A Predestinação

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(1)

1. Um decreto de Deus que afeta as criaturas pode ser tanto geral como específico.

2. O decreto geral é aquele em que ele determinou mostrar a glória de seu poder, sabedoria e bondade na criação e preservação de todas as coisas.

3. O decreto específico, chamado predestinação, é aquele que ele ordena esta glória de sua graça, misericórdia e justiça se revelando nas criaturas racionais, sejam eles eleitos ou réprobos.

PROPOSIÇÕES

I. Embora a predestinação seja um ato único e absolutamente simples na mente de Deus, todavia, levando em consideração a fraqueza do nosso entendimento, a predestinação como um destino último, pode ser diferenciada da predestinação com respeito aos meios. 

II. Todos os que estão predestinados para um destino, também têm predestinado os seus meios. 

(2)

1. A predestinação afeta tanto os anjos como aos homens.

2. A predestinação dos anjos significa que Deus determinou sempre preservar alguns deles em [sua] felicidade original, em Cristo como cabeça,[1] e punir outros eternamente em abandoná-los de seu estado de sua própria harmonia, para revelar a glória de sua graça e justiça.

3. A predestinação dos seres humanos significa que, da raça humana que ele criou à sua própria imagem, mas que caíram em pecado por seu próprio ato, Deus determinou na eternidade salvar alguns por meio de Cristo, mas também condenar eternamente os demais, mantendo-os em sua própria miséria, para que revelassem a glória de sua misericórdia e justiça. 

4. Entretanto, há dois aspectos [pars] da predestinação: eleição e reprovação.

PROPOSIÇÕES

I. A predestinação é num sentido um decreto absoluto e ao mesmo tempo não. 

II. Ele é absoluto com respeito a sua causa eficiente [causa efficiens impulsiva] o qual nem é a fé do eleito, nem o pecado do réprobo, mas absolutamente a livre vontade de Deus. Nem é a fé ou a santidade prevista a causa da eleição, nem se tornou eleita a pessoa porque creu. Pelo contrário, ele crê porque foi eleito. Em At 13:48 “creram os que estavam ordenados para a vida eterna”. Nem somos escolhidos porque seríamos santos, mas “a fim de que sejamos santos e inculpáveis nele, em amor” (Ef 1:4). Nem é o pecado previsto a causa da reprovação. Se fosse, todos seríamos reprovados. Que Deus agiu sobre a sua absoluta e livre boa vontade [beneplacitum] é evidente em Lc 12:33: “é a boa vontade do Pai dar-lhes o reino”, e de Rm 9:15: “terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia”, e 9:18: “ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem lhe apraz”.

III. Mas o decreto da predestinação não é absoluto com respeito aquilo que ele oferece [materia seu obiectus], nem em relação aos meios pelos quais ele conduz.

IV. Aquilo que a predestinação realiza não é o homem considerado absolutamente, mas o homem é quem caiu em pecado pelo seu próprio ato. As razões para isto são óbvias. (1) O decreto pressupõe pecado ao revelar misericórdia e a ira, ou a justiça; a misericórdia é sem sentido exceto na presença do sofrimento, bem como a justiça ou da ira é sem sentido exceto na presença do pecado. (2) Somente a culpa pode ser reprovada. Mas o homem não é culpado quando criado por Deus, senão quando ele foi deformado por Satanás.

V. Todavia, o pecado não é a causa da reprovação, mas uma necessária condição no objeto [materia seu obiectus]. Embora ele não seja a causa da reprovação, no entanto, o pecado é uma causa da culpa [causa reprobabilitatis]. A diferença entre ser culpado e ser reprovado é o mesmo que entre potência e ato; todos os homens são culpados por causa do pecado, mas nem todos são réprobos.

VI. Portanto, a predestinação pressupõe os seguintes decretos: (1) criar o homem; (2) conceder a imagem de Deus ao homem criado, mas de tal forma que pudesse perde-la; (3) permitir a sua queda.

VII. Os meios pelos quais o decreto é conduzido são tais que, embora Deus atue apenas pelo seu beneplácito, todavia, o eleito não tem base para orgulhar-se, nem o réprobo tem fundamento para reclamar. Sobre o primeiro confere imerecida graça, e, sobre o outro reserva punição. 

VIII. Numerosas questões surgem: (1) Sobre qual direito Deus condena um homem à reprovação, sendo ele sua própria criatura? (2) Por que ele não elege, ou condena igualmente a todos? (3) Por que ele escolhe alguém como Pedro, e condena outro como Judas? A resposta para a primeira questão depende da causa material, que é um homem tão caído como culpado. A resposta da segunda vem do propósito, porque Deus pretende revelar a glória de sua misericórdia e sua justiça. A resposta da terceira vem da causa ativa, porque este é o modo que Deus deseja fazê-lo. Do mesmo modo, seria como perguntar por que um oleiro faz diferentes pratos do mesmo monte de argila, a resposta é encontrada no seu propósito de servir aos muitos usos dos pratos numa casa. Mas se for perguntado por que ele faz um vaso de um pedaço de todo o barro, e um pote de outra parte, a resposta está na causa ativa: isto é o que oleiro quer.

IX. Cristo pode ser considerado tanto Deus-homem, ou como o nosso mediador. Do primeiro ponto de vista ele é, com o Pai e o Espírito Santo, a eficiente causa da nossa eleição. De uma segunda perspectiva, ele é o meio de executar a nossa eleição. Portanto, se diz que somos escolhidos em Cristo (Ef 1:4); e de fato, somos conduzidos à salvação por meio dele. O decreto que nos salva é predestinação para um destino final; que é dar Cristo como nosso cabeça, predestinação significando a aplicação.

X. As palavras gregas próthesis [propósito], prógnosis [presciência] e proorismós [predestinação], podem ser diferenciadas pelo propósito de instrução, embora sejam muitas vezes usadas como sinônimos. Assim, a palavra próthesis se refere à intenção de salvar, enquanto que prógnosis à livre graça pela qual Deus nos vê como seus, e proorismós designa a predestinação para Cristo e os outros meios da salvação. Rm 8:28-29: “porque sabemos, que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito [katá próthesin]”. “Pois aqueles que ele preconheceu [proégno] ele também predestinou [proórise] para serem conformes à imagem de seu Filho”. 

XI. Estão errados aqueles que ensinam a doutrina da eleição ao mesmo tempo que negam a reprovação. A Escritura ensina a reprovação do mesmo modo que a eleição. Is 41:9: “eu te escolhi, e não te rejeitei.” Ml 1:2-3: “amei a Jacó, mas odiei a Esaú.” Rm 9:18: “Ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem lhe apraz.” Rm 11:7: “o eleito é alcançado, e os outros endurecidos.” 1 Ts 5:9: “Deus não nos destinou para a ira, mas para a salvação.” 2 Tm 2:20: “vasos para honra, e outros para desonra.” Jd 4: “desde muito tempo alguns homens dissimulados, foram destinados para a condenação”. 

XII. Assim como Cristo não é a causa da eleição, mas da salvação, do mesmo modo a incredulidade não é a causa da reprovação, mas da condenação. A condenação difere da reprovação como o meio de realizar um decreto se distingue do próprio decreto.

XIII. O propósito da reprovação não é a condenação, mas a revelação da glória da justiça de Deus. Entretanto, o homem não pode alegar que foi criado para ser condenado; pois a condenação pela qual a pessoa foi rejeitada, se conduz para o mal, não é o propósito, mas o meio da execução do propósito de Deus.

XIV. Dois atos da reprovação podem ser aceitos com o propósito de instrução: a negação da imerecida graça, que é chamada de preterição, e a entrega da merecida punição, que é chamada de condenação.

XV. Ao examinar a nossa eleição pela lógica, faz-se necessário proceder dos meios de realizar do próprio decreto, fazendo a origem de nossa santificação. O argumento é o seguinte: todo aquele que sabe que recebeu o dom da santificação [in se sentit donum] pelo qual morremos para o pecado, e vivemos para a justiça, é justificado, chamado ou habitado com fé verdadeira, e eleito. Mas eu sei [sentio] isto pela graça de Deus; e assim, eu sou justificado, chamado e eleito.[2] 

XVI. É diabólico o argumento de que se eu sou um eleito, então não necessito de boas obras, e que se eu sou um réprobo, elas são inúteis. Em primeiro lugar, um cristão não precisa decidir se ele é um eleito ou um réprobo; pelo contrário, ele deve examinar a sua fé como um meio de [verificar] a sua eleição. 2 Co 13:5-6 “examinem-se, vejam se realmente estais na fé; provai-vos, a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. Mas espero reconheçais que não somos reprovados”. Em segundo lugar, este argumento separa assuntos que deveriam ser simples por serem corretamente subordinados, e une conceitos contraditórios. As boas obras devem ser subordinadas à eleição, mas nunca separados dela, bem como elas são os meios que quando realizados, certificam a nossa eleição. É contraditório para qualquer um, que sendo réprobo realizar boas obras.[3] 

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NOTAS:
[1] Sobre a relação dos anjos com Cristo, veja também Francis Turrentin, Loco IV, questão viii. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Veja Turretin, Locus IV, questões xii, xiii. Nota de John W. Beardslee III.
[3] Wollebius define boas obras como sendo “aquelas ações que são realizadas pela graça do Espírito Santo, por causa de uma fé verdadeira e de acordo com as exigências da lei, para a glória de Deus, a certeza da nossa salvação e a edificação do nosso próximo”. Por isso, ele declara que um réprobo é incapaz de realizar boas obras. John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics, p. 191. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

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Autor: Johannes Wollebius
Fonte: Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.50-53.
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
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O Papel de Satanás na Queda

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Após um considerável número de anjos terem pecado e tornados em demônios, o diabo conspirou para a queda de Adão e Eva, a fim de impedi-los de glorificar a Deus, O qual odiava com ódio aterrador, visto que Ele rejeitara os demônios, excluindo-os eternamente da graça.

O diabo primeiramente atacou Eva quando ela se encontrava sozinha, provavelmente postada perto da árvore do conhecimento do bem e o mal. Ali ele a enganou, e Eva, tendo sido ludibriada (embora não consciente disso), também enganou a seu marido, Adão. Ora, o primeiro homem não foi enganado devido ao amor que nutria por sua esposa, mas, sim, por seu (de Eva) logro, e somente então os olhos de ambos foram abertos (Gn 3:7). O diabo foi, portanto, a causa sugestiva da Queda, e por isso é chamado de “homicida desde o princípio” e “mentiroso” (João 8:44).

Para alcançar seu objetivo, Satanás se valeu de uma serpente, considerando-a um instrumento apropriado para ele. Ele falou a Eva por meio da serpente. Destarte, não estava invisível quando falou, nem simulou uma voz. Ele não se comunicou pessoalmente com a alma de Eva, mas lhe dirigiu a palavra por meio da serpente, da qual havia tomado posse. Não se deve ver essa questão como uma metáfora, nem uma parábola ou ilusão. De semelhante modo, o diabo não se valeu de uma simples aparência de serpente; trata-se de história genuína – um evento que efetivamente aconteceu. Tanto o diabo quanto a serpente estiveram ativamente envolvidos neste fato. Tratava-se de uma serpente, no verdadeiro sentido da palavra, isto é, um animal real – o que é evidente a partir dos seguintes pontos:  

(1) Da própria narrativa: “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3:1)

(2) Também do verso 14, no qual isto é afirmado com relação à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos”. Não se pode negar que a serpente era uma criatura irracional, e, portanto, incapaz de proferir um discurso inteligente e inteligível. Desse modo, é certo que uma criatura racional falou por meio da serpente, e que tal criatura inteligente era má e pecaminosa. Consequentemente, não poderia ser ninguém mais a não ser o diabo, que, por essa razão, é frequentemente chamado, nas Escrituras, de “serpente”, “dragão” ou “a antiga serpente”. “Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás” (Ap 20:2). Foi ele quem enganou Eva: “…Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia...” (2 Co 11:3). Sua cabeça foi pisada por Cristo, “que, por sua morte, destruiu aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hb 2:14)

Visto que Moisés narra de maneira extremamente concisa os eventos do primeiro mundo (isto é, o mundo antes da Queda), o método através do qual se efetuou o engano não foi documentado. Destarte, toda conjectura neste caso é apenas especulação vazia, tais como a indagação se o diabo falou com Eva em apenas uma ou em várias vezes ocasiões; se ele lidou com Eva de uma maneira diferente; se veio como um mensageiro de Deus, declarando que o tempo da provação do casal havia chegado ao fim, e, portanto, estavam então livres para comer do fruto; se ele veio como amigo e mestre para aconselhar e apresentar os benefícios resultantes do comer da árvore; ou se o diabo veio como um inimigo de Deus, desejando privá-la daquilo que lhe traria felicidade e a tornaria semelhante a Deus. Tudo isto são conjecturas. É também possível que o diabo tenha apresentado outros pretextos ou argumentos lógicos enganosos. É melhor nos calarmos quanto a essas questões e outras questões similares do que desencaminhar o leitor com aquilo que apenas aparentemente é racional. Aquilo que não aprouve ao maior e mais sábio Mestre nos revelar, não devemos almejar conhecer. Este é um exercício seguro por meio do qual podemos nos afastar de várias tentações.

Estou convencido de que Eva estava bem ciente do fato de que animais, incluindo evidentemente a serpente, não possuíam intelecto racional nem eram dotados de linguagem. Embora ela desconhecesse a queda dos anjos, não obstante, ela poderia ter deduzido que aquele acontecimento (a fala da serpente) não era algo comum. Estou convencido de que se permitiu a Eva anelar por um nível maior de conhecimento e comunhão com Deus, já que isso lhe fora prometido no pacto das obras. Também lhe foi permitido aspirar por um conhecimento mais profundo com relação ao reino da natureza, que ela poderia obter por meio da experiência – assim como a multiforme sabedoria de Deus pode ser conhecida aos anjos por meio da igreja (Ef 3:10).

Estou convencido de que ela não comeu ignorantemente da árvore, antes, sabia muito bem que não lhe era permitida comer dela nem tocá-la. Tendo desejo de crescer no entendimento, Eva foi seduzida a comer da árvore. Não foi coagida, mas fez isso por sua própria vontade. Num primeiro momento, Eva não teve consciência desse logro, mas se tornou consciente disso apenas após ter enganado Adão. Ademais, Adão não foi o primeiro a ser enganado, nem foi enganado pela serpente, mas, sim, como diz o Apóstolo em 1 Timóteo 2:14, enganado por uma Eva enganada – e logo em seguida a ela. Estou convencido de que se Adão tivesse se mantido firme, Eva teria que sofrer sozinha o castigo.

Contudo, dado que Adão também pecou, toda raça humana se tornou culpada, como Paulo disse: “assim como por um só homem o pecado entrou no mundo...” (Rm 5:12). Ele não se refere somente ao pecado de Eva, mas ao pecado de toda raça humana, que se compreende plena e completamente em Adão e Eva, os quais eram um só em virtude de seu casamento. Na verdade, Paulo se refere especificamente ao pecado de Adão, que era o primeiro homem, a primeira e única fonte, tanto de Eva quanto de toda raça humana.  

O comer dessa árvore não foi um pecado menor, ainda que o ato de ingestão do fruto em si seja uma questão de somenos importância. Pelo contrário, foi um crime hediondo no qual se inclui a transgressão de toda a lei. Tratou-se de uma violação do amor, obediência e da aliança, resultando na perdição de si mesmo (Adão) e de seus descendentes. Esse pecado é agravado pelos seguintes fatos:

(1) Foi cometido contra o próprio Deus, que o primeiro casal conhecia em Sua majestade e glória – o Deus que, mediante sua bondade multiforme, os uniu a Si mesmo;
(2) Foi cometido por uma pessoa santa que tinha a habilidade necessária de se abster disso, e de resistir a toda tentação;
(3) Ora, abster-se de comer dessa única árvore configurava-se como uma exigência mínima e exequível, visto que o casal possuía tudo em abundância naquele belo jardim;
(4) A felicidade ou condenação de si mesmo e de seus descendentes dependia disso. Destarte, em Romanos 5, o comer do fruto é corretamente denominado de “pecado” (Rm 5:12), “transgressão” (Rm 5:14), “ofensa” (Rm 5:15) e “desobediência” (Rm 5:19).

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Autor: Wilhelmus à Brakel
Fonte: The Christian’s Reasonable Service
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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Cosmovisão Reformada (2/3) - Queda

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QUEDA

“Eis o problema fundamental da raça humana: nós estamos afastados de Deus.”

E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom (Genesis 1:31). No entanto, no nosso tempo as coisas não parecem tão atraentes. O que aconteceu? Por que tudo se encontra tão torto e alquebrado? Por que, Senhor? Por que me encontro tão curvado, tão alquebrado, e as demais pessoas também?

Todos, sem exceção, se indagam sobre essa questão do “porquê”. Annie Lennox lança um assolador “Por quê?” em sua angustiante canção homônima[1], na qual a cantora investiga suas próprias futilidades e o alquebramento que existe entre ela e os outros.

These are the tears,
The tears we shed.
This is the fear,
This is the dread.

[Estas são as lágrimas,
As lágrimas que derramamos.
Este é o medo,
Este é o pavor.]

Por quê? Por que há valentões no parquinho? Por que há vermes e lagartas lutando pela vida no passeio ou no asfalto após a chuva? Em primeiro lugar, por que tanto concreto e asfalto? E tantos formigueiros de formigas-de-fogo? Por que há digitária no meu jardim ao invés da viçosa grama-bermudas ou da festuca? Por que é tão difícil aprender, mas tão fácil esquecer? Qual o motivo de existir o movimento Rastafari ou a religião sincretista caribenha da Santeria? Por que há essa repugnante reificação das mulheres e do corpo feminino? Por que essa viciosa predação entre animais que podemos ver no Animal Planet?


Por que a humanidade é esse lobo voraz para si mesma – homo homini lupus[2]? Por que existem diretores executivos super-gananciosos? Por que Chris morreu de aneurisma cerebral no último ano, apenas duas semanas após termos sido companheiros de quarto numa conferência? Por que, no momento em que escrevo este artigo, meu amigo e também colega de profissão, Rodney, está lutando pela vida numa UTI com pancreatite? Por que minha mãe teve que suportar uma dúzia de complicadas cirurgias de câncer antes de morrer? Por que ainda há tanto racismo no mundo? Por que tanta solidão? Por que há tão rígidas distinções sociais e de classe no Plaza, no Broadmoor, ou no Biltmore? Wo ist Gott[3]? Por quê? Ad nauseam[4].

Humpty Dumpty sat on a wall.
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king's horses and all the king's men
Could not put Humpty Dumpty back together again[5].

[Humpty Dumpty num muro se aboletou,
Humpty Dumpty lá de cima despencou.
Todos os cavalos e os homens do Rei a arfar
Não conseguiram de novo lá para cima o içar.][6]

Desconheço se há uma interpretação oficial dessa canção infantil que provavelmente ouvimos assentados no colo de nossas mães ao longo de toda nossa infância. Mas é possível vê-la como uma parábola representando a criação e queda da humanidade, um instantâneo daquilo que aconteceu no espaço compreendido em Gênesis 1 a 3. E é a narrativa apresentada no terceiro capítulo mais especificamente que nos mostra o que deu errado – ela nos faz compreender a razão pela qual nós e todas as demais coisas se encontram tão desordenados atualmente.


No princípio, na criação, “Humpty Dumpty” se assentou sobre um muro, tendo uma natureza “muito boa”. Mas, então, “Humpty Dumpty” sofreu uma grande “queda” – mergulhando no pecado. Uma vez que era apenas um frágil ovo, as consequências foram devastadoras. Nenhuma quantidade de esforço humano, quer realizado pelos cavalos do rei ou pelos homens do rei, foi capaz de coloca-lo novamente em seu lugar.

A canção infantil termina em desespero. Não se oferece uma solução para a “quebra” de Humpty Dumpty. Contudo, felizmente a Bíblia não termina do mesmo modo. Ele continua explicando como Deus coloca Humpty Dumpty novamente em seu lugar por meio de Jesus Cristo. Essa é a narrativa da Redenção. Mas estamos nos adiantando no assunto... Por enquanto, queremos utilizar esses quartos versos da canção infantil a fim de ilustrar a Queda e a consequente e ampla devastação que ela deixou em seu rastro.

Este é o segundo “ato” da narrativa cósmica das Escrituras, o segundo maior tema na visão bíblica da vida e do mundo. Num primeiro momento, nos são apresentadas as boas-novas da criação, mas agora temos as más notícias da queda. Isso introduz um conflito fundamental no drama bíblico, o qual deve ser resolvido antes que termine o enredo de Deus. Tal relato demonstra, ao contrário de outras cosmovisões, que o mal não está enraizado na criação em si mesma, mas, sim, na rebelião moral da raça humana contra a autoridade divina do Deus santo. Às vezes costumo chamar esse episódio de “descriação”, devido ao dano que ele causou ao mundo muito bom criado por Deus: chamo-o assim devido à forma como a Queda distorceu as intenções divinas para a humanidade, o nosso conhecimento, o nosso amor, a nossa capacidade de criação cultural, e, enfim, toda a terra.

Por vezes, contudo, achamos difícil levar a sério essa narrativa primitiva. Por quê? Provavelmente porque ela tem sido frequentemente satirizada. Como Herbert Schlossberg observou: “Séculos de arte religiosa e, recentemente, centenas de animações de mulheres nuas, maçãs e serpentes têm servido para nos distrair do significa da Queda em Gênesis 3”.

Atualmente, como James Smith me ajudou a compreender, a narrativa da Queda é ridicularizada à luz da vigente noção evolucionária da predação e da necessidade da morte para a sobrevivência e desenvolvimento das espécies mais adaptadas.

Independentemente disso, nós devemos tentar deixar nossos preconceitos contemporâneos de lado, e descobrir que, embora possa ser difícil para nós entendermos essa narrativa, ela, contudo, faz com que muitas outras coisas sejam compreensíveis, como Peter Kreeft já disse – ela esclarece, por exemplo, nosso persistente abatimento e a profunda dor do mundo.

Os cinco primeiros versículos de Gênesis 3 são um relato da tentação da mulher. O versículo 1 nos informa que a serpente, a mais astuta das alimárias, foi usada por Satanás como o agente da tentação (Apocalipse 12:9; 20:2). Confrontando Eva, o Diabo lança uma pergunta perscrutadora: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”. A serpente/Satanás não apenas testa o conhecimento da mulher a respeito da palavra de Deus, como também busca difamar o caráter divino ao sugerir sutilmente que Deus é mesquinho em Suas provisões para o homem. Nos versos 2 e 3 a mulher responde recitando o mandamento originalmente dado por Deus (Gênesis 2:16-17). Ela acrescenta, contudo, que o fruto proibido não deveria sequer ser tocado, e muito menos comido, para que eles não morressem. Assim, será que Eva foi a primeira legalista? Numa tentativa de persuadir a mulher a seguir seu próprio percurso revoltoso, a serpente/Satanás nega categoricamente a afirmação divina de que a desobediência resultaria em morte. Ele prossegue nessa sua negação assegurando que o comer da árvore proibida não resultaria em morte, antes transformaria o homem e a mulher em verdadeiros deuses. Eles poderiam fazer o que lhes aprouvesse, viver em liberdade da forma como lhes agradasse. Infelizmente a mulher acredita em tais mentiras, e convence seu marido a se unir a ela naquela insurreição contra o Criador.

Naquele momento tudo mudou. Uma nova consciência passou a dominá-los. Eles perderam a inocência e descobriram a vergonha. O pecado atingiu o ponto mais íntimo de sua humanidade, na sua sexualidade. Eles tentaram cobrir sua nudez com folhas de figueira. As trágicas consequências de sua autoafirmação orgulhosa seguiram-se imediatamente. O restante de Gênesis 3 descreve essas consequências na forma de quatro separações e três maldições.

Primeiramente, os seres humanos são separados de Deus (Gênesis 3:8-9). Quando o SENHOR veio habitualmente ao cair da tarde para fazer companhia ao homem e sua esposa, a reação do casal agora caído é a seguinte: eles “se esconderam da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do Jardim” (Gênesis 3:8). Ao invés de irem jubilosamente ao encontro de seu Criador, eles agora se escondem, embaraçosamente distantes. Eles estão envergonhados, não apenas entre si, mas também perante Deus. O propósito para o qual Deus criou esse primeiro casal é frustrado – é separado do Autor da vida. Desse modo, devido ao pecado, o problema fundamental da raça humana é, essencialmente, espiritual e teológico: nós estamos afastados de Deus. Agora passamos a adorar os ídolos. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

A segunda separação: os homens estão separados de e dentro de si mesmos (Gênesis 3:10). O afastamento de Deus tem repercussões internas diretas. Quando o SENHOR indagou ao homem onde se encontrava, ele respondeu em palavras que revelam um estado interior radicalmente alterado: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.” (Gênesis 3:10). O medo, a vergonha e a culpa estilhaçaram o sentimento de integralidade e bem-estar que o homem anteriormente possuía. A linha divisória entre o bem e o mal atravessa o coração de todos os seres humanos, como Solzhenitsyn observou. Em razão do pecado, portanto, a humanidade tem sofrido um dano interior significativo; estamos profundamente dilacerados por dentro. Assim, buscamos inutilmente a felicidade e a completude por conta própria, em uma vida de pura imanência debaixo do sol. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

Em terceiro lugar, os seres humanos foram separados uns dos outros (Gênesis 3:11-13). Quando Deus indagou ao homem a respeito de sua nudez, e se ele havia comido ou não o fruto proibido, ele imediatamente buscou se defender e culpar a outrem por seu erro. “A mulher”, diz ele, “que Tu me destes, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12, ênfase acrescentada). Este episódio marca o início não apenas da batalha dos sexos, mas também das profundas divisões dentro da comunidade humana. Nossa alienação teológica e psicológica tiveram repercussões sociais significativas. O pecado não apenas nos separa de Deus e de nós mesmos, mas também uns dos outros. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda. Nesse ponto da narrativa, Deus anuncia uma série de maldições: sobre a serpente, cuja humilhante derrota “com a cara na poeira”[7] é profetizada; sobre a mulher, que sofrerá arduamente como mulher e mãe; e, por último, sobre o homem, que deve suar abundantemente para ter domínio sobre a terra. Para, depois de tudo isso, morrermos.

Tendo sido estes três julgamentos outorgados, uma separação final é descrita no final de Gênesis 3. Deus expulsa o primeiro casal humano do Jardim, e coloca um batalhão angélico na entrada leste, com o intuito de evitar que os homens entrem novamente (Gênesis 3:20-24). Nós trocamos a graça e a benção do Éden pelo caos e confusão de um mundo alquebrado. Desde então, buscamos reconquistar nossa felicidade por meio de nossos próprios esforços “utópicos”, individual ou coletivamente.

Apenas Deus e Seu reino podem preencher os anseios do coração. A vida sem Deus é vã e fútil. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

Usando as palavras de Francis Schaeffer, Gênesis 3 conta a narrativa da Queda histórica espaço-temporal e seus resultados[8]. No cerne deste episódio estava a busca humana equivocada por liberdade, autonomia, autolegislação e independência. Os resultados dessa busca foram ignorância e o mau desejo. Os efeitos noéticos e afetivos do pecado desestruturaram nossas vidas de modo horrível. As quatro separações, juntamente com as três maldições, convergem na morte. O mundo é, agora, um cemitério cósmico, gemendo em desespero, ansiando por libertação[9]. “Humpty Dumpty” sofreu uma grande queda. O que pode nos livrar desta morte? O que pode nos salvar dessa queda?

Continua nos próximos dias...

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Notas do tradutor:
[1] Evidentemente que a canção é homônima na língua original do artigo, o inglês. Sendo assim, o título da música de Annie Lennox é “Why”.
[2] Frase extraída da obra Asinaria, do dramaturgo romano Plauto (Titus Maccius Plautus 230 a.C. - 180 a.C), a qual pode ser traduzida como “o homem é o lobo do homem”. O texto diz originalmente Lupus est homo homini non homo. Entretanto, a frase acabou sendo popularizada por Thomas Hobbes no século XVIII, e por isso, por vezes, é a ele atribuída.
[3] Do alemão: “Onde está Deus?”
[4] O termo latino ad nauseam diz respeito à falácia conhecida como argumentum ad nauseam, isto é, a argumentação que tenta se validar por meio da repetição constante de determinada questão – repete-se a mesma afirmação de modo insistente até o ponto de provocar "náusea" e fastio ao interlocutor objetor, de modo que ele abra mão da discussão, embora não concorde com a afirmação do seu oponente. No contexto do presente artigo, o autor quer dizer que a situação aludida se repete infinitamente até à exaustão.
[5] Esses versos fazem parte de uma canção infantil da época Vitoriana bastante difundida nos países de língua inglesa. Humpty Dumpty é uma espécie de ovo antropomórfico que, sentado num muro, cai de forma abrupta, partindo-se, sendo impossível de recompô-lo. O personagem foi extremamente popularizado pelas obras de Lewis Carroll, especialmente nas animações baseadas nos seus livros sobre Alice. O autor o utiliza como uma metáfora literária da condição pecaminosa do homem herdada de Adão. Autores como o irlandês James Joyce, em seu labiríntico Finnegans Wake, já trabalharam com essa associação entre Humpty Dumpty e o homem espiritualmente caído.
[6] A presente tradução da cantiga, que mantém as rimas e a musicalidade próprias, foi realizada por Maria Luiza X. de A. Borges, e se encontra na seguinte obra: CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada. Notas de Martin Gardner. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 200. Outra tradução também apropriada diz:

Humpty Dumpty sentou-se em um muro,
Humpty Dumpty caiu no chão duro.
E todos os homens e cavalos do Rei
Não conseguiram junta-lo outra vez.

[7] No original, o autor utiliza um neologismo “dusteating" defeat, o qual traduzido literalmente soaria algo como “a derrota comedora de pó”, fazendo alusão à maldição proclamada em relação à serpente: “sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.” (Gênesis 3:14).
[8] O autor faz menção aqui ao livro Gênesis no Espaço-tempo, do Dr. Francis Schaffer, excelente apologista cultural. No livro, recentemente publicado pela Editora Monergismo, Schaffer demonstra como a narrativa de Gênesis, longe de ser uma mitologia fundacional (como creem os teólogos liberais), é um relato fiel às origens (do universo, da vida, e do homem como ser pessoal), constituindo-se como base sólida para o homem moderno.
[9] Tal como Paulo asseverou em sua carta aos Romanos, nos ensinando que a criação não será destruída, mas, sim, restaurada por Cristo: “Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.” (Romanos 8: 19-23). 

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Autor: David K. Naugle
Fonte: 
Cardus

Tradução: Fabrício Tavares
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