A condenação eterna

.


Aqui está um assunto que poucos evitam. Falar sobre a vida eterna com Deus e de todos os seus benefícios, parece ser mais encorajador do que falar sobre a condenação eterna, reservada para os que rejeitam a Cristo. Porém, pretendemos que ao ler este texto, se veja encorajado à seguir os passos de Jesus, pois somente Ele pode te reconciliar com o Pai e te livrar desta terrível condenação.

Antes de tudo, precisamos compreender que a natureza de Deus é perfeitamente justa e santa e que, por não tolerar o pecado pune os que vivem na sua prática. Seria imprudente obscurecermos esta verdade nas Escrituras.

1. A realidade. É certo que alguns tentam negar a realidade dessa futura condenação, argumentando à favor da virtude do amor de Deus, como se ele negasse qualquer ação contra o que lhe é ofensivo. Esses ensinam que um Deus amoroso nunca condenaria pessoas para um eterno tormento. Porém, o amor e a justiça estão unidos na Pessoa de Jesus, salvando os crentes e condenando os incrédulos (Mt 3:11-12, 25:46; 2 Pd 2:9). Deus é amor (1 Jo 4:8), mas o amor não é Deus. Ele condena os pecadores e tal juízo revela o perfeito caráter justo e santo do Seu ser (2 Ts 1:6-10).

2. O estado. As Escrituras indubitavelmente não apenas admitem a realidade dessa condenação, como também a descreve claramente, como um estado da existência humana, sob profundas e intermináveis angústias (ranger de dentes, Mt 25:30). Também, como banimento da presença de Deus (Mt 25:41), onde há densas trevas (Mt 25:30). A ideia transmitida por esta fria realidade tenebrosa, não é meramente de um lugar sem luz, mas de tristeza, de melancolia, de horrível opressão (2 Pd 2:17; Jd 13), semelhante a um confinamento. Não há qualquer sinal de bondade, de amor, de prazer ou de alegria, pois não existe qualquer relação com a fonte Divina.

3. O lugar. As Escrituras descrevem que os incrédulos são destinados para um lugar onde sofrem esses eternos flagelos da ira de Deus. A descrição mais conhecida é do inferno (tartaroó, 2 Pd 2:4), tendo referência a “morte” (seol, Sl 16:10; hades, At 2:27), como indicação de uma sepultura espiritual e profunda (Pv 5:5, 9:18, 15:26). O inferno é claramente um lugar para castigo (Sl 9:17), abismos de trevas (2 Pd 2:4), onde há tormentos eternos (Lc 16:23) e apodrecimento (Mt 10:28). Lugar de penalidade irrevogável (2 Ts 1:9), onde o choro é interminável (Mt 13:42 e 50), onde o fogo é inextinguível (Mc 9:43) e o verme não morre (Mc 9:44). Os crentes estão sujeitos ao sofrimento desta vida terrena, e este é o motivo do seu choro, mas Deus lhes enxugará toda lágrima na vinda de Jesus (Sl 30:5; Jr 31:16; Ap 7:17); porém, os incrédulos lamentarão por toda a eternidade. Mais terrível lugar que este é o que a Escritura chama “lago de fogo” (Ap 20:14), onde o próprio inferno e o diabo serão lançados, no dia em que Jesus voltar para julgar os incrédulos e rebeldes (Ap 20:15). As nossas palavras são incapazes para descreverem quão profundo sofrimento está reservado, para estes, neste lugar, onde o clamor não é ouvido e não é previsto perdão!

Como devemos lidar com estas verdades das Escrituras? Primeiramente, crendo em Jesus como o nosso único e suficiente Salvador (Sl 102:18-22; Lc 12:8-9; At 4:12) dessa terrível condenação, a qual justamente recebemos por nossos pecados (Rm 3:21-26). Em segundo lugar, advertindo esta geração, pregando a Cristo como Salvador, para que creia Nele e se arrependa dos seus pecados, a fim de que todos os que crerem, sejam salvos da condenação eterna.

Que Deus encha os nossos corações de temor, para nos convertermos dos nossos maus caminhos e vivermos uma vida dedicada à Sua vontade.

***
Autor: Rev. Ericson Martins
Fonte: Reflexões e Cotidiano
.

E Judas? Será que ele alguma vez foi um salvo?

.

Por Ednaldo Cordeiro


Sempre que transitamos nas conturbadas estradas da predestinação, nossos opositores, no sentido doutrinário, levantam a questão de Judas, o Iscariotes, afirmando que enquanto não havia traído o Mestre, era um salvo, já que andava entre eles, falava como eles, pregava como eles, e o próprio Cristo o escolhera para ser um de seus apóstolos.

Eu sei que é difícil aceitar aquilo que muitas vezes se coloca de forma clara diante de nossos olhos, devido aos nossos amados pressupostos. Lutei e ainda luto para vencer alguns que insistem em permanecer, mas prossigo conhecendo ao Senhor, moldando minha mente à Palavra. Algumas vezes me deparo com minhas limitações, e peço a Deus que me ilumine, e quase sempre Ele atende, algumas vezes me deixa de molho por um tempo, outras não se dá ao trabalho de responder.

Mas o caso de Judas é emblemático, pois aqueles que não acreditam que Deus possa reprovar alguém, condenar sem dar sequer uma chance, não aceitam que Judas tenha sido escolhido exatamente para fazer o que fez, ou seja, trair a Cristo. Alguns, inconsistentemente, afirmam que qualquer um dos discípulos poderia ter feito o mesmo.

Eu até poderia afirmar que qualquer um dos discípulos poderia ter sido o traidor, se eu não tivesse a Bíblia em mãos e se isso, a traição, ainda estivesse por acontecer. Realmente eu não sei o que acontecerá daqui a alguns segundos, que dirá dias ou anos, mas o que aconteceu e está registrado eu sei, e o que eu sei é que Judas foi o traidor porque estava destinado a isso. Inclusive, nossos opositores negam o seu próprio ensino sobre a presciência divina, ao defender a idéia de que o traidor poderia ter sido Pedro, por exemplo.

A Escritura é clara quanto a isso, Judas nunca foi um dos que teve seu nome escrito no livro da vida. Vamos ver como a Bíblia trata Judas.

Ladrão (João 12:6), e se Paulo, anos depois, ensinava que os ladrões não herdam o Reino dos Céus, 1 Co 6:10-11, quanto mais Cristo;

Um diabo (João 6:70), se o caso fosse de possessão demoníaca, Jesus poderia muito bem expulsar o “encosto” e Judas “tão bonzinho que era”, deixaria de roubar da bolsa, e jamais teria traído Jesus.

Haviam profecias de que o Messias haveria de ser traído, isso é ponto pacífico. Se haveria o ato, também devia haver o agente executor desse ato. Dizer que Deus deixou isso aberto no tempo é tolice. Na verdade, para demonstrar que Judas foi escolhido por Cristo para isso mesmo, bastaria ler os versos finais do capítulo 6 de João, onde Cristo diz “Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo.”. Cristo diz que Judas “é um diabo”, não que Judas se tornaria um após Satanás entrar nele como escreve Lucas, ou ter dado lugar como escreve o próprio João. Judas ERA um diabo.

Ainda no capítulo 6, mas agora nos vs.64-65, e fazendo uma montagem da fala de Cristo, retirando os comentários joaninos do meio da fala, e colocando-os no final, fica até mais fácil compreender: “Mas há alguns de vós que não crêem.[...] Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido, porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar.”. João afirma que “desde o princípio” Cristo sabia que havia descrentes entre os discípulos, bem como também sabia quem seria o traidor, apenas os apóstolos estavam alheios a esse fato, afinal eram simples humanos limitados no tempo e no espaço, e se Cristo desde o princípio sabia quem seria o traidor, não havia a possibilidade de algum dos outros discípulos passarem na frente de Judas.

Judas estava no lugar errado, como bem nos ensina Pedro após a ascensão de Cristo. Ele diz em Atos 1:25 que Judas se desviou do caminho de Deus para ir para O SEU PRÓPRIO CAMINHO. Judas apenas seguiu seu destino.

Agora, se formos buscar oportunidades de salvação no sentido que os nossos opositores usam, Judas teve todas, ele ouviu a Palavra da boca daquele que é a Palavra, ele teve oportunidade de pregar o Evangelho, ele curou enfermos, mas a despeito de ter visto e ouvido tudo isto, o discurso de Cristo era, e ainda é, “duro” de engolir. O próprio Jesus nos adverte acerca deste tipo de pessoa em Mateus 7:21-23, onde Ele afirma que não é porque alguém diz que Jesus é Senhor de sua vida, ou porque opera sinais e maravilhas, mas continua mantendo atitudes iníquas, que está salvo. Estes não são frutos da salvação, o fruto da salvação é uma nova natureza que tem prazer em fazer a vontade do Pai. E Judas não tinha isso, apesar dos sermões de Cristo, continuava roubando, apesar dos dons de operar maravilhas, continuava sendo “um diabo”. Sendo assim, ao trair Cristo, ele estava apenas seguindo o seu próprio caminho.

Se os nossos opositores estivessem corretos, Deus não poderia condenar nenhuma das pessoas que não tiveram a “oportunidade” de ouvir o Evangelho, pois, segundo eles, seria injusto condenar sem dar a chance. Como diria o Pr. Renato Vargens, vamos combinar uma coisa, em nenhum lugar da Bíblia há este tipo de ensino, são simplesmente sofismas humanos aplicados na interpretação bíblica, ou seja, não tem nenhum valor.

Concluindo, afirmar que qualquer outro discípulo poderia ter sido o traidor, para aqueles que advogam a eleição presciente, é atirar no próprio pé. No fim das contas, a única posição que realmente podemos seguir é a de que, apesar de ter caminhado entre os salvos por mais de três anos, Judas nunca foi um deles, ele sempre foi o filho da perdição, nascido para cumprir o propósito de trair o Messias.

***
Fonte: Divinitatis Doctor
.

Todos serão salvos no final?

.

Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Os que acreditam que Deus, no final, vai perdoar, receber e dar a vida eterna a todos os seres humanos são geralmente chamados de universalista ou restauracionistas. Esta última expressão vem de apokatastasis, termo grego tirado de Atos 3:21. Ali, o apóstolo Pedro fala da “restauração de todas as coisas”. Apesar de Pedro estar se referindo à restauração da criação, os universalistas entendem que a salvação de toda a raça humana está incluída no processo. 

O universalismo, portanto, é a crença de que, ao final da história deste mundo, Deus haverá de salvar todos os seres humanos, reconciliando-os consigo mesmo mediante Jesus Cristo. Nesta crença, não há lugar para a doutrina da punição eterna, a saber, a ideia de um inferno onde os pecadores condenados haverão de sofrer eternamente por seus pecados.

Muitos podem pensar que o universalismo é coisa recente de pastores modernos, como o famoso Rob Bell, por exemplo. Todavia, a salvação universal de todos é uma ideia muito antiga. O conceito já era encontrado entre os primeiros mestres gnósticos, e constituiu uma heresia que ameaçou o Cristianismo no primeiro século. Cerca de cem anos depois de Cristo, pais da Igreja como Clemente de Alexandria e seu famoso discípulo Orígenes defendiam explicitamente o universalismo. Orígenes acreditava, inclusive, que o próprio diabo seria salvo no final. Já na Reforma do século 16, Lutero, Calvino e os demais protagonistas das mudanças na Igreja igualmente rejeitaram a ideia da salvação universal de todos ao final. 

O principal argumento usado em defesa do universalismo é que a Bíblia descreve Deus como sendo essencialmente amor: A consequência lógica é que o amor de Deus haverá de vencer ao final, salvando todos os homens da condenação merecida por seus pecados. 

Mas, será que a Bíblia diz que o Senhor é somente amor? Encontramos no Novo Testamento quatro afirmações sobre o que Deus é, e três delas são feitas por João: Deus é “espírito” (João 4.24); “luz” (1João 1.5); e “amor” (1João 4.8,16). A quarta é contundente: “Deus é fogo consumidor” (Hebreus 12.29, reiterando o texto de Deuteronômio 4.24). É claro que essas afirmações não são definições completas de Deus – não têm como defini-lo no sentido estrito do termo –, mas revelam o que ele é em sua natureza. “Deus é amor” significa que ele não somente é a fonte de todo amor, mas é amor em sua própria essência. É importante, entretanto, reconhecer que, se Deus é amor, ele também é espírito, luz e fogo consumidor. 

É preciso manter em harmonia esses aspectos do ser de Deus, pois só assim é possível compreendê-lo como um Senhor que é amor e castiga os ímpios com ira eterna. “Fogo” e “luz” são metáforas, é verdade; porém, metáforas apontam para realidades. No caso, elas querem simplesmente dizer: “Deus é santo e verdadeiro; ele se ira contra o pecado e não vai tolerar a mentira. E punirá os pecadores impenitentes.”

O maior problema que os universalistas enfrentam é lidar com as passagens da Bíblia onde, claramente, se estabelece uma divisão na humanidade entre salvos e perdidos e aquelas outras onde, abertamente, se anuncia o inferno como o destino final dos pecadores não arrependidos. A divisão da humanidade em salvos e perdidos é central nas Escrituras do Antigo Testamento (Deuteronômio 30.15-20; Jeremias 21.8; Salmo 1; Daniel 12.2 e muitas outras). Foi o próprio Jesus quem anunciou esta divisão de maneira clara no seu sermão escatológico, ao profetizar o juízo final onde a humanidade será repartida entre ovelhas e cabritos – sendo os segundos destinados ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos, ao contrário daqueles destinados à felicidade eterna (Mateus 25.31-46). 

Foi o próprio Jesus quem anunciou a realidade do inferno, mais do que qualquer outro personagem do Novo Testamento: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mateus 5.29); “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (10.28). Mais adiante, no capítulo 23 do evangelho de Mateus, a advertência de Cristo é clara: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?

No evangelho de Marcos, uma série de admoestações alerta sobre a realidade do inferno. Ao longo de três versículos do capítulo 9, o Mestre diz que é melhor ao fiel perder uma mão, um pé ou um dos olhos a ser “lançado no inferno”, caso aqueles membros o levem ao pecado. Já Lucas registra um diálogo travado entre Abraão, o patriarca, e um homem rico e impiedoso que foi lançado no fogo eterno, descrito como um lugar de “choro e ranger de dentes”. E, finalmente, uma passagem do evangelho de João explica bem a diferença entre morrer crendo ou rejeitando a salvação: “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam” (João 15.6).

O universalismo é um erro teológico grave. Na verdade, mais que isso, é uma perigosa heresia. Além de não pertencer ao mundo teológico dos autores do Antigo Testamento e do Novo Testamento, a ideia da salvação universal traz diversos riscos. 

Em primeiro lugar, por enfraquecer e, finalmente, extinguir todo espírito missionário e evangelístico. Se todos serão salvos ao final – inclusive os ímpios renitentes, pecadores não convertidos, incrédulos e agnósticos –, por que pregar-lhes o Evangelho? Os universalistas transformam a chamada ao arrependimento da Igreja num simples anúncio auspicioso de que todos já estão salvos em Cristo, e traveste sua missão em apenas ação social. 

Segundo, porque essa doutrina falsa, levada às últimas conseqüências, acarreta necessariamente no ecumenismo com todas as demais religiões mundiais. Se todos serão salvos, as religiões que professam não podem mais ser consideradas certas ou erradas, e se tornam uma questão indiferente. Logo, o correto seria buscar uma união de todos, pois ao final teremos todos o mesmo destino.

Por último, o universalismo é um forte incentivo a uma vida imoral. Por mais que sejamos refratários à ideia das pessoas fazerem o que é certo por terem medo do castigo de Deus, ainda assim, temer “aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma quanto o corpo” (na descrição de Mateus 10.28) ainda é um dos mais poderosos incentivos de Jesus para que vivamos vida santa e reta. A tendência natural do pecador que está seguro de que não sofrerá as consequências de seus pecados é mergulhar ainda mais neles. Assim, o universalismo retira os freios da consciência e abre as portas para uma vida sem preocupações com Deus.

O fato de que eu defendo a verdade bíblica do sofrimento eterno dos ímpios não significa que eu tenha prazer nisto. Só deveríamos falar deste assunto com lágrimas nos olhos e uma oração pelos perdidos em nossos lábios.

***
Fonte: Augustus Nicodemus, via Facebook
.

Sobre o número 666 de Apocalipse

.

Por Gregory K. Beale 


"Além disso, em outros lugares, João sempre usa 'arithmós ('número') como linguagem figurada para uma multidão incontável (5.11; 7.4,9 [o verbo cognato]; 9.16 [duas ocorrências]; 20.. Em tais casos o número não pode ser calculado. É provável que 'o número 666' não seja exceção quanto ao uso figurado que João faz dos números. O número sete se refere à completude e é repetido ao longo do livro. Mas o 666 aparece apenas aqui. Isso sugere que o triplo seis se destina a estabelecer um contraste com o divino sete ao longo do livro e significa incompletude e imperfeição. Além disso, se o número dos santos, 144.000, no próximo verso tem a função figurativa de significar o número completo do povo de Deus (veja 14.1), então o contraste intencional com 666 no verso precedente se referiria à besta e ao seu povo como inerentemente incompletos [...]

Essa ideia do 'seis' também está presente no sexto selo, na sexta trombeta e na sexta taça, que descrevem o julgamento dos seguidores da besta. O sétimo em cada série representa o reino consumado de Cristo. Cada série está incompleta sem o sétimo [...] A tripla repetição do seis implica a intensificação da incompletude e da insuficiência que se encontram na besta mais do que em qualquer outro dentre a humanidade caída. Na Bíblia, o número três significa plenitude, como, por exemplo, na plenitude da Divindade, em Apocalipse 1.4-5, que é imitada pelo dragão, pela besta e pelo falso profeta, aqui no capítulo 13 (e em 16.13). Portanto, o seis repetido três vezes indica a plenitude da pecaminosa incompletude encontrada na besta. A besta simboliza imperfeição, enquanto parece alcançar a divina perfeição. Os três seis são uma paródia da divina trindade de três setes. Isso quer dizer que, embora a besta tente imitar Deus, Cristo e o profético Espírito da verdade (cf. 19.10), ela fracassa vergonhosamente. Ela não consegue completar sua tentativa de espelhar Deus e exaltar a si mesma acima de Deus. Algumas vezes o 'sete' é apropriadamente aplicado ao diabo ou à besta para enfatizar sua profunda natureza má, severa perseguição e o reino universal de opressão (por exemplo, 12.3; 13.1; 17.3,9-11). Seis são usados em vez de setes em 13.18 por causa da repetida ênfase nos versos 3-14 na besta como um Cristo falso ou um profeta falso".


***
Fonte: G. K. Beale. The New International Greek Testament Commentary: The Book of Revelation. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999. pp. 721-722.
Tradução: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima, via Facebook.
.

Para onde vão as almas?

.

Por Rev. Leandro Lima


Para onde vão as almas das pessoas que morreram? Ao longo da História várias possibilidades têm sido levantadas.

Classicamente, o cristianismo  tem defendido que, após a morte, enquanto o corpo vai para a sepultura, o espírito vai para o chamado "Estado Intermediário". Esse local diz respeito a onde estão, por um lado, os que foram salvos em Cristo, no caso do céu, e por outro, os que foram condenados por seus pecados, no caso o inferno. Surgiram outras interpretações. Testemunhas de Jeová e Adventistas defendem o chamado "sono da alma", ou seja, que todas as almas, quer de ímpios quer de crentes ficam dormindo até o dia da ressurreição.

Os Católicos sustentam que as almas ficam num local de "purgação", podendo entrar no céu, depois que tiverem feito satisfação por seus pecados. E os Espíritas dizem que é possível até mesmo se comunicar com as almas dos mortos.

O "sono" da alma é defendido por muitos por causa de expressões usadas no Novo Testamento, como por exemplo, o fato de Jesus ter dito que Lázaro dormia, significando que estava morto (Jo 11.11,14; Ver Mt 9.24; At 7.60; 1Co 15.51; 1Ts 4.13-14). Apela-se também para aqueles textos do Antigo Testamento que descrevem a morte como um estado de inatividade (Ver Sl 6.5; 115.17; 146.4; Dn 12.2). Porém, esses textos descrevem o morto apenas do ponto de vista humano. Além do mais, o que está sendo enfatizado nestes textos é o destino do corpo das pessoas e não da alma.

Há suficiente ensino na Escritura, especialmente por causa do Novo Testamento, para que entendamos para onde a alma vai depois da morte. Jesus contou uma parábola (as parábolas são compostas de elementos reais) em que há explicações suficientes sobre o lugar das almas depois da morte (Lc 16.19-31). Lázaro foi para o seio de Abraão e o rico para o inferno. Eles permaneceram num estado consciente, um está no lugar de punição e o outro no lugar de recompensa, e não há possibilidade de saírem de onde estão. Essa parábola elimina tanto a questão do sono da alma quanto do purgatório. Depois da morte as almas dos salvos vão para o paraíso, enquanto que as almas dos perdidos vão para o inferno. Só existem esses dois lugares e quem foi para um deles não pode mais sair. O Espiritismo também leva um golpe decisivo, pois os mortos não são autorizados a voltarem. E finalmente, Jesus deixa bem claro que o anúncio da salvação somente é possível através da Bíblia (Lc 16.31).

Há muitos outros textos que demonstram o estado consciente dos crentes após a morte. Jesus disse ao ladrão que se converteu na cruz: "Hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23.43). Embora os Testemunhas de Jeová tenham até mesmo mudado a tradução desta frase (para: em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso), todo o sentido da frase de Jesus depende do "hoje", pois o ladrão pediu que Jesus lembrasse dele no futuro, e Jesus disse que não seria preciso esperar. Outro texto claro, nesse sentido, é o da cena da transfiguração, em que Moisés e Elias foram vistos conversando com Jesus (Mt 17.1-8). Eles não estavam dormindo. Paulo também dizia que o cristão, após a morte estaria imediatamente na presença do Senhor (Fp 1.21-23). Ele disse que ao deixar o corpo, o crente passa a habitar com o Senhor (2Co 5.6-8). E ele sabia do que estava falando, pois esteve pessoalmente no paraíso (2Co 12.4). Há mais dois textos da Escritura que demonstram claramente que as almas dos salvos estão no céu e num estado de consciência diante de Deus. Em Apocalipse 6.9-11, e Apocalipse 7.14-15, João viu as almas dos crentes mortos no céu. Elas estão lá conscientes, descansando e esperando o último dia. Não faz sentido pensar que estivessem dormindo na sepultura.

As almas dos que já morreram estão no céu ou no inferno, e estão lá conscientes. Um dado interessante quanto a isso, é que elas estão nesses dois lugares temporariamente. O estado em que estão as almas depois da morte, seja o céu ou o inferno, é chamado de intermediário porque não corresponde ao local definitivo onde, tanto os salvos quanto os condenados, habitarão eternamente. As almas dos salvos no céu e as almas dos condenados no inferno aguardam pelo último dia, o dia da ressurreição. Naquele dia, de acordo com a Bíblia, todos ressuscitarão (Dn 12.2; Ver 1Co 15.52; 1Ts 4.16). Após a ressurreição os perdidos que estavam no inferno irão para o lago de fogo (Ap 20.15), e os salvos que estavam no céu para o novo céu e a nova terra (Ap 21.1). O motivo é simples: Deus não criou o ser humano para viver sem corpo. Atualmente, tanto no céu como no inferno, as almas estão despidas de seus corpos, o futuro lhes assegura que um dia se reunirão a seus corpos.

Para o crente, a doutrina bíblica do Estado Intermediário é uma grande benção. Ela nos assegura que o crente não precisará ficar dormindo, esperando pelo consolo. Ele não precisará esperar o dia em que o Senhor voltar no seu reino para desfrutar das recompensas, pois já estará naquele mesmo dia no paraíso com o Senhor. Para o perdido, por outro lado, a doutrina do Estado Intermediário é a certeza de que seus pecados não passarão impunes. É a certeza de que a justiça pode parecer demorada, mas não falhará. As pessoas que não querem compromisso com Deus imaginam que o túmulo seja o fim de tudo, mas terão uma surpresa terrível quando perceberem que estavam enganadas. A doutrina do Estado Intermediário demonstra que a salvação é possível apenas nessa vida. Isso demonstra a importância central do evangelho, a necessidade de conhecê-lo plenamente e proclamá-lo urgentemente.

- Sobre o autor: Rev. Leandro Antônio de Lima é pastor da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro/SP, e membro do conselho editorial do Jornal Brasil Presbiteriano.

***
Fonte: Jornal Brasil Presbiteriano, edição Maio/2013, pág. 3
.

O estado intermediário dos mortos ímpios

.
Por Anthony Hoekema

O Novo Testamento diz bem pouco acerca da condição dos ímpios entre a morte e a ressurreição, uma vez que sua preocupação principal é com o futuro do povo de Deus. Conforme vimos, a parábola do homem rico e Lázaro retrata o homem rico sofrendo tormentos no Hades após a morte. Talvez, a passagem mais clara do Novo Testamento, que trata da condição do ímpio morto durante o estado intermediário, seja a de 2 Pedro 2.9: “O Senhor sabe como livrar os homem justos de provações e como reservar os injustos para o dia do juízo, enquanto continua sua punição” (NIV). Pedro vem expondo a severidade do julgamento divino sobre os anjos que pecaram, sobre o mundo antigo e sobre Sodoma e Gomorra. De acordo com o verso 4, Deus lança os anjos que pecaram no inferno (no grego, Tartarys), para serem guardados até o julgamento. No verso 9, Pedro está falando acerca dos homens injustos. A estes, diz ele, Deus sabe como guardar ou manter sob punição até o Dia do Juízo - literalmente, enquanto são punidos. A palavra grega utilizada aqui, kolazomenous, é a forma de particípio passivo presente no verbo kolazo, (=punir). O tempo presente do particípio transmite a idéia de que esta punição é contínua (note a tradução da NIV, citada acima). As palavras eis hemeran kriseos (=até o Dia do Juízo), nos revelam que o que é descrito aqui não é o castigo final dos ímpios, mas uma punição que precede o dia do juízo. Além disso, não pode ser sustentado que a punição aqui mencionada seja administrada somente nesta vida atual, uma vez que as palavras “até o dia do juízo” estendem claramente a punição até aquele dia. Esta passagem, portanto, confirma o que aprendemos na parábola do homem rico e Lázaro, e nos revela que os ímpios sofrem punição contínua (cuja natureza não nos é mais amplamente descrita aqui) entre a sua morte e o Dia do Juízo.

***
.

O Pecado para a Morte e a Blasfêmia contra o Espírito Santo

.

Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Não são poucos os pregadores de linha pentecostal que ameaçam os críticos das atuais "manifestações espirituais" de cometerem o pecado sem perdão, a blasfêmia contra o Espírito Santo. Mas, será? O pecado para a morte é mencionado por João em sua primeira carta: 

"Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue (5.16c)".

A morte a que João se refere é a morte espiritual eterna, a condenação final e irrevogável determinada por Deus, tendo como castigo o sofrimento eterno no inferno. Todos os demais pecados podem ser perdoados, mas o “pecado para morte” acarreta de forma inexorável a condenação eterna de quem o comete, a ponto do apóstolo dizer: "e por esse não digo que rogue". E o apóstolo continua:

"Toda injustiça é pecado, e há pecado não para a morte (5.17; cf. 3.4)".

João não está sugerindo que a distinção entre pecado mortal e pecado não mortal implique na existência de pecados que não sejam tão graves assim. Todo pecado é contra o Deus justo, contra a sua justiça. Portanto, todo pecado traz a morte, que é a penalidade imposta por Deus contra o pecado. Mas, para que seus leitores não fiquem aterrorizados, João repete: há pecado não para morte (5.17b). Nem todo pecado é o pecado mortal. Há perdão e vida para os que não pecam para a morte. O Senhor mesmo convida seu povo a buscar o perdão que ele concede (Is 1.18).

O que, então, é o pecado para a morte? O apóstolo João não declara explicitamente a que tipo de pecado se refere. Através dos séculos, estudiosos cristãos têm procurado responder a esta pergunta. Alguns têm entendido que João se refere à morte física, e têm sugerido que se trata de pecados que eram punidos com a pena de morte conforme está no Antigo Testamento (Lv 20.1-27; Nm 18.22). Não adiantaria orar pelos que cometeram pecados punidos com a morte, pois seriam executados de qualquer forma pela autoridade civil. Ou então, trata-se de pecados que o próprio Deus puniria com a morte aqui neste mundo, como ele fez com os filhos de Eli (2Sm 2.25), com Ananias e Safira (At 5.1-11) e com alguns membros da igreja de Corinto que profanavam a Ceia (1Co 11.30; cf. Rm 1.32).

A Igreja Católica fez uma classificação de pecados veniais e pecados mortais, incluindo nos últimos os famosos sete pecados capitais, como assassinato, adultério, glutonaria, mentira, blasfêmia, idolatria, entre outros. Este tipo de classificação é totalmente arbitrário e não tem apoio nas Escrituras.

A interpretação que nos parece mais correta é que João está se referindo à apostasia, que no contexto de seus leitores, significaria abandonar a doutrina apostólica que tinham ouvido e recebido e seguir o ensinamento dos falsos mestres, que negava a encarnação e a divindade do Senhor Jesus. “Pode-se inferir do contexto que este pecado não é uma queda parcial ou a transgressão de um determinado mandamento, mas apostasia, pela qual as pessoas se alienam completamente de Deus” (Calvino).

Trata-se, portanto, de um pecado doutrinário, cometido de forma voluntária e consciente, similar ao pecado de blasfêmia contra o Espírito Santo, cometido pelos fariseus, e que o Senhor Jesus declarou que não haveria de ter perdão nem aqui nem no mundo vindouro (cf. Mt 12.32; Mc 3.29; Lc 12.10). Em ambos os casos, há uma rejeição consciente e voluntária da verdade que foi claramente exposta.

No caso dos leitores de João, a apostasia seria mais profunda, pois teriam participado das igrejas cristãs, como se fossem cristãos, participado das ordenanças do batismo e da Ceia, participado dos meios de graça. À semelhança dos falsos mestres que também, antes, tinham sido membros das igrejas, apostatar seria sair delas (2.19), e se juntar aos pregadores gnósticos e abraçar a doutrina deles, que consistia numa negação de Cristo.

Tal pecado era “para a morte” por sua própria natureza, que é a rejeição final e decidida daquele único que pode salvar, Jesus Cristo. “Este pecado leva quem o comete inexoravelmente a um estado de incorrigível embotamento moral e espiritual, porque pecou voluntariamente contra a própria consciência” (J. Stott).

É provavelmente sobre pessoas que apostataram desta forma que o autor de Hebreus escreveu, dizendo que “é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6). Ele descreve essa situação como sendo um viver deliberado no pecado após o recebimento do pleno conhecimento da verdade. Neste caso, “já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.26-27). Este pecado é descrito como calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança com que foi santificado e ultrajar o Espírito da graça (Hb 10.29), uma linguagem que claramente aponta para a blasfêmia contra o Espírito e a negação de Jesus como Senhor e Cristo (ver também 2Pd 2.20-22, onde o apóstolo Pedro se refere aos falsos mestres).

Não é sem razão que o apóstolo João desaconselha pedirmos por quem pecou dessa forma.

Alguém pode perguntar se Deus fecharia a porta do perdão se pessoas que pecaram para a morte se arrependessem. Tais pessoas, porém, não poderão se arrepender. Elas não o desejam. E além disto, o Senhor determinou sua condenação, a ponto de João não aconselhar que oremos por elas. “Tais pessoas foram entregues a um estado mental reprovável, estão destituída do Espírito Santo, e não podem fazer outra coisa senão, com suas mentes obstinadas, se tornarem piores e piores, acrescentando mais pecado ao seu pecado” (Calvino).

Notemos que nestes versículos João não chama de “irmão” aquele que peca para a morte. Apenas declara que há pecado para a morte e que não recomenda orar pelos que o cometem. É evidente que os nascidos de Deus jamais poderão cometer este pecado.

Portanto, não se impressione com as ameaças de pastores do tipo "você está blasfemando contra o Espírito Santo" se o que você estiver fazendo é simplesmente perguntando qual a base bíblica para cair no Espírito, rir no Espírito, a unção da leoa, e outras "manifestações" atribuídas ao Espírito Santo.

***
.

Análise exegética do livro de Rob Bell

.
Por Kevin DeYoung

Após todo o alvoroço que precedeu o lançamento da obra, Kevin DeYoung lê e revisa Love Wins [O Amor Vence] - um dos livros mais comentados dos últimos tempos que trata da existência do inferno e da redenção daqueles que morreram sem Cristo.

Algumas pessoas podem se impressionar com a quantidade de versos bíblicos que Rob Bell usa em sua obra. Mas há menos conteúdo do que a primeira impressão de nossos olhos. Seguidas vezes, os pilares da teologia de Rob Bell se sustentam em erros exegéticos. A seguir uma lista parcial de dez destes erros, que não seguem nenhuma ordem específica:

1) Bell cita Salmos 65, Isaías, Sofonias, Filipenses 2 e Salmos 22 para provar que todas as pessoas se reconciliarão com Deus no final. O que ele não menciona é que algumas destas promessas são feitas ao povo de Deus, outras são promessas generalizadas de redenção às nações que se voltarão ao Senhor e outras profetizam que todos reconhecerão que Jesus Cristo é o Senhor (o que não quer dizer que todos terão a fé que salva) no último dia. Nenhuma destas passagens embasa aquilo que Bell defende.

2) Bell lista várias passagens que citam uma restauração no final dos tempos – Jeremias 5, Lamentações 3, Oséias 6 e 14, Sofonias 2 e 3, Isaias 57, Joel 3, Amós 9, Naum 2, Zacarias 9 e 10 e Miqueias 7 (pp. 86-87). Qualquer pessoa familiarizada com estes profetas sabe que eles sempre concluem sua profecia com uma promessa de uma bênção futura. E qualquer pessoa que conhece estes profetas deve saber também que estas promessas são para o povo de Deus que está sob Pacto, nas bases da fé e do arrependimento, cumpridas em Cristo.

3) Bell parece ver que tais promessas de restauração estão atreladas a um Pacto, e faz uma ginástica exegética para provar que a restauração não é somente para o povo de Deus. Ele cita Isaias 19, onde está profetizado que um altar ao Senhor será levantado no meio da terra do Egito. Bell conclui que nenhuma falha é permanente em seus efeitos e que suas más consequências podem ser corrigidas (pp. 88-89). Mas Isaias 19 não tem nada a ver com oportunidades pós-morte de arrependimento. O texto fala do plano de Deus para humilhar o Egito, onde o povo de Israel clamou a Deus por libertação. “E ferirá o Senhor aos egípcios; feri-los-á, mas também os curará; e eles se voltarão para o Senhor, que ouvirá as súplicas deles e os curará.” (Isaias 19:22). Deus nunca prometeu que toda a nação do Egito seria salva. O que ele realmente promete, assim como os profetas fizeram por várias vezes, é que se eles clamassem ao Nome do Senhor, ele teria misericórdia deles. Não há nenhuma indicação de que isso ocorreria no além.

4) Bell não faz o menor esforço para entender João 14:6 em seu contexto. Depois de reconhecer que Jesus é o caminho, a verdade, a vida e o único caminho para o Pai, Bell rapidamente acrescenta: “O que ele não diz é como, ou quando ou de que maneira funciona o mecanismo que leva as pessoas a Deus por meio de Jesus. “Ele sequer diz que aqueles que vêm ao Pai por meio de Jesus saberão que estão chegando ao Pai exclusivamente por meio dele. Ele simplesmente diz que tudo o que Deus está fazendo para conhecer, redimir, amar e restaurar o mundo está acontecendo por meio de Jesus” (p. 154). Até mesmo uma lida superficial de João 14 nos mostra que a conclusão no verso 16 se refere à fé. O capítulo começa dizendo “credes em Deus, crede também em mim.” O verso 7 fala a respeito de conhecer a Deus. Versos 9 e 10 explicam que vemos e conhecemos o Pai ao crer que Jesus está no Pai e o Pai está nele. Versos 11 e 12 falam sobre a fé, novamente. Ir ao Pai por meio de Jesus significa ir ao Pai por meio da fé em Cristo. Essa interpretação se alinha com o propósito do Evangelho de João (Jo 20:31).

5) Bell pensa que a pergunta do homem rico: “Que devo fazer para herdar a vida eterna?” não tem nada a ver com a vida após morte. Ele não está perguntando como chegar ao céu depois que morrer (p. 30). Ele simplesmente quer saber como participar das coisas boas que Deus fará em um mundo vindouro (pp. 31, 40).  Novamente, Bell ignora todo o contexto que aponta para o contrário daquilo que ele defende. Levando em consideração que a ressurreição era tema de debate nos dias de Jesus (ver Marcos 12:18-27), o jovem rico provavelmente está dizendo: “Como posso ter a certeza de que serei salvo no dia da ressurreição final?” Ele está pensando na vida após morte. Por isso ele usa a palavra “herdar” e Marcos 10:13-16 dá uma resposta aos questionamentos de Bell acerca de “quem entrará no Reino”. Além disso, o verso 30 deixa claro que algumas das bençãos resultantes de seguir a Jesus virão na vida porvir – aquilo que Jesus se refere como “a vida eterna no mundo vindouro.” Se a vida eterna é equivalente ao mundo vindouro (p. 31), então Jesus é o mestre da redundância. Mas os dois termos não são idênticos. Vida eterna aqui significa vida que dura para sempre.

6) Bell coloca bastante ênfase nas passagens em que Paulo fala sobre disciplina. Paulo entregou Himeneu e Alexandre a Satanás para que aprendessem a não blasfemar. Ele disciplinou um homem em Corinto para que seu espírito pudesse ser salvo no dia do Senhor. Portanto, conclui Bell, as falhas não são permanentes (pp. 89-90). Mas declarar o propósito e a esperança da disciplina (como fez Paulo) é uma coisa; supor que o arrependimento ocorreu de fato, é outra coisa; e pensar que qualquer coisa neste texto nos dá uma brecha para crermos em um arrependimento pós-morte, é deduzir algo que o texto não diz.

7) Às vezes, Bell simplesmente ignora os versos que contrariam sua tese. Ao dizer que devemos ser muito cuidadosos ao julgar de maneira negativa o destino eterno das pessoas, Bell cita as palavras de Jesus em João 3:17 que dizem que “ele não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo.” (p.160). Estas palavras, de acordo com Bell, são “um mistério gigantesco, expansivo e generoso”, que nos levam a esperançosamente concluir que “afinal, o Céu é cheio de surpresas.” As especulações universalistas de Bell teriam sido silenciadas de forma significativa se ele continuasse lendo as palavras de Jesus no verso 18: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.” Igualmente, de acordo com João 3:36 “quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.”

8 ) A visão que Bell tem de Apocalipse é tão superficial que ignora as duras passagens que ele não quer enxergar. Bell explica que Apocalipse é um livro escrito pelo povo de Deus em tempos em que estavam sendo perseguidos. Portanto, o livro descreve várias coisas erradas sendo corrigidas e pessoas prestando contas por seus erros (p. 112). Mas ele diz que “a carta não termina com sangue e violência” (p.112). Termina com o mundo permeado pelo amor de Deus (p.114). Não se trata de um mau resumo, mas os três pontos que ele extrai desta narrativa são problemáticos. Primeiro, ele explica os julgamentos recordando-nos de que as pessoas sempre rejeitam o amor e a alegria em frente deles e “escolhem viver os seus próprios infernos pessoais, todo o tempo” (p. 114). Mas até mesmo uma leitura superficial de Apocalipse nos mostra julgamentos severos sendo decretados diretamente do trono de Deus. Eles são derramados de taças sobre toda a terra. Cristo vem em um cavalo de guerra com uma espada afiada em sua boca. O texto não diz que os ímpios estão sofrendo em vida pelas más decisões que tomaram. Eles lamentam porque aquele a quem eles transpassaram está voltando nas nuvens para exigir sua recompensa (Apocalipse 1:7).

Segundo, Bell sugere que talvez os portões do inferno “nunca se fecharão” porque novos cidadãos continuarão chegando na cidade até que todos sejam reconciliados com Deus (p. 115). Esta interpretação claramente se contrasta com o resto de Apocalipse 21 e 22, que enfatiza várias vezes que haverá pessoas anátemas que serão deixadas para fora da cidade (21:8, 27; 22:3, 14-15, 18-19). O tema do julgamento divino está bem claro no final do livro. Além disso, aqueles que passarão pelo julgamento serão jogados no lago de fogo, onde o tormento é eterno (20:10; 21:8). Em nenhum lugar vemos a ideia de uma segunda chance pós-morte; tudo indica que haverá um julgamento irreversível decretado sobre cada alma no final dos tempos.

Terceiro, de acordo com Bell, o anúncio “Eis que faço novas todas as coisas” sugere novas possibilidades. Consequentemente, isso indica que devemos deixar as portas abertas, pois o destino eterno de cada pessoa ainda não foi determinado (p. 116). Novamente, esta suposição não encontra nenhum respaldo no texto, onde as coisas novas do céu se referem a um novo estado de santidade, um novo mundo, uma nova existência livre de dores, e uma nova proximidade com Deus. O céu não se fará novo porque as pessoas que estão no inferno terão uma segunda chance para se arrepender.

9) O que Bell faz com Sodoma e Gomorra deveria arrepiar até mesmo seus defensores mais ferrenhos. Na verdade, tal abordagem gera dúvidas quanto ao interesse de Bell em estudar o texto de maneira séria. Embasado em Ezequiel 16:53, Bell argumenta que, uma vez que o destino de Sodoma será restaurado, o destino eterno de todos será igualmente restaurado (p. 84). Deveria ser óbvio, porém, que a restauração descrita em Ezequiel é da cidade de Sodoma, não dos indivíduos que nela habitavam e que já foram julgados em Gênesis 19. As pessoas que foram julgadas com fogo e enxofre 1500 antes não estavam tendo uma segunda chance para o arrependimento após a morte. Somente a cidade será restaurada. Além disso, o propósito da restauração de Sodoma é envergonhar Samaria (Ez 16:54), para que esta cidade pagasse pela abominação de seus atos (Ez 16:58). Isso não se encaixa com a visão que Bell tem de Deus e do julgamento. E se isso não fosse suficiente, suas outras opiniões sobre Sodoma são ainda piores. Porque Jesus disse que haveria menos rigor para Sodoma no dia do juízo do que para Cafarnaum (Mateus 11:23-24), Bell conclui que há esperança para todas as outras “Sodomas e Gomorras” (p. 85). Bell se utiliza de uma passagem sobre julgamento – o julgamento de Cafarnaum que, de tão ruim, será pior do que o de Sodoma – para embasar seu universalismo. As advertências de Jesus não falam nada sobre uma nova oportunidade para Sodoma. A escritura fala sobre o triste destino da incrédula Cafarnaum.

10) Não nos surpreende que Bell frequentemente recorre às promessas paulinas em Efésios 1 e Colossenses 1 de que Deus está reconciliando ou unindo todas as coisas em Cristo (p. 149). Estas são as passagens favoritas dos universalistas, mas elas não transmitem o significado que o universalistas desejam que elas tenham. Vejamos Efésios 1, por exemplo. Paulo disse que o plano de Deus na plenitude dos tempos é o de unir todas as coisas em Cristo, coisas no céu e na terra (Efésios 1:10). A palavra grega traduzida como “unir” é longa: anakephalaiōsasthai. Quer dizer somar, reunir em um ponto central, juntar. É como um autor finalizando o ultimo capítulo de seu livro, ou um maestro conduzindo uma orquestra da cacofonia à sinfonia. É uma promessa gloriosa, já iniciada em alguns aspectos pela Palavra de Cristo. Mas concluímos pelo resto de Efésios que Paulo não espera que todas as pessoas se reconciliem com Deus. Ele cita os filhos da desobediência e filhos da ira no capítulo 2. No capítulo 5 ele deixa claro que a imoralidade sexual e a avareza não têm lugar no Reino de Cristo. Em Efésios 5:6 ele adverte que a ira de Deus vêm sobre os filhos da desobediência. A união de todas as coisas não implica na salvação de todas as pessoas. Quer dizer que tudo no universo – céu e terra, o mundo espiritual e o mundo físico – será, finalmente, submetido ao senhorio de Cristo, processo no qual alguns estarão louvando alegremente seu amado Salvador, e outros encontrarão a justa punição por sua perversão. No final, Deus vence.

Conclusão

Uma última consideração a respeito da exegese de Bell: Bell tem a reputação de ser brilhante e criativo, e provavelmente é em certos aspectos. Mas o modo como usa a Bíblia não demonstra nenhuma destas características. Na verdade, sua abordagem é ingênua e rasa. Ele simplifica todas as coisas, seja para fazer a teologia tradicional parecer ridícula e inconsistente, ou para construir toda uma teologia em cima de um texto fora de seu contexto. Não se esforça para interpretar metáforas, gênero literário ou simbolismos. Não faz o menor esforço para harmonizar sua teoria a qualquer passagem que possa comprometer sua nova interpretação da Bíblia. Ele ama a tradição judaica, mas demonstra pouca familiaridade com o enredo e o formato do Antigo Testamento. Seu estilo pode ser atraente para alguns, mas leia as passagens com seus próprios olhos, utilizando-se de uma Bíblia de estudo respeitada ou um comentário bíblico básico. Você passará a questionar seriamente a maneira como Bell se utiliza das Escrituras.

______________________________________
Revisão Completa: The Gospel Coalition
Tradução: Pão & Vinho
.

Sobre o Inferno



Por Augustus Nicodemus Lopes

Eu creio que o inferno existe, mas não tenho o menor prazer ou satisfação secretos ou públicos quanto a este fato.

Eu creio que o inferno é eterno e agradeço a Deus que não me deu condição de entender plenamente o que significa sofrer eternamente, senão eu entraria em crise.

Eu creio que só escaparão de ir para o inferno aqueles que creram em Jesus Cristo como único e suficiente Salvador, o Filho de Deus que veio ao mundo morrer por nossos pecados. Os que nunca ouviram falar de Cristo não são exceção, pois não há inocentes diante de Deus, conforme Paulo ensina em Romanos 1 e 2.

Eu creio que o inferno foi preparado para o diabo e seus anjos, mas não creio que o diabo já esteja lá e muito menos que ele seja o rei do inferno, onde domina e atormenta as almas perdidas. O diabo teme e treme na expectativa daquele dia em que será lançado para sempre no lago de fogo e enxofre.

Eu creio que o Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores do inferno e que Ele se entregou na cruz para isto, mas tenho de reconhecer que a maioria das citações e informações sobre o inferno foi proferida por Ele e não pelo “Deus mau” do Antigo Testamento e nem pelo “intransigente” apóstolo Paulo.

Lamento que tenho pregado pouco sobre o inferno. Lamento que nas vezes que preguei não fui mais convincente. E lamento mais ainda que são poucos os pregadores hoje que estão dispostos a falar deste assunto.

[Aos interessados, seguem as passagens bíblicas que serviram de base para este post: Sal 9.17; Prov 5.5; 9.13–17; 15.24; 23.13-14; Isa 30.33; 33.14; Mat 3.12; 5.29-30; 7.13-14; 8.11-12; 10.28; 13.30, 38–42, 49-50; 16.18; 18.8-9, 34-35; 22.13; 25.28–30, 41, 46; Marcos 9.43-48; Lucas 3.17; 16.23-28; Atos 1.25; 2Tess 1.9; 2Ped 2.4; Judas 6, 23; Apoc 9.1, 2;  11.7;  14.10, 11;  19.20;  20.10, 15;  21.8  2.11]. 

.