Cosmovisão Reformada (2/3) - Queda

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QUEDA

“Eis o problema fundamental da raça humana: nós estamos afastados de Deus.”

E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom (Genesis 1:31). No entanto, no nosso tempo as coisas não parecem tão atraentes. O que aconteceu? Por que tudo se encontra tão torto e alquebrado? Por que, Senhor? Por que me encontro tão curvado, tão alquebrado, e as demais pessoas também?

Todos, sem exceção, se indagam sobre essa questão do “porquê”. Annie Lennox lança um assolador “Por quê?” em sua angustiante canção homônima[1], na qual a cantora investiga suas próprias futilidades e o alquebramento que existe entre ela e os outros.

These are the tears,
The tears we shed.
This is the fear,
This is the dread.

[Estas são as lágrimas,
As lágrimas que derramamos.
Este é o medo,
Este é o pavor.]

Por quê? Por que há valentões no parquinho? Por que há vermes e lagartas lutando pela vida no passeio ou no asfalto após a chuva? Em primeiro lugar, por que tanto concreto e asfalto? E tantos formigueiros de formigas-de-fogo? Por que há digitária no meu jardim ao invés da viçosa grama-bermudas ou da festuca? Por que é tão difícil aprender, mas tão fácil esquecer? Qual o motivo de existir o movimento Rastafari ou a religião sincretista caribenha da Santeria? Por que há essa repugnante reificação das mulheres e do corpo feminino? Por que essa viciosa predação entre animais que podemos ver no Animal Planet?


Por que a humanidade é esse lobo voraz para si mesma – homo homini lupus[2]? Por que existem diretores executivos super-gananciosos? Por que Chris morreu de aneurisma cerebral no último ano, apenas duas semanas após termos sido companheiros de quarto numa conferência? Por que, no momento em que escrevo este artigo, meu amigo e também colega de profissão, Rodney, está lutando pela vida numa UTI com pancreatite? Por que minha mãe teve que suportar uma dúzia de complicadas cirurgias de câncer antes de morrer? Por que ainda há tanto racismo no mundo? Por que tanta solidão? Por que há tão rígidas distinções sociais e de classe no Plaza, no Broadmoor, ou no Biltmore? Wo ist Gott[3]? Por quê? Ad nauseam[4].

Humpty Dumpty sat on a wall.
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king's horses and all the king's men
Could not put Humpty Dumpty back together again[5].

[Humpty Dumpty num muro se aboletou,
Humpty Dumpty lá de cima despencou.
Todos os cavalos e os homens do Rei a arfar
Não conseguiram de novo lá para cima o içar.][6]

Desconheço se há uma interpretação oficial dessa canção infantil que provavelmente ouvimos assentados no colo de nossas mães ao longo de toda nossa infância. Mas é possível vê-la como uma parábola representando a criação e queda da humanidade, um instantâneo daquilo que aconteceu no espaço compreendido em Gênesis 1 a 3. E é a narrativa apresentada no terceiro capítulo mais especificamente que nos mostra o que deu errado – ela nos faz compreender a razão pela qual nós e todas as demais coisas se encontram tão desordenados atualmente.


No princípio, na criação, “Humpty Dumpty” se assentou sobre um muro, tendo uma natureza “muito boa”. Mas, então, “Humpty Dumpty” sofreu uma grande “queda” – mergulhando no pecado. Uma vez que era apenas um frágil ovo, as consequências foram devastadoras. Nenhuma quantidade de esforço humano, quer realizado pelos cavalos do rei ou pelos homens do rei, foi capaz de coloca-lo novamente em seu lugar.

A canção infantil termina em desespero. Não se oferece uma solução para a “quebra” de Humpty Dumpty. Contudo, felizmente a Bíblia não termina do mesmo modo. Ele continua explicando como Deus coloca Humpty Dumpty novamente em seu lugar por meio de Jesus Cristo. Essa é a narrativa da Redenção. Mas estamos nos adiantando no assunto... Por enquanto, queremos utilizar esses quartos versos da canção infantil a fim de ilustrar a Queda e a consequente e ampla devastação que ela deixou em seu rastro.

Este é o segundo “ato” da narrativa cósmica das Escrituras, o segundo maior tema na visão bíblica da vida e do mundo. Num primeiro momento, nos são apresentadas as boas-novas da criação, mas agora temos as más notícias da queda. Isso introduz um conflito fundamental no drama bíblico, o qual deve ser resolvido antes que termine o enredo de Deus. Tal relato demonstra, ao contrário de outras cosmovisões, que o mal não está enraizado na criação em si mesma, mas, sim, na rebelião moral da raça humana contra a autoridade divina do Deus santo. Às vezes costumo chamar esse episódio de “descriação”, devido ao dano que ele causou ao mundo muito bom criado por Deus: chamo-o assim devido à forma como a Queda distorceu as intenções divinas para a humanidade, o nosso conhecimento, o nosso amor, a nossa capacidade de criação cultural, e, enfim, toda a terra.

Por vezes, contudo, achamos difícil levar a sério essa narrativa primitiva. Por quê? Provavelmente porque ela tem sido frequentemente satirizada. Como Herbert Schlossberg observou: “Séculos de arte religiosa e, recentemente, centenas de animações de mulheres nuas, maçãs e serpentes têm servido para nos distrair do significa da Queda em Gênesis 3”.

Atualmente, como James Smith me ajudou a compreender, a narrativa da Queda é ridicularizada à luz da vigente noção evolucionária da predação e da necessidade da morte para a sobrevivência e desenvolvimento das espécies mais adaptadas.

Independentemente disso, nós devemos tentar deixar nossos preconceitos contemporâneos de lado, e descobrir que, embora possa ser difícil para nós entendermos essa narrativa, ela, contudo, faz com que muitas outras coisas sejam compreensíveis, como Peter Kreeft já disse – ela esclarece, por exemplo, nosso persistente abatimento e a profunda dor do mundo.

Os cinco primeiros versículos de Gênesis 3 são um relato da tentação da mulher. O versículo 1 nos informa que a serpente, a mais astuta das alimárias, foi usada por Satanás como o agente da tentação (Apocalipse 12:9; 20:2). Confrontando Eva, o Diabo lança uma pergunta perscrutadora: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”. A serpente/Satanás não apenas testa o conhecimento da mulher a respeito da palavra de Deus, como também busca difamar o caráter divino ao sugerir sutilmente que Deus é mesquinho em Suas provisões para o homem. Nos versos 2 e 3 a mulher responde recitando o mandamento originalmente dado por Deus (Gênesis 2:16-17). Ela acrescenta, contudo, que o fruto proibido não deveria sequer ser tocado, e muito menos comido, para que eles não morressem. Assim, será que Eva foi a primeira legalista? Numa tentativa de persuadir a mulher a seguir seu próprio percurso revoltoso, a serpente/Satanás nega categoricamente a afirmação divina de que a desobediência resultaria em morte. Ele prossegue nessa sua negação assegurando que o comer da árvore proibida não resultaria em morte, antes transformaria o homem e a mulher em verdadeiros deuses. Eles poderiam fazer o que lhes aprouvesse, viver em liberdade da forma como lhes agradasse. Infelizmente a mulher acredita em tais mentiras, e convence seu marido a se unir a ela naquela insurreição contra o Criador.

Naquele momento tudo mudou. Uma nova consciência passou a dominá-los. Eles perderam a inocência e descobriram a vergonha. O pecado atingiu o ponto mais íntimo de sua humanidade, na sua sexualidade. Eles tentaram cobrir sua nudez com folhas de figueira. As trágicas consequências de sua autoafirmação orgulhosa seguiram-se imediatamente. O restante de Gênesis 3 descreve essas consequências na forma de quatro separações e três maldições.

Primeiramente, os seres humanos são separados de Deus (Gênesis 3:8-9). Quando o SENHOR veio habitualmente ao cair da tarde para fazer companhia ao homem e sua esposa, a reação do casal agora caído é a seguinte: eles “se esconderam da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do Jardim” (Gênesis 3:8). Ao invés de irem jubilosamente ao encontro de seu Criador, eles agora se escondem, embaraçosamente distantes. Eles estão envergonhados, não apenas entre si, mas também perante Deus. O propósito para o qual Deus criou esse primeiro casal é frustrado – é separado do Autor da vida. Desse modo, devido ao pecado, o problema fundamental da raça humana é, essencialmente, espiritual e teológico: nós estamos afastados de Deus. Agora passamos a adorar os ídolos. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

A segunda separação: os homens estão separados de e dentro de si mesmos (Gênesis 3:10). O afastamento de Deus tem repercussões internas diretas. Quando o SENHOR indagou ao homem onde se encontrava, ele respondeu em palavras que revelam um estado interior radicalmente alterado: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.” (Gênesis 3:10). O medo, a vergonha e a culpa estilhaçaram o sentimento de integralidade e bem-estar que o homem anteriormente possuía. A linha divisória entre o bem e o mal atravessa o coração de todos os seres humanos, como Solzhenitsyn observou. Em razão do pecado, portanto, a humanidade tem sofrido um dano interior significativo; estamos profundamente dilacerados por dentro. Assim, buscamos inutilmente a felicidade e a completude por conta própria, em uma vida de pura imanência debaixo do sol. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

Em terceiro lugar, os seres humanos foram separados uns dos outros (Gênesis 3:11-13). Quando Deus indagou ao homem a respeito de sua nudez, e se ele havia comido ou não o fruto proibido, ele imediatamente buscou se defender e culpar a outrem por seu erro. “A mulher”, diz ele, “que Tu me destes, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12, ênfase acrescentada). Este episódio marca o início não apenas da batalha dos sexos, mas também das profundas divisões dentro da comunidade humana. Nossa alienação teológica e psicológica tiveram repercussões sociais significativas. O pecado não apenas nos separa de Deus e de nós mesmos, mas também uns dos outros. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda. Nesse ponto da narrativa, Deus anuncia uma série de maldições: sobre a serpente, cuja humilhante derrota “com a cara na poeira”[7] é profetizada; sobre a mulher, que sofrerá arduamente como mulher e mãe; e, por último, sobre o homem, que deve suar abundantemente para ter domínio sobre a terra. Para, depois de tudo isso, morrermos.

Tendo sido estes três julgamentos outorgados, uma separação final é descrita no final de Gênesis 3. Deus expulsa o primeiro casal humano do Jardim, e coloca um batalhão angélico na entrada leste, com o intuito de evitar que os homens entrem novamente (Gênesis 3:20-24). Nós trocamos a graça e a benção do Éden pelo caos e confusão de um mundo alquebrado. Desde então, buscamos reconquistar nossa felicidade por meio de nossos próprios esforços “utópicos”, individual ou coletivamente.

Apenas Deus e Seu reino podem preencher os anseios do coração. A vida sem Deus é vã e fútil. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

Usando as palavras de Francis Schaeffer, Gênesis 3 conta a narrativa da Queda histórica espaço-temporal e seus resultados[8]. No cerne deste episódio estava a busca humana equivocada por liberdade, autonomia, autolegislação e independência. Os resultados dessa busca foram ignorância e o mau desejo. Os efeitos noéticos e afetivos do pecado desestruturaram nossas vidas de modo horrível. As quatro separações, juntamente com as três maldições, convergem na morte. O mundo é, agora, um cemitério cósmico, gemendo em desespero, ansiando por libertação[9]. “Humpty Dumpty” sofreu uma grande queda. O que pode nos livrar desta morte? O que pode nos salvar dessa queda?

Continua nos próximos dias...

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Notas do tradutor:
[1] Evidentemente que a canção é homônima na língua original do artigo, o inglês. Sendo assim, o título da música de Annie Lennox é “Why”.
[2] Frase extraída da obra Asinaria, do dramaturgo romano Plauto (Titus Maccius Plautus 230 a.C. - 180 a.C), a qual pode ser traduzida como “o homem é o lobo do homem”. O texto diz originalmente Lupus est homo homini non homo. Entretanto, a frase acabou sendo popularizada por Thomas Hobbes no século XVIII, e por isso, por vezes, é a ele atribuída.
[3] Do alemão: “Onde está Deus?”
[4] O termo latino ad nauseam diz respeito à falácia conhecida como argumentum ad nauseam, isto é, a argumentação que tenta se validar por meio da repetição constante de determinada questão – repete-se a mesma afirmação de modo insistente até o ponto de provocar "náusea" e fastio ao interlocutor objetor, de modo que ele abra mão da discussão, embora não concorde com a afirmação do seu oponente. No contexto do presente artigo, o autor quer dizer que a situação aludida se repete infinitamente até à exaustão.
[5] Esses versos fazem parte de uma canção infantil da época Vitoriana bastante difundida nos países de língua inglesa. Humpty Dumpty é uma espécie de ovo antropomórfico que, sentado num muro, cai de forma abrupta, partindo-se, sendo impossível de recompô-lo. O personagem foi extremamente popularizado pelas obras de Lewis Carroll, especialmente nas animações baseadas nos seus livros sobre Alice. O autor o utiliza como uma metáfora literária da condição pecaminosa do homem herdada de Adão. Autores como o irlandês James Joyce, em seu labiríntico Finnegans Wake, já trabalharam com essa associação entre Humpty Dumpty e o homem espiritualmente caído.
[6] A presente tradução da cantiga, que mantém as rimas e a musicalidade próprias, foi realizada por Maria Luiza X. de A. Borges, e se encontra na seguinte obra: CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada. Notas de Martin Gardner. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 200. Outra tradução também apropriada diz:

Humpty Dumpty sentou-se em um muro,
Humpty Dumpty caiu no chão duro.
E todos os homens e cavalos do Rei
Não conseguiram junta-lo outra vez.

[7] No original, o autor utiliza um neologismo “dusteating" defeat, o qual traduzido literalmente soaria algo como “a derrota comedora de pó”, fazendo alusão à maldição proclamada em relação à serpente: “sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.” (Gênesis 3:14).
[8] O autor faz menção aqui ao livro Gênesis no Espaço-tempo, do Dr. Francis Schaffer, excelente apologista cultural. No livro, recentemente publicado pela Editora Monergismo, Schaffer demonstra como a narrativa de Gênesis, longe de ser uma mitologia fundacional (como creem os teólogos liberais), é um relato fiel às origens (do universo, da vida, e do homem como ser pessoal), constituindo-se como base sólida para o homem moderno.
[9] Tal como Paulo asseverou em sua carta aos Romanos, nos ensinando que a criação não será destruída, mas, sim, restaurada por Cristo: “Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.” (Romanos 8: 19-23). 

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Autor: David K. Naugle
Fonte: 
Cardus

Tradução: Fabrício Tavares
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Cosmovisão Reformada (1/3) - Criação

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CRIAÇÃO

Nada, literalmente, é possível sem o poder ordenador e criativo de Deus


O filósofo alemão Martin Heidegger afirmou que a questão básica visada pela Metafísica é: “Por que existe algo ao invés de nada?”. Mediante tal definição, diz o filósofo, a ideia de uma Metafísica Cristã é um “círculo quadrado”[1], uma contradição em termos. Por quê? Porque o cristão já sabe, de antemão, a resposta para a questão. Sabemos que há algo ao invés de nada porque Deus criou o mundo.

A despeito de nossa opinião acerca da definição heideggeriana de Metafísica, nós podemos concordar que ele estava certo a respeito de uma coisa. A crença de que Deus criou o mundo, que a realidade é – em um sentido fundamental – criação, é fundamental para o pensamento cristão.

Essa é uma confissão cristã ecumênica[2]. Entretanto, talvez não exista tradição cristã na qual o ensino a respeito da criação possua um papel fundamental como na vertente que parte da Escritura, passando por Irineu, Agostinho, Calvino e Kuyper até ao Comment[3]. Nesta corrente da tradição cristã, a criação é concebida de uma maneira particularmente abrangente, e mesmo a salvação é, em larga medida, entendida como a recuperação da criação tal como originalmente pretendida por Deus. A criação é algo fundacional para todas as coisas. Mais ainda, a criação é boa de um modo primordial e profundo – tão profundo, de fato, que bondade da criação continua a se manifestar mesmo em meio à terrível perversão.

Diferentemente de outras compreensões do Cristianismo ortodoxo, essa veia da tradição supramencionada não vê a redenção como algo que está em oposição à criação (como o é na Teologia Dialética), ou como uma complementação ou realização dela (como em algumas compreensões do Tomismo), ou como paralela a ela, sem nenhuma ligação intrínseca (como nas várias teorias dos “dois reinos”[4]); antes, a redenção é vista como uma ação que restaura e renova a criação. Dessa forma, a criação, encarnando a intenção que Deus mantinha desde o princípio, é o próprio objeto da salvação em Cristo. O ponto fulcral da Redenção é a restauração da vida e do mundo à forma planejada para eles desde o princípio. Salvação implica em re-criação; a graça restaura a natureza.

Contudo, a fim de compreendermos isso apropriadamente, precisamos ter uma visão do conceito de criação muito mais abrangente e variegada do que aquela do uso comum entre os cristãos. A primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas quando tratamos a respeito da criação é o assim chamado “mundo natural” – isto é, o mundo físico e biológico. Logo pensamos nas estrelas e galáxias, assim como nas moléculas e átomos, e nas árvores e flores, assim como nos pássaros e feras. Mas essa é uma visão extremamente limitada da criação. Na visão bíblica, a criação é tudo aquilo que Deus ordenou que viesse à existência, o que Ele colocou em prática como parte da Sua criativa mão-de-obra humana[5]. Sem dúvida isso inclui a grande variedade de entidades e processos físicos, bem como a enorme diversidade da flora e da fauna que Deus criou “segundo suas espécies”; todavia, abrange muito mais do que isso. A criação inclui realidades humanas tais como a família e outras instituições sociais, a presença da beleza no mundo, a habilidade para apreciar tal beleza, os fenômenos da ternura e do riso, a capacidade de conceituação e raciocínio, a experiência da alegria e o senso de justiça. Uma variedade quase inconcebível de objetos, instituições, relacionamentos e fenômenos são parte da rica textura da criação de Deus.

É um fato marcante que a religião bíblica não é a única que apresenta tal visão. Embora exista um senso no qual a ideia de criação (entendida como um arranjo ordenado e contingente da realidade posto em movimento por um Deus transcendental) seja única no pensamento bíblico – certamente os gregos nunca conceberam isso –, a ideia geral de uma ordem cósmica divinamente sancionada, que engloba tanto o mundo natural quanto a sociedade e a vida humana, é amplamente difundida dentre os povos.

Por exemplo, já foi dito que a noção de “criação” presente em outras nações do antigo Oriente Próximo (na Mesopotâmia, Egito e nos arredores) referia-se primariamente ao modo pelo qual a sociedade fora organizada. Os vários “mitos de criação”, embora não excluíssem o mundo físico e biológico, foram inicialmente engendrados para explicar o mundo humano com sua cultura e sociedade, as instituições como a realeza, e o sacerdócio. O trabalho de Richard Clifford a respeito desses antigos mitos de criação é particularmente iluminador nesse sentido.

Contudo, a noção de uma ordem do mundo divino toda-abrangente se encontra muito mais difundida no antigo Oriente Próximo. Todas as culturas virtualmente possuem mitos e religiões que pressupõem uma ordem, e que relaciona tal ordem, em primeiro lugar, com a ordenação da sociedade humana. A Religião Comparada e a Antropologia Cultural se deparam com essa ideia de uma ordem universal – na qual a humanidade e todas as suas manifestações culturais se ajustam perfeitamente como um bebê no útero – em todas as sociedades humanas, virtualmente. As grandes exceções são as sociedades moldadas pela linhagem vigente, desde a Renascença europeia, das filosofias e ideologias seculares do Ocidente. Tais sociedades criaram uma lacuna entre o mundo natural e o mundo humano, de forma que os padrões da vida humana e cultural não são mais buscados em uma ordem externa dada, mas, sim, no próprio sujeito, que produz sua própria ordem a partir de sua própria autoridade. 

Tudo isso para dizer que a ideia bíblica de criação, que engloba muito mais do que o mundo natural, não é, de maneira alguma, peculiar, visto a partir de uma perspectiva da História universal. O que de fato é peculiar a respeito do conceito bíblico é, antes, o Criador transcendente e soberano que faz tudo acontecer, e o fato de que Este Criador realiza Sua obra sem qualquer material preexistente. A criação bíblica é uma creation ex nihilo, a criação a partir do “nada”[6], o que significa, é claro, uma criação que não é realizada a partir de coisa alguma, sem qualquer tipo de matérias-primas. Deus simplesmente falou e as coisas passaram a existir.

Consequentemente, de um ponto de vista amplamente cultural e histórico, não é de todo surpreendente que a Bíblia inclua elementos como a ordem política ou a instituição do casamento como coisas criadas por Deus – como partes daquilo que Ele ordenou desde o princípio. Nem deveríamos concluir, a partir de textos bíblicos que mencionam a ordem política e o casamento (tenho em mente aqui principalmente Romanos 13:1, 1 Pedro 2:13 e 1 Timóteo 4:3-4), que estas sejam as únicas instituições sociais e realidades culturais que pertencem à disposição das coisas por Deus ordenada. São simplesmente ilustrações incidentais de uma verdade geral, adotada por toda a Escritura, segundo a qual nada, literalmente falando, é possível sem o poder criativo e ordenador de Deus, o qual estabelece a lei para as criaturas e as relações e fenômenos criados em toda a sua vasta variedade.

É especialmente a ideia de lei criacional que clarifica a concepção bíblica de criação. Como um rei soberano, Deus decreta Suas leis (Seus decretos, Seus estatutos, Suas ordenanças, Suas palavras) para tudo aquilo que existe. A realidade é constituída pelo Sua criativa palavra de comando. Consequentemente, tudo é criacional no sentido de que é tanto constituído e normatizado pelo fiat[7] divino. Isso se aplica tanto ao instinto do pássaro de construir seu ninho quando aos princípios da jurisprudência ou ao pensamento lógico. Evidentemente, no caso das dimensões da criação que são tipicamente humanas, as normas e padrões que são postos em prática por Deus também exigem a responsabilidade da implementação humana, e por isso variam no seu desenvolvimento em tempos e locais diferentes.

É difícil ­– na verdade, impossível – tratar cristãmente da criação abstraindo de duas outras categorias fundamentais da narrativa bíblica: pecado e salvação. Pecado significa a distorção da criação, e salvação a sua recuperação em Cristo. Isso quer dizer que, na vida cristã redimida, a criação retorna de modo “vingativo”, por assim dizer. É na glória ricamente urdida da vida humana criada, na qual mães cantam canções de ninar para seus bebês, e na qual crianças correm pelo simples prazer de estarem se deslocando rapidamente, que Deus quer ser glorificado por meio de nosso serviço e testemunho dedicados a Ele, de forma que todo o mundo possa ver o que é a verdadeira vida humana criada, apesar das cicatrizes e flagelos do pecado e da morte. Isso se aplica às nossas idas ao cinema e à produção cinematográfica; às nossas festas e aos nossos exercícios filosóficos; à nossa imaginação e à nossa determinação.

A criação se constitui como a trama e a urdidura[8] de nossas vidas diárias – e em Cristo ela se torna gloriosa. Nós devemos ser, individual e comunitariamente, os “pôsteres” do Reino – a criação regenerada – de Jesus Cristo. Quando o Apóstolo Paulo diz que a Igreja é a “coluna e baluarte da verdade” (1 Timóteo 3:15), ele certamente não quer com isso dizer que nós, como povo de Deus, de alguma forma asseguramos ou sustentamos a verdade divina. Pelo contrário, o que a imagem utilizada pelo Apóstolo transmite é que nós, como povo de Deus, somos coletivamente os muros e postes que mantiveram os grafites do mundo antigo [o mundo criado originalmente bom], enviando mensagens para todos aqueles que passam por nós. Nós devemos ser os letreiros do Evangelho na extraordinária simplicidade de nossas vidas – extraordinária por causa do poder renovador do Espírito Santo, e simples por causa do material criacional comum de nossas vidas cotidianas. É nesse senso profundamente terreno e mundano que a criação é, para usar a frase cativante de Calvino, o teatro da glória de Deus.

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Notas:
[1] No original “wooden iron”, termo que, se traduzido ipsis litteris, seria “ferro de madeira”. Na verdade, é utilizado na filosofia retórica para designar a impossibilidade de um argumento oposto, isto é, duas palavras contraditórias que aparecem juntas numa mesma proposição, geralmente um adjetivo que se opõe ao substantivo, por exemplo, “gelo quente”, um “fogo frio”, “luz escura”, etc. Na filosofia grega antiga, o termo utilizado para designar esse equívoco lógico era σιδηροξύλον (sideroxylon). O autor do artigo afirma que, uma vez que para Heiddeger a tarefa da Metafísica é a investigação dos fundamentos últimos da Ontologia, a Filosofia Cristã não faz sentido para a Metafísica Heiddegeriana, pois o cristão já parte do pressuposto que Deus é a fonte e fundamento do Ser. Na verdade, conforme afirmar alguns apologistas pressuposicionalistas no chamado Argumento Transcendental, a menos que tomemos Deus como pressuposto básico, é impossível formularmos sequer uma questão, pois uma vez que nossa existência (e de todo o cosmos) é, por definição, contingente, é preciso que haja um ente necessário do qual derivam todos os demais. Este Ente Necessário, segundo Leibniz já formulou, é evidentemente Deus. 
[2] Ecumênico é aqui utilizado não para se referir ao movimento intereclesial e interdenominacional que busca a interação efetiva entre líderes, sacerdotes e fieis de diferentes confissões, mas, sim, ao fato de que todas as tradições cristãs (Protestante, Católica Romana, Ortodoxa) aceitam, confessam e pregam a respeito da Criação a partir das mãos de Deus, conforme especificado na primeira linha do Credo dos Apóstolos – símbolo aceito e defendido por todas as principais tradições cristãs –, da seguinte maneira: “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”.
[3] Comment: public theology for the common good é o nome do periódico calvinista no qual o presente artigo foi originalmente publicado. Alguns artigos estão disponíveis on-line: http://www.cardus.ca/comment/
[4] A teoria dos “dois reinos” diz respeito à visão quase maniqueístas que algumas tradições cristãs (especialmente os chamados “Católicos Tradicionalistas, que não aceitam o Concílio Vaticano II, e algumas correntes pentecostais) sustentam, concebendo a Igreja como estando em guerra acirrada e perpétua contra o mundo. Para eles, portanto, o mundo, ao invés de ser o “palco da glória de Deus” (Calvino) – onde os atributos invisíveis de Deus e Seu eterno poder se revelam (Romanos 1:18ss) e a plataforma, por excelência, onde se desenrola o drama da salvação –, é, por definição, o reino de Satanás no qual a corrupção está irremediavelmente arraigada. Essa concepção, mais gnóstica do que cristã, não leva em conta que a Redenção efetuada por Cristo abrange, estende-se e redime todas as áreas da criação: não apenas o mundo físico, mas também o homem em sua inteireza e todas suas criações culturais, artísticas, intelectuais, afetivas e sociais. Portanto, para o cristão, o mundo se torna, cada vez mais, o Reino dos Céus, o qual há de ser regido pelo cetro de Cristo e onde Ele será de todo glorificado.
[5] Esta imagem do homem como trabalhador na propriedade de Deus retrata um dos aspectos cruciais no pensamento neo-calvinista kuyperiano (de Abraham Kuyper), a saber, o Mandato Cultural – a ordem dada ao homem por Deus, logo nos capítulos iniciais de Gênesis, para dominar e sujeitar a natureza, bem como cultivar e guardar o jardim. É interessante notar que o Mandato Cultural relaciona-se não somente com a produção material, mas também com a cultural. Uma vez que a criação foi criada num estado "muito bom" (diferentemente do que apregoa a concepção gnóstica – que associa a materialidade ao mal – infelizmente tão presente no meio evangélico brasileiro), existe um potencial inerente à ordem criada que consequentemente também é bom. “O ‘Mandato Cultural’ de Gênesis 1.28 e 2.15 nos diz que a humanidade tem a missão de aproveitar esta potencialidade para desenvolver a cultura como Deus planejou. Tecnologia, cultura popular, o progresso, e sim, até na política, devem ser entendidas como parte da ordem original de Deus criou.” (o trecho entre aspas foi extraído do site: 
http://abrahamkuyper.blogspot.com.br/2010/08/cosmovisao-kuyperiana.html).
[6] Lembrando apenas que o conceito filosófico de Nada aqui utilizado, ao contrário do que prevalece equivocadamente no senso comum não diz respeito ao vazio nem ao vácuo e, muito menos, à ausência de entes em determinado espaço (como quando se diz a respeito de um recipiente vazio que “ele não contém nada”). Na verdade, o nada não existe, pois se existisse não seria nada. Daí a fórmula clássica geralmente atribuída a Parmênides: Ex nihilo nihil fit (do nada, nada vem). A expressão retrata um princípio metafísico que afirma que o Ser não pode provir do não-Ser. Sendo assim, quando da criação, Deus não apenas deu forma aos materiais primordiais, mas também criou a partir do nada tais materiais. Portanto, “pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível.” (Hebreus 11:3).
[7] Referência à frase latina “fiat lux” (Haja luz), expressa por Deus na criação, conforme relatado em Gênesis 1:3. Diz respeito, portanto, ao poder criativo da Palavra de Deus – “o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência as coisas que estão no nada.” (Romanos 4:17).
[8] No original: warp and woof, nomes dados aos fios nos tecidos, compostos da urdidura (os fios que são trançados longitudinalmente) e a trama (os fios que são trançados de modo cruciforme), gerando assim a tessitura. Portanto, figurativamente, a expressão também é usada para se referir à estrutura fundamental de todo e qualquer sistema ou processo.

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Sobre o autor: Albert Wolters é professor emérito de religião e teologia / línguas clássicas na Redeemer University College. Serviu como membro sênior no Institute for Christian Studies em Toronto a partir de 1974-1984, obteve seu doutorado em filosofia pela Free University of Amsterdam, em 1972, autor do livro Creation Regained: Biblical Basics for a Reformational WorldviewNascido na Holanda, em 1942, Wolters emigrou com os pais para o Canadá em 1948. Ele se formou no Calvin College em 1964, e lecionou na Redeemer University College 1984-2012.

Fonte: CARDUS
Tradução: Fabrício Tavares
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