Apócrifos e Cânon no Cristianismo Primitivo

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Uma das afirmações mais repetidas pelos críticos do Cânon do NT é a afirmação de que os apócrifos, e em especial os evangelhos apócrifos, eram tão comuns e tão utilizados quanto os escritos do Novo Testamento. Helmut Koester é um bom exemplo dessa tendência. Ele lamenta o fato de que os termos “apócrifo” e “canônico” ainda sejam usados pelos estudiosos modernos, porque, segundo ele, esses termos estão relacionados a “preconceitos de longa data” contra a autenticidade dos textos apócrifos.¹ Koester, em seguida, argumenta: “Se considerarmos o período mais antigo da tradição, veremos que vários evangelhos apócrifos são tão atestados quanto aqueles que mais tarde receberam o status de canônico”.² William Petersen oferece uma abordagem semelhante quando diz que os evangelhos apócrifos eram tão populares que “estavam se multiplicando como coelhos”.³

Mas será que é realmente verdade que os evangelhos apócrifos foram tão populares e difundidos quanto os Evangelhos canônicos? Eles estavam realmente em pé de igualdade? Três conjuntos de evidência sugerem o contrário:

Manuscritos sobreviventes. Os restos físicos dos escritos podem nos dar uma indicação de suas popularidades relativas. Esses restos são capazes de dizer quais livros eram utilizados, lidos e copiados. Quando examinamos os restos físicos de textos cristãos, desde os primeiros séculos (segundo e terceiro), nós rapidamente descobrimos que os escritos do NT eram de longe os mais populares. Atualmente, temos mais de 60 manuscritos existentes (no todo ou em partes) do Novo Testamento a partir deste período, com a maioria das nossas cópias provenientes de Mateus, João, Lucas, Atos, Romanos, Hebreus, e Apocalipse. O Evangelho de João revela-se o mais popular de todos, com 18 manuscritos, alguns dos quais derivam do segundo século (por exemplo, P52, P90, P66, P75). Mateus não está muito atrás com 12 manuscritos, e alguns deles também datam do século II (por exemplo, P64-67, P77, P103, P104).

Durante o mesmo período de tempo, entre o segundo e terceiro século, possuímos cerca de 17 manuscritos de apócrifos, como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Maria, o Evangelho de Pedro, o proto-evangelho de Tiago, e outros. De todos, o Evangelho de Tomé é o que tem mais manuscritos: apenas três.

As implicações dessa disparidade numérica não foram ignoradas pelos estudiosos modernos. Larry Hurtado afirma que o baixo número de manuscritos apócrifos “não justifica qualquer noção de que estes escritos tenham sido particularmente favorecidos” e que quaisquer que fossem os círculos que os utilizavam, eles “eram provavelmente uma minoria clara entre os cristãos dos séculos II e III”.⁴ Da mesma forma , C.H. Roberts observa: “Uma vez que a evidência dos papiros está disponível, indiscutivelmente os textos gnósticos são notáveis por sua raridade.⁵ Scott Charlesworth concorda: “Se o ‘heterodoxo’ estava entre a maioria por tanto tempo, os evangelhos não-canônicos deveriam ter sido preservados em maior número no Egito.

Frequência de citação. Embora os estudiosos geralmente se concentrem em determinar se os livros apócrifos foram ou não citados, eles não prestam atenção o suficiente na frequência em que eles são citados em comparação com os escritos canônicos. Quando esses dados são considerados, a disparidade entre os escritos apócrifos e os canônicos torna-se ainda mais evidente.

Tomemos, por exemplo, Clemente de Alexandria, muitas vezes mencionado como um pai igreja primitiva que tem igual preferência quando se trata de escritos canônicos e apócrifos. No entanto, quando a freqüência das citações é considerada, essa alegação se revela infundada. Clemente prefere vastamente os livros do Novo Testamento à literatura apócrifa ou a outros escritos cristãos. JA Brooks observou que Clemente cita os livros canônicos “cerca de 16 vezes mais do que escritos apócrifos e patrísticos.”⁷ Esta disparidade é torna-se ainda maior se considerarmos apenas os quatro Evangelhos. De acordo com o trabalho de Bernard Mutschler, Clemente se refere ao Evangelho de Mateus 757 vezes, ao de Lucas 402 vezes, ao de João 331 vezes, e ao de Marcos 182 vezes.⁸ Comparativamente, Clemente cita apenas 16 vezes os evangelhos apócrifos.⁹ Aparentemente, Clemente não tinha dúvidas sobre quais livros ele considerava canônicos.

Forma de citação. Se, de fato, os escritos apócrifos eram tão valorizados quanto os escritos canônicos, esperaríamos que isso se refletisse na forma como esses livros são citados. Será que os pais da igreja primitiva citaram os  escritos apócrifos como Escritura? Raramente. Em alguns casos, parece que livros como o Pastor de Hermas ou a Epístola de Barnabé foram considerados como tendo um status de escritura. Mas esse era um ponto de vista minoritário. Quando examinamos quais livros os primeiros cristãos realmente consideravam como Escritura (e não simplesmente aqueles que os cristãos utilizavam de forma geral), então os livros canônicos são, de longe os mais populares. Isso é confirmado pelo fato de que havia um cânon “central” de livros num período próximo à metade do segundo século.

Além disso, um grande número desses escritos apócrifos foi expressamente condenado pelos primeiros cristãos. Tomemos, por exemplo, o tão discutido Evangelho de Tomé. Esse livro nunca foi mencionado em qualquer uma das listas canônica primitivas. Esse livro nunca foi encontrado em qualquer uma de nossas coleções de manuscritos do Novo Testamento. E esse livro nunca entrou como figura de destaque nas discussões canônicas, e muitas vezes foi condenado abertamente por uma variedade de pais da igreja.¹⁰ Assim, se o Evangelho de Tomé foi um relato amplamente lido e amplamente recebido, então ele deixou muito pouca evidência histórica disso.

Todo mundo adora uma boa teoria da conspiração. Certamente seria muito mais divertido se alguém pudesse mostrar que os livros apócrifos realmente eram Escrituras da Igreja Primitiva e que foram reprimidos pelas maquinações políticas da igreja posteriormente (ie, com Constantino). Mas a verdade é muito menos sensacional. Apesar de os livros apócrifos receberem algum status bíblico de vez em quando, a esmagadora maioria dos primeiros cristãos preferiram os livros que estão hoje em nosso cânon do Novo Testamento. Assim, somos lembrados mais uma vez que a igreja não “inventou” o cânon arbitrariamente no quarto ou quinto século. Pelo contrário, as afirmações posteriores da igreja simplesmente refletiram o que já era o caso de muitos e muitos anos.

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Notas:
[1] H. Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” Harvard Theological Review 73 (1980): 106.
[2] Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” 107.
[3] W. L. Petersen, “The Diatesseron and the Fourfold Gospel,” in The Earliest Gospels (ed. C. Horton; London and New York: T&T Clark International, 2004), 51.
[4] Larry Hurtado, The Earliest Christian Artifacts, 21-22.
[5] C. H. Roberts, Manuscript, Society and Belief, 52.
[6] Scott Charlesworth, “Indicators of “Catholicity” in Early Gospel Manuscripts,” in The Early Text of the New Testament (ed. C. E. Hill and M. J. Kruger; Oxford: Oxford University Press, 2013).
[7] J. A. Brooks, “Clement of Alexandria,” 48.
[8] Bernard Mutschler, Irenäus als johanneischer Theologe (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), 101.
[9]  Brooks, “Clement of Alexandria,” 44.
[10] E.g., Hippolytus, Ref. 5.7.20; Origen, Hom. Luc. 1; Eusebius, Hist. eccl. 3.25.6.

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Autor: Michael Kruger
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Erving Ximendes
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Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber (Parte 2)

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Seguindo nossa série de posts, desta vez trataremos, através de uma adaptação de um artigo produzido pelo Dr. Michael Kruger, da questão da compilação do Cânon do Novo Testamento.

Ao investigar esse assunto, os estudiosos gostam de destacar a primeira vez que encontramos uma lista completa de 27 livros. Sem nenhuma surpresa, a lista contida na famosa Carta Pascoal (367 d.C) de Atanásio é mencionada como a primeira vez que algo assim aparece na história da Igreja Cristã.

Como resultado, frequentemente ouvimos que o Novo Testamento foi um fenômeno tardio e que os cristãos não possuíam o Novo Testamento até o final do quarto século. No entanto, esse tipo de raciocínio é problemático em vários níveis. Em primeiro lugar, nós não avaliamos a existência do Novo Testamento apenas através da existência de listas. Se examinamos a maneira que certos livros foram usados pelos pais da igreja primitiva, fica evidente que existia um cânon operante muito antes do quarto século. De fato, lá pelo segundo século já existia uma coleção central de livros do Novo Testamento funcionando como Escrituras.

Em segundo lugar, existem razões para acreditar que a lista de Atanásio não é a mais antiga lista completa que possuímos. O Dr. Michael Kruger argumenta que, por volta de 250 d.C., Orígenes produziu uma lista completa contendo os 27 livros do Novo Testamento (mais de 100 anos antes de Atanásio). Em sua maneira tipicamente alegórica, Orígenes usou a história de Josué para descrever o cânon do Novo Testamento:

“Mas quando o Senhor Jesus Cristo veio – cuja chegada o filho de Num havia designado – ele enviou Seus sacerdotes, Seus apóstolos, carregando “trombetas de obra batida”, a instrução celestial e magnífica da proclamação. Primeiramente Mateus soou a trombeta sacerdotal em seu Evangelho; Marcos também; Lucas e João tocaram cada um suas trombetas sacerdotais. Até mesmo Pedro clama com trombetas em suas duas epístolas, assim como Tiago e Judas. Adicionalmente, João também soa a trombeta através de suas epístolas [e Apocalipse], e Lucas ao descrever os Atos dos Apóstolos. E por último vem aquele que disse “Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos” e que em catorze de suas epístolas, retumbando com trombetas, derruba as muralhas de Jericó e todos artifícios de idolatria e dogmas de filósofos…” (Hom. Jos. 7.1)

Como se pode ver na lista acima, todos os 27 livros do Novo Testamento são computados (Orígenes claramente identifica Hebreus como uma carta de Paulo). A única ambiguidade está numa questão de crítica textual e a citação a Apocalipse, no entanto temos grande evidência, provinda de outras fontes, de que Orígenes aceitava Apocalipse como Escritura (Eusébio, Hist. Eccl. 6.25.09).

Orígenes (185 – 253 d.C), teólogo e filósofo neoplatônico patrístico.

É claro que algumas pessoas tem rejeitado esse argumento e objetado que essa lista apenas reflete as opiniões de Rufino de Aquileia, responsável por traduzir as “Homilias sobre Josué” de Orígenes para o Latim. No entanto, essa é uma suposição questionável. O Dr. Michael Kruger, em um artigo intitulado “Origen’s List of New Testament Books in Homiliae on Josuam 7.1: A Fresh Look” argumenta que Rufino é, como tradutor, muito mais confiável do que os antigos estudiosos supunham. Além disso, a confiabilidade da lista canônica de Orígenes encontra suporte no fato de que ela se encaixa com aquilo que Orígenes diz em outras obras. Por exemplo, Orígenes enumera todos os autores do Novo Testamento em suas “Homilias sobre Gênesis
, e isso coincide com a lista dos livros do Novo Testamento dada acima:

Isaque, portanto, também cava novos poços. Ou melhor, os servos de Isaque os cavam. Esses são: Mateus, Marcos, Lucas, João. Seus servos são Pedro, Tiago, Judas; o apóstolo Paulo é seu servo. Todos esses cavam os poços do Novo Testamento (Hom. Gen. 13.2).

Pode-se ver rapidamente que a lista de autores (novamente em seu clássico estilo alegórico) coincide com a lista de livros. Apesar de Rufino também ter traduzido as Homílias sobre Gênesis, será que devemos realmente pensar que ele mudou ambas passagens precisamente da mesma maneira? Parece bem mais provável que elas combinam simplesmente pelo fato de elas refletirem as verdadeiras opiniões de Orígenes.

Nossas suspeitas são confirmadas quando comparamos as duas passagens de Orígenes com a lista de livros canônicos do próprio Rufino. Se Rufino fosse culpado de adulterar a lista de Orígenes para coincidir com a sua, seria de se esperar que encontrássemos muitas similaridades estruturais entre elas. No entanto, isso é precisamente o que não encontramos. Na verdade, a lista de Rufino difere da de Orígenes em várias maneiras.

No final das contas, temos razões históricas suficientes para aceitar a lista de Orígenes como genuína. E se esse é o caso, então temos evidência de que (a) os cristãos já estavam fazendo listas muito antes do que estávamos supondo (e portanto se importavam com quais livros ficariam “dentro” e “fora”); e (b) que as fronteiras do Novo Testamento eram, ao menos para pessoas como Orígenes, mais estáveis do que tipicamente se supõe.

Além dos ótimos pontos levantados pelo Dr. Kruger, temos outra evidência de que o Cânon de 27 livros é anterior à Carta Pascoal de Atanásio. Everett Ferguson escreve o seguinte:

“No entanto, pode-se notar que, de acordo com Agostinho, os donatistas cismáticos, que surgiram graças a conflitos resultantes de diferentes respostas ao comando de entregar as Escrituras (na perseguição diocletiana do quarto século), não possuiam Cânon diferente das igrejas católicas da África do Norte… Cresc. 1.37; cf. a definição desses em Unit. Eccles. 19:51: ‘As Escrituras Canônicas da Lei e dos Profetas as quais são adicionadas os Evangelhos, as Epístolas Apostólicas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse de João.'” (Lee McDonald e James Sanders, edd., The Canon Debate [Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2002])

Portanto, podemos concluir que o Novo Testamento não é um fenômeno tardio como os secularistas querem que seja. Orígenes não oferece sua lista como uma inovação ou como algo que poderia ser considerado como controverso. Para falar a verdade, ele menciona essa lista no contexto de um sermão de uma maneira bem natural. Ao menos para Orígenes, parece que o conteúdo do Novo Testamento já estava definido.

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Autor: Michael J. Kruger
Fonte: What is the earliest compilation of the Canon of the New Testament
Adaptação: Erving Ximendes
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É o nascimento virginal de Cristo resultado de um problema de tradução?

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Talvez você não saiba, mas um nascimento virginal não é tão raro quanto você imagina. 


De acordo com um estudo recente, nos Estados Unidos, cerca de uma em cada 200 mulheres afirma que engravidou virgem, como demonstra a pesquisa “Like a virgin (mother)” – “Como uma (mãe) virgem” –  da Universidade da Carolina do Norte realizada em Chapel Hill e publicada pouco antes do Natal em 2013. O conceito de um nascimento virginal é tão inacreditável que foi necessário um estudo para descobrir as razões por trás dessas afirmações improváveis ​​em nossos dias. O fato é: Um nascimento virginal é simplesmente impossível.

Esta, provavelmente, é a razão da história de Jesus ter nascido de uma virgem ser considerada inconcebível. Na verdade, há muito tempo Celsus já havia afirmado que a igreja primitiva inventou o nascimento virginal de Jesus, porque a verdade era muito feia para ser publicada. Segundo ele, Jesus era um filho ilegítimo de um relacionamento adúltero de Maria (Orígenes, Contra Celso, 1.28). Acusação semelhante também está presente na antiga tradição rabínica de Israel, conhecido como o Talmud, que afirma que Maria foi infiel ao marido (Talmud Shabat 104b, Sinédrio 67a).

Em outras palavras, um nascimento virginal é tão improvável que uma explicação mais plausível precisa ser dada. E foi exatamente isso que aconteceu no documentário Bible Secrets Revealed – Segredos Bíblicos Revelados (History Channel). No primeiro episódio da série, Francesca Stavrakopoulou, Elaine Pagels, e Bart Ehrman argumentam que a história do nascimento virginal de Jesus é “essencialmente um erro de tradução”. De acordo com eles, a profecia de Isaías 7.14 – “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho” (ACF) – não aponta para uma virgem, mas para uma moça em idade de se casar, que, devido a um erro de tradução mais tarde foi entendida como uma profecia cumprida na gravidez da Virgem Maria. Mais interessante ainda, é que o mesmo argumento foi recentemente usado no vídeo “Meu Corpo, Minhas Regras,” evidentemente sem qualquer intenção de explicar o caso.

O argumento apresentado no documentário Bible Secrets Revealed em suporte a esta conclusão é triplo: (1) A palavra hebraica usada no texto original de Isaías 7.14 não significa virgem e sim uma moça em idade de se casar; (2) A palavra usada na versão grega do Antigo Testamento (Septuaginta) em Isaías 7.14 não significa uma moça em idade de se casar e sim uma virgem; (3) Portanto, esta má tradução abre a porta para a possibilidade de Mateus ver em Maria o cumprimento de uma profecia. Em outras palavras, se Mateus tivesse lido o texto em hebraico, ele não veria o “nascimento virginal” como o cumprimento da profecia. No entanto, a validade dessa conclusão depende da validade de seus pressupostos: Se uma das duas primeiras afirmações não for verdadeira, a conclusão também não será. Assim, é necessário analisar melhor as duas afirmações, a fim de verificar a validade da conclusão.

Em primeiro lugar: É verdade que a palavra hebraica em Isaías 7.14 significa uma moça em idade de se casar e não uma virgem? A palavra hebraica usada neste versículo é almah e é usada apenas nove vezes em todo o Velho Testamento (Gn. 24.43; Ex 2.8; Is. 7.14; Sl 46.1; 68.26; Pv 30.19; Ct 1.3; 6.8; 1 Cron 15.20).. Normalmente, esta palavra é usada para descrever uma moça, pois a ideia central do almah está mais ligada à juventude e puberdade, do que a experiência sexual da mulher descrita. Pode ser traduzida como “moça pronta para casar” (Ex 2.8; Sl 68.26), uma “moça para casar” (Pv 30.19), ou simplesmente “uma jovem” (Ct 1.3). A noção de virgindade imaculada não é o que esta palavra significa, primordialmente, mas a palavra apropriada para dar esse sentido é betulah. No entanto, às vezes almah pode significar uma “moça virgem” em um sentido secundário. Em Gênesis 24, por exemplo, Rebeca é descrita como jovem (v16, 55 e 57), solteira (v28 e 36-51) que também era virgem (v16). Neste verso, ela é apresentada como Naara (jovem) e como betulah (virgem), o que sugere que uma moça em idade de casar, provavelmente, também é virgem.

Mas, é possível ver esse significado em Isaías 7.14? É muito improvável que este seja o caso. Em Is 7.14 a expressão “a virgem conceberá” é formada por uma cláusula sem verbo cujo tempo depende dos verbos apresentados no contexto. Neste caso, o verbo conceber (Do Hebraico yalad), um particípio ativo, poderia implicar numa ação que está acontecendo ou prestes a acontecer, o que nos oferece duas interpretações possíveis: (A) Se ela já está grávida, então almah não significa virgem, mas uma jovem mulher; ou (B) No momento da profecia ela era virgem, mas iria deixar de ser na concepção de seu filho. De qualquer forma, é difícil entender almah aqui como uma indicação de gravidez assexuada. Portanto, podemos concluir que é verdade que a palavra almah em Isaías 7.14 não está apresentando o conceito de uma virgem, mas está descrevendo uma jovem mulher que está prestes a conceber e dar à luz seu filho.

Em segundo lugar: É verdade que a palavra grega usada em Is 7.14 significa apenas uma virgem? A palavra usada na Septuaginta para descrever a palavra hebraica almah é parthenos. No Novo Testamento esta palavra é usada para descrever tanto um jovem do sexo masculino (Ap. 14.4) quanto uma jovem do sexo feminino (1 Co 7.28), com ênfase em sua virgindade. Às vezes, porém, a palavra pode descrever uma mulher solteira (At 21.9), mas mesmo neste caso, é possível argumentar que a ênfase estava na sua pureza sexual. No entanto, no Grego clássico, essa palavra tinha um significado mais abrangente e poderia ser aplicado geralmente a uma jovem mulher em idade de se casar, que pode ou não focar em sua virgindade. Pausanias, por exemplo, a usou para descrever A deusa virgem, um título de Athena em Atenas (Description of Greece, 5.11.10, 10.34.8), enquanto Heródoto descreve a Deusa Virgem de Tauric Ifigênia (The Histories, 4.103). No entanto, geralmente parthenos era usada para descrever uma donzela, mulher jovem, sem nenhuma atenção especial à sua experiência sexual. Homero, por exemplo, usou essa palavra para descrever uma jovem sem foco especial em sua vida sexual (Iliad, 22,127) e mulheres solteiras que não eram virgens (Iliad, 2.514). À luz desses fatos, parece que não é correto dizer que a palavra grega parthenos é usada apenas para descrever uma virgem.

Mas, é possível que esse significado geral também estivesse presente na Septuaginta? Acreditamos que este é o caso. Gênesis 24 apresenta Rebeca como uma jovem (v.16; Hebraico – Naara) que era virgem (v.16 betulah), mas quando Jacob reconta a história de sua família ele a chama de almah (v.43), como se estas palavras tivessem significado intercambiáveis. Mais interessante ainda é o fato de que a Septuaginta traduz todos estes termos (Naara, betulah, almah) como parthenos (virgem), o que sugere que esta palavra grega tinha um significado mais abrangente do que apenas virgem quando a Septuaginta foi produzida. Isto é reforçado pelo fato de que a Septuaginta descreve como parthenos uma moça que foi estuprada (Gn 34.3). Portanto, é justo dizer que o campo semântico de parthenos na Septuaginta era mais amplo do que na literatura do Novo Testamento, e que é possível que a Septuaginta, com razão, tenha traduzido o texto hebraico de Isaías 7.14 utilizando uma palavra mais flexível para descrever um texto com significado complexo. Também é importante notar que, mesmo que o significado de parthenos fosse exclusivamente utilizado para descrever uma virgem na Septuaginta, o texto de Is 7.14 poderia ser utilizado para obter uma conclusão diferente: Todos os verbos empregados pelos tradutores da Septuaginta estão no futuro, o que indica que a mulher era virgem no momento da profecia, mas não necessariamente no momento da concepção ou nascimento de seu filho.

Portanto, é justo afirmar que, a conclusão apresentada no programa Segredos da Bíblia Revelados, e pelo vídeo Meu Corpo Minhas Regras não está correta: A Septuaginta não traduz erroneamente almah para parthenos o que significa que a conclusão de que Mateus foi “enganado” por esta palavra e induzido a ver Maria como o cumprimento da profecia de Isaías 7.14 também não está correta.

Também prova que Mateus não estaria buscando uma profecia para criar a tradição do nascimento virginal de Jesus. O fato de Lucas também apresentar Maria como parthenos (virgem), sem qualquer menção a Isaías 7.14, o que sugere que a tradição não dependia do cumprimento da profecia, reforça esta conclusão. Parece mais apropriado dizer que a “reflexão sobre Isaías 7.14 ilustra a expressão de uma crença cristã já existente na concepção virginal de Jesus”. [R. T France, “Scripture, Tradition, and History in the Infancy Narrative of Matthew,” Gospel Perspectives: Studies of History and Tradition in the Four Gospels (ed. R. T. France and David Wenham; 2 vols.; Sheffield: JSOT, 1981) 2.249].

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Fonte: Friends of CSNTM
Tradução e adaptação: Renato Abreu
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