A Prática da Verdade

.

Por Francis Schaeffer


No que diz respeito ao primeiro dos princípios sobre os quais falamos no início do Apêndice B, "a completa posição doutrinária do cristianismo histórico deve ser claramente mantida", parece-me que o problema central da ortodoxia evangélica na metade do séc. XX é o problema da prática deste princípio. Isso é desta forma especialmente quando nós levamos em conta a mentalidade espiritual e intelectual que é dominante em nosso século [1]. Qualquer consideração sobre métodos ou programas deve ser secundária para uma reflexão desse problema central.

Se uma ênfase clara e inequívoca na verdade, no sentido de antítese [2], é removida, duas coisas ocorrem: Primeiramente, o Cristianismo como Cristianismo na próxima geração é enfraquecido; e segundo, nós estaremos nos comunicando apenas com a aquela parte que está diminuindo na comunidade que ainda pensa em termos do antigo conceito de verdade [3]. Nós não estamos minimizando a obra do Espírito Santo. Nós deveríamos nos lembrar, no entanto, que nossa responsabilidade é que nos comuniquemos de tal forma que aqueles que ouvem o evangelho possam entendê-lo. Se nós não nos comunicarmos claramente na base de antítese, muitos irão reagir às suas próprias interpretações do evangelho, nas suas próprias formas relativistas de pensamento, incluindo um conceito de sentimento de culpa psicológico ao invés da verdadeira culpa moral diante do santo, Deus vivo. Se eles responderem desta forma, não entenderam o evangelho; ainda estão perdidos e nós falhamos em nossa tarefa de pregar e comunicar o evangelho à nossa geração.

A unidade do Cristianismo ortodoxo ou evangélico deveria ser centrada nesta ênfase da verdade. Sempre isto é importante, mas é duplamente importante quando somos cercados por aqueles para quem a verdade, no sentido de antítese, é considerada como totalmente impensável.

Em tal cenário o problema da comunicação é sério; isto pode ser superado apenas por declarações negativas que esclarecem o que nós não queremos dizer, para que o homem do séc. XX entenda as declarações positivas do que queremos dizer. Além do mais, em uma era de síntese [4], os homens não levarão a sério nossos protestos  sobre a verdade a menos que eles vejam, pelas nossas ações, que praticamos essa verdade e antítese na unidade que tentamos estabelecer e em nossas atividades. Sem isso, em uma era de relatividade, nós não podemos esperar que a Igreja ortodoxa e envangélica signifique muito para a cultura ao redor ou até mesmo para os filhos da própria Igreja. O que tentamos dizer em nosso ensinamento e evangelismo será entendido em um pensamento em forma de síntese presente no séc. XX. Tanto uma clara compreensão da importância da verdade quanto uma prática dela, mesmo quando custa muito para se fazer isso, é imperativa se queremos que nosso testemunho e evangelismo sejam significantes em nossa geração e no fluxo da história.

Me parece que alguns evangélicos estão abandonando qualquer tentativa séria de expor a verdade e antítese. Tem havido uma tendência de se mover de uma falta de seriedade eclesiasticamente concernente a verdade para esta mesma tendência em assuntos de cooperação mais ampla. Isso geralmente resulta na negação, na prática se não em teoria, da importância da verdade doutrinária como tal.

Muito evangélicos que estão corretamente incomodados com a visão da Escritura e universalismo da nova teologia e que nestes pontos de erro tentam encará-la de fato nunca vão longe o suficiente para estabelecer uma linha clara de verdade e erro que será relevante para a próxima geração. Inevitavelmente a próxima geração tende a ir mais longe na direção já estabelecida e, se esta direção já está em direção a síntese, eles irão com isto ainda mais perto em direção a nova teologia. Portanto, para evitarmos isso, nós devemos ser cuidadosos em considerar que verdade e antítese significam na prática a assuntos eclesiásticos e no evangelismo.

Assim deve ser dito que a despeito do - e ainda devido ao - comprometimento de alguém ao evangelismo e a cooperação dentre os cristãos, eu posso visualizar ocasiões onde a única forma de deixar claro a seriedade do que está envolvido - no que diz respeito a um culto ou a uma atividade onde o evangelho será pregado - é não tomar parte oficial quando homens, cuja doutrina é conhecida como sendo inimiga, serão convidados para participar oficialmente.

Em uma era de relatividade, a prática da verdade, quando esta custa muito, é a única forma de fazer o mundo levar a sério os nossos protestos concernentes a verdade. Cooperação e unidade que não levam à pureza de vida e de doutrina são tão defeituosas e incompletas como uma ortodoxia que não leva a uma preocupação e a uma atitude em relação aos que estão perdidos.

Há um perigo oposto a ser evitado. Alguns daqueles que tem lutado pela verdade têm prejudicado a mesma, não apenas pela perca de beleza e amor, mas ainda na prática pela perca da verdade enquanto falam sobre os homens.

Muitas vezes a única antítese que exibimos para o mundo e para as nossas próprias crianças é nosso discurso sobre santidade ou o nosso discurso sobre amor, ao invés da prática da santidade e do amor juntos como verdade, em antítese ao que é falso na teologia, na Igreja a na cultura ao nosso redor [5].

_______________
Notas:
[1] Mentalidade que vê a verdade não como fixa ou apenas uma, mas como múltipla e sempre variando, de forma que a verdade por mim acreditada não precisa ser a mesma para outra pessoa. Para estes, só porque algo é verdeiro não quer dizer que o oposto disso também não possa ser.
​[2] Antítese, em seu conceito geral, é a idéia oposta a tese - outra idéia. Por exemplo, a antítese de bondade é maldade, a de imprudência é prudência. Neste contexto, a ênfase "clara e inequívoca [...], no sentido de antítese" significa uma exposição da única verdade que é clara ao mostrar que tudo oposto a esta verdade é errado.
​[3] O antigo conceito de verdade a concebia como absoluta e fixa. Portanto, se algo era tido como verdade, o oposto daquilo seria obviamente falso.
[4] Para Schaeffer, síntese é estritamente a resolução de duas opniões diferentes em uma resposta da forma "tanto isso quanto aquilo", sendo "isso" e "aquilo" idéias opostas. Neste sentido estrito, síntese seria uma sinônimo de resposta relativista (Conferir o livro "A Morte da Razão" de Francis Schaeffer, páginas 40, 41. Editora Fiel).
[​5] Baseado em uma palestra dada no Congresso sobre a Bíblia em Berlim.

***
Fonte: Complete Works of Francis Schaeffer, Vol. 01 - Pág 195-197
Traduzido por: David Cecilio

Quem precisa de Salvador?

.

Por Francis Schaeffer


Deus julgará não só o que se encontra publicado nas manchetes, mas todas as mais secretas coisas. Toda aquela boa gente. Todos aqueles que atiram pedras. Todos aqueles que escrevem os editoriais.

Mais uma vez é preciso recordar o contexto disso tudo. As pessoas dizem “Por que eu estou sob a ira de Deus? Será que Deus é justo em condenar-me?” E Deus diz: “você não consegue imaginar um bom motivo para estar sob a minha ira?” “ Ó homem”, (Rm 2.1), olhe bem para você. Será que isso não é justo (Rm 2.2-16)?

O julgamento será realizado por Deus, mas ele também será realizado “por meio de Jesus Cristo” (Rm 2.16), o juiz da humanidade. Isso poderia ser uma surpresa. Você certamente já encontrou pessoas que dizem: “Eu acredito em Deus, só não acredito em Jesus Cristo”. Mas a terrível verdade é que, quando homens e mulheres não salvos forem chamados para comparecer diante de Deus para julgamento e o encararem, eles só verão uma dentre as pessoas da Trindade como juiz, e esta será Jesus Cristo. Uma das expressões mais imponentes de toda Bíblia é a “ira do Cordeiro” (Ap 6.16). Em Romanos, Paulo fala da ira de Deus, mas em Apocalipse João se refere à ira do Cordeiro. A pessoa da Trindade que veio e muito sofreu para que as pessoas não tivessem mais de ser julgadas, será o seu juiz. A pessoa que tenta chegar-se a Deus sem passar por Jesus Cristo terá que estar face-a-face com Jesus no dia do julgamento. Certamente Jesus foi “tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15); portanto, ele sabe muito bem o que é a tentação e ele compreende nossa humanidade. Mas isso não ameniza em nada a terrível verdade de que ele nos julgará. Jesus, o Salvador do mundo, será igualmente o seu juiz. “Não me envergonho do evangelho de Cristo”, diz Paulo. Mas agora ele acrescenta: Cristo é também o juiz. Não apenas não há outra forma de se chegar a Deus, a não ser por meio de Jesus Cristo, como o próprio Cristo declara (Jo 14.6), mas também que todos os que tentam, de alguma forma, pular esta etapa, não conseguirão, pois Jesus Cristo estará parado bem ali, na condição de juiz. Jesus diz: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Mas quando alguém diz: “Não quero ter nada a ver com você: posso muito bem comparecer diante de Deus diretamente, com as minhas próprias pernas, sem mediador, sem qualquer Messias sofredor”, isso seria como se estivesse tentando ascender diretamente aos céus, passando por cima desse Jesus Cristo. Acontece que não conseguirá fazer isso, porque lá está Jesus Cristo, o juiz. Ninguém que já tenha passado por essa vida foi capaz de escapar do relacionamento com Ele. De duas, uma: ou este relacionamento será o de salvação, conforme Paulo descreve em Rm 1.16, ou então será o relacionamento que ele descreve em 2.16 – o relacionamento de uma pessoa condenada e o seu juiz.

O profeta Miquéias disse “sofrerei a ira do SENHOR, porque pequei contra ele” (Mq 7.9). Jesus suportou a indignação do nosso pecado na cruz. Mas, se falhamos em aceitar isso, só nos resta o outro lado da equação – teremos de suportar a indignação do Senhor por nós mesmos.

Até mesmo as pessoas de hoje que se gabam por não acreditar em absolutamente nada certamente olham para outras pessoas com ar de superioridade e as condenam. Mas Paulo está nos mostrando que o pecado é universal. Todos nós nos apresentamos condenáveis diante de Deus. Nenhum de nós pode ser arrogante por causa de alguma “montanha sagrada” (Nota: o autor alude ao versículo de Sofonias 3.11) que possamos reivindicar. Qualquer coisa que seja um motivo para nos tornar mais soberbos não passará de mais uma razão para julgamento ainda maior.

Paulo declarou que tanto os gentios quanto os judeus de seus dias estavam sob a ira de Deus. Em Rm 3.9-20 ele dirá a mesma coisa, em maiores detalhes, chegando ao ponto mais alto com esta conclusão tão citada: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”(Rm 3.23), que é uma outra forma de dizer que “todos estão sob a ira de Deus”. Ou como em Isaías: “Todos nós andávamos desgarrados com ovelhas” (Is 53.6). Quem precisa de Salvador? O gentio pecou; o judeu pecou. O homem sem a Bíblia pecou; o homem com a Bíblia pecou. Quem precisa do Salvador? A resposta nos parece agora bastante simples, não é? Todo mundo, homens e mulheres, precisam do Salvador! E, se quisermos viver no mundo como ele é, e não em algum mundo de faz de conta, teremos de vir sob estas condições. Quando as pessoas nos perguntam: “Quem precisa de Salvador?”, devemos responder muito calmamente, muito sobriamente, e com real compaixão que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”.

Quando consideramos que Paulo estava falando de todos os judeus e de todos os gentios como sendo pessoas igualmente pecadoras aos olhos de Deus, é importante que nós, os cristãos de hoje, não olhemos para trás, para os leitores do primeiro século, como se nos encontrássemos acima deles. Como Paulo nos lembra em Efésios 2.3, nós “éramos por natureza filhos da ira”, não passávamos do pior e mais desnorteado tipo de pecador. Todos nós temos estado sob a ira de Deus. Se tivermos aceitado Cristo como nosso Salvador, a ira de Deus já não estará mais sobre nós. Mas isso não se deve a alguma coisa de nós mesmos, alguma coisa que esteja embutida em nossa herança genética, ou em nossa cultura cristã. Se não estamos sob a ira de Deus neste preciso momento, isso se deve tão somente ao fato de que, devido à sua graça, Cristo morreu por nós e, igualmente pela sua graça, nós o aceitamos como Salvador. Não podemos supor termos sido resgatados graças à bondade inerente de qualquer um que ainda se encontra sob a ira de Deus. Sempre que analisamos a ira de Deus contra o mundo pecaminoso, a postura certa é a que diz: “Eu já estive nesta posição eu mesmo, e lá eu mereceria estar, se não fosse a obra consumada de Jesus Cristo”. É somente no espírito desta humilde constatação que ousamos prosseguir com nosso estudo de Romanos.

Pense em todas as vantagens que temos no norte da Europa e América do Norte. A possibilidade de comprar uma Bíblia em qualquer loja da esquina. Uma literatura cheia de referências à Bíblia. Se os judeus foram condenados por não terem crido, apesar de todas suas vantagens, o que Deus não teria a dizer sobre as nações “Cristãs” de hoje? Se os judeus tiveram alguma vantagem, quanto maior é a nossa! Se Deus condenou os judeus por sua falta de resposta adequada, que tenha misericórdia de nós!

Nós que temos a Bíblia hoje somos ainda mais condenáveis do que as pessoas de hoje que não têm a Bíblia – que se limitam ao testemunho da sua consciência. Mas nós também somos mais condenáveis do que aqueles que tinham a Bíblia nos dias de Paulo. Ter todas estas vantagens e não crer, ter estas vantagens e se desviar de Deus, ter estas vantagens e ainda assim dar motivo para que o nome do Deus vivo seja blasfemado. Que desculpa podemos ter? De que jeito imaginamos escapar disso? Se os jovens de qualquer lugar nas nossas universidades, e só o que aprendem é como serem mais pretensiosos e mais ateístas, deveríamos ficar surpresos quando Deus olha para nós e diz: “Vocês estão debaixo da minha ira!”?

Se há algum povo por toda a história que desesperadamente necessitou do Salvador, este povo somos nós mesmos, a nossa cristandade ocidental dos dias de hoje.

***
Fonte: “A Obra Consumada de Cristo”, Ed. Cultura Cristã.

Edith Schaeffer (1914-2013)

.

Edith Schaeffer, a esposa do Rev. Francis Schaeffer (1912-1984) e com ele fundadora do L’abri, agora está com o Senhor. Faleceu hoje (30 de Março de 2013) em sua casa, na Suíça, cuidada em seus últimos dias por sua filha Debby e seu genro, Udo Middleman.

Edith é uma forte expressão do ensino bíblico sobre a mulher auxiliadora. Muito poderia ser dito aqui, sobre como ela abriu mão de luxos e caminhou para a simplicidade em seu casamento com Francis (a história da lua de mel, contada no livro “A celebração do matrimônio”, é especialmente marcante). Apoiou e contribuiu imensamente para o ministério do esposo, desenvolvendo o trabalho com crianças e iniciando L’Abri com ele. Suportou o seu marido em oração: quando ele, em crise, questionava e revisava sua fé, ela orava incessantemente pelo marido. Enriqueceu a experiência comunitária – seu senso estético e sensibilidade com as pessoas a transformaram em um canal importante para a comunicação do conteúdo transmitido em L’Abri. Ajudou o seu marido, viajando sempre com ele, e, na ocasião em que ele precisou passar muito tempo longe da esposa numa Europa destruída pela Segunda Guerra, o acolheu e cuidou dele durante as semanas seguintes, em que ele precisou ficar de cama, sendo alimentado por uma sopa feita com todo amor. Quando dos últimos dias do Rev. Francis, ela o acompanhou fielmente, levando-o para morrer em casa, como ele desejava, tendo a paisagem e a música de Haendel a embalar sua caminhada.

Edith comunica sensibilidade e força, coragem e simpatia, inteligência e doçura. Gostava de dançar, e teve seus impulsos reprimidos quando se aproximaram de um presbiterianismo fundamentalista. Mas logo redescobriram o amor pelas artes e a liberdade cristã. Escreveu livros importantes como a história de L’Abri (L’Abri e The tapestry), outros sobre o cristianismo, o sofrimento, a família, e a arte de decorar e embelezar as coisas (The hidden art). Adorava formar pares, e conseguiu “fazer muitos casamentos” entre os visitantes e obreiros de L’Abri.

Agora ela está com o Pai. Sempre trabalhou para ter um lar acolhedor e aconchegante a todos os que visitavam os chalés na Suíça, mas agora é recebida no maior acolhimento e aconchego da presença de nosso Senhor. Seus livros e o ministério de L’Abri continuarão testemunhando do casal que se recusou a dissociar evangelho de beleza, verdade de amor, e, por isso, causou tanto impacto.


Para ler outras matérias sobre a morte de Edith, confira os links abaixo:


.

Lealdade patriótica não pode ser confundida com Cristianismo



Por Francis A. Schaeffer

Certamente, pelo menos no começo, a “elite conservadora” será menos severa com a igreja do que seria a elite da Ala Esquerda, se ocupasse o poder. Mas aí se encontra um perigo. A igreja tenderá a manter a paz com o conservadorismo e a identificar-se com ele. Parecerá melhor no começo, mas não no fim. Se a igreja para os jovens, para aqueles que serão os homens e as mulheres dos próximos dez, vinte anos, tornar-se identificada com o conservadorismo, creio que a igreja institucional estará liquidada.

Muitas igrejas nos Estados Unidos exibem a bandeira norte-americana. A bandeira cristã geralmente é colocada de um lado e a dos Estados Unidos do outro. Isto significa que o cristianismo e o conservadorismo norte-americano são iguais? Se a resposta for afirmativa, aqueles que o fazem estão realmente em dificuldade. Não existem duas fidelidades iguais. O Estado também está sob a lei da Palavra de Deus. Assim, se pelo fato de termos a bandeira de nosso país em nossa igreja, estamos demonstrando aos nossos jovens que há duas fidelidades iguais ou duas fidelidades entrelaçadas, é melhor o fazermos de modo diferente. O conservadorismo pode tornar-se facilmente inimigo da igreja. Antes que venha a pressão, nossos jovens (do jardim da infância em diante), nossas pessoas mais idosas e nossos oficiais devem entender bem isto: Não há duas fidelidades iguais – César vem em segundo lugar em relação a Deus. Isto deve ser pregado e ensinado nos sermões, classes de Escola Dominical e à mocidade.

É preciso que se ensine que lealdade patriótica não pode ser confundida com cristianismo. Como cristãos, nós somos, sob o senhorio de Cristo em toda a nossa vida, responsáveis por aplicar os princípios cristãos ao nosso relacionamento com o Estado. Mas não devemos permitir que o nosso país e o cristianismo se tornem sinônimos.

Tem sempre sido assim, mas hoje mais do que nunca. Se um pastor levanta-se no púlpito e faz semelhante pregação, e os jovens entram e ouvem, deixando claro que não está confundindo as duas fidelidades, então, mesmo se diferirem em questões como Vietnã, ainda assim o pastor manterá sua credibilidade para com eles. Mas o que é realmente importante não é nossa credibilidade para com outros homens, mas nossa retidão para com Deus. Igualar qualquer outra fidelidade com nossa fidelidade a Deus é pecado. E é melhor que coloquemos nossas prioridades em ordem neste momento, antes que as pressões em nossa sociedade dominem completamente, tanto a nós como à sociedade como a temos conhecido. Se são grandes as pressões de agora, podemos ter certeza que serão maiores no futuro.

(SCHAEFFER, Francis. A Igreja do final do Século XX. 2a. edição revista. Trad. Helga Homem de Mello Anderson. Brasília: Sião, 1988, pp. 99-100. Cf. também: O Estado como autoridade delegada, não autônoma – Francis A. Schaeffer)

Extraído de: gilsonsantos.com
Fonte: Blog Fiel 
.

Francis Schaeffer – Uma forte visão das Escrituras

.

Neste vídeo de 2 min., Francis Schaeffer fala sobre a importância do fundamento das Escrituras. Vejo que hoje há (pelo menos) duas vertentes que atacam este doutrina tão importante: (1) os liberais e neo-ortodoxos que rebaixam às Escrituras ao nível humano e (2) os (falsos) “apóstolos” que elevam a autoridade humana ao nível das Escrituras – inspiração. Se você ouve em sua “igreja” coisas como “a Bíblia não é um livro de Deus” ou “quando eu estiver no céu vou chegar para Paulo e, de apóstolo para apóstolo, dizer: ‘você estava errado neste ponto’, minha sugestão é: corra por sua vida!

“De nada vale ter grandes números se é tudo uma ilusão. Abraçar ou não uma forte visão das Escrituras é o divisor de águas do mundo evangélico.” (Francis Schaeffer)



Tradução e legenda: Escola Charles Spurgeon
.

Aos que exultam na Soberba

.

Por Francis Schaeffer (1912-1984)

Quando, pois, os gentios que não têm lei, procedem por natureza de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada nos seus corações, testemunhando-lhes também a consciência, e os seus pensamentos mutuamente acusando-se ou defendendo-se; no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho. (2.14-16)

Paulo está passando para a próxima etapa da sua apresentação do plano de salvação divino. Ele já falou sobre os não-judeus, os gentios, o homem sem a Bíblia. Agora ele está preparando o terreno . para falar sobre o homem judeu - o homem com a Bíblia. Lembre-se novamente do que ele disse acerca dos gentios: "A ira de Deus se revela" (1.18). E o ouvinte gentio se pergunta: "Por que eu estou sob a ira de Deus7" E Paulo responde "o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou" (1.19). Até mesmo o homem sem a Bíblia tem uma consciência. Esta é a primeira coisa que o condena. Esta pessoa é ainda um ser moral.

Agora Paulo passa a dizer a mesma coisa sobre os judeus, ou, em termos equivalentes à realidade de hoje, sobre as pessoas com a Bíblia. Eles têm a Bíblia (e, como os gentios, ou as pessoas sem a Bíblia, não deixam de ter uma consciência), mas não vivem de acordo com ela. Realmente, admite Paulo, podemos encontrar muitos gentios (pessoas sem a Bíblia), que vivem bem melhor do que as pessoas com a Bíblia. Ele não está dizendo que estes incrédulos possam viver vidas perfeitas. Nenhum ser humano vive uma vida perfeita. Tudo o que ele está dizendo é que os exemplos relativamente bons destes incrédulos condenam aqueles que tem a Bíblia.

É claro que isto não representa uma desculpa para o homem sem a Bíblia. Ele nunca estará vivendo totalmente de acordo com os padrões que lhe são conhecidos. Mas esse é um motivo a mais para condenação dos judeus, dos homens com a Bíblia. Paulo está simplesmente cortando pela raiz todo e qualquer fundamento que não seja a graça. Você pode sentir isso. Ele está descartando todos aqueles argumentos que as pessoas de todas as eras costumam usar para dizer "não preciso de Salvador algum". Você pode perce¬ber todos estes argumentos sendo demolidos. Alguém poderia di¬zer "olhe só para aqueles incrédulos ali, vivendo vidas muito mais adequadas do que as pessoas com a Bíblia". Mas, como Paulo diz, a bondade dessas pessoas não poderá salvá-las, pois elas nunca estarão vivendo inteiramente de acordo com os princípios por elas mesmas estabelecidos.

... os seus pensamentos mutuamente acusando-se ou defendendo-se. (2.15b)

Esta é a experiência de todas as pessoas. Todos nós passamos por isso, indo e vindo como balanço de um pêndulo. Perdoamos os outros, dizendo: "Eu acabarei sendo poupado, sou melhor do que os outros", e então, puffi, cometemos algo realmente ruim, submergimos no mar negro da auto-condenação e passamos a nos "acusar" a nós mesmos. E em seguida, quem sabe, vamos tomar um pouco de ar fresco ou uma boa xícara de café ou olhamos para alguém que parece estar em situação ainda pior do que a nossa, e o pêndulo volta para o extremo oposto e voltamos a nos desculpar. "Não sou tão mal quan¬to imaginava. Até que estou me comportando muito bem". E, no momento seguinte, sem qualquer aviso prévio, voltamos a cair no mar negro. Todas as pessoas vivem neste vai-e-vem pendular - desculpando-se... acusando-se... desculpando-se... acusando-se... Encaramos a nossa própria consciência, sentimo-nos acusados; e en¬tão explicamos nossos motivos, e nos sentimos desculpados.

No dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho. (2.16)

É preciso que encaremos o fato de que chegará o dia, posto na história, em que se dará o julgamento. Já vimos isto em 2.5 "Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus". Paulo jamais permite que sua mensagem permaneça no plano da abstração; ele apresenta a aplicação mais concreta e prática possível; e o fato concreto e inevitável é que está chegando o dia, bastante real, posto no espaço e no tempo, posto na história, em que Deus há de julgar o mundo. Ele está dizendo "no dia" - o que não significa necessariamente um dia de vinte e quatro horas - "em que Deus... julgar os segredos dos homens".

"Segredos" devia ser uma palavra assustadora para nós. Deus não julgará apenas as coisas abertas, mas também os segredos. A pessoa sem a Bíblia diz "aquela mulher é imoral ... aquele homem é imoral", e depois acaba praticando as mesmas coisas, muitas vezes à surdina. E não é precisamente assim que as pessoas pensam e vivem? Elas não estão se esforçando de fato para serem morais, elas só estão tentando manter as coisas equilibradas, apontando o dedo para a pessoa que chega a um ponto extremo, mesmo que elas estejam praticando as mesmas coisas secretamente. Elas condenam as outras pelas coi¬sas mais explícitas, as coisas que dão manchete. Mas, nas suas pró¬prias vidas secretas, estão vivendo do mesmo jeito.

Deus julgará não só o que se encontra publicado nas manchetes, mas todas as mais secretas coisas. Toda aquela boa gente. Todos aqueles que atiram pedras. Todos aqueles que escrevem os editoriais.

Mais uma vez é preciso recordar o contexto disso tudo. As pessoas dizem "Por que eu estou sob a ira de Deus? Será que Deus é justo em condenar-me?" E Deus diz-, "você não consegue imaginar um bom motivo para estar sob a minha ira?" "Ó homem", (2.1), olhe bem para você. Será que isso não é-justo (2.2-16)?

O julgamento será realizado por Deus, mas ele também será realizado "por meio de Jesus Cristo" (2.16). Paulo não mencionava Cristo desde 1.16, porque ele estava discutindo o problema do pecado. Mas agora ele o menciona novamente, como sendo o juiz da humanidade. Isso poderia ser uma surpresa. Você certamente já encontrou pessoas, tanto judeus quanto gentios, que dizem "Eu acredito em Deus, só não acredito em Jesus Cristo". Mas a terrível verdade é que, quando ho-mens e mulheres não salvos forem chamados para comparecer diante de Deus para julgamento e o encararem, eles só verão uma dentre as pessoas da Trindade como juiz, e esta será Jesus Cristo. Uma das ex-pressões mais imponentes de toda a Bíblia é a "ira do Cordeiro" (Ap 6.16). Em Romanos, Paulo fala da ira de Deus, mas em Apocalipse João se refere à ira do Cordeiro.

A pessoa da Trindade que veio e muito sofreu para que as pessoas não tivessem mais de ser julgadas, será o seu juiz. A pessoa que tenta chegar-se a Deus sem passar por Jesus Cristo terá que estar face-a-face com Jesus no dia do julgamento. Cer¬tamente Jesus foi "tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado" (Hb 4.15); portanto, ele sabe muito bem o que é a tentação e ele compreende nossa humanidade. Mas isso não ameniza em nada a terrível verdade de que ele nos julgará. Jesus, o Salvador do mundo, será igualmente o seu juiz. "Não me envergonho do evangelho de Cristo", diz Paulo. Mas agora ele acrescenta-. Cristo é também o juiz. Não apenas não há outra forma de se chegar a Deus, a não ser por meio de Jesus Cristo, como o próprio Cristo declara (Jo 14.6), mas também que todos os que tentam, de alguma forma, pular esta etapa, não conseguirão, pois Jesus Cristo estará parado bem ali, na condição de juiz. Jesus diz "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mt 11.28). Mas quando alguém diz: "Não quero ter nada a ver com você: posso muito bem comparecer diante de Deus diretamente, com as minhas próprias pernas, sem mediador, sem qualquer Messias sofredor", isso seria como se estivesse tentando ascender diretamente aos céus, passando por cima desse Jesus Cristo. Acontece que não conseguirá fazer isso, porque lá está Jesus Cristo, o juiz. Ninguém que já tenha passado por essa vida foi capaz de escapar do relacionamento com Jesus Cristo.

De duas, uma: ou este relacionamento será o da salvação, conforme descrito por Paulo em 1.16, ou então será o relacionamento que ele descreve em 2.16-0 relacionamento de uma pessoa condenada e o seu juiz.

O profeta Miquéias disse "sofrerei a ira do SENHOR, porque pequei contra ele" (Mq 7.9). Jesus suportou a indignação do nosso pecado na cruz. Mas, se falhamos em aceitar isso, só nos resta o outro lado da equação - teremos de suportar a indignação do. Senhor por nós mesmos.

Paulo tem (alado de os gentios estarem sob a ira de Deus (1.18— 2.16), e nestes poucos últimos versículos ele começa a falar de os judeus estarem igualmente sob a ira de Deus (2.9-16). Enquanto ele se prepara para enfocar a ira de Deus contra os judeus (2.17— 3.8), devemos recordar a passagem de Sofonias "naquele dia não te envergonharás de nenhuma das tuas obras, com que te rebelaste contra mim; então tirarei do meio de ti os que exultam na sua soberba, e tu nunca mais te ensoberbecerás no meu santo monte" (3.11). Deus, por meio de Sofonias, disse a Israel que chegaria um dia em que não estariam mais orgulhosos simplesmente porque a sua montanha sagrada, Jerusalém, estava no seu meio. Todos os que se regozijam por razões como esta serão julgados do mesmo jeito que todo mundo. Mas este aviso não se aplica somente aos judeus ou às pessoas dos tempos bíblicos. Pensando novamente no paralelo com os nossos tempos modernos - as pessoas com a Bíblia e as pessoas sem a Bíblia - as pessoas com a Bíblia e a igreja não devem jamais ser arrogantes a ponto de olhar com ar de superioridade para aqueles que não têm acesso a estas coisas. Até mesmo as pessoas de hoje que se gabam por não acreditar em absolutamente nada certamente olham para outras pessoas com ar de superioridade e as condenam. Mas Paulo está nos mostrando que o pecado é universal. Todos nós nos apresentamos condenáveis diante de Deus. Nenhum de nós pode ser arrogante por causa de alguma "montanha sagrada" que possamos reivindicar. Qualquer coisa que seja um motivo para nos tornar mais soberbos não passará de mais uma razão para julgamento ainda maior.

Fonte: [ Josemar Bessa ]
.

Cristianismo: a religião mais fácil e a mais difícil

.

O grande apologeta cristão do século passado, Francis Schaeffer, explica com uma clareza extraordinária em seu livro
“O Deus que intervém” porque o Cristianismo é a religião mais fácil e ao mesmo tempo a mais difícil:

“Temos de reconhecer que o Cristianismo é a religião mais fácil de todo o mundo, pois é a única religião na qual Deus o Pai, Cristo e o Espírito Santo fazem tudo. Deus é o Criador; nós não temos qualquer coisa a fazer com a nossa existência, nem a existência das outras coisas. Podemos até moldar as outras coisas, mas não podemos mudar o fato da existência. Não fazemos qualquer coisa para a nossa salvação porque Cristo já fez tudo. Não temos o que fazer. Em todas as outras religiões temos que fazer algo — tudo, desde queimar incenso para sacrificar nosso filho primogênito até jogar uma moeda na fonte de sorte — todo um espectro de coisas. Mas com o Cristianismo não temos que fazer qualquer coisa; Deus fez tudo isto: ele nos criou e enviou o seu Filho; seu Filho morreu e, porque o Filho é infinito, por esta razão ele carrega toda a nossa culpa. Não precisamos carregar a nossa culpa, nem precisamos merecer o mérito de Cristo. Ele fez tudo isso. Assim, de certa forma, é a religião mais fácil do mundo.

Mas podemos dizer igualmente o contrário, de que é a religião mais difícil do mundo, pela mesma razão. O coração da rebelião de Satanás e do homem estava no desejo de ser autônomo; e aceitar a fé cristã não nos rouba nossa existência, não nos rouba nosso valor (isso nos dá valor), mas isso nos rouba completamente a nossa autonomia. Não nos fizemos a nós mesmos, não somos produto do acaso, não somos nada disso; estamos diante de um Criador e mais nada, estamos diante do Salvador e mais nada — trata-se de uma negação completa de ser autônomo. Não importa se é consciente ou inconsciente (e nas pessoas mais brilhantes isso é, por vezes, consciente): quando reconhecem a suficiência das respostas no seu próprio nível, elas repentinamente se levantam contra a sua humanidade mais íntima — não humanidade como foram criados para serem, mas humanidade no mau sentido, pela queda. Esta é a razão pela qual as pessoas não aceitam as respostas suficientes e porque elas são consideradas por Deus desobedientes e culpados quando não se curvam a isso.” (p. 255-256, grifo nosso)

SCHAEFFER, Francis A. O Deus que intervém. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã. 2002. p. 255-256.

Fonte: [ UMPCGYN ]