinda do Senhor para juízo. A evidência a que nos referimos agora é obscurecida pela tradução. A seção sobre as taças de ira (15,16) termina com uma referência a uma batalha. (Ver 16:14, onde o conflito é chamado a batalha do grande dia de Deus, o Todo-poderoso.) A seção seguinte (capítulos 17-19), de novo, termina com a mesma cena de batalha. (Ver 19:19) Conforme o original, essa é a mesma batalha mencionada em 16:14, pois ali lemos:

“congregaram-se para pelejar contra ele”.

Finalmente, no fechamento da seção (capítulos 20-22), lemos mais uma vez:

“a fim de reuni-los para a peleja”. (Ver 20:8)

Todas as três seções, portanto, descrevem eventos que se dirigem à mesma grande batalha de Jeová. Elas são paralelas.

As sete seções são paralelas. Nosso argumento final para apoiar a posição paralelística é o fato de que encontramos exatamente a mesma coisa nas profecias de Daniel, que têm sido chamadas de Apocalipse do Antigo Testamento. Desse modo, as partes do sonho de Nabucodonosor (capítulo 2) correspondem exatamente às quatro bestas do sonho de Daniel (capítulo 7). [7] O mesmo período é coberto duas vezes, e visto de diversas perspectivas.

A divisão do Apocalipse em sete seções [8] é preferida por muitos autores, embora não haja unanimidade com respeito aos limites exatos de cada seção. [9] Nós preferimos a divisão dada, com pequenas variações, por L. Berkhof, S. L. Morris, B. B. Warfield e outros. É a mais natural. É claramente provida pelo próprio livro, cada seção findando, como temos demonstrado, no mínimo com uma referência à vinda de Cristo para Juízo. Isso é verdadeiro mesmo com respeito à seção final (capítulos 20-22; ver 22:20), embora vá além do juízo final, descrevendo o novo céu e a nova terra (cf. 7:9ss.). Sobretudo, se interpretada dessa forma, cada seção incorpora um tema que pode ser facilmente distinguido dos outros. Nossa divisão é a seguinte:

1. Cristo no meio dos sete candeeiros de ouro (1-3).
2. O livro com os sete selos (4-7).
3. As sete trombetas de juízo (8-11).
4. A mulher e o filho perseguidos pelo dragão e seus auxiliares (a besta e a prostituta) (12-14).
5. As sete taças de ira (15,16).
6. A queda da grande prostituta e das bestas (17-19).
7. O julgamento do dragão (Satanás) seguido pelo novo céu e nova terra, a Nova Jerusalém (20-22).

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Notas:
[1] Ver W. Milligan, The Book of Revelation (Expositor's Bible),VI, p.836; E. H. Plumptre, The Epistles to the Seven Churches, p. 9; W. M. Ramsay, The Letters to the seven Churches of the Asia, pp. 30, 177ss.; R. C. Trench, Commentary on the Epistles to the Seven Churches in Asia, pp. 59ss.; C. F. Wishart, The Book of Day, p. 22.
[2] Ver Capítulo Quatorze, p. 245.
[3] Essa, visão, de uma forma ou de outra, é adotada por R. C. H. Lenski, op. cit., pp. 216, 240, 350, 358; S. L. Morris, The Drama of Christianity, p. 26; M. F. Sadler, The Revelation of St. John the Divine, pp. xvi.ss. Ver, além desses, B. B. Warfield, Biblical Doctrines, pp. 645, 661.
[4] Embora as visões descrevam a nova dispensação, elas têm a antiga dispensação como ponto de partida. Cf., por exemplo, 12:1-4; 17:10; 20:3 (“para que não mais enganasse as nações”).
[5] S. L. Morris, op. cit., p. 64.
[6] R. C. H. Lensk, op. cit., p. 553.
[7] S. L. Morris, op. cit., p. 27; W. M. Taylor, Daniel the Beloved, p. 124.
[8] Para um de muitos sistemas de divisão, ver H. B. Swete, The Apocalypse of St. John, pp. xxxiii e xliv.
[9] Os diversos sistemas de divisão nessas sete seções serão encontradas em L. Berkhof, op. cit., p. 339; H. B. Swete (para a divisão de Ewald), op. cit., p. xlv; P. Mauro, The Patmos Visions, pp. 11ss.; W. Milligan, op. cit., passim; S. L. Morris, op. cit., p. 29; M. F. Sadler, op. cit., pp. xviss.; C. F. Wishart, op. cit., p. 30; B. B. Warfield, op. cit., p. 645 nota.

Sobre o autor: William Hendriksen (1900-1982) (Th.D., Princeton Theological Seminary) foi professor de literatura do Novo Testamento no Calvin Theological Seminary.

Fonte: Mais que Vencedores,  William Hendriksen. Editora Cultura Cristã, 2011, p. 25-28. 

Via: Amilenismo
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