Lei vs. Graça: Os Dez Mandamentos e a Graça de Deus

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Por Solano Portela

A conversão e o ensinamento de Paulo.

Sl 119.4 - "Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca".

Os Dez Mandamentos representam a forma objetiva de Deus indicar o que espera de cada um de nós. Deus não nos deu uma religião subjetiva, cujas doutrinas dependem da cabeça de cada um, mas ele nos escreveu objetivamente a sua palavra. Nessa palavra, na Bíblia, ele nos revelou a sua Lei Moral - sua vontade eterna às suas criaturas, refletindo a sua majestade e santidade.

Nos Dez Mandamentos conhecemos nossos limites e nossas obrigações. Comparando nossa vida, nossos desejos e inclinações com a Lei Santa de Deus, compreendemos a extensão de nossa pecaminosidade e verificamos que a salvação procede só de Jesus, pelo seu sacrifício supremo na cruz do Calvário.

Já vimos como Jesus resumiu os Dez Mandamentos em amar a Deus e ao próximo. Muitos têm procurado dissociar essa afirmação de Jesus do caráter objetivo dos Dez Mandamentos. Afinal, dizem esses, Jesus está falando simplesmente de amor, um sentimento subjetivo, e não do simples cumprimento objetivo da lei. Um autor inglês, Joseph Fletcher, desenvolveu toda uma visão ética construída em cima do que poderíamos chamar de "casuísmo cristão" (tomou o nome de ética situacionista). Fletcher defendeu que não existem regras absolutas mas o comportamento certo ou errado depende da situação. Em sua filosofia, o único ponto de aferição a ser seguido é - "aja de forma a demonstrar o máximo de amor possível". Essas palavras, que parecem boas e cristãs, são extremamente perigosas, pois cada um passa a ser juiz de suas próprias ações e sempre poderá racionalizar comportamentos pecaminosos apelando para uma ou outra suposta forma de amor demonstrado, nem que seja o amor por si próprio.

Contrariando essa filosofia, o conceito bíblico de amor se expressa em obediência e abnegação. Essa obediência não é a uma lei intangível, indescritível, ou subjetiva, dependente da interpretação individual de cada um, mas à lei objetiva de Deus. É o próprio Jesus que esclarece e determina, em João 14.21: "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama..."

Neste capítulo, vamos estudar o que aconteceu com Paulo e qual o seu ensinamento, conforme os relatos do livro de Atos (8.1-3 e 9.1-22) e pelos seus pronunciamentos, no livro de Romanos (capítulos 3 e 7).

A visão de Paulo, antes da sua conversão.

Do seu próprio ponto de vista, Paulo, antes de sua conversão (na ocasião ainda chamado Saulo), acreditava que estava zelando pela lei de Deus, perseguindo os cristãos. Sua visão da lei era uma visão distorcida, fruto de uma religião equivocada. Sem ter sido ainda tocado pelo Espírito Santo de Deus ele estava cego, espiritualmente.

Atos 7.54-8.1 relata esse tempo conturbado da vida daquele que viria ser o apóstolo dos gentios e o grande expositor bíblico. Sua visão anti-cristã o levou a cometer muitos crimes. Ele participou do apedrejamento de Estevão e foi um ativo perseguidor de muitos cristãos, como lemos em Atos 8.3 e 9.1-2.

A compreensão da lei de Deus de todos aqueles que estão sob o domínio de Satanás, envolvidos com falsas práticas religiosas, é uma visão distorcida. Ela serve de desculpas para as práticas mais absurdas, amorais e cruéis. O próprio Paulo escreveu, sobre as pessoas sem Deus, em Romanos 1.22 "...inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos". Ele tinha convicção disso na sua própria pele, havia experimentado quão Satanás é enganador e usurpador da lógica espiritual. Convicto de exercitar zelo, havia perseguido inocentes, mulheres, crianças - aqueles devotados à adoração verdadeira, ao culto ao Deus soberano. Somente a graça, o amor e a misericórdia de Deus poderia cobrir essa multidão de pecados e apagar a amargura profunda dessa lembrança. E assim ocorreu (Fl 3.13).

A falta de visão de Paulo, durante a sua conversão.

Deus arrancou Paulo do pecado através da experiência relatada no livro de Atos (9.3-19), a qual bem conhecemos. Durante três dias ele, que havia sido cego, espiritualmente, foi acometido de cegueira física - talvez simbolizando o seu estado espiritual. Nesse período ele teve bastante oportunidade para meditar. Foi, posteriormente, orientado por Ananias.

Mas Deus transformou Saulo em Paulo. De um perseguidor, ele tornou-se o grande apóstolo, propagador e defensor do Evangelho. Podemos imaginar a confusão em sua cabeça: todas as suas convicções estavam sendo subvertidas. Todas as suas premissas estavam sendo demonstradas falsas. Todos os seus objetivos de vida estavam sendo modificados.

O texto bíblico nos diz que o Senhor enviou Ananias para que Paulo recuperasse a vista e ficasse cheio do Espírito Santo (9.17). Era o Espírito Santo, agora, que, além de recuperar a visão de Paulo, iria coordenar todo o conhecimento que ele havia absorvido ao longo das prioridades verdadeiras da vida. Era o Espírito Santo que o iria instruir, possivelmente utilizando os "dias com os discípulos" (9.19), nos detalhes da fé verdadeira que agora abraçava. Era o Espírito Santo que o iria inspirar a escrever suas cartas, nas quais somos instruídos sobre a compreensão correta da lei de Deus.

A nova visão de Paulo, depois de sua conversão.

Se estudássemos apenas o registro histórico da conversão de Paulo, não chegaríamos a compreender a importância da Lei de Deus, nesse processo e durante toda a sua vida. Entretanto, quando lemos o que Paulo escreveu posteriormente, passamos a compreender muito sobre qual era a visão paulina a respeito da Lei, visão essa que enfatiza a validade da lei moral de Deus a todas as eras.

Por exemplo, em Romanos 3.20, lemos "... ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". A primeira validade da lei é fornecer o "pleno conhecimento do pecado", condição necessária ao arrependimento verdadeiro. Em Romanos 7.7, Paulo reforça a validade da Lei para nos levar à uma conscientização plena do pecado e de nossa dependência da misericórdia do Deus Criador: "que diremos, pois? A lei é pecado? De modo nenhum. Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás".

Além da validade revelativa, sobre a nossa natureza pecaminosa e sobre a santidade de Deus, Paulo ensina que a lei não é anulada pela fé. A lei moral de Deus providenciava o rumo à vida de Paulo, e assim deve ser para nós. Em Romanos 3.31 ele antecipa as indagações de seus leitores e faz a pergunta retórica: "Anulamos, pois, a lei pela fé?"; respondendo a seguir com uma negativa enfática: "Não, de maneira nenhuma, antes confirmamos a lei". Os preceitos eternos de Deus, a sua lei moral, reflexo de sua santidade e infinita retidão, continua sendo a nossa bússola, a forma objetiva e explícita de relacionar os nossos deveres para com Deus e para com o nosso próximo.

Não é de admirar que Paulo chegue a uma conclusão que difere bastante da falta de apreciação da lei de Deus que encontramos na teologia de tantos movimentos contemporâneos. Em Romanos 7.12 ele fecha o que vem expondo e desenvolvendo desde o capítulo 3: "Por conseguinte; a lei é santa; e o mandamento, santo e justo e bom".

Não é descartando a validade da lei moral que vamos nos aproximar mais de Deus. Não é substituindo a objetividade da lei por um subjetivismo nocivo e aleatório, supostamente fundamentado em um grau maior de espiritualidade, que vamos agradar a Deus. Estaremos compreendendo a visão que Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, quer transmitir, quando começarmos a enxergar os problemas em nós próprios e não na santa lei de Deus. Assim poderemos exclamar, como ele, em Romanos 7.14: "Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado..."

A Lei de Deus Hoje - Afinal, estamos sob a lei, ou sob a graça de Deus?

Muitas interpretações erradas podem surgir de um falho entendimento das declarações bíblicas sobre esta questão. Com efeito, Paulo ensina que "não estamos sob a lei mas sob a graça" (Romanos 6:14). Mas o que quer dizer "não estar sob a lei de Deus?" Perdeu ela a sua validade? É apenas um registro histórico? Estamos em uma situação de total desobrigação para com ela? Vamos apenas subjetivamente, "amar", sem direcionamento ou ações concretas que comprovem este amor?

Devemos relembrar os múltiplos aspectos da "lei de Deus", conforme já estudamos no capítulo anterior: Lei Civil ou Judicial, Lei Religiosa ou Cerimonial e Lei Moral. Se considerarmos que os três aspectos apresentados da lei de Deus são distinções bíblicas, podemos afirmar:

" Não estamos sob a Lei Civil de Israel, mas sob o período da Graça de Deus, em que o evangelho atinge todos os povos, raças tribos e nações.

" Não estamos sob a Lei Religiosa de Israel, que apontava para o Messias, foi cumprida em Cristo, e não nos prende sob nenhuma de suas ordenanças cerimoniais, uma vez que estamos sob a graça do evangelho de Cristo, com acesso direto ao trono, pelo seu Santo Espírito, sem a intermediação dos sacerdotes.

" Não estamos sob a condenação da Lei Moral de Deus, se fomos resgatados pelo seu sangue, e nos acharmos cobertos por sua graça.

" Não estamos, portanto, sob a lei, mas sob a graça de Deus, nestes sentidos.

Entretanto ...

" Estamos sob a Lei Moral de Deus, no sentido de que ela continua representando a soma de nossos deveres e obrigações para com Deus e para com o nosso semelhante.

" Estamos sob a Lei Moral de Deus, no sentido de que ela, resumida nos Dez Mandamentos, representa a trilha traçada por Deus no processo de santificação, efetivado pelo Espírito Santo em nossas pessoas (João 14:15). Nos dois últimos aspectos, a própria Lei Moral de Deus é uma expressão de sua Graça, representando a objetiva e proposicional revelação de Sua vontade.

É verdade, portanto, que, nos sentidos acima, não estamos sob a lei, mas sob a graça de Deus. Devemos cuidar, entretanto, para nunca entender essa expressão como algo que invalida a lei de Deus aos nossos dias. Mais importante, ainda, devemos cuidar para não transmitir conceitos falsos e não bíblicos, estabelecendo um contraste inverídico entre a lei e a graça, como se ambos não procedessem de Deus.

Teologicamente, chamamos de antinomianismo, a filosofia que expressa total independência das pessoas para com a lei de Deus; que declara a invalidade dela para os nossos dias. Muitos ensinamentos no campo evangélico são, na prática e em essência, antinômios e totalmente subjetivos - ou seja, desprezam a lei de Deus, negam a sua validade e colocam a interpretação subjetiva de cada um acima das determinações objetivas reveladas por Deus, na Bíblia. Quando os reformadores defenderam a expressão Sola Scriptura - somente as escrituras - estavam reafirmando exatamente isso, que devemos sempre nos prender à objetiva revelação de Deus em sua palavra, e não nas especulações ou tradições dos homens.

Quando examinamos a lei de Deus sob esses aspectos, muitas perguntas são pertinentes e devem ser individualmente respondidas. Será que temos a percepção correta de nossas obrigações para com Deus e para com o nosso próximo? Será que prezamos adequadamente a lei de Deus? Será que estamos utilizando o fato de estarmos "sob a graça" como desculpa para desprezarmos a lei de Deus? Será que a nossa compreensão é aquela abrigada pelos padrões confessionais, como nas perguntas do Catecismo Maior, que temos estudado?

O que diz o Catecismo Maior de Westminster (pergunta 99)?

P. 99. Que regras devem ser observadas para a boa compreensão dos dez mandamentos?
R. Para a boa compreensão dos dez mandamentos as seguintes regras devem ser observadas:

1a. Que a lei é perfeita e obriga a todos à plena conformidade do homem inteiro à retidão dela e à inteira obediência para sempre; de modo que requer a sua perfeição em todos os deveres e proíbe o mínimo grau de todo o pecado.
Ref.: Sl 19.7, Tg 2.10; Mt 5.21,22

2a. Que a lei é espiritual, e assim se estende tanto ao entendimento, à vontade, aos afetos e a todas as outras potências da alma - como às palavras, às obras e ao procedimento.
Ref.: Rm 7.14; Dt 6.5; Mt 22.37-39 e 12.36,37.

3a. Que uma e a mesma coisa, em respeitos diversos, é exigida ou proibida em diversos mandamentos.
Ref.: Cl 3.5; 1Tm 6.10; Pv 1.19; Am 8.5

4a. Que onde um dever é prescrito, o pecado contrário é proibido; e onde um pecado é proibido, o dever contrário é prescrito; assim como onde uma Pro­mes­sa está anexa, a ameaça contrária está inclusa; e onde uma ameaça está anexa a promessa contrária está inclusa.
Ref.: Is 58.13; Mt 15.4-6; Ef 4.28; Ex 20.12; Pv 30.17; Jr 18.7-8; Êx 20.7

5a. Que o que Deus proíbe não se há de fazer em tempo algum, e o que ele manda é sempre um dever; mas nem todo o dever especial é para se cumprir em todos os tempos.
Ref.: Rm 3.8; Dt 4.9; Mt 12.7

6a. Que, sob um pecado ou um dever, todos os da mesma classe são proibidos ou mandados, juntamente com todas as coisas, meios, ocasiões e aparências deles e provocações a eles.
Ref.: Hb 10.24,25; 2Ts 5.22; Gl 5.26; Cl 3.21; Jd 23

7a. Que aquilo que nos é proibido ou mandado temos a obrigação, segundo o lugar que ocupamos, de procurar que seja evitado ou cumprido por outros segundo o dever das suas posições.
Ref.: Êx 20.10; Lv 19.17; Gn 18.19; Dt 6.6,7; Js 24.15

8a. Que, quanto ao que é mandado a outros, somos obrigados, segundo a nossa posição e vocação, a ajudá-los, e a cuidar em não participar com outros do que lhe é proibido.
Ref.: 2Co 1.24; 1Tm 5.22; Ef 5.11

Fonte: [ Site do autor ]
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Para Quem Pensa Estar em Pé (I)

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Por Augustus Nicodemus Lopes

Faz alguns anos fui convidado para ser o preletor de uma conferência sobre santidade promovida por uma conhecida organização carismática no Brasil. O convite, bastante gentil, dizia em linhas gerais que o povo de Deus no Brasil havia experimentado nas últimas décadas ondas sobre ondas de avivamento. “O vento do Senhor tem soprado renovação sobre nós”, dizia o convite, mencionando em seguida o que considerava como evidências: o movimento brasileiro de missões, crescimento na área da ação social, seminários e institutos bíblicos cheios, o surgimento de uma nova onda de louvor e adoração, com bandas diferentes que “conseguem aquecer os nossos ambientes de culto”. O convite reconhecia, porém, que ainda havia muito que alcançar. Existia especialmente um assunto que não tinha recebido muita ênfase, dizia o convite, que era a santidade. E acrescentava: “Sentimos que precisamos batalhar por santidade. Por isto, estamos marcando uma conferência sobre Santidade...”

Dei graças a Deus pelo desejo daqueles irmãos em buscar mais santidade. Entretanto, por detrás dessa busca havia o conceito de que se pode ter um “avivamento” espiritual sem que haja ênfase em santidade! Parece que para estes irmãos — e muitos outros no Brasil — a prática dos chamados dons sobrenaturais (visões, sonhos, revelações, milagres, curas, línguas, profecias), “louvorzão”, ajuntamento de massas em eventos especiais, e coisas assim, são sinais de um verdadeiro avivamento. É esse o conceito de avivamento e plenitude do Espírito que permeia o evangelicalismo brasileiro em nossos dias. Parece que a atuação do Espírito, ou um avivamento, identifica-se mais com essas manifestações externas e com a chamada liberdade litúrgica, do que propriamente com o controle do Espírito Santo na vida de alguém, na vida da igreja, na vida de uma comunidade.

Lamentavelmente, os escândalos ocorridos nas igrejas vêm confirmar nosso entendimento de que em muitos ambientes evangélicos, a santidade de vida, a ética e a moralidade estão completamente desconectados da vida cristã, dos cultos, dos milagres, da prosperidade em geral.

Uma análise do conceito bíblico de santidade destacaria uma série de princípios cruciais, dos quais destaco alguns aqui (outros princípios serão mencionados num próximo post):

1) A santidade não tem nada a ver com usos e costumes. Ser santo não é guardar uma série de regras e normas concernentes ao vestuário e tamanho do cabelo. Não é ser contra piercing, tatuagem, filmes da Disney, a Bíblia na Linguagem de Hoje. Não é só ouvir música evangélica, nunca ir à praia ou ao campo de futebol e nunca tomar um copo de vinho ou uma cerveja. Não é viver jejuando e orando, isolado dos outros, andar de paletó e gravata. Para muitos, santidade está ligada a esse tipo de coisas. Duvido que estas coisas funcionem. Elas não mortificam a inveja, a cobiça, a ganância, os pensamentos impuros, a raiva, a incredulidade, o temor dos homens, a preguiça, a mentira. Nenhuma dessas abstinências e regras conseguem, de fato, crucificar o velho homem com seus feitos. Elas têm aparência de piedade, mas não tem poder algum contra a carne. Foi o que Paulo tentou explicar aos colossenses, muito tempo atrás: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23).

2) A santidade existe sem manifestações carismáticas e as manifestações carismáticas existem sem ela. Isso fica muito claro na primeira carta de Paulo aos Coríntios. Provavelmente, a igreja de Corinto foi a igreja onde os dons espirituais, especialmente línguas, profecias, curas, visões e revelações, mais se manifestaram durante o período apostólico. Todavia, não existe uma igreja onde houve uma maior falta de santidade do que aquela. Ali, os seus membros estavam divididos por questões secundárias, havia a prática da imoralidade, culto à personalidade, suspeitas, heresias e a mais completa falta de amor e pureza, até mesmo na hora da celebração da Ceia do Senhor. Eles pensavam que eram espirituais, mas Paulo os chama de carnais (1Coríntios 3.1-3). As manifestações espirituais podem ocorrer até mesmo através de pessoas como Judas, que juntamente com os demais apóstolos, curou enfermos e ressuscitou mortos (Marcos 10.1-8). No dia do juízo, o Senhor Jesus irá expulsar de sua presença aqueles que praticam a iniqüidade, mesmo que eles tenham expelido demônios e curado enfermos (Mateus 7.22-23).

3) A santidade implica principalmente na mortificação do pecado que habita em nós. Apesar de regenerados e de possuirmos uma nova natureza, o velho homem permanece em nós e carece de ser mortificado diariamente, pelo poder do Espírito Santo. É necessário mais poder espiritual para dominar as paixões carnais do que para expelir demônios. E, a julgar pelo que estamos vendo, estamos muito longe de estar vivendo uma grande efusão do Espírito. Onde as paixões carnais se manifestam, não há santidade, mesmo que doentes sejam curados, línguas “estranhas” sejam faladas e demônios sejam expulsos. Não há nenhuma passagem em toda a Bíblia que faça a conexão direta entre santidade e manifestações carismáticas. Ao contrário, a Bíblia nos adverte constantemente contra falsos profetas, Satanás e seus emissários, cujo sinal característico é a operação de sinais e prodígios, ver Mateus 24.24; Marcos 13.22; 2Tessalonicenses 2.9; Apocalipse 13.13; Apocalipse 16.14.

4) O poder da santidade provém da união com Cristo. Ninguém é santo pela força de vontade, por mais que deseje. Não há poder em nós mesmos para mortificarmos as paixões carnais. Somente mediante a união com o Cristo crucificado e ressurreto é que teremos o poder necessário para subjugar a velha natureza e nos revestirmos da nova natureza, do novo homem, que é Cristo. O legalismo não consegue obter o poder espiritual necessário para vencer Adão. Somente Cristo pode vencer Adão. É somente mediante nossa união mística com o Cristo vivo que recebemos poder espiritual para vivermos uma vida santa, pura e limpa aqui nesse mundo. É mais difícil vencer o domínio de hábitos pecaminosos do que quebrar maldições, libertar enfermos, e receber prosperidade. O poder da ressurreição, contudo, triunfa sobre o pecado e sobre a morte. Quando “sabemos” que fomos crucificados com Cristo (Romanos 6.6), nos “consideramos” mortos para o pecado e vivos para Deus (Romanos 6.11), não permitimos que o pecado “reine” sobre nós (Romanos 6.12) e nem nos “oferecemos” a ele como escravos (Romanos 6.13), experimentamos a vitória sobre o pecado (Romanos 6.14). Aleluia!

5) A santidade é progressiva. Ela não se obtém instantaneamente, por meio de alguma intervenção sobrenatural. Deus nunca prometeu que nos santificaria inteiramente e instantaneamente. Na verdade, os apóstolos escreveram as cartas do Novo Testamento exatamente para instruir os crentes no processo de santificação. Infelizmente, influenciados pelo pensamento de João Wesley – que noutros pontos tem sido inspiração para minha vida e de muitos outros –, alguns buscam a santificação instantânea, ou a experiência do amor perfeito, esquecidos que a pureza de vida e a santidade de coração são advindas de um processo diário, progressivo e incompleto aqui nesse mundo.

6) A santificação é um processo irresistível na vida do verdadeiro salvo. Deus escolheu um povo para que fosse santo. O alvo da escolha de Deus é que sejamos santos e irrepreensíveis diante dele (Efésios 1.4). Deus nos escolheu para a salvação mediante a santificação do Espírito (2Tessalonicenses 2.13). Fomos predestinados para sermoas conformes à imagem de Jesus Cristo (Romanos 8.29). Muito embora o verdadeiro crente tropece, caia, falhe miseravelmente, ele não permanecerá caído. Será levantado por força do propósito de Deus, mediante o Espírito. Sua consciência não vai deixá-lo em paz. Ele não conseguirá amar o pecado, viver no pecado, viver na prática do pecado. Ele vai fazer como o filho pródigo, “Levantar-me-ei e irei ter com o meu Pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti” (Lucas 15.18). Ninguém que vive na prática do pecado, da corrupção, da imoralidade, da impiedade, – e gosta disso – pode dizer que é salvo, filho de Deus, por mais próspero que seja financeiramente, por mais milagres que tenha realizado e por mais experiências sobrenaturais que tenha tido.

Estava certo o convite que recebi naquele dia: precisamos de santidade! E como! E a começar em mim. Tenha misericórdia, ó Deus!

Fonte: [ O Tempora, O Mores! ]
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Moralismo

Por Michael S. Horton

Sempre que a história de Davi e Golias é usada para motivá-lo a pensar sobre os “Golias” em sua vida e as "Sete Pedras da Vitória" utilizadas para derrotá-los, você é vítima de uma pregação moralista. O mesmo acontece quando a intenção principal do sermão é lhe dar um herói bíblico para ser imitado ou um vilão para ensinar uma lição, tal como o "crime não compensa", ou "o pecado não te torna realmente feliz”. Ler ou ouvir a Bíblia desta forma transforma as Escrituras em uma espécie de Fábulas de Esopo ou os Contos de Fadas dos irmãos Grimm, onde a história existe com o propósito de ensinar uma lição para o prudente, e a história termina com "e viveram felizes para sempre”. Em seu Cartas do Inferno, C. S. Lewis apresenta o Screwtape (Fitafuso ou o Coisa-Ruim em português) escrevendo para Wormwood (Vermebile ou Cupim) na tentativa de persuadir Wormwood a minar a fé ao transformar Jesus em um grande herói e moralista.


“Ele deve ser um ‘grande homem’, no sentido moderno da palavra – alguém de situado no extremo de uma linha de pensamento centrífuga e desequilibrada - um excêntrico vendendo uma panacéia. Desta forma, desviamos a mente dos homens de Quem Ele é, e do que Ele fez. Primeiro fazemos dEle apenas um mestre, e em seguida, ocultamos a substancial concordância entre Seus ensinamentos e as de outros grandes mestres da moral.”

Este é o maior problema, a partir da minha própria experiência, com a pregação que ouvimos hoje. Existe uma demanda por ser prático - isto é, ter princípios engenhosos para a vida quotidiana. Mas o perigo, obviamente, é que o que se ouve na manhã de domingo não é a Palavra de Deus. Na verdade, as escrituras foram lidas (talvez) e houve um sermão (talvez), mas a mensagem teve mais a ver com uma palestra do Lions Clube, um seminário de psicologia pop, uma conferência profética ou uma convenção política do que com a proclamação da verdade celestial "vinda do alto".

Porque já estamos sentados com Cristo nos céus (Ef 2:6) e participando da nova criação que raiou com a ressurreição de Cristo, devemos possuir uma mente celestial. Isto, naturalmente, não significa que sejamos místicos irrelevantes que não têm nenhuma utilidade para este mundo; mais propriamente, isso significa que a nossa perspectiva está orientada em direção a Deus e não a humanidade (incluindo nós mesmos), ao eterno, e não à presente era, à santidade ao invés da felicidade, glorificando a Deus em vez de exigir que Deus satisfaça nossas "necessidades sentidas". Somente com esse tipo de orientação é que podemos ser úteis a este mundo como "sal" e "luz", produzindo um distinto testemunho do transcendente em um mundo tão ligado ao momento presente.

Finalmente, o moralismo comete um erro hermenêutico básico do ponto de vista da Reforma. Tanto os Luteranos quanto os Reformados têm insistido, nas palavras da Segunda Confissão Helvética, "O Evangelho opõe-se à Lei. A Lei opera a ira e anuncia a maldição, enquanto o Evangelho prega a graça e a bênção". Calvino e seu sucessor, Beza, seguiram o entendimento Luterano comum de que, embora tanto a lei e quanto o Evangelho sejam claramente ensinados nas Escrituras (tanto no Antigo quanto no Novo Testamento), a confusão sobre as duas categorias é o fulcro de toda a pregação e ensino recalcitrante na igreja. Não é que os crentes do Velho Testamento estivessem sob a lei e nós estejamos debaixo da graça ou do Evangelho, mas que os crentes em ambos os Testamentos estão obrigados à lei moral, a obedecer perfeitamente aos seus preceitos e em conformidade com a sua pureza, não só nos atos exteriores, mas na estrutura e disposições da alma e do coração. E ainda, em ambos os Testamentos, é oferecidos aos crentes a justiça do Evangelho de Cristo, colocada sobre o pecador nu e transgressor da lei, para que Deus possa aceitar os ímpios - sim, mesmo os ímpios, por amor de Cristo.

Tanto Luteranos quanto Reformados também afirmaram que a lei ainda tem um lugar após a conversão na vida do crente, como as únicas ordenanças para obras que agora são realizadas na fé. Contudo, a pregação deve observar claramente a distinção entre essas duas coisas. Como John Murray escreve: "A lei não pode, nunca, dar ao crente qualquer poder espiritual para obedecer suas ordenanças". E no entanto, muito da pregação moralista destes dias pressupõe o erro de que de alguma forma os princípios, os passos para a vitória, regras, diretrizes habilmente planejadas pelo pregador (ou seja, as tradições dos homens?) prometem sucesso espiritual àqueles que simplesmente os colocarem em prática diária. Aqueles que são novos na fé encaram este tipo de pregação como úteis e práticas; aqueles que já estão presentes há algum tempo, eventualmente se tornam esgotados e cínicos sobre a vida cristã porque não conseguem “conquistar a vitória” mesmo tendo seguido a cartilha.

Deve ser dito que nem mesmo as ordenanças do próprio Deus podem nos dar vida ou o poder para crescermos como cristãos. Os estatutos são retos e bons, mas eu não, disse Paulo em Romanos 7. Mesmo o crente não pode ganhar força alguma da lei. A lei só pode lhe dizer o que está certo; apenas o Evangelho pode fazê-lo justo, dando-lhe o que ele não pode ganhar pela observância da lei. Se a própria lei se torna impotente pelo pecado humano, como poderíamos crer que esquemas humanamente planejados e princípios para a vitória e poder espiritual pudessem alcançar o sucesso? Olhamos para a lei como o padrão, percebendo que, mesmo como cristãos, fracassamos em observá-la. É aí que o Evangelho entra em ação e nos diz que alguém atingiu esse padrão e conquistou essa vitória - para nós, em nosso lugar - e agora a lei pode ser pregada novamente sem atormentar a nossa consciência. Ela já não pode nos conduzir ao medo ou à ansiedade uma vez que suas exigências foram cumpridas pela obediência de outra pessoa.

Portanto, é nosso dever pregar "todo o conselho de Deus", que inclui todas as coisas na categoria da lei (os mandamentos divinos e ameaças de punição; o convite ao arrependimento e à conversão, santificação e serviço a Deus e ao próximo) e na categoria do Evangelho (a promessa de Deus de descanso, do Gênesis ao Apocalipse; a sua realização na da morte, sepultamento, ressurreição, ascensão e segunda vinda de Cristo; o dom da fé, através da qual o crente é justificado, e entra em uma união vital com Cristo; o dom da perseverança da fé, que nos capacita a exercer a piedade, apesar do sofrimento). Mas qualquer tipo de pregação que deixa de enfatizar o papel da lei em condenar o pecador e o papel do Evangelho em justificar o pecador, ou que confunde estas duas coisas, é uma séria violação da distinção que o próprio Paulo faz em Gálatas 3:15-25 .

Muito da pregação evangélica com a qual estou familiarizado nem inspira terror da justiça de Deus, nem expressa admiração pela profundidade da graça de Deus em Seu dom da justiça. Pelo contrário, é muitas vezes uma confusão entre essas duas coisas, de modo que as más notícias não são tão más e a boa notícia não é tão boa. Nelas, nós realmente podemos fazer algo para nos aproximarmos de Deus; nos ensinam que não estamos tão longe de Deus que não possamos fazer uso dos exemplos de personagens bíblicos e alcançar a justiça ao seguir os "Sete Passos para a Vida Cheia do Espírito". Porém, na visão d Bíblia, os personagens bíblicos não são exemplos de suas vitórias, mas da vitória de Deus! A vida de Davi não é um testemunho da fidelidade de Davi em absoluto, mas da fidelidade de Deus, e ao lermos qualquer parte dessa história como se pudéssemos alcançar o Evangelho (justiça) através da lei (obediência) cometemos o antiqüíssimo erro de Caim, dos fariseus, dos gálatas judaizantes, dos Pelagianos, dos Semi-Pelagianos, do Arminianos, e dos defensores da Vida Superior.

Existem variedades de moralismo. Alguns moralistas são sentimentais em suas pregações. Em outras palavras, o objetivo é ser útil, é ser um amoroso cultivador que visa, a cada domingo, dar segurança à sua congregação com as sábias palavras de um Jesus que soa muito mais como um terapeuta de talk show. Outros moralistas são ásperos em suas pregações. Seu Evangelho é, "Faça isso e você viverá”. Em outras palavras, a não ser que você possa medir o crescimento na santidade por qualquer número através de indicadores ou barômetros, você não saberá se tem direito às promessas. O Evangelho, para estes pregadores, é a lei e a lei é Evangelho. Pode-se alcançar o perdão e a aceitação de Deus somente através de constante auto-avaliação. Dúvida, em vez de segurança, marca a reflexão do cristão maduro, insistem estes pregadores em um agudo contraste com a ternura do Salvador que excluiu somente aqueles que acham que “marcaram todos os gols”. Os pecadores foram bem-vindos à mesa de Cristo, os "justos" claramente não foram.

Portanto, mesmo o cristão precisa ser constantemente lembrado de que sua santificação é tão lenta e imperfeita nesta vida que nenhuma bênção espiritual pode ser extraída da mão de Deus através da obediência; Está tudo lá, nas mãos abertas e estendidas do Pai. Isto, naturalmente, é o atestado de óbito do moralismo de todos os matizes. A má notícia é realmente muito ruim; a boa notícia é maior do que qualquer sabedoria moral terrena. É por isso que Paulo disse, parafraseando: "Vocês, cristãos gregos em Corinto, querem sabedoria moral? Ok, vou te dar sabedoria: Cristo se fez nossa justiça , nossa santidade e nossa redenção. Aha! Deus na sua loucura é mais sábio que todos os gurus de auto-ajuda de todo o mundo! " (1 Coríntios. 1:18-31).

O moralismo até pode responder às "necessidades sentidas" de quem procura palestras de encorajamento inspirativas e práticas nas manhãs de domingo, mas isto não pode realmente ser considerado pregação.

Michael S. Horton
Preaching Christ Alone
Tradução: Reforma&Razão - Maio/2010
Fonte: [ Reforma & Razão ]

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Paul Washer – Um Evangelho Escandaloso

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“Não me envergonho do Evangelho de Cristo,
pois é o poder de Deus para
salvação de todo
aquele que crê; primeiro do judeu, e também
do grego.” Romanos 1:16

Paulo, na carne, tinha razões para se envergonhar do Evangelho que pregava, porque contradizia tudo o que se cria ser verdadeiro e sagrado entre os seus contemporâneos. Para os judeus, o Evangelho era a pior blasfêmia porque reivindicava que o Nazareno que morreu amaldiçoado no Calvário era o Messias. Para os gregos, era o pior absurdo porque reivindicava que este Messias Judeu era Deus feito carne. Assim, Paulo sabia que quando abrisse a boca para falar o Evangelho, seria completamente rejeitado e ridicularizado, desprezado, a menos que o Espírito Santo interviesse e se movesse nos corações e mentes dos seus ouvintes. Nos nossos dias, o Evangelho primitivo não é menos ultrajante, pois ainda contradiz os princípios, ou os “-ismos”, da cultura contemporânea: o relativismo, o pluralismo e o humanismo.

NÃO É TUDO RELATIVO

Vivemos na era do Relativismo – um sistema de crenças baseado na absoluta certeza de que não há absolutos. Hipocritamente aplaudimos homens que buscam a verdade, mas executamos em praça pública qualquer um que seja arrogante o suficiente para acreditar que a encontrou. Vivemos numa era de trevas auto-impostas, e a razão disso acontecer é clara. O homem natural é uma criatura decaída, é moralmente corrupto, obstinado na sua autonomia (i.e.,no seu auto-governo). Odeia a Deus porque Ele é Justo, e odeia as Suas leis porque censuram e restringem a sua maldade. Ele odeia a verdade porque revela o que ele realmente é. Ele quase acaba com o que ainda permanece na sua consciência. Portanto, o homem decaído busca empurrar a verdade – especialmente a verdade sobre Deus – para o mais longe possível. Ele vai até onde for preciso para suprimir a verdade, mesmo a ponto de fingir que tal coisa não existe ou que, se existe, não pode ser conhecida nem ter alguma coisa a ver com as nossas vidas. Não é Deus que se esconde, é o homem. O problema não é o intelecto, é a vontade. Como um homem que esconde a sua cabeça na areia para evitar o ataque de um rinoceronte, o homem moderno nega a verdade de um Deus justo e os Seus absolutos morais, na esperança de silenciar a sua consciência e de esquecer o julgamento que ele sabe ser inevitável. O Evangelho cristão é um escândalo para o homem e para a sua cultura, porque faz a única coisa que ele mais quer evitar – desperta-o do seu auto-imposto “sono” para a realidade da sua situação decaída, da sua rebelião; chama-o à rejeição da sua autonomia e à submissão a Deus, através do arrependimento e fé em Jesus Cristo.

NÃO ESTÃO TODOS CORRETOS

Vivemos numa era de Pluralismo – um sistema de crenças que põe fim à verdade, declaran do que tudo é verdade, especialmente no que diz respeito à religião. Pode ser difícil para o cristão contemporâneo entender, mas os cristãos que viveram nos primeiros séculos da fé foram marcados e perseguidos como se fossem ateus. A cultura que os envolvia estava imersa em teísmo. O mundo estava cheio de imagens de deuses, a religião era um negócio crescente. Os homens não só toleravam os deuses uns dos outros, como também os trocavam e partilhavam. O mundo religioso ia muito bem até chegarem os cristãos e declararem que “deuses feitos com as mãos não são deuses.” Eles negaram aos Césares as honras que eles exigiam, recusaram dobrar os joelhos aos outros ditos “deuses”, e confessaram Jesus apenas como Senhor de tudo. O mundo inteiro assistiu boquiaberto a tal arrogância e reagiu com fúria contra a intolerável intolerância dos cristãos à tolerância.

Este mesmo cenário abunda no nosso mundo hoje em dia. Contra toda a lógica, dizem-nos que todas as posições em relação à religião e moralidade são verdadeiras, não importa quão radicalmente diferente se contraditórias possam ser. O aspecto mais espantoso de tudo isto é que, através dos incansáveis esforços da mídia e do mundo acadêmico, isto rapidamente se tornou a opinião da maioria. Contudo, o pluralismo não lida com o problema nem cura a maleita. Apenas anestesia o paciente para que já não sinta nem pense mais. O Evangelho é um escândalo porque despertao homem do seu sono e recusa-se a deixá-lo descansar numa base tão ilógica. Força-o a chegar a alguma conclusão – “Até quando vão coxear entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, sigam-no; mas se é Baal, sigam-no.”

O verdadeiro Evangelho é radicalmente exclusivo. Jesus não é “um” caminho, mas “o” caminho.3 E todos os outros caminhos não são o caminho. Se o cristianismo desse mais um pequeno passo que fosse no sentido de um ecumenicalismo mais tolerante, e trocasse o artigo definido “o” pelo artigo indefinido “um”, o escândalo desapareceria; o mundo e o cristianismo podiam ser amigos. Contudo, quando isto acontecer, o cristianismo deixou de ser cristianismo. Cristo é negado e o mundo fica sem Salvador.

O HOMEM NÃO É A MEDIDA

Vivemos numa era de Humanismo. Nas últimas décadas, o homem tem lutado para expurgar Deus da sua consciência e da sua cultura. Derrubou todos os altares visíveis ao “Único Deus Vivo” e ergueu monumentos para si mesmo, com o zelo de um religioso fanático.Fez de si próprio o centro, a medida e o fim de todas as coisas. Louva o seu mérito inato, exige honra à sua auto-estima e promove a sua auto-satisfação e auto-realização como o maior bem. Justifica a sua consciência culpada com os resquícios de uma antiquada religião de culpa. Procura livrar-se de qualquer responsabilidade pelo caos moral que o envolve, culpando a sociedade, ou pelo menos a parte da sociedade que ainda não atingiu o seu nível de entendimento. A mínima sugestão de que a sua consciência pudesse estar certa no seu testemunho contra ele, ou que ele pudesse ser responsável pelas quase infinitas doenças que há no mundo, é impensável. Por este motivo, o Evangelho é um escândalo para o homem decaído, pois expõe a sua ilusão acerca de si mesmo e convence-o da sua situação decaída e da sua culpa. Esta é, essencialmente, a “primeira ação” do Evangelho; é por isso que o mundo detesta tanto a pregação do verdadeiro Evangelho. Arruína a sua festa – estraga prazeres – destrói a sua fantasia e expõe que “o rei vai nu”.

As Escrituras reconhecem que o Evangelho de Jesus Cristo é uma “pedra de tropeço”4 e “loucura” para os homens, em todas as gerações e culturas. Contudo, tentar remover o escândalo da mensagem é invalidar a cruz de Cristo e o seu poder salvador. Temos que entender que o Evangelho não apenas é escandaloso, mas que é suposto que o seja!Através da loucura do Evangelho, Deus destruiu a sabedoria dos sábios, frustrou a inteligência das grandes mentes e abateu o orgulho de todos os homens, para que no fim nenhuma carne se possa gloriar na Sua presença, mas como está escrito: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.”

O Evangelho de Paulo não só contradizia a religião, a filosofia e a cultura dos seus dias, mas declarava-lhes guerra. Recusava tréguas ou tratados com o mundo e satisfazia-se com nada menos do que absoluta rendição da cultura ao senhorio de Jesus Cristo. Fazemos bem em seguir o exemplo de Paulo. Temos que ser cuidadosos para evitar qualquer tentação de conformarmos o nosso Evangelho às modas de hoje ou aos desejos de homens carnais. Não temos o direito de deturpar, de suavizar a sua ofensa nem de civilizar as suas exigências radicais, para o tornarmos mais atraente a um mundo caído ou a carnais membros de igrejas. As nossas igrejas estão cheias de estratégias para serem mais “agradáveis”, pondo o Evangelho noutra embalagem, removendo a pedra de tropeço e amaciando o gume da espada, para ser mais aceitável aos homens carnais. Devemos ser sensível ao que busca, mas devemos perceber que: há só Um que busca e este é Deus. Se nos esforçamos para fazer nossas igrejas e mensagens confortáveis, façamos confortáveis para Ele. Se queremos erguer uma igreja ou ministério, vamos fazê-lo com uma paixão por glorificar a Deus e com um desejo de não ofender a Sua glória. Não importa o que o mundo vai pensar de nós! Não buscamos honras na terra, mas a honra do céu deve ser o nosso desejo.

Por Paul Washer | HeartCry Magazine Nov-Dez 2008, nº59, “AscandalousGospel”, usado com permissão.

Disponível em www.heartcrymissionary.com
Tradução:
portal-cristao.blogspot.com
Revisão
: voltemosaoevangelho.com

Fonte: [ Voltemos ao Evangelho ]
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A Autópsia de uma Fé

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Por Eduardo Rosa Pedreira

Desde a década de 60 a Igreja Evangélica Brasileira viu nascer dentro de si um movimento que tem sido chamado de novo pentecostalismo. Como qualquer outro fenômeno humano, este também é um feixe complexo no qual se entrecruzam, além da dimensão religiosa, as sociais, políticas, psíquicas e econômicas. Apesar desta complexidade é necessário que tentemos descrevê-lo, ainda que parcialmente.
O “apóstolo” Estevão Hernandes e sua esposa, a “bispa” Sônia, líderes da Igreja Renascer, são em muitos aspectos uma síntese deste movimento. Ressalte-se enfaticamente que nem todas as igrejas e pastores neo-pentecostais podem ser medidos pela maneira como este casal tem vivido e pregado sua fé. Todavia, não se pode negar que o “apóstolo” e a “bispa” trazem em sua trajetória a marca que tem caracterizado boa parte do mundo neo-pentecostal: líderes com um enorme carisma, dissociado de caráter e alimentado por uma teologia do consumo e da prosperidade.
O carisma de atrair multidões e saber lidar com elas, faz do líder de qualquer organização uma pessoa muito poderosa e na igreja não é diferente! Isto porque, um líder com forte carisma é capaz de seduzir seguidores a ultrapassar até mesmo os limites do razoável, pois o senso crítico de um grupo de pessoas diminui na proporção exata da incidência do carisma do líder sobre ele. O caráter por sua vez, é a fronteira do carisma. É através dele que se resiste às armadilhas do carisma. Então, quando um se desliga do outro, o líder perde o seu crítico interior, destrói seu super-ego ficando ao sabor do ego inflado pelos resultados advindos de sua liderança carismática.
Esta equação daninha de carisma sem caráter somente se sustenta no contexto da fé porque ganha contornos divinos. É a chamada teologia da prosperidade, que justifica diante dos fiéis os abusos financeiros de um estilo de vida socialmente nababesco vivido por muitos deles. Prega-se dentro desta visão teológica, que Deus deseja que os seus filhos prosperem, por isso, eles devem ofertar ao máximo, pois fazendo assim, serão recompensados. Ou no limite de suas angústias ou puramente interessadas numa barganha sobrenatural na qual a benção de Deus é comprada mediante o dízimo, pessoas vão embarcando nesta que é a curto, médio e longo prazo, uma canoa teologicamente furada. Obviamente que não para os líderes carismáticos pregadores de tal teologia que, diga-se de passagem, são os únicos realmente a prosperarem numa medida de milhões de reais.
A rigor, o quadro até aqui descrito não é novo, sendo já conhecido e tratado pela grande mídia. A novidade do presente momento, fica por conta das denúncias do Ministério Público Paulista que qualificam uma igreja como organização criminosa e responsabilizam seus líderes por ações ilícitas. Estas denúncias em si mesmas, independente do seu desfecho, devem constituir-se em uma séria advertência a todos, de que falta de caráter no âmbito da fé poderá trazer sérias implicações judiciais para aqueles que ultrapassem os limites legais. Sendo assim, a cadeia não pode ser encarada nem como punição divina e nem uma armação do diabo (como têm insinuado os líderes da Igreja Renascer), mas sim uma conseqüência natural que deve se abater sobre todos os infratores da lei.
Em tudo isso, é curioso notar que um outro Apóstolo (Tiago, este sim sem aspas!), escreve na Bíblia que a fé sem obras é morta. O que ele não disse, mas implícito está, é que uma fé morre não apenas pela ausência de obras, mas pela qualidade delas e dos meios usados para produzí-las. Portanto, uma fé sem ética está morta apesar dos muitos resultados. E uma vez morta, só nos resta fazer sua autopsia e torcer pelo seu breve sepultamento, para então renascer líderes que com integridade cumpram sua missão amando a Deus e a este povo tão sofrido!

A Questão da Cessação

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Por Richard Gaffin

É visão amplamente difundida hoje que todos os dons mencionados em Romanos 12, I Coríntios 12, e Efésios 4 foram dados para permanecer na igreja até o retorno de Cristo. A percepção de que certos dons cessaram é vista como um estratagema desesperado, em flagrante descuido para com o claro ensino bíblico, algo pouco convincente, uma racionalização a posteriori de uma igreja embaraçada pela ausência destes dons em seu meio. Não obstante, há várias linhas de ensino do Testamento Novo que, na sua convergência, apontam para a conclusão de que a profecia e as línguas foram designadas para cessar antes do retorno de Cristo, e de fato cessaram. Neste capítulo, serão esboçadas estas linhas, algumas delas mais completamente que outras.

A. A Natureza Temporária do Apostolado

Passando por sobre os detalhes do debate que tem envolvido muito os eruditos bíblicos sobre o papel do apóstolo, é uma generalização justa dizer que no Novo Testamento o termo tem uma de duas referências básicas: (1) pode se referir ao representante de uma igreja em particular, a quem temporariamente foi delegada uma tarefa específica (II Cor. 8.23; Fp 2.25; talvez Atos 14.4, 14). (2) A mais importante e dominante referência, tal como aparece em I Coríntios 12.28, 29 e Efésios 4.11, é quanto aos apóstolos de Cristo. Neste último sentido, os apóstolos são limitados em número (quantos, pode permanecer uma questão aberta aqui), e confinados à primeira geração da história da igreja. Este caráter temporário do apostolado pode ser visto de vários ângulos: (1) uma exigência era que o apóstolo fosse uma testemunha ocular e auditiva do Cristo ressuscitado (João 15.27; Atos 1.8, 22; 10.41). Paulo considera esta exigência como tendo sido atendida no caso dele pelo aparecimento de Cristo a ele na estrada de Damasco (I Co 9.1; 15.8e.d.; cf. Atos 9.3-8; 22.6-11; 26.12-18). (2) Paulo sugere que ele é o último dos apóstolos (I Co 15.8e.d.: “... último de todos... o menor dos apóstolos...”; talvez também 4.9: “...a nós, os apóstolos, em último lugar,” onde, provavelmente, “nós” não inclui Apolo [v. 6] mas é limitado a Paulo, desde que as experiências atribuídas a “nós” nos versos imediatamente seguintes [9b-13] são melhor compreendidas como a própria experiência individual de Paulo). (3) As Epístolas Pastorais tornam claro que Paulo vê Timóteo, mais do que qualquer outro, como o sucessor pessoal dele. A tarefa do ministério do evangelho designada por Paulo deve ser assumida e continuada por Timóteo (e outros). Mesmo assim, Paulo nunca o designa como apóstolo. De acordo com o Novo Testamento, “sucessão apostólica” em um senso pessoal é uma contradição em termos. A atividade dos apóstolos na igreja é “de uma vez por todas”. Qualquer um que esteja trabalhando com o Novo Testamento é então compelido a reconhecer o caráter temporário do apostolado. Esta conclusão tem sido negada ao longo da história da igreja e ainda há hoje os que resistem a ela. Com eles nós temos que dividir a companhia sobre este ponto, lamentavelmente. Mas onde for aceita, várias outras conclusões se tornam envolvidas. Por um lado, com tudo que é singular e preeminente sobre o ofício do apóstolo, posto que Paulo lista este dom como um (o primeiro) entre outros dons dados à igreja (I Co 12.28e.d.; Ef 4.11), há que se notar claramente não ser o caso que todos os dons mencionados por Paulo devam continuar até a volta de Cristo. Tampouco, por consequência, defender a posição de que um (ou mais) destes dons tenha sido retirado há de implicar, necessariamente, na negação da autoridade e aplicabilidade contínua da Bíblia. Além do mais, a distinção apostólico-pós-apostólico não é imposta sobre o Novo Testamento e sobre a história da igreja, mas é determinada pelo próprio Novo Testamento. As epístolas pastorais, em particular, são escritas para efetuar a provisão para o futuro pós-apostólico da igreja. Por conseguinte, a demanda que compromete a todos os que reconhecem a natureza temporária do apostolado, especialmente devido à sua importância óbvia e central, é determinar que elementos da vida da igreja são, assim, tão integralmente associados com o ministério dos apóstolos, a ponto de terem desaparecido junto com a cessação do apostolado, e quais elementos continuam no período pós-apostólico da igreja.

B. O Caráter Fundacional do Testemunho Apostólico

A atividade singular mais importante dos apóstolos seguramente é aquela já salientada, a saber, de testemunhas de Cristo (por exemplo, João 15.27; Atos 1.8; 13.31). Os apóstolos exibiram um testemunho autorizado e revestido de poder pelo próprio Cristo, concernente à sua ressurreição, como sendo o cumprimento da história do pacto (por exemplo, Lucas 24.48; Atos 1.22; 2.32; 4.33; 10.39-41). Por causa da centralidade e das implicações de longo alcance da morte e ressurreição de Cristo, este testemunho é uma interpretação abrangente de sua pessoa e obra. Não é limitado à proclamação dos fatos básicos do evangelho aos incrédulos. Antes, é de uma só essência com, ou melhor, é a totalidade da pregação e ensino apostólicos, seja oral ou escrito (II Ts 2.15). Consiste em declarar nada menos que “todo o conselho de Deus” (Atos 20.27), revelado na vinda do reino de Deus (por exemplo, v. 25) e a revelação do mistério em Cristo (por exemplo, Rom. 16.25e.d.), para a salvação do seu povo e a renovação de toda a criação (II Co 5.17; Ap 21.5).

Talvez a mais ampla perspectiva desta tarefa de testemunha seja oferecida em Efésios 2.19e.d. Nesse texto Paulo vê a igreja da nova aliança (conf. vv. 11e.d.) como o resultado da grande atividade de edificação de Deus no período entre a ressurreição e a volta de Cristo (conf. II Pe 2.4-8). Laborando desse modo, Paulo denomina os apóstolos, juntamente com Cristo, como a base, o fundamento da igreja-edifício (v. 20). Não é dito isto para que se ofusque ou se negue a superioridade da pessoa e da obra de Cristo como fundamento exclusivo da igreja (I Co 3.11), mas para incluir os apóstolos e a atividade deles dentro de um objetivo específico. Os apóstolos suplementam a obra de Cristo, não por expiação adicional ou por realizações redentivas de sua parte, mas pela sustentação do testemunho acerca da obra de Cristo. Em termos desta passagem, os apóstolos não são, como Cristo é, a paz que fez judeus e gentios um só, pela destruição da inimizade e pela reconciliação de ambos com Deus, bem como de um com o outro (vv. 14-16). Mas eles são os porta-vozes por meio de quem o Cristo exaltado vem e apregoa a paz-unidade tanto a judeus quanto a gentios (v. 17). A obra de Cristo uma-vez-por-todas, fundacional, consumada na sua morte e ressurreição, é ligada ao testemunho uma-vez-por-todas, fundamental, dos apóstolos com respeito àquela obra. Tal testemunho é antecipado em Mateus 16.18, onde Jesus chama Pedro, em sua confissão (conf. v. 16), na qualidade de representante dos demais apóstolos, de a pedra sobre a qual ele edificaria a sua igreja.

Os apóstolos não fazem parte da fundação por causa de sua precedência cronológica na igreja (se fosse assim, a inclusão de Paulo seria duvidosa; conf. especialmente I Co 15.8e.d.) ou porque o seu número fosse fixo (o Testamento Novo não tem por interesse delimitar seu número preciso). Nem são eles o fundamento por causa de sua raça (judaica). O ponto da passagem não é a unidade entre judeu e gentio exibida no fato de que gentios sejam edificados sobre um fundamento judeu, mas uma unidade entre judeu e gentio porque ambos são edificados sobre a base, que é Cristo, o qual, junto com os apóstolos e profetas, estabelece o fundamento. Os apóstolos não são parte do fundamento por qualquer razão ou característica de suas pessoas à parte do exercício de suas funções (apostólicas). Por outro lado, o fundamento não é o testemunho apostólico abstraído dos próprios apóstolos. A escolha entre um entendimento pessoal e um impessoal acerca do fundamento é um falso dilema exegético. O fundamento é os apóstolos na qualidade de apóstolos testemunhas, os apóstolos em termos da revelação dada a eles e pronunciada por eles (conf. Ef 3.5).

É também importante perceber que o fundamento aqui é absoluto e histórico em seu caráter. Ele não descreve situações particulares as quais o evangelho alcança pela primeira vez, indiferentemente de tempo e lugar. Antes, é parte de uma imagem histórico-redentiva única, abrangente[1] (edificação), a qual encena, no caso dos apóstolos como também de Cristo, o que é realizado uma única vez, ao início da história da igreja, e não permite repetição. O período, além deste que é fundacional, não é um tempo de reassentar perpetuamente o fundamento, mas é o da superestrutura que é construída em cima deste fundamento (que é definitivamente assentado). A natureza fundacional do testemunho abrangente dos apóstolos nos permite apreciar uma ênfase correlata na “tradição” apostólica a ser rapidamente assumida, como já encontrada em II Tessalonicenses (2.15; 3.6), sobre o “depósito” a ser guardado, nas cartas pastorais (I Tm 6.20; lI Tm 1.14) e na “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Esta ênfase reflete a autoridade conexa do testemunho dos apóstolos e estabelece linhas que preparam e apontam o caminho para o eventual surgimento do cânon do Novo Testamento (veja lI Pedro 3.16, onde as cartas de Paulo são já consideradas no mesmo nível das “demais Escrituras”).

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Extraído do livro "Perspectivas sobre O Pentecostes", Richard B. Baffin Jr., Ed. Os Puritanos, páginas 97 a 101.
Fonte: [
Os Puritanos ]
Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]

O Evangelho e a Mordomia

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Por Donald Whitney

Mordomia é o cuidado e a administração daquilo que pertence a outro. Embora sempre falemos sobre as coisas como "nossas", a realidade é que tudo que temos e tudo que somos pertence a outro – a Deus. Como disse o apóstolo Paulo: "Que tens tu que não tenhas recebido?" (1 Co 4.7). Portanto, foi de Deus que recebemosnossa vida e o tudo que há nela; e somos responsáveis por isso. Temporariamente – ou seja, até que Deus os exija de nós – somos mordomos desses dons.

Embora a mordomia seja frequentemente associada ao dinheiro, ela tem sido descrita memoravelmente como que incluindo o nosso tempo, talentos e riqueza. Mas a mordomia não diz respeito apenas a sermos bons administradores de nossa agenda, nossas habilidades e nossas coisas. A disciplina da mordomia bíblica nos chama a usar todas essas coisas da maneira como o Senhor quer, a empregá-las para a sua glória. No entanto, ninguém pode ser um mordomo no sentido bíblico se, antes disso, não entende o evangelho – a história do que Deus realizou por meio da vida e da morte de Jesus Cristo.

O evangelho cria mordomos

O evangelho é infinitamente mais do que um ingresso para o céu. É uma mensagem que muda não somente o destino da pessoa na eternidade, mas também seu coração e sua mente aqui e agora. O evangelho transforma mais do que o relacionamento de uma pessoa com Deus; também transforma o relacionamento de uma pessoa com todas as outras coisas.

Essa é a razão por que as evidências mais confiáveis de que uma pessoa se converteu é que ela começa a buscar maneiras de usar seu tempo, talentos e dinheiro no serviço do evangelho. Quando uma pessoa começa a usar diligentemente seus recursos para servir e propagar o evangelho, isso é um testemunho do valor que ela coloca no evangelho e do fato de que ela valoriza o Deus do evangelho acima de todas as coisas.

O pecado nos torna egoístas e desperdiçadores de tudo que temos e tudo que somos. Mas "a luz do evangelho da glória de Cristo" (2 Coríntios 4.4) nos ajuda a perceber que conhecer a Deus é infinitamente mais importante e mais valioso do que guardar o tempo e o dinheiro para nós mesmos. O evangelho nos faz achar prazer espiritual em usar essas coisas para atender às necessidades de outros e capacitá-los a ouvir o evangelho e a voltarem-se para Cristo. Chegar a conhecer a Cristo por meio do evangelho nos leva, por um lado, a avaliar nossos recursos e, por outro lado, a avaliar a alma das pessoas. Leva-nos também a dizer com o apóstolo Paulo: "Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma" (2 Co 12.15).

Mordomos precisam de disciplina

A disciplina para administrar nossos recursos de maneira intencional, norteada pelo evangelho e que glorifica a Deus não vem plenamente formada com a habitação do Espírito Santo – tem de ser cultivada. A mordomia tem de ser uma disciplina, pois sempre há algo mais clamando por nossos recursos. Sem disciplina, as melhores intenções de usarmos nosso tempo, talentos e dinheiro para o evangelho serão vencidas pelas circunstâncias e pelas emoções do momento, resultando em incoerência ou, pior, em negligência no uso mais eficiente de nossos recursos para o evangelho.

Em um sentido, a disciplina da mordomia é central a todas as outras disciplinas espirituais. Se não desenvolvermos um uso teocêntrico de nosso tempo, por exemplo, não nos engajaremos coerentemente nas disciplinas pessoais, como a oração ou o alimentar-nos da Palavra de Deus, nem participaremos com fidelidade das disciplinas espirituais interpessoais, como a adoração ou a comunhão coletiva.

Uma das passagens clássicas sobre mordomia é a parábola de Jesus a respeito dos talentos (Mt 25.14-30; Lc 19.12-17). Nessa parábola, o senhor recompensou aqueles que administraram bem os recursos que entregara ao cuidado deles e puniu aquele que não fez isso. Embora haja mais coisas que poderíamos aplicar dessa parábola, um fato evidente é que aqueles que foram considerados mordomos fiéis foram intencionais – disciplinados – em usar para seu senhor os recursos que ele lhes confiara temporariamente. Deus tem prazer na mordomia exercida com disciplina – e não com negligência – daquilo que lhe pertence.

O que é essa mordomia exercida com disciplina? É usarmos os nossos dons espirituais para servir a Deus em nossa igreja local. É designar uma parte de nosso dinheiro para a igreja cada mês, antes de pagarmos outras contas, para que o uso de nossos recursos seja coerente com as prioridades que mais valorizamos.

A disciplina entra no âmbito da mordomia porque é tão fácil desperdiçarmos nosso tempo, dissiparmos nossos talentos e sermos negligentes no uso de nosso dinheiro. No entanto, até o uso mais escrupuloso de nossos recursos é indigno sem o evangelho, pois é somente por meio do evangelho que recebemos tempo eterno no céu, talentos glorificados e o mais rico dos tesouros – Deus mesmo.

- Don Whitney é professor de Espiritualidade Bíblica e Deão Associado do Southern Baptist Theological Seminary de Louiville; Don obteve seu doutorado em ministério pelo Trinity Evangelical Divinity School e está completando seu segundo doutorado na área de Espiritualidade Cristã, pela universidade da África do Sul. É autor de vários livros e artigos e serve como professor convidado e preletor em seminários e conferências. É casado com Caffy e o casal tem uma filha, Christine. Don mantém uma página na internet: www.BiblicalSpirituality.org.

Traduzido por: Wellington Ferreira
Traduzido do original em inglês: The Gospel and Stewardship Revista Tabletalk. Com permissão de Ligonier Ministries

Fonte: [
Editora Fiel ]

Os Puritanos e a Dificuldade do Ministério

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Por Rev. D.J. MacDonald

“O trabalho do pregador”, diz Perkins, “é permanecer na presença de Deus, adentrar no santo dos santos, ir entre Deus e o Seu povo, ser a boca de Deus para o povo, e a do povo para Deus; ser o intérprete da eterna lei do Antigo Testamento e do sempiterno evangelho do Novo Testamento; permanecer no espaço do Próprio Deus; cuidar e encarregar-se das almas; estas considerações são maravilhas para a consciência de homens que aproximam-se com reverência, e não com descuidada pressa, ante o trono santo”.[1]

“Não é difícil ensinar?” pergunta John Collings, em sua “A Vindication of the Great Ordinance of God, a Gospel Ministry” (1651). “Meus amados amigos, estamos consigo em muito temor e tremor; e quando consultamos os originais, pesamos a coerência de um texto, comparando nossos pensamentos com os pensamentos de muitos outros divines (teólogos) e principalmente comparando Escritura com Escritura, ainda assim estamos nós em tremor e vemos razão para clamar ao Senhor como Agostinho (antes da nossa interpretação da Escritura): Concede, Senhor, que nós não nos enganemos na compreensão da Tua vontade e que não enganemos a outros, com uma falsa interpretação”.

Sempre que olhamos ou mergulhamos nos escritos dos Puritanos, ficamos com a impressão de que eles tinham uma visão séria e elevada do ministério. “Era”, diz Iain Murray, “uma vida que os enchia de emoção, de reverência. Eles eram da mesma têmpera de Lutero, que disse que se tivesse de atender novamente à sua vocação ele cavaria ou tomaria sobre si qualquer outra coisa contanto que não fosse o ofício de ministro”. Calvino, mesmo após haver escrito sua obra mestra, “As Institutas”, julgava-se insuficiente para aceitar o peso da função ministerial. Knox... foi tão profundamente afetado pela responsabilidade do ofício que foi com grande dificuldade induzido a iniciar o seu ministério de pregação. Knox tremeu ao tomar sobre si o ofício do ministério, não somente devido ao seu senso de incapacidade, mas por saber que as responsabilidades do ofício, uma vez aceitas devem, a qualquer custo, serem levadas a cabo.

“Foi escrito sobre James Durham que, ao aproximar-se do fim da vida, ele disse que se pudesse viver outros dez anos, ele escolheria estudar durante nove anos como preparação para poder pregar no décimo. Perkins estava tão impressionado pela carga sob a qual se encontrava, que ele escreveu na página-título de um dos seus livros, ‘Tu és um ministro da Palavra. Cuida dos teus negócios’. Thomas Shepherd, falando a alguns jovens ministros que o visitaram em seu leito de morte, disse, ‘Sua tarefa é grandiosa e exige grande seriedade. Da minha parte, eu nunca preguei um sermão o qual, durante a preparação não me custasse orações com lágrimas e choro forte. Eu nunca subi num púlpito como se não fosse prestar contas de mim mesmo a Deus’”.[2]

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[1] Works, vol 3, p 432.
[2] Do texto de título "The Puritan View of the Ministry and its Relation to Church Government" (“A Visão puritana do ministério e a sua relação com o governo eclesiástico”), veiculado posteriormente na "The Banner of Truth Magazine", agosto de 1957.


Fonte: [ Os Puritanos ]
Via: [ 2 Timóteo 3:16 ]

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Males Advindos do Amor ao Dinheiro

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Por Pr. Edson Rosendo de Azevêdo

A Bíblia não se cansa de admoestar os crentes contra a praga do amor ao dinheiro. O lado material da existência – forte, diga-se – fala de modo especial aos ouvidos dos homens, quer crentes, quer ímpios, para estes muito mais.

Não se pode negar que o dinheiro e as posses conferem alguns poderes, privilégios e facilidades. Porém, traz consigo muitos dissabores, transtornos, destruição e males, males sem conta. De capa a capa da Escritura, encontramos advertências para que os crentes não amem o dinheiro, pois é básico que não se pode servir a dois senhores. O crente que ama o dinheiro decididamente não ama a Deus. Ninguém pode amar os dois. Livros e mais livros seriam necessários para relacionar os males trazidos pelo amor ao dinheiro. Mas há alguns males imediatos que precisamos denunciar.

Primeiro, o amor ao dinheiro embota completamente qualquer via de conhecimento espiritual, deixando a pessoa ignorante acerca de Deus, de Cristo, do Mediador, da fé, da Escritura e da vida eterna. Ela fica sem saber discernir o homem de Deus, o Criador da criatura, confunde o Salvador com um homem e não tem qualquer noção da sua divindade. O crente que ama o dinheiro dedica o melhor do seu tempo ao dinheiro, ao seu planejamento, à sua admiração, à sua adoração, abandonando a oração, o estudo da Escritura, o culto público.

Segundo, o amor ao dinheiro tira do homem a percepção do próximo, fazendo-o perder a solidariedade da raça, deixando-o sem qualquer sensibilidade para com o semelhante e suas necessidades. Ele passa a ver o próximo como ameaça a seu patrimônio, daí distanciando-se dele.

Terceiro, ele facilmente pratica todas as transgressões que o dinheiro lhe permite, como adultério, roubo, mentiras, assassinatos e desonra das autoridades. O amor ao dinheiro é afim de todas essas transgressões da lei de Deus, aprisionando anda mais o pecador nas garras de todos esses crimes. Ter muitos bens e posses e amá-los, ou não ter bens e posses mas cobiçar tê-los, deixa os homens em pé de igualdade em termos de crime.

Portanto, os males do amor ao dinheiro e às posses atingem tanto ricos quanto pobres, e todos os crentes devem fugir deles enquanto é tempo.

Este Sermão foi baseado em Lucas 18:18-23 e foi proferido pelo Pr. Edson Rosendo, do púlpito da Igreja Batista Reformada em Caruaru, no domingo, Dia do Senhor, 07/08/11. Foi dividido em três pontos:
1 O Mal da Ignorância Espiritual
2 O Mal de Confiar nas Boas Obras
3 O Mal de Preferir a Morte do Que a Vida
Para escutar o sermão completo, faça o download clicando aqui!

Fonte: [ Igreja Batista Reformada ]
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Os Inquisitores da Teologia da Prosperidade

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Por Daniel Clós Cesar

Existe um grupo de pregadores showman que acusa apologistas de não crerem em nada. Lamentável... cremos mais do que eles imaginam. Cremos tanto na Palavra de Deus, amamos tanto o Deus que nos outorgou preciosas promessas, que sentimos verdadeiro asco de tudo que contraria a santidade nela expressa.

Acontece, que ainda que sem muito efeito nas massas... pois o acesso a serviços de internet e computadores no Brasil têm preços abusivos, diferente da televisão, que deve ser o terceiro ou quarto eletrodoméstico mais popular nas casas brasileiras... blogs e sites de conteúdo verdadeiramente cristãos, onde ensina-se a Palavra e prega-se um Evangelho bíblico, são terrivelmente prejudiciais à Teologia da Prosperidade e seus sacerdotes.

Para os "sacerdotes da prosperidade", cristianismo é seguir não a Palavra, ainda que de seus lábios profiram tal afirmação. Para eles, seguir o evangelho, é seguir suas determinações e ensinamentos... estar atento as suas profecias e visões... é andar seguindo os seus passos e não os de Cristo.

O movimento conhecido como Contra-Reforma, ocorrido em meados do século XVI, foi uma resposta da igreja romana à Reforma promovida por Martinho Lutero e outros reformadores. Entre suas providências, retomou o Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição, e publicou a Index Librorum Prohibitorum (lista de livros proibidos) que vetava entre outras coisa... pasmem... a leitura da Bíblia.

A única publicação da Bíblia permitida era em latim. Uma língua de domínio apenas do alto clero (bispos, arcebispos e cardeais).

Agora parece, obviamente não de forma oficial, pelo menos um destes gospel-showman, deseja criar sua própria index, onde não são livros que ele proíbe, mas blogs e sites de pessoas e ministérios que, segundo ele, não tem história no evangelicalismo tupiniquim. Que são apenas críticos que não creem em nada e não "constroem nada". Quem sabe mais adiante, ele também inclua em sua lista Bíblias não publicadas por determinada editora ou que não são comentadas por determinado "profeta".

Eu realmente não tenho história no evangelicalismo brasileiro. Minha história, graças ao sangue vertido na cruz, não segue determinações e profecias deste mundo, mas segue o curso predeterminado por Deus em sua infinita misericórdia, amor e graça para comigo.

No mais, usando apenas parte da orientação que ouvi de um showman... "creia na Palavra de Deus"... mas apenas uma parte da orientação dele é excelente... o resto... foi egocentrismo.

Fonte: [ Blog do autor ]
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