Quando matar não é crime, nem pecado

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Por Fabio Correia


Ao contrário do que muitos pensam, o 6º mandamento - "Não matarás" - não é uma tácita e absoluta proibição de matar, independentemente da situação. Ou seja, em determinados casos não é pecado matar. Em determinadas situações é até necessário e recomendável matar.

Pode parecer paradoxal, mas o principal objetivo do 6º mandamento é proteger a vida. Sem essa Lei de Deus escrita e gravada no coração do homem não sobraria ninguém pra "contar a história". Ou seja, os homens se matariam uns aos outros. A proibição é para que o cidadão, individualmente, não tire a vida do outro de forma banal, isto é, para que ele não cometa assassinato, não faça justiça com as próprias mãos e sem um julgamento justo e competente.

Matar alguém significa sempre e necessariamente ter cometido um assassinato? Evidentemente que não. Isso parece já ter ficado claro. A palavra assassinato está diretamente relacionada a crime. Matar alguém em legítima defesa, por exemplo, não é um crime, logo, não é um assassinato. Mas há outras situações em que matar não se constitui nem crime nem pecado. Numa guerra justa, por exemplo, matar o inimigo também não constitui um erro, um crime, um pecado.

Para ilustrar o título dessa postagem, utilizaremos o desfecho trágico de uma tentativa de assalto a uma farmácia, na cidade de Garanhus, no agreste Pernambucano, no dia 14/03/11. Veja no dramático vídeo abaixo [atenção, imagens fortes]:


O policial que salvou a vítima e MATOU o marginal com um tiro certeiro na cabeça cometeu um assassinato? Incorreu no pecado contra o 6º mandamento, que ordena "não matar"? Evidentemente que não. Ninguém o acusará disso, antes, pelo contrário, o policial, provavelmente, será condecorado. Ele era um legítimo representante do Estado naquele momento. Essa morte não deve ser creditada na sua conta pessoal e sim na do Estado que nada mais estava fazendo que o seu papel de "proteger" a vida de seus cidadãos.

O policial puxou o gatilho da arma, mas não cometeu nenhum crime. Nem mesmo incorreu em desobediência ao 6º mandamento. Erraria se fosse omisso e se essa omissão culminasse com o marginal tirando a vida da vítima. Isso deixa claro que nem sempre "matar é um crime ou pecado". Matar para proteger a própria vida, de uma vítima indefesa e de toda a coletividade é, inclusive, louvável.

Nesse sentido, chamamos a atenção para a legitimidade e responsabilidade do Estado em eliminar assassinos cruéis, frios e calculistas, após justo julgamento, prestigiando e protegendo a vida da coletividade. O filósofo Tomaz de Aquino costumava dizer que "assim como é justo amputar um membro do corpo que foi acometido por um câncer para salvar todo o resto, também justo é eliminar certos elementos para proteger e preservar toda a sociedade".

Por tudo isso e por entender que existe farta prova escriturística que ensina acerca da necessidade e da responsabilidade do Estado em proteger as pessoas, inclusive utilizando, se necessário, o "poder de espada", é que sou A FAVOR da implantação da PENA CAPITAL no Brasil, sem desconhecer, evidentemente, que mudanças precisariam ser feitas e, talvez, até mesmo outra constituição. Penso que é o único meio lícito de se promover e satisfazer o desejo de justiça nos casos de assassinatos com requintes de banalidade e crueldade. Matar e ficar "apenas preso", ainda que perpetuamente, definitivamente não é justiça na mesma proporção do crime praticado.

Se quiser conhecer mais o que a Bíblia ensina sobre a pena de morte, clique aqui!

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Fonte: Filosofia Calvinista

Leia também: Pena de morte: o que a Bíblia diz?
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Louvor e teologia: uma união inseparável

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Por Fabio Correia


1 - Quando cantamos cânticos de louvor e adoração a Deus, qual nossa intenção? Reconhecemos seus atributos, sua divindade; dizemos o quanto Ele é grande e majestoso. Em fim, o que queremos, em última análise, AGRADAR a DEUS. Agradar a Deus: esse é o objetivo do louvor.

2 - Conseguiremos agradar a Deus dizendo ou cantando coisas que são contrárias ao que Ele diz sobre Si mesmo, sobre o homem e sobre o mundo, nas Escrituras?

3 - Há pelo menos três grandes cosmovisões acerca do entendimento sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo, que influenciará, necessariamente, no que se dirá a Deus nos louvores, sempre com a intenção de AGRADÁ-LO. São elas: a) Calvinismo; b) Arminianismo; c) Pentecostalismo e suas variantes neopentecostais.

4 - Esses pressupostos teológicos se contradizem em muitos pontos. Ou seja, não existe possibilidade lógica de todos eles estarem certos, ao mesmo tempo, em determinados assuntos, pois são opiniões autoexcludentes. Por exemplo: o arminiano diz que o homem tem livre-arbítrio. O Calvinismo diz que o homem não tem mais livre-arbítrio. O pentecostal, que é arminiano por natureza, acredita em novas revelações, sonhos, dons de línguas, etc, os calvinistas e arminianos tradicionais, não.

5 - Então, como Calvinistas, Arminianos e Pentecostais podem AGRADAR a Deus com seus louvores? Dizendo ou cantando aquilo que consideram correto acerca de Deus, do mundo e do homem. Ora, se o arminiano entende que a doutrina da eleição é errada, como poderá cantar louvores que ensinam essa doutrina? Se o calvinista entende que a doutrina do livre-arbítrio é errada, como poderá cantar louvores que tenham essa conotação? Se tanto arminianos tradicionais quanto calvinistas entendem que os dons revelacionais cessaram, como poderão cantar louvores que falam e sugerem a existência de novas revelações?

6 - Não existe neutralidade em louvores ou afirmações religiosas. Necessariamente elas estarão defendendo uma dessas três grandes cosmovisões, em suas características peculiares;

7 - Cantar louvores é cantar doutrina, inevitavelmente, como sugeria Lutero.

8 - Se o objetivo do louvor congregacional é AGRADAR a Deus, sua igreja só pode cantar aquilo que, no entendimento dela, representa a interpretação correta do que Deus disse acerca de Si mesmo, do homem e do mundo;

9 - Todos que são diretamente ligados ao louvor da igreja, especialmente os líderes, devem conhecer, de forma muito clara, qual é o entendimento doutrinário da sua igreja, sob pena de estar levando a congregação a cantar coisas que DESAGRADAM a Deus, do ponto de vista da cosmovisão doutrinária assumida por esta igreja. Por isso, os responsáveis pelo louvor no VT eram, via de regra, sacerdotes; portanto, conhecedores do entendimento doutrinário.

10 - Igrejas Calvinistas não devem cantar louvores com ensinamentos Arminianos. Igrejas Arminianas não devem cantar louvores com ensinamentos Calvinstas. Igrejas Calvinistas e Arminianas tradicionais não devem cantar louvores com ensinamentos Pentecostais. Igrejas pentecostais não devem cantar louvores com ensinamentos calvinistas e/ou tradicionais.

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Fonte: Filosofia Calvinista
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O calvinismo e a ética

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Por Fábio Correia (Filósofo calvinista)


“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (I Cor 10:31).


1- Definindo termos:

Muitos não sabem, mas a Ética é um objeto de estudo específico da Filosofia. Não é da Psicologia, não é da Antropologia, não é da Sociologia, nem de qualquer outra área do saber. Esse é um tema indispensável dentro do estudo de qualquer cosmovisão.

Existe muita confusão acerca do que vem a ser Ética. Até mesmo os dicionários acabam por confundir Ética com Moral e Moral com Ética. De forma que não é raro você estar lendo um verbete sobre Ética, mas seu conteúdo trata sobre moral. Isso acontece exatamente por conta do distanciamento que temos com a Filosofia. Isso só não ocorre em dicionários técnicos de Filosofia ou ainda algum de renome e tradição mundial.

Mas, em síntese: o que Ética e o que é Moral?

A palavra ética vem do grego éthos. E a palavra moral? Também vem do grego éthos  É a mesma palavra, mesma grafia, porém com pronúncia e significados diferentes. Ou seja, ética não é a mesma coisa de moral, nem vice-versa, como muitos pensam. Não são palavras sinônimas.

Pronunciada com um som de “ê” fechado e curto (éthos), pode ser traduzida por costume, norma, hábito. Serviu de base para a tradução latina de “morales”, de onde vem nossa palavra Moral.

Pronunciada com um som de “é” aberto e mais longo (éthos), significa em sua origem mais remota, essência de um ser (aquilo que, de fato, é essencial ao ser), habitat, local onde o indivíduo se sente protegido. Metaforicamente indica que a Ética irá trabalhar para proteger a vida do ser humano.

A Moral, referindo-se aos costumes dos povos, conjunto de hábitos, de regras, normas, leis que regulam a conduta de um povo, nas diversas épocas, é mais abrangente e divergente e variante de cultura para cultura.

O livro “Costumes e Culturas” traz alguns exemplos interessantes de moral:  Na África do Sul as mulheres se cumprimentam beijando-se na boca. Na Rússia são os homens. Na Tailândia os amigos andam de mãos dadas. Note: nenhum desses preceitos possui status de universalidade. 

A Ética diz respeito a preceitos invariantes. Isto é, que não variam nem de cultura para cultura nem de tempo para tempo. Por exemplo: as necessidades elementares dos seres humanos. A necessidade de alimentação, de sobrevivência. Portanto, a Ética só diz respeito às necessidades elementares dos homens. Ela não se ocupa com questões periféricas e circunstanciais.

A Moral é normativa. Ética e Moral distinguem-se, essencialmente, pela especulação da Lei. É moral cumprir a “lei”. É ético questioná-la e não cumprir se seu fundamento não for justo. A Ética é especulativa, característica herdada da Filosofia.

Geralmente as pessoas classificam como alguém Ético aquele que cumpre as leis, que segue as normas estabelecidas em sua sociedade. Mas, em algumas situações, para ser Ético o indivíduo precisa quebrar as normas, descumprir a lei.

Por exemplo, o índio que vive numa aldeia cuja a convenção coletiva define como norma o infanticídio de gêmeos. Se ele resolve ser Moral (cumprir as normas e leis estabelecidas em sua comunidade) ele estará optando por matar seus próprios filhos. Se, do contrário ele resolve não matar as crianças, estará, necessariamente, em uma espécie de desobediência civil. Suponhamos que opte por não matar seus filhos gêmeos.

O índio, foi Ético ou Moral? Mais: É possível ser Ético e I-Moral ao mesmo tempo? Ele foi. Foi I-moral porque quebrou as Leis de sua sociedade. Foi Ético porque priorizou o que há de mais essencial no ser humano: a vida.


2 - A ética calvinista na visão de um ateu: análise da obra "Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", de Max Weber.

Depois dessa parte mais conceitual, vamos entrar na questão da chamada “Ética Calvinista”, propriamente dita. Essa particularização da Ética, que é por natureza universal, não segue o rigor terminológico exigido pela filosofia. Evidentemente que não existem vários tipos de Ética. Ela é única e universal. Não existe uma Ética especifica dos Calvinistas, nem dos médicos, nem dos advogados. Porém iremos continuar adotando essa terminologia para não contrapor a obra que trabalharemos e que citaremos mais adiante.

Para isso, iremos nos basear, quase que exclusivamente, nas pesquisas e nas observações de um ateu. Sim, de um ateu.

É claro que tem muito Calvinista que escreve e fala sobre a chamada “Ética Calvinista”. E, claro, também, sempre “puxando a brasa para a sardinha” dos Calvinistas.

Escolhi fazer essa abordagem a partir de um ateu por conta de sua análise desapaixonada e isenta.

O nome dele é Max Weber, um sociólogo ateu que intuiu que os problemas e os acertos econômicos poderiam ter uma causa completamente diferente daquelas apontadas por Karl Marx, que acreditava que o povo de um país vivia bem ou vivia mal dependendo da relação de fatores puramente econômicos, como a relação Patrão X Empregado.

Expressões do tipo “o povo sofre porque os burgueses só sabem explorar”, “somos pobres porque as elites dominantes não nos deixam crescer economicamente” dão o tom do pensamento de Karl Marx.

Interessante que nessa onda de protestos que tivemos recentemente essas expressões eram constantemente repetidas, inclusive por crentes. Crentes que são “comunistas” sem saber. Ou que, pelo menos, são simpatizantes dessa causa.

Marx Weber, então, começa a desconfiar que a causa da pobreza e da falta de desenvolvimento intelectual, social e até econômico de muitos países poderia ter outros fatores. É certo que alguns pensadores tiveram essa desconfiança, antes de Weber, mas nenhum deles conseguiu avançar nesse sentido.

Weber queria entender o que faz uma nação ser próspera e desenvolvida e outra subdesenvolvida e seu povo intelectualmente desprovido e limitado.

Pra saber isso só tinha um jeito: era preciso fazer uma análise comparativa entre as nações.

E foi o que ele fez. Tendo como pano de fundo a Europa Moderna, Weber avaliou e investigou diversos países, diversas nações para tentar trazer luz a essa problemática, utilizando, para isso, os métodos comparativos das ciências sociais. Ele chega, então, a uma descoberta surpreendente, jamais percebida antes.

Depois de uma vasta pesquisa, Weber começa a cruzar os dados colhidos de vários países. Ele constatou que nos países bem sucedidos, em todos os aspectos, havia uma característica muito interessante, que ele não conseguiu identificar nos países decadentes. Vejamos suas premissas:

a) Homens de negócios e grandes capitalistas[1]; b) Operários qualificados de alto nível e pessoal especializado (tecnologicamente e comercialmente); c) Premissas 1 e 2 têm em comum o fato de conter majoritariamente protestantes de linha Calvinista.

Diz Weber:

“Um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição mista mostrará, com notável freqüência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas. O fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante’ (WEBER, 2002. p.37).

Essa constatação intrigou bastante Max Weber. Então ele passou a investigar o que havia de diferente nesses protestantes que produzia uma “ética” diferenciada; esse estilo de vida peculiar a ponto de mudar a realidade de um país.

E mais uma vez sua constatação foi surpreendente:

De forma bastante clara, Weber atribui ao Calvinismo a produção dessa ética particular, principalmente aos efeitos psicológicos causados pela doutrina da eleição ou da predestinação.

A antropologia bíblica enxergada por Calvino e tantos outros expoentes, como Agostinho de Hipona, que tira do homem o tão requerido e postulado “livre arbítrio”, é peça fundamental no entendimento da doutrina da predestinação ou eleição.

Segundo Calvino, o homem, em seu estado natural, está morto (Efésios 2:1), restando-lhe apenas a certeza do inferno eterno.

Para um homem nesse estado de morte espiritual e de “nulidade” total e absoluta, um verdadeiro agente passivo da condição espiritual pós-pecado, quando há a perda do livre-arbítrio - pois que vontade (espiritual) pode ter um morto? - só existe uma possibilidade de salvação: o favor não merecido de Deus para salvá-lo, a graça de Deus.

A crença nessa sistematização doutrinária calvinista leva o “eleito” a um imenso sentimento de gratidão a Deus, uma vez que, mesmo sem merecer, recebe esta graça extraordinária.

Como consequência e em gratidão, passa a viver e a dedicar todos os seus momentos, inclusive atividades seculares, para a “glória de Deus”.

Isso simplesmente acaba com o binômio Sagrado X Profano. Para o Calvinista tudo passa a ser sagrado; tudo deve ser servir para a glória de Deus

Veja o que Weber diz:

“Dessa forma, coube aos puritanos, que se consideravam eleitos, viver a santificação da vida cotidiana. Pois o caráter sectário – a consciência de ser minoria e a motivação de ser eleito de Deus – fazia de cada membro dessas comunidades não mero adepto do rebanho mas, mas um vocacionado que se dedicava simultaneamente ao aprimoramento ético, intelectual e profissional” (WEBER, 2002. p.21).

O importante Catecismo calvinista, Catecismo Maior de Westminster, dá o tom dos objetivos dessa nova vida outorgada pela graça, já na pergunta inicial:

“Qual é o Fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus” (CATECISMO MAIOR, 2007. p.31).

Esse novo modelo de vida, essa “ética” calvinista, segundo Weber, é a causa evidente do desenvolvimento dos países por ele pesquisado.

Diz Weber:

O Deus de Calvino exigia de seus crentes não boas ações isoladas, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado (WEBER, 2002. p.91).

Isso é seguir a orientação Apostólica de Paulo, os Calvinistas procuram “fazer todas as coisas como se estivessem fazendo para Deus” (Col 3:23).

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Para ler a continuação desse artigo, acesse o blog Filosofia Calvinista clicando aqui!
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Nota:
[1] De capitalismo não devemos entender, aqui, como a busca desregrada pelo Lucro, como diz o próprio Weber: “O impulso pelo ganho, a perseguição do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiram entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas [...]. Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte de condições humanas em todos os tempos e em todos os países da terra [...]. A ganância ilimitada de ganho não se identifica nem de longe com o capitalismo, e menos ainda com o seu “espírito”(WEBER, 2002. p.26). Ao que concorda Biéler: “Não se trata mais, de modo algum, da paixão pelo ganho que caracterizava outrora alguns comerciantes à vida de riquezas” (BIÉLER, 1999. p.624). E ainda: Calvino, sabe-se, é o primeiro dos teólogos cristãos a exonerar o empréstimo a juros do opróbrio moral e teológico que a igreja havia feito sobre ele, até então; não é justo, entretanto, atribuir-lhe a justificação integral do capitalismo liberal (BIÉLER, 1999. p.20)

- Sobre o autor: Fabio Correia é mestre em Filosofia - UFPE, Licenciado em Filosofia - Unicap, Licenciado em Educação Religiosa - SPN, Professor de Introdução à Filosofia, Ética Profissional e Filosofia da Educação da Faculdade Decisão-FADE-PE e da Faculdade DAMAS.

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A importância da teologia na produção de uma religiosidade sadia

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Por Fábio Correia (filósofo calvinista)


Mateus 28:19-20: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”.

Algumas pessoas costumam dizer que não gostam de teologia. “Meu negócio é vida prática”, afirmam. São verdadeiros "Teolofóbicos". No texto acima, um dos mais conhecidos, sempre que é citado, pontua-se a questão do “Ide” (v.19), da “evangelização”. Mas, não podemos esquecer que o mesmo imperativo para “evangelizar” é aplicado, com a mesma intensidade, para a necessidade do “ensino na palavra de Deus” (v.20). Em Mateus 22:29, Jesus levanta mais uma vez a questão da importância do aprofundamento no estudo das escrituras. Diz ele: “Errais, não conhecendo as Escrituras”. Em João 5:39, sobre esse assunto, mais uma vez Jesus incentiva o aprofundamento nas escrituras, diz ele: “Examinai as escrituras”.

Portanto, não devemos fazer essa equivocada distinção dicotômica entre Teologia e Vida prática. Afinal, como alguém já disse, somos aquilo que acreditamos, aquilo que aprendemos, aquilo que lemos. Erra gravemente quem pensa que o estudo da teologia produz uma vida apática e desassociada de atitudes práticas.

Os maiores missionários do passado eram, também, profundos conhecedores da Teologia, especialmente Reformada. O sociólogo Max Weber, autor do livro de não ficção mais importante do século XX “Ética protestante e o Espírito do Capitalismo”, por exemplo, após um denso estudo sobre variadas culturas, chegou à conclusão que os países cuja população era predominantemente Calvinista, possuíam melhor qualidade de vida, com maior desenvolvimento espiritual, ético e moral. Ele atribui isso ao conhecimento profundo da doutrina Reformada. Veja o que ele afirma:

O Deus de Calvino exigia de seus crentes não boas ações isoladas, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado. Mas no curso de seu desenvolvimento, o calvinismo acrescentou algo de positivo a isso tudo, ou seja, a ideia de comprovar a fé do indivíduo pelas atitudes seculares. [...] consideramos apenas o calvinismo e adotamos a doutrina da predestinação como arcabouço dogmático da moralidade puritana, no sentido de racionalização metódica da conduta ética.(WEBER, 2004. p.91,94,96).

Precisamos entender que sempre fazemos uma opção teológica. Queiramos ou não. Ainda que afirmemos não gostar de teologia.

Ou como calvinistas, ou como arminianos.

Não temos como fugir disso. Essa escolha reflete diretamente na nossa prática cúltica e litúrgica. Quando dizemos: “não quero saber de estudar teologia”; sem saber, nossas atitudes e forma de adoração, acabam por revelar, automaticamente, a posição teológica que estamos seguindo.

Um bom exemplo disso é o sistema de APELO, trazido por Charles Finey, no século XIX. Muita gente diz que não gosta de teologia, mas, sempre, depois de sua pregação, faz o famoso “apelo” para que as pessoas aceitem a Cristo. Isso, caros irmãos, é teologia pura. Se está certa ou não, é outro assunto. Isso é uma prática complemente lastreada por uma posição teológica.

Ou somos Calvinistas ou somos Arminianos, repetimos. Não temos como fugir disso. Queiramos ou não, assumimos uma posição teológica. Sem contar nos muitos absurdos e nas muitas aberrações, que temos visto no meio evangélico, pela pura falta de estudo da Palavra de Deus; da Teologia.

Não seria mais prudente, então, seguir a orientação de Jesus e estudar profundamente sua palavra? Isso é teologia. Fazendo isso, podemos escolher, sem nenhuma imposição, a postura teológica que mais simpatizamos, que mais, em nossa opinião, se aproxima da verdade das Escrituras Sagradas. Porém, essa escolha “consciente” só poderá ser feita mediante um conhecimento aprofundado da Palavra de Deus, que só pode ser adquirido com o estudo da Teologia.

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Breves reflexões sobre a laicidade do Estado

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Por Fábio Correia (filósofo calvinista)


O que significa um Estado Laico? Responder e ter clareza sobre isso é de grande importância. A falta de conhecimento ou mesmo um conhecimento apenas superficial do que realmente significa um Estado Laico tem levado religiosos e ateus a assumirem posturas igualmente extremistas.

Pode o Estado manter em suas repartições símbolos religiosos, por exemplo? Essa é apenas uma questão a ser refletida. Talvez, uma das menores. Porém, é uma questão sintomática. Ela revela o grau de distorção acerca desse assunto.

Antes de continuarmos, vamos rever a definição de Estado Laico, de forma simples e sintética:

“Um Estado secular ou estado laico é um conceito do secularismo onde o Estado é oficialmente neutro em relação às questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião. Um estado secular trata todos seus cidadãos igualmente, independente de sua escolha religiosa, e não deve dar preferência a indivíduos de certa religião. Estado teocrático ou teocrático é o contrário de um estado secular, ou seja, é um estado onde há uma única religião oficial (como é o caso do Vaticano e do Irã). O Estado secular deve garantir e proteger a liberdade religiosa e filosófica de cada cidadão, evitando que alguma religião exerça controle ou interfira em questões políticas. Difere-se do estado ateu - como era a extinta URSS - porque no último o estado se opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Entretanto, apesar de não ser um Estado ateu, o Estado Laico deve respeitar também o direito à descrença religiosa”.
Conforme: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_secular.

Devemos notar que o Estado Laico não é contra a Religião ou a Religiosidade. Antes, pelo contrário, ele tem o dever de defender o direito de culto ou de qualquer outra expressão religiosa do cidadão.

Os ateus, sob a alegação de terem seu “direito de não crer” violado, querem transformar de forma sutil, inteligente, maliciosa, discreta, imperceptível e intencional o “Estado Laico” em um “Estado ateu”. Ou seja, querem que o Estado se oponha a qualquer tipo de Religiosidade ou expressão religiosa. Querem proibir o uso de símbolos religiosos em repartições públicas, por exemplo. Mas, será que isso é uma reivindicação válida e justa? Sim e Não, eu diria. Vejamos:

Sim, se o símbolo religioso tiver sido adquirido com dinheiro público, principalmente.

Mas há ainda outras situações, mais gerais e abrangentes, que tornaria a reclamação dos Ateus e de, agora, “outros credos”, justa e válida:

a) Se o símbolo religioso “peculiar” estiver ocupando área comum de espaço público. Exemplo: uma imagem de uma santa católica no pátio da Secretaria de Educação do Estado, ainda que não tenha sido adquirida com dinheiro público. Um protestante, certamente, não iria gostar de ver que um espaço que “também” lhe pertence está sendo usurpado por uma crença que ele definitivamente não concorda. Da mesma forma o ateu.

b) Se o espaço público estiver sendo utilizado com o fim de divulgar uma “bandeira religiosa” específica. Exemplo: um evangélico que prega sua mensagem no metrô. Por mais que entendamos que a mensagem pregada é verdadeira, não dá pra conviver harmonicamente com esse tipo de prática num Estado Laico. O que os evangélicos achariam se um religioso do Candomblé resolvesse fazer um “despacho” no metrô? Essa é uma expressão religiosa tal qual sua pregação. Nesse caso, se o Estado Laico entende ou permite que o evangélico manifeste sua expressão religiosa, deve também assegurar o mesmo direito ao Macumbeiro.

Não, se o símbolo religioso estiver sendo usado por um funcionário público ou mesmo por um contribuinte, no exercício pleno de sua liberdade religiosa e nos limites de seu espaço particular.

A França, por lobby do ateísmo, proibiu até mesmo que alunas frequentassem aulas usando a tradicional “burca”, símbolo religioso do Islamismo. Isso não é, definitivamente, ato legítimo de um Estado Laico. Isso é decreto de “Estado Ateu”. É uma invasão e uma violação à liberdade religiosa e à própria liberdade, em si. Curiosamente isso ocorreu no país que é um dos mais importantes símbolos da Liberdade. Um verdadeiro retrocesso aos pressupostos conquistados pela “Revolução Francesa”.

Nesse sentido, o funcionamento do Estado Laico é análogo ao de um condomínio. Ou seja, cada condômino tem total liberdade de encher seu apartamento com santos católicos ou da umbanda, por exemplo. Porém, ele não pode utilizar as áreas comuns do condomínio para fazer prevalecer seus símbolos religiosos ou ainda a cor de sua preferência individual, com a qual pinta seu imóvel.

Evidentemente que existem outras questões mais complexas que envolvem esse assunto e que não iremos abordar nessa breve reflexão, como por exemplo: a questão do “casamento gay”, da “adoção de filhos por casais gays”, o “direito a pensão alimentícia e herança em caso de relações homoafetivas” e tantas outras.

Algumas dessas questões não possuem nenhum caráter religioso. Trata-se apenas de uma questão de justiça, como é o caso do direito a herança e de ser dependente em planos de saúde, requeridos pelos gays. Nessas, o estado deve resolver e, sequer, perguntar algo aos religiosos. Outras, porém, envolvem questões de crença, como o chamado “casamento gay e adoção”. Os não religiosos e ateus, porém, não reconhecem isso. Querem até que o Estado ignore a opinião dos Religiosos. Mas essa é uma postura de um Estado Ateu e não de um Estado Laico.

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Thalles Roberto, o ecumenismo da lógica do terceiro incluído e o self service de igrejas.

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Por Fabio B. Correia (Filósofo Calvinista)


Dia 17/03/2013, no programa Esquenta de Regina Casé (sim, senhores, eu vi uma parte desse “programa”, infelizmente) o tema abordado, de forma bem direcionada, diga-se de passagem, foi a questão da Tolerância Religiosa; um dos temas da moda. 

Esse assunto tem cada vez mais espaço na mídia e até na Academia, principalmente por meio do curso de Ciência da Religião, em nível de Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado. Um dos pressupostos básicos desse curso é famosa “lógica do terceiro incluído”. Em síntese, poderíamos dizer que essa lógica prevê uma convivência harmoniosa entre as Religiões. Um discurso lindo aos menos avisados. Segundo ela, o meu argumento e aquilo que creio está certo, mas o da outra Religião também está certo. Uma antítese, de fato, da lógica Aristotélica, que afirma não ser possível “uma coisa ser e não ser ao mesmo tempo”. Para clarear, tomemos como exemplo a seguinte sentença: “A bíblia é inspirada por Deus”. Há pessoas e religiões que creem assim. Outras, porém, negam completamente que isso seja verdade. Pela “lógica do terceiro incluído”, quem estaria com a razão? O que acredita na inspiração da Bíblia, mas também o que não acredita nessa inspiração. Ou seja, é o fim da apologética, da hermenêutica e de tantas outras ferramentas de investigação da verdade.

Essa lógica, que supervaloriza o discurso da “tolerância Religiosa”, em nome de uma perfeita harmonização entre as Religiões, esconde algo de muito perigoso em suas entrelinhas: a relativização de preceitos bíblicos absolutos, como a existência de Deus, a inspiração das Escrituras, a deidade de Cristo, a realidade do céu, do inferno e do pecado, além de muitos outros ataques à genuína fé cristã.

O resultado prático da aceitação irrestrita da “lógica do terceiro incluído” é, sem sombra de dúvidas, o Ecumenismo.

No programa “Esquenta”, exibido pela TV Globo, já mencionado acima, estavam presentes representantes dos mais variados seguimentos religiosos, principalmente e de forma mais numerosa, por razões obvias, das religiões de matriz Afro, como Umbanda, Candomblé, etc. Estava presente também um Padre, um Rabino, uma percursionista Batista e ele - o “grande cantor” da música Gospel; aquele que arranca suspiros das irmãs e que tem suas embaladas músicas cantadas até mesmo nos círculos das Igrejas Históricas de teologia Reformada: Tales Roberto. Todos eles, ao ritmo do samba. Afinal, “samba é Samba”, disse o Tales.


Mas, dentre as poucas falas do cantor Gospel (sim, poucas, porque, claramente, o objetivo do programa é promover e desmistificar o Candomblé, a Umbanda e todas as religiões de matriz Afro), uma me chamou a atenção. Perguntado pela apresentadora, que já o denunciou como membro da Igreja Sara Nossa Terra, se sua igreja pregava a tolerância, a aceitação do diferente, sem titubear, respondeu Tales: “A minha igreja é diferente é é por isso que eu sou assim tão aberto. Eu sempre fui um cara aberto. Eu Procurei uma igreja que me aceitasse, assim do jeito que eu sou”.  

O Tales passou longe de estar correto no modo e na escolha. Mas, não podemos negar: é assim mesmo que as pessoas escolhem uma igreja, hoje em dia. Aquela que tem tudo que eu gosto, tudo que me agrada e que me deixa viver de acordo com meus próprios pressupostos (desde que eu “chegue junto”, se é que me entendem); é essa mesmo a igreja ‘boa”. Quem vai escolher uma igreja que coloca o homem no seu devido lugar de miserável pecador? Que não massageia o seu ego? Que insiste na pregação e no estudo exaustivo das Sagradas Escrituras?

A fala do Tales Roberto descortina por completo a realidade que estamos vivendo: temos hoje um grande Self Service de igrejas. Literalmente tem “Igrejas para todos os gostos”.

Isso me fez lembrar de uma postagem, publicada aqui no blog,  sobre a edição de Nº 91 da Revista Eclésia, que trazia exatamente esse título em sua capa: “Igrejas para todos os gostos”. Nessa reportagem a revista lista cerca de 70 nomes esquisitos de igrejas. Alguns são realmente hilários, quase não dá para acreditar que realmente existe alguém com tamanha capacidade criativa e desvio das escrituras. Relembre alguns:

“Congregação Anti-Blasfêmia”, “Igreja Chave do Édem”, “Igreja Batista A Paz do Senhor e Anti-Globo”, “Igreja da Pomba Branca”, “Igreja ‘A’ de Amor”, “Igreja E.T.Q.B (eu também quero benção)”, “Igreja Pentecostal do Pastor Sassá” e por aí vai. Para relembrar essa postagem acesse aqui.

“ECLESIA REFORMATA ET REFORMAND EST”- IGREJA REFORMADA SEMPRE SE REFORMANDO.

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O amor limitado de Deus - Parte 1

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Por Fabio Correia

O amor de Deus não é tão "grande e ilimitado" assim como muitos pensam. Se Ele quisesse salvar a todos, poderia? Obviamente que sim. Afinal, Deus é Soberano. Ele pode absolutamente tudo que quiser. Por que não salva, então? Seria porque algumas pessoas são incrédulas? Porque algumas pessoas têm um coração duríssimo? Ou ainda não salva porque outras pessoas são blasfemas e não querem saber Dele?

Evidentemente que é de se esperar que pessoas de coração tão duros e ímpios e que rejeitam a bondade da qual seriam alvo de forma tão acintosa, sejam excluídas ou recebem algum tipo de punição ou ainda que deixem de ser alvo desse amor que seria disponibilizado para elas. Geralmente agimos assim. Somos naturalmente vingativos. Somente as pessoas "merecedoras" se tornam alvo do nosso amor. Mas, com Deus não deveria ser diferente? Ele não poderia, e até "deveria", relevar os desmandos e desvios de todas as pessoas, e, assim, salvar a todos indistintamente? É isso que ocorre? Todos serão salvos?

Muitos universalistas acreditam que sim. Acreditam que, por Sua misericórdia e bondade, Deus aceitará a todos e não deixará que nenhum se perca, independentemente de exercerem fé ou não. Poderíamos resumir esse pensamento na frase "Jesus morreu por todos sem exceção".

Apesar de ser o universalismo um pensamento muito simpático e favorável a nós, transgressores inveterados da Lei de Deus, ele foi considerado como herético no concílio de Constantinopla em 543 d.C. Apesar disso, é defendido pela maioria dos teólogos liberais e seus simpatizantes. Ainda que alguns textos bíblicos pareçam sugerir tal expiação universal, entendidos, obviamente, fora do contexto geral das Escrituras, essa ideia é realmente insustentável. Afinal, a bíblia fala da existência de réprobos quanto à fé, isto é, de pessoas que não serão salvas e que terão o inferno como destino e castigo eterno.

Outra corrente teológica que reflete sobre a extensão do amor de Deus é a corrente Arminiana. Essa evolução do Pelagianismo, diferentemente do universalismo, entende que, realmente, nem todos serão salvos necessariamente; porém, todos poderão ser salvos, se quiserem. O problema é que muitos não querem. Para eles, a salvação é um grande "self-service" de possibilidades. Ou seja, Jesus morreu não para salvar efetivamente, mas para possibilitar a salvação de quem quiser ser salvo. Ele fez a parte Dele, cabe ao homem agora servir-se e apropriar-se dessa salvação através da sua fé. O homem, nesse casso, é agente completamente ativo na sua própria salvação. Poderíamos resumir esse pensamento na frase "Jesus morreu por todos que quiserem ser salvos".

Um dos textos favoritos dos arminianos é João 3:16, que diz: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que Nele crê não pereça mas tenha a vida eterna".

Curiosamente os arminianos alternam seu entendimento em relação à extensão do amor de Deus entre uma rápida e discreta passagem pelo universalismo e a limitação "camuflada" desse amor, muito embora não admitam abertamente nenhum nem outro.

Por exemplo, pela expressão do texto acima, "Deus amou o mundo", eles costumam entender que é um amor extensivo ao mundo inteiro, realmente. Isto é, a todas as pessoas. Porém, se perguntarmos a um bom arminiano se todos serão "necessariamente" salvos, dirá que não. Por outro lado, a expressão no mesmo texto acima "todo aquele que crê" é altamente limitadora. Porém, se da mesma forma, perguntarmos a um bom arminiano se Jesus morreu apenas por alguns, eles negarão peremptoriamente.

Apesar disso, não há como negar. Na visão arminiana, ainda que isso gere algum tipo de desconforto quando dito abertamente, o amor de Deus é limitado. E quem põe limite à ação extensiva do amor de Deus? O próprio homem, que decide não crer. É como se o homem sentenciasse soberanamente: "Deus, seu amor pode chegar até uma casa antes da minha, no meu vizinho; ele não deve chegar até a minha casa porque eu não permito; porque eu não quero". E Deus, na visão arminiana, obviamente, obedece ou ainda, como eles preferem dizer, respeita essa vontade do homem. 

Ora, parece claro que se o amor de Deus fosse "ilimitado e irrestrito" como, muitas vezes, supõem os próprios arminianos, deveria salvar até mesmo aquele que decide não querer crer.

Mas há ainda um terceiro grupo que se aventura a refletir séria e profundamento sobre o amor de Deus. São os Calvinistas. Esses, diferentemente dos universalistas e dos arminianos, defendem abertamente que o amor salvífico de Deus é limitado, extensivo e direcionado apenas a um grupo restrito de Eleitos. Sendo assim, admitem, sem o menor constrangimento, que os que "não são salvos" não o são porque o próprio Deus decidiu soberanamente que não seriam salvos e não porque simplesmente não quiseram crer. Ou seja, Deus decidiu eternamente tirar apenas alguns da perdição; o que pressupõe estarem todos nessa situação. Por outro lado, admitem que  não há nada de diferente na natureza daqueles que serão salvos, em relação aos não salvos. Ou seja, os chamados "eleitos de Deus" não são intrinsecamente melhores que os não eleitos. Pelo contrário, todos são igualmente merecedores da ira de Deus, por conta de sua queda em Adão. Estando todos caídos e mortos, espiritualmente falando, Deus, pela sua Graça, que por definição é fazer um favor a quem não merece, decide salvar alguns e derramar sobre esses - mas somente sobre esses - seu "infinito e ilimitado" amor salvífico, a ponto de sacrificar seu próprio Filho Jesus, exclusivamente por eles.  Poderíamos resumir esse pensamento na frase "Jesus morreu apenas pelos seus eleitos". 

Um dos principais e mais polêmicos pontos da teologia Calvinista, geralmente sintetizada em cinco pontos, versa exatamente sobre essa questão. Sobre a "Expiação Limita". Limitada não no poder e importância, e, sim, na extensão e aplicabilidade dessa expiação. Esse ponto ensina de forma clara e aberta que Jesus não morreu por todos. Porque se Ele tivesse morrido por todos sem exceção, todos deveriam, necessariamente, receber a salvação, sob pena de não ter sido um sacrifício perfeito e eficaz. Ensina que quando Jesus subiu à cruz, sabia exatamente, por decreto e não simplesmente por presciência, por quem estava morrendo e sendo oferecido em sacrifício: tão somente por aqueles que foram predestinados por Deus, para a salvação, desde a eternidade. Segundo essa visão, nenhuma gota de sangue do salvador se perdeu. Ou seja, todos pelos quais Cristo morreu serão, indubitável e necessariamente, salvos eternamente, tendo tido seus corações transformados e regenerados para quererem e depois exercerem fé salvífica no sacrifício de Cristo

Na próxima postagem estaremos abordando de forma mais detalhada esse terceiro ponto do Calvinismo, a "Expiação Limitada". Aguardem.

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