Zwinglio e a sua importância para a Reforma Protestante

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Neste ano, em comemoração aos 500 anos da Reforma, Lutero e Calvino são figuras que serão lembradas por sua imensa contribuição a causa. Sem dúvida, são os grandes nomes do que veio ser posteriormente chamado de protestantismo, todavia, outros homens também têm a sua importância. Dentre eles um que foi contemporâneo de Lutero e que antecedeu Calvino ao levar os postulados reformados à Suíça. Este homem foi Ulrico Zwinglio.

Nascido em 1º de janeiro de 1484 — apenas dois meses após o nascimento de Lutero — na vila de Wildhaus, no Cantão de St. Gall, nordeste da Suíça, sendo o terceiro filho de uma família com sete irmãos e duas irmãs. Sua educação foi a melhor possível, lhe conferindo um altíssimo nível acadêmico. Estudou na Universidade de Viena e na Universidade da Basileia. Foi instruído em latim, música, dialética, filosofia escolástica, astronomia, física e os clássicos antigos. Influenciado pelo movimento humanista, bastante popular entre os eruditos de sua época, tornou-se Mestre em Artes no ano de 1506, com apenas 22 anos de idade. Músico talentoso, tocava alaúde, harpa, violino, flauta, gaita de foles e trompa de caça.

Após atingir o grau de mestre, Zwinglio foi ordenado ao sacerdócio. Tornou-se pároco na cidade de Glarus, onde serviu como pastor e se colocou contra os mercenários, homens que por dinheiro se alistavam em exércitos estrangeiros. Mudou-se então para Einsiedeln em 1516 e dois anos mais tarde para Zurique. Ainda em Einsiedein, tomou conhecimento de Erasmo de Roterdã e através da sua tradução grega do Novo Testamento passou a pregar sermões que iam contra muitas práticas da Igreja Católica Romana, sobretudo a venda das indulgências, condenadas por Zwinglio antes mesmo de Lutero se opor a elas. Zwinglio e Erasmo acabaram se tornando amigos, embora o semipelagianismo, defendido por Erasmo, tenha sido rejeitado pelo reformador suíço.

Mesmo sendo um erudito e tendo uma experiência pastoral por anos, Zwinglio tinha uma mente humanista e seu cristianismo era de assentimento intelectual. Durante esse tempo, caiu na prática da fornicação, e anos mais tarde, arrependido deste pecado, ainda sentia a afetação de sua vida pregressa. A conversão de Zwinglio se dá paulatinamente, quando o mesmo se torna sacerdote na principal igreja de Zurique. Cada vez mais discordante das doutrinas papais e mergulhando na Escritura para rebater os papistas, Zwinglio tornou-se um expositor bíblico e sua exposição contínua do Novo Testamento, que durou quatro anos (só deixando de explanar o Apocalipse) foi lhe impactando, vendo a necessidade de ter uma fé cada vez mais pura e centrada na Escritura. Assim como o culto também deveria refletir esta mesma pureza.

Após ter sido curado de uma peste, Zwinglio adota uma postura mais sistemática como reformador. O cristianismo, que já estava em sua cabeça, havia descido ao coração, fazendo com que ele buscasse apaixonadamente purificar a Igreja das tradições não escriturísticas. Liderando um grupo ávido por reforma, Zwinglio convocava os magistrados da cidade e expunha os erros doutrinários do catolicismo romano. Os magistrados, por sua vez, organizavam um debate com a presença de um sacerdote católico, e os argumentos deveriam ser retirados apenas da Escritura. Assim a Reforma foi avançando na Suíça, pois os debates eram facilmente vencidos, e práticas tais como a quaresma, o celibato obrigatório, o jejum como penitência e devoção as imagens foram abolidas, tidas como sendo não bíblicas. Além disso, a Bíblia passou a ser traduzida para o vernáculo. Nem sempre Zwinglio era o principal debatedor, mas ele estava envolvido em todas as disputas e num período de sete anos, em 1530, Zurique, Berna, Basiléia e a maioria do norte e leste da Suíça romperam com o catolicismo romano. Incluindo Genebra, cidade que posteriormente influenciou outros países e a partir do ministério de João Calvino e da Academia por este fundada, levou as doutrinas reformadas para toda a Europa.

Graças a estes debates, temos a primeira confissão de fé reformada, que são os Sessenta e Sete Artigos de Fé escritos por Zwinglio, redigida antes do embate em Zurique (1523). Eis alguns trechos:

“Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja, erra e blasfema contra Deus”.
“Que Cristo é o único eterno sumo sacerdote; disto nós deduzimos que todo aquele que pretende ser sumo sacerdote se opõe à honra e poder de Cristo; de fato, ele o rejeita”.
“Tudo que Deus permite ou que ele não proibiu é permitido. Disto nós aprendemos que é próprio para qualquer um se casar”.
“As verdadeiras Escrituras Sagradas nada sabem de um purgatório após esta vida”.
“Todos os superiores clericais devem se humilhar instantaneamente e levantar somente a cruz de Cristo, e não a caixa de dinheiro. Do contrário eles perecerão; o machado é deitado na raiz da árvore”.

O que hoje soa com certa normalidade, na época foi muito ousado, pois, ir de encontro à doutrina da infalibilidade papal era digno de excomunhão e martírio. Outro documento importante, elaborado nesse mesmo contexto são as Dez Teses de Berna (1528), quando a cidade adota as premissas reformadas. Vejamos algumas das teses adotadas:

“A Igreja de Cristo não pode fazer nenhuma lei ou mandamento aparte da Palavra de Deus. Deste modo, as tradições humanas não devem ser-nos exigidas se elas não estiverem fundamentadas na Palavra de Deus”.
“Que o corpo e sangue de Cristo é recebido, essencialmente e corporeamente, no pão da Eucaristia é impossível de se provar a partir da Escritura Sagrada”.
“A adoração de imagens é uma prática contrária à Escritura, tanto nos livros do Antigo como no Novo Testamento. Deste modo, como as imagens desonram a si mesmas, e são um perigo, deveriam ser abolidas como objetos de adoração”.

Como podemos ver, a sua influência foi gigantesca, todavia, sua ação como reformador foi interrompida quando morreu numa batalha envolvendo católicos e protestantes. Hanko descreve como se deu a sua morte, em 1531, quando tinha 47 anos de idade:

Zwinglio estava se inclinando para consolar um soldado morrendo, quando foi atingido na cabeça com uma pedra. Ele conseguiu se levantar mais uma vez, mas repetidos golpes e um ferimento de lança deixaram-no morrendo. Vendo suas feridas, ele gritou: “O que importa esta desgraça? Eles podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. Pelo resto do dia ele ficou deitado debaixo de uma árvore de peras, com as mãos postas como em oração e os olhos fixos no céu. No final da tarde alguns soldados dispersos do exército vitorioso pediram-lhe para confessar seus pecados a um padre. Ele balançou sua cabeça indicando sua recusa. Porém, pouco depois um dos homens, à luz da sua tocha, o reconheceu e o matou com a espada, gritando: “Morra herege obstinado!”.
Alegres com sua morte, os soldados esquartejaram seu corpo, queimaram os pedaços por heresia, misturaram as cinzas com as cinzas de porcos, e as espalharam aos quatro ventos. Assim morreu uma das fiéis testemunhas de Deus.

Mesmo tendo sido um importante reformador, Zwinglio tende a ser subestimado e quase sempre é retratado em poucas páginas nos livros que tratam da história da Reforma. Geralmente, ele é citado à sombra de Lutero, sobre a controvérsia da Ceia. Enquanto o reformador alemão ensinava a consubstanciação - a presença de Cristo nos elementos - o reformador suíço defendia um caráter memorialista. Talvez George (1994) esteja certo ao dizer que

As razões dessa desatenção são óbvias. Zuínglio compôs todos os seus escritos reformados apressadamente, em menos de uma década. Foi ofuscado durante sua vida pelo grande Lutero e sucedido pelo mais eficaz Calvino, que impeliu um estudioso a conferir-lhe o título de “terceiro homem” da Reforma. Zuínglio nunca escreveu nada comparável às Institutas. A maioria de seus sermões foi entregue improvisadamente; apenas alguns foram revisados mais tarde para a publicação. Da mesma maneira, suas conversas informais perderam-se para a posteridade, por falta de admiradores devotados que anotassem cada palavra sua.

Mas, apesar de não ter a mesma reputação de Lutero e Calvino, não ter gerado um segmento teológico que levasse seu nome e ter uma compreensão não ortodoxa em algumas doutrinas, tal como a ideia de que pode haver salvação entre pagãos que desconhecem o evangelho por completo. Zwinglio é um gigante da fé e merece ser assim lembrado nos anais da eclesiologia protestante, pois foi um pioneiro da tradição reformada.

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Referências:
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HANKO, Herman. Retrato de Santos Fiéis. Fireland, 2013.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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O exegeta da reforma e seu zelo pelas Escrituras Sagradas

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João Calvino ainda é um personagem na história do cristianismo muito mal interpretado. Por muito, João Calvino tem caído no tão famigerado método interpretativo que classifico como “Histórico Auditivo”, é aquele que a pessoa interpreta um personagem a partir do que se fala dele, mas nunca do que o próprio personagem deixou registrado. Calvino, além de seus comentários Bíblicos, nos deixou outras obras que são de suma importância para quem quiser lhe compreender – Assim são suas cartas, seus sermões e As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, esta última figurando como sua obra magna. Além disso, Calvino confeccionou um vasto material litúrgico, por exemplo, um manual de culto que publicou entre o final de 1539 e início de 1540, completo em língua francesa e contendo diversos salmos e versos acompanhados de suas respectivas melodias para o canto congregacional.

Posteriormente, em meados de 1536 – 1537, Calvino elabora uma espécie de Catecismo que posteriormente receberia o nome de “Instrução e Confissão de Fé, Segundo o Uso da Igreja de Genebra”. Segundo muitos estudiosos do pensamento calvinista, essa obra possuía um caráter mais didático em relação a outros catecismos, pois a mesma não era composta de perguntas e respostas, mas sim de um modo que Calvino julgou acessível aos fiéis. Ainda em 1539, João Calvino elabora aquele que seria conhecido como o Saltério de Genebra, onde traduzira alguns salmos (19 inicialmente). Esta obra fora iniciada por Calvino, mas concluída por Thèodore de Bèze e outros expoentes da cultura musical francesa desse período. O Saltério de Genebra “tornou-se um dos livros mais importantes da reforma” LEITH (1997, apud MAIA, 2000, p. 59). Esta obra teve “um verdadeiro ‘dom de línguas’, já que foi traduzido para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico, malaio, tamis, inglês etc., e usado por católicos, luteranos e outras denominações” LEITH (1997, apud MAIA, 2000, p. 60)

Com estas obras, Calvino não só nos mostra sua preocupação com a correta liturgia cristã, mas também seu zelo e cuidado no manuseio para com as Escrituras Sagradas. Assim o faz por conta da pesada herança litúrgica medieval cuja qual estava recebendo. Este corpus litúrgico produzido por João Calvino circulou nas igrejas de Genebra e de Estrasburgo guiando suas respectivas liturgias. Calvino era um homem que tinha receio que as atenções humanas no decorrer da liturgia do culto cristão fossem desviadas do que realmente é mais importante, a saber: as Escrituras Sagradas. A salmodia exclusiva é outro bom exemplo do cuidado e zelo bíblico-litúrgico deste reformador; entendia que o livro de salmos era uma espécie de anatomia de todas as partes da alma, uma espécie de compêndio teológico mais que salutar à igreja. Nada mais justo que cantá-los de forma congregacional. Calvino era um apreciador da harpa (instrumento musical), mas optava pela liturgia da antiga sinagoga judaica. Ou seja, sem o acompanhamento instrumental. Possuía o receio de que quaisquer outras cousas, que não fosse a essência das Sagradas Escrituras, atraísse mais atenção de quem estava cultuando. Assim, imaginemos que se um salmo era cantado com muito floreio musical, ênfase harmônica ou vocal etc., e a beleza de sua harmonia melódica chamasse mais atenção que sua letra em específico, isso seria um pecado grave para com as Escrituras Sagradas no entendimento deste reformador. Calvino nos fala sobre isso:

“Nem contudo, aqui condenamos a voz ou o canto, se não que antes, muito os recomendamos, desde que acompanhem o afeto da alma. Ora, assim exercitam a mente na cogitação de Deus e a retêm atenta, a qual, como é escorregadia e versátil, facilmente se afrouxa e a variadas direções se distrai, a menos que seja de variados adminículos sustentada. Ademais, como em cada parte de nosso corpo, uma a uma, deve luzir, de certo modo, a glória de Deus, convém especialmente seja a língua, que foi criada peculiarmente para declarar e proclamar o louvor de Deus, adjudicada e devotada a este ministério, quer cantando quer falando [...]” (CALVINO, As Institutas da Religião Cristã, III.20.31.)

Para Calvino havia um “elemento central no culto” e este não podia ser outro que não fosse a Palavra de Deus. Esta ideia fora propagada até na organização e na construção das igrejas reformadas na Europa: “As igrejas Reformadas simbolizaram isso nos edifícios que ergueram durante a Reforma, ao colocar o púlpito à frente e no centro do templo” REID (1976, apud MAIA, 2000, p 57). Um bom material para se saber com mais detalhes e informações acerca do culto histórico dos reformados, a expansão do Saltério Genebrino nas mais diversas línguas que fora traduzido, e até a possibilidade de fazer downloads dos salmos cantados, encontra-se no site Westminster hoje (em espanhol) cujo link está disponível aqui. O site reproduziu uma série de sete Artigos do Pastor John Sawtelle sobre o tema.

Conhecido como o “exegeta da reforma”, assim pela riqueza hermenêutica vista em seus comentários, como também por sua forma peculiar de expor as Escrituras Sagradas, Calvino possuía um zelo admirável pela Bíblia. Havia em seu entendimento uma regra sacra: “Que esta seja nossa regra sacra: não procurar saber nada mais se não o que as Escrituras nos ensinam. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossa mente de avançar sequer um passo a mais" (CALVINO, Exposição de Romanos (9.14), p. 330). Assim como o salmista no Salmo 139:6, João Calvino entendia que o homem possui um limite intelectual no que tange à interpretação das Escrituras Sagradas e do Deus ali revelado. Ou seja, o limite é justamente até onde Deus quis se revelar. Após isso, a mente humana, além de não ter como, não deve querer avançar. João Calvino conseguia transitar entre a erudição e a espiritualidade sem se manter polarizado em um dos dois de forma extremada. Conseguia entregar às suas ovelhas um alimento sólido, consubstanciado e extraído dos mais finos recursos exegéticos, mas com o compromisso de que todos pudessem compreendê-lo. Afinal, esta deve ser a função principal de todo e qualquer teólogo – traduzir a teologia para a linguagem popular sem que esta sofra mutilações. Não era em vão que lhe recaía outro epíteto, a saber: “Príncipe dos Expositores”. De certa forma, Calvino: “Fugia [...] e de certos refinamentos exegéticos que quando muito só servem para revelar erudição, mas não contribuem para esclarecer o texto e edificar o povo de Deus” CALVINO (1959, apud MAIA, 2000, p. 39). 

É muito importante que se destaque a real preocupação dos reformadores como um todo no que concerne à ênfase do “Sola Scriptura”, bem como a disponibilização das Escrituras Sagradas para a população em geral. Por isso a forte atividade de tradução da Bíblia para os respectivos e diversos idiomas dos países em que a reforma se deu com maior ênfase. Logo, essa era uma preocupação de todos os reformadores, uma vez que a Bíblia fora oculta por muitos anos dos olhares do povo em geral. 

A teologia de João Calvino pode, de fato, ser reconhecida como sistemática, mas também bíblica ao mesmo tempo. Tendo em vista que o trabalho do “Exegeta da Reforma” se concentrou mais em comentar o Livro Sagrado, sua teologia é bíblica. Porém, Calvino também é conhecido como um grande sistematizador das Escrituras Sagradas. Não adentraremos aqui nas nuances da complexidade da expressão “Teologia Bíblica”, uma vez que tudo que se extraí da Bíblia é bíblico, logo a Teologia Sistemática também é bíblica, pois fora extraída da Bíblia. Acreditamos que a expressão de Geerhardus vos, em seu livro “Teologia Bíblica; Antigo e Novo Testamento”, direcionada às Escrituras Sagradas como sendo “A História da Revelação Especial” seja mais adequada. Mas, discussões à parte, queremos destacar que, como poucos, Calvino consegue unir em sua teologia pontos aparentemente opostos e marcados pela tensão – Teologia Bíblica e Teologia Sistemática é um deles. 

A Teologia Exegética era, de fato, uma marca na vida de Calvino, mas que de forma única conseguia unir isso à sua teologia prática. Ele não era um teólogo puramente teórico e sem a parte prática da coisa em si. Ele conseguia converter teoria em prática e prática em teoria. E, como já falamos, conseguia transitar entre o erudito e o espiritual, e o produto disso era visto na sua teologia prática. Um bom exemplo sobre este caráter minimizador de tensões visto na teologia de Calvino é sua posição acerca da Ceia do Senhor junto aos oficiais de sua Igreja em Genebra. É sabido que na alta idade média havia o costume de se celebrar a Ceia do Senhor apenas em caráter anual – uma única vez –, mas João Calvino combate essa ideia com ênfase no costume primitivo da igreja cristã que corriqueiramente desfrutavam de momentos de comunhão “junto à mesa” (Atos 2: 44-47). O epicentro da tensão na Igreja de Genebra recai entre Calvino, que entende que a Ceia do Senhor deve ser semanalmente realizada, e os oficiais da igreja que entendem que a Ceia do Senhor deveria ser ministrada apenas quatro vezes por ano e em datas específicas. Esta tensão, se fosse em dias atuais, com toda convicção, teríamos o assunto resolvido pelo víeis da tirania ou do terrorismo proféticos que são realizados por alguns líderes que fazem de suas igrejas verdadeiros quartéis militares. Porém, a tensão entre João Calvino e seus oficiais na Igreja de Genebra foi resolvida por meio da condução do Espírito Santo, que concedeu a Calvino uma estratégia salutar para resolução da problemática. O “Exegeta da Reforma” fez acordos entre as mais diversas igrejas vizinhas em relação à data da Ceia do Senhor, conseguiu variar estas datas entre cada igreja da cidade e proporcionar que houvesse culto de Ceia semanalmente – não na sua igreja em específico –, mas entre as igrejas da cidade. Com isso, avisava aos membros de sua própria igreja que eles deveriam visitar as outras igrejas nos cultos de Ceia especificamente, e assim estimular a comunhão entre os irmãos e as igrejas vizinhas junto à mesa de Cristo. Com isso, João Calvino conseguiu estabelecer seu ideal de que a Ceia do Senhor fosse ministrada semanalmente, sem desavenças ou perseguições. Seu trabalho sempre foi em prol do crescimento harmônico do corpo de Cristo.

Percebemos em tudo isso que João Calvino era, de fato, um servo de Deus no sentido mais estrito da palavra. Um homem que possuía um zelo imenso pelas Escrituras Sagradas. Um homem a ser estudado e entendido, um exemplo de erudição e espiritualidade isento de polarizações e extremismos nessas áreas. Um reformador que transitava entre os mais refinados recursos exegéticos, mas que tudo isso desembocava numa teologia prática piedosa e que sempre apontava para um alvo cristocêntrico. Dizem que reformar dar mais trabalho que construir. Com certeza, reformar a igreja foi um trabalho árduo, mas também exitoso e que custou tempo, dedicação e a vida de muitos homens comprometidos com Deus. As bases foram refeitas e postas – Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Sola Deo Glória – devemos permanecer sempre sobre o alicerce desta tradição. 

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Bibliografia:
CALVINO, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. São Paulo, CEP, 1985
 CALVINO, João. Comentário de Romanos, Editora Fiel, Edição Virtual Autorizada (Biblioteca de Calvino)
 MAIA; LEMBO; QUADROS; GOUVEIA. O Pensamento de João Calvino. São Paulo, Mackenzie, 2000
 MCGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo, Cultura Cristã, 2004

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Autor: Thiago Azevedo
Divulgação: Bereianos
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John Knox: O Reformador da Escócia

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Sinopse Histórica e Obras.

1513-1515 (?) = A data e o local de nascimento de John Knox são incertos, sendo aceita a data de 1513 como a mais provável. É possível que Knox tenha nascido no povoado de Haddington, às margens do rio Tyne, distrito de Lothian Oriental, cerca de 30 Km a leste de Edinburgo(2). Seu pai, William Knox era homem do campo e sua mãe era membro da família Sinclair. Sua mãe faleceu quando ainda era criança. Foi educado por sua madrasta, que era carinhosa e compreensiva.

Recebeu boa educação, aprendendo latim nos estudos regulares. A seguir matriculou-se na Universidade de Saint Andrews(3), para a formação acadêmica.

Waldyr Carvalho Luz descreve Knox como um homem comum e de aparência atarracada. Ombros largos, altura abaixo da média; possuindo um olhar brilhante e penetrante; saúde razoável; de temperamento impetuoso e disposição férrea(4). Lloyd-Jones comenta que “havia algo que lhe vinha aos olhos uma vez ou outra, que, literalmente, punha o temor de Deus dentro das pessoas”(5). Cairns nos diz que ele “era um homem corajoso, ríspido até, às vezes, que a ninguém temia, exceto a Deus”(6). 

1528 = As idéias luteranas do jovem pastor Patrick Hamilton, que estudara em Marburg e Wittenberg, com Lutero, foram uma causa positiva do início da reforma na Escócia. Ele ensinava a justificação pela fé e chamou o Papa de anticristo. A morte prematura de Patrick Hamilton, queimado de forma desumana lentamente na fogueira como herege, marcou profundamente John Knox, que tinha por volta de 15 anos nessa época.

1530 = Ordenado sacerdote católico, tornou-se discípulo de George Wishart, que introduzira os ideais da reforma zuingliana na Escócia. Wishart traduziu para o inglês em 1536, a Confissão Suíça. O pensamento de Wishart influenciou fortemente a vida espiritual de Knox. Pouco depois se tornou tutor de filhos de nobres favoráveis à reforma.

1544-46 = Knox serve a Wishart como seu guarda-costas entre 1544-46(7). Wishart foi queimado em uma estaca em Edimburgo, em 1546.

1546 = Pregou aos soldados protestantes no acampamento de Saint Andrews até ser capturado pelo exército francês, por ter participado de uma revolta em prol da reforma (31/07/1547). Trabalhou por 19 meses(8) como escravo nas galés de um navio militar francês até sua libertação na troca de prisioneiros. Nas galés sofreu, não só os rigores desse tipo de vida, como também muita crueldade, debilitando sua saúde(9). 

1549-51 = Retornando à Escócia, como a situação não era favorável, mudou-se para a Inglaterra, sendo designado ministro e pregador em Berwick, na fronteira com a Escócia, e posteriormente Newcastle. Nesse período firmou-se como grande pregador.

1552 = Transferindo-se para Londres, serviu como um dos capelães reais e um dos pregadores da corte, pregando várias vezes na presença do rei. 

Em setembro, poucas semanas antes da publicação dos 45 Artigos, que dariam origem aos 39 Artigos, pregou perante o rei um sermão contra o artigo 38, que obrigava a recepção da ceia (hóstia) de joelhos. Knox afirmou que o ajoelhar-se era idolátrico e pecaminoso. Isso levou Cranmer a inserir, às pressas, uma observação ao artigo, publicado em uma folha em separado, que ficou conhecido como “o Artigo Negro”(10). 

1553-54 = Quando Eduardo VI ofereceu-lhe o bispado de Rochester, Knox o recusou desprendidamente, porque entendeu que esse oferecimento era uma tentativa do regente real Northumberland de silencia-lo e neutralizar sua influencia na corte real(11). 

Com a ascensão de Maria Tudor ao poder na Inglaterra, teve de fugir para a Europa (03/1554). Indo para a Suíça, onde passou algum tempo com Calvino, em Genebra e Bullinger, em Zurique. Também fez visitas a Escócia, a fim de animar a fé dos que deixara no país(12). 

1554-1559 = Nesse período esteve em Genebra e tornou-se aluno de Calvino, o qual considerava “o notável servo de Deus”(13). Sob a persuasão de Calvino aceitou pastorear exilados religiosos ingleses em Frankfurt, na Alemanha. Após algum tempo ali, devido a vários problemas, especialmente devido a disputas com o anglicano Richard Cox, que queria que a igreja de refugiados em Frankfurt tivesse “um rosto inglês”(14). A resposta de Knox refletiria o ponto central das controvérsias que se seguiriam na Inglaterra posterior entre os puritanos e a igreja Anglicana: “O Senhor permita que ela tenha a face da igreja de Cristo”. Por influência e incitação de Cox, Knox foi expulso de Frankfurt e teve de retornar a Genebra, sendo acompanhado por vários dos refugiados que pastoreava. Ali tornou-se novamente pastor da igreja inglesa (1555-59). 

Casou-se com Marjorie Bowes em 1555, numa rápida visita à Escócia. Em 1556 escreveu A Forma de Orações, como diretório de culto.

1557 = Em dezembro de 1557, os nobres escoceses fizeram um pacto de usar suas vidas e bens para estabelecer “a Palavra de Deus” na Escócia. Nessa conjuntura, Knox iria voltar à Escócia para implantar o calvinismo e fundar a igreja presbiteriana escocesa.

1558 = Publica o Primeiro Clarim Contra o Monstruoso Governo de Mulheres, dirigido a Maria Tudor(16), em que ele dizia ser contra a natureza, Deus, e sua palavra, uma mulher governar, pois isso era “a subversão da boa ordem, de toda justiça e equidade”. Seu livro foi publicado em má hora, pois teve de se desculpar com a rainha da Inglaterra (Elizabeth I) por causa disso. A rainha Elizabeth nunca o perdoou por causa desse livro. Ainda nesse ano publicou Supplication (Rogativa), dirigida à regente escocesa; Appellation (Apelação), dirigida à nobreza da Escócia; e por último: Letter to The Commonality of Scotland (Carta ao Povo em Geral da Escócia)(17) .

1559 = A pedido de Calvino, escreveu seu único tratado teológico; Treatise on Predestination (Tratado Sobre a Predestinação). Vendo a atitude da rainha Elizabeth I para com a reforma inglesa, escreveu uma Breve Exortação à Inglaterra a Abraçar Rapidamente o Evangelho de Cristo Doravante, à Supressão e ao Banimento da Tirania de Maria(18). A rainha da Inglaterra fez-lhe forte objeção, por considerá-lo uma intromissão de um escocês nos negócios da Inglaterra; também porque Knox usara de uma linguagem muito forte. Pregava contra os bispados ingleses e afirmava que o reinado de Maria Tudor fora um juízo de Deus sobre a Inglaterra por esta não levar adiante a reforma da igreja(19). 

Knox retornou à Escócia, em abril desse ano, pregando na igreja de S. Giles, em Edimburgo.

1560 = Knox e os Lordes da Congregação iniciam a Reforma na Escócia. Participou da composição da Confissão Escocesa e ajudou a esboçar o Primeiro Livro de Disciplina.

  • Pôs-se fim do domínio papal na igreja escocesa.
  • A missa é declarada ilegal.
  • Revogação de todos os decretos contra os hereges (protestantes).
  • Aceitação da Confissão de Fé dos Seis Johns (Confissão Escocesa), escrita em quatro dias, a pedido do parlamento. Essa confissão, de inspiração notadamente calvinista foi a principal confissão de fé escocesa até a adoção da Confissão de Fé de Westminster em 1647.
  • Organização da igreja em presbitérios, sínodos e uma assembléia geral, semelhantes aos de Genebra. Nesse mesmo ano reuniu-se pela primeira vez a Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Foram formalmente implantados em 1567.

Apesar disso, Knox teve muitos problemas com os lordes da congregação, que desejavam apossar-se das terras católicas. Knox insistia que deveriam ser utilizadas para o alívio da pobreza no país, estabelecer um sistema de educação universal e sustentar a igreja escocesa(20). 

Em dezembro desse ano, faleceu sua esposa, deixando-lhe dois filhos pequenos: Nathanael (3 anos e meio) e Eleazer (dois anos). Calvino lhe escreveu uma carta demonstrando a sua solicitude e condolências.

1561 = Maria Stuart assume o trono escocês, segundo Gonzalez, a convite dos lordes da congregação(21). Era uma mulher bela e inteligente. Ela teve vários encontros duros e francos com Knox, que não cedeu frente às suas lágrimas e lisonjas, tentando levar a igreja escocesa de volta ao catolicismo(22). 

1564 = Publicação do Livro de Ordem Comum.

1567/68 = Maria Stuart, abdica ao trono escocês e refugia-se na Inglaterra, sob a tutela de Elizabeth I. Após a abdicação de Maria Stuart, Knox pregou na coroação do filho dela, James I, como rei da Escócia(23). 

1572 = Próximo à data que marcou a noite de S. Bartolomeu, na França (24de agosto) Knox teve um ataque de paralisia e retirou-se da liderança da reforma. Mesmo assim, ao saber dos eventos dessa noite, fez um grande esforço para retornar ao púlpito, avisando a seus compatriotas que igual destino lhes cairia se fraquejassem na luta(24). 

24/11/1572. Na manhã desse dia pediu à sua esposa que lesse dois textos bíblicos para ele; I Coríntios 15, que fala da ressurreição; e João 17, a oração sacerdotal de Cristo, sobre o qual comentou; “Aqui lancei a minha primeira âncora”(25). Por volta das 22 horas, seu médico perguntou-lhe se ouvira as orações dos presentes a seu favor, ao que respondeu: “Quisera Deus que vocês e todos os homens as ouvissem como eu as ouvi; e a Deus louvo por este som celestial... Agora chegou”. Foram as suas últimas palavras, então faleceu.

Ainda neste ano, tentou-se restabelecer o sistema episcopal na igreja escocesa, contudo, Andrew Melville (1545-1622), reitor da Universidade de Glasgow, conduziu a luta pela restauração do sistema presbiteriano. 

Em 1581, foram restabelecidos os presbitérios e em 1592, debaixo de forte oposição real (James VI) o presbiterianismo tornou-se a religião oficial dos escoceses. A vitória final, porém, só seria definitiva em 1690(26). 

Apanhado Teológico.

Não é correto afirmar que o pensamento de John Knox não tinha originalidade e que foi um mero repetidor das idéias de Calvino. Lloyd Jones(27) aponta dois pontos de seu pensamento em que isso fica claro. Primeiro na questão da relação entre Igreja e Estado; segundo na atitude para com diversas cerimônias religiosas da Igreja Anglicana, exemplificadas em seu livro “O Primeiro Toque da trombeta Contra o Governo Monstruoso das Mulheres” de 1558.

Knox via a si mesmo como um pregador e não como um teólogo acadêmico. Entendia que sua função era a de “tocar a trombeta do seu mestre”(28). Seus sermões eram caracterizados pela exposição bíblica e pela preferência pelo Antigo Testamento(29), atacando a idolatria e a corrupção do culto cristão.. Knox seguia à risca o princípio da sola Scriptura, tendo a Bíblia como a única base autorizada em que a doutrina pode ser fundamentada. Afirmou, seguindo Lutero e Wishart a justificação pela fé somente (sola fide).

Sua teologia era profundamente calvinista. Sua obra, Tratado Sobre a Predestinação (1559) segue de perto as formulações de Calvino e Beza, quando ensina que Deus escolheu soberanamente alguns para a salvação e outros para a condenação eterna, afirmando que a salvação do homem depende exclusivamente da graça divina.

Participou da confecção da Confissão Escocesa, caracterizada “pela centralidade de Cristo em cada um de seus vários tópicos, bem como pela riqueza da espiritualidade e o calor de expressão”(30). 

Knox também percebeu que como a Igreja estava mudando de uma forma para outra completamente, seria necessário a composição de um Livro de Disciplina, onde fosse elaborado um plano para a vida eclesiástica e social da nação. É no Livro de Disciplina, seguindo a Confissão Escocesa, que ficam definidas como marcas da verdadeira igreja: a pregação correta da Palavra de Deus, a administração correta dos sacramentos (batismo e ceia) e o exercício correto da disciplina eclesiástica(31). 

As marcas, sinais e símbolos seguros pelos quais a imaculada noiva de Cristo é distinguida da horrível meretriz, a falsa igreja, nós afirmamos, não são nem antigüidade, nem título usurpado, sucessão linear, lugar indicado, número de homens que provocam o erro... As marcas da verdadeira Igreja, portanto, nós cremos, confessamos e admitimos ser: primeiro, a pregação da verdadeira Palavra de Deus, na qual Deus tem nos revelado a si mesmo, como os escritos dos profetas e dos apóstolos declaram; segundo, a correta ministração dos sacramentos de Cristo Jesus, com os quais devem ser associados a palavra de Deus e a promessa de Deus para selá-las e confirmá-las em nossos corações; e por último, disciplina eclesiástica corretamente ministrada, como a Palavra de Deus prescreve, com a qual a imoralidade é reprimida e a virtude é alimentada. (Confissão Escocesa 18)(32) .

A inclusão da disciplina como terceira marca da igreja o distingue de Calvino, que embora tivesse a disciplina em alta conta, nunca afirmou ser ela a terceira característica da igreja verdadeira. É exatamente nesse ponto que se percebe a influência de Bullinger em seu pensamento, pois é na Confissão Belga de 1536, que essa distinção aparece pela primeira vez. Também sua visão da disciplina, não pode ser entendida legalisticamente, mas deve ser vista à luz da participação do crente no sacramento da ceia, que não deveria “ser profanada com a permissão de que os negligentes e os deliberadamente iníquos se aproximassem da Santa Mesa no momento sagrado em que o Senhor e os participantes estivessem (como diz Knox) ‘unidos simultaneamente’”(33). 

O Livro de Disciplina também orientava sobre o culto. Nele ficava claro que a exposição das Escrituras é a parte central do culto verdadeiro. Em Knox, mais do que em qualquer outro reformador fica clara a aplicação do princípio regulador do culto, pois ensinava, seguindo Zuínglio e John Hooper, que nenhuma prática era legítima no culto público, a não ser que especificamente ordenada nas Escrituras. Sua compreensão sobre a Ceia era semelhante a de Calvino e Bucer, ou seja, cria numa presença espiritual de Cristo na ceia, sendo recebida somente pela fé. H. Griffith(34), argumenta que o Primeiro Livro de Disciplina não era rigorosamente presbiteriano, mas já continha a sua semente.

A contribuição mais importante de Knox para a teologia protestante foi o seu conceito do relacionamento entre Igreja e Estado. Ele cria que Igreja e Estado perfaziam a mesma comunidade. A reforma religiosa não se imporia sem uma reforma política. A religião verdadeira deveria transformar tanto o indivíduo como a sociedade. Seu modelo para o governo civil foi retirado dos conceitos do Antigo Testamento. Na época da Reforma, a religião do príncipe era a religião do povo. Como Knox lutava contra o governo das rainhas católicas, achou um precedente no Antigo Testamento, para a desobediência civil quando as autoridades do povo contradiziam a Lei superior das Escrituras. Seu pensamento a respeito consta de sua obra: An Admonition or Warning (Uma Admoestação ou Advertência - 1554). Por fim, propôs que os cristãos são obrigados a derrubar um monarca idólatra (The First Blast of the Trumpet Against the monstrous Regiment of Women – O Primeiro Toque da trombeta Contra o Governo Monstruoso das Mulheres - 1558). Os ensinos de Knox contribuíram para o crescimento do conceito de liberdade religiosa.

Mesmo não sendo um revolucionário social, Knox também desenvolveu uma visão social bem clara para a Igreja. “Ele afirmou a obrigação de cada cristão cuidar dos pobres e elaborou um sistema mediante o qual cada igreja sustentaria seus próprios necessitados e administraria escolas de catequese para todas as crianças, ricas e pobres”(35). 

Segundo Lloyd-Jones, Knox é o pai do puritanismo, apontando como razões a originalidade de seu pensamento e também porque apresentou com muita clareza os princípios normativos do puritanismo, quais sejam, a autoridade suprema das Escrituras; uma reforma que alcançasse mais do que a doutrina apenas, mas que também atingisse a vida prática de cada pessoa como cristão e como cidadão mais plenamente, uma reforma “de raiz e ramos”(36). 

Lançou as bases mais concretas do princípio regulador do culto, contra o cerimonialismo anglicano, ao defender que a Igreja deveria reformar suas cerimônias, na forma de conduzir o culto e na administração das ordenanças. Para ele, nada podia ser acrescentado ou diminuído ao ensinado expressamente nas Escrituras. Segundo interpreta Lloyd-Jones: “Diziam que ele afirmava que o homem não pode formar nem inventar uma religião aceitável a Deus, mas está obrigado a observar e a manter a religião que de Deus é recebida, sem trocas nem mudanças”(37). 

Knox também escreveu uma História da Reforma na Escócia(38), que foi publicada somente em 1587, na Inglaterra, após a sua morte. A publicação na íntegra apareceu somente em 1644.

O Que Podemos Aprender com Knox?

1. Sua firmeza na defesa daquilo em que acreditava.

Ele sobressai na sua conscienciosa aplicação daquilo que acreditava ser o modelo neotestamentário concernente à natureza da Igreja, às ordenanças e cerimônias, e ao exercício da disciplina(39). Ele é o pai do puritanismo no seu conceito de culto e do princípio regulador. Seus ensinos sobre a desobediência civil ao Estado forneceram “as diretrizes para uma doutrina da Igreja e do Estado desenvolvida pelos presbiterianos e pelos huguenotes franceses em tempos posteriores”(40). 

2. Sua paciência e perspicácia pastoral.

É sabido que em seu tempo em Newcastle e Berwick, sob a jurisdição da Igreja da Inglaterra, ele simplesmente deixava de lado a aplicação em sua congregação dos Livros de Oração Comum de 1548 e 1549. Ele não pregava contra, mesmo discordando deles, simplesmente não os aplicava. Lloyd-Jones chama a atenção para o fato de que não precisamos ficar dizendo o que vamos fazer e assim chamando a atenção para a questão e causando polêmica, pois muitas vezes na vida pastoral, fazer em silêncio é mais importante do que falar(41). 

Essa atitude sua milita contra as acusações freqüentes de que Knox era um fanático autoritário, movido por presunção e ambições. Mas a moderação, muitas vezes é encontrada na paciência de esperar a hora certa de agir. Para Knox essa hora veio quase vinte anos depois, Quando pastoreou refugiados ingleses em Genebra e quando implantou o presbiterianismo na Escócia, sem os ritos do Livro de Oração Comum, e na aprovação de seu Livro de Disciplina e na Ordem do Culto. Embora a Reforma escocesa acontecesse sem derramamento de sangue, Knox e seus amigos passaram por difíceis testes na sua fé antes que o ideal reformador se estabelecesse completamente. Em meio a todos eles perseveraram com paciência.

Esse ponto também fica claro em sua carta de 1567 aos pastores puritanos que estavam sendo perseguidos pelos bispos anglicanos. Knox argumentou com eles que não cortassem seus laços com a Igreja da Inglaterra, mas que “deveriam manter o acordo pela paz e pela unidade, por algum tempo”(42). Na verdade, Knox os aconselhava a serem mais pacientes e aguardarem uma oportunidade mais favorável às reformas puritanas, pois tinha esperança de mudanças.

3. Sua pregação fiel e ao mesmo tempo contextual.

Knox não hesitava em ir ao púlpito e pregar abertamente contra aquilo que não concordava, de acordo com as Escrituras. Também várias vezes usou da pregação para refrear a cobiça dos lordes pelas terras da Igreja católica desapropriadas na Escócia. Knox nos ensina que a pregação da palavra tem de ser a exposição bíblica e que essa exposição não pode estar alienada do mundo ao seu redor, antes deve falar a ele partindo da Escritura como única regra de fé e conduta.

Knox nos dá um exemplo primoroso do que seja uma teologia engajada, que busca aplicar os preceitos bíblicos em todas as áreas da vida cristã privada e pública. A rainha da Escócia declarou que temia mais as orações e pregações de John Knox, do que dos soldados e dos canhões da Inglaterra. Seu sermão tinha a capacidade de colocar o temor de Deus nas pessoas.

Seu senso da total dependência humana da graça divina, que compunha o seu pensamento e sua vida tornou-se “o centro da vida das igrejas reformadas durante toda a sua história”(43). 

4. Seu amor pela Igreja de seu país.

Knox orava pela igreja escocesa; “Oh Deus! Dá-me a Escócia, senão eu morro”. Buscou de todas as formas que pode conceber, reformar a igreja de seu país, mesmo quando estava em Genebra, enviava-lhes seus livros, exortando-os à reforma. Por fim, no último dia de sua vida, pediu, segundo o relato de sua própria filha, que sua esposa lesse para ele João 17, dizendo: “Leia a parte onde eu lanço a minha primeira âncora”(44). 

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Notas de referência: 

[1] Apresentação do autor abaixo das notas de referência.
[2] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, ECC, p.13.
[3] Cairns diz que foi em Glasgow (Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, Vida Nova, p. 260).
[4] Waldyr C. Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, p.14.15.
[5] D. Martin Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, PES, p.4,5.
[6] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p. 260.
[7] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, p.32.
[8] Agosto de 1547 a Fevereiro de 1549. Ibid., p.57..
[9] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.2.
[10] Ibid., p.20.
[11] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, p.63.
[12] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, Vida Nova, p.138.
[13] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p.260.
[14] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.9.
[15] Tony Lane, Pensamento Cristão, Vol. II, Abba Press, p.42.
[16] As outras mulheres governantes eram as católicas Maria de Lorena, na Escócia; e Catarina de Médicis, na França. Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, vol. VI, p.139.
[17] Waldyr Carvalho Luz, John Knox, O Patriarca do Presbiterianismo, ECC, p.93.
[18] A Brief Exhortation to England for the Speed Embracing Christ’s Gospel Heretofore by Tyranny of Mary Suppressed and Baniished.
[20] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.24,25.
[21] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, vol. VI, p.141.
[22] Ibid.
[23] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p.261. Veja um extrato de uma dessas conversas em: John Leith, A Tradição Reformada, Pendão Real, p.342.
[24] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC (Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã) vol. II, Vida Nova, p.403.
[25] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores, p.143.
[26] F. F. Bruce, João, Introdução e Comentário, Vida Nova, p. 280. Lloyd Jones coloca de forma ligeiramente diferente: “Leia a parte onde eu lanço a minha primeira âncora” (Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.32).
[27] Earlie Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p.262.
[28] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.9.
[29] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, Vida Nova, p.403.
[30] John Leith, A Tradição Reformada, p.211. Embora John Leith classifique os sermões de Knox com a expressão “literalismo bíblico”, preferimos a terminologia “exposição bíblica”, pois reflete melhor o método de Knox.
[31] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, Vida Nova, p.404.
[32] Ibid.
[33] Citada por Tony Lane, Pensamento Cristão, Vol. II, p.43.
[34] James S. Mcewen, citado por: John Leith, A Tradição Reformada, p.247.
[35] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, p.404.
[36] Ibid., p.405.
[37] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.13.
[38] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.14.
[39] O título completo é: História da Reforma de Religião Dentro do Reino da Escócia. A versão integral dessa obra apareceu somente em 1644, segundo Tony Lane (Pensamento Cristão, Vol. II, p.42).
[40] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.15.
[41] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, p.405.
[42] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.6,15.
[43] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.26. Itálicos meus.
[44] H. Griffith, “John Knox”, EHTIC vol. II, p.405.
[45] Lloyd-Jones, John Knox: O Fundador do Puritanismo, p.32.

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Autor: Rev. Hélio de Oliveira Silva, é Bacharel em Teologia (BTh-SPBC-1990). Mestre em Teologia Histórica (STM-CPPGAJ/2004). Bacharel em Teologia (Convalidação - FAIFA/2011). Pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana do Jd. Goiás - Goiânia/GO. É professor no SPBC desde 1999, onde leciona dentre outras matérias, Literatura Patrística e Reformada e História da IPB.

Fonte: Anunciando Todo o Desígnio de Deus

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Entrevista com Dr. Martyn Lloyd Jones

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Tradução e legendas: Dr. Einstein Arruda

série: Homens de Deus - Parte II

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John Stott

Por Renato Vargens


Um dos ministérios cristãos mais profícuos do século XX é o do Teólogo anglicano John Stott. Particularmente seus escritos, textos e livros em muito me influciaram, despertando no inicio da minha caminhada cristã um enorme desejo de servir ao Senhor no seu reino.

John Stott nasceu na Inglaterra em 27 de abril de 1921. Foi um agnóstico até 1939, quando ouviu uma mensagem do reverendo Eric Nash e se converteu ao cristianismo evangélico. Estudou Línguas Modernas na Faculdade Trinity, de Cambridge. Foi ordenado pela Igreja Anglicana em 1945, e iniciou suas atividades como sacerdote na Igreja All Souls, em Langham Place. Lá continuou até se tornar pastor emérito, em 1975. Foi capelão da coroa britânica de 1959 a 1991.

Stott tornou-se ainda mais conhecido depois do Congresso de Lausanne, em 1974, quando se destacou na defesa do conceito de Evangelho Integral - uma abordagem cristã mais ampla, abrangendo a promoção do Reino de Deus não apenas na dimensão espiritual, mas também na transformação da sociedade a partir da ética e dos valores cristãos.

Em 1982, fundou o London Institute for Contemporary Christianity, do qual hoje é presidente honorário. Escreveu cerca de 40 livros, entre os quais Ouça o Espírito, ouça o mundo (ABU), A Cruz de Cristo (Vida) e Por que sou cristão (Ultimato).

John Sttot é também considerado uma das mais expressivas vozes da Igreja Evangélica contemporânea. A sua obra mais conhecida Cristianismo Básico, vendeu mais de 2 milhões de cópias e já foi traduzido para mais de 60 línguas. Billy Graham chamou John Stott de "o mais respeitável clérigo no mundo hoje".

Isto posto sou tomando pela convicção de que os defensores da teologia da prosperidade tivessem lido os livros deste nobre senhor, a Igreja de Cristo neste Tupiniquim país tivesse tido um rumo diferente.

Renato Vargens
Fonte: [ Blog do autor ]

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Série: Homens de Deus - Parte I

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Dr. Russel Shedd

Por Renato Vargens


Nas esquinas, nas ruas, nas cidades e vilarejos, por onde andamos, em todo país, torna-se absolutamente perceptível a multiplicação de pastores cujas doutrinas afrontam a verdade do evangelho. Em nome de Cristo, os mercadores da fé, comercializam todo tipo de unção, além de propalar doutrinas e comportamentos absolutamente antagônicos as Sagradas Escrituras.

Em meio a tanta loucura e falso “profetismo” a impressão que temos é que não sobraram neste “brasilzão de meu Deus” homens cujos joelhos não se dobraram a Baal. (1 Reis 19:18.) Entretanto, ao contrário do que pensamos ou possamos imaginar, Nosso Deus de forma graciosa, tem preservado milhares de cristãos em todo país, cujos corações continuam centrados no Senhor.

Dr. Russel Shedd é um destes homens. Nascido na Bolívia, onde seus pais, Leslie Martin e Della Johnston eram missionários entre os índios, desde pequeno cresceu nos caminhos do Senhor. Aos cinco anos Shedd esteve pela primeira vez nos Estados Unidos, onde completou seus estudos e graduou-se em teologia pela Wheaton College. Algum tempo depois, tornou-se Ph.D. em Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, Escócia.

De volta aos EUA, serviu durante cerca de um ano como pastor interino e logo foi aceito como missionário pela Missão Batista Conservadora, indo trabalhar em Portugal por um curto período. Após, transferiu-se definitivamente para o Brasil em 1962, estabelecendo-se definitivamente em São Paulo, onde fundou as Edições Vida Nova há mais de 40 anos, tendo lecionado na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e dirigido a igreja Metropolitan Chapel, fundada por ele em 1977.

Dr. Shedd e autor de vários livros, dentre os quais estão A Justiça Social e a Interpretação da Bíblia, Disciplina na Igreja, A Carne, o Diabo e o Mundo, A Escatologia do Novo Testamento, A Solidariedade da Raça, Justificação, A Oração e o Preparo de Líderes Cristãos, Fundamentos Bíblicos da Evangelização, Teologia do Desperdício, Criação e Graça: reflexão sobre as revelações de Deus, todos publicados pelas Edições Vida Nova ou pela Shedd Publicações. Além disso, é autor dos comentários da Bíblia Shedd (Vida Nova) e foi membro da comissão de tradutores para o português brasileiro da Bíblia NVI (Nova Versão Internacional).Dr. Shedd é uma das maiores autoridades do mundo no Novo Testamento, possui uma teologia bíblica, suas doutrinas são cristãs e seu testemunho como pessoa é exemplar.

Dr. Shedd não é e nunca foi adepto da teologia da prosperidade nem tampouco da confissão positiva. Para ele a Bíblia é autoridade suprema e inspirada, sendo esta a única revelação fidedigna de Deus.

Isto posto sem a menor sombra de dúvidas afirmo que Dr. Russel Shedd é um daqueles que não se prostraram diante Baal e que com graça e dedicação tem servido ao Senhor dos Senhores.

Renato Vargens
Fonte: [ Blog do autor ]
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