Apócrifos e Cânon no Cristianismo Primitivo

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Uma das afirmações mais repetidas pelos críticos do Cânon do NT é a afirmação de que os apócrifos, e em especial os evangelhos apócrifos, eram tão comuns e tão utilizados quanto os escritos do Novo Testamento. Helmut Koester é um bom exemplo dessa tendência. Ele lamenta o fato de que os termos “apócrifo” e “canônico” ainda sejam usados pelos estudiosos modernos, porque, segundo ele, esses termos estão relacionados a “preconceitos de longa data” contra a autenticidade dos textos apócrifos.¹ Koester, em seguida, argumenta: “Se considerarmos o período mais antigo da tradição, veremos que vários evangelhos apócrifos são tão atestados quanto aqueles que mais tarde receberam o status de canônico”.² William Petersen oferece uma abordagem semelhante quando diz que os evangelhos apócrifos eram tão populares que “estavam se multiplicando como coelhos”.³

Mas será que é realmente verdade que os evangelhos apócrifos foram tão populares e difundidos quanto os Evangelhos canônicos? Eles estavam realmente em pé de igualdade? Três conjuntos de evidência sugerem o contrário:

Manuscritos sobreviventes. Os restos físicos dos escritos podem nos dar uma indicação de suas popularidades relativas. Esses restos são capazes de dizer quais livros eram utilizados, lidos e copiados. Quando examinamos os restos físicos de textos cristãos, desde os primeiros séculos (segundo e terceiro), nós rapidamente descobrimos que os escritos do NT eram de longe os mais populares. Atualmente, temos mais de 60 manuscritos existentes (no todo ou em partes) do Novo Testamento a partir deste período, com a maioria das nossas cópias provenientes de Mateus, João, Lucas, Atos, Romanos, Hebreus, e Apocalipse. O Evangelho de João revela-se o mais popular de todos, com 18 manuscritos, alguns dos quais derivam do segundo século (por exemplo, P52, P90, P66, P75). Mateus não está muito atrás com 12 manuscritos, e alguns deles também datam do século II (por exemplo, P64-67, P77, P103, P104).

Durante o mesmo período de tempo, entre o segundo e terceiro século, possuímos cerca de 17 manuscritos de apócrifos, como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Maria, o Evangelho de Pedro, o proto-evangelho de Tiago, e outros. De todos, o Evangelho de Tomé é o que tem mais manuscritos: apenas três.

As implicações dessa disparidade numérica não foram ignoradas pelos estudiosos modernos. Larry Hurtado afirma que o baixo número de manuscritos apócrifos “não justifica qualquer noção de que estes escritos tenham sido particularmente favorecidos” e que quaisquer que fossem os círculos que os utilizavam, eles “eram provavelmente uma minoria clara entre os cristãos dos séculos II e III”.⁴ Da mesma forma , C.H. Roberts observa: “Uma vez que a evidência dos papiros está disponível, indiscutivelmente os textos gnósticos são notáveis por sua raridade.⁵ Scott Charlesworth concorda: “Se o ‘heterodoxo’ estava entre a maioria por tanto tempo, os evangelhos não-canônicos deveriam ter sido preservados em maior número no Egito.

Frequência de citação. Embora os estudiosos geralmente se concentrem em determinar se os livros apócrifos foram ou não citados, eles não prestam atenção o suficiente na frequência em que eles são citados em comparação com os escritos canônicos. Quando esses dados são considerados, a disparidade entre os escritos apócrifos e os canônicos torna-se ainda mais evidente.

Tomemos, por exemplo, Clemente de Alexandria, muitas vezes mencionado como um pai igreja primitiva que tem igual preferência quando se trata de escritos canônicos e apócrifos. No entanto, quando a freqüência das citações é considerada, essa alegação se revela infundada. Clemente prefere vastamente os livros do Novo Testamento à literatura apócrifa ou a outros escritos cristãos. JA Brooks observou que Clemente cita os livros canônicos “cerca de 16 vezes mais do que escritos apócrifos e patrísticos.”⁷ Esta disparidade é torna-se ainda maior se considerarmos apenas os quatro Evangelhos. De acordo com o trabalho de Bernard Mutschler, Clemente se refere ao Evangelho de Mateus 757 vezes, ao de Lucas 402 vezes, ao de João 331 vezes, e ao de Marcos 182 vezes.⁸ Comparativamente, Clemente cita apenas 16 vezes os evangelhos apócrifos.⁹ Aparentemente, Clemente não tinha dúvidas sobre quais livros ele considerava canônicos.

Forma de citação. Se, de fato, os escritos apócrifos eram tão valorizados quanto os escritos canônicos, esperaríamos que isso se refletisse na forma como esses livros são citados. Será que os pais da igreja primitiva citaram os  escritos apócrifos como Escritura? Raramente. Em alguns casos, parece que livros como o Pastor de Hermas ou a Epístola de Barnabé foram considerados como tendo um status de escritura. Mas esse era um ponto de vista minoritário. Quando examinamos quais livros os primeiros cristãos realmente consideravam como Escritura (e não simplesmente aqueles que os cristãos utilizavam de forma geral), então os livros canônicos são, de longe os mais populares. Isso é confirmado pelo fato de que havia um cânon “central” de livros num período próximo à metade do segundo século.

Além disso, um grande número desses escritos apócrifos foi expressamente condenado pelos primeiros cristãos. Tomemos, por exemplo, o tão discutido Evangelho de Tomé. Esse livro nunca foi mencionado em qualquer uma das listas canônica primitivas. Esse livro nunca foi encontrado em qualquer uma de nossas coleções de manuscritos do Novo Testamento. E esse livro nunca entrou como figura de destaque nas discussões canônicas, e muitas vezes foi condenado abertamente por uma variedade de pais da igreja.¹⁰ Assim, se o Evangelho de Tomé foi um relato amplamente lido e amplamente recebido, então ele deixou muito pouca evidência histórica disso.

Todo mundo adora uma boa teoria da conspiração. Certamente seria muito mais divertido se alguém pudesse mostrar que os livros apócrifos realmente eram Escrituras da Igreja Primitiva e que foram reprimidos pelas maquinações políticas da igreja posteriormente (ie, com Constantino). Mas a verdade é muito menos sensacional. Apesar de os livros apócrifos receberem algum status bíblico de vez em quando, a esmagadora maioria dos primeiros cristãos preferiram os livros que estão hoje em nosso cânon do Novo Testamento. Assim, somos lembrados mais uma vez que a igreja não “inventou” o cânon arbitrariamente no quarto ou quinto século. Pelo contrário, as afirmações posteriores da igreja simplesmente refletiram o que já era o caso de muitos e muitos anos.

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Notas:
[1] H. Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” Harvard Theological Review 73 (1980): 106.
[2] Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” 107.
[3] W. L. Petersen, “The Diatesseron and the Fourfold Gospel,” in The Earliest Gospels (ed. C. Horton; London and New York: T&T Clark International, 2004), 51.
[4] Larry Hurtado, The Earliest Christian Artifacts, 21-22.
[5] C. H. Roberts, Manuscript, Society and Belief, 52.
[6] Scott Charlesworth, “Indicators of “Catholicity” in Early Gospel Manuscripts,” in The Early Text of the New Testament (ed. C. E. Hill and M. J. Kruger; Oxford: Oxford University Press, 2013).
[7] J. A. Brooks, “Clement of Alexandria,” 48.
[8] Bernard Mutschler, Irenäus als johanneischer Theologe (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), 101.
[9]  Brooks, “Clement of Alexandria,” 44.
[10] E.g., Hippolytus, Ref. 5.7.20; Origen, Hom. Luc. 1; Eusebius, Hist. eccl. 3.25.6.

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Autor: Michael Kruger
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Erving Ximendes
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Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber (Parte 2)

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Seguindo nossa série de posts, desta vez trataremos, através de uma adaptação de um artigo produzido pelo Dr. Michael Kruger, da questão da compilação do Cânon do Novo Testamento.

Ao investigar esse assunto, os estudiosos gostam de destacar a primeira vez que encontramos uma lista completa de 27 livros. Sem nenhuma surpresa, a lista contida na famosa Carta Pascoal (367 d.C) de Atanásio é mencionada como a primeira vez que algo assim aparece na história da Igreja Cristã.

Como resultado, frequentemente ouvimos que o Novo Testamento foi um fenômeno tardio e que os cristãos não possuíam o Novo Testamento até o final do quarto século. No entanto, esse tipo de raciocínio é problemático em vários níveis. Em primeiro lugar, nós não avaliamos a existência do Novo Testamento apenas através da existência de listas. Se examinamos a maneira que certos livros foram usados pelos pais da igreja primitiva, fica evidente que existia um cânon operante muito antes do quarto século. De fato, lá pelo segundo século já existia uma coleção central de livros do Novo Testamento funcionando como Escrituras.

Em segundo lugar, existem razões para acreditar que a lista de Atanásio não é a mais antiga lista completa que possuímos. O Dr. Michael Kruger argumenta que, por volta de 250 d.C., Orígenes produziu uma lista completa contendo os 27 livros do Novo Testamento (mais de 100 anos antes de Atanásio). Em sua maneira tipicamente alegórica, Orígenes usou a história de Josué para descrever o cânon do Novo Testamento:

“Mas quando o Senhor Jesus Cristo veio – cuja chegada o filho de Num havia designado – ele enviou Seus sacerdotes, Seus apóstolos, carregando “trombetas de obra batida”, a instrução celestial e magnífica da proclamação. Primeiramente Mateus soou a trombeta sacerdotal em seu Evangelho; Marcos também; Lucas e João tocaram cada um suas trombetas sacerdotais. Até mesmo Pedro clama com trombetas em suas duas epístolas, assim como Tiago e Judas. Adicionalmente, João também soa a trombeta através de suas epístolas [e Apocalipse], e Lucas ao descrever os Atos dos Apóstolos. E por último vem aquele que disse “Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos” e que em catorze de suas epístolas, retumbando com trombetas, derruba as muralhas de Jericó e todos artifícios de idolatria e dogmas de filósofos…” (Hom. Jos. 7.1)

Como se pode ver na lista acima, todos os 27 livros do Novo Testamento são computados (Orígenes claramente identifica Hebreus como uma carta de Paulo). A única ambiguidade está numa questão de crítica textual e a citação a Apocalipse, no entanto temos grande evidência, provinda de outras fontes, de que Orígenes aceitava Apocalipse como Escritura (Eusébio, Hist. Eccl. 6.25.09).

Orígenes (185 – 253 d.C), teólogo e filósofo neoplatônico patrístico.

É claro que algumas pessoas tem rejeitado esse argumento e objetado que essa lista apenas reflete as opiniões de Rufino de Aquileia, responsável por traduzir as “Homilias sobre Josué” de Orígenes para o Latim. No entanto, essa é uma suposição questionável. O Dr. Michael Kruger, em um artigo intitulado “Origen’s List of New Testament Books in Homiliae on Josuam 7.1: A Fresh Look” argumenta que Rufino é, como tradutor, muito mais confiável do que os antigos estudiosos supunham. Além disso, a confiabilidade da lista canônica de Orígenes encontra suporte no fato de que ela se encaixa com aquilo que Orígenes diz em outras obras. Por exemplo, Orígenes enumera todos os autores do Novo Testamento em suas “Homilias sobre Gênesis
, e isso coincide com a lista dos livros do Novo Testamento dada acima:

Isaque, portanto, também cava novos poços. Ou melhor, os servos de Isaque os cavam. Esses são: Mateus, Marcos, Lucas, João. Seus servos são Pedro, Tiago, Judas; o apóstolo Paulo é seu servo. Todos esses cavam os poços do Novo Testamento (Hom. Gen. 13.2).

Pode-se ver rapidamente que a lista de autores (novamente em seu clássico estilo alegórico) coincide com a lista de livros. Apesar de Rufino também ter traduzido as Homílias sobre Gênesis, será que devemos realmente pensar que ele mudou ambas passagens precisamente da mesma maneira? Parece bem mais provável que elas combinam simplesmente pelo fato de elas refletirem as verdadeiras opiniões de Orígenes.

Nossas suspeitas são confirmadas quando comparamos as duas passagens de Orígenes com a lista de livros canônicos do próprio Rufino. Se Rufino fosse culpado de adulterar a lista de Orígenes para coincidir com a sua, seria de se esperar que encontrássemos muitas similaridades estruturais entre elas. No entanto, isso é precisamente o que não encontramos. Na verdade, a lista de Rufino difere da de Orígenes em várias maneiras.

No final das contas, temos razões históricas suficientes para aceitar a lista de Orígenes como genuína. E se esse é o caso, então temos evidência de que (a) os cristãos já estavam fazendo listas muito antes do que estávamos supondo (e portanto se importavam com quais livros ficariam “dentro” e “fora”); e (b) que as fronteiras do Novo Testamento eram, ao menos para pessoas como Orígenes, mais estáveis do que tipicamente se supõe.

Além dos ótimos pontos levantados pelo Dr. Kruger, temos outra evidência de que o Cânon de 27 livros é anterior à Carta Pascoal de Atanásio. Everett Ferguson escreve o seguinte:

“No entanto, pode-se notar que, de acordo com Agostinho, os donatistas cismáticos, que surgiram graças a conflitos resultantes de diferentes respostas ao comando de entregar as Escrituras (na perseguição diocletiana do quarto século), não possuiam Cânon diferente das igrejas católicas da África do Norte… Cresc. 1.37; cf. a definição desses em Unit. Eccles. 19:51: ‘As Escrituras Canônicas da Lei e dos Profetas as quais são adicionadas os Evangelhos, as Epístolas Apostólicas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse de João.'” (Lee McDonald e James Sanders, edd., The Canon Debate [Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2002])

Portanto, podemos concluir que o Novo Testamento não é um fenômeno tardio como os secularistas querem que seja. Orígenes não oferece sua lista como uma inovação ou como algo que poderia ser considerado como controverso. Para falar a verdade, ele menciona essa lista no contexto de um sermão de uma maneira bem natural. Ao menos para Orígenes, parece que o conteúdo do Novo Testamento já estava definido.

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Autor: Michael J. Kruger
Fonte: What is the earliest compilation of the Canon of the New Testament
Adaptação: Erving Ximendes
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Abusar das Escrituras, Abusar de Deus

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Os evangélicos cristãos baseiam suas vidas na Bíblia. Acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus e que esta, portanto, é uma autoridade para nós em questões de fé e prática. A Bíblia indica as grandes verdades de quem Deus é, como nos relacionamos com ele, como entendemos a nós mesmos e o mundo. Resumidamente, a Bíblia contém as palavras da vida. Crentes a usam para guiá-los no discernimento da vontade de Deus, do fundamental ao corriqueiro. Nós a lemos a fim de tanto obtermos esperança, quanto colhermos verdades. A Bíblia afeta nossas crenças, atitudes e comportamentos. Resumidamente, a Bíblia é a nossa conexão com os céus; sem esta, estamos à deriva, desprotegidos em uma terra hostil. 

Primeira Razão: Falta de Respeito

Um dos curiosos fenômenos da atualidade é como os cristãos têm usado a Bíblia. Ao invés de reconhecer que ela é um livro feito de sessenta e seis livros, cada um escrito para um povo específico, por uma razão específica, tendemos a arrancar versículos fora dos seus contextos, porque as palavras concordam com o que já acreditamos. Às vezes crentes dizem coisas ingênuas como: “Deus me deu um versículo hoje”. O que há de errado como isto? Duas coisas: primeiro, esta abordagem das Escrituras não honra a autoria divina das Escrituras. Deus deu o versículo há pelo menos 1.900 anos atrás. Talvez você só tenha descoberto o versículo hoje, mas ele estava lá o tempo todo. Dizer que Deus deu um versículo hoje é realmente uma afirmação existencial, como se a Bíblia não se tornasse viva até nós a lermos de um determinado jeito. Mas a revelação cessou. Está tudo lá no Livro. Esta forma de falar soa quase como se a revelação continuasse. Mas, o trabalho do Espírito hoje, decididamente não é a nível cognitivo; ele não nos está trazendo uma nova revelação. Seu trabalho em relação à Bíblia é primariamente no âmbito da convicção; ele ajuda a convencer da mensagem da Bíblia, uma vez que ela seja devidamente compreendida. Segundo, esta abordagem (i.e., o dito método “Deus me deu um versículo hoje”) das Escrituras não honra a autoria humana da Bíblia. Quando Paulo escreveu aos Gálatas, ele escreveu uma mensagem coerente, holística. Ele nunca teve a intenção de que alguém, dois milênios mais tarde, roubasse versículos do seu contexto e os utilizasse como melhor achasse! É certo que temos o direito de citar versículos, mas não temos o direito de ignorar o contexto, ou fazer com que os versículos digam o que a língua não pode dizer. Do contrário, alguém pode vir e dizer: “Judas enforcou-se”; “Vá e faça o mesmo!” Conseqüentemente, uma razão do abuso das Escrituras é a devida falta de respeito pela Bíblia como uma obra divina e humana. A abordagem acima a torna um livro de mágico de encantamento – quase que um livro de provérbios de biscoitos da sorte sem nexo!

Segunda Razão: Preguiça

Algo típico deste abuso das Escrituras é a preguiça. Isto é, a maioria das pessoas simplesmente não dão o devido trabalho de ler o contexto ou examinarem os significados bíblicos. E mesmo quando estas pessoas são confrontadas com evidências convincentes contrárias a suas posições, elas freqüentemente respondem descaradamente: “Esta é apenas a sua interpretação”. Este tipo de resposta soa como se todas as interpretações fossem arbitrárias, como se todas as interpretações fossem igualmente plausíveis. Esta visão é claramente falsa. Veja a seguinte sentença como exemplo: “Minha mãe gosta de manga”. Uma interpretação destas palavras não é tão válida quanto uma outra qualquer. Esta sentença não pode significar “Meu pai é um mecânico de automóveis”. “Mãe” não significa “Pai”; “gostar” não significa “ser”; “manga” não é um sinônimo de “mecânico de automóveis”. A língua não pode ser distorcida desta forma. Agora, sem um contexto, há contudo, duas opções distintas para a sentença em vista. Ou “Minha mãe gosta do fruto da mangueira” ou “Minha mãe gosta de vestimenta que não deixa os ombros (ou, os braços) expostos”. Qual é a opção certa? A única forma de saber é observar o contexto da afirmação, ou perguntar ao autor da sentença! Ambas opções são feitas na interpretação bíblica. Algumas vezes o contexto resolve o problema, outras vezes, quanto mais conhecermos a respeito do autor, mais capazes seremos para determinarmos o seu significado. Mas uma receita certa para perder o sentido do texto é ter muito descuidado com ele. Afinal de contas, Paulo não disse a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado”?

Terceira Razão: Desonestidade

Outra razão para distorcer as Escrituras é simplesmente a desonestidade. Pedro relembra a sua audiência de que Paulo escreveu coisas que são difíceis de compreender, as quais os instáveis e perversos distorcem para sua própria destruição (2 Pedro 3:15-16). Eu temo que esta abordagem das Escrituras represente a atitude de um número demasiadamente alto de indivíduos, e não apenas de hereges. Com freqüência, pregadores tornam-se presas da tentação: “Isto dá uma boa pregação?” ao invés de seguirem a convicção: “É verdade?” Anos atrás, eu estava trabalhando numa igreja, preparando uma mensagem para os solteiros. O pastor estava preparando um sermão para toda a congregação. Era um sábado à noite. Ele veio ao meu escritório e me perguntou como eu entendia uma certa palavra. Eu lhe disse quais as opções que eu pensava que o texto grego permitia, dando-lhe razões em favor da minha preferência particular. A resposta dele foi: “Então, você não acha que isto significa ‘X’?” Eu lhe respondia que ‘X’ não era uma das opções; o grego não poderia ser distorcido para dar tal sentido. Aí ele disse: “Que pena. Eu já preparei meu sermão, e em um dos pontos principais, eu me baseio tomando o sentido ‘X’. É tarde demais para mudar agora”. Eu fiquei chocado. Eis aí um homem que iria subir ao púlpito no dia seguinte sabendo que iria pregar algo que não era verdade! Sem dúvida, professores da Palavra não têm todas as respostas. Há muitas coisas para as quais temos perguntas no meio do nosso ensinamento. (Tenho há muito tempo defendido que, quando não sabem, uma das coisas que professores da Bíblia devem ser é exemplos de humildade. É geralmente aí, contudo, que mais se bate no púlpito!) Mas isto é bastante diferente de saber que estamos no erro e pregar o erro de qualquer jeito. Cruzar esta linha ética traz certas conseqüências. Não foi Tiago que escreveu: “não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo”?

Nem sempre podemos adivinhar as razões pelas quais algumas pessoas usam a Bíblia de tal forma que ela nunca teve a intenção de ser usada. Mas, temos a responsabilidade de ser bons administradores da Palavra. Não deve ser a nossa atitude a mesma dos Bereanos? Quando os Bereanos ouviram o evangelho que Paulo pregou, Lucas nos conta que eles eram mais nobres de mente do que os de Tessalônica, porque receberam as coisas que Paulo disse com alegria, mas também buscaram nas Escrituras para confirmar as coisas pregadas (Atos 17:11)! Devemos ouvir a Palavra sendo pregada com um ouvido crítico e um sorriso no rosto.

Nos meses que se seguem, estarei explorando alguns versículos que com freqüência têm sido distorcidos. Esses ensaios terão a intenção de ser bem abreviados. Embora seja verdade que parte de nosso propósito é corrigir alguns maus ensinamentos, esses textos seletos geralmente têm um ponto profundo, o qual precisa ser ouvido. No entanto, com freqüência não escutamos suas mensagens, porque fomos instruídos na interpretação popular por tanto tempo, que somos incapazes de reconhecer o verdadeiro significado do texto. Vamos encerrar com um exemplo. Freqüentemente em casamentos, um versículo do livro de Rute é citado: “Aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1:16 ARA). As palavras são faladas pela esposa ao seu marido. É um belo sentimento, que todo marido se alegraria em ouvir sua esposa pronunciar. Mas Rute não falou estas palavras para Boaz. Ela as falou para Noemi, sua sogra! Ler estas palavras em um casamento é distorcê-las de seu contexto. Fazer tal coisa pode até ser por uma boa causa, uma expressão de um sentimento romântico, mas ainda assim é uma distorção das Escrituras.

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Autor: Daniel Wallace
Fonte: Bible.org
Tradução: Marcelo Berti
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O verdadeiro significado de Tradição Apóstolica

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Será que o Sola Scriptura requer que acreditemos na existência de uma “tradição” (ou “regra de fé”) a qual devemos apelar para ter a interpretação correta da Bíblia? Não há dúvidas de que os escritores cristãos primitivos utilizavam esse termo, e muitos são rápidos em usar esse fato com alegria. Mas quando examinamos o seu significado, descobrimos que a maioria das referências são destinadas ou a um esboço fundamental das crenças cristãs sobre Deus e Cristo, ou a crenças sobre práticas e ritos que não eram doutrinários ou dogmáticos por natureza. Ireneu definiu “tradição” nos seguintes termos:

Todos esses declararam que existe um Deus, criador dos céus e da terra, anunciado pela lei e pelos profetas; e um Cristo, o Filho de Deus. Se alguém não concorda com essas verdades, esse alguém despreza os companheiros do Senhor; mais ainda, despreza o próprio Cristo, Senhor; sim, despreza também o Pai, e permanece auto-condenado, resistindo e opondo sua própria salvação, como é o caso de todos os hereges. (Alexander Roberts e James Donaldson, The Ante-Nicene Fathers, 1:414-415)

Obviamente, o conteúdo dessa “tradição” não é extra-bíblico: as Escrituras claramente ensinam essas coisas. Tertuliano, mais tarde, deu uma versão expandida:

Agora, no que diz respeito a esta regra de fé (para que possamos, a partir deste ponto, reconhecer o que é que defendemos), você deve saber aquilo que prescreve a crença de que existe um só Deus, e que Ele não é outro senão o Criador do mundo, que produziu todas as coisas a partir do nada por meio de Sua própria Palavra; que essa Palavra é chamada de Seu Filho, e, sob o nome de Deus, foi visto em diversas maneiras pelos patriarcas, ouvido durante todas as épocas pelos profetas, enfim levado pelo Espírito e pelo poder do Pai para a Virgem Maria, se fazendo carne em seu ventre, e, tendo nascido dela, se revelando como Jesus Cristo; daí em diante Ele pregou a nova lei e a nova promessa do reino dos céus, operou milagres; tendo sido crucificado, ressuscitou ao terceiro dia; tendo subido aos céus, Ele sentou-se à direita do Pai; enviou, ao invés de si mesmo, o poder do Espírito Santo para liderar os que crêem; virá com glória para levar os santos ao gozo da vida eterna e das promessas celestiais, e para condenar os ímpios ao fogo eterno, após a ressurreição de ambas essas classes ter acontecido, em conjunto com a restauração de sua carne. Esta regra, como será provado, foi ensinada por Cristo, e não levanta entre nós qualquer questão além daquelas que as heresias introduzem, e que fazem os homens hereges. (Tertuliano, Prescrição contra os hereges, 13)

Mas, novamente, tudo isso pode ser derivado a partir do texto inspirado e não existe como uma revelação separada das Escrituras. Se quando alguém fala de “tradição apostólica” e de “interpretar as Escrituras sob a luz da regra de fé”, tudo o que esse alguém quer dizer é que existem certas coisas inegociáveis que são fundamentais para uma compreensão adequada da Palavra de Deus e da fé cristã, dificilmente existirá alguma discussão. Tudo o que se precisa fazer para enxergar essa verdade é notar as relativamente poucas tentativas feitas pelos estudiosos mórmons para fornecer comentários exegéticos sobre os textos das Escrituras, especialmente a literatura neo-testamentária, e a impossibilidade de realizar tal tarefa sob a luz do politeísmo. Deve-se entender os esboços mais básicos da verdade cristã para investigar mais profundamente a revelação das Escrituras, e se alguém começa com erros nesse ponto, os esforços restantes serão em vão. Se isso é tudo o que alguém quer dizer por “regra de fé”, então isso é completamente compreensível.

Na verdade, poderíamos dar um passo adiante e dizer que a regra de fé representa o resumo da doutrina apostólica que existiu até mesmo durante a época em que os documentos do Novo Testamento estavam sendo escritos. Essa regra de fé coincide com o texto pela razão óbvia de que os apóstolos foram os autores de ambos, apesar de termos que notar que seus testemunhos registrados nas Escrituras são mais claros (e mais específicos) que a regra de fé. É eminentemente lógico assumir que a medida em que o Novo Testamento estava sendo escrito, um resumo da verdade cristã já era conhecido e já circulava entre as igrejas; no entanto, é aqui que vemos novamente a sabedoria de Deus nos meios que Ele usa para conceder as Escrituras. Em contraste com a confiança e a verificabilidade dos manuscritos bíblicos escritos, a transmissão oral da tradição é inerentemente sujeita à corrupção (e essa acontece muito rápido).

Em particular, um exemplo impressionante disso é fornecido naquilo que pode muito bem ser a primeira instância documentada de um escritor cristão, especificamente afirmando ter informação proveniente não das Escrituras, mas via “tradição” oral dos apóstolos. Quando Ireneu procurava refutar os argumentos gnósticos do segundo século, ele fez uma referência a um elemento particular de um de seus (dos gnósticos) argumentos, e, sendo bem franco, ele se perdeu por completo. O argumento dos gnósticos era irrelevante, e sua resposta foi errante; ao tentar refutá-los, Ireneu postulou que Jesus tinha mais de cinquenta anos quando Ele morreu no Calvário; ele também afirmou que como Cristo veio salvar tanto bebês quanto crianças, jovens, adultos e velhos, então Ele também tinha que passar por todos esses estágios da vida. Como Ireneu pode demonstrar que Jesus tinha essa idade ao morrer na cruz? Insistindo que ele havia sido informado disso por aqueles que conheciam os apóstolos:

Todos estão de acordo que trinta anos é a idade de homem ainda jovem, idade que se estende até aos quarenta; dos quarenta aos cinqüenta declina na senilidade. Era nesta idade que nosso Senhor ensinava, como o atesta o Evangelho e todos os presbíteros da Ásia que se reuniram em volta de João, o discípulo do Senhor, que ficou com eles até os tempos de Trajano, afirmam que João lhes transmitiu esta tradição. Alguns destes presbíteros que viram não somente João, mas também outros apóstolos e os ouviram dizer as mesmas coisas, testemunham isso tudo. Em quero mais devemos acreditar: nestes presbíteros ou em Ptolomeu, que nunca viu os apóstolos e sequer em sonhos seguiu algum deles? (Ireneu, Contra Heresias, 2:22:5)

Note o que Ireneu afirma, pois a história da igreja está cheia desse tipo de erro. Não existe razão textual alguma para acreditar que Jesus tinha mais de cinquenta anos de idade, ainda assim Ireneu afirma “o Evangelho” como parte dos fundamentos de sua compreensão. Ele rapidamente põe mais peso ao dizer “e todos os anciãos”. Ele apoia essa afirmação ao insistir que “todos os presbíteros da Ásia que se reuniram em volta de João, o discípulo do Senhor,” transmitiram essa informação, mas como isso não parecia ser o suficiente, ele expande a alegação até João, de forma que esse conceito da idade Jesus seja creditado como vindo “também dos outros apóstolos. Ireneu escreveu dentro de um século depois da morte de João, ainda assim será que hoje alguém acredita que não apenas João mas o resto dos apóstolos ensinaram a seus seguidores que Jesus estava em Sua sexta década de vida quando Ele morreu? Ninguém acredita nos argumentos de Ireneu, pois eles não são fundamentados textualmente; no entanto, não acreditar nisso significa ou que Ireneu estava mentindo quando escreveu essas palavras ou que a “tradição oral” pode ser corrompida muito rapidamente.

Duas lições podem ser aprendidas com Ireneu nesse ponto.

Primeiro, em referência à ideia de que existe uma “regra de fé” originada nos apóstolos, as únicas bases possíveis para aceitar tal conceito seria primeiro vê-lo como meramente um resumo dos ensinamentos apostólicos, e nós obteríamos esse resumo através de todo o espectro dos escritos cristãos primitivos, não de uma fonte em particular. Isso é basicamente o que observamos; os exemplos mais antigos são bem básicos, breves, e com o tempo vão se expandindo. Obviamente, essas expansões estão sujeitas a suspeita, mas também vemos uma preocupação que essa regra de fé vem de todo o espectro das igrejas antigas, não apenas de uma única igreja ou de um único grupo de igrejas. Quanto mais amplo o testemunho, mais sólida é a fundação sobre a qual a regra de fé está.

Segundo, parece impossível evitar a conclusão de que se uma suposta tradição apostólica pode ser corrompida em menos de um século, como podemos levar a sério as afirmações de Roma de que seus dogmas marianos, e em particular crenças como a Imaculada Conceição e Assunção Corporal (crenças que por séculos sequer foram mencionadas em suas formas modernas na história de igreja e que não foram definidas dogmaticamente até poucos anos atrás) são realmente apostólicas em sua origem e forma? Certamente, para alguém ter qualquer base significativa para chamá-las de “apostólicas”, esse alguém deve ver esses dogmas como revelação divina de mesma categoria das Escrituras.

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Autor: James R. White
Fonte: Scripture Alone: Exploring the Bible's Accuracy, Authority and Authenticity. Paperback – October 1, 2004.
Tradução: Erving Ximendes
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O real sentido de 2 Pedro 1:20-21

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Antes de Pedro iniciar sua longa dissertação acerca dos falsos profetas, ele estabelece as bases da natureza divina da Palavra de Deus:

Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:20,21, Almeida Corrigida e Fiel)

Muitos erroneamente interpretam essa tradução literal como se o foco estivesse sobre a interpretação de um indivíduo ao invés de estar sobre a origem e natureza das profecias em si. […] Pedro não está falando sobre como as pessoas interpretam as palavras de profecia mas sobre a certeza das próprias Escrituras. A NVI apresenta isso de maneira mais clara:

Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:20,21, NVI)

Nessa tradução, a relação entre “interpretação” e o resto do verso é percebida mais rapidamente. […] Pedro continua a falar acerca de como as Escrituras vieram a existir (não como elas são interpretadas), logo o sentido de “interpretação pessoal” é decifrado nas palavras que se seguem: “As Escrituras não são as opiniões dos profetas mas as palavras do próprio Deus”. A ênfase de Pedro está em negar a origem humana da palavra profética, pois ele continua a dizer “pois jamais a profecia teve origem na vontade humana. Os homens não acordaram em uma manhã e pensaram: “Acho que hoje vou escrever um pouco de Escrituras”. A constantemente repetida frase: “A palavra do Senhor veio até mim, dizendo” argumenta a favor dessa verdade, pois com essas palavras o profeta está reconhecendo que as palavras do Senhor não vieram de dentro (do homem) mas de fora. Em sua origem primária, a Escritura não é da Terra mas do Céu.

Em contraste ao conceito de Escrituras humanamente originadas, Pedro afirma que os homens falaram por Deus como se, literalmente, tivessem sido “carregados” pelo Espírito Santo. Isso contradiz o que foi dito? Não. Os homens, de fato, falaram. As Escrituras estão em linguagem humana. As Escrituras tiveram autores humanos e eles não eram apenas máquinas de ditado. Eles falavam em suas próprias línguas, a partir de seus contextos, inseridos em suas culturas,  mas o que eles falaram, eles falaram por Deus e apenas na medida em que eles eram “carregados” (ou movidos) pelo Espírito Santo. Aqui está o misterioso (e ainda assim maravilhoso) contato entre o humano e o divino na origem das Escrituras: Enquanto os homens estão falando, eles estão fazendo isso sob o poder e direção do Espírito, para que o resultado desse milagre seja, como Paulo colocou, “respirada por Deus”. Não são os homens em si que são “inspirados” mas as Escrituras, o resultado dessa iniciativa divina de revelação.

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Autor: James R. White
Fonte: Scripture Alone: Exploring the Bible's Accuracy, Authority and Authenticity
Tradução: Erving Ximendes
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Como provar que a Bíblia é um livro inspirado por Deus?

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Nesta edição do programa Em Poucas Palavras o Rev. Augustus Nicodemus Lopes explica como provar que a Bíblia é um livro inspirado por Deus. Escute:



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Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: Em Poucas Palavras
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O difícil caminho em busca de uma melhor tradução das Escrituras

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Por Carlos Osvaldo Pinto (Ph.D)


"Este breve histórico serve como introdução para uma tarefa apologética em favor de uma versão recente das Escrituras em nossa língua" (a NVI).

A Bíblia é um livro singular. Dentre todos os livros jamais produzidos na história da literatura humana nenhum outro foi tão traduzido, publicado, comprado e lido. Acima de todas essas peculiaridades, uma me chama a atenção. Em ambas as partes que a compõem, o Antigo Testamento e o Novo Testamento, a Bíblia começou a ser traduzida antes de estar formalmente reconhecida como um único livro.

Quando Esdras e seus companheiros levitas se dispuseram a educar o povo de Judá quanto aos aspectos essenciais da lei mosaica (Neemias 8), foi necessário traduzir os textos sagrados do hebraico para o aramaico, já que a população que retornara a Jerusalém cerca de 90 anos antes já não entendia plenamente a língua em que os livros tinham sido escritos (uma diferença próxima daquela que existe entre o português e o espanhol).

Assim é que o Cânon do Antigo Testamento ainda não estava fechado (os últimos livros ainda estavam por escrever), e já havia esforços para tornar as Escrituras mais compreensíveis ao seu público alvo.

Pouco tempo (cerca de 150 anos) depois de fechado o cânon, a formação de uma grande e cosmopolita colônia judaica em Alexandria levou os governantes do Egito a solicitarem para a grande biblioteca que ali se formava uma tradução das Escrituras hebraicas. Embora a tradição preservada na Carta de Aristeas aponte para uma tradução milagrosamente realizada em 72 dias por setenta e dois anciãos israelitas, a versão grega do Antigo Testamento foi produzida gradativamente, visando atender, ao mesmo tempo, a sede acadêmica de um monarca helenista e a demanda de uma comunidade para quem até mesmo o aramaico se tornara, na prática, incompreensível.

Ao tempo do Novo Testamento, o mesmo fenômeno aconteceu. Já escritos todos os livros, mas ainda não formalmente reconhecidos como uma biblioteca autorizada por Deus para uso da Igreja, porções significativas já estavam sendo traduzidas para diversas línguas do mundo mediterrâneo. Antes que a primeira lista canônica completa fosse divulgada, o Novo Testamento já tinha livros traduzidos para o latim, o siríaco e o copta. Nos dois séculos seguintes, dezenas de outras línguas e culturas foram enriquecidas com versões parciais ou totais do Novo Testamento. No século V uma nova versão latina, a Vulgata, surgiu para substituir a Ítala, que já tinha três séculos de existência no mundo romano.[1]

A Vulgata dominou o cristianismo ocidental por quase onze séculos. Tristemente, durante esse tempo, passou de um instrumento de libertação a uma ferramenta de escravidão espiritual e intelectual que o romanismo impôs à Europa e exportou aos demais continentes com o advento das grandes navegações e das conquistas.

Nos cento e cinqüenta anos que precederam a Reforma protestante os focos de anseio espiritual surgiram aqui e ali no continente europeu. Notáveis foram John Wycliffe, que lutou para dar ao povo inglês as Escrituras em sua língua pátria e morreu banido de suas lides acadêmicas e teológicas em Oxford. Seus seguidores, conhecidos como lolardos, continuaram sua tarefa de divulgar e ensinar a Bíblia no idioma popular.

A Reforma e o decorrente despertar do nacionalismo no século XVI trouxeram uma sede pela Palavra de Deus no vernáculo, e os reformadores não decepcionaram os que os seguiam. Versões vernaculares foram surgindo em inglês (William Tyndale), alemão (Martin Luther), francês (Pierre Olivetan), holandês (Nicolaas van Winghe, católico), italiano (Giovani Diodati), espanhol (Cassiodoro de Reyna) ao longo do século XVI e nos primeiros anos do século XVII. Quando este terminava, surgiu a primeira Bíblia completa em português, fruto dos labores do honrado João Ferreira de Almeida.

A tarefa continuou sem trégua. Milhares de idiomas ainda precisavam ser agraciados com a dádiva das Escrituras. Tradutores anônimos labutavam em vários continentes quando William Carey, o pai das missões modernas, iniciou sua gigantesca tarefa de levar a Palavra de Deus às etnias do subcontinente indiano. Ao morrer, havia traduzido as Escrituras em sua totalidade ou em partes para dezenas de idiomas e dialetos. Sua visão frutificou em um vasto número de Sociedades Bíblicas espalhadas por três continentes que tomaram sobre si a tarefa de traduzir e distribuir as Escrituras por todo o planeta. A tarefa continua, não apenas porque ainda há línguas que nada possuem da Palavra de Deus, mas porque aquelas que já a possuíam passam por constantes modificações, léxicas, sintáticas e semânticas, exigindo que hoje seja satisfeito o mesmo anseio presente na Praça das Águas em Jerusalém, 430 anos antes de Cristo -- ouvir e compreender claramente a santa Palavra de Deus.

Este breve histórico serve como introdução para uma tarefa apologética em favor de uma versão recente das Escrituras em nossa língua. A década de 90 viu surgir, desenvolver-se e fruir um projeto de dar ao povo de fala portuguesa uma versão da Bíblia que combinasse fidelidade aos originais, atualidade de vocabulário e gramática sem vulgaridade ou ideologismos, e facilidade de leitura. A história desse projeto foi brevemente narrada pelo Rev. Odayr Olivetti, um dos participantes do projeto, no artigo "Nova Versão Internacional da Bíblia em Português: Escorço Informativo," VOX SCRIPTURAE 3:2 (Setembro de 1993):215-226. Ao final, ele indica a expectativa de todos os participantes do projeto "de que a Nova Versão Internacional será um instrumento do Espírito de Deus para comunicar bênçãos a muitos."

Hoje, quase sete anos depois de lançado o Novo Testamento da NVI, o Antigo Testamento está sendo preparado (em fase de composição) para lançamento em breve. Igrejas, escolas e indivíduos vêm usando com proveito essa nova versão. Num mercado longe de ser saturado, a NVI se estabeleceu como uma opção significativa para quem deseja ouvir a voz de Deus na sua leitura pessoal das Escrituras.

Apesar desse sucesso, a NVI não ficou sem os seus críticos. Recentemente, dois ataques bastante sérios foram divulgados, visando o Novo Testamento publicado pela Sociedade Bíblica Internacional. Um deles foi publicado no Jornal de Apoio 63, pp. 6-7, num artigo de autoria do Prof. Donald L. Leaf. O segundo surgiu na Internet, e traz como divulgador o Pr. Emídio Viana. Em ambos os casos, fui alertado para a existência desses ataques por amigos evangélicos que utilizam a NVI-NT e ficaram preocupados com o tom e a natureza das acusações. Em benefício desses irmãos preparei respostas aos dois documentos; pelo caráter mais amplo do segundo ataque, restrinjo a ele as respostas aqui oferecidas. A natureza global do segundo documento, amplamente circulado pela Internet, demandava algo mais que uma resposta particular. A pedido da Sociedade Bíblica Internacional compartilho com o povo evangélico brasileiro estas observações com o propósito de tornar esse debate mais amplo, mais sereno, e mais proveitoso para a Igreja de fala portuguesa, para que possa ler com expectativa e confiança a Palavra de Deus.

Expondo Os Erros Da NVI – Uma Resposta

Os dois artigos que mencionei acima são bastante agressivos e denunciam a NVI como um instrumento de Satanás para perverter a Igreja e destruir a Bíblia.

Há um lado negativo e um lado positivo em tais documentos. Do lado negativo, seus autores acusam abertamente os tradutores da NVI de negarem a inerrância das Escrituras, de buscarem dividir, polarizar e causar contenda entre o povo de Deus, de vilipendiarem a Palavra de Deus e mutilarem o texto sagrado.

São acusações graves que merecem ser respondidas com um pouco mais de critério e conhecimento de causa do que foi demonstrado por esses autores. Do lado positivo, algumas das críticas lançadas nesses documentos têm base textual e precisam ser honestamente consideradas pelo Comitê de Revisão da NVI, que já está procedendo a algumas mudanças no texto do Novo Testamento, resultado de questionamentos e críticas francas enviados à Sociedade Bíblica Internacional.

Aqui me proponho a responder os dois tipos de críticas lançadas pelo Pastor Emídio Viana e pelo Prof. Donald Leaf, com o propósito de refutar afirmações desinformadas por ele feitas, avaliar algumas alegações sobre a teoria textual da NVI, e considerar, tanto em linhas gerais quanto em pontos específicos, suas críticas à NVI.

Correndo o riso de uma simplificação excessiva, o que se segue é um debate sobre versões em português e o texto grego em que elas se baseiam. Se este artigo servir para motivar o leitor ao estudo sério das Escrituras e um compromisso com o seu Autor, o mais importante terá sido alcançado.

A NVI Como Um Ataque às Escrituras

O primeiro parágrafo do texto EXPONDO OS ERROS DA NVI (doravante E.E.) abertamente acusa a NVI de ser um dos instrumentos de Satanás para "enfraquecer doutrinas cardeais" da Bíblia. Infere-se de tal afirmação, portanto, que teria sido produzida por pessoas comprometidas com tal agenda.

Essa afirmação velada é fruto do desconhecimento pelo autor de E.E. do fato de que cada um dos membros do Comitê de Tradução (doravante CT) ter sido selecionado por afirmar a doutrina da inerrância das Escrituras. O profundo respeito pela Palavra de Deus sempre marcou o trabalho do CT, no qual imperavam uma ética profundamente cristã e total repúdio a propostas de produzir uma Bíblia que contivesse os apócrifos (por mais comercialmente atraente que isso fosse), ou seguir o exemplo na New International Version britânica, que adotou uma linguagem genericamente neutra (desmasculinizando a Bíblia, atendendo aos ditames do feminismo protestante).

Em segundo lugar, o autor de E.E. dá a entender que a NVI utilizou acriticamente o chamado Texto Crítico (doravante TC) com o propósito de "enfraquecer diversas doutrinas como: divindade de Cristo, expiação por Cristo, morte vicária, etc.". Tal alegação é decididamente falsa e novamente feita sem a devida consulta às pessoas envolvidas. O CT se compunha de pessoas que unanimemente afirmavam a inspiração, a inerrância e a infalibilidade dos escritos originais, mas que sim, diferiam em suas predileções quanto ao texto a ser utilizado como base da tradução, que utilizou as línguas originais como fonte e o texto da NIV americana como parâmetro (não como base ou fonte).

Como todo comitê, o CT operava em termos de votação e quando questões textuais se nos apresentavam, eram resolvidas por um sistema de voto. Os membros do CT cuja preferência era pelo Texto Majoritário (TMaj) aceitaram o sistema sabendo das implicações de serem minoria. Fizeram-no, todavia, na certeza de que são parte de uma busca sincera por uma versão mais fiel aos originais e mais acessível ao nível de leitura de nossa população do que as atualmente em uso.

Em honestidade para com o CT e a NVI, o autor de E.E. deveria reconhecer que foram eliminados os tristemente famosos colchetes em passagens-símbolo do TC, como Marcos 16.9-20 e João 7.53-8.11. Tal porém, não aconteceu; antes a ironia e a culpa por associação continuaram. Deveria reconhecer ainda que foram evitados comentários do tipo "os melhores manuscritos" e "os manuscritos mais antigos," que são típicos dos defensores do TC e de obras contemporâneas sobre crítica textual, e cuja exclusão das notas de rodapé da NVI foi votada num grupo onde os partidários do Tmaj eram minoria. Isso testemunha que não houve uma adoção automática do TC.

Além do mais, o autor do E.E. usa o expediente desleal de impingir à NVI brasileira o prefácio da NIV americana, que definitivamente adotou o TC (seria mais correto falar de "um TC") e uma abordagem eclética. Conquanto o CT da NVI tenha usado uma abordagem eclética nas passagens onde foi chamado a fazer decisões de crítica textual, esse ecletismo concedeu ao TMaj muito mais prestígio que qualquer das outras modernas traduções (não meras adaptações de antigas versões) brasileiras. De passagem, o mesmo se pode dizer para o Antigo Testamento, onde o Texto Massorético foi levado extremamente a sério como base para a NVI.

Exacerbando seu ataque, E.E. diz que a presença de notas de rodapé (que a NVI utiliza com muita economia em relação à NIV) é "um ataque frontal à doutrina da preservação." Talvez o autor de E.E. considere que somente acreditam na doutrina da preservação aqueles que neguem a existência de variações textuais, ou que acreditem que "Deus preservou sua Palavra através do Textus Receptus," frase com que encerra seu libelo. De igual modo, sugere que a adoção da filosofia de equivalência dinâmica para uma tradução signifique negar a preservação das Escrituras. Trata-se claramente de misturar bananas e laranjas. Qualquer pessoa que já tenha de alguma forma lidado com exegese e tradução das Escrituras (ou qualquer outro tipo de literatura) sabe que é impossível existir plena equivalência verbal (correspondência unívoca) ao passar um texto de uma língua para outra. Mas, aparentemente, é isso que sugere o texto de E.E.

Mais ainda, nesse detalhe da equivalência dinâmica. Usando da edição do NT NVI de 1994, o pastor Emídio utiliza parte dos "elogios" em sua crítica. Vale a pena expor o erro que essa crítica representa. A citação feita em E.E. veio da pena do Pastor Antônio Gilberto, que por um lapso de memória fez tal afirmação; não lembrou ele que o CT da NVI estava expressamente proibido de utilizar equivalência dinâmica, e expressamente instruído a usar equivalência formal. Infelizmente, por falta de conhecimento desse detalhe pelo então editor, a capa da primeira edição trazia essa inexatidão, e só foi apresentada ao CT quando os livros (50.000) já estavam prontos e começavam a ser vendidos. Assim, a recomendação do Pr. Gilberto acabou ferindo os próprios princípios sob os quais o CT sempre trabalhara.

A Teoria Textual do Autor de E.E.

Fica evidente, pelo uso que faz da nomenclatura, que o autor de E.E tem certa familiaridade com as diversas teorias de crítica textual. Sua opção pelo TR é perfeitamente aceitável, mas obviamente beira as raias do fanatismo religioso quando ele afirma que "o TR foi organizado por Erasmo em 1516, representando a maioria esmagadora dos manuscritos." Embora o TR seja muito semelhante ao texto encontrado na maioria dos manuscritos (não idêntico), o que Erasmo utilizou não foi um texto majoritário, pois dependia basicamente de meia dúzia de manuscritos datados todos de depois do século XII. O manuscrito que Erasmo usou para o livro de Apocalipse, tomado de empréstimo ao erudito humanista Johann Reuchlin, não continha Apocalipse 22:16-21, que Erasmo retroverteu do latim para o grego!

Talvez o autor de E.E. acredite que a inspiração das Escrituras se estenda também à tradução que Erasmo fez dessa porção de Apocalipse. Afinal, ele afirma que "Deus preservou sua Palavra através do Textus Receptus."

Infelizmente para o autor de E.E. o próprio Erasmo revela uma predileção por manuscritos mais antigos, pois afirmou ter usado vetustissimis simul et emendatissimis ("os manuscritos mais antigos e mais corretos"). Conquanto isso não seja uma garantia de que "quanto mais velho melhor," revela que mesmo o editor do TR tinha a preocupação de buscar os textos mais fidedignos. O fato de ter introduzido variantes em sua primeira edição sugere que deve tê-los encontrado. Isso levanta a pergunta: "Qual das edições de Erasmo deveria ter sido tomada como base para o TR?"

A edição do TR lançada pela Sociedade Bíblica Trinitariana (s.d., creio que em 1985) admite que usou como base o texto de Robert Estienne (1550) conforme editado por Teodore Beza em 1598. Essa obra, no entanto, só veio a ser conhecida como Textus Receptus cerca de 35 anos depois, quando foi editada em Leiden, na Holanda pelos irmãos Elzevir (segunda edição, 1633), na qual os próprios editores admitem ter feito correções, e a respeito do qual disseram: Textum ergo habes nunc ab omnibus receptum, in quo nihil immutatum aut corruptum damus ("Tens, portanto, o texto agora recebido por todos, no qual nada oferecemos de alterado ou corrupto.") Assim, curiosamente, o chamado Texto Recebido utilizado pelos tradutores da Versão Autorizada inglesa (1611) não foi exatamente o Textus Receptus, designação que só foi dada a uma edição que veio 13 anos depois da publicação da VA (ou KJV). Embora as diferenças entre as edições de 1550 (Estienne) e a de 1624 (Elzevir) sejam pouco numerosas, elas existem e a pergunta permanece: "Qual TR é o verdadeiro TR?"

Seria o texto da quinta edição de Erasmo? Esse texto foi editado por ele com diversas leituras da Poliglota Complutensiana (obra católico-romana), inclusive a famosa Comma Johanneum (1 João 5.7-8), e depois editado por Beza, que confessa, ele próprio, ter dúvidas quanto à autenticidade de João 8:1-12. Temos assim, uma situação confusa quanto ao que seria o texto que supostamente preservou os originais do NT. Será que Beza fazia parte desse sinistro complô para minar a confiança do povo de Deus nas Escrituras?

Será que o autor de E.E. se sente à vontade em companhia de tais parceiros? Ou será que a primeira edição de Erasmo é a que vale? Mas infelizmente ela não continha 1 João 5:7-8 e tinha um pedaço retrovertido do latim (Ap 22:16-21). Que fazer?

O autor de E.E. sugere que pastores, líderes e membros das igrejas devem se aprofundar mais no assunto de crítica textual. Como é que vai explicar essa grande confusão na origem do texto que supostamente contém o original do NT? E o que dizer do fato que o seu compilador (e vários de seus colaboradores) jamais ter evidenciado fé salvadora em Jesus Cristo, único mediador entre Deus e os homens? De ter repudiado a Reforma protestante? Teria Deus usado tal instrumento para a preservação de Sua Palavra?

Não seria mais lógico trabalhar com uma outra hipótese, menos radical? Ou seja, que o valor do TR está em preservar uma tradição antiquíssima e bem documentada que se acha expressa na maioria dos manuscritos (à qual Erasmo e seus sucessores imediatos jamais tiveram acesso) e que essa tradição precisa ser confrontada com outros tipos-textuais para que se prove a sua superioridade? Essa parece ser a abordagem do livro de Wilbur N. Pickering (The Identity of the New Testament Text) que ele menciona no final de seu documento, e cuja eventual tradução para o português será uma felicíssima adição à literatura existente sobre crítica textual.

Depois de levantados esses problemas na abordagem textual do autor de E.E., podemos analisar mais detalhadamente algumas de suas observações quanto às escolhas textuais de NVI. Vale a pena dizer, a princípio, que várias delas são pertinentes aos olhos de quem opta por um Texto Majoritário (ainda que não optando pelo TR). Na verdade, despertaram neste revisor o desejo de que se produzisse um Novo Testamento NVI com base no Tmaj. Tal sugestão já foi encaminhada à SBI na pessoa de seu secretário executivo. É de se esperar que o autor de E.E. e seu consultor técnico tenham interesse em tal proposta pois não estão "defendendo as traduções, mas sim os textos que foram usados para essas versões."

Problemas Textuais Específicos

O tratamento destas questões é complicado pela infeliz pressuposição do autor de E.E. de que as escolhas textuais da NVI tenham sido motivadas pelo desejo de destruir doutrinas fundamentais do cristianismo bíblico. É impossível argumentar contra pressuposições dessa natureza. Podemos apenas reafirmar nossa fidelidade a todas as doutrinas que o autor de E.E. nos acusa de atacar. É necessário, no entanto, tomar algumas passagens por ele citadas como representativas do procedimento em ambos os lados do debate.

Marcos 9:24. Embora apenas mencionada pelo autor de E.E. como um ataque à divindade de Jesus, esta passagem é um exemplo típico de seu raciocínio. Aqui a NVI omitiu a palavra grega (senhor), o que o autor de E.E. classificou como negação da divindade de Cristo.

Textualmente é um caso de diferença entre o TMaj e o TC.

A NVI seguiu o TC, omitindo a palavra. Legitimamente, o máximo de que o autor de E.E. poderia acusar o CT é de uma escolha textual ruim. Além de pressupor nossa predisposição ariana, comete o erro exegético de impor ao pai do endemoninhado (pois foi ele que usou a expressão ) uma concepção de Cristo que apenas os discípulos tinham, e até então de modo incipiente, percebido. Sem impormos nossa própria leitura do NT à passagem, Marcos 9:24 apresenta um homem que trata Jesus como "mestre," no sentido de um rabi, e "senhor" em virtude da autoridade que sua posição como rabi lhe conferia. Omitir a palavra "senhor" (lembremo-nos de que no original não havia diferença entre "Senhor" e "senhor"), portanto, não é um ataque à doutrina da divindade de Cristo.

Atos 8:37. Esta passagem é alistada como um ataque à divindade de Cristo e à doutrina da salvação, com base na frase "creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus," supostamente proferida pelo etíope. Nesta passagem, o autor de E.E. opta pela leitura do TR contra a leitura to TMaj e do TC. A evidência em favor da frase (com cujo conteúdo claramente concordamos) é realmente muito frágil (o manuscrito E, 8 minúsculos, alguns manuscritos da Ítala e da Vulgata e versões; entre os chamados pais da Igreja, Irineu e Agostinho). Mesmo que se possa atribuir alguma antiguidade à leitura, ela fica claramente rejeitada (pelos cânones propostos por Burgon e defendidos por Pickering). Talvez por isso, Hodges e Farstad, editores do The Greek New Testament According to the Majority Text e defensores do TR (em oposição ao TC), optaram por omitir essa passagem e colocá-la apenas no aparato crítico. Talvez o autor de E.E. queira classificá-los também como hereges e destruidores da doutrina da divindade.

1 Timóteo 3:16. Esta passagem também é alistada entre os ataques à divindade de Jesus Cristo. Não tendo do que acusar o texto da NVI, que optou por seguir o TMaj (indo contra a NIV, atenuando a tradicional NR de outras versões modernas, e não usando a infeliz frase "os melhores manuscritos"), o autor de E.E. acusa a NVI de por em dúvida a própria escolha. Até quando confrontado com uma situação de escolha textual comum, enfatiza a NR. Quando o reverso acontece, todavia não reconhece que a NVI informa o leitor de alternativas textuais conservadoras.

1 João 4:3. Nesta passagem o autor de E.E. acusa a NVI de "aqui2 agrada[r] as falsas religiões, pois anula[m] que Cristo veio em carne." A presença do número 2 é explicada no final do documento como algo que não ocorre em toda a NVI. A impressão que fica ao leitor é de uma deliberada omissão da encarnação de Jesus. O que o autor de E.E. não menciona é que no versículo anterior, 1 João 4:2, a mesma frase está presente, e que qualquer leitor poderia verificar a realidade da encarnação lendo a linha superior do texto. (Talvez além de mal-intencionados os tradutores da NVI tenham sido incompetentes por não perceberem que também precisariam extirpar, na frase imediatamente anterior a frase omitida no verso 3.) O autor de E.E. tem todo o direito de questionar a escolha textual de que talvez tenha ocorrido parablepse (um erro de visão do copista) quer homoioteleuton, quer homoioarchon, no processo de cópia do TMaj, ou até sugerir que houve uma omissão deliberada nos manuscritos egípcios desta passagem, que deram origem ao TC, mas extrapolou ao deduzir (presumir) que diferença entre o TR e a NVI tenha sido motivada por preferências heréticas.

Colossenses 1:14. Este texto está alistado como um ataque à expiação por Cristo e só pelo seu sangue. Em Colossenses 1.14, o TMaj está um pouco dividido, com maior parte inclinada para a omissão das palavras ("por meio do seu sangue"). Uma vez mais, Hodges e Farstad optam por seguir o TC (Será que secretamente são do time dos liberais?). A acusação feita pelo autor de E.E. uma vez mais só teria sentido se a NVI e o TMaj tivessem retirado "pelo seu sangue" de Efésios 1.7, a passagem paralela (de onde provavelmente veio a adição no TR e traduções dele dependentes).

Atos 9:5-6. Outro dos supostos ataques à divindade de Cristo, esta opção textual do autor de E.E. é rejeitada pelo TMaj e pelo TC. A origem mais provável desta frase no TR é a passagem paralela em At 26:14. A omissão da palavra (uma legítima diferença textual entre o TC e o TMaj) na primeira frase do verso 6 é claramente mitigada pela sua presença nos versos 5 e 10. Uma vez mais, a ênfase dada pelo autor de E.E. me parece injustificada.

1 Pedro 2:2. Novamente o autor de E.E. usa a tática da culpa por associação para relegar a NVI ao rol dos hereges.

A inclusão da expressão grega ("para a salvação" ou "na salvação") é atribuída à crença de que "a salvação vem por um processo gradual de crescimento." Temos aqui um caso em que a tradição textual bizantina (TMaj) apresenta divisão. A leitura da NVI é apoiada por alguns dos principais manuscritos dessa tradição. Exceto pela sua escolha prévia do TR como representativo do original inspirado, o autor de E.E. deveria pelo menos considerar a possibilidade de que Pedro estivesse usando o mesmo tipo de proposta teológica que Paulo usou em Filipenses 2:13, ou seja, que há um crescimento na experiência e no desfrute da salvação. Que se questione a correção da tradução (que me parece pode ser melhorada nos termos sugeridos acima) e até a escolha textual (que me parece um caso aberto), mas não se impinja tal acusação de heresia a um grupo comprometido com a salvação pela graça por meio da fé e nada mais.

2 Tessalonicenses 2:8. Esta passagem está alistada como umas das "gravíssimas contradições." A NVI é acusada de contradizer Apocalipse 19:20 ao traduzir aqui o verbo grego ou por "matará". Ora, esse verbo indica "consumir" ou "destruir" em Lucas 9:54 (idéia de consumir com fogo) e em Gálatas 5:15 (sentido figurativo). Assim sendo, especialmente em vista de Lc 9:54, a tradução da NVI é aceitável e não configura contradição. Como explicar a tradução "desfará" da Almeida Fiel? O problema postulado em Ap 19:20 é facilmente respondido pelo fato de o anticristo e o falso profeta serem lançados no lago de fogo já dotados do tipo de vida (=existência) que lhes permita sofrer, sem serem consumidos ou aniquilados (o que aconteceria se fossem lançados em corpos naturais num lago de fogo literal, que, presumo, seja a crença do autor de E.E.) a eterna pena de sua rebeldia contra Jesus Cristo.

1 João 5:7-8. Esta controvertida passagem foi alistada como um ataque da NVI contra a doutrina da Trindade. O autor de E.E. compara a NVI à bíblia dos Testemunhas de Jeová, utilizando mais uma vez o golpe baixo da culpa por associação. Será que gostaríamos de basear nossa crença da doutrina da Trindade numa passagem que não constava da primeira edição do TR (1516, que o autor de E.E. declara reconhecer como o seu TR, p. 1 do documento) porque Erasmo não a encontrara em nenhum manuscrito grego disponível? A adição da Comma Johanneum em edições posteriores se deveu a protestos iniciados pelos católicos romanos que produziram a Poliglota Complutensiana que, dominada pela Vulgata, incluíra o texto. Essa derivação recente se pode ver na terceira edição do texto de Erasmo, onde a ausência dos artigos definidos () denuncia um original latino (o latim não possui artigo definido). Como a Complutensiana incorporava os artigos, edições subsequentes do texto de Erasmo vieram a incluí-los.

O autor de E.E. menciona um livro escrito em defesa da Comma, mas não aduz quaisquer argumentos em seu favor. Não tenho acesso ao referido livro, e portanto não posso emitir opiniões sobre a validade de seus argumentos.

Ele afirma ainda que "o rodapé da NVI tem duas grandes inverdades." Quais seriam elas? O aparato crítico do Greek New Testament da United Bible Society (26ª edição de Nestle) indica que a Comma aparece em vgmss, o que indica que a afirmação da NR da NVI é correta. O aparato indica ainda que os manuscritos gregos que contém a Comma são os seguintes: 221, 2318 (61, 88, 429, 629, 636 918 também são alistados como contendo pequenas variações), mas nenhum desses é alistado ou datado nas várias listas de informação sobre manuscritos disponíveis. I. Howard Marshall, em seu comentário sobre as epístolas de João, embora apresentando uma lista ligeiramente diferente, afirma: "Nenhum desses é anterior ao século XIV. A passagem não é citada por qualquer dos pais gregos, e sua primeira aparição em grego é num relatório conciliar de 1215. Nenhuma outra das antigas versões do Novo Testamento a contém, exceto a versão latina ... [embora não apareçam] nas formas mais antigas da Ítala e na edição da Vulgata feita pelo próprio Jerônimo ... a referência definida mais antiga é feita no Liber Apologeticus do escritor espanhol Prisciliano (ob. c. 385)."2 Até prova em contrário, a NR da NVI não falou inverdade quando disse que o texto da Comma "não é encontrado em nenhum manuscrito grego anterior ao século XII". O ônus da prova se encontra com o autor de E.E.

Vale lembrar, ainda uma vez, que o Greek New Testament According to the Majority Text também omite a Comma, alistando o TR como a única testemunha a seu favor.

Erros Textuais que Comprometeriam a Doutrina da Inerrância

Nessa categoria, da qual tratarei apenas dois exemplos dados em E.E., aparecem ao mesmo tempo uma ingenuidade exegética e um dogmatismo dignos de nota. Em Marcos 1:2, o texto adotado pela NVI exige muito maior firmeza quanto à inerrância do que o do TR. Conquanto minha preferência pessoal seja pelo TMaj (= TR), precisamos reconhecer que o mesmo expediente de alistar dois profetas sob uma única autoria acontece em Mateus 27:9, onde Jeremias e Zacarias aparecem sob a rubrica de Jeremias, e onde não existe problema textual. Será que Mateus está em contradição? Há maneira de defender a inerrância ainda que o texto original de Marcos dissesse "Isaías" em vez de "profetas"? Quem afirmar que não terá que engolir Mateus 27:9 como um "erro" das Escrituras. Assim, mais uma vez, pode até proceder a crítica à opção textual, mas a acusação doutrinária é infundada.

De igual modo, a questão do vinho e do vinagre em Mateus 27.34 reflete a expressão "procurar chifre em cabeça de cavalo." A diferença textual entre vinho e vinagre em grego é mínima () e poderia ser explicada tanto para um lado quanto para outro. O que dizer de Marcos 15:23, no TR, que usa "vinho"? Estará o TR em contradição com Salmo 69:21 [22 no Hebraico], onde surge a palavra "vinagre"? Quem sabe o fato do vinagre bíblico ser nada mais que vinho azedo (ver NVI em João 19:29) tenha motivado esse tipo de ambiguidade inerrante que o autor de E.E. apressadamente (ou por falta de maior destreza exegética) atribuiu à natureza herética da NVI?

Considerações Finais

Ao concluir esta resposta ao documento Expondo os Erros da NVI reitero minha tristeza pelo mesmo não ter sido apresentado diretamente à SBI como uma crítica aberta e direta à qualidade de nosso trabalho. Pelo fato do Novo Testamento estar em processo de revisão, ela teria sido útil. Infelizmente, agora é tarde para incluir entre as várias mudanças qualquer das propostas do autor de E.E.

Lamento ainda que ele tenha sido deliberadamente cego para com a tendência mais conservadora da NVI em relação à sua equivalente americana (NIV). Nosso tratamento de textos controversos como Marcos 16:9-20 e João 7:53-8:11 (retirando os colchetes e não utilizando terminologia tendenciosa) revela, no mínimo, nossa preferência pela inclusão de tais passagens no original.

A interação com o material serviu para demonstrar que o trabalho textual com a NVI pode e deve ser retomado. Há diversas observações textuais do autor de E.E. que são críticas válidas e necessárias e a SBI deverá lhes dar ouvidos, ainda que a aproximação tentada com o internauta que disseminou o texto não tenha produzido resultados animadores, senão a mesma atitude negativa que transpira nas seis páginas de que constou o documento aqui considerado.

Devo admitir que um dos resultados da interação com E.E. foi desejar uma edição da NVI com base no TM, que me parece uma opção textual mais sábia que o TR, a quem o autor de E.E. empresta valor de original preservado. Fica a sugestão apresentada à SBI como uma possível alternativa não apenas para indivíduos e grupos que desejem uma versão mais moderna com base em uma teoria textual mais conservadora, mas também para ampliar os recursos disponíveis para treinamento em crítica textual nas escolas brasileiras.

Atibaia, 24 de setembro de 1999

Notas:
[1] Será que esse intervalo de três séculos tem alguma significância? Línguas são como que entidades vivas, em constante mutação. Para efeito de compração, a primeira edição da B;iblia completa em Português surgiu no final do século XVIII, ou seja, três séculos atrás.
[2] I. Howard Marshall, The Epistles of John, NICNT (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), p. 236.

Nota: O texto acima é uma resposta a um texto de autoria do Pr. Emídio Viana (vide link): http://estudos.gospelmais.com.br/xpondo-os-erros-da-nvi-niv.html

Sobre o autor: Carlos Osvaldo Pinto é Ph.D. em Exposição e Th.M. em Teologia do Antigo Testamento pelo Dallas Theological Seminary. É reitor do Seminário Bíblico Palavra da Vida-Atibaia/SP.

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