John Knox: O Reformador da Escócia

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Sinopse Histórica e Obras.

1513-1515 (?) = A data e o local de nascimento de John Knox são incertos, sendo aceita a data de 1513 como a mais provável. É possível que Knox tenha nascido no povoado de Haddington, às margens do rio Tyne, distrito de Lothian Oriental, cerca de 30 Km a leste de Edinburgo(2). Seu pai, William Knox era homem do campo e sua mãe era membro da família Sinclair. Sua mãe faleceu quando ainda era criança. Foi educado por sua madrasta, que era carinhosa e compreensiva.

Recebeu boa educação, aprendendo latim nos estudos regulares. A seguir matriculou-se na Universidade de Saint Andrews(3), para a formação acadêmica.

Waldyr Carvalho Luz descreve Knox como um homem comum e de aparência atarracada. Ombros largos, altura abaixo da média; possuindo um olhar brilhante e penetrante; saúde razoável; de temperamento impetuoso e disposição férrea(4). Lloyd-Jones comenta que “havia algo que lhe vinha aos olhos uma vez ou outra, que, literalmente, punha o temor de Deus dentro das pessoas”(5). Cairns nos diz que ele “era um homem corajoso, ríspido até, às vezes, que a ninguém temia, exceto a Deus”(6). 

1528 = As idéias luteranas do jovem pastor Patrick Hamilton, que estudara em Marburg e Wittenberg, com Lutero, foram uma causa positiva do início da reforma na Escócia. Ele ensinava a justificação pela fé e chamou o Papa de anticristo. A morte prematura de Patrick Hamilton, queimado de forma desumana lentamente na fogueira como herege, marcou profundamente John Knox, que tinha por volta de 15 anos nessa época.

1530 = Ordenado sacerdote católico, tornou-se discípulo de George Wishart, que introduzira os ideais da reforma zuingliana na Escócia. Wishart traduziu para o inglês em 1536, a Confissão Suíça. O pensamento de Wishart influenciou fortemente a vida espiritual de Knox. Pouco depois se tornou tutor de filhos de nobres favoráveis à reforma.

1544-46 = Knox serve a Wishart como seu guarda-costas entre 1544-46(7). Wishart foi queimado em uma estaca em Edimburgo, em 1546.

1546 = Pregou aos soldados protestantes no acampamento de Saint Andrews até ser capturado pelo exército francês, por ter participado de uma revolta em prol da reforma (31/07/1547). Trabalhou por 19 meses(8) como escravo nas galés de um navio militar francês até sua libertação na troca de prisioneiros. Nas galés sofreu, não só os rigores desse tipo de vida, como também muita crueldade, debilitando sua saúde(9). 

1549-51 = Retornando à Escócia, como a situação não era favorável, mudou-se para a Inglaterra, sendo designado ministro e pregador em Berwick, na fronteira com a Escócia, e posteriormente Newcastle. Nesse período firmou-se como grande pregador.

1552 = Transferindo-se para Londres, serviu como um dos capelães reais e um dos pregadores da corte, pregando várias vezes na presença do rei. 

Em setembro, poucas semanas antes da publicação dos 45 Artigos, que dariam origem aos 39 Artigos, pregou perante o rei um sermão contra o artigo 38, que obrigava a recepção da ceia (hóstia) de joelhos. Knox afirmou que o ajoelhar-se era idolátrico e pecaminoso. Isso levou Cranmer a inserir, às pressas, uma observação ao artigo, publicado em uma folha em separado, que ficou conhecido como “o Artigo Negro”(10). 

1553-54 = Quando Eduardo VI ofereceu-lhe o bispado de Rochester, Knox o recusou desprendidamente, porque entendeu que esse oferecimento era uma tentativa do regente real Northumberland de silencia-lo e neutralizar sua influencia na corte real(11). 

Com a ascensão de Maria Tudor ao poder na Inglaterra, teve de fugir para a Europa (03/1554). Indo para a Suíça, onde passou algum tempo com Calvino, em Genebra e Bullinger, em Zurique. Também fez visitas a Escócia, a fim de animar a fé dos que deixara no país(12). 

1554-1559 = Nesse período esteve em Genebra e tornou-se aluno de Calvino, o qual considerava “o notável servo de Deus”(13). Sob a persuasão de Calvino aceitou pastorear exilados religiosos ingleses em Frankfurt, na Alemanha. Após algum tempo ali, devido a vários problemas, especialmente devido a disputas com o anglicano Richard Cox, que queria que a igreja de refugiados em Frankfurt tivesse “um rosto inglês”(14). A resposta de Knox refletiria o ponto central das controvérsias que se seguiriam na Inglaterra posterior entre os puritanos e a igreja Anglicana: “O Senhor permita que ela tenha a face da igreja de Cristo”. Por influência e incitação de Cox, Knox foi expulso de Frankfurt e teve de retornar a Genebra, sendo acompanhado por vários dos refugiados que pastoreava. Ali tornou-se novamente pastor da igreja inglesa (1555-59). 

Casou-se com Marjorie Bowes em 1555, numa rápida visita à Escócia. Em 1556 escreveu A Forma de Orações, como diretório de culto.

1557 = Em dezembro de 1557, os nobres escoceses fizeram um pacto de usar suas vidas e bens para estabelecer “a Palavra de Deus” na Escócia. Nessa conjuntura, Knox iria voltar à Escócia para implantar o calvinismo e fundar a igreja presbiteriana escocesa.

1558 = Publica o Primeiro Clarim Contra o Monstruoso Governo de Mulheres, dirigido a Maria Tudor(16), em que ele dizia ser contra a natureza, Deus, e sua palavra, uma mulher governar, pois isso era “a subversão da boa ordem, de toda justiça e equidade”. Seu livro foi publicado em má hora, pois teve de se desculpar com a rainha da Inglaterra (Elizabeth I) por causa disso. A rainha Elizabeth nunca o perdoou por causa desse livro. Ainda nesse ano publicou Supplication (Rogativa), dirigida à regente escocesa; Appellation (Apelação), dirigida à nobreza da Escócia; e por último: Letter to The Commonality of Scotland (Carta ao Povo em Geral da Escócia)(17) .

1559 = A pedido de Calvino, escreveu seu único tratado teológico; Treatise on Predestination (Tratado Sobre a Predestinação). Vendo a atitude da rainha Elizabeth I para com a reforma inglesa, escreveu uma Breve Exortação à Inglaterra a Abraçar Rapidamente o Evangelho de Cristo Doravante, à Supressão e ao Banimento da Tirania de Maria(18). A rainha da Inglaterra fez-lhe forte objeção, por considerá-lo uma intromissão de um escocês nos negócios da Inglaterra; também porque Knox usara de uma linguagem muito forte. Pregava contra os bispados ingleses e afirmava que o reinado de Maria Tudor fora um juízo de Deus sobre a Inglaterra por esta não levar adiante a reforma da igreja(19). 

Knox retornou à Escócia, em abril desse ano, pregando na igreja de S. Giles, em Edimburgo.

1560 = Knox e os Lordes da Congregação iniciam a Reforma na Escócia. Participou da composição da Confissão Escocesa e ajudou a esboçar o Primeiro Livro de Disciplina.

  • Pôs-se fim do domínio papal na igreja escocesa.
  • A missa é declarada ilegal.
  • Revogação de todos os decretos contra os hereges (protestantes).
  • Aceitação da Confissão de Fé dos Seis Johns (Confissão Escocesa), escrita em quatro dias, a pedido do parlamento. Essa confissão, de inspiração notadamente calvinista foi a principal confissão de fé escocesa até a adoção da Confissão de Fé de Westminster em 1647.
  • Organização da igreja em presbitérios, sínodos e uma assembléia geral, semelhantes aos de Genebra. Nesse mesmo ano reuniu-se pela primeira vez a Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Foram formalmente implantados em 1567.

Apesar disso, Knox teve muitos problemas com os lordes da congregação, que desejavam apossar-se das terras católicas. Knox insistia que deveriam ser utilizadas para o alívio da pobreza no país, estabelecer um sistema de educação universal e sustentar a igreja escocesa(20). 

Em dezembro desse ano, faleceu sua esposa, deixando-lhe dois filhos pequenos: Nathanael (3 anos e meio) e Eleazer (dois anos). Calvino lhe escreveu uma carta demonstrando a sua solicitude e condolências.

1561 = Maria Stuart assume o trono escocês, segundo Gonzalez, a convite dos lordes da congregação(21). Era uma mulher bela e inteligente. Ela teve vários encontros duros e francos com Knox, que não cedeu frente às suas lágrimas e lisonjas, tentando levar a igreja escocesa de volta ao catolicismo(22). 

1564 = Publicação do Livro de Ordem Comum.

1567/68 = Maria Stuart, abdica ao trono escocês e refugia-se na Inglaterra, sob a tutela de Elizabeth I. Após a abdicação de Maria Stuart, Knox pregou na coroação do filho dela, James I, como rei da Escócia(23). 

1572 = Próximo à data que marcou a noite de S. Bartolomeu, na França (24de agosto) Knox teve um ataque de paralisia e retirou-se da liderança da reforma. Mesmo assim, ao saber dos eventos dessa noite, fez um grande esforço para retornar ao púlpito, avisando a seus compatriotas que igual destino lhes cairia se fraquejassem na luta(24). 

24/11/1572. Na manhã desse dia pediu à sua esposa que lesse dois textos bíblicos para ele; I Coríntios 15, que fala da ressurreição; e João 17, a oração sacerdotal de Cristo, sobre o qual comentou; “Aqui lancei a minha primeira âncora”(25). Por volta das 22 horas, seu médico perguntou-lhe se ouvira as orações dos presentes a seu favor, ao que respondeu: “Quisera Deus que vocês e todos os homens as ouvissem como eu as ouvi; e a Deus louvo por este som celestial... Agora chegou”. Foram as suas últimas palavras, então faleceu.

Ainda neste ano, tentou-se restabelecer o sistema episcopal na igreja escocesa, contudo, Andrew Melville (1545-1622), reitor da Universidade de Glasgow, conduziu a luta pela restauração do sistema presbiteriano. 

Em 1581, foram restabelecidos os presbitérios e em 1592, debaixo de forte oposição real (James VI) o presbiterianismo tornou-se a religião oficial dos escoceses. A vitória final, porém, só seria definitiva em 1690(26). 

Apanhado Teológico.

Não é correto afirmar que o pensamento de John Knox não tinha originalidade e que foi um mero repetidor das idéias de Calvino. Lloyd Jones(27) aponta dois pontos de seu pensamento em que isso fica claro. Primeiro na questão da relação entre Igreja e Estado; segundo na atitude para com diversas cerimônias religiosas da Igreja Anglicana, exemplificadas em seu livro “O Primeiro Toque da trombeta Contra o Governo Monstruoso das Mulheres” de 1558.

Knox via a si mesmo como um pregador e não como um teólogo acadêmico. Entendia que sua função era a de “tocar a trombeta do seu mestre”(28). Seus sermões eram caracterizados pela exposição bíblica e pela preferência pelo Antigo Testamento(29), atacando a idolatria e a corrupção do culto cristão.. Knox seguia à risca o princípio da sola Scriptura, tendo a Bíblia como a única base autorizada em que a doutrina pode ser fundamentada. Afirmou, seguindo Lutero e Wishart a justificação pela fé somente (sola fide).

Sua teologia era profundamente calvinista. Sua obra, Tratado Sobre a Predestinação (1559) segue de perto as formulações de Calvino e Beza, quando ensina que Deus escolheu soberanamente alguns para a salvação e outros para a condenação eterna, afirmando que a salvação do homem depende exclusivamente da graça divina.

Participou da confecção da Confissão Escocesa, caracterizada “pela centralidade de Cristo em cada um de seus vários tópicos, bem como pela riqueza da espiritualidade e o calor de expressão”(30). 

Knox também percebeu que como a Igreja estava mudando de uma forma para outra completamente, seria necessário a composição de um Livro de Disciplina, onde fosse elaborado um plano para a vida eclesiástica e social da nação. É no Livro de Disciplina, seguindo a Confissão Escocesa, que ficam definidas como marcas da verdadeira igreja: a pregação correta da Palavra de Deus, a administração correta dos sacramentos (batismo e ceia) e o exercício correto da disciplina eclesiástica(31). 

As marcas, sinais e símbolos seguros pelos quais a imaculada noiva de Cristo é distinguida da horrível meretriz, a falsa igreja, nós afirmamos, não são nem antigüidade, nem título usurpado, sucessão linear, lugar indicado, número de homens que provocam o erro... As marcas da verdadeira Igreja, portanto, nós cremos, confessamos e admitimos ser: primeiro, a pregação da verdadeira Palavra de Deus, na qual Deus tem nos revelado a si mesmo, como os escritos dos profetas e dos apóstolos declaram; segundo, a correta ministração dos sacramentos de Cristo Jesus, com os quais devem ser associados a palavra de Deus e a promessa de Deus para selá-las e confirmá-las em nossos corações; e por último, disciplina eclesiástica corretamente ministrada, como a Palavra de Deus prescreve, com a qual a imoralidade é reprimida e a virtude é alimentada. (Confissão Escocesa 18)(32) .

A inclusão da disciplina como terceira marca da igreja o distingue de Calvino, que embora tivesse a disciplina em alta conta, nunca afirmou ser ela a terceira característica da igreja verdadeira. É exatamente nesse ponto que se percebe a influência de Bullinger em seu pensamento, pois é na Confissão Belga de 1536, que essa distinção aparece pela primeira vez. Também sua visão da disciplina, não pode ser entendida legalisticamente, mas deve ser vista à luz da participação do crente no sacramento da ceia, que não deveria “ser profanada com a permissão de que os negligentes e os deliberadamente iníquos se aproximassem da Santa Mesa no momento sagrado em que o Senhor e os participantes estivessem (como diz Knox) ‘unidos simultaneamente’”(33). 

O Livro de Disciplina também orientava sobre o culto. Nele ficava claro que a exposição das Escrituras é a parte central do culto verdadeiro. Em Knox, mais do que em qualquer outro reformador fica clara a aplicação do princípio regulador do culto, pois ensinava, seguindo Zuínglio e John Hooper, que nenhuma prática era legítima no culto público, a não ser que especificamente ordenada nas Escrituras. Sua compreensão sobre a Ceia era semelhante a de Calvino e Bucer, ou seja, cria numa presença espiritual de Cristo na ceia, sendo recebida somente pela fé. H. Griffith(34), argumenta que o Primeiro Livro de Disciplina não era rigorosamente presbiteriano, mas já continha a sua semente.

A contribuição mais importante de Knox para a teologia protestante foi o seu conceito do relacionamento entre Igreja e Estado. Ele cria que Igreja e Estado perfaziam a mesma comunidade. A reforma religiosa não se imporia sem uma reforma política. A religião verdadeira deveria transformar tanto o indivíduo como a sociedade. Seu modelo para o governo civil foi retirado dos conceitos do Antigo Testamento. Na época da Reforma, a religião do príncipe era a religião do povo. Como Knox lutava contra o governo das rainhas católicas, achou um precedente no Antigo Testamento, para a desobediência civil quando as autoridades do povo contradiziam a Lei superior das Escrituras. Seu pensamento a respeito consta de sua obra: An Admonition or Warning (Uma Admoestação ou Advertência - 1554). Por fim, propôs que os cristãos são obrigados a derrubar um monarca idólatra (The First Blast of the Trumpet Against the monstrous Regiment of Women – O Primeiro Toque da trombeta Contra o Governo Monstruoso das Mulheres - 1558). Os ensinos de Knox contribuíram para o crescimento do conceito de liberdade religiosa.

Mesmo não sendo um revolucionário social, Knox também desenvolveu uma visão social bem clara para a Igreja. “Ele afirmou a obrigação de cada cristão cuidar dos pobres e elaborou um sistema mediante o qual cada igreja sustentaria seus próprios necessitados e administraria escolas de catequese para todas as crianças, ricas e pobres”(35). 

Segundo Lloyd-Jones, Knox é o pai do puritanismo, apontando como razões a originalidade de seu pensamento e também porque apresentou com muita clareza os princípios normativos do puritanismo, quais sejam, a autoridade suprema das Escrituras; uma reforma que alcançasse mais do que a doutrina apenas, mas que também atingisse a vida prática de cada pessoa como cristão e como cidadão mais plenamente, uma reforma “de raiz e ramos”(36). 

Lançou as bases mais concretas do princípio regulador do culto, contra o cerimonialismo anglicano, ao defender que a Igreja deveria reformar suas cerimônias, na forma de conduzir o culto e na administração das ordenanças. Para ele, nada podia ser acrescentado ou diminuído ao ensinado expressamente nas Escrituras. Segundo interpreta Lloyd-Jones: “Diziam que ele afirmava que o homem não pode formar nem inventar uma religião aceitável a Deus, mas está obrigado a observar e a manter a religião que de Deus é recebida, sem trocas nem mudanças”(37). 

Knox também escreveu uma História da Reforma na Escócia(38), que foi publicada somente em 1587, na Inglaterra, após a sua morte. A publicação na íntegra apareceu somente em 1644.

O Que Podemos Aprender com Knox?

1. Sua firmeza na defesa daquilo em que acreditava.

Ele sobressai na sua conscienciosa aplicação daquilo que acreditava ser o modelo neotestamentário concernente à natureza da Igreja, às ordenanças e cerimônias, e ao exercício da disciplina(39). Ele é o pai do puritanismo no seu conceito de culto e do princípio regulador. Seus ensinos sobre a desobediência civil ao Estado forneceram “as diretrizes para uma doutrina da Igreja e do Estado desenvolvida pelos presbiterianos e pelos huguenotes franceses em tempos posteriores”(40). 

2. Sua paciência e perspicácia pastoral.

É sabido que em seu tempo em Newcastle e Berwick, sob a jurisdição da Igreja da Inglaterra, ele simplesmente deixava de lado a aplicação em sua congregação dos Livros de Oração Comum de 1548 e 1549. Ele não pregava contra, mesmo discordando deles, simplesmente não os aplicava. Lloyd-Jones chama a atenção para o fato de que não precisamos ficar dizendo o que vamos fazer e assim chamando a atenção para a questão e causando polêmica, pois muitas vezes na vida pastoral, fazer em silêncio é mais importante do que falar(41). 

Essa atitude sua milita contra as acusações freqüentes de que Knox era um fanático autoritário, movido por presunção e ambições. Mas a moderação, muitas vezes é encontrada na paciência de esperar a hora certa de agir. Para Knox essa hora veio quase vinte anos depois, Quando pastoreou refugiados ingleses em Genebra e quando implantou o presbiterianismo na Escócia, sem os ritos do Livro de Oração Comum, e na aprovação de seu Livro de Disciplina e na Ordem do Culto. Embora a Reforma escocesa acontecesse sem derramamento de sangue, Knox e seus amigos passaram por difíceis testes na sua fé antes que o ideal reformador se estabelecesse completamente. Em meio a todos eles perseveraram com paciência.

Esse ponto também fica claro em sua carta de 1567 aos pastores puritanos que estavam sendo perseguidos pelos bispos anglicanos. Knox argumentou com eles que não cortassem seus laços com a Igreja da Inglaterra, mas que “deveriam manter o acordo pela paz e pela unidade, por algum tempo”(42). Na verdade, Knox os aconselhava a serem mais pacientes e aguardarem uma oportunidade mais favorável às reformas puritanas, pois tinha esperança de mudanças.

3. Sua pregação fiel e ao mesmo tempo contextual.

Knox não hesitava em ir ao púlpito e pregar abertamente contra aquilo que não concordava, de acordo com as Escrituras. Também várias vezes usou da pregação para refrear a cobiça dos lordes pelas terras da Igreja católica desapropriadas na Escócia. Knox nos ensina que a pregação da palavra tem de ser a exposição bíblica e que essa exposição não pode estar alienada do mundo ao seu redor, antes deve falar a ele partindo da Escritura como única regra de fé e conduta.

Knox nos dá um exemplo primoroso do que seja uma teologia engajada, que busca aplicar os preceitos bíblicos em todas as áreas da vida cristã privada e pública. A rainha da Escócia declarou que temia mais as orações e pregações de John Knox, do que dos soldados e dos canhões da Inglaterra. Seu sermão tinha a capacidade de colocar o temor de Deus nas pessoas.

Seu senso da total dependência humana da graça divina, que compunha o seu pensamento e sua vida tornou-se “o centro da vida das igrejas reformadas durante toda a sua história”(43). 

4. Seu amor pela Igreja de seu país.

Knox orava pela igreja escocesa; “Oh Deus! Dá-me a Escócia, senão eu morro”. Buscou de todas as formas que pode conceber, reformar a igreja de seu país, mesmo quando estava em Genebra, enviava-lhes seus livros, exortando-os à reforma. Por fim, no último dia de sua vida, pediu, segundo o relato de sua própria filha, que sua esposa lesse para ele João 17, dizendo: “Leia a parte onde eu lanço a minha primeira âncora”(44). 

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Notas de referência: 

[1] Apresentação do autor abaixo das notas de referência.
[2] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, ECC, p.13.
[3] Cairns diz que foi em Glasgow (Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, Vida Nova, p. 260).
[4] Waldyr C. Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, p.14.15.
[5] D. Martin Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, PES, p.4,5.
[6] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p. 260.
[7] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, p.32.
[8] Agosto de 1547 a Fevereiro de 1549. Ibid., p.57..
[9] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.2.
[10] Ibid., p.20.
[11] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, p.63.
[12] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, Vida Nova, p.138.
[13] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p.260.
[14] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.9.
[15] Tony Lane, Pensamento Cristão, Vol. II, Abba Press, p.42.
[16] As outras mulheres governantes eram as católicas Maria de Lorena, na Escócia; e Catarina de Médicis, na França. Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, vol. VI, p.139.
[17] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, ECC, p.93.
[18] A Brief Exhortation to England for the Speed Embracing Christ’s Gospel Heretofore by Tyranny of Mary Suppressed and Baniished.
[20] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.24,25.
[21] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, vol. VI, p.141.
[22] Ibid.
[23] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p.261. Veja um extrato de uma dessas conversas em: John Leith, A Tradição Reformada, Pendão Real, p.342.
[24] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC (Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã) vol. II, Vida Nova, p.403.
[25] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, p.143.
[26] F. F. Bruce, João, Introdução e Comentário, Vida Nova, p. 280. Lloyd Jones coloca de forma ligeiramente diferente: “Leia a parte onde eu lanço a minha primeira âncora” (Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.32).
[27] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p.262.
[28] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.9.
[29] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, Vida Nova, p.403.
[30] John Leith, A Tradição Reformada, p.211. Embora John Leith classifique os sermões de Knox com a expressão “literalismo bíblico”, preferimos a terminologia “exposição bíblica”, pois reflete melhor o método de Knox.
[31] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, Vida Nova, p.404.
[32] Ibid.
[33] Citada por Tony Lane, Pensamento Cristão, Vol. II, p.43.
[34] James S. Mcewen, citado por: John Leith, A Tradição Reformada, p.247.
[35] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, p.404.
[36] Ibid., p.405.
[37] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.13.
[38] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.14.
[39] O título completo é: História da Reforma de Religião Dentro do Reino da Escócia. A versão integral dessa obra apareceu somente em 1644, segundo Tony Lane (Pensamento Cristão, Vol. II, p.42).
[40] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.15.
[41] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, p.405.
[42] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.6,15.
[43] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.26. Itálicos meus.
[44] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, p.405.
[45] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.32.

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Autor: Rev. Hélio de Oliveira Silva, é Bacharel em Teologia (BTh-SPBC-1990). Mestre em Teologia Histórica (STM-CPPGAJ/2004). Bacharel em Teologia (Convalidação - FAIFA/2011). Pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana do Jd. Goiás - Goiânia/GO. É professor no SPBC desde 1999, onde leciona dentre outras matérias, Literatura Patrística e Reformada e História da IPB.

Fonte: Anunciando Todo o Desígnio de Deus

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A Gênese da Revolução Civil - Uma Refutação a Olavo de Carvalho (Parte 2)

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FRANCISCO DE ASSIS - O DUX DA TERCEIRA ERA

Na primeira parte desse trabalho, publicada há algumas semanas, procurei resumir um pouco da situação conflituosa que marcou a Baixa Idade Média e verificar o conflito entre uma ordem “natural” e a influência “sobrenatural” da Igreja, bem como os efeitos disso na ordem civil antes da Reforma Protestante. Em seguida, voltei a atenção para a obra do monge cistercience Joaquim de Fiori, que representou uma ruptura com a Filosofia da História de Agostinho, e como sua interpretação milenarista influenciou o pensamento de figuras importantes, seja imperadores, papas ou poetas como Dante Alighieri. É útil ressaltar que presentemente buscamos apresentar uma visão panorâmica do processo que conduziu à Revolução Civil, da qual a “divinização do estado” (assunto central no texto escrito por Olavo de Carvalho para o Diário do Comércio) é apenas uma das etapas, que será tratada objetivamente em breve. Por ora, mostraremos um personagem importante para a difusão das ideias de Fiori no pensamento Ocidental, que é Francisco de Assis, e uma ala de seus seguidores, os Franciscanos Espirituais. Em "História das Ideias Políticas – v. II, Idade Média até Tomás de Aquino," Eric Voegelin diz:

“São Francisco não teria sido visto pelos espirituais como a figura decisiva de uma nova época na história cristã se as profecias de Joaquim não fornecessem o padrão simbólico para a sua interpretação; e as profecias de Joaquim não poderiam ter exercido a forte influência que exerceram no século XIII e em Dante a menos que o aparecimento de São Francisco confirmasse a previsão do ‘dux’ de uma nova era" [Voegelin, “História das Ideias Políticas – v. II, Idade Média até Tomás de Aquino”, p. 157].

Em outras palavras, sem Francisco de Assis, a obra de Joaquim de Fiori não teria sido tão influente.

Do meu ponto de vista, vê-se pouco cristianismo genuíno em Francisco de Assis, ao passo que sobeja certo tipo de ascetismo pagão. Talvez seja correto compreender que o monge de Assis subverteu a “tradição” ascética do monasticismo cristão. Ao contrário do neoplatonismo predominante, que buscava uma experiência contemplativa na fuga transcendente do mundo, Francisco almejava a ascensão espiritual na relação dos homens com a Criação – natureza, animais e outros seres humanos – e em sua interpretação do ideal de pobreza. Francisco não buscava Deus fora do mundo, mas na experiência dentro dele.

O cristianismo começou a ser atacado pelo platonismo desde muito cedo. O gnosticismo, tema recorrente – e controverso – na obra de Voegelin, foi uma desastrada tentativa de síntese entre o platonismo e o cristianismo. Nessa heresia, o pecado não era visto como uma ofensa moral a Deus, mas como um problema estrutural da natureza, da carne (que, na concepção gnóstica, identifica-se essencialmente com o corpo) e do mundo material. Segundo essa visão, o mundo material seria a fonte do sofrimento, e o mundo espiritual, ou da Razão, o mundo superior. O ascetismo era a alternativa óbvia, de modo que a carne seria maltratada em favor do espírito. Ascetas eram comuns no Império Romano e sua influência na igreja primitiva é notável em personagens como a “santa" Melania, por exemplo. Melania não se banhava! Para ela, tal ato equivalia a “mimar a carne”, a qual se configurava, nas palavras dela, uma "fonte de prejuízo” [Robert T. Meyer, “Palladius: The Lausiac History”, p. 136]. Nem mesmo quando os médicos lhe recomendavam o banho por questões de saúde individual, ela não tomava. Macário de Alexandria tentava – creiam – não dormia! O eremita dormia ao relento com o intuito de não ceder ao sono. Em outra ocasião, ele se dirigiu a um pântano a fim de permitir que os insetos picassem seu corpo, uma vez que havia decidido punir a si mesmo por ter matado um mosquito. Quando um asceta de Tebas chamado Doroteu foi perguntado, "O que você está fazendo, Padre, matando seu corpo desta maneira?," ele respondeu, "Ele me mata; eu o mato". A auto-mortificação suicida era erroneamente denominada de santificação. O corpo, a “carne”, era o inimigo da santificação, devendo, pois, ser flagelado, enfaixado de espinhos e degradado no intuito de sobrelevar a "espiritualidade".

Em seu livro “Flight From Humanity”, R. J. Rushdoony desnuda toda a loucura do ascetismo influenciado pelo dualismo platônico:

"Alcançar a perfeição significava abandonar cada evidência da criatura, cada elemento dos desejos e das necessidades corporais, e tornar-se puro espírito em uma carne virtualmente morta. Isto, em umas poucas ocasiões, significou castração real (uma prática pagã comum), mas era, em todas as vezes, uma forma de castração psíquica. O objetivo era tornar-se – de acordo com a concepção grega e estoica de Deus – impassível. O monge Díocles explicou que ‘o desejo era bestial, mas a raiva era demoníaca’. O fato de Cristo ter Se irado mais de uma vez não era considerado."

Desde o terceiro século, depois de Plotino, o neoplatonismo evoluiu dentro do cristianismo através das ordens monásticas, que tentaram organizar as práticas dos primeiros ascetas. No começo, o monasticismo fortaleceu-se principalmente como uma resposta dialética à conversão do Império Romano ao cristianismo. Desconfiados do novo status do cristianismo no Império, muitos cristãos começaram a fugir para desertos. Com o tempo, essas ordens foram se organizando, filtrando as aberrações comportamentais mais flagrantes e hereges, sendo aceitas oficialmente dentro do corpo da Igreja. Todas as boas obras realizadas pelas ordens monásticas no Ocidente, especialmente a da Ordem Beneditina, são dignas de nota. Francisco de Assis é um herdeiro desse processo, ao mesmo tempo em que introduziu duas significativas mudanças nele: um misticismo naturalista e uma substituição da transcendência espiritual pelo ideal de pobreza. Ele não apenas herdou as práticas ascéticas, como talvez as tenha aprofundado um pouco.

Sobre o primeiro caso, Voegelin reconhece que

“São Francisco foi um grande naturalista, um fato que fica obscurecido por sua completa espiritualização dos sofredores e da natureza silenciosa” [p. 165].

Evidentemente, o termo “naturalismo” não é adequado quando comparado ao naturalismo racionalista, mas não é esse o caso. Falamos aqui de um misticismo naturalista com pretensa roupagem cristã. Irônica mas não surpreendentemente, Celano e São Boaventura, posteriores a Francisco, usaram seu treinamento intelectual no cristianismo neoplatônico para tentar explicar o naturalismo-místico de Francisco, ignorando que seu panorama intelectual do misticismo era contrário à experiência mística catalisada pelo meio ambiente natural, o que na verdade teria prevenido o naturalismo do monge de Assis. Eles deixaram-se levar, entretanto, pela impressão de que as experiências de Francisco, seu “amor” pelos animais e pelos elementos da natureza – tudo isso mascarado pelo seu rigor ascético extremado, já característico das ordens monásticas –, eram realmente uma aplicação mais concreta e literal das ideias que eles aprenderam intelectualmente. O próprio Celano admitiria que algumas atitudes de Francisco diante dos animais não eram usuais. Em certa ocasião, tendo sido presenteado com um peixe, Francisco devolveu-o à água, chamando o peixe de “irmão”. “Ele abraçou todas as coisas com um sentimento inaudível de devoção, falando a elas do Senhor e admoestando-as a louvarem-nO,” escreveu Celano em uma biografia sobre o santo de Assis.  Celano e Boaventura acreditavam tratar-se de uma nova forma de experimentar a filosofia agostiniana, em vez de uma banalização dela [ver Roger D. Sorrell, “St. Francis and Innovation in Western Christian Attitudes towards the Environment”, p. 90-92]. Foi assim que o “naturalismo” franciscano foi incorporado à tradição.

Essa mudança promovida pela Ordem Franciscana se deve ao fato de seu fundador jamais ter recebido educação intelectual na juventude, de maneira que absorveu a atitude do cristianismo neoplatônico anterior em relação à natureza (que, nessa concepção, foi estruturada numa cuidadosa categorização dos níveis da Criação, abarcando e coerindo suas diferenças significativas, ao mesmo tempo em que se promovia a “intelectualização” da experiência mística) e ao processo de ascensão espiritual. Sendo a ascensão espiritual neoplatônica um descendente direto do ideal pagão de vida contemplativa, o monasticismo anterior à fundação da Ordem dos Frades Menores buscava uma vida de transcendência espiritual.

No segundo caso, a renúncia da vida, do mundo, do bem-estar e do status social por Francisco não foi uma renúncia da vida no mundo em busca da transcendência, como no monasticismo pregresso, mas uma tentativa de encontrar Deus através da “santa” pobreza. Eis o padrão ascético franciscano. Se Cristo havia sido pobre, segue-se que ele também deveria ser; nesse sentido, compartilhar o sofrimento de Cristo seria uma forma de estar com Ele. Uma famosa pintura de Bartolome Esteban Murillo mostra Francisco abraçando Cristo na cruz. A verdadeira identidade e a verdadeira santidade seriam encontradas na pobreza, e o sofrimento e a humanidade de Cristo, mais do que sua divindade, tornaram-se foco de atenção [ver “Franciscans at Prayer”, de Timothy J. Johnson].

Uma evidência disso é apontada por Leo Steinberg, em “The Sexuality of Christ in Renaissance Art and in Modern Oblivion”, obra que demonstra como a tendência de representar Cristo como um bebê nu com seus órgãos sexuais expostos nas artes sacras cresceu depois de Francisco. O Franciscanismo, a propósito, difundiu a imagem do presépio, onde Cristo é retratado como infante. O caráter educativo da arte tinha o interesse de mostrar que Cristo havia passado por todos os sofrimentos humanos – como um pobre bebê numa manjedoura cercado de animais – a fim de causar compadecimento. Os artistas da época, entretanto, não sentiam mais um imperativo para representar a divindade de Cristo, já demasiadamente consolidada na Alta Idade Média, e por esse motivo, a nova perspectiva ganhou o interesse teológico e o aval da Igreja.

Essa identificação entre pobreza e santidade ganhou ainda uma estreita relação com a busca pela suposta perfeição evangélica. Em um famoso escrito, a "Regra não Bulada", ou Primeira Regra, Francisco cita no capítulo 1, por exemplo: "Se queres ser perfeito, vai e vende tudo (cfr. Lc 18,22) que tens, e dá aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me" (Mt 19:21). A Regra da Ordem Franciscana Secular [OFS] traz explicitamente o termo “perfeição da caridade” no item 2 do capítulo 1, como o objetivo dos leigos na vida secular.

Lamentavelmente, a visão de Cristo esposada por Francisco é questionável pelo simples fato de Jesus e os apóstolos terem recebido dinheiro [Lc 8:2-3], ao passo que o monge se negava a receber. Facilmente se depreende do contexto de Mateus 19, citado por Francisco na “Regra Não Bulada”, que Cristo estava usando um discurso retórico para trazer à tona a idolatria do jovem rico aos bens materiais quando, em seguida, diz aos discípulos que “é impossível” para o homem salvar-se (Mt 19:26). Se Francisco tivesse mais intimidade com a Escritura, teria que levar em consideração que foi o próprio Deus quem enriqueceu Abraão, José, Davi, Salomão e tantos outros servos.

A personalidade de Francisco era impactante e possuidora de um apelo estético incrivelmente forte, embora possa ser reconhecida como excêntrica e suspeita. Justo Gonzales, em "História Ilustrada do Cristianismo – Volume I" relata uma versão do encontro entre Francisco e o papa Inocêncio III. O contraste entre ambos deve ter sido deveras curioso. De um lado, um homem no auge do papado, o papa mais poderoso da História. No outro, um mendigo. Segundo Gonzales, Inocêncio disse:

– “Vestido como estás, mais pareces porco que ser humano. Vai viver com teus irmãos."

Em resposta, Francisco não se mostrou ofendido. Antes, saiu em busca de uma pocilga. Em seguida, retornando à presença de Inocêncio III, ajoelhou-se e disse:

 “Senhor, fiz o que me mandaste."

O papa viu naquilo uma grande virtude e o monge começou a ser aceito. Voegelin afirma que Francisco produziu uma "ambiguidade constante", "ao mesmo tempo uma força e uma fraqueza [...] o fato de ter elaborado a ideia de uma vida em conformidade com Cristo".

“Quando [Francisco] ataca o "mundo", o ‘mundus’ ou o ‘saeculum’, utiliza um vocabulário evangélico, mas nem sempre com o significado evangélico. O homem não é chamado a arrepender-se porque o reino de Deus está próximo, mas porque a vida de pobreza e obediência é aconselhada como constituição permanente do mundo [supostamente] em conformidade com a vida do salvador." [História das Ideias Políticas – v. II, p. 160]

É claro que Voegelin também não possui um conceito bíblico da pobreza, e guarda uma visão errônea acerca da vida de Cristo. Mas deixaremos para discutir sua (in)consistência teológica mais adiante. O fato é que Francisco criou um ambiente no qual as riquezas eram vistas como fonte de certa espécie de mal; e, ademais, sua ordem espalhou-se pela Europa rapidamente. A pobreza era "santa", ao passo que a propriedade era uma fonte de concupiscência. Ser pobre, seguindo a falsa interpretação de Mateus 19, era uma obrigação evangélica. “Quando tiveres um saltério, quererás também um breviário. E quando tiveres um breviário te ostentarás no púlpito como um prelado,” disse Francisco a um de seus discípulos [Gonzales, “História Ilustrada do Cristianismo - Vol I”, p. 403]. Uma frase que poderia ser dita por qualquer monge budista, aliás [por sinal, as semelhanças entre a vida de Francisco de Assis e de Buda são notáveis]. A obsessão de Francisco pela pobreza, em certa ocasião, fez com que ele obrigasse um de seus discípulos a colocar uma moeda de ouro entre os dentes e enfiá-la no esterco, dizendo-lhe que esse era o lugar que cabia ao ouro [Gonzales, “História Ilustrada do Cristianismo – v. I”, p. 404].

Mas Francisco não rejeitava apenas as posses; rejeitava também a própria erudição. Ele proibia seus seguidores de procurar instrução, porque, segundo sua concepção, ela provoca orgulho. Francisco era anti-intelectualista. Antes dos estudos serem vistos como algo desejável, a ausência deles tornou-se um escudo para a preservação da virtude. Na experiência franciscana, a pureza do coração e o fruto do Espírito não são alcançados pela ação do Espírito Santo através da graça, mas sim por meio da castração psíquica e do abandono dos prazeres que provocam desejos. Inclui-se aí, como os gnósticos, a prática de autoflagelação (como muitos outros “santos” e papas católicos romanos) e o uso de uma roupa feita com pelos de cabra ou material pontiagudo (cilício) que provocam desconforto na pele; tudo isso no intuito de “mortificar” a própria carne. Nisso vemos mais claramente os resquícios da influência gnóstica explicada por Rushdoony em “Flight From Humanity,” que sobreviveu nas ordens monásticas até os dias de hoje.

Espantosamente, Francisco é reconhecido como um “grande santo”, e talvez a figura mais importante do cristianismo depois do próprio Senhor Jesus. Dante disse que ele foi “uma luz sobre o mundo”. Para a Igreja Católica Romana, foi uma espécie de "reformador.” Já para Voegelin, o “pobrezinho de Assis” criou um “Cristo intramundano”, concepção que é fortalecida diante de sua visão da humanidade de Cristo e sua interpretação da pobreza. Opinião parecida é esposada por Leff, em “The making of the myth”, quando diz que “o conceito de Cristo como homem tornou-se o mais poderoso desafio a uma igreja divina”.  Sua Ordem era ao mesmo tempo uma tentativa de retornar a essa suposta vida evangélica e uma forma de protesto contra uma Igreja enriquecida e toda a "futilidade" da cultura ao seu redor. A criação de comunidades nas quais buscar-se-ia a “perfeição da caridade” em conflito com a sociedade da época seria uma tendência inevitável. Voegelin escreveu:

“A fissura torna-se omniosamente aberta na diferenciação franciscana entre a vida do leigo, em conformidade com Cristo, e a vida sacerdotal, em conformidade com a Igreja Romana. […] A pessoa de São Francisco e a ‘religio’ que ele fundou eram inconfundivelmente forças intramundanas em oposição ao ‘imperium’ […] A evocação de São Francisco foi o sintoma mais impressionante do processo em que o ’sacrum imperium’ se desintegrou.” [História das Ideias Políticas – v. II, p. 163, 166].

A crise, contudo, tomou uma forma mais consistente depois de sua morte, e seu estopim foi exatamente uma discussão interna sobre o rigorismo da Ordem; a disputa por mudanças na Regra foi o ponto de ebulição para os Franciscanos Espirituais (inspirados por Joaquim de Fiori) tumultuarem a Igreja.

Fica a pergunta: por que os católicos romanos que citam Voegelin a fim de atacar a Reforma não mencionam tudo isso que abordamos?

Notas:

1. Em “Francis of Assisi: Christian Mysticism at the Crossroads”, Ewert H. Cousins explica que Francisco representa um divisor de águas na história do cristianismo ocidental e, depois dele, a experiência das religiões ocidentais seguem em duas correntes: (1) o neoplatonismo místico especulativo – absorvendo o misticismo naturalista –, que alcançou o cume nos místicos de Rhineland; (2) e a corrente devocional que fluiu de Francisco – com seu foco na humanidade e na paixão de Cristo –, que propagou-se amplamente pelas pessoas e tornou-se a forma característica da sensibilidade Ocidental pelos séculos por vir. [Citado por Roger D. Sorrell em “St. Francis and Nature: Tradition and Innovation in Western Christian Attitudes towards the Environment”, p. 89.]

2. Com relação aos famosos estigmas de Francisco de Assis, aos quais Voegelin parece dar demasiada credibilidade, os mais céticos acreditam terem sido na verdade um sintoma de hanseníase, na época era conhecida como lepra. Em estágios avançados, ela pode conduzir à cegueira, e Francisco de Assis, dois anos depois de manifestar os “estigmas”, morreu cego e todos reconhecem seu estado de saúde debilitado. Ele foi o primeiro “santo” na história do cristianismo a receber os supostos estigmas, depois dele tais marcas tornaram-se convenientemente comuns.


OS FRANCISCANOS ESPIRITUAIS

Francisco havia se esforçado para impedir que seu ideal ascético na Regra da Ordem fosse abrandado. Mas com o crescimento dos “frades menores”, seu modelo foi provando-se cada vez mais impossível.

Depois da morte de seu fundador, o Franciscanismo dividiu-se em dois partidos: os Franciscanos Espirituais e os Franciscanos Conventuais. Enquanto a ala dos Espirituais queria manter fielmente a regra da pobreza, a ala Conventual queria abrandá-la, para que pudessem aceitar algumas propriedades e ingressarem nas universidades, semelhantemente aos monges dominicanos. Nesse momento, os Espirituais assumiram a profecia de Joaquim de Fiori para si, e viram, nos outros Franciscanos e na Igreja como um todo, uma falsa hierarquia que seria deixada para trás na Nova Era do Espírito. Se a perfeição cristã está no ascetismo da pobreza absoluta, a transigência dos Franciscanos Conventuais e da Igreja, já enriquecida e desmoralizada, seria uma força retrógrada contra a Terceira Era e contra a “evolução” do processo histórico.

Timothy George, professor de história da Igreja e doutor em teologia pela Harvard University, escreveu sobre o assunto:

"O poder de seus adeptos (franciscanos radicais) brotou de duas fontes: o ideal de Francisco da pobreza absoluta e a filosofia da história apresentada por Joaquim de Fiori, que eles aplicaram à sua própria ordem e época. Combinados, esses elementos resultaram numa crítica explosiva à igreja da época. [...] Os franciscanos espirituais (radicais), exacerbados por suas lutas com o papado, que se aliava aos franciscanos conventuais (seus oponentes) na discussão sobre a pobreza absoluta, identificaram-se como essa nova ordem. […] Por serem um movimento de protesto dentro da Igreja, os Espirituais foram irremediavelmente esmagados. A influência deles continuou em vários grupos sectários no sul da França e da Itália. [...] Francisco de Assis, que desejava consertar a igreja, deu à luz um movimento que desintegrou-a gravemente." [Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 40.]

Os Franciscanos Espirituais foram uma das maiores forças dissidentes da Baixa Idade Média. Para Voegelin, o próprio ideal de vida de Francisco, falsamente confundido com o Evangelho, era, em si, revolucionário.

“O movimento era cada vez mais dirigido contra a organização feudal da sociedade, incluindo a igreja sacramental. Quando o movimento encontrava apoio das massas, adotava a forma de fundações sectárias, criando atritos com a Igreja, […] o ideal de pobreza, juntamente com outros conselhos evangélicos, estava destinado a ser o símbolo da revolução." [História das Ideias Políticas – v. II, pg. 161]

Parte desse movimento foi abrandado, como explica Voegelin, através de sua oficialização e submissão à Igreja. Por um momento Voegelin questiona quais teriam sido as implicações caso isso não tivesse acontecido. São Boaventura assumiu a Ordem e conseguiu reconciliar a maior parte dos franciscanos com a Igreja, mas o conflito foi inevitável.

Como vimos, o padrão moral anti-intelectualista e de pobreza absoluta começou a criar um conflito com a Igreja rica e perpassada por escândalos, enraizando essa moral alternativa avessa às autoridades constituídas e às classes abastadas. A riqueza era vista com desconfiança por eles. A moral Franciscana apenas reforçou o apelo pelos pobres, materialmente falando, e sofredores deste mundo.

Agora, podemos perceber muitas semelhanças entre o Franciscanismo e o movimento socialista: a tensão escatológica, um conceito de justiça materialmente avesso à propriedade – embora seja diferente do socialismo de Karl Marx – e uma revolta contra as instituições. Há, pois, alguma relação entre o Franciscanismo e o movimento socialista? O próprio Voegelin o admite.

"[...] a substância cristã se enfraquecia cada vez mais; no grande processo de "desespiritualização" do cristianismo, [...] agora vemos a vida de Cristo ser discutida sob a ótica da propriedade privada ou comunal. [...] nem a indiferença escatológica à propriedade dos primeiros cristãos é uma forma de comunismo, como a maior parte dos franciscanos a considerava em função do ideal de pobreza intramundana da ordem. Não obstante, este debate representou na história das ideias o começo da discussão sobre "comunismo" dos primeiros cristãos ainda em andamento" [Voegelin, “História das Ideias Políticas – v. III, Idade Média Tardia”, p. 136]

Quando, portanto, Thomas Muntzer, o revolucionário dissidente do luteranismo citado por Engels em “The Peasent War in Germany”, uniu-se aos hussitas radicais formando um movimento anabatista combatido por Lutero nas Guerras Camponesas, ele já estava inserido dentro de um contexto avesso ao direito de propriedade.

Diante de tudo isso, é mister que reconheçamos todas as consequências de más interpretações bíblicas. Francisco de Assis é resultado de uma cultura na qual a teologia era questionável, e, mais do que isso, só existia superficialmente entre as massas, através de ritualismos que são incompreensíveis até para a maioria dos católicos romanos de hoje.

Atualmente, o papa Francisco I causa não pequena controvérsia dentro do Catolicismo Romano, sendo acusado de socialista por muitos conservadores católicos brasileiros. Entretanto, é preciso reconhecer que Bergoglio não está distante de uma linha que já existe dentro do Catolicismo Romano desde a Baixa Idade Média, e muitos de seus posicionamentos não são incoerentes com a Doutrina Social da Igreja Romana.

Joaquim de Fiori, impulsionado pelos Franciscanos, representou uma grande descontinuidade em relação à tradição agostiniana. A segunda descontinuidade radical contra Agostinho veio com a obra do filósofo católico romano Tomás de Aquino, a qual modificaria a filosofia da Igreja de Roma para sempre. Pra compreendermos melhor a filosofia tomista e suas consequências, precisaremos fazer uma breve exposição da obra do filósofo calvinista holandês Herman Dooyeweerd na próxima parte da nossa exposição.

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Continua em breve...

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Autor: Vitor Barreto
Divulgação: Bereianos

Leia também: 
A Gênese da Revolução Civil - Uma Refutação a Olavo de Carvalho (Parte 1)
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Deus odeia os pecadores!

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"Deus odeia o pecado mas ama o pecador" é um jargão evangélico muito difundido que encontra terreno fértil até mesmo entre os reformados. Entretanto, a despeito de sua popularidade, passa longe da verdade bíblica. Minha oração é que este brevíssimo texto traga luz ao problema e iniba a perpetuação desta inverdade perniciosa.

Para início da discussão, a Bíblia NUNCA separa o pecador dos seus pecados. Para Deus, o pecado não é um "conceito", uma "abstração teórica" satélite ao homem, mas são atos, intenções e pensamentos cometidos por pessoas reais, e a elas associados. O pecado não é uma palavra em um dicionário, mas uma deformidade no caráter do homem, sendo, assim, indissoluvelmente conectado a pecadores. O Rev. Solano Portela, em um artigo bastante elucidativo, análogo e anterior ao meu, diz:

"[...] é impossível separar o pecado do pecador, como se o pecado fosse uma entidade com vida independente, que apenas se utiliza do corpo e da mente do praticante" [1].

Solano está certo.

Outrossim, se fosse verdade que Deus odeia o pecado enquanto ama pecadores, estes não iriam para o inferno. Antes, Deus condenaria ao inferno o "conceito" do pecado, ou: Deus empregaria uma substância amorfa e abstrata, a chamaria de "pecado" e a enviaria ao inferno na consumação dos tempos. Contudo, sabemos que não é assim que acontece. Com efeito, Deus envia PESSOAS, ao inferno. O Senhor condena PECADORES - e não o "pecado"! - ao inferno. Óbvio como parece, Deus procede assim porque odeia pecadores, e o remanescente de Deus só é salvo porque O apraz atribuir os seus pecados a Cristo.

Aliás, isso nos leva a um importante argumento cristológico. Quem morreu de forma expiatória e vergonhosa como sacrifício aceitável a Deus não foi um conceito, mas uma pessoa. Cristo assumiu o pecado dos eleitos e morreu por eles, vicariamente. A própria encarnação de Cristo está ligada à sua identificação com aquilo para o que apontava a ira condenatória de Deus. Se Cristo veio como homem (1Tm 2.5) é porque os homens - os seres humanos - são os destinatários da terrível e justa ira divina. A Bíblia diz que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5.8). Cristo não morreu por uma ideia, Ele morreu por PESSOAS, já que os pecados delas não estão separados delas.

Além disso, a Bíblia cristaliza, logo adiante, ainda em Romanos:

"Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rom 5:9-10).

Deus está irado com PESSOAS, e não com uma ideia, com uma abstração. Este texto diz que nós, antes de termos os benefícios da obra de Cristo aplicados a nós, éramos inimigos de Deus. Inimigos! E diz ainda que fomos reconciliados. Ora, a reconciliação pressupõe uma condenação, e, seguindo a leitura deste pequeno versículo constatamos que o que foi condenado por Deus não se trata de um conceito, mas de pessoas. É evidente que Deus tem algo muito pessoal contra pecadores e que sua ira é direcionada a eles. Os homens em si mesmos, e não uma abstração intitulada "pecado", são alvos da ira divina. Se Deus odiasse um conceito chamado "pecado", o Filho de Deus não viria na forma de homem, mas na "forma" de tal conceito. Não sei como isso se pareceria...

Repare ainda que o verso diz que nós fomos reconciliados pela morte do Filho. Portanto, não se engane! O fato de que Deus "odeia o pecado mas ama pecadores" não foi verdadeiro sequer com o Unigênito do Pai, tampouco o será com seus filhos adotivos. Deus odiou a Cristo no último momento de Sua humilhação (Mt 27.46; 1Jo 4.10).

Por fim, concluo dizendo que a doutrina do ódio de Deus por pecadores não resulta apenas de uma inevitabilidade teológica - que, per se, já seria uma evidência inequívoca e fatalmente bíblica deste ensino - , mas encontra respaldo textual claro, translúcido, facilmente disponível a qualquer regenerado que aborde a Bíblia com sinceridade.

O Salmo 11.5 diz:

"O Senhor prova o justo; porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma".

E Paulo, aos Romanos, argumenta:

"Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. [...] E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" (Rom 9:13-15,22).

Ambos os textos não poderiam ser mais claros: Deus odeia pecadores. Odeia ao ponto de condená-los ao inferno por toda a eternidade. Não é a ideia "pecado" com a qual Deus está irado, mas com os próprios pecadores, que O desafiam na sua rebeldia.

Destarte, devemos evitar a propagação de jargões populares que, embora algumas vezes possam ser bem intencionados, corrompem a preciosa verdade divina e pulverizam equívocos doutrinários corrosivos. Deus não ama o pecador enquanto odeia o pecado. Deus ama aqueles por quem Cristo morreu. E aqueles por quem Cristo não morreu, estes não têm o seu nome escrito no livro da vida (Ap 20.15).

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Notas:
1. PORTELA, Solano. Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador! É isso mesmo?. O Tempora o Moraes. Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2009/10/deus-odeia-o-pecado-mas-ama-o-pecador-e.html. Acesso em: 10 out. 2015.

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Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
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Por que somos contra o casamento gay?

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União homossexual é um tema sempre polêmico que evoca emoções diversas em todos os lados do debate. Quais as bases filosóficas, porém, daqueles que são contra o casamento gay? Eles odeiam os homossexuais? Eles espancam gay na rua? Eles são contra que negro seja livre e contra direito de voto para mulheres? No vídeo de hoje, tentamos expor os motivos que nos levam a crer que o casamento gay seja prejudicial para a sociedade e até para os próprios homossexuais. Assista:



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Fonte: Dois Dedos de Teologia
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Olavo, os protestantes e a falta de filtros: que nos sirva de lição!

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Quem é meu amigo ou me acompanha nas redes sociais sabe que já fiz inúmeras ressalvas ao Olavo de Carvalho. Sempre que eu publicava uma ressalva, os seus admiradores vinham colocar a minha postagem em xeque. Para aqueles que repetem o mantra “Olavo tem razão”, o óbvio de minhas ponderações sempre passou despercebido. Mas agora a coisa mudou, e uma enxurrada de textos falando mal do “Professor” apareceu na minha timeline. O mais cômico é ver essa postura de quem antes o defendia com unhas e dentes, mesmo quando o mesmo não era atacado, apenas questionado. O que mudou?

O Srº Olavo começou a postar muitas frases e questionamentos em defesa do catolicismo. Até aí tudo bem, ele é católico. O problema foi quando ele disse que os protestantes mataram mais que a Inquisição Católica (cadê as fontes “Professor”?), que a Inquisição é invenção dos protestantes, quando disse que o protestantismo foi concebido por dois filhos da p*t# e quando agrediu a doutrina da predestinação. Logo, nossos pastores começaram a vociferar contra o pensador e, como dizem os pernambucanos, só não o chamaram de arroz doce. Todavia, o que me deixa intrigado é que só agora perceberam que o Olavo de Carvalho é alguém que traz certo prejuízo a cosmovisão reformada. Cegueira? O que a provocou, então?

Tenho arquivado alguns print’s de frases ditas pelo Srº Olavo que são uma afronta ao que nós, do segmento protestante, acreditamos em matéria de fé e de ética. Coletei seus dizeres para referendar um texto que cogitei escrever. Meu objetivo era demonstrar que o Olavo de Carvalho não deveria ser tão recomendado para os nossos jovens, pois, seus ensinos iriam confundir aqueles que ainda não tem uma base solidificada. Tanto é que depoimentos de jovens protestantes que se converteram ao catolicismo e deram graças ao “Professor” são até compartilhados na internet (como este aqui). Desisti do texto devido a um imbróglio entre o próprio Olavo e o Júlio Severo e não quis que as pessoas associassem o meu escrito como sendo partidário de um dos lados desta briga. Agora, também acredito não precisar usar os print’s, pois, todos viram a face do Olavo que teimavam ou não queriam enxergar. Ora, que face é essa?

Antes de mais dada, gostaria de dizer que não me refiro a nenhuma obra literária do Olavo, mas sim a sua atuação na internet, quer nas redes sociais, quer em vídeos no YouTube. A face que nunca admirei e nem recomendei pode ser vista na sua página, recheada de pornofonia. Outra coisa: a imagem que ele tem de si (do seu conhecimento) é extremamente narcisista e seus vídeos que tratam de filosofia possuem um viés que, para os que confessam os credos reformados, não coadunam com o pensamento calvinista. Como disse Schaeffer: “a Reforma repudiou tanto a formulação aristotélica quanto a neoplatônica”[1]. E são exatamente estas formulações que o Olavo utiliza para desenvolver seu raciocínio filosófico. Um vídeo curto de seis minutos mostra a concepção dualista do Olavo, onde ele diz que “a lei moral visa à salvação da alma e não visa a sua conduta neste mundo. O evangelho não ensina como você organizar a sociedade, como que se deve ter uma sociedade mais produtiva, uma sociedade justa...não! O evangelho está alheio a isso, ele está interessado na salvação da sua alma meu filho”[2]. Recorro a Schaeffer mais uma vez para mostrar que esta posição é equivocada:

A verdadeira espiritualidade abrange toda a realidade. Há coisas que a Bíblia nos mostra como pecaminosas – as quais não estão de acordo com o caráter de Deus. Mas, tirando isso, o senhorio de Cristo toda a vida e toda a vida igualmente. Isto é, a verdadeira espiritualidade abrange não somente toda a vida, mas abrange todas as partes do espectro da vida igualmente. Neste sentido, não há nada na nossa realidade que não seja espiritual.[3]
Muito diferente era, e é a perspectiva bíblica sustentada pela Reforma. Não é uma concepção platônica. A alma não é mais importante que o corpo. Deus criou o homem no seu todo e o homem todo é importante. A doutrina da ressurreição corpórea dos mortos não é coisa superada, anacrônica. Ela nos diz que Deus ama o homem todo e que o ser humano é importante em sua totalidade. Portanto, o ensino bíblico se opõe ao platônico, segundo o qual a alma (o “superior”) é muito importante enquanto que o corpo (o “inferior”) fica com bem reduzida importância. A concepção bíblica opõe-se de igual modo à posição humanista em que o corpo e a mente autônoma assumem grande relevância mas a graça se faz praticamente destituída de significação.[4]

Até aqui pode parecer bobagem tudo isso, pois, por não ser protestante, obviamente que o Olavo não teria que afinar suas ideias com o calvinismo em sua totalidade. Evidente que não! Contudo, diante de toda a recomendação não filtrada feita por pastores e teólogos às obras dele, muitas destas recomendações recheadas de entusiasmo, e que concediam um status quo de mito para o Olavo, acabaram por seduzir muitos jovens despreparados para a idolatria. Quando falo sobre idolatria não me refiro a voltarem à devoção aos santos praticada pelos romanistas, pois, não foram todos que se tornaram católicos ao ouvirem o “Professor”, falo de idolatrarem a pessoa do Olavo, isso tudo por terem uma visão não amadurecida tanto da fé como da política.


A maioria das pessoas conhecem o Olavo de Carvalho da internet e sua atuação contra o marxismo, principalmente seu posicionamento anti-petismo. Essa afinidade fez com que muitos não atentassem para as outras questões supra elencadas. O equívoco dos protestantes é achar que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. O fato do Olavo falar muitas verdades sobre as demandas diabólicas do marxismo não deveria fazer dele um pensador de referência para os cristãos reformados. Afinal, temos ou não temos bons pensadores e teóricos políticos dentro da tradição calvinista? Claro que temos, mas vivemos carentes de referências mais “famosas”, digamos assim. Vejo reformados publicando diversos vídeos de criaturas como o Silas Malafaia, que é herege de primeira categoria. Geralmente a saída para este comportamento é uma frase que assim diz: “Não concordo com a teologia do Malafaia, mas estou com ele no posicionamento político”. Por mais que ele tenha dito coisas corretas contra o Governo e os militantes esquerdistas, ele não deixa de ser um corruptor da Escritura Sagrada, assim sendo, não deveríamos associar a sua imagem a nossa. Com o Olavo não pode ser diferente. Se ele, ou outro, diz algo que seja verdadeiro, isso não é o suficiente para que eu compartilhe suas falas. Nós mesmos poderíamos dizer o que tais homens dizem em sua essência - se assim cremos - sem ter que remeter a nossa imagem com personas que não são espelhos da piedade cristã. Lembrando que uma vida piedosa é uma evidência dos eleitos, que são chamados para as boas obras.

Sempre quando via pastores e outros cristãos reformados compartilhando vídeos e frases contendo palavrões (sem levar em conta a questão do decoro) apenas por ter sido uma fala que politicamente se alinhava com a sua, meu coração doía. Mais dorido ainda era ver nossos jovens, que infelizmente não leem homens como Schaeffer, Kuyper, Dooyeweed, para solidificar sua cosmovisão reformada, sendo doutrinados pelo Srº Olavo, que por mais conservador que seja – politicamente falando – não é nem de longe um bom referencial. Podemos dizer que o Olavo de Carvalho teve e tem sua relevância política, e que as suas obras não precisam ser (de um todo) rechaçadas. Mas, apelo aos pastores que aprendam a lição e filtrem suas recomendações às suas ovelhas. Não esqueçam que ensiná-las a cosmovisão abrangente do calvinismo é um dever ministerial. Negligenciar isto e ficar recomendando pensadores X ou Y sem as devidas ressalvas pode causar um estrago pior do que se imagina. Que isso tudo nos sirva de lição! 

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Notas:
[1] A Morte da Razão, p. 15.
[2] https://www.youtube.com/watch?v=hKOCtCgn2-I
[3] A Igreja no século 21, p.233.
[4] A Morte da Razão, p. 13. 

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Autor: Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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