O Calvinismo Torna Deus o Autor do Mal/Pecado?

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A Confissão de Fé de Westminster nega explicitamente que Deus é "o autor ou aprova o pecado", contudo, ela também afirma explicitamente que Deus predestina todos os eventos, incluindo atos humanos pecaminosos. Segundo a doutrina da providência calvinista, tudo o que existe ou acontece está decretado por Deus. Nada acontece ou existe à parte da ordem de Deus de que isso aconteça ou exista.

Dado essa compreensão acerca da soberania de Deus, os críticos objetam dizendo que o calvinismo torna Deus o autor do mal. A questão não é se Deus é todo-bondoso e todo-poderoso, como pode haver mal no mundo. Mas como pode Deus causar pelo seu decreto tudo o que acontece e não ser culpado pelas ações malignas de suas criaturas? A ação de Deus, dessa maneira, estaria sendo contaminada pelo pecado. Porém, isso é uma conclusão teologicamente inaceitável, e, portanto, o calvinismo é falso.

Uma resposta proeminente a este tipo de objeção que os calvinistas têm oferecido é o que eu irei chamar de Modelo de Autoria. A estratégia basilar é entender o que se quer dizer por “causa”. Quando Deus decreta algo, ele causa a ocorrência deste algo. Entretanto, o modo de causar de Deus é único e diferente do modo de causar de suas criaturas.

À luz da distinção Criador-criatura em que há dois níveis de realidade completamente diferentes, o do Criador e da criatura, devemos reconhecer que a causalidade divina é de uma ordem totalmente diferente da causalidade das criaturas.

A causalidade de Deus não é como se fosse um tipo de efeito dominó. Em que Deus cria o organiza um sistema complexo de dominós e inicia seu plano providencial com um peteleco. Conforme demonstrado na imagem a seguir. Esse modelo dominó da providência falha em refletir a realidade de que a causalidade divina opera em um nível fundamentalmente diferente da causalidade intramundana.


Um modelo muito mais adequado seria o que poderíamos chamar de Modelo de Autoria da Providência. Nesta maneira de pensar, os atos de criação e providência de Deus são análogos à criação humana de um romance. No nível fundamental, o autor determina tudo o que ocorre em seu romance. Ele cria o mundo, circunstâncias e personagens com determinadas personalidades e papéis no enredo geral. Alguns dos personagens podem cometer ações moralmente condenáveis, até perversas - ações que o próprio autor desaprova, mas que são necessárias para o objetivo da história e seu resultado. O Modelo de Autoria pode ser representado na imagem a seguir.


O modelo de autoria ensina que Deus é o autor de toda a história, incluindo das ações malignas de suas criaturas. Porém, ele é autor em um sentido moralmente inofensivo. Pois o autor desaprova e não prática atos malignos. A verdadeira questão é se o calvinismo implica que Deus é "o autor do pecado" em qualquer sentido moralmente condenável.


A partir das nossas distinções, podemos dizer que as criaturas, no sentido intramundano, causam o mal, mas Deus nunca, no sentido intramundano, causa o mal. Deus, no entanto, no sentido autoral, causa as criaturas que, no sentido intramundano, são causadoras do mal.

Mesmo que seja errado no sentido intramundano causar o mal ou causar outras pessoas causarem o mal, tal princípio não se aplica à causalidade divina. A causalidade divina é sui generis. Ela opera em um nível diferente da causalidade intramundana. Ela é única em vários aspectos. A causalidade divina cria coisas do nada, sustenta e destrói as coisas da existência. Além de serem atemporais e não-espaciais. Propriedades que a causalidade intramundana não exibe. Até que algum argumento seja dado contra isso, o calvinista está justificado a acreditar que a culpabilidade moral é mais um ponto de diferença entre causalidade intramundana e divina. Em que Deus, mesmo causando tudo o que acontece, a sua causalidade é de tal tipo que não o torna culpado num sentido moralmente condenável pelas ações malignas de suas criaturas.

Confira neste vídeo uma explicação mais abrangente:


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Autor:Gabriel Reis
Divulgação: Bereianos
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Objeções à doutrina da eleição soberana de Deus

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Esta edição de Sound of Grace lida com alguns dos argumentos usados por aqueles que discordam com a visão histórica de que a Bíblia fala sobre “eleição”. Uma das objeções mais comuns é algo parecido com isso:

“Eu concordo de coração que Deus ‘escolhe algumas pessoas para serem salvas’. Entretanto, Sua escolha é baseada inteiramente em Sua presciência. Como Deus vê o futuro e ‘prevê’ todas as coisas que acontecerão, Ele claramente pré-conhece aqueles que desejarão aceitar Jesus quando a oportunidade for apresentada. Deus, com base nessa ‘presciência’ (conhecimento prévio), escolhe aqueles que Ele ‘prevê’ que aceitarão a Cristo por seu próprio livre-arbítrio”.

Não é necessário pensar muito para ver que esta ideia nega completamente que Deus, no sentido que for, soberanamente escolhe homens para salvação. De forma simples, uma visão como esta, na verdade, diz o seguinte:

O marco zero da vontade de Deus

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Era sempre inverno, nunca Natal.

Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa de C.W. Lewis, a terra de Nárnia estava sob o cruel domínio da Feiticeira Branca. Mas, Aslan estava a caminho. Quando a feiticeira e o leão finalmente se encontraram, ela diz a Aslan que uma das crianças, Edmundo, revelara-se um traidor. A lei de Nárnia dizia que todo traidor pertence à Feiticeira Branca e deve ser punido com morte.

Então, Aslan propõe um acordo e concorda em morrer no lugar de Edmundo. Mas, Aslan então ressuscita. Quando ele retorna, as crianças ficam confusas.

“Mas, o que tudo isso significa?”, perguntou a irmã de Edmundo, Susana.

“Explico”, disse Aslan, “a feiticeira pode conhecer a Magia Profunda, mas não sabe que há outra magia ainda mais profunda. O que ela sabe não vai além da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio. Saberia que, se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás”.

Por trás da cortina da Eternidade

Neste conto infantil, Lewis magistralmente expõe o cerne da nossa redenção. E ele nos ajuda a enxergar o amor do Deus triúno por nós “no silêncio que reinava antes da aurora do tempo”. Ali, na eternidade passada, Pai, Filho e Espírito conspiraram amar um povo para si. Eles determinaram criar-nos e – sabendo que arruinaríamos a sua boa criação – também decidiram fixar seu amoroso e eterno olhar em nós, como filhos escolhidos, valiosos e particulares.

É uma pena que a doutrina bíblica do “decreto de Deus” (como os teólogos a chamam) e sua glória predestinadora tenha azedado para tantos cristãos. Quando algo tão biblicamente rico e espiritualmente nutritivo torna-se tão desagradável ao paladar que nos recusamos a consumi-lo, precisamos reconsiderar nossa dieta.

No silêncio antes do tempo

No primeiro capítulo de Efésios, o apóstolo Paulo fica tão perplexo com a majestade de nossa redenção que mal consegue parar para colocar pontuação em suas declarações. Assim, sua longa e única sentença vai do verso 3 ao verso 11. Mas o que permeia cada poro dessa longa frase é seu começo:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele. os predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1.3-5).

O servo de Deus é inspirado pelo Espírito de Deus a nos mostrar o que Deus fazia antes do mundo começar. Nesses versos, temos o que somente Deus pode nos dar: um vislumbre do eterno momento de seu glorioso plano. O Deus triúno preparou cada detalhe do projeto de seu reino eterno. Não somente ele planejou tudo, mas ele mesmo operou todo aquele projeto de acordo com o conselho de sua soberana vontade (Efésios 1.11).

Sem o sólido alimento dessa verdade bíblica, nossas almas esmorecerão. A não ser que escutemos a eternidade, desenvolveremos catarata espiritual. Para ver claramente, precisamos primeiro ouvir claramente. Devemos ocupar nossas mentes com o transcendente para que o imanente tenha o seu lugar adequado em nossas vidas.

Não a nós, Senhor

Paulo começa bendizendo Deus Pai pelo que ele cumpriu em seu Filho. Mas, ele não nos permite que o foco seja esse cumprimento em nós. Seu interesse imediato não são os benefícios que recebemos de Cristo, por mais importantes que sejam. Sua mente imediatamente vai do louvor a Deus à eterna escolha de Deus. O interesse de Paulo é nos ajudar a ver que o que temos do Pai, por meio do Filho, é resultado da determinação do Pai “antes da fundação do mundo” de nos amar de tal forma que nos salvaria de nossos pecados.

Nós acabamos de ter outro ano olímpico. Atletas americanos ganharam um número recorde de medalhas. Esses atletas dedicaram todas as suas vidas a suas tarefas atléticas. É natural, então, que eles tenham orgulho de suas conquistas.

Porém, o cristão jamais pode pensar que a salvação que temos em Cristo é algo semelhante aos rigores do treinamento esportivo. Não somente não conquistamos nada do que temos em Cristo, como o que temos é resultado das decisões tomadas pelo Deus triúno antes que nós, ou alguma outra coisa na criação, sequer existisse.

Quem fica com a glória?

Muitos cristãos reconhecem que, fora de Cristo, não há salvação. Porém, muito poucos reconhecem que nossa salvação teve seu princípio antes do tempo começar. Foi ali que o Deus triúno determinou amar você pela eternidade. Foi ali que o Filho não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas esvaziou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte em uma cruz (Fp 2.6-8).

Até que vejamos essa determinação divina como o “marco zero” eterno da nossa salvação, nossa adoração a Deus está simplesmente incompleta. Se Deus não iniciou unilateralmente, desde a eternidade, seu soberano plano de salvação por mim, então minha salvação deve, mesmo que de um jeito bem pequeno, ficar “por minha conta”. Se contribuímos em algo para nossa salvação, nossos cânticos de louvor à glória de Deus sempre estarão tocando nossa própria melodia em tom menor.

Paulo não nos permite ter parte na eternidade passada; nós podemos olhar, mas não tocar. Somente desta forma a luz brilhará no lugar certo – no palco, não na audiência. Somente dessa forma é possível dizer “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” sem sussurrar baixinho,“e eu também”.

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Autor: K. Scott Oliphint 
Fonte: desiringGod
Tradução: Josaías Jr
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A TULIP e o Dogma Romano - Um estudo comparativo entre a soteriologia Calvinista e Católico Romana

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A Confissão de Fé de Westminster diz que tudo o que precisamos saber para nossa salvação, “ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.6). Jesus assevera: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6:37). De fato, essa palavra não poderia ser mais clara. Nossa salvação não acontece por acaso, ela está bem definida dentro do plano eterno do Pai, foi executada com perfeição pelo Filho e é aplicada eficazmente pelo Espírito. 

Por isso, o calvinismo sustenta que a salvação é um ato da livre e exclusiva graça de Deus, visto que o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1) e não pode responder à oferta de reconciliação, de modo que Deus mesmo transforma a sua vontade ao lhe regenerar o coração (At 16.14). 

Porque todos os arminianos são calvinistas

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Quero apresentar um argumento contra o arminianismo baseado em uma falha interna dentro do esquema arminiano de predestinação.

Meu argumento, em poucas palavras:

“A posição arminiana sobre a predestinação é inescapavelmente calvinista (mais ou menos). Por causa disso, a única opção é aceitar o teísmo aberto ou o calvinismo”.

No século XVI, o teólogo católico romano e jesuíta Luis de Molina (1535–1600) propôs a ideia do conhecimento médio, mais tarde adotada (mas modificada) por Jacob Armínio (1560–1609).

Essa posição ficou conhecida como Molinismo. Pode ser que o “conhecimento médio” de Molina refere-se a liberdade de escolha, não predestinação. Mais tarde, os arminianos sequestraram o conhecimento médio de Molina para seus propósitos pessoais. Em outras palavras, Molina não é o vilão que presumimos, o que coloca os arminianos em uma posição precária de serem meio que inovadores.

Geralmente, os arminianos defendem que Deus poderia saber, antes de escolher indivíduos, o que um certo número de seres humanos, que são livres, fariam em certas circunstâncias. Em outras palavras, Deus sabe o que acontecerá e o que poderia acontecer sob certas condições.

Como resultado, para o arminiano, Deus elege baseado em seu “conhecimento médio” de que certos indivíduos responderão favoravelmente ao evangelho sob circunstâncias específicas. Deus não elege independente e incondicionalmente em Cristo, mas “reage” à escolha de um ser finito, a qual ele conheceu de antemão. Ele escolhe baseado em um condição futura (escolha).

Se a presciência de Deus depende de condicionais futuras, devemos perguntar se ela é ignorante em algum sentido (daí, o “teísmo aberto”). Mas, isso é um assunto pra outra hora.

No esquema arminiano, Deus “vê” o que aconteceria baseado em uma condicional futura e, então, escolhe com base no que ele “vê” acontecer em um mundo puramente condicional. Nesse esquema, Deus conhece condicionais condicionalmente.

Em resumo, o arminianismo introduz uma categoria separada, na qual a decisão humana se torna o fator causal que determina o evento. Essa é uma forma de semi-pelagianismo.

Entretanto, há uma falha para a qual eu gostaria de chamar atenção neste esquema, e uma que não vi ainda proposta antes. Pode ser que alguém tenha feito isso, mas não li ainda esse argumento em particular.

A Falha

Primeiro, certamente todos nós concordamos que Deus tem conhecimento de todos os mundos possíveis. Seu conhecimento não é limitado a um mundo, mas a todos os mundos possíveis no qual há um número infinito de possibilidades (por exemplo, não há cachorros em um certo mundo).

Por causa de sua liberdade absoluta, Deus não foi coagido a criar esse mundo particular em que vivemos. Teoricamente, ele poderia ter criado um mundo diferente em particular com base em seu conhecimento de um número infinito de outros mundos possíveis.

Ao eleger com base em uma condição futura, Deus está elegendo com base em um certo mundo possível que, então, ele escolhe trazer à existência. Daí, este mundo em que vivemos.

Neste mundo (i.e., um mundo possível A), ele escolhe a {pessoa x} com base na fé prevista.

Mas, neste mesmo mundo, ele não escolhe a {pessoa y} porque não houve fé prevista.

A pessoa x está predestinada à vida eternal, mas a pessoa y não está. Tudo porque a pessoa x creu (pela liberdade de sua vontade) com base em uma condicional futura.

Entretanto, em outro mundo possível (i.e., mundo possível B), a {pessoa y} crê, enquanto a {pessoa x} não.

Devemos nos perguntar o seguinte:

Por que Deus escolheu trazer à existência o mundo possível A, mas não o mundo possível B?

Ele escolheu assim, diz o calvinista, por causa de sua decisão livre e soberana de criar o mundo possível A, mas não o mundo possível B. Mas, o arminiano deve conceder que Deus, assim, elege um mundo no qual alguns creem e outros não, quando ele poderia ter eleito um mundo diferente no qual os resultados seriam diferentes. No final, a eleição ainda é, em última análise, escolha de Deus.

Deus poderia ter trazido à existência o mundo possível B? Claro. O fato de que ele não traz à existência o mundo possível B mostra que, portanto, ele está elegendo a {pessoa x} e não a {pessoa y} porque ele poderia ter criado um mundo possível diferente (mundo possível B) onde a {pessoa y} seria salva.

No fim, para o arminiano, Deus ainda elege. Ele elege um certo mundo no qual alguns têm a fé prevista e outros não, quando, de fato, ele poderia ter escolhido criar um mundo diferente em que pessoas diferentes seriam salvas. O arminiano não consegue escapar da eleição soberana. Em certo sentido, o arminiano ainda é um calvinista, ainda que um “calvinista anônimo”.

Claro, o conhecimento médio é uma bobagem. É semi-pelagiano. Ele se rende ao deus da liberdade humana e torna Deus um servo dos homens. Mas, mesmo quando isso é feito, o arminiano não pode escapar de uma forma de calvinismo onde, em última análise, Deus elege com base em sua escolha soberana. Não surpreende, então, que tantos arminianos tenham se tornado socinianos ou virado teístas abertos. Ou eles se voltam para Leibniz e argumentam que Deus escolheu este mundo porque é o melhor de todos os mundos possíveis.

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Autor: Mark Jones
Fonte: The Calvinist International
Tradução: Josaías Jr 
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Depravação Total - Graças a Deus pela Eleição em Cristo

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Desde a queda de Adão, todos nascem espiritualmente separados da presença de Deus ou espiritualmente mortos e, assim, dependem de uma intervenção divina que é a regeneração para a vida para a qual são incapazes. O texto de Efésios 2. 1 – 10 nos fornece material para podemos entender que estávamos mortos, a nossa natureza era mundana, fomos salvos pela graça de Cristo, não podemos nos gloriar e somos criados em Cristo. Assim, para o homem não resta capacidade alguma que o possibilite alcançar a salvação de sua vida a não ser que a misericórdia e a graça de Deus o alcance e o regenere para a vida eterna. O autor R. K. McGregor Wright escreve que “as aspirações morais da alma não-regenerada são limitadas espiritualmente pelo seu próprio compromisso com os princípios da natureza adâmica” (p. 120)¹. Conclui-se, portanto, que as inclinações do ser humano estão comprometidas por sua natureza caída, carecendo do amor de Deus para socorrê-la.


Nesta condição o homem é escravo de sua natureza pecaminosa, podendo ser liberto apenas e somente pelo poder da cruz de Cristo. O autor Tim Chester, sobre a cruz de Cristo em seu livro Sobre o Deus Trino, escreve que “a cruz não é somente um ato de redenção. É também ato de revelação” (p. 72)². A partir dessa ideia de Tim podemos perceber que o ato da regeneração é a revelação de um salvador capaz ao homem perdido e prisioneiro de sua natureza pecaminosa. Assim, como está na CFW, “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, Ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer com toda liberdade o que é espiritualmente bom” (P. 90)³.

Qual o conceito de Depravação Total, afinal? Augustus H. Strong escreve que “a expressão 'depravação total', contudo, é passível de falsa interpretação, e não deve ser usada sem qualquer explicação” (vol II, p. 1128)⁴. Para Augustus o pecador não é “destituído de consciência [...] desprovido de todas as qualidades agradáveis ao homem e úteis quando julgadas segundo os padrões humanos [...] inclinação para toda sorte de pecado [...] o seu mais intenso egoísmo e oposição á Deus” (vol II, p. 1128)⁵. Assim, “depravação total” não quer dizer que as faculdades inerentes do ser humano não produzam resultados bons na esfera humana. 

O conceito sobre “depravação total” apresentado por Millard J. Erickson está da seguinte maneira: “já comentamos (p. 605 - 8) a questão da depravação total, que não significa que os seres humanos sejam tão perversos quanto poderiam ser, mas, sim, que são totalmente incapazes de fazer algo para se salvarem ou para se libertarem de sua condição pecaminosa” (p. 771)⁶. O mesmo autor deixa bem claro, em relação à aceitação da oferta de salvação, que “a posição adotada aqui não é a de que os que são chamados que Deus devem obrigatoriamente responder, mas a de que Deus torna a sua oferta tão atraente que eles responderão de forma afirmativa” (p. 898)⁷.

Sobre este conceito Wayne Gruden afirma que “não é certo dizer que algumas partes de nós são pecaminosas, e outras puras. Antes, cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado – o intelecto, as emoções e desejos, o coração [...] as metas e motivos e até mesmo o corpo físico” (p. 409)⁸. Portanto, para Gruden, todas as partes do ser humano estão afetadas pelo pecado, impossibilitando o mesmo a alcançar a salvação.

Charles Hodge, sobre a doutrina do pecado original, escreve a respeito da incapacidade do homem para fazer de si próprio algo espiritualmente bom, e assim descreve três argumentos que permeiam o pensamento da igreja que são a doutrina pelagiana, a semipelagiana e a doutrina agostiniana que “ensina que tal é a natureza da depravação inerente e hereditária, que os homens, desde a queda, são totalmente incapazes de converter-se a Deus, ou de fazer algo verdadeiramente bom diante Dele” (p. 675)⁹, e aponta que as confissões reformadas que subscrevem a respeito.

Joel R. Beeke e Mark Jones, sobre o pecado original, em sua obra diz que “o homem é culpado não apenas de ter participado, por representação, da transgressão de Adão no jardim, mas também de uma contaminação universal, total e pecaminosa, espalhadas por todas as faculdades da alma e do corpo, com uma inexistência ou falta de todo bem e com uma inclinação para todo o mal” (p. 314)¹⁰.

Então, em linhas gerais, Depravação Total seria, conforme McGregor, “doutrina segundo a qual a natureza caída do homem, incluindo a vontade, está totalmente escravizada ao pecado, sendo incapaz de escolher o bem” (p. 242)¹¹, inclusive se salvar.

Então, graças a Deus que quis, segundo o seu amor, revelar-se aos seus eleitos pela cruz de Cristo, para das trevas resgatá-los para o seu eterno Reino. Sem esta intervenção seria impossível para qualquer homem alcançar, por qualquer meio, a graça do Nosso Senhor Jesus.

Amém.

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Notas:
[1] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.
[2] CHESTER, Tim. Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são as boas novas. São Paulo: Fiel, 2016. 187 p.
[3] Confissão de fé de Westminster. 17 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 240 p.
[4] STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. 2 ed. rev. São Paulo: Hagnos, 2007.
[5] Idem.
[6] ERICKSON, Millard. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015. 1232 p.
[7] Idem.
[8] GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
[9] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
[10] BEEKE, Joel R.; JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para a vida. Paulo: Vida Nova, 2016.
[11] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.

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Autor: Seminarista Rogério Vilaça
Divulgação: Bereianos
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Sobre os “Iluminados” de Hebreus 6

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O texto em foco diz:

É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.” (Hb 6.4-8)

A primeira observação que deve ser feita a respeito de Hebreus 6.4-8, é que, trata-se, nos dizeres de Geerhardus Vos, de uma “difícil e importante passagem” sobre a aliança de Deus com o seu povo.[1] A razão dessa dificuldade está no fato de o autor da epístola mencionar especificamente o aspecto fenomenológico da religião nessa perícope.[2]

Os “.” de Hebreus 6.4-8 eram pessoas que “abandonaram esta assembleia dos santos”.[3] Eram pessoas não-regeneradas, não-eleitas, incrédulas que durante algum tempo fizeram parte de uma igreja visível, mas que apostataram. Muito se questiona acerca de como pessoas ímpias puderam “provar” de vários benefícios, como por exemplo:

1) do dom celestial; 2) da participação comum do Espírito Santo; 3) da boa palavra de Deus; e 4) dos poderes do mundo vindouro. Como tais pessoas puderam desfrutar, em alguma medida, de bênçãos destinadas àqueles que foram os beneficiários diretos do sacrifício substitutivo de Cristo?

D. Mathewson, no seu artigo intitulado Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament, lança luz sobre esse questionamento, ao afirmar que, “a linguagem do autor em 6.4-6 é colorida por referências do AT que aludem e ecoam como citação direta”.[4] De forma específica, Mathewson sugere que a referência àqueles que foram “iluminados” lembra a coluna de fogo que alumiou os israelitas através do deserto.[5] Algumas passagens veterotestamentárias podem demonstrar o ponto. Neemias 9.12,19 diz o seguinte:

Guiaste-os, de dia, por uma coluna de nuvem e, de noite, por uma coluna de fogo, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir [...] Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir.

O “dom celestial” lembra o dom celestial do maná, que foi dado por Deus ao seu povo quando este se encontrava no deserto (Êxodo 16.15). Em Neemias 9.15 é dito que o pão celestial foi dado aos israelitas “na sua fome”. Por sua vez, a referência àqueles que “se tornaram participantes do Espírito Santo” ecoa a experiência dos peregrinos do deserto, que “tinham extensiva interação com o Espírito de Deus”[6], como é testemunhado em Neemias 9.20: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede”.

Após considerar os elementos descritos em Hebreus 6.4-6, Mathewson conclui:“O autor não está apenas aludindo a textos fragmentados e a vocabulário isolado para apresentar uma retórica colorida, mas por aludir a textos que pertencem a uma enorme matriz de idéias ele está evocando o contexto inteiro e história da experiência de Israel no deserto”.[7]

Quando se leva em consideração que os destinatários dessa epístola eram cristãos judeus, essa interpretação se mostra bastante plausível. O autor de Hebreus utiliza a linguagem do Antigo Testamento para descrever um abandono doloroso de uma congregação por parte de algumas pessoas.

Dessa forma, a iluminação recebida, o dom celestial provado e o Espírito compartilhado se mostram bênçãos da graça comum de Deus destinada a pessoas ímpias ou, nas palavras de Charles Hodge, “influências do Espírito concedidas a todos os homens”.[8] Tais pessoas, “tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era apostólica”, afirma o teólogo genebrino Matthew Poole.[9]

No seu comentário a respeito do versículo 4, João Calvino endossa a opinião de que mesmo os réprobos recebem algumas chispas da luz divina:

Mas aqui surge uma nova questão, como pode que aqueles que fizeram tal progresso venham a apostatar depois de tudo? Pois Deus, isso pode ser dito, não chama ninguém eficazmente a não ser os seus eleitos, e Paulo testifica que eles realmente são seus filhos e que são guiados por seu Espírito (Romanos 8.14) e ele nos ensina que, é um seguro penhor de adoção quando Cristo nos faz participantes do seu Espírito. O eleito também está além do perigo da apostasia final; pois o Pai que o elegeu para ser preservado em Cristo é maior do que tudo, e Cristo promete vigiar por eles de maneira que nenhum pereça. A tudo isso, eu respondo que Deus, de fato, favorece apenas os seus eleitos com o Espírito de regeneração e que, por isso eles são distinguidos dos réprobos; pois eles são renovados segundo a sua imagem e recebem a seriedade do Espírito na esperança da herança futura, e pelo mesmo Espírito o Evangelho é selado em seus corações. Mas eu não posso admitir que tudo isso seja alguma razão pela qual Ele não conceda também aos réprobos algum sabor da sua graça, que Ele não irradie suas mentes com algumas chispas da sua luz, ou não lhes dê alguma percepção da sua bondade, e de alguma maneira grave sua palavra em seus corações. De outra forma, o que viria a ser a fé temporal mencionada em Marcos 4.17? Portanto, existe algum conhecimento mesmo nos réprobos, o qual posteriormente vem a desvanecer, porque não possui raízes suficientemente profundas, ou porque elas murcham ao serem sufocadas.[10]

O que pode ser apreendido a partir desse comentário é que, de acordo com Calvino, bênçãos fluidas da obra expiatória de Cristo e destinadas diretamente aos eleitos e salvos como, por exemplo, a iluminação, o dom celestial da Palavra e a comunhão no Espírito, podem ser destinadas, ainda que de forma indireta a pessoas ímpias e incrédulas. Como Grudem acertadamente frisa, “a graça especial, que Deus dá aos salvos, leva a maior parte das bênçãos da graça comum aos incrédulos que vivem no campo de influência da igreja”.[11]

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Notas:
[1] Geerhardus Vos. The Teaching of the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1956. p. 28.
[2] Ibid.
[3] Moisés Bezerril. A Queda dos Iluminados de Hebreus 6.4-6. p. 16. Acessado em 18/08/2011.
[4] D. Mathewson. “Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament”, In: Westminster Theological Journal. Ed. 61. 1999. p. 214.
[5] Ibid. p. 216.
[6] Ibid. p. 217.
[7] Ibid. p. 223.
[8] Charles Hodge. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 981.
[9] Matthew Poole. A Commentary on the Whole Bible: Matthew – Revelation. Vol. 3. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2003. p. 737.
[10] John Calvin. Commentary on Hebrews. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2000. p. 94. Acessado em 25/Ago/2011. 
[11] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 554.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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Sobre a resposta de um arminiano ao Granconato

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Anda circulando na internet a resposta de um arminiano ao Granconato, sobre o texto de Mt 11:21-24. Não vou tratar sobre esse texto. Deixo os comentários para os exegetas de plantão. Quero falar sobre a presciência divina como a solução mágica para explicar o caráter divino.

Para o arminiano, não existe qualquer possibilidade de coexistência da eleição incondicional, vulgo predestinação, com o amor, misericórdia e justiça divinos. Ou Deus é estas três últimas coisas ou ele predestina. Na percepção de muitos respeitáveis e dedicados teólogos, Deus eleger de acordo unicamente com a sua vontade o tornaria um cruel e desamoroso tirano, pois estaria impedindo que alguns fossem ao céu, ao mesmo tempo que a outros concederia  esse privilégio de “mão beijada”. Está bem, então, vamos trabalhar com a mesma lógica, mas em sentido oposto.

Ora, sendo Deus bom, amoroso, misericordioso e justo, ele deveria conceder, pela lógica arminiana, a todos os homens iguais oportunidades de conversão e “acesso” a sua graça. Mas nós sabemos que isso não acontece. Deus não dá a todos os homens a mesma chance de conversão. Alguns ouvem o evangelho uma vez, outros uma centena. Há quem se converta somente na centésima. E então, como é que fica a justiça divina nesse caso?

Seguindo em frente, vamos considerar agora que Deus prevê quem irá se converter e quem não, e partir para uma ilustração. José e João têm, hoje, dez anos. Deus já viu que José se converterá, e que João não. Imaginemos agora que você tivesse acesso a essa informação. Você até poderia pregar para João, mas saberia que ele sempre permaneceria na incredulidade. “Sim, claro, por escolha dele”, objeta o arminiano. Mas seja sincero: não lhe parece o destino de João tão determinado quanto o de um não predestinado? Para se livrar dessa pedra no sapato, alguns arminianos e(in)voluíram para a Teologia do Processo ou Teísmo Aberto. Pronto, problema resolvido. Ninguém está mais com o destino selado, nem por você mesmo, nem por Deus. 

Mas o ponto chave é este: não estaria Deus sendo cruel ao mandar para o inferno uma pessoa, quem quer que seja? Se Deus é amor, misericordioso e justo, não haveria um modo diferente de resolver o problema que não enviando pecadores insensatos para o inferno? Afinal, Deus é Deus, e não seria difícil para ele achar outra solução.

Você enxerga o problema nessa argumentação? Se não, eu deixarei mais claro aqui. Sempre que tentamos encaixotar o amor, a bondade, a misericórdia e justiça de Deus, impondo limites ao que é ou não bom e justo, nós nos tornamos juízes de Deus. A ânsia de servir a um deus politicamente correto tem levado muitos a tentar explicar a participação divina nas tragédias de uma maneira mais adocicada, boazinha.

Falta ao arminiano aceitar que Deus é tudo isso que vivem repetindo dentro de Seu próprio padrão de conduta, que não é igual ao nosso. Ele não está sujeito ao tempo, espaço e à matéria como nós. Por que, então, estaria sujeito às mesmas regras morais? Deus mandou dizimar povos, matou “inocentes” criancinhas primogênitas no Egito, e Ele manda para o inferno pessoas boas aos nossos olhos. Mas aí está o problema. Tudo isso que entendemos como bom ou ruim, espiritualmente falando, está distorcido. É por isso que pessoas boas (aos nossos olhos) vão para o inferno. As pessoas boas de verdade vão para o Paraíso.

O calvinista verdadeiro aceita o que a Bíblia diz. Deus é amor, é justo e todo aquele leque de qualidades que podemos enumerar, ao mesmo tempo que reconhece que Deus também elege segundo bem quer e endurece o coração de alguns para recusarem sua vontade.

A verdade é que não dá para um calvinista discutir com um arminiano, porque o arminiano quer entender e explicar Deus, enquanto o calvinista se limita a aceitar Deus como Ele é, mesmo que não possa, é claro, compreender todos os mistérios.

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Autor: Renato César
Divulgação: Bereianos
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Batalhando pela segurança eterna dos santos

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A pergunta que nunca se cala: O crente pode perder a salvação? Essa questão inquieta teólogos e cristãos não acadêmicos de diversas denominações. Enquanto alguns se agarram nas promessas de Jesus: “ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10.28); outros lutam para cumprir as advertências do próprio Cristo: “quem perseverar até o fim será salvo” (Mc 13.13).

Nos deteremos à posição reformada apenas: a posição de que o crente não perde a salvação. Porém, dentro da posição reformada existe divergência entre os teólogos acerca do significado das advertências. Para limitarmos nosso estudo, focaremos em apenas uma das posições e a defenderemos como posição mais coerente na interpretação das Escrituras.

Um estudo de caso

O Novo Testamento trata de alguns casos em que há uma afirmação acerca da salvação das pessoas envolvidas. Dois deles são exemplos clássicos: Pedro e Judas. Jesus estava reunido com seus discípulos em seus últimos momentos e em sua oração por eles, Jesus afirmou:

Enquanto eu estava com eles, eu os guardei e os preservei no teu nome que me deste. Nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. - João 17.12

Jesus afirmou categoricamente que Judas não fora guardado por ele para que a Escritura se cumprisse. Uma dura verdade. Mas, a salvação dos discípulos, assim como a nossa, dependia exclusivamente da preservação de Jesus. Ainda no mesmo período de tempo desta afirmação de Jesus, o Mestre previu a traição de Pedro:

Simão, Simão, Satanás vos pediu para peneirá-lo como trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não esmoreça; e quando te converteres, fortalece teus irmãos. Pedro lhe disse: Senhor, estou pronto para ir contigo tanto para a prisão como para a morte. Disse-lhe Jesus: Pedro, eu te digo que o galo não cantará hoje antes que tenhas negado três vezes que me conheces.” - Lucas 22.31-34

Observe que Jesus impediu Satanás de tirar-lhe a fé. Jesus o preservou. Porém, no que dependia de Pedro, ele trairia Jesus. No entanto, Jesus afirmou que Pedro seria restaurado (QUANDO te converteres e não SE te converteres). Jesus preservou a fé final (a perseverança) dos seus discípulos, assim como faz conosco, mesmo em meio às suas quedas momentâneas.

“Minha confiança em ser preservado, não consiste na minha habilidade em preservar, mas minha confiança repousa no poder de Cristo em sustentar-me em sua graça e em sua intercessão por nós”¹ - R.C. Sproul

2. As advertências do Evangelho:

Como podemos entender as advertências do Evangelho, então? Claramente na Escritura há um chamado a examinarmos se estamos ou não em Cristo:

Examinai a vós mesmos, para ver se estais na fé. Provai a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? A não ser que já estais reprovados.2 Coríntios 13.5

Em nosso ponto de vista esta questão facilmente se resolve quando entendemos o texto de Hebreus 6.4-9. Esse texto, embora muito disputado, pode ser esclarecido com o contexto da carta:

Porque temos nos tornado participantes de Cristo, se mantivermos a nossa confiança inicial firme até o fim.- Hebreus 3.14

Entendemos que esse versículo elucida que os verdadeiros crentes são aqueles que permanecem até o fim em sua “confiança inicial”. São aqueles que professaram sua fé em Jesus e a conservaram até o fim. A Manutenção da confiança inicial até o fim é prova de que temos nos tornado participantes de Cristo.

Tendo este texto em mente, entendemos o texto de Hebreus 6.4-9:

Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública. Pois a terra que absorve a chuva, que cai frequentemente e dá colheita proveitosa àqueles que a cultivam, recebe a bênção de Deus. Mas a terra que produz espinhos e ervas daninhas, é inútil e logo será amaldiçoada. Seu fim é ser queimada. Amados, mesmo falando dessa forma, estamos convictos de coisas melhores em relação a vocês, coisas próprias da salvação.

Entendemos que as pessoas das quais falam os versículos, provaram mas não “nasceram de novo” (Jo 3) de fato. Elas conheceram as verdades do Evangelho, e até foram influenciadas por ele, mas não são filhos de Deus (Jo 1.12). Elas se tornaram participantes ao serem apenas companheiras de caminhada, assim como haviam companheiros do povo que saiu do Egito, porém não entraram na terra prometida² (1 Cor 10.1-13). Assim, elas chegaram até a mudar certos hábitos pecaminosos, mas nunca foram regeneradas pelo Espírito Santo (Tt3.4-7).

Wayne Grudem elucida muito bem esta explicação com a seguinte ideia:

“Portanto, o autor quer fazer um grave alerta àqueles em perigo de cair da fé cristã (pressupondo que na comunidade da carta haja não regenerados). Ele quer usar a linguagem mais forte possível para dizer: ‘vejam aqui até onde a pessoa pode chegar na experiência das bênçãos temporárias, sem, no entanto, realmente estar salva’. Ele os exorta a vigiar, pois não basta depender de bênçãos e experiências temporárias. Para isso, ele fala não de uma verdadeira mudança no coração ou de algum bom fruto, mas simplesmente das bênçãos e experiências temporárias que essas pessoas tiveram e que lhes deram uma compreensão parcial do cristianismo.”³

A parábola do semeador (Mt 13.1-23) deixa bem claro a possibilidade de que na comunidade da fé exista aqueles que não são verdadeiros cristãos. A parábola afirma que em alguns dos solos houve uma “germinação”, porém não se sustiveram. Entendemos que o “solo bom” é o coração genuinamente trabalhado pelo Espírito Santo, para que possa produzir os “resultados” do Evangelho (Jo 16.7-11). Ou seja, os verdadeiros crentes permanecem:

Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos, pois se fossem dos nossos teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram, para que se manifestasse que não eram dos nossos.1 João 2.19

Por fim, embora tenhamos a segurança da salvação prometida com toda a expressão possível no Novo Testamento (Jo 10.27-29; Rm 8; Ef 1.13-14; 1 Pd 1.5; Jd 24,25; etc.), não somos chamados a uma “preguiça espiritual”. Somos convidados por Jesus e os apóstolos a perseverarmos. Somos convidados a batalhar pela nossa fé na esperança confiante de que Deus vencerá por nós e nos guardará até o fim.

Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele. - Filipenses 2.12,13

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Fontes:
[1] R.C. Sproul. Disponível em: O que é teologia reformada? (DVD – Fiel)
[2] Carson, D.A. Disponível em: Análise da carta de Hebreus (aula 3)
[3] Grudem, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2011.

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Sobre o autor: Rafael Moraes Bezerra é formado em Direito pela UFJF; mestre no programa Master of Divinity pela EPPIBA (Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia) em parceria com a TLI (Training Leaders International); Pastor auxiliar da Primeira Igreja Batista em Ubá/MG
Fonte: Bem Vindo ao Evangelho
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

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[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

Romanos 11:22-24 ensina que a salvação pode ser perdida?

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Romanos 11. 22-24 ensina que a salvação pode ser perdida? E que depois de perdida pode ser recuperada? Vejamos:

Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado. E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar. Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!” Romanos 11. 22-24 - ACF

Paulo, argumentando contra a soberba gentílica (que foi um efeito colateral do orgulho israelense, por ser a nação eleita, que causou uma soberba nos gentios agora alcançados pelo evangelho, uma vez que se sentiam superiores aos judeus – que o recusaram), usa a alegoria da videira para ilustrar seu ponto de vista. Os gentios deveriam ver no exemplo da severidade divina dada aos judeus motivos para temer ao Senhor e demonstrarem gratidão ao invés de orgulho. 

Os termos não vêm dos termos

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Vern Poythress escreveu um livro sobre a validade da multiplicidade de perspectivas – é o must! De forma sucinta ele lida com questões da linguagem e demonstra como esta revela que há uma perspectiva, tendo em vista que os termos são utilizados pelo que os utiliza a partir de seu entendimento ou arcabouço de significado. Segundo ele, há uma grande dificuldade na definição de termos, pois, em regra, eles não têm apenas um significado e, na teologia, a dificuldade vem do fato de que nenhum termo da sistemática equivale ao termo bíblico.[1] 

O fato é que os termos são utilizados de modo elástico nas Escrituras e de modo estrito na Sistemática. A Bíblia estabelece o sentido do termo pelo contexto, a Sistemática tem o objetivo de reproduzir um grande conteúdo com um termo. A coisa piora, ao meu ver, quando tentamos abarcar a terminologia extrabíblica, querendo enxergar conceitos e pressupostos na Escritura, advindos da filosofia, psicologia, história, sociologia e por ai vai.

Um belo exemplo disto é a liberdade. Liberdade ligada a arbítrio tem, para alguns, o sentido mais pleno da palavra nos conceitos filosóficos e históricos. É aquele atributo de algo que é livre de influências, com a possibilidade de ir a qualquer direção, sem qualquer pré-arranjo. Seria algo totalmente definido pelo ente que a possui, sem “externalidades”.

Bom, quando vejo esse tipo de proposição penso: - “cadê Deus?” Mesmo Nietsche reconhecia que, se Deus existe, tudo muda. Nesse sentido, o que muda em nossos termos, se considerarmos que estamos numa realidade criada? O que será da liberdade, amor, responsabilidade, graça, paz e tudo mais, no caso de Deus existir?

A existência de Deus nos dá um pressuposto único para nossas definições. Partimos de que tudo que vivemos é criado. Todo e qualquer termo, seja uma representação de aspectos concretos ou abstratos da vida, devem ser definidos a partir desta premissa. Sendo assim, olhemos novamente para a liberdade, agora, com a ajuda de Jesus.

Em João 8.32 nosso Redentor arrumou um problemão com os judeus. Mesmo sob o domínio dos romanos, os judeus se viam livres, afinal, eram filhos de Abraão. A verdade é que eles eram tão prisioneiros que não sabiam a verdade sobre si e sobre o discurso de Cristo. Jesus não estava falando de cadeias e de liberdades civis, mas sobre nossa natureza. Sua resposta à indagação dos judeus apontou o problema do entendimento do termo: “Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado.” (Jo 8.34)

Se conhecer a verdade liberta, a conexão correta não é entre os termos liberdade e possibilidade, mas entre os significados de conhecer, verdade e liberdade. Justamente esse foi o ponto de Poythress: qual a perspectiva do escritor, locutor, narrador, enfim? No caso, como é possível ver em João 14.6, a perspectiva do Mestre sobre a verdade é que ele é a verdade. Ainda, sob a perspectiva bíblica, evidenciada por Jesus em Mateus 7.23, conhecer infere relacionamento. Portanto, o conhecimento da verdade é um relacionamento com Cristo. Se há relacionamento com o Filho, você tem a verdade e ela lhe liberta. John Frame elucida mais o assunto:

…todas as coisas estão sob o controle de Deus, e, como veremos, todo conhecimento é um reconhecimento das normas divinas para a verdade; é um reconhecimento da autoridade de Deus. Daí, conhecer alguma coisa, qualquer coisa, é conhecer Deus.[2]

Daí, liberdade não está ligada a possibilidades, mas a estado. É seu estado em relação a Deus que lhe define como livre ou não. 

Para entendermos melhor, voltemos ao pressuposto de que somos criados. Salmo 19 demonstra que a criação existe para revelar seu criador; é uma voz silenciosa e presente em todo canto. A forma como fomos criados, à imagem de Deus, aponta para o fato de que nossa existência não foge a esse propósito. Sendo assim, nossos atributos ou capacidades não existem como uma expressão de nós, mas como uma expressão da forma como Deus nos criou. Portanto, nossa vontade estará sendo plena em existência e capacidade, quando for inclinada para Deus.

O ponto é que o conceito de liberdade em geral está mais ligado à “Liberté, Egalité, Fraternité”, do que a Deus. O sonho de autonomia ou é um levante revolucionário contra o opressor, ou é um coringa lançado para resolver a relação do Criador com a criatura – neste caso, afastando o Criador de sua criação, um deísmo ocasional. O problema é que esta autonomia não tem respaldo bíblico, mesmo que se queira citar aqueles textos que descrevem escolhas humanas.[3]

De fato, nunca se afirmou que as escolhas não existem - essa discussão nunca esteve em pauta nas Escrituras. O ponto é o que torna as escolhas possíveis; como elas se relacionam com a soberania de Deus; o que é uma escolha verdadeira e o que mais vier nessa linha. Conforme Jesus expõe no texto de João 8, nossa liberdade de fazer escolhas está ligada à nossa relação com Deus e não numa relação nossa com as possibilidades. Como bem explicou Matt Pierman:

As muitas passagens na Bíblia onde nos é dito escolher certas coisas não interessam a esse assunto, por elas não dizerem como é que nós fazemos as escolhas que fazemos. Tudo o que eles dizem é que fazemos escolhas. Com isso, predestinação concorda. Mas os textos não dizem que nós temos autodeterminação. Eles não lidam com o assunto de se Deus é ou não a causa última atrás de nossas escolhas. Para esse assunto, nós devemos nos voltar para outros textos das Escrituras, que nós vimos que claramente ensinam o controle de Deus sobre todas as coisas. Assim, nós devemos concluir que humanos fazem, realmente, genuínas escolhas. Mas Deus é a causa última que determina o que nós iremos escolher.[4]

A existência criada nos dá um conceito de liberdade que se fundamenta numa existência dependente de um criador. Portanto, nossa liberdade foi definida por Cristo como sendo algo próprio da existência plena de um ser humano: quando está em comunhão com seu criador. O inverso, ser escravo, prisioneiro, não foi descrito como impossibilidade de escolha, mas estar debaixo do pecado, afastado do Criador.  

Em Efésios 2, Paulo parece ir na mesma linha, ao tratar das inclinações humanas. O morto, alguém incapacitado, é descrito como sendo de natureza ímpia, inclinada para a carne, isso é, pecado, andando segundo o curso do mundo e Satanás. Depois, o apóstolo descreve aquele que poderá andar nas boas obras preparadas de antemão como sendo alguém vivo, ativo, crente, ou seja, com as inclinações para Deus. Isso significa que, a questão da liberdade não se trata de uma possibilidade, mas de estado.

De um lado, quanto mais autonomia, mais liberdade. Do outro, quanto mais comunhão, mais liberdade. Poderíamos acrescentar, seguindo João 8, conceitos e entender que: quanto mais relacionamento com Cristo, quanto maior conhecimento de sua revelação, quanto mais verdade, mais liberdade.

Resumindo: os termos não vêm dos termos, mas de Deus. As definições bíblicas são teoreferentes e não mutuamente referentes, portanto, nossas definições deveriam seguir nesta direção. A dificuldade reside em possuirmos uma perspectiva não bíblica da linguagem e lermos as Escrituras a partir desta perspectiva. Buscando uma adaptação em nossa linguagem, então, aqueles que pensam em termos de autonomia e possibilidades deveriam olhar para os termos bíblicos prisão, escravidão, morto – e similares –, como seus sinônimos.

Diante disto, faço a pergunta: você quer ser livre? Creio que não mais da mesma forma. Isso nos lembra a pensarmos melhor os termos e a procurarmos melhor os pressupostos de nossa linguagem. 

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Notas:
[1] POYTHRESS, Vern. Teologia Sinfônica. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 92.
[2] FRAME, John. A doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 34. O DITNT, São Paulo: Vida Nova, 2000, pp. 397-399, aponta para um ganho de significado na comunicação entre cristãos judeus que escreveram os textos neotestamentários com os gentios convertidos, porém, reconhece a perspectiva veterotestamentária do termo gnosko, apontando para uma ordem de conhecimento que infere ligação, intimidade, sexualidade, pessoalidade, relacionamento.
[3] Poythress ressaltou que “Os perigos também existem porque algumas perspectivas trazem consigo pressupostos anticristãos que passam a condicionar toda a investigação posterior.” Op. cit., p. 14.
[4] PEARMAN, Matt. A consistência da soberania e da responsabilidade humana. Arquivo eletrônico. Tradução livre.1

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Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Fonte: Alegria Indizível
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Comentário de João Capítulo 6

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Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Neste fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas — porém bastante distintas — que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem. Assim como o autor, eu espero que este comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são. 

Erving Ximendes, agosto de 2016.


Provas Escriturísticas da Segurança Eterna

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As passagens seguintes proporcionam evidência em duas etapas de que os crentes não podem se perder de um modo irrevogável.

1. Os eleitos de Deus são conhecidos como tendo vida eterna no instante em que creem. Ver Mateus 18.12-14; João 3.16,36; 5.24,25; 6.35-40; 10.27-30; 17.11-15; Romanos 8.1,29,30,35-39.

2. Deus guardará o seu povo fiel. Ver Romanos 8.37-39; 1 Coríntios 1.7-9; Efésios 1.5,13,14; 4.30; 1 Tessalonicenses 5.23,24; Hebreus 9.12-15; 10.14; 1 Pedro 1.3-5; 1 João 5.4,11-13, 20; Judas 24,25.

Duas passagens-chave

Algumas dessas passagens acima mostram muito explicitamente que a vida eterna (não meramente a possibilidade dela) é uma possessão de cada crente a partir da regeneração. Outras claramente parecem basear a segurança do crente no próprio Deus, seja no seu poder ou nas suas promessas, sem qualquer referência a que o crente tenha a necessidade de se escorar no poder de sua própria resposta ao evangelho ou em sua permanência nele.

Em 2 Coríntios 1.22, Efésios 1.13,14 e 4.30, encontramos referências a um selo de propriedade pessoal sendo aplicado à nossa alma pelo próprio Espírito Santo que presumivelmente não pode ser apagado. Imaginar que um selo sobrenatural dentro da nossa alma possa ser apagado é como tentar imaginar que nós decidimos que nunca mais vamos ter sonhos durante a noite. Simplesmente não temos qualquer tipo de controle sobre a nossa própria natureza inferior.

Para um tratamento abrangente deste tópico, incluindo uma refutação cuidadosa de todos os argumentos imagináveis dos arminianos contra ele, ver o livro de John Owen, de cerca de seiscentas páginas, chamado The Perseverance of the Saints (1654), que foi completado às carreiras quando o Parlamento pediu-lhe para entrar num outro projeto sobre sonicianismo. (Não obstante, essa obra permanece como uma obra definitiva sobre o assunto e deveria ser estudada cuidadosamente.) Contudo, nós nos ocuparemos aqui de duas passagens decisivas que fornecem uma prova direta da segurança eterna dos regenerados: João 10 e Romanos 8.

João 10

Esta é a bem-conhecida passagem sobre o Bom Pastor e sua ovelhas. Ela inicia-se com a imagem de um aprisco e com advertências contra tentativas carnais de evadir-se da verdade e da graça. Jesus aponta para o cuidado individual que o Pastor tem por suas ovelhas e chama a atenção para o fato de que o Pastor conhece as suas ovelhas pelo nome (10.3). Então, ele acrescenta que essas ovelhas conhecem e reconhecem a voz de seu próprio Pastor (vs.4,5). Isso parece indicar que, para Jesus, os eleitos são sobrenaturalmente afetados pela Palavra pregada de tal modo que eles são especialmente iluminados para responder a ela. Em outras palavras, Deus faz com que os eleitos reconheçam o seu Salvador no evangelho.

Então, tendo se identificado como a porta do aprisco e como o próprio Bom Pastor, Jesus caminha para o supremo sacrifício de dar a sua vida pelas ovelhas. Nos versículos 14,15, ele coloca juntas as duas verdades de que ele conhece as suas ovelhas e que elas o conhecem. Ele, então, liga esse mútuo conhecimento ao conhecimento mútuo entre as duas primeiras pessoas da Trindade. Esse conhecimento dificilmente pode ser inexato ou um conhecimento meramente provável. 

Mais adiante, nessa passagem, Jesus confronta novamente seus inimigos na multidão (vs.22-30). Ele os adverte de que eles não haviam crido nele porque eles não estavam no grupo chamado de "minhas ovelhas", e que ele, portanto, não os conhecia como seus. Se eles fossem suas ovelhas, eles haveriam de reconhecer quem Jesus era. Ele identifica suas ovelhas com os eleitos santos, um conceito familiar aos judeus do século 1º, por causa dos escritos dos profetas: "Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão" (v.28). Esse versículo assinala três coisas a respeito das ovelhas. Primeira, elas possuem a vida eterna agora, não apenas uma possibilidade de uma vida futura eterna. Segunda, elas nunca poderão perecer ("jamais perecerão"); e, finalmente, ninguém pode arrancá-las das mãos seguras do Filho. A expressão "ninguém" deve presumivelmente incluir as pessoas salvas, Satanás e qualquer outro possível candidato que desafie o poder guardador do Bom Pastor. Essas três coisas sozinhas garantem a segurança eterna dessas ovelhas. Elas excluem especificamente o costumeiro comentário arminiano sobre esse versículo: "Ninguém mais pode arrancar-nos das mãos do Pai, mas nós podemos sair". "Ninguém" deve excluir o nós mesmos, também, a menos que Deus não tenha pretendido que nós levássemos a sério a totalidade dessa passagem.

Romanos 8.28-39

Essa passagem inclui uma prova extensa da segurança dos crentes em Cristo. Ela afirma primeiro que os crentes podem estar confiantes de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que "amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (v.28). Então, segue-se o que os puritanos chamaram de "Corrente Dourada" dos atos divinos para assegurar a salvação dos eleitos (vs.29-33). Esse grupo é rotulado como "aos que [Deus] de antemão conheceu" (v.29).

Nesse ponto o arminiano diz: "É isso! Aqueles a quem Deus predestinou são aqueles que Deus sabia antecipadamente que haveriam de crer. A eleição é baseada nesse pré-conhecimento de Deus. A mesma coisa é afirmada em 1 Pedro 1.2: 'eleitos, segundo a presciência de Deus'. O que poderia ser mais claro do que isso?".

Bem, o calvinista pensa que a exegese arminiana poderia ser mais clara. Os versículos citados aqui não afirmam que a eleição é baseada na presciência. A passagem de Romanos diz que o grupo daqueles rotulados como os chamados e "aos que de antemão conheceu" é da mesma natureza do grupo rotulado como os predestinados, e o segundo diz que a eleição é de acordo com o pré-conhecimento. isso não diz nada além de que a eleição está em harmonia com o pré-conhecimento e tem os mesmos sujeitos, mas não que a presciência deve preceder a eleição, como a teoria arminiana requer. Pode ser fato que o ensino calvinista da presciência de Deus seja simplesmente o pré-conhecimento de seu próprio plano escolhido, no caso de cada indivíduo em particular. Afinal de contas, a passagem diz que "os que de antemão conheceu, também os predestinou" (v.29). Ele fala claramente de pessoas, não meramente acontecimentos ou generalidades, que Deus conhece de antemão.

A questão das classes coextensivas é muito mais interessante à medida que Paulo continua com a ideia no versículo 30: "Todos aqueles na categoria dos predestinados, estes e somente estes, e todos eles, foram os sujeitos da chamada mencionada há pouco. E aqueles no grupo dos chamados, estes e somente estes, são aqueles a quem ele declara justos e justificados, no exercício da fé salvadora. Então, aqueles, neste grupo dos chamados, são aqueles que ele conduz para a glória; estes, e todos estes, e ninguém mais, apenas estes" (paráfrase minha). Assim, as classes dos chamados, dos predestinados, dos justificados e dos glorificados correspondem às mesmas pessoas. Para Paulo, é simplesmente uma questão de definir claramente o conteúdo e os limites desses grupos.

Essa corrente de raciocínio é totalmente devastadora para a posição arminiana. Ainda que a Bíblia realmente possuísse versículos que ensinassem o livre-arbítrio, eles não fariam nenhuma diferença para a exegese desses versículos de Romanos 8. A "Corrente Dourada", como os puritanos a chamaram, é completa na abrangência dos grupos descritos, não apenas na menção dos elos individuais mencionados. (Iluminação, santificação e ressurreição são os outros elos dessa corrente, mas são omitidos aqui.) "Aos que de antemão conheceu, também os predestinou" - cada elo da corrente por chamar os glorificados do versículo 30 de "os eleitos", no versículo 33.

O destino preciso dos predestinados é serem "conformados à imagem do seu Filho" (v.29). Incidentalmente, essa é uma descrição do processo de santificação, que esperaríamos que tivesse sido mencionado entre a justificação e a glorificação, no versículo 30. O destino dos eleitos, então, está predestinado. Todos os elos estão no lugar, juntando os que são efetivamente chamados com a sua glorificação final. Sem a santificação, "ninguém verá o Senhor", diz Hebreus 12.14.

Mas Paulo não terminou o seu argumento aqui. Ele convida os seus leitores a registrarem as conclusões apropriadas. "Que diremos, pois, à vista destas coisas?", ele pergunta no versículo 31. A primeira coisa que devemos dizer é que, embora sejam de fato pecadores, os eleitos não terão nenhuma objeção levantada contra a sua salvação no juízo final, porque o próprio Deus é quem os justificou, tendo ouvido o testemunho do seu Filho, o advogado deles (v.34). Então, ele lista algumas coisas que deveriam concebivelmente induzir os eleitos a serem separados do amor eletivo de Deus. Após uma lista previsível (vs.35-37), ele diz que está convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os poderes angelicais, nem as entidades demoníacas, nada do que existe, nada do que poderá existir no futuro, nos domínios superiores ou inferiores que pertencem à grande cadeia do ser dos filósofos, ou outra coisa qualquer criada, pode separar os eleitos do amor eletivo e predestinador de Deus. 

Essa é uma lista totalmente abrangente - e incluiria também o livre-arbítrio humano, se nós o concedêssemos aos arminianos em benefício da discussão. Nenhuma prova adicional da segurança eterna poderia ser pedida, embora muito mais pudesse ser oferecido. A lista de leituras sugeridas, no final deste capítulo indica que John Gill trata de cerca de vinte versículos mais do que eu o fiz aqui, e a maioria deles torna o arminianismo impossível.


Conclusões

1. Segue-se irresistivelmente dos outros quatro pontos de Dort que os que são verdadeiramente regenerados estão eternamente seguros no amor eletivo de Deus.

2. Nada na criação pode separar os eleitos do seu destino em glória. 

3. "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo" (Ef 1.3). A expressão "toda" com relação às bênçãos espirituais deve incluir a bênção da perseverança, caso contrário todas as outras são neutralizadas e não seriam bênçãos, afinal de contas. Sem a graça da perseverança, nenhuma das outras poderia ser completamente efetiva. O plano de um ser racional não pode ser incoerente. Seus meios devem estar de acordo com os fins pretendidos.

4. Deus, sendo tanto racional como onipotente, não pode falhar em nenhum dos seus propósitos (Is 43.13). "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação", diz Paulo em 1 Tessalonicenses 4.3; assim, essa vontade de Deus deve necessariamente ser cumprida na conformação das ovelhas de Deus à imagem do Bom Pastor. Os meios de um Deus soberano devem necessariamente cumprir os fins que ele planeja.

5. os remonstrantes posteriores, pressupondo o livre-arbítrio, estavam totalmente certos em desistir da ideia da perseverança dos santos. Ela não pode ser sustentada de modo consistente sem os outros quatro pontos de Dort, e nem pode ser racionalmente mantida na suposição do livre-arbítrio. Os evangélicos modernos que declaram ser calvinistas pela crença no "uma vez salvos, salvos para sempre", não possuem nenhum direito lógico à sua crença na segurança eterna e são simplesmente arminianos inconsistentes.

Leitura Adicional

Para maior exposição e defesa da perseverança dos santos, ver The Saint's Perseverance Explained and Confirmed, de John Owen, vol. 11, publicado pela Banner of Truth Trust (Londres, 1966. Essa é a obra mais extensa (mais de seiscentas páginas), mas que deveria ser consultada. O capítulo 3, intitulado "The Immutability of the Purposes of God", seria um bom início, porque ele tem somente vinte páginas. A maior parte do livro é uma resposta aos argumentos arminianos de John Goodwin, um dos poucos arminianos puritanos.

Para uma cuidadosa exposição dos versículos-chave que dão apoio à perseverança, ver também as porções relevantes de John Gill em The Cause of God and Truth (publicado em quatro partes, de 1735 a 1738; reeditado em Londres: W. H. Collingridge, 1855). Gill tem sido avaliado por críticos reformados criteriosos como tendo elementos *hipercalvinistas, mas isso não faz muita diferença para o tratamento que ele faz dos "versículos arminianos". Na primeira parte, mais de cinquenta passagens são examinadas.

Para uma fonte moderna sobre a perseverança, ver Grace and Perseverance, de G. C. Berkouwver (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958).

Para a relação entre a verdadeira doutrina e a vida devocional, ver o clássico do bispo E. H. Bickersteth, The Trinity (reedição Grand Rapids, Michigan: Kregel, 1957). Esse talvez seja o livro de maior ajuda a respeito da Trindade publicado nos anos 1800.

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Autor: R. K. McGregor Wright
Fonte: A Soberania Banida, Redenção para a cultura pós-moderna. Cultura Cristã, págs. 143-148.
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